08. august
Autora Independente do Cosmos ✨
Concluída ✅
Prólogo
— I remember thinkin' I had you
But I can see us lost in the memory
'Cause you weren't mine to lose
But I can see us lost in the memory
'Cause you weren't mine to lose
Londres, Inglaterra
Atualmente
LONDRES QUASE SEMPRE costumava ser cinzenta.
No entanto, de todos os lugares do mundo, Londres também era o lugar favorito de , fosse apenas pelo chá britânico, fosse pela pontualidade, ou simplesmente pelo clima. Ou talvez fosse porque ali ela se sentia em casa. Londres tinha algo de acolhedor, embora ela nunca soubesse explicar o quê, mas sempre se via, de alguma forma, voltando para lá.
Naquela noite específica, ela estava na cidade por um motivo. Dumbledore a designou uma tarefa sem deixá-la ter a chance de recusar, mas quase nunca recusava qualquer pedido do mais velho. Ela ainda não sabia que tipo de missão ele estava pensando em colocá–la, porque para isso, precisava de Newt Scamander.
Era por isso que estava parada do outro lado da rua, de frente para o Ministério da Magia britânico, escondida quase à meia luz da rua, esperando. Deu um jeito de enviar uma mensagem para Newt, informando que ela estava ali, à espera dele; o que quer que fosse que o bruxo estivesse fazendo lá dentro, estava demorando mais do que o esperado.
Ela respirou fundo, atenta a qualquer movimento nas ruas quase vazias. Paciência nunca foi uma qualidade muito forte de sua personalidade, mas por vezes, precisou aprender a ter, principalmente no caminho que escolheu para a sua carreira, onde as pistas, quase sempre, esfriavam, obrigando-a a sempre pegar uma nova rota, uma nova estratégia. A magia era uma aliada poderosa, mas sua mente ainda era o único poder que podia bater de frente com as trevas. Curiosidade e inteligência sempre a tornou uma aluna exemplar e perspicaz, uma Black muito diferente de qualquer geração que já tenha existido dentro da sua família.
Distraída o suficiente, a bruxa se assustou com a aparição repentina de Newt bem ao seu lado, que utilizou-se da vantagem de aparatar direto para onde ela estava. Ela soltou o ar de susto, estreitando os olhos para o bruxo lufano, sua mão presa à varinha dentro do bolso do sobretudo, sempre pronta para atacar ou se defender.
— Newt! — verbalizou a reclamação em voz alta, observando o lufano desviar o rosto, sem graça.
— Desculpe.
O sorriso pequeno no canto dos lábios dele denunciou a sua sinceridade e ela respirou fundo, relaxando os ombros e os músculos, soltando a mão da varinha. Encarou o mais novo com certa sutileza, o coração batendo de saudade; fazia um tempo que não o via. Sempre dava um jeito de terem notícias um do outro e, vez ou outra, ela conseguia ajudá-lo com alguma criatura mágica em algum país que ele tivesse escolhido ir, o que era sempre uma aventura. Admirava a paixão que ele tinha pelo que fazia.
Estava prestes a abrir a boca novamente e dizer alguma coisa, quando algo saltou de dentro da mala do lufano, uma coisinha peluda e pequena, que ela reconheceria de longe. O animal saltou para o seu colo, onde ela o pegou com as mãos, impedindo-o de cair desajeitado, mas as mãos da coisinha sempre eram mais ágeis e já estava segurando o seu pingente brilhante com o símbolo da corvinal.
— Oi, sua coisinha traiçoeira — disse, com um sorriso, para o Pelúcio em seu colo e o afastou do seu colar. — Hoje não. Mas eu tenho algo para você.
Do bolso, com a mão livre, ela tirou uma moeda que brilhava à meia luz. Pelúcios gostavam de coisas brilhantes e aquele não era diferente: agarrou a moeda como se sua própria vida dependesse disso e estava prestes a dar o salto de fuga, mas Newt impediu.
— Por favor, Pelúcio — ele murmurou.
assistiu quando o amigo colocou o Pelúcio de volta na sua mala e trancou, para que nenhum fugisse mais. Nunca era uma garantia de nada, mas ele tentava. Assim que o fez, olhou para a mulher ao seu lado, mesmo que não conseguisse manter o contato visual por muito tempo.
— Oi, .
A corvina sorriu com sinceridade e afeto.
— Oi, Newt — cumprimentou de volta. — Fico feliz de te ver bem.
Ele assentiu, segurando a mala com mais firmeza.
— Dumbledore te mandou aqui? — questionou.
Sem perder a oportunidade de zoar o lufano um pouco, respondeu:
— Puxa, não acredita que estou com saudades?
Newt virou o rosto para o lado, encarando algum ponto do prédio do Ministério da Magia.
— Não é isso, eu não…
— Estou brincando, Newt — ela explicou, querendo que ele parasse de gaguejar, o que quase a fez rir. — Sim, o Dumbledore me mandou aqui. Mas antes que pergunte, eu não sei o que ele quer.
— Acredito nisso.
Newt conhecia Dumbledore bem melhor do que conhecia. Na sua época em Hogwarts, o professor foi responsável por livrar o lufano de diversas enrascadas, até não conseguir protegê-lo mais. No entanto, isso nunca impediu que ele mantivesse contato com Newt fora do castelo. Acreditava que o lufano tinha um potencial para a guerra que se aproximava que nenhuma outra pessoa jamais enxergaria além dele. Era seguro dizer que muitos bruxos subestimavam Newt.
estava prestes a dizer que eles podiam começar a andar; aparatar não era muito seguro ali e ela queria ter certeza, primeiro, se não estava sendo seguida. Mas antes que pudessem dar qualquer passo, Newt pareceu mais interessado em olhar para o prédio do Ministério, a linguagem corporal mudando. Ela franziu o cenho, estranhando, e resolveu olhar para a mesma direção que ele estava olhando, arrependendo-se no mesmo instante quando sentiu seu coração acelerar sem permissão só por vê-lo.
Theseus Scamander.
E, ao lado dele, segurando a sua mão, Leta Lestrange. Sua noiva.
não disse nada. Nenhum dos dois notou ela ou Newt do outro lado da rua e a bruxa achou melhor assim. Não via Theseus com a mesma frequência que via o Scamander mais novo, mas isso ela sempre evitava. O verão em Hogwarts ainda era algo muito vivo em sua memória, memórias essas que ela não se sentia capaz de desapegar. O passado com Theseus tornou-se um terreno doloroso de visitar. Era ainda mais difícil de vê-lo ser noivo de outra pessoa, de uma Lestrange, principalmente porque seus sentimentos não eram muito diferentes de anos atrás.
só os enterrou.
Newt, ainda ao lado dela, apenas engoliu a seco e virou o rosto para a mais velha. Não dava para decifrar a expressão dela, mas o lufano entendia. Sabia do breve envolvimento dela com o seu irmão, algo que era proibido de trazer à tona como assunto, ele só nunca entendeu que tipo de mágoa ficou entre os dois. Ou como terminaram. De qualquer forma, ele estar noivo de outra mulher deveria dizer muita coisa.
