10. CANCELLED!
Codificada por:
Lightyear 💫
Finalizada em: 02/06/2026
CAPÍTULO UM
Era o dia mais esperado do ano para ele. A coroação de anos de trabalho. Ser jornalista sempre foi o sonho de Owen desde que se entendia por gente. Lembrava-se constantemente de fingir que escrevia mesmo quando não fazia ideia do que era escrever.
Com o passar dos anos, ganhou uma máquina de escrever do pai. Depois disso, um computador de mesa, um notebook e a ideia de se tornar alguém que redigia notas importantes em um jornal só cresceu.
E aquela noite era o momento em que a sua vida inteira passaria diante dos seus olhos quando fosse chamado ao palco.
— E está nervoso? – um dos seus melhores amigos perguntou ao seu lado enquanto bebiam uma taça de champanhe.
— Nah. Sei exatamente o que vai acontecer. – Owen deu um sorriso, e retirou uma mecha do seu cabelo ruivo que caia em seus olhos.
O mundo vivia em uma outra realidade. Uma na qual todas as pessoas possuíam um dispositivo acoplado a sua orelha — isso fazia com que ouvissem os outros melhor, qualquer outro som e recebia notificações constantes de aprovação. Chamavam ele de “Sintonizador”
Era discreto, a maioria das pessoas colocava alguns fios de cabelo em cima fazendo com que o dispositivo passasse de forma despercebida.
Sob as luzes douradas, que faziam com que seus olhos brilhassem, observava a multidão que se formava ao redor do palco. Centenas de pessoas sorriam, e o Sintonizador atrás da sua orelha direita vibrava com um formigamento morno e reconfortante — o sinal físico de que sua Frequência estava em impressionantes 98,7%. Ele era um Cidadão de Alta Nitidez, quase perfeito.
E nem todos podiam desfrutar dos mesmos recursos que ele. Às vezes, sentia seu corpo se arrepiar, como se algo passasse por si, e deixava um ar mais gelado.
— Cara, você conseguiu! – Thomas, seu sócio, sussurrou ao se aproximar e dar um tapa em seu ombro enquanto andavam até a mesa de aperitivos.
A voz do outro chegava até si de forma cristalina, limpa e amplificada pelo Sintonizador, que unia a mente de todos naquela sala na mesma faixa de harmonia.
Alguém subiu ao palco, fez um discurso rápido e sucinto. Mesmo com a taça em mãos, Owen aplaudiu e ouviu o seu nome ser chamado. Um sorriso brotou em seus lábios, e sabia que havia conseguido.
Ajeitou o colarinho e subiu três degraus até o palco que fora colocado ali. O microfone a sua frente apenas decorativo, tendo em vista que a sua voz seria transmitida diretamente para o córtex de cada pessoa naquele local. Ele respirou fundo, pronto para agradecer o prêmio que estavam lhe dando.
— Boa noite a todos.
Antes que ele pudesse continuar, o grande telão atrás de si piscou. Não foi algo que ele havia planejado, com homenagens a pessoas que tinham o ajudado, e sim um vídeo.
A imagem era granulada, mas a voz inconfundível: a de Owen. Era um arquivo confidencial, discutindo o desvio de créditos e o silenciamento de um colega da periferia da cidade — uma mentira perfeitamente forjada, que parecia dolorosamente real.
Um murmúrio confuso ecoou pelo auditório e Owen, com o coração na boca, congelou. Seus olhos se direcionaram para o lado, procurando pelo seu sócio, mas observou que ele dava um passo para trás, com os olhos arregalados, tocando o próprio sintonizador.
Então, veio o som.
Não foi um grito de revolta de alguém na plateia, e sim um bipe. Um único bipe agudo, seco e metálico que ressoou direto no crânio de Owen.
BIP.
Em seguida, o mundo emudeceu.
O som da risada de uma mulher na primeira fileira congelou em um movimento de lábios sem som. O burburinho da multidão sumiu instantaneamente, substituído por um zumbido abafado, como se Owen tivesse sido mergulhado em um tanque de água fria. O formigamento morno atrás de sua orelha deu lugar a uma pontada gélida.
Sua Frequência despencou.
90%...50%...12%...0%.
Seus olhos de forma frenética procuravam por alguém na multidão, mas sentia-se perdido. Era como se fosse uma criança perdida da mãe no supermercado. Não conseguia achá-la. Nunca mais voltaria para casa. Owen piscou. Com o peito subindo e descendo por conta da sua respiração ofegante e olhou para todos os lados.
Ao encontrar Thomas, se aproximou e tentou se aproximar.
— Thomas? – Owen o chamou, mas a sua própria voz parecia não sair da sua garganta. Ela morreu no ar, sufocada por uma camada de algodão invisível.
Deu um passo na direção do socio, e estendeu a mão, o tocando no ombro. Thomas deu um salto, levando a mão ao ombro e olhou com desespero ao redor. Mas Owen o percebeu olhar em sua direção, e por breves segundos pensou em falar algo, no entanto a forma como Thomas o olhava fez com que ele ficasse petrificado. Era como se tivesse visto um fantasma.
Como um veneno, o pavor se espalhou pelo corpo de Owen. Correu, quase tropeçando em seus próprios pés, gesticulando e gritando com todas as suas forças. Ninguém o olhou. A plateia estava se dissipando, conversando entre si com gestos animados, mas para Owen, eles eram apenas mímicos em um filme mudo. Para o sistema, e para todos os conectados a ele, o espaço onde Owen estava agora era apenas um ponto vazio.
Ele tinha sido deletado da frequência da realidade.
Desesperado, Owen desceu do palco cambaleante, e correu em direção a saída. Empurrou as portas e ganhou a calçada de Manhattan.
A grande cidade, que antes era uma sinfonia de outdoors holográficos, músicas personalizadas e notificações flutuantes, agora parecia um deserto cinzento. Os outdoors ainda brilhavam, mas Owen não conseguia ler as mensagens — os dados precisavam de uma Frequência ativa para serem decodificados. Para ele, eram apenas borrões de luz branca.
