10. ivy

Codificada por: Sol
Finalizada em: 15/04/2026


• ATO ÚNICO

“(...) Você sorri do absurdo do seu sonho e ao mesmo tempo sente que no encadeamento desses absurdos encerra-se um pensamento qualquer, mas um pensamento já real, algo pertence à sua vida verdadeira, algo que existe e sempre existiu em seu coração; é como se o seu sonho tivesse lhe dito algo novo, profético, esperando por você; sua impressão é intensa, cheia de alegria ou tormento mas no que ela consiste e o que lhe foi dito — nada disso você consegue compreender nem recordar”.


DOSTOIÉVSKI, F. O Idiota..

_____________________________________________________________________________________________


• ATO ÚNICO.

ENTRE JOGAR-SE DA JANELA E REBOLAR NO BANHEIRO PARA NÃO PULAR DA DITA JANELA, o envelope pesado, carmesim com pequenos detalhes dourados e marfim, foi disposto sobre a mesa com descuido e indiferença por um dos estagiários do jornal; certamente não poderia ter sido Conrad¹ a fazê-lo. Misturou-se com páginas soltas de anotações, caligrafia bagunçada e por muito quase impossível de ser lida — Baba teria ficado consideravelmente decepcionado se descobrisse que ele havia se tornado um jornalista enxerido e não um médico como sua letra desastrosa lhe predizia; uma premonição que deu errado, uau, que original —, os copos descartáveis de café que se acumulavam no canto, e as impressões feitas mais com o único propósito de gastar o toner de tinta e atormentar Logan² da forma que ele conseguia — imprimir 60 cartazes de “se vir este homem, não dê nem água”, soava a piada perfeita para atormentar o amigo. A princípio o olhar dele apenas passou pelos papeis espalhados sem enxergá-los de fato, o sétimo copo de café em mãos estava beira de transbordar e quaisquer menores movimentos poderia ser um risco imediato para, não apenas derrubar e manchar sua roupa — que já tinha uma mancha de semana passada que ele passara mais tempo do que deveria tentando limpar por ter feito exatamente o que estava tentando evitar no momento — , ou pior, perder sequer uma gota que fosse de café.
tinha muitas coisas, mas ele nunca desperdiçava café.
Dizia-se que o corpo humano era feito de 70% de água, e uma parte de sua mente tinha uma meta bem clara e precisa em relação isso: certificar-se de que nele os 70% de água fossem compostos por café, igualmente — o que de certa forma o colocava em um paradoxo, com a certeza de que entraria rapidamente em algum ciclo vicioso canibalístico se isso fosse verdade. O ponto era: café. E as prioridades de sempre foram bem específicas: café, e então ele poderia lidar com o resto. E se ele não tivesse um ataque cardíaco até às sete da noite então ele poderia ter certeza que seu dia estava completo — existia sempre a possibilidade de entrar em algum tipo de mania pelo o excesso de cafeína em um corpo exausto e viciado, mas bem, não era como se ele fosse maluco o suficiente para fazer algum absurdo muito grande; algumas ameaças e incentivos a insurreição nas redes sociais que acabaria com ele banido? Claro, por que não? tinha um estranho prazer em incentivar o caos ao redor apenas pelo prazer de assisti-lo acontecer; correr pelado pelas ruas da cidade? Jamais, nunca faria isso em um episódio de mania causada por uma quantidade excessiva de cafeína em seu sistema.
Foi somente quando havia terminado o sétimo copo considerando pegar o oitavo, e sentado de volta em sua mesa para trabalhar na matéria a ser publicada aquela semana, que sua mão esbarrou na pilha de papeis para revisar, e com isso, a queda quase imediata do envelope pesado. Thud. Acompanhado do sobressalto causado pela contínua necessidade de manter-se alerta, a cabeça dele voltou-se para onde o barulho havia partido, sobrancelhas unidas e os lábios pressionados em uma linha fina, tensa. Os olhos repousaram primeiro no amontoado de papeis acumulando-se no chão, a exasperação decorrente da necessidade de organizá-los todos outra vez, quando ele já estava atrasado para cumprir sua meta do dia, mas então repousou no envelope carmesim pesado e de aparência cara. Tomou-lhe em suas mãos com uma ponta de desconfiança, considerando o que diabos poderia ser. Repassou em sua mente, diversas vezes, de onde aquele envelope poderia ter vindo, tentou lembrar-se de rostos e nome que certamente não lhe enviaria convites, quiçá, algo tão elegante assim, por uma fração de segundos considerou ser uma retribuição a sua contínua caçada contra Logan. Imaginou se não era uma pegadinha e quase riu considerando o que diabos o idiota poderia ter feito.
Logan era muitas coisas, mas sempre havia tido certeza de que não era lá tão brilhante assim para tentar enganá-lo. Louise³ por outro lado… mas então seus olhos repousaram no nome gravado cuidadosamente contra o material poroso e de gramatura alta. As curvaturas da caligrafia elegante, os nomes que encontravam-se ali: Manson Reeves e . Puta merda… a reação foi imediata, a descarga gélida de adrenalina que correu por seu sangue foi o suficiente para o fazer sentir como se tivesse acabado de levar um golpe. Não era uma muralha emocional desabando sobre sua cabeça, não era como se estivesse sentindo algo em seu peito se desfragmentar outra vez, pequenos pedaços desabando como uma chuva de estilhaços pelo caminho, uma âncora pesada enroscando-se em sua perna, mantendo-o submergido no vazio que sempre havia o perseguido; era apenas uma sensação esquisita de ter levado um golpe certeiro no rosto — algo que ele não era exatamente contra, dependendo do contexto —, um tapa estalado que faria com que seus dentes se chocassem e sua cabeça fosse lançada para o lado, mas não mais que isso. Uma sensação amena, mais contida, que ainda era permeada por uma nota de choque, uma nota de descrença e até mesmo irritação. Não porque houve uma época que ele tivesse considerado tal ideia — não porque houvera um momento no passado que ele considerou que ele poderia se casar de fato; não houve, e provavelmente nunca haveria uma casa para , ele havia feito as pazes com essa certeza a muito tempo —, mas pela simples audácia de ter recebido o convite de casamento.
Mas é claro que iria enviar o convite de seu casamento com algum idiota rico apenas para jogar sal na ferida aberta, um pouco mais, outra vez. pausou por um momento, sentindo-se estranhamente indiferente, amortecido, uniu as sobrancelhas, os cantos dos lábios repuxando-se para baixo ao girar o envelope pesado em suas mãos; era ainda uma ferida aberta? Porque não tinha tanta certeza assim de tal concepção. Apenas sabia o que havia feito: ele apagou ela de sua vida. Completamente. Bloqueou-a sem hesitação, não importou-se em recuperar seus pertences, a parte de sua vida que havia ficado naquele apartamento apertado que havia dividido com ela depois que havia a conhecido durante a Universidade. O apartamento pequeno, mas confortável, com discos de vinil antigos espalhados pelas paredes, poltronas e sofás de couro, e uma cortina de renda que mal cobria a janela inteira no quarto, o que, por um bom tempo, ele erroneamente havia permitido-se acreditar que poderia finalmente ver como sua casa.
Uma doce mentira, mas viera a tornar-se consciente, muito rapidamente, que ele tinha a tendência de mentir para si mesmo, apenas pela falsa esperança de acreditar que ainda possuía alguma salvação — ou talvez, fosse apenas o prazer silencioso de se autodestruir lentamente, com o único intuito de provar-se certo.
apenas desapareceu da vida de .
Ele tornou-se o fantasma que sempre havia sido. Não houve despedidas, não houve justificativas ou pedidos por uma segunda chance — pedidos por explicações, ou até mesmo o choro que ele havia sentido preso em sua garganta e que havia desaparecido em algum momento entre a percepção de que suas suspeitas estavam corretas, e a compreensão frustrante de que não havia nada a ser feito. O que estava feito, estava feito, não importava o quanto gritasse ou chorasse, a ferida havia sido aberta, a confiança quebrada e o machucado infectado. Não havia como consertar o que havia se quebrado, independente de intenção ou desejos, era inútil. havia descartado-a como se ela não passasse de um pensamento inconclusivo diante de uma fila na padaria, ao considerar ou não se deveria comprar algo a mais quando o dinheiro estava contado. Indiferente, frio, amortecido.
Irrelevante.
Havia acreditado que era isso que ela queria, também. Uma vez que o segredo dela estava exposto, uma vez que ele estava consciente de como ela havia o manipulado e usado em seu jogo doentio, como havia arquitetado meticulosamente as peças para que acreditasse na traição a fim de destruir sua amizade com Logan, só poderia considerar que o trabalho dela estava feito, e que ela não precisava mais dele. De que eles poderiam fingir que aquilo nunca havia acontecido; que nunca haviam se conhecido em um dia chuvoso e caótico, que ela nunca havia acertado-o com um tapa doloroso que o atormentava por dias, que ele nunca havia esperado do lado de fora da sala de aula dela, com um copo de Latte de caramelo porque ele passou o dia sentindo-se culpado e queria desculpar-se, que ela não havia arruinado Happy Together do The Turtles para ele permanentemente porque era o que ela costumava a murmurar no chuveiro, no ouvido dele, pelo apartamento inteiro, que não havia uma vida inteira sussurrada entre risos e grunhidos em plena madrugada quando nenhum dos dois conseguia de fato dormir — piadas que era descartadas com um riso abafado ou um empurrão fraco, provocativo; a cidade que iriam mudar-se uma vez que se formassem, o apartamento, não teriam filhos, mas tinha dois nomes bem específicos caso houvesse um acidente, que tipo de cachorro iriam adotar. E de fato, nada disso havia acontecido.
Não de verdade.
Tudo não havia passado de apenas uma mentira bem elaborada e cuidadosamente arquitetada por . Havia arrasado-o de uma maneira impressionante, todavia, algo que ele não considerava ser possível desde a noite do incêndio; havia arruinado quaisquer miseras esperanças que genuinamente acreditava ainda restar para si mesmo. Ela havia feito um bom trabalho, e isso, deveria ter bastado certo? Não havia ganhadores na época, mas se havia alguém que tinha se saído muito bem, havia sido . E, por alguns anos, tivera certeza de que ela havia seguido em frente sem um mísero olhar para trás. É claro, ele havia se esquecido de que ele havia a bloqueado de tudo, e não tinha hesitado em aceitar o emprego em um jornal em Chicago. E a vida havia seguido; ele não havia pensado nela nem mesmo por um segundo, não havia sentido falta ou considerado os erros do passado.