— O quanto sente que perdeu? — ele se viu perguntando para a amiga, a pergunta quase sendo sobre si mesmo.
Talvez não fosse segredo que ele chegou a nutrir algum sentimento pela noiva do irmão na época de Hogwarts, mas Newt nunca pensou muito sobre isso, embora fosse tolo o suficiente de carregar uma foto dela por aí.
desviou os olhos do casal com um suspiro depois de ver Leta sorrir com algo que Theseus disse. Ela encarou Newt com um suspiro, crispou os lábios e tentou relaxar os ombros tensos. Podia disfarçar para qualquer pessoa, mas não para Newt.
— Nós não perdemos o que nunca foi nosso, Newt — respondeu, começando a andar. — Agora, vamos, Dumbledore não pode esperar muito.
Londres realmente podia quase sempre ser cinzenta.
Mas, para , pela primeira vez naquela noite, Londres estava sem cor.
I
— Back when we were still changin' for the better
Wanting was enough
For me, it was enough
Wanting was enough
For me, it was enough
Hogwarts – Alguns anos antes
BLACK ESTAVA perdendo a paciência.
Andando em círculos dentro da Sala Comunal da Lufa-Lufa, ela bufou baixinho, tentando se lembrar do tempo exato que estava esperando ali, provavelmente se dando conta de que talvez o garoto lufano de nariz sempre franzido estava enrolando-a e não ia aparecer. Talvez ele nem mesmo estivesse mais ali, covarde como era, devia ter se escondido em qualquer lugar de difícil acesso no castelo quando teve a chance, tudo para fugir dela.
Era um idiota se pensava que não ia encontrá-lo mais cedo ou mais tarde.
Decidida a subir e procurá-lo, ela foi interrompida por um tilintar pequeno, quase insistente, seguido de algo se movendo pelas almofadas dos sofás que decoravam a Sala. Distraída o suficiente pelo som, moveu-se na direção da coisinha, o que quer que fosse, curiosa. De repente, de trás de uma das almofadas, surgiu um filhote de pelúcio, com os olhos atentos e as patas manchadas de terra, o focinho brilhando com interesse. se pegou sorrindo, encantada.
— Você é só um bebê — sussurrou para si mesma, como se temesse assustá-lo.
Mas o pelúcio não parecia temer nada; ele avançou, farejando o uniforme azul que ela usava, procurando por algo que ela não entendia. Subiu em seu colo com uma facilidade impressionante, cheirando e revirando os bolsos da corvina. riu baixo quando sentiu um puxão leve em seu colar, percebendo tarde demais que ele o roubou. Viu o pingente desaparecer nas patas minúsculas do pelúcio, que saltou para o chão com a mesma facilidade e começou a correr em zigue-zague, parecendo orgulhoso da própria conquista.
Teve o impulso de ir atrás dele e recuperar o que ele tinha pegado, mas parou, observando.
— Pelúcios gostam de coisas que brilham — uma voz ecoou atrás dela. — Mesmo que não saibam o que fazer com elas depois.
A Black virou na direção da voz, encontrando um rosto conhecido, ainda que não fosse próxima. Ela encarou o lufano descer os degraus finais da escada e parar a uma distância segura dela, observando o pelúcio sumir em algum lugar daquela Sala, levando algo dela que ele não notou o quê. Talvez conseguisse recuperar mais tarde, quando contasse a novidade para o seu irmão mais novo, que tinha um talento nato para lidar com aquelas criaturas.
— Como sabe sobre pelúcios?
O lufano sorriu.
— Tenho uma fonte segura na família — garantiu.
não disse nada. Ela se distraiu o suficiente para não se importar que o filhote de pelúcio roubou algo seu. Na verdade, ela também não conseguia se lembrar muito bem porque estava irritada minutos atrás ou o que estava fazendo ali. Nunca tinha ficado tão perto dele naquele momento, não daquela forma, e nunca fizeram questão de trocar mais do que duas palavras. tinha mais afeto pelo irmão mais novo dele, alguém que acabou acolhendo.
Ele estendeu a mão, chamando a atenção dela.
— Eu sou…
— Eu sei quem você é, Scamander, todo mundo aqui sabe — ela interrompeu, completando a frase por ele. — Assim como você sabe que eu sou…
— Black — ele a interrompeu de volta, abaixando a mão estendida.
Qualquer um que fosse do terceiro ano sabia quem eram aqueles dois. carregava um sobrenome conhecido e uma expectativa que ela não tinha o menor interesse em cumprir, mas que a rodeava como uma pressão constante. Qualquer Black tinha uma reputação a zelar em Hogwarts e com ela não foi diferente, mas as coisas já começaram erradas para ela quando foi designada a ser da Casa Corvinal, quando a tradição de sua linhagem deveria ter colocado-a na Sonserina. Ninguém a rejeitou diretamente, mas os conflitos sutis em sua família moldavam a sua personalidade e a vontade de sempre permanecer no castelo, mesmo quando fosse a hora de voltar para casa.
quase sempre se via tentando compensar um “erro” que não escolheu cometer.
O Scamander, por outro lado, se destacava por si só. Newt tinha a própria personalidade, era mais tímido, tinha certo destaque, mas Theseus? Ele tinha um brilho próprio, dono de uma inteligência contida, era um dos melhores alunos de quase todas as aulas, dedicava-se ao máximo, sempre pensando em seus objetivos futuros. A lealdade inquestionável o acompanhava por cada parte do castelo, ele sabia exibir a gentileza e o carisma de um lufano, apegado às regras. Apegado à fidelidade de ser quem era.
— Veio procurar meu irmão? — ele perguntou.
Ela lembrou o motivo de estar ali. Já não tinha nenhuma importância mais, mas não o deixou sem resposta. A pergunta dele indicava que ele sabia que , de alguma forma, tinha se tornado próxima do irmão mais novo e ela não conseguia decifrar, pelo tom dele, o que ele achava disso. Não que se importasse.
— Isso te interessa de alguma forma? — ela devolveu.
Distraiu-se por um instante quando o flagrou sorrindo, a covinha afundando na bochecha. Nunca tinha reparado na beleza de Newt, não tinha nenhum interesse do tipo por ele, principalmente por ele ser do primeiro ano, mas ela podia ver agora que eles eram parecidos e diferentes ao mesmo tempo. Tinham o mesmo tom castanho do cabelo, o mesmo formato do nariz, mas lábios e olhos diferentes. E o sorriso de Theseus…
— Você é diferente do que se espera de uma Black.
De alguma forma, as palavras dele não soaram como uma ofensa. Se fosse parar para pensar, era quase como um… elogio. Mesmo que parecesse contraditório, uma vez que estava acostumada a ouvir ofensas. E a deixava confusa, pois não conhecia direito o Scamander mais velho. Não queria parecer muito interessada ou curiosa se perguntasse um pouco sobre ele para Newt. Ele não estranharia as perguntas dela, mas podia interpretar errado.
Theseus a encarava, esperando que estivesse sendo discreto o suficiente. Quando ouviu Newt falar dela, estranhou. Não esperava que uma Black tivesse defendido e acolhido o seu irmão em seu primeiro ano no castelo, mas ele já tinha notado e observado que, apesar do sobrenome, não seguia muito o que se era esperado da sua família. Geralmente, eles sempre eram sonserinos e sonserinos não eram gentis com garotos tímidos.