Para piorar, a chuva começou a cair, fria e persistente. O rapaz caminhou sem rumo por cerca de trinta minutos, até chegar à fachada do seu próprio prédio. O painel eletrônico da portaria brilhava em vermelho. Ele encostou o polegar no sensor biométrico.
Acesso Negado. Usuário Não Sintonizado.
— Não, não, não... – sussurrou ao bater no vidro da portaria. O porteiro, um homem qual Owen cumprimentava todos os dias, estava a menos de dois metros de distância, olhando para uma tela acompanhando a um jogo de hóquei naquela noite. Owen esmurrou o vidro e o porteiro nem levantou os olhos para ajudá-lo. O isolamento acústico e sensorial da frequência zero era absoluto.
Com o cansaço predominando seu corpo, Owen deu as costas para o prédio. Sua roupa encharcada, grudava em seu corpo e aquilo lhe causava um certo mal humor. O que poderia piorar naquela noite? Andou sem rumo, até chegar em um beco escuro, onde o lixo se acumulava e as luzes de neon da rua não conseguiam alcançar. Sentou-se no chão, depois de escorregar em uma parede de tijolos e abraçou os próprios joelhos.
O silêncio da cidade era ensurdecedor.
Foi quando um som diferente cortou o estático.
Não vinha do seu Sintonizador morto, mas de uma caçamba de lixo a poucos metros. Era um chiado analógico, mecânico.
Chhhhhhhhhhhhhh...
Owen ergueu a cabeça. No meio do lixo, uma pequena luz verde piscava. Era um rádio de pilha antigo, com uma antena de metal amassada — uma relíquia proibida em um mundo puramente digital. O chiado diminuiu e uma voz distorcida, mas real ecoou pelo beco:
— ...sabemos que você está aí, 98.7. Eles acham que apagaram você, mas ainda conseguimos te ouvir. Venha até o subsolo da Sétima com a Broadway. Traga o que sobrou do seu orgulho.
O rádio deu um estalo e desligou.
Owen olhou para o aparelho em suas mãos, e a respiração travada. Pela primeira vez em sua vida racional, ele não estava conectado a ninguém. Mas, de alguma forma, ele finalmente havia sido ouvido.
Com o passar dos anos, ganhou uma máquina de escrever do pai. Depois disso, um computador de mesa, um notebook e a ideia de se tornar alguém que redigia notas importantes em um jornal só cresceu.
E aquela noite era o momento em que a sua vida inteira passaria diante dos seus olhos quando fosse chamado ao palco.
— E está nervoso? – um dos seus melhores amigos perguntou ao seu lado enquanto bebiam uma taça de champanhe.
— Nah. Sei exatamente o que vai acontecer. – Owen deu um sorriso, e retirou uma mecha do seu cabelo ruivo que caia em seus olhos.
O mundo vivia em uma outra realidade. Uma na qual todas as pessoas possuíam um dispositivo acoplado a sua orelha — isso fazia com que ouvissem os outros melhor, qualquer outro som e recebia notificações constantes de aprovação. Chamavam ele de “Sintonizador”
Era discreto, a maioria das pessoas colocava alguns fios de cabelo em cima fazendo com que o dispositivo passasse de forma despercebida.
Sob as luzes douradas, que faziam com que seus olhos brilhassem, observava a multidão que se formava ao redor do palco. Centenas de pessoas sorriam, e o Sintonizador atrás da sua orelha direita vibrava com um formigamento morno e reconfortante — o sinal físico de que sua Frequência estava em impressionantes 98,7%. Ele era um Cidadão de Alta Nitidez, quase perfeito.
E nem todos podiam desfrutar dos mesmos recursos que ele. Às vezes, sentia seu corpo se arrepiar, como se algo passasse por si, e deixava um ar mais gelado.
— Cara, você conseguiu! – Thomas, seu sócio, sussurrou ao se aproximar e dar um tapa em seu ombro enquanto andavam até a mesa de aperitivos.
A voz do outro chegava até si de forma cristalina, limpa e amplificada pelo Sintonizador, que unia a mente de todos naquela sala na mesma faixa de harmonia.
Alguém subiu ao palco, fez um discurso rápido e sucinto. Mesmo com a taça em mãos, Owen aplaudiu e ouviu o seu nome ser chamado. Um sorriso brotou em seus lábios, e sabia que havia conseguido.
Ajeitou o colarinho e subiu três degraus até o palco que fora colocado ali. O microfone a sua frente apenas decorativo, tendo em vista que a sua voz seria transmitida diretamente para o córtex de cada pessoa naquele local. Ele respirou fundo, pronto para agradecer o prêmio que estavam lhe dando.
— Boa noite a todos.
Antes que ele pudesse continuar, o grande telão atrás de si piscou. Não foi algo que ele havia planejado, com homenagens a pessoas que tinham o ajudado, e sim um vídeo.
A imagem era granulada, mas a voz inconfundível: a de Owen. Era um arquivo confidencial, discutindo o desvio de créditos e o silenciamento de um colega da periferia da cidade — uma mentira perfeitamente forjada, que parecia dolorosamente real.
Um murmúrio confuso ecoou pelo auditório e Owen, com o coração na boca, congelou. Seus olhos se direcionaram para o lado, procurando pelo seu sócio, mas observou que ele dava um passo para trás, com os olhos arregalados, tocando o próprio sintonizador.
Então, veio o som.
Não foi um grito de revolta de alguém na plateia, e sim um bipe. Um único bipe agudo, seco e metálico que ressoou direto no crânio de Owen.
BIP.
Em seguida, o mundo emudeceu.
O som da risada de uma mulher na primeira fileira congelou em um movimento de lábios sem som. O burburinho da multidão sumiu instantaneamente, substituído por um zumbido abafado, como se Owen tivesse sido mergulhado em um tanque de água fria. O formigamento morno atrás de sua orelha deu lugar a uma pontada gélida.
Sua Frequência despencou.
90%...50%...12%...0%.
Seus olhos de forma frenética procuravam por alguém na multidão, mas sentia-se perdido. Era como se fosse uma criança perdida da mãe no supermercado. Não conseguia achá-la. Nunca mais voltaria para casa. Owen piscou. Com o peito subindo e descendo por conta da sua respiração ofegante e olhou para todos os lados.