Então ele havia retornado para a cidadezinha que havia nascido, havia decidido enfrentar os demônios que estava correndo a tanto tempo, e focar na praticidade de fazer um trabalho bem feito; sua prioridade sempre seria satisfazer seus clientes. Ele não sabia ao certo quando aconteceu, se havia sido entre a perda de seu celular na biblioteca municipal, ou a noite pós natal, bêbado e irritado com a quantidade de vezes que precisara desligar e ligar seu novo aparelho celular que ele apenas resetar todas as configurações para fábrica, mas em algum momento, ele passou a receber ligações de números aleatórios.
nunca havia sido o tipo de pessoa que atendia ligações, normalmente ele apenas iria assistir as ligações piscarem a frente de seu aparelho celular, e, uma vez que tivessem desligado, mandaria uma mensagem “o que foi?” como se nada tivesse acontecido — isso não alterava o fato de que ele ainda ficava terrivelmente ofendido quando alguém fazia isso de volta; não era porque ele fazia algo que os outros poderiam igualmente, ele sempre havia sido hipócrita assim. Talvez ele estivesse ainda um pouco bêbado, ou talvez, fosse apenas a impaciência por estar continuamente ignorando ligações, mas ele havia atendido. Havia levado um minuto para reconhecer a voz.
Estava pronto para recusar a ligação com um tom afiado e sarcástico, tentando enfatizar que ele não tinha interesse em comprar nada no momento, quando ela o xingou daquele jeito único e totalmente que o prendeu no lugar. De repente tudo desapareceu ao redor de , o externo tornou-se abafado, seu coração martelou contra a caixa torácica, expandindo-se com um tremor, a sensação de lascas de gelo correndo por suas veias enquanto os dedos apertavam com mais força do que deveria o aparelho celular, o fez quase envergar-se para frente. Precisou escorar-se na bancada, tudo tinha inclinado-se ao peso que a voz do outro lado da linha carregava. Não foi porque ele havia tido um momento de epifania, não foi algo que vinha de algum sentimento restante, algum sentimentalismo ou até mesmo nostalgia por ela, o choque que espalhou-se por seu corpo, prendendo-o no lugar, roubando com facilidade sua respiração, não era derivada de memórias que voltavam a superfície como corpos em um lago putrefato, era simplesmente a surpresa e a frustração pela audácia. A audácia dela de ligar para ele, de estar tentando entrar em contato com ele depois de quase oito anos sem vê-la de fato, depois de genuinamente tê-la esquecido.
Depois de determinar-se a corrigir seus próprios erros, a finalmente deixar o ressentimento no passado e seguir em frente. Ao aceitar as desculpas de Logan, e reconhecer que, de certa forma, também possuía culpa, também havia reagido da forma errada e atribuído uma culpa a Logan que ele não possuía. Ele havia se ressentido de Logan por tanto tempo, culpando-o pela forma com que o amigo havia lidado com a situação, ao contratá-lo para investigar toda a bagunça que havia feito. Ele havia acreditado na projeção pessoal que havia criado sobre Logan, e quando Logan havia cometido um erro, não havia hesitado em culpá-lo, em torná-lo o vilão, porque sempre havia precisado de um culpado para atribuir culpa e odiar, se não era muito fácil ceder a própria culpa que o consumia desde que era pequeno. Desde a noite do incêndio que havia destruído sua família, que havia o deixado sozinho em um mundo cruel, apático e frustrante. Ele se conhecia bem o suficiente para admitir, com amargor e relutância, que a atitude de Logan havia sido a única forma que realmente o fez acreditar. Se ele não tivesse sido contratado para investigar toda a ramificação de manipulações que havia acreditado, se ele não tivesse lido as conversas, tirado as fotos e ouvido os encontros com o oponente de Logan, não teria acreditado de fato. Ele teria encontrado uma justificativa, ele teria encontrado uma forma de compreendê-la, de até mesmo oferecer ajuda. Porque sempre havia agido como se fosse o número dele; a única pessoa que lhe restava em um mundo desorientador. Mas ele havia visto quem de fato era, e havia explodido na única pessoa que não tinha nada haver com aquela situação: Logan. Justamente quando estava disposto a parar de fugir, quem liga para ele?
Se a ironia do universo não lhe tornava palhaço outra vez.
— Que porra ! Será que não dá para me ouvir? Só uma vez! Você me deve isso! — A voz de havia soado estranha, meio frustrada, meio embargada, o suficiente para sobrecarregar os sentidos de e o fazer desligar no mesmo segundo. Soltou o aparelho celular como se estivesse queimando seu rosto, sua mão. Por uma fração de segundos ele cambaleou, desorientado, chocando-se contra a pia, sem conseguir desviar os olhos do aparelho. Havia se iluminado outra vez, como estava fazendo nas últimas semanas, o mesmo nome. de novo, insistente e impossível de lidar.
Depois deste erro, as ligações de se tornaram mais insistentes. as bloqueava, número por número, apagava mensagens de texto sem ler, excluía um por um das mensagens de voz, categorizou como spam os e-mails que recebia. Não mencionou nada a ninguém, porque o faria? Dizer que estava sendo assombrado pelo fantasma de , já era o suficiente para deixá-lo em um estado de alerta, como se estivesse esperando a primeira palavra para começar a rosnar. Como se estivesse esperando o momento certo para simplesmente explodir, para gritar e acusar — mas o faria, outra vez, com a pessoa errada. Ele não podia arriscar trazer este assunto à superfície com Silena4 ou Logan. Silena muito provavelmente iria querer entender a situação, os detalhes que recusava-se a contar — porque se ele se atrevesse a pronunciar as palavras em voz alta, então a vulnerabilidade ocultada a mais de sete palmos de armaduras, distância emocional, sarcasmo e uma profunda necessidade de tirar pessoas do sério, de tê-las reagindo a ele apenas para ter certeza de que estavam o vendo, tornava-se real, tornava-se inescapável —, ela iria insistir, ele iria se sentir encurralado, acabaria desencadeando aquela parte de autoproteção de sua mente que sempre insistia em transformá-lo em um cachorro, rosnando alto, e expondo os dentes; não queria arriscar, não queria perder a última família que ele ainda tinha, de um passado que o corroía de dentro para fora não importava para quão longe ou quão rápido pudesse ir. E Logan…
Bem, quase poderia ouvir a voz do amigo, as perguntas que faria, as indicações que não queria ter que enfrentar, exatamente o que não desejava responder. Não hoje, não amanhã, talvez nunca. focou em viver sua vida normalmente, como se não houvesse um monstro projetando-se por trás de sua cabeça a cada vez que ouvia alguma notificação em seu celular, a cada vez que virava seu rosto e sua visão periférica capturava uma presilha colorida, um tom avermelhado, um rosto similar. Convenceu-se que era a paranoia, que era a falta de resposta ou encerramento — mas porque diabos encerrar algo? Qual era o ponto de dizer palavras e adeus quando o que já havia sido feito foi o encerramento? Era insuportável e fazia com que desejasse poder se rastejar para fora de sua própria pele.
Considerou jogar o celular pela janela duas vezes, mas a ideia de ter que tirar outro em menos de um mês, sem nem ao menos ter pago a primeira parcela, foi o suficiente para o fazer simplesmente adotar a opção de deixar o celular no modo “Não Perturbe” e fingir que havia esquecido-o em casa com maior frequência do que deveria. Mas é claro que não era o tipo de pessoa que se ignorava, e que eventualmente ela encontrou não apenas o endereço de seu apartamento no centro da cidade, como igualmente, o endereço de seu trabalho. E se fazia questão de ignorar e jogar no lixo qualquer carta que ela poderia enviá-lo em seu endereço, ele não poderia escapar do que recebia em seu trabalho. Não quando o olhar de Conrad repousava na pilha de trabalho atrasado e encontrava a porra de um convite de casamento — gostava de acreditar que ele era muito ético, que ao menos sua característica de redenção era essa, mas se a desgraçada de sua ex continuava mandando mensagens pessoais para seu ambiente de trabalho, então toda sua postura profissional era questionada.
Não teve muito cuidado ao abrir o convite, pegou o canivete velho e um pouco enferrujado de Baba, cortando o papel de qualquer forma, apenas pela curiosidade mórbida de ver o que diabos poderia ter escrito ali. “Convidamos você para presenciar a união deste casal apaixonado”? E desde quando amava algo se não a ela mesma? Ou então seria “Neste momento tão importante, nós desejamos a sua presença para comemorar conosco”? Ambas as frases soavam não apenas clichês mas estranhamente ridículas. possuía uma perspectiva pessoal bem específica em relação a casamentos, ele não era exatamente o tipo de cara que enxergava como um ato de amor, mas sim um gesto do que de fato era: uma transação econômica. Uma troca judicial que acabava sempre em uma grande dor de cabeça. Quer dizer, você precisava estar muito maluco para envolver a igreja e o estado em um relacionamento.
Não ficou surpreso ao ver que, no convite havia exatamente as palavras de sua segunda suposição, não ficou surpreso ao observar os detalhes delicados florais que enroscavam-se no material poroso e espesso marfim, o convite preciso, feito a mão, as letras impecáveis cobertas por dourado — talvez fosse ouro mesmo, quem poderia saber? era esse tipo de pessoa mesmo; o tipo que gostava de coisas boas, e sinceramente, nunca a julgaria por isso. Ou a data do casamento, 25 de Janeiro, seu aniversário — que coincidência, huh? Foi especificamente a caligrafia espaçada, forte e em tinta azul, destoando como um dedo podre do restante do convite, como se feita às pressas e em um impulso, no verso do convite que o pegou desprevenido.

