10. Perfectly Perfect
Revisada por: Calisto
Finalizada em: 13/01/2026
CAPÍTULO ÚNICO
Nova York, Queens.
Peter Parker pedalava em direção a escola. Por diversas vezes, espiou o relógio em seu pulso, preocupado com o horário, tendo em vista que teria prova na primeira aula. Ele não era de se atrasar, no entanto, depois do que havia acontecido ontem, acabou dormindo demais.
Sabia que não havia sido um sonho pelo simples fato de que a sua mão grudava em tudo, no teclado do seu computador, na pasta de dente, no registro da pia, da ducha, o pacote de pão, de ovos, e só conseguia ouvir a voz da tia May pedindo que ele tivesse cuidado.
— Peter! Não esquece que você vai vir pra casa direto da escola e vamos ao bingo juntos! — Foi a última coisa que ouviu enquanto montava em sua bicicleta.
— Tá bom, tia May! — respondeu o garoto, a certa distância de casa.
O céu nublado não indicava chuva, apenas que o sol não daria as caras naquela terça-feira. Dia que veio depois da segunda-feira. Depois do dia que foi mordido por uma aranha no laboratório...
Freou a bicicleta, observando um ônibus escolar passar por si. Respirou fundo, o coração batendo em sua garganta e engoliu seco. Voltou a pedalar, só que dessa vez de forma mais lentamente, chegando ao destino alguns minutos depois.
Mais uma vez, checou as horas. E não estava atrasado.
Teve dificuldade em soltar o guidão, mas assim que o fez, alcançou luvas no bolso do seu agasalho e as colocou, mesmo não estando nenhum pouco frio para usar luvas.
Ao colocar os pés dentro da escola, Peter sentiu mãos em seus ombros. Momentaneamente fechou os olhos, mas respirou aliviado ao notar que era Ned.
— O que aconteceu ontem? — o amigo perguntou.
— Ontem? Ontem quando? — O garoto continuou a andar, na verdade, desviar dos outros naquele enorme corredor, cheio de armários.
— Eu te liguei. Lembra que marcamos de eu ir à sua casa montar aquele quebra-cabeça?
Parker ainda estava ofegante quando parou em frente ao seu armário, girou o cadeado e abriu, vendo uma foto dele com Ned em uma das feiras de ciências de anos anteriores.
— Desculpa. Jantei fora com a tia May.
— Tudo bem.
Era mentira. Desde que ele havia chegado do laboratório no fim da tarde, permaneceu em seu quarto, com um mal-estar horrível. Algo que nunca havia sentido antes. Tanto que, algum tempo depois, acabou dormindo. Ou desmaiando. Não fazia ideia.
— Pronto para o teste de Matemática? — Ned questionou assim que entraram na sala de aula com as carteiras dispersas em fileiras.
Algumas fórmulas estavam escritas no quadro. Algo que o professor sempre fazia antes de todo teste. Os alunos, aos poucos, foram se acomodando em seus lugares, no entanto, o mundo de Peter parou.
Para o garoto, era como se o sol entrasse na sala de aula. Seus olhos estavam nela, somente nela. caminhava, despretensiosamente, até o seu lugar de sempre. Seus cabelos estavam soltos e caiam sobre os seus ombros. Peter tinha certeza de que conseguia sentir dali o cheiro dos fios, amêndoas.
— Cara?
A voz de Ned o chamou de volta a Terra. Piscou, levando uma das suas mãos até a alça da sua mochila e segurou com firmeza. Deu um giro entorno do seu corpo, e se sentou o mais rápido que pode.
— O que houve? — o amigo perguntou num sussurro.
— Eu estava... olhando as fórmulas.
Ned franziu o cenho.
— Você olhando as fórmulas, Peter?
— Filha, você precisa se encaixar.
ouvia a sua mãe falar a respeito daquele assunto pela vigésima vez no mês. Ou a trigésima? A garota havia perdido as contas. Apenas enfiou uma panqueca na boca e pegou a mochila posta ao seu lado na mesa, em uma cadeira.
— Eu nunca vou me encaixar, tá bom? Eu não sou como elas. — A garota tentou falar mais alto, mas acabou engasgando-se, e dessa forma saiu da residência.
Foi o caminho inteiro, em direção a escola, pensando a respeito das falas da sua mãe. Desde o primeiro dia, há muitos anos, nunca havia se sentido parte. Era sempre uma amizade aqui, e ali, mas nunca parte total de um grupo.
Apressou os passos, pois estava atrasada. Ou era isso que ela achava. Nova York continuava caótica, eram carros e pessoas desesperadas para chegarem ao seu destino, que não se importavam com os outros. teve que se manter atenta ao atravessar alguns cruzamentos, pois em um deles um ônibus escolar passou velozmente diante dos seus olhos.
Chegou à escola com os cabelos bagunçados, e não se importou. Correu em direção a sala de Matemática, onde teria um teste em alguns minutos e entrou no local, atrás de alguns alunos. Tudo que ela queria era se manter apagada em relação aos outros, como se todos fossem coloridos, e ela, cinza. Sentou-se em uma carteira qualquer e deixou a mochila no chão.