Ao encontrar Thomas, se aproximou e tentou se aproximar.
— Thomas? – Owen o chamou, mas a sua própria voz parecia não sair da sua garganta. Ela morreu no ar, sufocada por uma camada de algodão invisível.
Deu um passo na direção do socio, e estendeu a mão, o tocando no ombro. Thomas deu um salto, levando a mão ao ombro e olhou com desespero ao redor. Mas Owen o percebeu olhar em sua direção, e por breves segundos pensou em falar algo, no entanto a forma como Thomas o olhava fez com que ele ficasse petrificado. Era como se tivesse visto um fantasma.
Como um veneno, o pavor se espalhou pelo corpo de Owen. Correu, quase tropeçando em seus próprios pés, gesticulando e gritando com todas as suas forças. Ninguém o olhou. A plateia estava se dissipando, conversando entre si com gestos animados, mas para Owen, eles eram apenas mímicos em um filme mudo. Para o sistema, e para todos os conectados a ele, o espaço onde Owen estava agora era apenas um ponto vazio.
Ele tinha sido deletado da frequência da realidade.
Desesperado, Owen desceu do palco cambaleante, e correu em direção a saída. Empurrou as portas e ganhou a calçada de Manhattan.
A grande cidade, que antes era uma sinfonia de outdoors holográficos, músicas personalizadas e notificações flutuantes, agora parecia um deserto cinzento. Os outdoors ainda brilhavam, mas Owen não conseguia ler as mensagens — os dados precisavam de uma Frequência ativa para serem decodificados. Para ele, eram apenas borrões de luz branca.
Para piorar, a chuva começou a cair, fria e persistente. O rapaz caminhou sem rumo por cerca de trinta minutos, até chegar à fachada do seu próprio prédio. O painel eletrônico da portaria brilhava em vermelho. Ele encostou o polegar no sensor biométrico.
Acesso Negado. Usuário Não Sintonizado.
— Não, não, não... – sussurrou ao bater no vidro da portaria. O porteiro, um homem qual Owen cumprimentava todos os dias, estava a menos de dois metros de distância, olhando para uma tela acompanhando a um jogo de hóquei naquela noite. Owen esmurrou o vidro e o porteiro nem levantou os olhos para ajudá-lo. O isolamento acústico e sensorial da frequência zero era absoluto.
Com o cansaço predominando seu corpo, Owen deu as costas para o prédio. Sua roupa encharcada, grudava em seu corpo e aquilo lhe causava um certo mal humor. O que poderia piorar naquela noite? Andou sem rumo, até chegar em um beco escuro, onde o lixo se acumulava e as luzes de neon da rua não conseguiam alcançar. Sentou-se no chão, depois de escorregar em uma parede de tijolos e abraçou os próprios joelhos.
O silêncio da cidade era ensurdecedor.
Foi quando um som diferente cortou o estático.
Não vinha do seu Sintonizador morto, mas de uma caçamba de lixo a poucos metros. Era um chiado analógico, mecânico.
Chhhhhhhhhhhhhh...
Owen ergueu a cabeça. No meio do lixo, uma pequena luz verde piscava. Era um rádio de pilha antigo, com uma antena de metal amassada — uma relíquia proibida em um mundo puramente digital. O chiado diminuiu e uma voz distorcida, mas real ecoou pelo beco:
— ...sabemos que você está aí, 98.7. Eles acham que apagaram você, mas ainda conseguimos te ouvir. Venha até o subsolo da Sétima com a Broadway. Traga o que sobrou do seu orgulho.
O rádio deu um estalo e desligou.
Owen olhou para o aparelho em suas mãos, e a respiração travada. Pela primeira vez em sua vida racional, ele não estava conectado a ninguém. Mas, de alguma forma, ele finalmente havia sido ouvido.
CAPÍTULO DOIS
Não fazia ideia de onde ir, por mais que tivesse ouvido uma localização na mensagem. E se fosse algo ruim? Alguém que lhe quisesse fazer mal? Tendo em vista tudo que aconteceu nos últimos minutos, nada poderia ser pior do que aquilo.
Por um bom tempo encarou o radio de pilha até que a luz se apagasse por completo. Suas mãos doíam, e seus dedos tremiam assim que estendeu a mão para pegar o aparelho de plástico gasto. Parecia estranhamente pesado, uma âncora de realidade em um mundo que havia acabado de sumir ao seu redor. Então, guardou o rádio no bolso do paletó e colocou-se em pé.
Ir ao endereço que lhe foi dado significava cruzar o coração do distrito comercial. Antes, Owen faria esse trajeto em alguns minutos. Andaria tranquilamente pela calçada. Mas agora ele era um obstáculo invisível.
Caminhar pelas ruas nessa nova condição era uma experiencia aterrorizante. Pessoas andando rápido, imersas em suas próprias bolhas de áudio, e projeções holográficas particulares. Como o Sintonizador de Owen estava zerado, os dispositivos dos outros pedestres não detectavam sua presença para desviar automaticamente.
Pelo menos duas vezes ele precisou se esquivar no último segundo para que não fosse atropelado por executivos que olhavam direto através dele. Owen era menos que um fantasma; era um vácuo. Se ficasse parado no meio da calçada, as pessoas simplesmente colidiriam contra ele como se batessem em um poste que surgiu do nada.
Quando finalmente alcançou a esquina da Sétima com a Broadway, a chuva tinha apertado. Ali ficava uma das antigas estações de metrô desativadas. O silencio era incomodo, se aproximou do portão acorrentado.
— Alguém aí? – chamou, mas sua voz bateu nas paredes de azulejos sujos e voltou, vazia.
Tateou o bolso, puxando o rádio para fora e notou que o aparelho continuava mudo. Com a frustração dominando o seu corpo, Owen chutou a grade de ferro. O som de metal ecoou pelo beco. Estava prestes a dar as costas quando reparou em algo: a corrente que prendia o portão estava grossa de ferrugem, mas um dos elos no topo havia sido cortado e recolocado. O que era disfarçado com um pedaço de fita magnética cinza.