“Uma última vez, . Você não precisa olhar no meu rosto, só uma última vez. Na capela. Preciso falar com você. É urgente”.


congelou no lugar. A sensação estranha de que havia estática em seus ouvidos, sua garganta pareceu apertar-se enquanto os ombros latejavam. Havia de repente um peso insuportável crescendo em seus ombros, empurrando-o para frente, sua cabeça congelou no lugar, tentando processar o que diabos aquilo poderia significar. Estreitou os olhos, ignorando a maneira com que sua pulsação martelava por seus ouvidos, abafando tudo ao seu redor, fazendo-o ter a sensação insuportável de que estava sendo lentamente arrastado pelo oceano; para baixo, para o vazio, para a familiar angústia que o acompanhava. O polegar traçou sem enxergar ao certo as letras pressionadas de , não por nostalgia, mas por uma tentativa de convencer-se de que aquilo era real. Que depois de oito anos, ela ainda conseguia infiltrar-se em sua vida, e destruir quaisquer progressos que ele poderia ter feito.
Respirar era como inspirar fogo, queimava por sua garganta, secava e contraindo-se com o peso das palavras e da raiva montante que voltava à superfície. Trincou os dentes com um pequeno estalo, a mandíbula tensa, permitindo-se fincar os dedos no material e rasgá-lo da melhor forma que conseguia. A gramatura espessa não tardou a mostrar-se um inconveniente, enquanto ele havia conseguido rasgar o material e jogá-lo na lixeira abaixo de sua mesa, não fora sem um pequeno preço: o corte entre seus dedos latejava ao ritmo de sua pulsação, acelerada e errática. fechou os olhos por um breve momento, tentando obrigar-se a esquecer do que havia acabado de ler, tentando empurrar de volta o fantasma de para o fundo de sua mente, como havia feito a oito anos atrás, e mantê-lo novamente ali. Ignorou o impulso de simplesmente pegar suas coisas, enfiar em uma mochila e dirigir ao mais rápido
Focou, então, no pragmatismo de seu trabalho. Como sempre.