— Não se preocupe, Scamander — disse, sorrindo de um jeito que ele não conseguiu decifrar —, apesar de ser uma Black, eu não mordo.
Ele aumentou o sorriso. Aproximou-se dela o suficiente para sua boca chegar perto do ouvido da bruxa, sussurrando ao passar por ela:
— Não ainda, bruxinha.
Ele não viu quando ela também aumentou o sorriso, pois deu as costas e se foi, sem olhar para trás.
II
— But do you remember?
Back when I was livin' for the hope of it all
Back when I was livin' for the hope of it all
NÃO ERA MUITO INCOMUM que decidisse ficar no castelo nas férias. Ela tinha feito isso no segundo, no quarto e decidiu repetir o mesmo feito ao terminar o último ano em Hogwarts. Sempre pedia uma permissão especial e Dumbledore a ajudava a conseguir a permissão todas as vezes. Mesmo que a garota não explicasse muito os seus motivos, o professor entendia sem que ela precisasse se perder em meias palavras. Mas o motivo não era nenhum segredo: sua família, era sempre sua família. E ultimamente, considerou o clima familiar insuportável de se conviver nas férias.
Sua mãe a pressionava por uma carreira promissora no Ministério; seu pai, por outro lado, pressionava-a por um casamento com uma família de sangue puro e sobrenome de prestígio na sociedade bruxa. Era importante para ele manter essa ligação, mas não era tanto para . Ela não se importava com nada daquilo e, prestes a ter 18 anos, não pensava em casamento. Na verdade, não pensava muito no futuro. Não tinha muita certeza do que queria, mas o que quer que acabasse decidindo, iria frustrar um dos lados. Não gostava de pensar qual era a consequência de decepcionar seus pais.
Ela continuou andando pelos corredores vazios do castelo, sem pressa alguma, carregando três livros grandes embaixo dos braços, com o único objetivo de devolvê-los à biblioteca. Gostava da sensação de calmaria que ficavam os corredores no período de férias; podia permitir-se, pelo menos por um tempo, apreciar o silêncio que aquelas paredes carregavam sem todos aqueles alunos e os fantasmas zanzando. Era o seu lugar favorito no mundo. Evitava pensar que aquele era o seu último ano em Hogwarts, pois nenhum outro lugar no mundo deu à corvina a sensação de lar. Uma casa de verdade, sem toda a sua família problemática, sem seus pais a pressionando, sem ter que ouvir os comentários ácidos de seus primos igualmente problemáticos, sempre com uma euforia exagerada sobre o sangue que carregava.
Talvez fosse mais fácil se tivesse se tornado um deles.
Sua vida teria começado bem se, no início de tudo, ela tivesse sido selecionada para a Sonserina. Era uma tradição de gerações e alguns sonserinos até simpatizavam com ela por isso, mas não foi uma boa escolha aos olhos de sua família. Os Black gostavam da reputação sonserina que mantinham nos arredores do castelo e sentiam-se insultados com uma Black tornando-se uma corvina.
Quando ela terminou de colocar os livros em seus lugares de costume e estava prestes a sair, parou. Entre um corredor e outro, dali enxergava a silhueta de um corpo de costas para ela, sentado em uma das mesas centrais da biblioteca enorme, parecendo concentrado em seu livro. Ele usava uma vestimenta casual, referenciando as cores da sua casa, os fios do cabelo meio bagunçados. reconheceu o lufano e abriu um sorriso discreto, olhando ao redor. Estava vazio em comparação ao ano letivo no castelo, mas não estavam sozinhos.
Mesmo assim, ela se viu andando na direção dele. Desde aquela pequena interação, alguns anos antes, eles se pegavam trocando olhares pelos corredores. Isso evoluiu para alguns encontros rápidos em Hogsmeade, mas nada nunca durava muito tempo. Não eram muito vistos em público e ela sempre dava um jeito de saber dele através de Newt, que estava sempre mais interessado nas criaturas mágicas. O verão era a sua data favorita, mas não imaginava que Theseus iria escolher ficar no castelo em seu último ano também.
— Oi, bruxinha.
parou bem atrás dele, antes mesmo de ter a oportunidade de anunciar a sua presença. Ele sempre sabia quando ela estava se aproximando e não entendia como.
— Eu não entendo, como…? — ela tentou dizer, a frustração palpável em sua voz quando ele virou o rosto na direção dela com aquele sorriso encantador e deliberado.
Ela se perdeu por um instante, esquecendo-se até do que tinha dito alguns segundos atrás. Odiava se sentir tão afetada pelo lufano. Ele tinha um charme impecável e uma capacidade impressionante de fazê-la sentir suas pernas enfraquecerem, como se fossem incapazes de sustentar o peso do corpo dela.
— Eu já te disse — ele respondeu, fechando o livro. — Esse é um mistério que vou guardar pra mim.
A Black bufou, revirando os olhos, e jogou-se sentada ao lado dele, mantendo uma distância segura. Theseus não tirava os olhos dela; nem sequer imaginava que ele também perguntava a Newt quase constantemente sobre ela. Podia sentir algum incômodo da proximidade do seu irmão com a corvina, mas o lufano não se preocupava. Newt vivia falando o suficiente sobre Leta para ele perceber que o irmão mais novo não tinha nenhum interesse além da amizade com . Estranhamente, isso o confortou.
— O que está fazendo aqui? — ela perguntou.
Theseus apontou para o livro e respondeu com um tom de pergunta, incerto.
— Estudando?
— Não na biblioteca — ela explicou, encostando-se contra a mesa, os olhos presos nele, sem desviar nem mesmo por um segundo sequer. — No castelo. Vocês sempre vão para casa.
Os olhos dele suavizaram em um entendimento da questão. Ele meio que deu de ombros, como se a resposta não importasse muito. quase invejava a leveza com a qual ele parecia levar as coisas, como se tivesse certeza de tudo. De tudo que queria, do que aconteceria com o último ano, o que seria da vida fora de Hogwarts. Era o total oposto de como ela se sentia. Devia haver algum segredo, ela pensou, mas depois descartou. Pensou que só de não ser um Black, as coisas eram um pouco mais fáceis para o lufano. Ela duvidava muito que os pais o pressionassem por um casamento. Ou um por uma carreira de prestígio, embora ela também desconfiasse que quanto a isso, o próprio Theseus fazia questão de ter.
— Ah, o Newt decidiu, por algum motivo que sou incapaz de decorar, ficar aqui dessa vez — ele respondeu à pergunta dela. — E nossos pais, com certa razão, não confiam em deixar o caçula sozinho.
— E você ficou para supervisioná-lo?
Ele riu, o som chegando até os ouvidos dela como um tipo de onda sonora que fazia os batimentos do seu coração aumentarem.
— Ora, também não sou capaz disso, você conhece o Newt — disse.