Piscou algumas vezes diante daquela imagem.
Com certo esforço, Owen empurrou a grade. Ela cedeu com um rangido estridente, e então ele escorregou para dentro da escuridão da escada, puxando o portão de volta para não chamar atenção.
O primeiro cheiro que atingiu as suas narinas foi de terra molhada, ferro velho e ozônio. Uma careta se formou em seu rosto assim que iniciou a descida, colocando os pés nos degraus quebrados enquanto o barulho abafado da superfície desaparecia, sendo substituído por um silêncio ainda mias denso.
No final da escadaria, o túnel se abria para a antiga plataforma de embarque. Owen tateou nas paredes, até que seus pés encontrassem o chão plano. De repente, uma luz forte bateu direto em seus olhos.
— Fique parado! – ordenou uma voz feminina, vinda de trás do feixe de luz. A sua voz firme fez com que ele parasse no mesmo instante.
Owen cobriu os olhos com o braço, se incomodando com a força da luz do nada.
— Eu ouvi uma mensagem no rádio. Do beco. Disseram para eu vir até aqui.
— Eu sei. Fui eu que mandei. – a voz continuou, após pigarrear.
Então, a mão que segurava a lanterna foi abaixada e Owen pode notar na fisionomia da mulher diante dos seus olhos. Ela usava uma jaqueta de couro gasta e, ao contrário de todos na superfície, havia apenas uma cicatriz circular, como se o aparelho tivesse sido arrancado à força.
A mulher deu um passo a frente, analisando as roupas de grife encharcadas de Owen e sua expressão de pânico. Um sorriso amargo brotou em seus lábios.
— O grande Owen Lewis! O garoto de ouro do Notícias Mais Rápidas — seu tom era de desdém – De 98% de nitidez direto para o lixo em menos de 10 minutos. Deve ter sido uma queda dolorosa.
— Quem é você? E como sabe meu nome se eu fui apagado do sistema? – Owen franziu o cenho com as palavras da mulher.
— O meu nome é Ayla. E nós sabemos o seu nome por que nós não usamos o sistema deles para lembrar de quem as pessoas são.
Owen engoliu em seco, com a sensação de que uma enxaqueca daquelas começaria em instantes. Era como se ele estivesse no escritório e tivesse que entregar várias notas até o fim do dia.
Conforme os olhos de Owen se acostumavam com a penumbra, ele começou a ver. Espalhados pela antiga estação, ao redor de fogueiras improvisadas em tambores de óleo, estavam dezenas de pessoas. Entre eles, idosos, jovens, trabalhadores e ex-acadêmicos. Todos eles tinham a mesma cicatriz atrás da orelha e conversavam, enquanto riam, e ticavam instrumentos. Ali, o som se propagava pelo ar, não pelas ondas cerebrais.
— Bem-vindo ao Canal Zero, Owen. – Ayla o olhou ao passo que guardava a lanterna no bolso – O lugar para onde mandam tudo o que eles querem que o mundo esqueça.
A cabeça de Owen deu uma pontada. Se ele estivesse no escritório, um comprido com um gole de água resolveria todos os seus problemas.
— Isso é um erro. – o rapaz a olhou, dando um passo a frente. O desespero tomava conta do seu corpo, e ele não sabia o que fazer – Alguém forjou aquelas provas no telão. Eu não desviei nada, não sabotei ninguém! – negou com a cabeça ao falar, e pensou um pouco – o Thomas, meu sócio... ele sabe a verdade. Eu preciso voltar lá em cima, preciso fazer eles me ouvirem.
Ayla nem acabou de ouvir Owen e soltou uma risada seca e cortante, que ecoou pelo túnel do metrô. Ela caminhou até uma mesa cheia de monitores de tubo antigos e equipamentos analógicos remendados com fita isolante, e apertou um botão no painel.
— Você acha que seu sócio não sabe de nada? Olha isso.
A tela de um dos monitores piscou em estático antes de mostrar uma transmissão de TV analógica captada da superfície. Era o feed de notícias do jornal no qual Owen trabalhava, gravado há apenas alguns minutos.
Na tela, Thomas estava no mesmo púlpito onde Owen estivera. Ele sorria para as câmeras, de braços dados com um dos principais concorrentes de Owen. O letreiro na parte inferior da tela dizia: “Após a expulsão e cancelamento por fraude do ex-redator Owen Lewis, a nova gestão assume o controle total do projeto para a melhoria urbana.”
— O seu cancelamento não foi um erro de algoritmo, seu idiota. – Ayla o olhou, ao cruzar os braços com uma expressão confusa. – Foi assassinato social planejado. E enquanto você está aqui embaixo chorando pelo seu status, eles já estão dividindo o seu império.
O coração de Owen quase parou ao ouvir aquelas coisas da boca daquela mulher que mal conhecia. Mas uma sensação estranha predominava em seu peito: podia confiar nela mais do que em qualquer pessoa que confiara na vida.
Com o chão sumindo diante dos seus pés pelo choque que vivia, Owen olhou para os lados, como se procurasse refúgio. Então, seus olhos voltaram a tela, e no sorriso triunfante de Thomas. A traição doeu mais do que o silêncio do Sintonizador.
— Então... acabou? – Owen se virou para Ayla, a fim de encará-la. – Eu morri para o mundo?
A mulher se aproximou dele, o olhar dela era focado. Quase perigoso.
— Para o mundo deles? Sim, você está morto e enterrado.
Em um gesto rápido, Ayla tirou o Sintonizador da orelha de Owen. Ele gemeu de dor aguda, sentindo um filete de sangue escorrer pelo seu pescoço. Ayla jogou o pedaço de plástico estragado no chão e o esmagou com a bota.
— Mas se você quiser fazê-los pagar pelo que fizeram. Nós temos uma frequência própria. E ela faz muito mais barulho.
Por um bom tempo encarou o radio de pilha até que a luz se apagasse por completo. Suas mãos doíam, e seus dedos tremiam assim que estendeu a mão para pegar o aparelho de plástico gasto. Parecia estranhamente pesado, uma âncora de realidade em um mundo que havia acabado de sumir ao seu redor. Então, guardou o rádio no bolso do paletó e colocou-se em pé.