•••


Já passava das duas horas quando finalmente desistiu de dormir.
Grunhiu baixo, entre dentes, acertando um tapa no travesseiro e então rolando para o lado, afundando na cama e enterrando o rosto em suas mãos. O relógio na cabeceira, uma relíquia dos anos 90 que ele havia achado no galpão de seu avô ao norte da cidade, marcava 2:40, o que na linguagem que ele havia se habituado deveria ser 2:30, considerando que Baba sempre adiantava o relógio por dez minutos para evitar atrasos. Ainda tinha pelo menos mais umas três horas para tentar dormir, e embora a exaustão sempre fosse uma boa forma de conseguir cumprir tal meta, não conseguia parar de pensar.
Uma parte de si estava desesperada para convencer-se de que não havia sido quem havia tirado seu sono; e de certa forma, talvez não fosse. O nome havia tirado seu sono, tinha rosto e endereço, era muita areia para seu caminhãozinho, definitivamente não deveria ter passado a ocupar tanto espaço em sua mente assim, mesmo que ele não tivesse conseguido livrar-se da presença da ruiva ao fundo de sua mente. Haviam inúmeros motivos para que ele mantivesse distância; inúmeras justificativas, inúmeras razões plausíveis e pragmáticas que deveriam ter sido o suficiente para ele mantê-la a pelo menos um braço de distância, mas não serviam de nada. finalmente estava começando a admitir a si mesmo que havia se tornado exímio na arte de ignorar seu bom senso quando precisava.
De quem você lembra quando olha para mim — Collette5 havia dito, em uma brincadeira estúpida que ele havia se arrependido por ter começado, e ele queria ter mentido. Queria ter dito: ninguém. Queria ter desconversando com alguma piada, mas a necessidade de dizer a verdade, quando ele havia crescido em uma casa de mentiras…
E tudo, mais uma vez, voltava a .
Mesmo quando ele não desejava, mesmo quando não fazia sentido, ainda estava ali. Ainda encontrava uma forma de rastejar-se por baixo de seus ossos e sufocá-lo com sua presença invisível. Oito anos ele tivera para esquecê-la, e havia feito um ótimo trabalho com isso. Agora, justamente agora que ele finalmente estava conseguindo enterrar o ressentimento, ela parecia retornar a cada cinco e cinco segundos. A porra de uma mosca pairando na carne putrefata que , muito conveniente, havia parado de enxergar.
Um grunhido alto reverberou do fundo de sua garganta, os dedos agarraram-se com maior brutalidade do que deveria na pele sensível de seu rosto, como se pudesse arrancar sua face, seus olhos, seus ouvidos, sua mente de si mesmo; como se a ideia de punir a si mesma fosse mais acalentadora do que a ideia de admitir que precisava de algum tipo de ajuda — qualquer tipo de ajuda. No fim, exalou baixo, sentando-se devagar na própria cama. Os olhos perderam-se na coberta azul escura, apertando os lábios.
A memória intrusiva retornou como fazia todas as noites.
Ele sentiu arrastar-se por sua pele como unhas, não afiadas o suficiente para quebrar a pele, para arrancar sangue e fazer arder, mas pressionando com força o suficiente para serem notadas. Estava ficando mais difícil de reconhecer quando começava. A pressão que partia ao centro de seu peito, como um torniquete, deliberadamente sendo entortado até o limite, seu coração martelando contra a caixa torácica como um pássaro preso em uma gaiola agitada, parecendo dobrar de tamanho, empurrando os pulmões para trás, sufocando-o. A garganta seca, parecia estar em carne viva, sensível a qualquer mísero movimento, raspando, ao mesmo tempo que contraia-se, controlando a passagem de ar até que não houvesse nenhuma. O que era estúpido, porque ele sabia que conseguia respirar, sabia que era um truque de seu cérebro, que a prisão que acreditava estar preso não passava de palavras, mas ele ainda conseguia ouvir.
Os gritos que o seguiram quando ele agarrou o bracinho magricela de Elijah, como seus dedos haviam se ficado com tanta força no braço do irmão mais novo, que de tanto puxá-lo para continuar correndo, havia acabado deslocando o membro. Ainda podia ouvir a dor e o medo na voz do irmãozinho, como ele estava soluçando para que “parassem”, ele ainda podia sentir o gosto metálico e ferruginoso do sangue escorrendo por sua língua, ele ainda podia sentir como seus ouvidos havia se amortecido, como o gelo parece crescer por seus membros, aprisionando dentro de seu próprio corpo quando o arrastaram para vala. Ele ainda lembrava como as moscas haviam pairado sobre o que havia sido Elijah; os membros espalhados, a carne manchando o chão, o sangue seco a tempo o suficiente para ter coagulado no lugar, como lembrava-se da coloração repugnante e amarelada do tecido interno, de órgãos que ele nunca havia visto para além dos livros de biologia na escola, como os olhos vagos de Elijah havia voltado-se para cima, e como as moscas repousavam em sua boca entreaberta, esvaíram-se de suas narinas ou apenas atracavam em seu olhar parado.
Levantou-se com um impulso quase fugitivo; saltou para fora da cama, as pernas enroscando nos lençois e desabando no chão com um grunhido baixo. Foi apenas ao chocar-se contra o assoalho de madeira escuro e derrubar parte de sua mesa de cabeceira que percebeu onde diabos estava. Os olhos haviam ficado nublados por uma fração de segundos, a respiração, difícil de manter, tornava-se mais e mais audível a seus ouvidos, fazendo-o perceber que estava hiperventilando. Não havia lágrimas, mas havia uma dor insuportável espalhando-se por seu peito, o suficiente para fazer suas mãos ficarem amortecidas, pequenas formigas espalhadas pela pele como se estivessem determinadas a arrancar-lhe o mínimo que conseguiam, pequenas agulhas pontuando sua pele de maneira ritmada e descoordenada o suficiente para tornarem-se desorientadores. Não conseguia sentir os pés ou sequer fechar as mãos em um punho.
Apoiou-se contra a lateral da cama, sua cabeça pendendo para trás, enquanto acertava a parede mais próxima com uma única intenção: ritmo. Acertou o drywall com força o suficiente apenas para fazer barulho. Um. Dois. Três. Um. Dois. Três. Fechou os olhos, concentrando-se na escuridão e não no peso do corpo de Elijah sobre o seu, não na maneira com que a terra havia sido jogada sobre seu rosto na vala cavada, não nos gritos de seu avô ou no cheiro insuportável de carne queimada — churrasco nunca havia sido sua comida preferida, de qualquer forma. Focou apenas na escuridão de suas pálpebras, tentando contar quantas vezes batia na parede. Tentando concentrar em controlar sua respiração, mesmo que seu peito estivesse em chamas.
Não sabia dizer por quanto tempo havia ficado ali, sentado, na escuridão de seu quarto, batendo na parede enquanto tentava aliviar o peso que havia se formado em seu peito, mas deveria ter sido algumas horas, porque quando alçou seu celular, já havia passado das 4 da manhã. Tenciona a mandíbula, deixando-se pesar contra a lateral da cama, ignorando como o material gélido do metal que compunha a estrutura estava fincando-se em sua pele nua. Bateu duas vezes na tela do celular, observando o aparelho se iluminar e por um segundo considerou a quem poderia chamar. Um riso nasalado, abafado e amargo não demorou-se a surgir ao fundo de sua garganta. Não havia ninguém. Não tinha mais ninguém naquele mundo que pudesse ajudá-lo; ninguém a quem ele poderia ligar quatro da manhã e implorar para que viesse encontrá-lo, implorando para que apenas o escutasse mesmo que fosse meros segundos. Alguém que escolhesse segurá-lo quando sentia que estava em queda livre a tanto tempo.
A certeza de sua solidão era uma amarga segurança, mas um lembrete exato e doloroso de tudo o que ele já havia perdido. De tudo o que ele continuava a perder, de tudo o que ele nunca teria.
Exalou baixo, esfregando as têmporas doloridas, o incômodo espalhando-se como ondas elétricas por seu cérebro, tornando o ato de piscar incômodo, mas como sempre, ignorou. Se a dor não lhe servia de algo, se não uma distração. O suficiente para clarear sua mente e o manter preso no presente; não em uma memória distante de um pesadelo que nunca conseguiria vencer.
Esfregou com as unhas seu couro cabeludo, e então voltou a olhar para seu celular.
Número desconhecido. Outra vez.
Ele sabia quem iria estar do outro lado. Ele sabia que deveria apenas desligar e bloquear, mas talvez fosse o horário, talvez fosse a tristeza profunda que não conseguia escapar, ou talvez fosse apenas o desejo de autopunição, autodestruição que havia tingido seus pensamentos, mas ele atendeu. Contra todas as razões e motivos que ele poderia ter para ignorá-la, contra todos os desejos de enterrá-la de vez, contra todas as vozes que continuavam a martelar por seu ouvido que ele não deveria abrir aquela caixa de pandora. “De quem você lembra quando olha para mim?” . Ninguém. Ninguém além de você mesma…
— Precisa parar com isso — sua voz havia soado baixa e rouca, irregular o suficiente para explicitar uma vulnerabilidade que não sentia confortável em exibir com ninguém, mas então, igualmente nunca havia o amado de fato, talvez ela até mesmo o odiasse de certa forma. O ódio era bom, era confortável, era esperado. Ele sabia como lidar com isso. — Ou vou reportar você para a polícia e acredite, ordem de restrição será pouco do que vou pedir. Talvez se eu ameaçar expor você, seja um bom argumento para me deixar em paz?