Ela concordou com um aceno sutil. O caçula não era difícil, mas sabia como se esconder das vistas alheias e ficava por horas atrás das criaturas, estudando-as. Uma vez, ele confidenciou à o seu desejo de escrever um livro sobre elas e fazer o mundo entendê-las um pouco, ao invés de machucá-las. O coração dele era genuinamente puro e a Black se encantava com o quanto Newt amava aquelas criaturas e monstrinhos e aprendia tudo sobre elas.
— O motivo do Newt sempre envolve o que gostamos de chamar de animais fantásticos — ela começou a dizer, olhando rapidamente para o livro que ele estava estudando, lendo o título, algo sobre as magias antigas. — Há duas semanas, nós encontramos um filhote de agoureiro perto da Floresta Proibida. Ele está empenhado em entender o bichinho inédito.
— Por que está sempre livrando-o de encrencas que podem fazê-lo ser expulso? — ele questionou, genuinamente interessado. Era incomum, ele tinha que admitir, que Newt fosse tão protegido por uma Black e uma Lestrange. — Eu soube da explosão no galpão de poções. Disseram que foi… acidental.
O tom de voz na última frase deixou claro que ele não acreditava naquilo. soltou um suspiro curto pelo nariz, quase um riso, os lábios se esticando em um sorriso. Ela deu de ombros.
— Foi um acidente.
Theseus estreitou os olhos.
— Mas não foi você, certo?
pensou um pouco, inclinando a cabeça, meio avaliando-o. Não havia nem um tipo de acusação na voz dele, parecia mais só uma curiosidade inocente. Então, em resposta, ela maneou a cabeça, uma negação quase sutil, confirmando que não foi ela.
— Então por quê? Você não tem nada a ver com as criaturas dele, não precisava assumir uma culpa que não era sua.
Ela mordeu a própria bochecha, passando os dedos pelo dorso do livro de magias antigas, como se estivesse tentando decidir que resposta daria. Ela continuou mantendo os olhos fixos nele.
— O diretor não blefa quando fala de expulsão.
— E você acha que expulsariam o Newt pelo que vocês defenderam ter sido um acidente?
Ela franziu o nariz.
— Um acidente que envolvia um filhote de agoureiro ilegalmente escondido numa estufa escolar, que decidiu prever tragédia às três da manhã e assustou metade do castelo? — ela apontou como se fosse óbvio. — Não seja tão ingênuo, Scamander, eles já expulsaram por menos.
Ele admitia que ela estava certa, claro. Aquela situação incomum não foi a primeira que Newt se meteu e foi salvo por ela. Parecia mais do que acostumada em assumir algumas culpas que sempre recaíam sobre Newt, de forma suspeita ou não, e todo mundo sabia disso.
— E quanto a ele mesmo se defender?
— As defesas do Newt nunca são favoráveis para ele — ela disse, outra coisa óbvia que o mais velho sabia. quase sentia que ele estava testando-a. — Ele falaria sobre equilíbrio ecológico, preservação de espécies incompreendidas, ciclos naturais e como o canto do agoureiro não causa morte coisa nenhuma. E ele estaria certo — ela levantou um dedo em riste —, mas…
— Ninguém escuta quando o Newt diz essas coisas — ele completou por ela, que assentiu, concordando.
Ele sentia uma mistura de gratidão por ela, envolvido por algo a mais que não foi capaz de nomear. Os fios ondulados dela caíam em cascata por seu pescoço e ombros, desenhando-a como a garota mais bonita que ele já tinha conhecido. Os olhos dela carregavam um peso que ele não era capaz de compreender, mas sempre pareciam esconder um certo brilho, acompanhado de uma melancolia. Mas quando ela sorria… tudo sumia.
— Defender o meu irmão pode manchar o seu nome, você sabe disso, certo?
Ela aumentou o sorriso, formando uma ruga pequena acima do nariz.
— Um Black nunca corre o risco de ter o nome manchado — ela respondeu, indiferente, um ombro mexendo. — A lealdade do seu irmão inspira reciprocidade. Da minha parte, ele sempre terá isso.
— E você sempre oferece lealdade aos outros tão prontamente assim? — ele retrucou.
Os olhos dele escureceram. Não de um jeito ruim, mas de um jeito que revelava que algo o incomodava. estreitou os olhos, sustentando o olhar dele. Ela cruzou os braços.
— Está com ciúmes, Scamander? — brincou.
— Não do meu irmão — Theseus admitiu.
Ela não esperava por aquela resposta. O silêncio recaiu sobre os dois, que sustentavam os olhares sem nenhum desviar, a distância parecia muito curta entre eles naquele momento. não sabia o que pensar ou dizer. Quase sempre ela tinha uma resposta na ponta da língua, mas a confissão dele a pegou de surpresa.
— Scamander…
— Theseus.
— O quê?
Ele sorriu.
— Só Theseus, bruxinha. Chega de Scamander — completou.
não respondeu imediatamente. O lufano viu o sorriso dela mudar, algo sutil que muita gente não percebia, mas ele percebeu, porque ele era curioso sobre tudo que envolvia a Black.
— Não sei, não. — A garota fez charme. — Eu gosto de Scamander.
Sem esperar por aquela atitude, Theseus tocou o queixo dela levemente. apertou os lábios e respirou um pouco pesado, a intensidade do olhar dele tornando-se algo novo sobre ela. O ar parecia diferente, mas a distância entre os dois ainda era a mesma, pois nenhum moveu-se um centímetro a mais. Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, qualquer coisa, foram interrompidos por um dos fantasmas inconvenientes que gostava de voar por aí pedindo silêncio dos alunos, guardando a biblioteca como seu lugar particular.
Theseus afastou a mão e o fantasma sibilou para os dois, recebendo um olhar nada generoso da corvina.
— Cai fora — reclamou.
O fantasma sibilou mais uma vez e girou no ar, mas continuou pairando entre os dois. respirou fundo e se levantou. Ignorou o fantasma irritante e olhou para Theseus, que voltou a atenção exclusiva para ela, sem demonstrar irritação por terem sidos interrompidos daquela forma. Não havia quase ninguém naquela biblioteca para ele estar pedindo silêncio daquela forma.
— Me encontra perto do lago em trinta minutos — foi tudo o que ela disse.
Theseus não respondeu; ela não o deu a chance de fazer isso, só de assistir a silhueta do corpo dela dando as costas para ele e saindo do mesmo jeito que entrou: silenciosamente.
Mas ele não precisava responder nada.
Tinha aceitado o convite antes mesmo dela ter pensando em fazê-lo.
III
— Your back beneath the sun
Wishin' I could write my name on it
Wishin' I could write my name on it
ELA JÁ ESTAVA LÁ quando Theseus Scamander chegou.
Embora o Lago Negro abrigasse algumas criaturas conhecidas e desconhecidas, não havia nenhum fantasma incoveniente obcecado por silêncio para interrompê-los ali. E, com o castelo parcialmente vazio, o risco de serem pegos era bem menor. observava pequenos reflexos dourados tremeluzir na água, resultado de um dia pouco ensolarado — e, mesmo assim, nunca dava para enxergar o que estava abaixo da água escura — quando notou a presença do lufano.
— Por que resolveu ficar dessa vez? No último ano? — foi a primeira pergunta que ele fez, interessado.