Ir ao endereço que lhe foi dado significava cruzar o coração do distrito comercial. Antes, Owen faria esse trajeto em alguns minutos. Andaria tranquilamente pela calçada. Mas agora ele era um obstáculo invisível.
Caminhar pelas ruas nessa nova condição era uma experiencia aterrorizante. Pessoas andando rápido, imersas em suas próprias bolhas de áudio, e projeções holográficas particulares. Como o Sintonizador de Owen estava zerado, os dispositivos dos outros pedestres não detectavam sua presença para desviar automaticamente.
Pelo menos duas vezes ele precisou se esquivar no último segundo para que não fosse atropelado por executivos que olhavam direto através dele. Owen era menos que um fantasma; era um vácuo. Se ficasse parado no meio da calçada, as pessoas simplesmente colidiriam contra ele como se batessem em um poste que surgiu do nada.
Quando finalmente alcançou a esquina da Sétima com a Broadway, a chuva tinha apertado. Ali ficava uma das antigas estações de metrô desativadas. O silencio era incomodo, se aproximou do portão acorrentado.
— Alguém aí? – chamou, mas sua voz bateu nas paredes de azulejos sujos e voltou, vazia.
Tateou o bolso, puxando o rádio para fora e notou que o aparelho continuava mudo. Com a frustração dominando o seu corpo, Owen chutou a grade de ferro. O som de metal ecoou pelo beco. Estava prestes a dar as costas quando reparou em algo: a corrente que prendia o portão estava grossa de ferrugem, mas um dos elos no topo havia sido cortado e recolocado. O que era disfarçado com um pedaço de fita magnética cinza.
Piscou algumas vezes diante daquela imagem.
Com certo esforço, Owen empurrou a grade. Ela cedeu com um rangido estridente, e então ele escorregou para dentro da escuridão da escada, puxando o portão de volta para não chamar atenção.
O primeiro cheiro que atingiu as suas narinas foi de terra molhada, ferro velho e ozônio. Uma careta se formou em seu rosto assim que iniciou a descida, colocando os pés nos degraus quebrados enquanto o barulho abafado da superfície desaparecia, sendo substituído por um silêncio ainda mias denso.
No final da escadaria, o túnel se abria para a antiga plataforma de embarque. Owen tateou nas paredes, até que seus pés encontrassem o chão plano. De repente, uma luz forte bateu direto em seus olhos.
— Fique parado! – ordenou uma voz feminina, vinda de trás do feixe de luz. A sua voz firme fez com que ele parasse no mesmo instante.
Owen cobriu os olhos com o braço, se incomodando com a força da luz do nada.
— Eu ouvi uma mensagem no rádio. Do beco. Disseram para eu vir até aqui.
— Eu sei. Fui eu que mandei. – a voz continuou, após pigarrear.
Então, a mão que segurava a lanterna foi abaixada e Owen pode notar na fisionomia da mulher diante dos seus olhos. Ela usava uma jaqueta de couro gasta e, ao contrário de todos na superfície, havia apenas uma cicatriz circular, como se o aparelho tivesse sido arrancado à força.
A mulher deu um passo a frente, analisando as roupas de grife encharcadas de Owen e sua expressão de pânico. Um sorriso amargo brotou em seus lábios.
— O grande Owen Lewis! O garoto de ouro do Notícias Mais Rápidas — seu tom era de desdém – De 98% de nitidez direto para o lixo em menos de 10 minutos. Deve ter sido uma queda dolorosa.
— Quem é você? E como sabe meu nome se eu fui apagado do sistema? – Owen franziu o cenho com as palavras da mulher.
— O meu nome é Ayla. E nós sabemos o seu nome por que nós não usamos o sistema deles para lembrar de quem as pessoas são.
Owen engoliu em seco, com a sensação de que uma enxaqueca daquelas começaria em instantes. Era como se ele estivesse no escritório e tivesse que entregar várias notas até o fim do dia.
Conforme os olhos de Owen se acostumavam com a penumbra, ele começou a ver. Espalhados pela antiga estação, ao redor de fogueiras improvisadas em tambores de óleo, estavam dezenas de pessoas. Entre eles, idosos, jovens, trabalhadores e ex-acadêmicos. Todos eles tinham a mesma cicatriz atrás da orelha e conversavam, enquanto riam, e ticavam instrumentos. Ali, o som se propagava pelo ar, não pelas ondas cerebrais.
— Bem-vindo ao Canal Zero, Owen. – Ayla o olhou ao passo que guardava a lanterna no bolso – O lugar para onde mandam tudo o que eles querem que o mundo esqueça.
A cabeça de Owen deu uma pontada. Se ele estivesse no escritório, um comprido com um gole de água resolveria todos os seus problemas.
— Isso é um erro. – o rapaz a olhou, dando um passo a frente. O desespero tomava conta do seu corpo, e ele não sabia o que fazer – Alguém forjou aquelas provas no telão. Eu não desviei nada, não sabotei ninguém! – negou com a cabeça ao falar, e pensou um pouco – o Thomas, meu sócio... ele sabe a verdade. Eu preciso voltar lá em cima, preciso fazer eles me ouvirem.
Ayla nem acabou de ouvir Owen e soltou uma risada seca e cortante, que ecoou pelo túnel do metrô. Ela caminhou até uma mesa cheia de monitores de tubo antigos e equipamentos analógicos remendados com fita isolante, e apertou um botão no painel.
— Você acha que seu sócio não sabe de nada? Olha isso.
A tela de um dos monitores piscou em estático antes de mostrar uma transmissão de TV analógica captada da superfície. Era o feed de notícias do jornal no qual Owen trabalhava, gravado há apenas alguns minutos.
Na tela, Thomas estava no mesmo púlpito onde Owen estivera. Ele sorria para as câmeras, de braços dados com um dos principais concorrentes de Owen. O letreiro na parte inferior da tela dizia: “Após a expulsão e cancelamento por fraude do ex-redator Owen Lewis, a nova gestão assume o controle total do projeto para a melhoria urbana.”
