09. Getaway Car
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Sol
Finalizada em: 17/08/2025
Blood Diamond
Foi o melhor dos tempos, o pior dos crimes
Eu acendi um fósforo e explodi sua mente
Mas eu não quis dizer isso e você não viu.
- Getaway Car / Taylor Swift
Colorado, outono de 1878
O frescor do outono pairava pela cidade de Prosperity.Seus tons de cobre e ouro, faziam-na erguer-se como uma joia escondida pelas montanhas rochosas do Colorado. Fundada anos antes da grande descoberta da prata na região, muitos acreditavam que seria mais uma cidade pequena que chegaria ao seu fim antes mesmo de completar os cinco anos de existência. Contudo, por uma gota de esperança das famílias fundadoras, Prosperity resistiu às intempéries, ao pó do deserto e à ganância de forasteiros, crescendo lentamente até se tornar um ponto de riqueza inesperada. E o reflexo desta prosperidade, fluía pelas suas ruas de madeira e pedra, com suas lojas luxuosas espalhadas pelas ruelas empoeiradas, assim como os saloons iluminados que anunciavam música e jogos de cartas. Tudo pela promessa de prata no subsolo, que atraía tanto sonhadores quanto aqueles que viviam à margem da lei.
Todavia…
Cada pedra da cidade parecia guardar segredos, e cada sombra nas montanhas lembrava que até mesmo a prosperidade, aqui, tinha seu preço a ser pago no final. Naquela noite, as folhas secas rodopiavam pelas ruas, carregadas pelo vento frio sob um assobio que indicava o caminho para o final da estação. O ar com seu cheiro típico de folhas queimando e pó de estrada, misturado à fumaça da locomotiva que chegara minutos antes, trazendo mercadorias e, como esperado, os rumores e fofocas da capital do país.
Cole Kane, com sua perspicácia natural, deslizava pelas sombras.
Um chapéu inclinado sobre os olhos, as botas levantando folhas secas mesmo diante da cautela em cada passo, e o casaco de couro balançando com leveza diante dos movimentos, enquanto a mão descansava sobre o cabo da pistola. Seus olhos se fixaram na joalheria Whitmore, uma construção monumental para sua época, que se assemelhava ao palácio de Versalhes em sua grandiosidade de luxo e requinte. Iluminada pelas últimas luzes de lamparina e pelos reflexos alaranjados das folhas caídas. Destacado ao centro do grande salão, iluminado pela luz direta da lua que atravessava os vidros do teto, o deslumbrante diamante azul, reluzindo como promessa de riqueza e perigo.
Sua aproximação e infiltração no local, fora ainda mais silenciosa e invisível que as flores do campo no inverno. Uma concentração de causar inveja até no mais habilidoso arrombador de cofres, ao destravar a trinca da janela lateral e adentrar o espaço. Minutos de contemplação a passos lentos em direção ao objeto desejado.
Um rangido suave sobre a madeira chamou sua atenção.
— Sempre atrasado, Kane. — A voz feminina cortou o silêncio como lâmina afiada.
A silhueta de Evelyn Blackwood fora revelada de forma elegante pela luz natural de lua, um vestido vermelho bordô que contrastava com a poeira ao redor, os lábios marcados por um sorriso enigmático. Tinha uma pistola leve na mão, e o olhar carregado de lembranças.
Cole cerrou o maxilar.
— Blackwood... — sussurrou ele, ao engolir seco o gosto amargo do passado, que lhe invadiu ao cruzarem os olhares.
— Não aprende, não é? — os passos sinuosos de Evelyn perduraram até que o diamante brilhou entre eles. — Sempre tentando roubar o que jamais conseguiria carregar.
Antes que respondesse, o estrondo de madeira arrebentando tomou a sala. Em instantes, em meio a névoa gerada por mais duas explosões, que os lançaram para longe no efeito do impacto, os policiais locais invadiram a porta da frente, com seus rifles em punho. O primeiro tiro ricocheteou no lustre, espalhando fagulhas e fumaça de pólvora. Cole levantou-se meio zonzo e avistando a mulher em posição de pegar o diamante, impulsionou seu corpo para impedi-la de obter sucesso.