Ela havia questionado a mesma coisa para ele antes, mas não tinha tido a oportunidade de devolver o mesmo. Na verdade, era até um pouco estranho que ele conseguisse imaginar a resposta dela. Fosse por um dom de saber, fosse pelo fato dela ter se tornado objeto de sua curiosidade.
Não era nenhum segredo que ele prestava atenção demais nela.
Até seu irmão caçula, para quem nunca contava essas coisas, percebeu o excessivo interesse do mais velho pela Black.
— Pelo mesmo motivo que eu já fiquei outras vezes — respondeu a jovem, olhando para ele.
— Sua família?
assentiu em resposta. Ela desviou o olhar por um instante e encarou o Lago, uma ideia surgindo em sua mente. Andou pela ponte de madeira pequena, parando perto da borda; Theseus a seguiu, mesmo sem saber se deveria, e parou bem ao lado dela, a diferença de altura considerável entre os dois.
— Minha mãe está me pressionando por uma carreira no Ministério e meu pai quer que eu me case — ela confessou, baixinho, assistindo as ondas leves do Lago. — O clima não está muito bom em casa no momento.
Ele escutou em silêncio, entendendo os motivos da corvina. Theseus já percebeu que escondia muita coisa, principalmente os que sempre envolvia sua família, que afetava-a mais do que ela deixava transparecer. Ele nunca perguntava tão diretamente, preferindo deixar um espaço seguro para ela tomar a iniciativa. Ela já tinha confidenciado-o sobre se sentir fora da caixinha dentro da sua própria família, como se fosse errado pertencer ali. Como se não fossem sua família. Ela era boa em criar a própria camada de defesa e se proteger daquilo.
Quando olhou para a frente e encarou além do Lago, perguntou:
— E o que você quer?
Ela olhou para a silhueta dele, de lado, um sorriso crescendo em seus lábios de modo discreto. Sabia que ele pretendia receber uma outra resposta para aquela pergunta, mas ela só concretizou a sua ideia de antes e puxou a blusa para cima, deixando a peça cair no chão, bem nos seus pés, revelando um sutiã bem simples cobrindo os seus seios.
— Quero que você nade comigo.
Theseus olhou imediatamente para ela, os olhos levementes arregalados, surpreso com o convite repetindo, mas as palavras morreram presas em sua garganta quando ele viu ela se livrando da saia azul e das botas, ficando seminua. O lufano sentiu as bochechas esquentarem, todo seu corpo reagindo involuntariamente, como se ele não tivesse mais controle de si mesmo. encarou-o, um brilho diferente presente em suas íris.
Tentando se recuperar e não olhar muito para o corpo dela, ele decidiu concentrar-se somente em olhar para o rosto dela, dizendo:
— Você sabe que somos proibidos de entrar nesse Lago, não sabe? — Ele apontou para o lago com um aceno, sem tirar os olhos do rosto dela.
— Não há nenhuma regra expressando isso verbalmente.
Ele quase riu.
— Não precisa, tenho certeza que você sabe o que significa regras implícitas.
A corvina respirou fundo e tentou com muito afinco não revirar os olhos.
— Vamos, é seu último ano — insistiu. — Você não vai morrer se não for certinho pelo menos uma vez na vida, Scamander.
— .
Ela o ignorou.
Ele mal teve tempo de processar que ela pulou e mergulhou na água escura do Lago, emergindo um segundo depois com um ar de desafio, típico de uma Black. Podia odiar sua própria família até certo ponto, mas não dava para negar que carregava as características de seu sobrenome.
Ele engoliu a seco, mas ela esperou ele mudar de ideia.
Theseus trincou os dentes, soltando um xingamento baixinho que ela não entendeu, e cedeu. Tirou o casaco e o resto de suas roupas, deixando perto das delas, usando somente um calção um pouco mais curto, que cobria o que precisava ser coberto.
— Você é um perigo, bruxinha.
E pulou.
A água respingou nela, mas não se importou.
Quando ele surgiu, com os fios do cabelo castanhos molhados, os lábios meio entreabertos, ela não conseguiu desviar os olhos dele. A temperatura da água estava tolerável, os raios solares até chegaram a eles, mas havia um meio termo entre o frio e o calor. Não dava para sentir muito nem um e nem outro. brincou, respingando água no rosto dele com as mãos.
— Ei! — Theseus protestou.
Ele nadou apenas dois passos, segurando os braços dela, impedindo-a de continuar jogando água nele. O som da risada da corvina preencheu os ouvidos do lufano, que apreciou a melodia daquele som. Quando ela parou e ele ainda não soltou as mãos dela, perceberam o quão próximos estavam, mais próximos do que estavam na biblioteca. Ele desceu os olhos para os lábios da garota, demorou um segundo ali, e sua atenção se voltou para um uma pequenos pontos desenhados bem abaixo da clavícula da lufana.
Uma tatuagem.
— Isso é uma constelação? — ele murmurou.
sentiu ele soltar suas mãos e tocar a tatuagem, dedilhando os pontos desenhados. Sua boca de repente ficou seca e ela assistiu ele tão próximo, sentindo o toque dele tão íntimo pela primeira vez que sentiu o corpo esquentar.
— Nenhuma que exista — respondeu, explicando. — São pontos conectados que formam um pequeno corvo.
— Acho que nunca conheci uma Corvina que carregasse a própria casa tão perto do coração assim.
Um misto de sentimentos tomou conta dela. Ela olhou para os dedos dele ainda tocando as pontas da tatuagem, ele mesmo formando o desenho de um corvo, pressionando com delicadeza.
— Eu não esperava que fosse ser selecionada para a Corvinal. Antes de vir, meus tios, meus pais e meus primos fizeram uma reunião em casa e não paravam de falar que não via a hora de mais uma Black se tornar sonserina — começou a dizer, uma confissão que tinha guardado por muito tempo, agora saindo como se fosse a coisa mais fácil do mundo, como se ele pudesse conhecer todos os seus segredos. — Acho que fiquei apavorada, embora eu não entendesse muito bem o que ser sonserina significava. Então quando o Chapéu Seletor disse “Corvinal”, eu respirei tão fundo que parecia que um peso estava saindo de mim — continuou, passando a língua pelos lábios, erguendo o rosto para voltar a olhar para o lufano. — Eu finalmente estava onde deveria estar.
Theseus exibiu um sorriso tão bonito e sincero que acabou espelhando nela, que retribuiu. Ela tomou a liberdade de colocar as duas mãos em cima dos ombros dele, se segurando quando os dedos deixaram a sua tatuagem.
— Acho que, mesmo que você tivesse se tornado uma sonserina, não teria feito muita diferença — ele disse, franzindo o nariz. — Você é o que é.
— E o que eu sou?
O lufano não pensou muito quando respondeu:
— Nesse momento? Alguém que eu quero muito beijar.
O sorriso de deu lugar a uma expressão genuinamente afetada. Os dois se encararam por segundos que pareceram minutos, mas foi a corvina que tomou a atitude, diante da confissão, de se aproximar e juntar seus lábios com os deles. O toque foi como um teste; ela primeiro encostou, sentindo a maciez da boca dele, sentindo-o relaxar, por fim, beijou-o, esperando que tivesse fazendo certo.