Uma longa pausa do outro lado da linha quase fez rir. Clássica , que sempre que conseguia o que desejava, automaticamente perdia o interesse pelo objeto de sua atenção. Era como lidar com uma criança pequena, o spawn de atenção diminuído a poucos segundos, e talvez, durante esses segundos qualquer pelúcia ou brinquedo pudesse se sentir especial, adorado e necessário, mas não tardava a desaparecer completamente quando o próximo atraia sua atenção. Ouviu algo do outro lado da linha, uma rua agitada, estreitou os olhos, impedindo de imaginar onde diabos ela poderia estar — uma mansão? Não, ela não era exatamente o tipo de pessoa que combinava com uma mansão, a porra de um triplex no topo do prédio mais caro da cidade? Agora sim parecia mais a cara de . Ele sentiu um gosto amargo, sorrindo consigo mesmo. De certa forma, feliz por como tudo havia acabado, ele jamais conseguiria dinheiro o suficiente para viver em uma cobertura.
— Você não vai fazer isso, .
— E como você sabe? — murmurou, tencionando a mandíbula com força o suficiente para fazer um pequeno músculo saltar. — Tenho motivos o suficiente, e acredite, iria adorar acabar com a sua reputação, talvez até mesmo o seu casamento.
Essa foi a vez de rir. Um riso nasalado e desdenhoso, quase divertido. Que merda ele estava fazendo às quatro da manhã falando com a maldita ex que havia o arruinado por completo?
— Não me diga que de repente ficou ciumento? Você nunca foi esse tipo — murmurou e sua voz havia reassoado como aquele maldito ronronar que sempre havia o atormentado; antes conseguia fazê-lo desistir de uma briga mesmo que relutante, agora lhe causava naúsea. Escorria por sua pele como algo pegajoso, nojento e insuportável, fazia-o querer arranhar a pele até que estivesse em carne viva, longe do alcance de . — Casamento é apenas um negócio, .
— É por isso que está assim tão desesperada para falar comigo? — disse sem ocultar o sarcasmo em seu tom de voz, e a memória vívida de como ela se encolhia toda vez que ele usava aquele tom o fez estremecer, frustrado. Uma careta e o bom senso gritando por sua mente para que ele desligasse, para que encerrasse aquela conversa antes que pudesse fazer mais alguma idiotice, mas sua curiosidade era maior. Ao menos queria entender o que diabos ele poderia ter agora que parecia tão interessada em recuperar. Não era dinheiro, ele ganhava bem o suficiente para conseguir se sustentar sozinho, mas ainda era um jornalista investigativo de um jornal em uma cidade pequena, é claro que ele não ganharia muito. Não eram bens porque eles haviam morado juntos por um tempo durante a faculdade, mas havia deixado tudo para ela, mesmo sua coleção de cartas havia ficado com ela, provavelmente descartadas no lixo ou em algum galpão antigo, talvez ela até mesmo tivesse as vendido no e-bay, como ele poderia saber? Não era igualmente por ele, ela estava noiva, e apesar de tudo, não era o tipo de mulher que se questionava ou ficava indecisa, se havia algo que ela queria, ela ia atrás, conquistava e tomava para si. deixou um riso baixo, grave reverberar ao fundo e sua garganta sem conseguir conter o próprio humor. — Por favor, me diz que não tem uma criança de quase oito anos querendo me conhecer agora.
Desta vez, quando riu, se encolheu.
Ele havia se esquecido como ela soava quando ria de fato, não aquele som estridente e desdenhoso que ela costumava a soltar apenas para marcar presença em uma conversa. Foi um riso real, que ele costumava a ouvir quando fazia algum comentário idiota sobre a mobilia ou sussurrava algum plano estúpido, mirabolante em seu ouvido. Apertou os lábios deixando seu olhar vagar, sem enxergar de fato a janela; ele queria dizer que ouvi-la rir havia causado-lhe alguma reação, que havia se encolhido com dor ou seu peito havia se aquecido com o afeto. Uma parte de si queria sentir isso outra vez, nem que fosse por um momento, com a última pessoa que ele deveria estar conversando, mas não havia nada, apenas a familiar apatia.
— Há-há, engraçado, você queria.
— Não com você — e a sinceridade foi tamanha em sua voz que se silenciou por dois longos minutos antes de soltar um riso desconfortável, mais baixo, quase um fungado. Não era uma ideia particular, era uma ideia geral. não seria um bom pai, ele não havia sido um bom filho, e muito menos um bom irmão, e ela sabia, mas ele achou curioso como esse fator ainda a era algo capaz de ofendê-la. Talvez ele realmente desejasse fazê-la se sentir culpada, fazê-la se sentir pequena e não o suficiente; talvez estivesse sendo mesquinho.
Mas bem, que diabos tinha alguma expectativa sobre ? Nem ele possuía.
Ouch! não respondeu, então pigarreou, tentando limpar sua garganta, tentando manter o tom de voz controlado quando ele podia perceber o tremor em sua voz. bufou, desacreditado, não era possível era? Ela havia se sentido ofendida pelas palavras dele? Ah sim claro, mais um jogo emocional.
— O que você quer, ?
— O que o faz pensar que eu quero algo? Eu tenho tudo o que preciso, uma carreira, um futuro marido, uma vida planejada… — começou a dizer e empertigou-se. Aí estava, o que ele desconfiava que iria tentar fazer. Vangloriar-se como se estivessem em uma competição quando sequer havia se disposto a aparecer para a corrida.
— Adeus, .
— Espera! ! Espera! Não é isso! — fechou os olhos com força e considerou que, se ele apanhasse em algum momento daquela semana, ele certamente teria merecido, porque estava sendo idiota demais por continuar a entreter . Ele não soube dizer ao certo o que havia o feito hesitar e não desligar a ligação como ele sempre fazia; se era a escuridão do quarto projetando-se pela sua visão periférica, carregando as correntes pesadas de seu pesado, como um condenado sussurrando ao pé de seu ouvido toda a culpa que ele carregava, o sangue que manchava suas mãos, ou se havia sido o próprio desejo autodestrutivo de relembrar a dor que já havia sentido, de sentir qualquer coisa que não fosse a apatia presa em seu peito, mesmo que fosse negativa, mesmo que fosse os cálidos tentáculos da raiva que espalhava-se por seu sangue toda vez que pensava em e tudo o que ela havia feito. Ela estava ofegante, e trincou os dentes com um pouco mais de força; não havia sentido para que estivesse ofegante naquela ligação, não havia sentido para que ela estivesse assim tão desesperada para falar com ele se não fosse por algo. Agora, o que? — Por favor, por favor , eu sei que… olha eu sei que eu estraguei tudo! Eu sei que você deve me odiar agora…
— Não odeio — admitiu com indiferença, e mais uma vez, ouviu-a se silenciar por um longo momento. Exalou baixo, esfregando o próprio rosto começando a ficar impaciente. Aquela conversa era inútil, não iria a lugar algum e eles sempre voltavam para o mesmo ponto. — , eu não odeio você.
— Não? — Ela bufou desacreditada, mas a voz tremula quase o fez grunhir com impaciência. Era por esse motivo que ele não gostava de conversar após um problema, as pessoas tendiam a confundir sua indiferença com aceitação, com uma possibilidade, e detestava ter que explicar que não havia possibilidade, que sua indiferença não era uma concessão apenas o que era. Sem subtrair ou adicionar.
— Oito anos . Tudo acabou no momento que você escolheu me usar. Não odeio você, porque não penso em você. O que quer que você esteja procurando aqui, não vai encontrar — ponderou, pronunciando palavra por palavra como se houvesse uma grandiosa necessidade interna de sua parte de fazer-se entender corretamente. — Estou falando sério sobre a ordem de restrição. Fica longe.
— Quer dizer que você, , seguiu em frente? O cara que guarda ressentimento de uma bala negada quando tinha seis anos, finalmente superou isso? Você já mentiu melhor, — a provocação acertou exatamente no nervo que estava controlando para manter oculto e distante.
estreitou os olhos, ouvindo o tom venenoso na voz de , e quase sorriu ao perceber o que ela queria com aquelas ligações. Não era para expressar o quão bem estava, o quão realizada e segura estava agora, com o… qual era o nome dele mesmo? Não importava.
— É sobre isso então? Território? — acusou com um tom de voz quase debochado, rindo consigo mesmo. O silêncio de se estendeu outra vez, e negou com a cabeça. — Você vai se casar, , por que diabos está agindo como uma adolescente? A gente não tem idade para isso.
— Não é sobre mim ou você, ! — Cortou e revirou os olhos, tentando segurar uma risada. Poderia não ter sido, mas agora era, e uma parte mesquinha dele considerou as possibilidade, seria terrível de sua parte, mas a ideia de atormentá-la, ou ao menos fazê-la lidar com as consequências de suas ações lhe soaram no mínimo divertidas. Seria, no mínimo interessante observar como o noivo e futuro marido dela iria levar a notícia de que ela recebeu uma ordem de restrição por atormentar o ex dela. Certamente o amor iria perdurar, não é? Toda a baboseira do na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, ou qualquer que fosse a história. não era lá muito chegado nesse tipo de coisa.
— É sobre o que?
— Sobre o seu pai — finalmente disse e quaisquer traços de divertimento que poderiam pairar pelo semblante de desapareceram. Os olhos estreitaram e o corpo tencionou no mesmo segundo ao ouvir a menção a última pessoa que ele desejava de fato ter que lidar em sua vida. Jean-Luc não existia. Jean-Luc era um corpo enterrado em alguma vala sem nome no meio de uma rodovia e permaneceria assim até o dia de sua morte. Não importava o que diabos o maldito precisava, ou esperava encontrar, Jean-Luc não existia, não para . Parecendo satisfeita com o silêncio perturbado de , a voz de adquiriu uma nota de satisfação do outro lado da linha, a tensão apenas pareceu aumentar pelo corpo do homem, como um elástico esticado a seu limite. — Pensa nisso como um favor, , eu estou te fazendo um favor agora, e, mais para frente, você me retribui. Um bom negócio, para nós dois, e você sabe disso.
Ele desligou antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa.