— Peter?
O garoto se sobressaltou em frente ao seu armário e seus olhos foram em direção a voz.
— Liz, que susto! — Seu riso saiu fraco ao guardar alguns cadernos, e pegar a sua câmera.
— Você está pronto? Estão todos te esperando.
Enquanto engolia seco, Peter concordou com um aceno rápido ao fechar seu armário.
— Por que das luvas? Nem está tão frio assim. — Liz o olhou com o cenho franzido.
— É... — Abriu a boca para falar, e precisava de uma desculpa rápida. — Eu sou estranho. Sinto muito frio nas mãos. — A explicação foi básica, na verdade, era inteligente demais para aquele tipo de resposta. Engoliu seco ao ver Liz concordar, não sabia se havia acreditado ou não.
Mas não deu importância. Chegaram a uma enorme sala, com as carteiras grudadas na parede, o quadro negro em branco. Do outro lado, uma tela verde havia sido colocada em uma das paredes, com um banco bem desconfortável em frente.
Pelo menos era o que Peter achava.
— Consegue fazer as fotos para o anuário aqui?
Parker deu um aceno rápido com a cabeça, mesmo não tendo certeza. Teria que ajeitar as fotos mais do que o normal, pois a iluminação era péssima.
Mas ele queria muito mais do que ficar trancado em uma sala tirando fotos de toda a escola a tarde inteira. Ele queria vestir algo, e usar o que chamava de poderes para ajudar aos outros que precisavam. E, em Nova York, alguém sempre estava precisando de ajuda.
Os dias foram passando, e se tornaram semanas. Peter se desdobrava entre estar nas aulas, estudar com Ned, criar um traje, tirar fotos para o anuário e pensar em um jeito de falar com . Esse último estava no topo da lista do estudante.
Em um determinado dia de sol, enquanto Peter cortava caminho por um beco deserto, e comendo seu cachorro-quente, foi surpreendido de forma abrupta por um sedã escuro que não reconheceu de quem era. Franziu o cenho com a proximidade do automóvel, e seu coração bateu ainda mais rápido quando foi puxado para dentro do carro.
— Quem é você? Quem são vocês?
Era dia, mas Peter piscou algumas vezes e ainda segurava o cachorro-quente recém mordido em uma das mãos. O homem tinha um cavanhaque, e uma pequena barba bem aparada no queixo, os olhos escuros intensos e o cabelo impecável, num castanho escuro, perfeitamente arrumado, como se tivesse acabado de sair do salão.
— Peter Parker?
— Sou eu — respondeu em um fino de voz.
— Você deve saber quem eu sou. Pode parar — pediu, olhando para frente, mas logo voltou a atenção para o garoto.
Ele não queria dizer. Parecia surreal demais.
— Senhor Stark? — sussurrou.
— Você me conhece.
— O mundo te conhece. — Deu um risinho.
Observou o mais velho pegar algo no chão do carro, e seus olhos percorriam o banco de couro, em como a multimidia parecia ser de última geração, e...
— Você precisa disso. É incapaz de fazer o seu próprio traje. — Tony colocou o que parecia ser uma mochila menor na frente de Peter.
— Como? — O garoto franziu o cenho.
— Você vai entender quando abrir. Use-o, mas use-o para o bem, Peter. Eu vou ficar sabendo se você fizer alguma coisa errada.
Prendeu a respiração assim que Tony se aproximou de si. Levou uma das mãos até o ombro do outro, como se fosse abraçá-lo, mas um clique brotou em seus ouvidos e notou que a porta estava sendo aberta atrás de si.
— Achei que... — Peter ia falar.
— Guarda o traje e sai do meu carro. Vamos.
Parker notou o que havia feito, por isso arregalou os olhos e tratou de fazer o que era pedido. Saiu do carro em passos ligeiros, e tropeçando em suas próprias pernas.
— Obrigado, senhor Stark! — falou mais alto, ao se afastar do automóvel.
Tony olhou para baixo e percebeu uma mancha de mostarda em uma das suas camisetas favoritas.
— Eu vou matar esse garoto!
— Para onde, senhor?
movia o seu pé de um jeito frenético. Não conseguia parar de mexê-lo e seus dentes mordiam a tampa da caneta que usava anteriormente para fazer um desenho qualquer em seu caderno, durante a detenção. Não que precisava, mas ela gostava de estar em um local sozinha, imersa em seus próprios pensamentos, e principalmente fazendo o que mais gostava.
— Senhorita , você nem deveria estar aqui. — O professor, sentado imerso em um tédio surreal, a olhou.
— Mas eu...
— Vaza. — Ele apontou com o polegar para atrás de si, onde estava a porta.
Não pensou duas vezes antes de pegar as suas coisas e ir em passos atrapalhados em direção a porta. Ao sair para o corredor deserto, respirou fundo e uma mecha do seu cabelo se moveu.