Não tinha muita experiência beijando garotos, embora oportunidades não lhe faltassem. Um ou outro garoto sonserino estava sempre tentando a sorte, mas nunca tinham sucesso. era reservada e um pouco exigente, não gostava de sair com qualquer um e evitava sonserinos excessivamente. Eles costumavam dizer que ela estar com eles era quase uma oportunidade de corrigir a decepção que foi para a sua família quando se tornou corvina, como se ela precisasse disso.
Theseus se rendeu ao beijo igualmente, sem se importar com mais nada ao seu redor. Tudo o que ele sentia era , explorando a boca dela, arrepios percorrendo todo o seu corpo. Começou devagar e depois foi se intensificando, a ponto dos dois pensarem separadamente como não chegaram a aquilo antes ou como demoraram tanto para fazer acontecer. Derreteram-se no beijo como jamais tivessem feito isso antes, mas parecia diferente agora, só não sabiam porquê.
Ela se afastou primeiro, buscando o ar para os seus pulmões. O peito subia e descia em um ritmo constante, mas ela nunca deixava os olhos dele e, mesmo na água fria, seu corpo inteiro esquentou quando recebeu o sorriso dele.
— E então? Esse beijo me dá passe livre em pedir pra você parar de me chamar de Scamander? — ele brincou. — Acho que já estamos bem íntimos.
Ela riu, jogando água nele, murmurando alguma coisa baixinho que não deu para entender, mas não foi capaz de repetir, pois soltou um gritinho quando ele passou a revidar e jogar água nela também. mergulhou e tentou fugir dele nadando, que a seguiu, os dois emergindo em risadas e carícias.
Ninguém nunca descobriria o que eles eram ou o potencial que talvez pudessem ter sido juntos, mas Black não pensou naquilo no momento. Ela não pensou na sua família, nas angústias e segredos que carregava, não pensou na pressão de uma carreira e não pensou em casamento. Ela não pensou no que o futuro significava, não pensou em nada. Exceto o que estava vivendo naquele instante, guardando em sua memória o sorriso daquele garoto lufano, que a tocava como se nunca tivesse tocado ninguém.
IV
— Whispers of "Are you sure?"
"Never have I ever before"
"Never have I ever before"
— TÁ TUDO BEM, NEWT, sério… ai!
fez uma careta, tentando puxar seu braço de volta, mas o lufano caçula era teimoso no que se tratava de cuidar de um ferimento causado por uma das criaturas que ele era fascinado, embora ela também fosse, mas não tanto quanto. A Black se divertia acompanhando o mais novo naquelas mini aventuras e gostava de aprender e conhecer tudo o que Newt descobria, mas ela não era tão boa e tão gentil com qualquer animal que encontrava. Ele sempre parecia lidar melhor do que ela, por isso, ela nunca se aproximava muito, a não ser do Pelúcio que, por algum motivo, também gostava de grudar nela.
— Se você não me deixar cuidar disso, pode infeccionar — Newt insistiu.
Ela bufou, mas concordou com mais um aceno de cabeça, rendendo-se, tentando não parecer tão irritada quanto se sentia com a ardência perto do seu pulso, onde havia o ferimento. O lufano inspecionou mais uma vez e pegou uma pomada feita por ele mesmo, algo envolvendo plantas ou coisas do tipo, ela não sabia, nunca prestava atenção nas aulas de herbologia o suficiente para entender a receita daquilo, mas funcionava. Quando ele finalmente deslizou um pouco sobre o seu ferimento, a ardência pareceu aliviar. Sua pele ao redor ainda estava avermelhada, mas era o de menos.
— Obrigada, Newt.
O lufano assentiu e, então, se retraiu, sem olhar para ela. estreitou os olhos, confusa.
— Sinto muito por isso, eu…
— Ei — ela interrompeu, balançando a cabeça. — Não foi culpa sua. Tá tudo bem.
Ele guardou suas próprias coisas, o cachecol amarelo enrolado no seu pescoço de modo pouco desajeitado. percebeu que algo o incomodava, mas não precisou perguntar, porque ele mesmo começou a falar.
— Eles estão certos quando falam, sabia? — iniciou, concentrado na própria tarefa. — Você vai acabar sendo expulsa por minha causa.
A corvina relaxou o corpo quando entendeu que aquele era visualmente o incômodo do mais novo. Ela revirou os olhos e sorriu, puxando a manga do casaco azul para cobrir o seu pulso.
— É meu último ano, Newt — respondeu, mexendo um ombro como se aquilo não tivesse importância. — Ninguém vai me expulsar.
Ele olhou para ela, com aquela expressão desconfiada que só ele tinha.
— Porque você é uma Black?
— Porque eu sei cobrir meus rastros.
— E sabe se defender melhor do que eu — ele completou.
— É, eu não queria me gabar disso, mas… — Deu de ombros, arrancando uma risada baixa dele pela falsa modéstia.
Ela se levantou da cadeira, acompanhando-o depois dele ter terminado de guardar as suas coisas em uma pequena caixinha que carregava. O castelo estava escurecendo e eles começaram a andar pelo corredor lado a lado.
— E então, qual é o seu envolvimento com a garota Lestrange? — perguntou.
Newt franziu o cenho, coçando a própria bochecha em reação. Ela já tinha notado que, da parte dele, provavelmente alguma coisa estava acontecendo, mas o lufano não era a melhor pessoa do mundo para conversar sobre aquele assunto em particular. Newt podia falar sobre todos os animais fantásticos do mundo todo, os que conhecia e os que não conhecia, mas assuntos amorosos não era muito a sua praia.
— Nós somos amigos.
— Como eu e você somos?
— Ela é… diferente.
assentiu, as duas mãos dentro do sobretudo que carregava o brasão da Corvinal. Não podia dizer que conhecia a Lestrange muito bem, mas sempre a via pelos corredores e ela realmente parecia ser legal com Newt, mesmo que fosse da sonserina. Sua família costumava ser próxima da família Lestrange, mas não havia compatibilidade para uma amizade com a garota. Então não podia dizer que gostava dela ou que desgostava.
Voltando para a sua área de conforto, o lufano caçula começou a divagar sobre a sua curiosidade de encontrar uma criatura rara, mas que vivia apenas no norte dos Países Baixos. Enquanto andavam, apenas prestava atenção em tudo o que ele dizia. Agosto estava indo embora rápido demais e em menos de duas semanas, as aulas em Hogwarts voltariam. O verão ameno também estava indo embora e toda magia de paz que ela fingia estar sentindo sobre não existir um futuro para si que precisava decidir começava a pressionar.
Quando estavam quase virando um corredor, Theseus surgiu, a tempo de impedir que os três corpos se esbarrassem. O lufano mais velho não pareceu surpreso por encontrá-los; a pontada de ciúme que sentia antes dos dois juntos sumiu, entendendo que não havia motivo para tal coisa e era ridículo pensar isso.
— Vou querer saber onde vocês estavam? — ele indagou.
Newt se adiantou em responder.