•••


Rosas de uma tonalidade marfim, camélias de um vermelho vivo e algum tipo de flor pequena que parecia com pedacinhos de algodão formavam os buquês que enfeitavam as laterais da nave e os bancos reservados. Uma entrada abobadada cuidadosamente envolta com tecidos finos e marfim estendiam-se pelas laterais enquanto pessoas com roupas elegantes se acumulavam nos bancos da igreja, conversando entre si. Alguns rostos ele reconheceu, a irmã mais nova de , sentada em um dos bancos da frente, com um vestido adorável vermelho, e rosas marfim presas no cabelo; estava maior do que ele lembrava-se, provavelmente já com 14 anos, ou talvez 15, lembrava-se dela com seis anos, mas o rosto apesar de maior e crescido ainda possuía aquele mesmo franzir de nariz — até mesmo considerou especular o que diabos poderia ter acontecido com a menina, já que não havia nenhum sinal do pai de por ali, e sabia que o velho Paddy não perderia por nada o casamento da filha. Não era problema dele, de qualquer forma, piscou algumas vezes tentando manter uma expressão tranquila, e discreta, a cabeça baixa enquanto ele acompanhava alguns assistentes. Outros parentes de também se acumulavam em um pequeno canto a direita, mas em sua maioria os rostos eram desconhecidos, refinados e que pareciam ser o tipo de lugar que você facilmente encontraria algum tipo de esquema superfaturado ou então o princípio de um culto transfigurado com a desculpa de “bem estar” . Pessoas com dinheiro demais para gastar em somente uma vida.
Caia muito bem com , ele precisava admitir.
Era incrível como ninguém se importava em verificar credenciais quando você estava vestido apenas como um integrante do Staff. Sua desimportância, na maioria das vezes, era mais uma vantagem do que desvantagem se você soubesse como usá-la. Ele seguiu com os outros funcionários e organizadores até a mesa com os crachás, tomando um qualquer que pudesse usar, e então fingiu auxiliar com os sons da igreja. Os olhos percorreram o espaço por uma breve fração de minutos antes de seguir na direção da capela. Ajustou com uma ponta de impaciência a gola do uniforme roubado, tentando não fazer uma careta quando o material pareceu apenas cutucar um pouco mais a pele, como se os pequenos fiapos de linha, deslizando por sua pele não fossem o suficiente. Como se a sensação da etiqueta em sua nuca não fosse o suficiente. Manteve a cabeça baixa, acenou com sorrisos amarelos e inocentes, resmungou umas duas vezes que estava procurando o banheiro, em algum ponto teve que fazer o caminho reverso até que o olhar de um dos organizadores não estivesse mais sobre si, e então virou a direita.
Atravessou a passos rápidos o pátio de pedra e mármore com vasos largos de plantas e gramado cuidadosamente aparado — embora parecessem ser sintéticos. Virou a direita, subindo algumas escadas antes de empurrar uma das grandes portas duplas de ardósia. Deparou-se não com a capela, mas com a sessão de confessionário. Trincou os dentes, retirando seu celular do bolso e praguejando mentalmente. Era estupidez pura, ele estava pedindo por problemas, e embora ele realmente gostasse de causar e envolver-se em problemas, não desejava envolver-se em nada que estava diretamente relacionado com .
Mas se ela possuía informações de Jean-Luc… puta merda, ele podia sentir a dor de cabeça começar antes mesmo da dor. Tencionou a mandíbula com um pouco mais de força desbloqueando o celular e então buscando o nome “Não ligar” , clicando para ligar e então enviando uma simples mensagem “confessionário”. Ele não esperou que ela atendesse, apenas um aviso de que ele estava ali, considerando se seria a aparecer ou se ele havia caído em uma armadilha cuidadosamente planejada pela mulher para livrar-se outra vez de algum problema e a culpa cairia em seus ombros. Uma parte de desejava que fosse a segunda opção, talvez, se ele fosse para a cadeia ele aprendesse a ignorar o que deveria ser ignorado, e fingir que havia dado um jeito em si mesmo. Ele exalou baixo, apoiando suas duas mãos em seu pescoço, pendendo a cabeça para trás. Seu olhar vagou momentaneamente para o cubículo feito de madeira escura e cuidadosamente esculpida do confessionário no canto, as divisórias que separavam cada cabine em seu momento privativo, as portas trancadas para evitar quaisquer tipo de invasões desnecessárias. quase riu, ele teria o feito se a porta que havia passado alguns minutos atrás não tivesse sido aberta abruptamente por uma visão terrivelmente familiar e perturbadora.
era uma noiva deslumbrante.
Talvez fosse a maneira com que a renda agarrava-se ao seu corpo, uma delicada segunda pele contra os braços, o peito, ou talvez fosse a maneira com que o corset enfatizava a cintura fina e curvilínea, mas por uma fração de segundos, considerou se aquilo era realmente apropriado para um casamento. Ele inclinou a cabeça para o lado pronto para começar a dar suas incríveis opiniões sobre moda e porque o vestido dela parecia um exagero, ou como ela lembrava uma bala mal embrulhada, mas então os olhos intensos dele se voltaram para o rosto dela, e ele lembrou-se que, em uma época distante, ele havia amado ela. Os cabelos estavam soltos, elegantemente caindo por seus ombros agora em cachos grossos e bem definidos, a maquiagem, ainda que pouca, realçava apenas a beleza natural que ela sempre havia tido, os lábios estavam retorcidos em uma carranca exasperada, tensa, mas sua expressão ainda era segura. trincou seus dentes, estreitando os olhos, não era uma visão que iria assombrá-lo, mas naqueles cinco minutos, ele sentiu uma ponta de incômodo.
Um quase arrependimento pela forma como tudo havia acabado, uma pequena incerteza se ele havia feito mesmo a escolha certa, uma pequena frustração que não demorou muito a morrer quando ele obrigou-se a lembrar que ela não era alguém que ele conhecia. A versão de que ele conheceu havia sido fabricada, uma mentira cuidadosamente elaborada e enfeitada para conquistar o que bem desejava. A verdadeira , nunca havia conhecido.
E se assim era, não havia como sentir falta de alguém que você nunca conheceu.
— Branco? — pontuou com um sorriso torto, sarcástico. lançou-lhe um olhar enviesado, exasperada, mas não pareceu morder a isca. deu de ombros singelamente, cruzando os braços sobre o peito largo, como se precisasse de algum tipo de proteção contra ela. Como se precisasse construir uma muralha que a mantivesse do outro lado permanentemente.
— Está sozinho? — Ela sequer pareceu ter pensado na pergunta, lançando um olhar ao redor como se quisesse ter certeza de que não viera acompanhado. Algo ao fundo da mente de se acende em vermelho, uma nota de perigo tão gritante que ele sentiu os pelos de sua nuca e braço se arrepiarem. Merda, havia alguma pegadinha ali.
Ah, claro, porque vou arrastar Logan junto para isso, ele provavelmente choraria para assistir o casamento. balançou a cabeça tentando desfazer-se de seus próprios pensamentos, focando na mulher à sua frente.