— O seu cancelamento não foi um erro de algoritmo, seu idiota. – Ayla o olhou, ao cruzar os braços com uma expressão confusa. – Foi assassinato social planejado. E enquanto você está aqui embaixo chorando pelo seu status, eles já estão dividindo o seu império.
O coração de Owen quase parou ao ouvir aquelas coisas da boca daquela mulher que mal conhecia. Mas uma sensação estranha predominava em seu peito: podia confiar nela mais do que em qualquer pessoa que confiara na vida.
Com o chão sumindo diante dos seus pés pelo choque que vivia, Owen olhou para os lados, como se procurasse refúgio. Então, seus olhos voltaram a tela, e no sorriso triunfante de Thomas. A traição doeu mais do que o silêncio do Sintonizador.
— Então... acabou? – Owen se virou para Ayla, a fim de encará-la. – Eu morri para o mundo?
A mulher se aproximou dele, o olhar dela era focado. Quase perigoso.
— Para o mundo deles? Sim, você está morto e enterrado.
Em um gesto rápido, Ayla tirou o Sintonizador da orelha de Owen. Ele gemeu de dor aguda, sentindo um filete de sangue escorrer pelo seu pescoço. Ayla jogou o pedaço de plástico estragado no chão e o esmagou com a bota.
— Mas se você quiser fazê-los pagar pelo que fizeram. Nós temos uma frequência própria. E ela faz muito mais barulho.
CAPÍTULO TRÊS
Nos primeiros lá embaixo, Owen achou que enlouqueceria. Estar sem o Sintonizador foi pior do que ele imaginava. O que lhe injetava dopamina diariamente e dados a todo momento em seu cérebro, sofreu uma abstinência violenta. O silencio digital parecia um zumbido constante.
— Pare de caçar fantasmas no ar. – Ayla falou ao se aproximar de onde ele estava, e jogar um rádio transmissor na mesa de ferro na frente dele. – Suas mãos servem para mais do que apertar botões virtuais. Use-as. – usou um tom de voz mais sério.
Aprender a viver no “analógico” era um processo doloroso. Owen teve que reaprender a focar a visão sem o ajuste automático das lentes oculares do sistema, e guiar-se pelos sons reais do subsolo. O gotejar da água, o eco dos passos, o estalo do fogo nos tambores de óleo. Ayla o ensinou a sintonizar rádios de frequência curta, usando as mãos para girar os botões.
— O sistema deles é perfeito porque é isolado. – Ela explicou enquanto soldava um circuito. – Mas o analógico é persistente. Ele viaja pelo ar, contorna as barreiras. E eles não conseguem filtrar o que não conseguem codificar.
Naquele local Owen não tinha noção quando era dia, quando era noite. Por isso, tentava ao máximo se ocupar com os afazeres que Ayla lhe passava, pra que a sua mente se sentisse cansada, e em determinado momento ele resolvesse dormir.
Na quarta á noite, Owen conseguiu captar uma transmissão limpa da superfície usando um receptor que ele mesmo remendou. Ao ouvir a voz de Thomas, dando entrevista para uma rádio, Owen sentiu o seu coração pulsar, e algo como um enjoo, que parecia mais com uma repulsa tomou conta do seu estômago.
Ayla estava sentada próxima a si, desviou seus olhos do objeto em mãos e a olhou.
— Como entramos novamente?
A ansiedade era nítida em suas palavras.
Ayla sorriu, com a expressão perigosa brilhando em seus olhos. Ela puxou um mapa de papel da infraestrutura da cidade e o abriu sobre a mesa, apontando para a maior antena de transmissão de Manhattan, localizada no topo do antigo edifício do jornal.
— Daqui a dois dias, o Thomas vai fazer um discurso de lançamento do novo sistema de controle deles, transmitido ao vivo para os Sintonizadores de cada habitante da cidade. O sinal vai ser disparado por aquela antena principal – explicou, com calma – Nós não vamos tentar recuperar a sua conta, Owen. Isso é impossível. Mas, vamos fazer algo pior.
Owen piscou algumas vezes, esperando que ela continuasse a falar.
— O que?
— Vamos usar um transmissor pirata de alta potência acoplado à antena deles. No meio do discurso de Thomas, nós vamos derrubar a frequência digital por trinta segundos e injetar uma onda de rádio analógica de curto alcance.
— Então vocês vão...
— Todo mundo na cidade vai ouvir a gravação da armação do Thomas. Direto nos próprios cérebros. – Ayla falou com um sorriso em seus lábios.
Por breves segundos Owen sentiu vontade de juntar seus lábios aos dela.
Os fitou por longos segundos, e desejou que ela não tivesse percebido isso. Mas, ao voltar a olhá-la nos olhos, o seu sorriso era sapeca.
— Eles passaram a vida inteira ensinando as pessoas a ignorar o que está ao redor. Vamos ver como eles reagem quando o estático da verdade invadir a cabeça deles. Prepare-se, 98.7. O seu cancelamento está prestes a ser revogado.
— Pare de caçar fantasmas no ar. – Ayla falou ao se aproximar de onde ele estava, e jogar um rádio transmissor na mesa de ferro na frente dele. – Suas mãos servem para mais do que apertar botões virtuais. Use-as. – usou um tom de voz mais sério.
Aprender a viver no “analógico” era um processo doloroso. Owen teve que reaprender a focar a visão sem o ajuste automático das lentes oculares do sistema, e guiar-se pelos sons reais do subsolo. O gotejar da água, o eco dos passos, o estalo do fogo nos tambores de óleo. Ayla o ensinou a sintonizar rádios de frequência curta, usando as mãos para girar os botões.
— O sistema deles é perfeito porque é isolado. – Ela explicou enquanto soldava um circuito. – Mas o analógico é persistente. Ele viaja pelo ar, contorna as barreiras. E eles não conseguem filtrar o que não conseguem codificar.
Naquele local Owen não tinha noção quando era dia, quando era noite. Por isso, tentava ao máximo se ocupar com os afazeres que Ayla lhe passava, pra que a sua mente se sentisse cansada, e em determinado momento ele resolvesse dormir.