— Eu só estava cuidando do ferim… — ele não completou a frase, sentindo um chute leve de em sua perna, impedindo-o de terminar de contar.
Infelizmente para a corvina, Theseus percebeu.
Eles se encararam em silêncio, a expressão da garota permanecendo neutra, enquanto a dele era desconfiada. Newt, sobrando no meio dos dois, balançou a cabeça discretamente e se afastou um passo.
— Eu vou… deixar vocês sozinhos — anunciou e saiu, sem dar chance a nenhum dos dois de responder alguma coisa.
Ele andou tão rápido e sumiu no próximo corredor que mal notou o perder de vista quando olhou na direção que ele saiu. Ela deixou os ombros tombarem para baixo e voltou a encarar Theseus, que se aproximou, quebrando a distância.
— Você se machucou? — perguntou, a voz perigosamente baixa.
Com as mãos ainda escondidas dentro do bolso frontal do sobretudo, respondeu:
— Não foi nada.
— Bruxinha…
— Não foi nada, Tes.
O apelido agora saía fácil demais por sua boca. Ela realmente abandonou chamá-lo de Scamander, o sobrenome só surgindo em momentos específicos, como quando queria mostrar que estava irritada com ele, o que não era tão raro assim, já que ele tornava aquilo a sua diversão.
Ele parou na frente dela, nenhuma distância a mais separando-os, e tocou a base da cintura da corvina. Ela tentou prender o sorriso, sentindo-se idiota por se deixar ser tão afetada pela proximidade e pelo toque dele, mas desde o beijo no Lago, as coisas tinham mudado entre os dois. Sempre estavam dando um jeito de estarem juntos, entre uma aula extra e outra, aproveitando os arredores vazios. Andavam por Hogsmeade de mãos dadas, fazia piadas sem graça só para ouvir o som da risada dele e gostava de quando ele roubava beijos seus, mesmo que fosse um beijo rápido.
Às vezes, ele parecia estar indo com tudo, na mesma página que ela; às vezes, parecia distante. Ela tentou não pensar muito no que aquilo significava, mas o fato dele se esquivar de falar sobre o futuro deveria ser um sinal de alerta.
Ele empurrou ela devagar contra a parede mais próxima e roçou os lábios contra os dela. arfou, tirou as mãos de dentro do bolso e apoiou as duas palmas contra o peito dele. O beijo aconteceu devagar e sempre parecia que era a primeira vez que estavam fazendo aquilo. Theseus queria aproveitar o tanto que podia; não sabia se poderia se distrair com aquilo depois que o ano em Hogwarts começasse, a julgar pela sua personalidade centrada em conquistar seus objetivos, sem distrações.
Quando se afastou, ele segurou a mão dela.
— Vem comigo.
Ela não questionou e nem hesitou em segui-lo. Cruzaram alguns corredores até perceber que ele estava levando-a para a Torre de Astronomia que, ao fim da tarde, começava a ficar mal iluminada. Eles subiram as escadas em espiral e alcançaram o topo. Theseus soltou a mão dela e indicou a outra parte da Torre, que não era coberta. Era possível ver o céu escurecendo e as estrelas começando a ficarem visíveis, a iluminação mudando. Ela focou tanto no céu que não tinha percebido de imediato a arrumação no meio do lugar. Uma pequena cesta de comida estava disposta no chão, coberta por uma toalha de pano grosso e espaçoso, pensado para caber os dois dentro sem problemas.
Olhou para ele, meio admirada.
— Um piquenique?
— É uma ideia ruim? — ele quis saber, o nariz franzido.
soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.
— Não, é só… diferente de beijos roubados pelos corredores.
O lufano sorriu e sentou-se no chão primeiro, convidando-a com uma mão estendida a se sentar ao seu lado. Ela assim o fez.
— Acho um desperdício essa Torre estar vazia e a gente não aproveitar — foi tudo o que ele respondeu de volta.
Ele puxou a cesta para perto e mostrou algumas opções para ela, que aceitou primeiro as duas garrafas pequenas de cerveja amanteigada. Lado a lado, beberam um gole juntos.
— Argh, nunca me acostumo.
Theseus riu pelo nariz. A reação dela era sempre a mesma, acompanhada daquela careta e do polegar limpando o canto da boca. Quando o vento atravessou a Torre, bagunçando os cabelos dela, ele estendeu a mão sem pensar, afastando uma mecha que grudou na bochecha dela, colocando-o para trás. Ele aproveitou para acariciar a bochecha corada dela com o polegar.
— O que foi? — ela perguntou, a testa meio franzida. — Você tá me olhando meio… estranho.
O que recebeu foi apenas um balançar de cabeça negativo.
— Nada.
Mas algo estava diferente. O toque dele estava mais quente, mas ser carinhoso sempre foi uma característica que ele nunca escondeu. Newt confidenciou uma vez que ele gostava de abraços, a qual ele fugia quase o tempo todo, já que não era muito fã de contato físico. Ela umedeceu os lábios e encarou os olhos dele, claros e intensos, o coração ganhando um ritmo mais acelerado.
— Isso é um erro? — sussurrou.
Theseus estreitou os olhos, surpreso pela pergunta, e engoliu a seco.
— O que seria um erro, bruxinha?
— Me apaixonar por você.
A confissão escapou da boca dela sem que pensasse. Ela deixou a garrafa de cerveja amanteigada do outro lado e ele afastou o polegar da bochecha dela, mas estava sorrindo. A resposta foi ele juntando a boca na dela de novo. O beijo não começou devagar dessa vez; ela o puxou pela gola da camisa e ele avançou para cima dela, uma mão segurando a nuca da garota e a outra sustentando o seu corpo pela base da cintura. A urgência de querer mais fez ele deitá-la contra o pano grosso forrado no chão, sem parar o beijo.
pensou que se sentiria rejeitada se falasse minimamente sobre o que provavelmente estava sentindo, mas agora, tudo o que queria naquele momento era ele. Suas mãos, pequenas e inexperientes, tentou tirar a camisa dele de um jeito desajeitado. Theseus riu contra os lábios dela e ajudou-a a se livrar da peça. Ir além parecia uma decisão impensada, mas nenhum dos dois se importaram.
De algum modo, enroscaram-se um no outro, mesmo a necessidade de ar surgindo entre eles, não se separaram. Quando ela fez menção de tirar suas próprias peças de roupa, ele quebrou o beijo por algo mais além do que só uma mera necessidade e encarou os olhos escuros dela sob a meia luz da noite e das estrelas. Sentia-se seu corpo inteiro quente, reação de estar tão colado ao corpo dela, um incômodo novo crescendo de uma maneira que ela também percebeu.
— … — ele sussurrou, rouco e ansioso. — Você tem certeza?
Ela não precisou perguntar ao que ele estava se referindo.
Sua resposta foi pressionar seu corpo contra o dele, sentindo algo duro tocar a sua pele por cima do pano que ainda o cobria, um gemido escapando dela, o som deixando-o mais ansioso. Ela assentiu, concordando, como se fosse incapaz de abrir a boca para confirmar qualquer coisa que não fosse o fato de que nunca teve certeza de alguma coisa que não fosse aquilo, que não fosse ele.