Ao puxar Evelyn pelo braço, virou-a com o olhar de…
O que está tramando?!
Um sorriso nebuloso surgiu na face da mulher, que manteve o olhar sério e frio. Evelyn se lembrava muito bem da última vez que ambos estiveram tão próximos, da forma mais íntima e calorosa possível. Fora no inverno passado, em que por um breve momento, considerou ser o melhor dos tempos, diante do pior dos crimes que deu-se a liberdade de cometer. Roubar e enganar o maior pistoleiro e caçador de recompensas, chamado Jack Cascavel. Todas as juras e promessas de amor de Kane, tornaram-se mentiras de um fora da lei, que a deixou para trás com a corda no pescoço e uma sentença de morte.
— Maldição, você trouxe eles?! — ele rosnou, ao se abaixar, desviando dos tiros, puxando-a consigo.
— Eu? — ela soltou uma gargalhada maldosa, ao disparar de volta, acertando o ombro de um policial que caiu em meio aos gritos. — Não preciso chamar a lei quando estou com você. Ela sempre aparece sozinha.
O caos reinava.
O salão da joalheria se encheu de fumaça, o cheiro metálico de pólvora queimando as narinas. Cole atirava rápido, cada bala certeira, tentando pensar em um plano de fuga, que desta vez envolvesse os dois. Enquanto Evelyn, aproveitava sua perspicácia para se mover com a graça de uma sombra, quase dançando entre destroços e lampejos de fogo. Entre um disparo e outro, os olhos dele se fixaram nela, como se o tempo tivesse voltado para o dia em que cometeu o pior erro de sua vida…
Deixá-la para trás.
— Você ainda me culpa por Cascavel, não é? — disse num tom alto o suficiente para que apenas ela ouvisse.
Blackwood gelou por um segundo, antes de responder com veneno na voz:
— Você deixou o Jack Cascavel apontar a arma para a minha cabeça... e virou as costas. Se não fosse por mim mesma, eu estaria morta naquela noite. — a verdade fluía dela, saindo como uma flecha direcionada ao remorso que o corroía por dentro.
Cole disparou mais uma vez, com suas lembranças queimando mais que a pólvora.
— Eu não virei as costas, Evelyn... eu só não consegui salvar nós dois. — tentou explicar o inexplicável.
Os guardas recuaram por um instante, o que permitiu a Evelyn se erguer.
Aproveitando a brecha, certificou-se de finalizar seu trabalho com diligência, ao finalmente pegar o diamante. O desejado objeto que cintilava mais do que as estrelas do céu que o iluminava. Cole se levantou também, respiração pesada, pronto para correr atrás dela. Contudo, Evelyn sorriu — um sorriso cruel, encharcado de lembranças.
Hoje sou eu quem escolhe quem fica para trás! — estas foram as últimas palavras dela, em uma clareza suficiente para que ele pudesse decifrar com uma rasa leitura labial.
Um estalo metálico ecoou sob os pés de Cole.
Quando olhou, percebeu: uma corda esticada, conectada a um mecanismo improvisado. A mulher havia preparado aquilo antes mesmo da invasão. O chão cedeu parcialmente, prendendo sua perna em uma armadilha de ferro que se fechou como mandíbula. Os policiais avançaram com gritos, vendo Cole preso. Evelyn se virou, seus cabelos escuros balançavam no ar carregado de fumaça. Seus olhos, por um instante, hesitaram no dele — lembrança de algo que poderia ter sido.
Mas logo endureceram.
— Até nunca mais, Kane! — disse, desaparecendo pela porta lateral em meio à névoa pairada pelas explosões.
Enquanto os homens da lei o rendiam, a sombra de Evelyn Blackwood desaparecia pelas ruas de Prosperity, carregando não só o diamante...
Mas também a lembrança de um sentimento que fora sufocado pela vingança jurada!
As
gravatas
eram
pretas,
as
mentiras
eram
brancas
Em
tons
de
cinza
à
luz
de
velas
Eu
queria
deixá-lo,
precisava
de
um
motivo.
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Getaway
Car
/
Taylor
Swift