Na quarta á noite, Owen conseguiu captar uma transmissão limpa da superfície usando um receptor que ele mesmo remendou. Ao ouvir a voz de Thomas, dando entrevista para uma rádio, Owen sentiu o seu coração pulsar, e algo como um enjoo, que parecia mais com uma repulsa tomou conta do seu estômago.
Ayla estava sentada próxima a si, desviou seus olhos do objeto em mãos e a olhou.
— Como entramos novamente?
A ansiedade era nítida em suas palavras.
Ayla sorriu, com a expressão perigosa brilhando em seus olhos. Ela puxou um mapa de papel da infraestrutura da cidade e o abriu sobre a mesa, apontando para a maior antena de transmissão de Manhattan, localizada no topo do antigo edifício do jornal.
— Daqui a dois dias, o Thomas vai fazer um discurso de lançamento do novo sistema de controle deles, transmitido ao vivo para os Sintonizadores de cada habitante da cidade. O sinal vai ser disparado por aquela antena principal – explicou, com calma – Nós não vamos tentar recuperar a sua conta, Owen. Isso é impossível. Mas, vamos fazer algo pior.
Owen piscou algumas vezes, esperando que ela continuasse a falar.
— O que?
— Vamos usar um transmissor pirata de alta potência acoplado à antena deles. No meio do discurso de Thomas, nós vamos derrubar a frequência digital por trinta segundos e injetar uma onda de rádio analógica de curto alcance.
— Então vocês vão...
— Todo mundo na cidade vai ouvir a gravação da armação do Thomas. Direto nos próprios cérebros. – Ayla falou com um sorriso em seus lábios.
Por breves segundos Owen sentiu vontade de juntar seus lábios aos dela.
Os fitou por longos segundos, e desejou que ela não tivesse percebido isso. Mas, ao voltar a olhá-la nos olhos, o seu sorriso era sapeca.
— Eles passaram a vida inteira ensinando as pessoas a ignorar o que está ao redor. Vamos ver como eles reagem quando o estático da verdade invadir a cabeça deles. Prepare-se, 98.7. O seu cancelamento está prestes a ser revogado.
CAPÍTULO QUATRO
A noite de lançamento parecia um espelho distorcido do dia em que Owen caiu no esquecimento. O topo do edifício do jornal estava cercado por feixes de luz neon azul, cortando a chuva fina que caia na cidade. Na superfície, milhares de cidadãos da Alta Nitidez se aglomeravam, com seus Sintonizadores brilhando em uma harmonia perfeita e silenciosa.
No subsolo do prédio, no entanto, o mundo era feito de graxa, cabos grossos e respiração presa.
Owen e Ayla avançaram pelos dutos de manutenção analógicos – canos desativados que o sistema digital da segurança ignorava por completo. Owen carregava nas costas uma mochila pesada contendo o “injetor”, o transmissor pirata de ondas curtas que ele mesmo ajudara a solar. Suas mãos não tremiam mais.
— O painel de distribuição central é bem a frente – sussurrou Ayla, cortando a grade de uma fresta de ventilação.
Eles deslizaram para a sala de força da antena principal. Logo acima deles, através do teto de vidro, era possível ver Thomas no palco externo. Ele estava com os braços abertos, transmitindo seu discurso vitorioso diretamente para o córtex da população.
— É agora. – Owen falou, tirando o injetor das suas costas.
Com cabos jacaré pesados, ele conectou o dispositivo analógico diretamente nas saídas de fibra óptica que alimentavam o transmissor principal da torre. Com isso, seu plano seria um sucesso.
— O sinal do Thomas está no ápice. O sistema está sobrecarregado de conexões, se ligarmos agora, o rebote vai ser intenso. – alertou Ayla, de olho em um medidor de pressão analógico. – Temos exatamente trinta segundos antes que o firewall deles queime nosso disjuntor.
Owen sentia-se ansioso. Era como se fosse o primeiro dia de aula, ou o primeiro dia de trabalho. Era como se fosse a primeira vez viajando de avião. Era uma ansiedade com um friozinho na barriga que queria vir a ter mais vezes.
Ele segurou com firmeza na grande alavanca de ferro do transmissor pirata. Olhou para o teto de vidro e viu Thomas sorrindo, acreditando que havia o apagado da história para sempre.
— Três... dois... um. – Owen puxou a alavanca.
CLACK.
Lá em cima, no palco, o sorriso de Thomas congelou.
Em toda a cidade de Nova York, o brilho azul dos Sintonizadores atrás das orelhas das pessoas piscou furiosamente mudando para o vermelho estático. Um som que aquela sociedade nunca havia ouvido antes – o chiado violento e cru de uma rádio analógica – explodiu diretamente dentro da cabeça de milhões de cidadãos.
CHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH—
E então, no meio do estático, a voz de Owen ecoou. Não a voz filtrada e harmoniosa de antes, mas a gravação bruta, real e incontestável do arquivo confidencial, revelando a voz de Thomas planejando a fraude, o desvio de créditos e o assassinato do seu sócio.
Thomas cambaleou para trás no palco, cobrindo as orelhas com as mãos, os olhos arregalados de puro pavor ao perceber que o som não vinha de caixas acústicas, mas dentro do seu próprio crânio.
A multidão nas ruas parou instantaneamente. O transe coletivo da “harmonia” foi quebrado. As pessoas começaram a olhar umas para as outras, e depois para o palco, com expressões confusas sem seus rostos.
— Vinte segundos! O sistema deles está tentando isolar o sinal. – gritou Ayla.
— Deixa mais um pouco. – Owen acrescentou.
Nos últimos cinco segundos, a gravação terminou e Owen pegou o microfone físico do transmissor, falando diretamente com toda cidade.
— Meu nome é Owen Lewis. Vocês acharam que podiam me deletar porque pararam de me enxergar. Mas a verdade não precisa de permissão para existir. Nós estamos aqui embaixo. E nós não vamos mais ficar calados.
BOOM.
O injetor explodiu em uma cortina de fumaça cinza, derretendo os circuitos. Lá em cima, a antena do prédio do jornal apagou, mergulhando o local na escuridão.