— Parece que estou acompanhado? — ergueu uma sobrancelha, afiado como sempre. mordeu o interior de suas bochechas estreitando os olhos e fuzilando-o com uma expressão impaciente. sentiu uma ponta de satisfação ao ver que ela provavelmente havia se esquecido do quanto o odiava. Ótimo, ele faria questão de lembrá-la sempre que pudesse. — Tirando pelas vozes da minha cabeça, somos só nós dois, , o que, a propósito, é bem inapropriado — revirou os olhos, deixando seus braços desfazerem-se a frente de seu corpo, dando de ombros eloquente antes de caminhar em direção a um dos bancos, escorando-se ali. Porque onde havia um objeto, você sempre poderia ter certeza que encontraria uma forma de se sentar. Inclinou a cabeça para o lado observando como um gato, os olhos permitiram-se percorrê-la do topo da cabeça, onde uma delicada coroa parecia estar arranjada entre as mechas de seus cabelos, aos sapatos brancos; não porque estivesse admirando, ele estava buscando algo: uma pasta, um pendrive, qualquer coisa que ele pudesse ter certeza de que ela realmente queria entregar-lhe alguma informação de seu pai, o que, por si só, era estúpido em demasia. Por que diabos iria confiar em uma mentirosa como ? — Você não me chamou aqui para admirar o vestido, chamou?
forçou um sorriso, revirando os olhos, puxando a saia longa no estilo seria para trás, revelando uma perna elegante e curvilínea marchando em direção a ele. manteve o olhar fixo no rosto dela.
— Você nunca foi do tipo que aprecia coisas boas na vida, murmurou com um sorriso desdenhoso, familiar como a própria respiração cálida que acertava o rosto dele. não a empurrou, uma parte de si considerou o que o futuro marido dela pensaria se a visse assim tão perto dele. Uma parte de si queria a cena, apenas pelo prazer de destruir algo de , se não pela retribuição, pelo puro e simples prazer do caos.
— Só consigo apreciar originais, cópias me entediam.
inclinou a cabeça para trás, os olhos brilhando como se tivesse acabado de ganhar um jogo que sequer sabia que estava participando.
— Continua dizendo isso para si mesmo, talvez um dia você até consiga acreditar — deu de ombros, repousando uma unha afiada e em tom marfim como os dos arranjos abaixo do queixo de , fincando o suficiente para obrigá-lo a segurar seu pulso. O sorriso dela pareceu aumentar. — Ainda buscando fantasma em outros rostos, ?
“De quem você lembra quando olha para mim?”. viu vermelho. O aperto no pulso de aumentou, as unhas fincando-se na pele delicada coberta pela renda, enquanto ele obrigava-a a dar um passo para trás. Os olhos fuzilaram o rosto de como se buscassem respostas para perguntas que ele ainda não tinha consciência.
— Vá direto ao ponto.
Os olhos de brilharam, uma mistura de divertimento e zombaria.
— Toquei em um ponto sensível, huh? Me questiono o porquê — murmurou inclinando a cabeça para o lado, dentes pálidos demais exibindo-se em uma carranca que apenas inflamou um pouco mais a corrente sanguínea de . — ela sabe…?
— Cinco minutos — o tom de voz baixo, controlado, ocultava a frustração gritante que espalhava-se pelo peito dele. Os olhos queimaram o rosto de como brasas sobre a pele exposta, a promessa de retribuição esvaindo-se como veneno de suas palavras calculadas. — É só o que você tem antes que eu marchê por aquela porta e encontre o seu noivo. O que você acha que ele irá pensar quando descobrir que a futura esposa dele estava assediando o ex apenas para compensar o ego ferido? — inclinou-se na direção dela até que suas respirações se misturassem, sem desviar o olhar, a mandíbula trincada projetava um pequeno músculo em sua lateral, os olhos fixos nos dela, sem piscar. — O que você acha que ele irá pensar quando o oficial de justiça bater à sua porta? — bufou, desacreditada, mas ao menos tivera a decência de considerar a seriedade de . — Te esquecer foi a coisa mais fácil que fiz em minha vida, se eu fosse você, agradeceria por ser uma memória distante, você não quer saber até onde eu iria para me vingar de você. Viu? Pacifista, então vá direto ao ponto, você me disse que tinha informações sobre meu pai, estou aqui, cumpri minha parte, agora cumpra a sua.
bufou mas sua expressão tornou-se um pouco mais sóbria. Puxou com força seu pulso da mão de , dando um passo para trás, mantendo o queixo erguido por algum orgulho exacerbado. não resistiu apenas a deixou ir, mas não desviou o olhar da mulher.
— Você sempre foi muitas coisas, , mas cruel, não é uma delas.
— A gente nunca se conheceu de verdade, não tem porque fingir agora.
engoliu em seco, os olhos dele acompanharam o movimento de sua garganta quase por impulso. Trincou os dentes com força, voltando a cruzar os braços sobre o peito, esperando, silencioso, que ela finalmente lhe entregasse a informação. apertou os lábios em uma linha, o batom rosado ofertando-lhe uma inocência que ela de fato não possuía. Ela desviou os olhos do rosto dele, ajeitando a manga de seu vestido exasperada.
— Não tive escolha, sabia? — ela começou a dizer e algo sombrio pairou pelo semblante contido de . Os olhos se tornaram mais intensos, menos cautelosos, a raiva que projetava-se tornou-se fria, perigosa. Ele prendeu a respiração, mantendo-se parado no lugar, mesmo que seu corpo estivesse implorando para que ele deixasse aquela maldita igreja o quanto antes. A última coisa que ele desejava era ouvir as desculpas de ; não tiveram em oito anos, não teria agora. Ela bufou, soltando um riso nasalado, desprovido de quaisquer traços de humor. — Você quer bancar o moralista agora, mas teria feito o mesmo que eu se nossos lugares fossem opostos. A diferença é que eu teria tentado entender! Eu não teria desaparecido como a porra de um fantasma! Eu teria ficado e te dado uma chance de explicar! Eu teria escolhido você!
— Você escolheu — a voz de escapou afiada, como uma navalha, entrecortada como se o ar que ele estivesse prendendo escapasse em pequenos fôlegos erráticos por sua boca. Ele engoliu em seco, controlando o próprio temperamento; ele não iria explodir com ela, não após tantos anos depois, não depois de tudo, ele não a deixaria entrar em sua pele, rastejar por sua mente e fazer moradia outra vez. Aquela ferida estava cicatrizada e havia sido esquecida, não havia mais porque continuar naquele caminho. Inspirou fundo, apoiando as duas mãos nos quadris, virando-se na direção oposta de . exalou com força, fechando os olhos, frustrado. Incrível como todos sempre conseguiam obrigá-lo a fazer algo que ele não queria. Incrível como sua opinião, seus desejos, não pareciam importar mesmo quando algo insignificante acontecia. — Se precisava de ajuda você poderia ter me contado, não era você contra o mundo, éramos nós, contra o mundo. Você teve muitas chances de pedir ajuda, e todas as vezes você escolheu você mesma. O que você acha que eu iria fazer? — Voltou a encará-la, os dentes expostos em uma careta, fuzilando-a com o olhar. Os olhos de pareciam brilhar, marejados, ofendidos, mas não se importou. Aquilo era ridículo, ele estava ali, na merda de uma igreja, diante da ex que havia destruído quaisquer progressos emocionais que ele havia feito, discutindo um passado enquanto ela estava vestida de noiva a poucos minutos de seu próprio casamento. Puta merda, queria socar tanto ele mesmo… — Não nos compare, sempre deixei claro para você que mentiras eram meu limite, você sabia que a única coisa que não conseguia tolerar eram mentiras, e você não hesitou nem por um segundo. Eu apenas dei a você o que você queria!