Essa confirmação não-verbal bastou para Theseus Scamander.
Os dois livraram-se das peças de roupas logo depois. Ele avisou que não tinha pressa alguma de explorar ela, então começou a distribuir beijos por todo canto da sua pele, provocando sensações novas que experimentava pela primeira vez de olhos fechados. Ela achava que não era capaz de sentir nada do tipo. Era um misto de emoção, tudo ao mesmo tempo e, se perguntassem, não ia conseguir denominar nenhum sentimento. As mãos começaram a explorar o corpo desnudo um do outro e passaram a usar a boca para provocar sensações. Sons de gemidos se misturavam à luz da lua e das estrelas e quando Theseus finalmente se encaixou no meio das pernas dela, os dois estavam entregues um ao outro.
Theseus ergueu o rosto e encontrou os olhos dela encarando os seus. Ambos estavam suados, sorrindo, os corpos grudados, quadril movimentando-se contra quadril. O lufano afastou uma mecha que grudou na testa dela e beijou-lhe a bochecha carinhosamente.
— Tes.
Ele arfou, afundando-se nela.
— Eu sei — murmurou em resposta, abafado. — Eu sei, bruxinha.
Ele buscou a boca dela com a sua e se perdeu no beijo.
Naquela noite, a Torre de Astronomia era só deles. Estava marcada para sempre com uma memória invisível que só os dois poderiam revisitar, ali ou distante, a união inevitável e imprevisível de uma Black e um Scamander tornando-se um só.
O lufano murmurou que sabia, mas duvidava.
Porque ela não disse. Ela apenas se entregou a ele, às todas as sensações que ele estava provocando e esqueceu-se do resto.
E aquele momento só se transformou em mais uma no tempo, enquanto ela vivia pela esperança de tudo ter sido real.
Epílogo
— So much for summer love and saying "us"
'Cause you weren't mine to lose
'Cause you weren't mine to lose
NO INÍCIO DE TUDO, o fim parecia outro.
O resto do último ano letivo em Hogwarts seguiu-se em seu próprio tempo, mas as coisas foram mudando eventualmente. Eles conseguiram aproveitar o restante do último verão juntos, apenas para serem separados por questões que envolviam mais do que só o querer. Theseus passou a se fechar em si mesmo, sempre batendo na tecla que precisava focar no seu futuro. O cenário fora de Hogwarts não estava favorável para ninguém; uma guerra mundial ameaçava acontecer aos arredores do mundo e, se tivesse certo em sua decisão de ir lutar naquele cenário, ele não queria que ela alimentasse falsas esperanças sobre um futuro quando ele mesmo não poderia garantir sair vivo daquilo.
Ela, por outro lado, se apegou a Newt e as suas pequenas escapadas e aventuras para resgatar, conhecer e estudar os animais fantásticos que ele sempre estava tentando descobrir, ao mesmo tempo que também focava em suas lições para conseguir ser aprovada nos exames, sem nem ter ideia do dilema de Theseus. Praticava magias escondida na Sala Precisa e tentava não pensar nele. Fugia das cartas que a sua Coruja trazia do seu pai e da sua mãe e ignorava todos os pretendentes a noivo que seu pai sempre estava mencionando. Questionou-se o tempo todo por quanto tempo mais ignoraria que precisava tomar uma decisão sobre o que queria ou quem queria ser.
Theseus tentou, algumas vezes, consertar tudo.
Ele sempre desistia no caminho, no entanto, pensando, talvez de modo egoísta, que talvez fosse melhor assim. As coisas não acabaram mal, não houve briga, não houve acusações, nada do tipo; só o silêncio. Talvez fosse o pior jeito de acabar alguma coisa e ele sempre carregaria a culpa daquilo, mas ainda era melhor do que fazê-la sofrer depois. Não queria que ela ficasse esperando por ele, de todo modo.
— ?
A corvina se virou na direção da voz, encontrando Newt. Ela abriu um sorriso pequeno e soltou um suspiro, soltando o cabo da mala que arrastava consigo pela plataforma. Estava esperando o trem há um tempo, assim como os outros estudantes. Alguns tinham terminado o ano, como ela, e estavam caminhando rumo a algo incerto. Ou a algo premeditado, programado, decidido. Outros estavam apenas indo curtir as férias em casa, prontos para voltar e começar o ano letivo seguinte.
— Oi, Newt.
O lufano se aproximou. Em seu bolso frontal do sobretudo, perto do peito, um tronquilo estava descansando.
— Ia embora sem se despedir?
Ela mordeu a bochecha internamente. Tinha pensado nisso, sim, mas ele estava o tempo todo com o irmão e ela não quis atrapalhar. Ou talvez não quisesse ter que encarar o Scamander mais velho.
— Despedidas são…
— Algo que você não gosta, eu sei — ele interrompeu, completando. assentiu.
— Eu vou manter contato. Prometo — disse.
Ele acreditou, pois não via motivos para achar que ela estaria mentindo. Entendia que algo aconteceu entre ela e o seu irmão, mas nunca perguntou. E sentia que não era um assunto que queria que ele tocasse, então Newt continuou sendo o mesmo de sempre. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, não dizia respeito a ele.
— Para onde você vai agora? — quis saber.
soltou um suspiro longo dessa vez, encarando ao seu redor, encontrando rostos que pareciam mais seguros e confiantes do que o seu. Diante da multidão, ela sentia-se pequena.
— Eu não sei — admitiu, com a voz frágil. — Mas quando eu descobrir, você vai saber.
Newt concordou com um aceno. A conversa foi interrompida com o som do trem chegando. Alguém gritou o seu nome e Newt olhou para trás, encontrando o irmão.
— Se cuida, Newt — se despediu. — E tente não ser expulso.
— Não prometo nada.
Ela soltou uma risada baixa, balançou a cabeça e assistiu-o ir embora. No meio do caminho, seu olhar encontrou com o de Theseus e o tempo suspendeu, como se os dois estivessem presos nas mesmas memórias. A Black não sabia por quanto tempo aquilo tinha durado, mas a plataforma já tinha se esvaziado até que só restassem eles.
Engolindo a seco, ela quebrou o contato visual e voltou a arrastar sua mala, entrando em um vagão muito longe do dele. A falsa sensação de perda a acompanhava e ela tentou ignorar, dizendo a si mesma que não era um sentimento válido. Ela não perdeu nada. Não tinha perdido ele. Pois o princípio da perda dizia que para perder alguém, antes de tudo, ele precisava ter sido seu.
E Theseus Scamander nunca foi dela.
FIM!
Nota da autora: Se você é fã da franquia ou algo do tipo, vai perceber que eu driblei muita coisa aqui e quero que considere que eu usei minha licença poética de fanfiqueira para fazer isso acontecer, já que tecnicamente, quando Newt entrou em Hogwarts, Theseus já estava formado, o que consideraria que a protagonista também, mas bem, quem liga para o que a JK diz? Aqui eu decido que os irmãos Scamander estudaram juntos sim porque eu precisava que o mais novo fosse importante para a protagonista. enfim, me expliquei demais, tudo o que eu deveria estar dizendo é: obrigada pela leitura, espero que tenha gostado! 💖