Ayla puxou Owen pelo braço e fez com que o rosto do rapaz ficasse mais próximo do seu
— Já deu tudo certo, Owen. Vamos dar o fora antes que os guardas cheguem.
De volta ao duto de ventilação após correrem um pouco, logo desapareceram na escuridão do subsolo. Owen corria ao lado de Ayla, mas com um sorriso bobo nos lábios. Ele havia conseguido. Eles haviam conseguido.
Depois de se embrenharem por locais desconhecidos, que só eles conheciam, Ayla e Owen estavam no topo de um prédio abandonado do outro lado da avenida. Olhavam para a rua abaixo, o sistema digital havia voltado a funcionar, mas a cidade nunca mais seria a mesma. As pessoas na calçada andavam devagar, sussurrando, tocando em seus Sintonizadores, com desconfiança.
Thomas estava acabado.
Owen olhou para as próprias mãos, sentindo a chuva fria bater em seu rosto. Ele não tinha seu status de volta, nem a sua conta bancária com alguns zeros ou seu Sintonizador. Mas, pela primeira vez em toda a sua vida, ele se sentia completamente real.
Ayla o olhou, e deu um sorriso rápido.
— Bom trabalho, 98.7. – e deu uma risadinha.
No subsolo do prédio, no entanto, o mundo era feito de graxa, cabos grossos e respiração presa.
Owen e Ayla avançaram pelos dutos de manutenção analógicos – canos desativados que o sistema digital da segurança ignorava por completo. Owen carregava nas costas uma mochila pesada contendo o “injetor”, o transmissor pirata de ondas curtas que ele mesmo ajudara a solar. Suas mãos não tremiam mais.
— O painel de distribuição central é bem a frente – sussurrou Ayla, cortando a grade de uma fresta de ventilação.
Eles deslizaram para a sala de força da antena principal. Logo acima deles, através do teto de vidro, era possível ver Thomas no palco externo. Ele estava com os braços abertos, transmitindo seu discurso vitorioso diretamente para o córtex da população.
— É agora. – Owen falou, tirando o injetor das suas costas.
Com cabos jacaré pesados, ele conectou o dispositivo analógico diretamente nas saídas de fibra óptica que alimentavam o transmissor principal da torre. Com isso, seu plano seria um sucesso.
— O sinal do Thomas está no ápice. O sistema está sobrecarregado de conexões, se ligarmos agora, o rebote vai ser intenso. – alertou Ayla, de olho em um medidor de pressão analógico. – Temos exatamente trinta segundos antes que o firewall deles queime nosso disjuntor.
Owen sentia-se ansioso. Era como se fosse o primeiro dia de aula, ou o primeiro dia de trabalho. Era como se fosse a primeira vez viajando de avião. Era uma ansiedade com um friozinho na barriga que queria vir a ter mais vezes.
Ele segurou com firmeza na grande alavanca de ferro do transmissor pirata. Olhou para o teto de vidro e viu Thomas sorrindo, acreditando que havia o apagado da história para sempre.
— Três... dois... um. – Owen puxou a alavanca.
CLACK.
Lá em cima, no palco, o sorriso de Thomas congelou.
Em toda a cidade de Nova York, o brilho azul dos Sintonizadores atrás das orelhas das pessoas piscou furiosamente mudando para o vermelho estático. Um som que aquela sociedade nunca havia ouvido antes – o chiado violento e cru de uma rádio analógica – explodiu diretamente dentro da cabeça de milhões de cidadãos.
CHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH—
E então, no meio do estático, a voz de Owen ecoou. Não a voz filtrada e harmoniosa de antes, mas a gravação bruta, real e incontestável do arquivo confidencial, revelando a voz de Thomas planejando a fraude, o desvio de créditos e o assassinato do seu sócio.
Thomas cambaleou para trás no palco, cobrindo as orelhas com as mãos, os olhos arregalados de puro pavor ao perceber que o som não vinha de caixas acústicas, mas dentro do seu próprio crânio.
A multidão nas ruas parou instantaneamente. O transe coletivo da “harmonia” foi quebrado. As pessoas começaram a olhar umas para as outras, e depois para o palco, com expressões confusas sem seus rostos.
— Vinte segundos! O sistema deles está tentando isolar o sinal. – gritou Ayla.
— Deixa mais um pouco. – Owen acrescentou.
Nos últimos cinco segundos, a gravação terminou e Owen pegou o microfone físico do transmissor, falando diretamente com toda cidade.
— Meu nome é Owen Lewis. Vocês acharam que podiam me deletar porque pararam de me enxergar. Mas a verdade não precisa de permissão para existir. Nós estamos aqui embaixo. E nós não vamos mais ficar calados.
BOOM.
O injetor explodiu em uma cortina de fumaça cinza, derretendo os circuitos. Lá em cima, a antena do prédio do jornal apagou, mergulhando o local na escuridão.
Ayla puxou Owen pelo braço e fez com que o rosto do rapaz ficasse mais próximo do seu
— Já deu tudo certo, Owen. Vamos dar o fora antes que os guardas cheguem.
De volta ao duto de ventilação após correrem um pouco, logo desapareceram na escuridão do subsolo. Owen corria ao lado de Ayla, mas com um sorriso bobo nos lábios. Ele havia conseguido. Eles haviam conseguido.
Depois de se embrenharem por locais desconhecidos, que só eles conheciam, Ayla e Owen estavam no topo de um prédio abandonado do outro lado da avenida. Olhavam para a rua abaixo, o sistema digital havia voltado a funcionar, mas a cidade nunca mais seria a mesma. As pessoas na calçada andavam devagar, sussurrando, tocando em seus Sintonizadores, com desconfiança.
Thomas estava acabado.
Owen olhou para as próprias mãos, sentindo a chuva fria bater em seu rosto. Ele não tinha seu status de volta, nem a sua conta bancária com alguns zeros ou seu Sintonizador. Mas, pela primeira vez em toda a sua vida, ele se sentia completamente real.
Ayla o olhou, e deu um sorriso rápido.
— Bom trabalho, 98.7. – e deu uma risadinha.
FIM!
Nota da autora: Sem nota!