O riso de apenas aumentou a tensão no corpo de .
— Ah, que nobre! — Ela negou com a cabeça, exasperada, antes de se silenciar com força. — Você fugiu como a porra de um covarde! Você me abandonou!
— E você não se importou! — sua voz aumentou alguns decibeis com a acusação, fuzilando-a com o olhar, e instintivamente dando um passo na direção dela. negou com a cabeça, incrédulo, encarando-a como se ela tivesse acabado de dizer que possuía duas cabeças e três pernas. Bufou baixinho, exasperado. — Oito anos, , e somente agora você decide infernizar minha vida?
apontou a unha afiada para o peito dele.
— Você perdoou o merdinha daquele amigo seu, porque é tão impossível você me perdoar? — A vulnerabilidade na voz de , embora tenha pairado como um sopro entre os dois, não foi o suficiente para convencer ou ao menos fazer hesitar.
— Porque você sabia sobre meu pai. Porque eu te disse tudo o que ele havia feito, as mentiras que ele contou, Logan não sabia de nada disso — talvez tenha sido a severidade das palavras de , ou talvez tenha sido a frieza que pairou pelo tom de voz baixo e controlado, ocultando a frustração cresce de que fizera encolher-se discretamente, ou dar um passo para trás, mas ela ao menos havia se silenciado.
Os olhos de desviaram-se outra vez do semblante pétreo de , encarando o assoalho de madeira claro da sala de confissões da igreja, uma mão repousando sobre o corset de seu vestido de novo enquanto inspirava pesado, profundamente, como se estivesse tentando controlar sua respiração. sentiu vontade de rir, ela estava tendo um ataque de pânico na frente dele? Puta merda, levou as mãos em direção ao próprio rosto, esfregando-o com força. Aquilo era um erro desde o começo, mas tinha que ir atrás, não tinha? Tinha que se lançar a merda do precipício sempre que vinha um.
— Eu amava você, .
soltou um riso desacreditado, deixando as mãos caírem de seu rosto e então encarou , fuzilando-a com o olhar. A cena de coitada, o lábio inferior trêmulo, nada disso parecia atravessá-lo mais. Se as ervas daninhas infiltraram a casa que ela havia construído, então, se agora, vinha a baixo, era culpa inteiramente dela.
— Nós dois sabemos muito bem que você não me amava, pronunciou-se vagarosamente, mas o tom afiado, contido, não desapareceu. — Você amava a atenção que tinha, o controle que tinha sobre mim.
— Você não pode estar falando mesmo sério, , eu não…
— O tempo acabou. Se divirta com o seu casamento, a cortou, sem ter certeza se o tempo de fato havia acabado ou não, ele apenas precisava sair daquele maldito lugar, ele apenas precisava colocar o máximo de distância entre ele e . O arrependimento era um veneno sádico que corroía vagarosamente, consumindo aos poucos mas nunca aparecia, e se ele não havia se arrependido de ter vindo até esta maldita igreja acreditando que ao menos teria alguma resposta do que diabos seu pai andava fazendo, se estava de volta a cidade, se havia ousado visitar os túmulos que ele havia cavado. Se tivesse tido a audácia de visitar o cemitério que ele enterrou dois filhos…
segurou o braço dele com força, os olhos arregalaram-se brevemente, o indicador erguido em um silencioso pedido quando fizera menção de puxar seu braço para longe do toque dela. Ele ainda assim o fez, não suportando a ideia de ser tocado pela mulher outra vez, mas não saiu pela porta. Sustentando o olhar dele, levou o polegar e o indicador, no formato de pinça em direção ao decote de seu vestido, capturando entre a fenda de seus seios o que pareceu um pendrive antes de estender na direção de . não fez movimento algum para pegar o pendrive a princípio, os olhos fixos no material escuro, e a marcação ali, JLL, e a data. Uma semana atrás, prendeu a respiração, unindo as sobrancelhas. Sua mente começou a correr a milhares de possibilidades, considerando o que diabos Jean-Luc estava planejando desta vez — porque sempre havia um plano, sempre havia uma vantagem, e sempre havia um dano colateral.
— Esse casamento não era o que eu queria, sussurrou quando pegou o aparelho eletrônico das mãos dela, os dedos enroscando-se ao redor do objeto, antes de enfiá-lo dentro da jaqueta. o segurou, mais uma vez, porém desta o toque foi menos urgente, mais gentil, quase capaz de enganar. Quase. Aproximou-se a passos hesitantes outra vez enquanto permanecia com o olhar voltado para o chão. Ele não a afastou como deveria, e sentiu-se estúpido por não o fazer. Talvez fosse alguma parte de si mesmo que estava tão faminta por um ato de gentileza que não conseguia desvencilhar mesmo que viesse de , ou talvez, fosse a parte destrutiva de sua mente, que sempre desejava ver até onde alguém iria para destruí-lo para aí então fazer algo. Provavelmente era a segunda. — Um casamento pequeno, em alguma capela qualquer, um apartamento no centro, próximo de uma livraria ou da biblioteca municipal, e uma cafeteira resistente… esse é meu casamento perfeito , por favor, se apenas me der…
trincou os dentes encarando-a em silêncio por um momento, então ele inclinou-se na direção dela.
— Parabéns pelo casamento — murmurou no ouvido dela, sarcástico, antes de afastar-se e sustentar seu olhar. Houvera uma época que olhar o desfazia, como se ele não passasse de um amontoado de linhas mal amarradas apenas a espera de um pequeno puxão. Uma época em que ele tinha certeza de que poderia encará-la por horas apenas admirando-a, apenas tentando memorizar cada um de seus traços como se sua vida dependesse disso. Uma época que ele teria sorrido, e inclinando-se na direção dela, roubando-lhe um beijo, lhe tocando a bochecha qualquer coisa que o pudesse fazer sentir sua pele, pudesse fazê-lo ouvi-la, rir, murmurar ou ter o mínimo de reação possível. Agora havia apenas indiferença; inquestionável e profunda como se ele estivesse observando uma estranha. Uma estranha que havia dividido a mesma cama, o mesmo espaço e vida com ele. Uma estranha que ele havia esquecido como o resfolegar após muito tempo embaixo d’água, apenas um sopro.

¹ Referência a um Personagem que não me pertence. Direitos reservados á: OffConrad (do RPG Green River)
² Referência a um Personagem que não me pertence. Direitos reservados à: OffLogan (do RPG Green River)
³ Referência a um Personagem que não me pertence. Direitos reservados à: OffLouise (do RPG Green River).
4 Referência a um Personagem que não me pertence. Direitos reservados à: OffSilena (do RPG Green River).
5 Referência a um Personagem que não me pertence. Direitos reservados à: OffCollette (do RPG Green River).

FIM!

Nota da autora: - amo o Remy, ele não tem UM neurônio bom (sim o Remy é MUITO inspirado no Remy LeBeau, o Gambit da Marvel E no Ekko de Arcane, só que mais burro). Alexa tocar: STEADY (link: https://open.spotify.com/track/4PZQtsDTNlq5hFWmdBb5xh?si=9927a67d2c58464e) da Bella Kay