Foi virar uma esquina no corredor e deu de cara com alguém. A colisão fez com que seu caderno caísse no chão, e assim que ela viu quem era, engoliu seco.
— Me desculpa, . Eu sou um completo idiota. — Peter se abaixou.
— Não tem problema, eu... — a garota fez o mesmo e riu — eu deveria ter prestado mais atenção.
Seus olhares se encontraram por longos segundos. Peter teve certeza do cheiro dos cabelos dela, e quis sorrir com isso. Os detalhes em seu rosto, em como seu nariz pequeno combinava perfeitamente.
E quis levar uma das suas mãos até o cabelo de Peter, acariciá-lo por quanto tempo julgasse necessário. Mas, tudo que fez foi se levantar e abraçar o caderno.
— Já acabou as fotos do anuário? — quis saber.
— Não. Não, ainda. Eu não te fotografei. Quem sabe é logo, né? — Parker sorriu, mas sabia que seu rosto estava vermelho.
A garota deu risada, e no mesmo instante levou uma das mãos até a boca. Ela tinha vergonha do seu sorriso.
Fez uma careta e olhou pra baixo.
— Quem sabe é logo. — Deu de ombros, não querendo parecer chata nem nada. No entanto, ela não sabia como se comportar perto dele. — Preciso ir. Nos vemos por aí?
— Sim, nos vemos por aí. — Foi tudo o que o rapaz conseguiu dizer.
Seguiu seu caminho, nem lembrando para onde estava indo. Ah, iria encontrar com Ned na biblioteca. Durante todo o trajeto, Peter não conseguia tirar o sorriso dos lábios, eles haviam conversado mais do que palavras básicas como: Oi, tudo bem, como vai?
Como já era fim de tarde, e não tinha mais aulas, a estudante decidiu vir para casa mais cedo a fim de adiantar os seus desenhos, já que se sentia inspirada depois de encontrar-se com Peter.
O sol passou vários dias longe de Nova York. Era o outono dando as caras, os moradores sabiam disso. optou por usar um gorro em uma manhã fria, mas, assim que pisou no corredor, seu nome foi chamado para as fotos do anuário. Um desespero genuíno tomou conta da garota.
— Se acalma, — falou para si mesma, enquanto caminhava em direção ao local.
Desviou de alguns alunos, a maioria deles estava com pressa para alguma coisa que ela não fazia ideia. E ao chegar na porta da sala, seu coração parou, ela veria Peter. Ele era o fotografo oficial da escola.
— Vai entrar ou não?
Virou seu corpo, vendo Liz, e apenas concordou. A garota passou a sua frente, abrindo a porta, e respirou fundo antes de fazer o mesmo, movimentou as mãos, de forma nervosa ao lado do corpo, como se seus músculos precisassem daquilo.
De longe, viu Liz se aproximar de Peter, que mexia em algo em sua câmera posta em um tripé, e falar algo com o rapaz que se virou e deu o melhor sorriso que poderia receber. Quis sorrir abertamente, mas apenas sorriu fechado.
— ! — Peter se aproximou.
— Parker.
Aqueles segundos voltaram. Aqueles segundos que nenhum dos dois dizia nada, em que eles ficavam apenas se olhando como se quisessem guardar os detalhes um do outro, para sempre.
— Não sei se posso fazer isso — a garota confessou ao desviar o olhar do dele.
— Isso? — Ele franziu o cenho. — Fotos? Mas você...
Foi a vez de franzir o cenho.
— Você é perfeita.
O coração dela parecia ter parado e voltado a bater do nada, só que de um jeito mais forte, tanto que chegou a doer. Engoliu seco, tentando disfarçar como havia ficado insuportavelmente calor naquele lugar. Mesmo com o frio lá fora.
— Pra mim você é perfeitamente perfeita — ele continuou, e prestou atenção em suas palavras. — Eu posso tentar te mostrar a forma como eu te vejo e, pra mim, , você é a garota mais bonita desse lugar. Você não precisa se encher de coisas para ficar bonita. Você é naturalmente bonita.
Será que todo mundo conseguia ouvir? Era o que pensava. Os batimentos do seu coração estavam tão altos que ela tinha sim certeza que as pessoas estavam ouvindo, mas disfarçavam.
Da mesma forma que o calor consumia o seu corpo, em como suas mãos agora trêmulas eram passadas em sua calça por conta do suor. Algo como uma curiosidade misturada a uma onda de coragem crescia em seu interior. Deu um passo, e uniu seus lábios em um selinho, ao fechar seus olhos.
tinha certeza de que Peter iria se afastar. Ele com certeza perguntaria o que estava acontecendo. No entanto, quando ele não o fez, e seus lábios continuavam grudados, a garota levou uma das mãos até o ombro de Parker, a fim de manter-se em pé, pois as suas pernas tremiam.
Assim que se afastaram, a garota abriu os olhos e pode notar as bochechas coradas do rapaz.
— , eu...
FIM!
Nota da autora: Sem nota!