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Codificada por: Sol
Finalizada em: 05/08/2025


CAPÍTULO ÚNICO

Londres era um palco natural para segredos. As ruas molhadas refletiam a luz dos postes como espelhos sujos, e a neblina transformava até os rostos mais conhecidos em vultos. gostava disso. Gostava de desaparecer entre casacos longos, óculos escuros e fones de ouvido sem música. Se alguém anos atrás alguém dissesse ou, apenas, presumisse que ela seria atriz, a mesma teria dado uma imensa gargalhada.

Porém, ali estava ela na première de um filme, no Leicester Square, que não era dela, mas era importante “ser vista”. Ela odiava isso. Ser vista por quem? Pela mídia que confundia fragilidade com escândalo? Pelos tabloides que transformavam silêncios em manchetes? Ou talvez por aqueles que insistiam em projetar nela uma versão de mulher que jamais existiu.

, a atriz promissora com os olhos mais tristes que já existiu.”

, a estrela que surgira do nada e parece carregar o peso do mundo em cada pausa dramática.”


isso, aquilo.

A narrativa que vendiam era mais interessante que a verdade. E, no fundo, ela sabia que nesse meio, a verdade não vendia ingressos.

A atriz caminhava devagar pelo tapete vermelho com um vestido preto minimalista contrastando com os brilhos exagerados ao redor. Seu sorriso era medido e os olhos escondiam cansaço e ironia. Flashes eram disparados como tiros. Seria cômico, se não fosse trágico.

— Você está linda senhorita ! — gritou um dos fotógrafos.

Ela respondeu com um aceno polido.

Linda. Um adjetivo fácil. Preferia ser chamada de enigmática, ou até de distante. Pelo menos essas palavras tinham intenção.

— Se quiser, podemos sair pelos fundos. — sua assessora, Diana, sussurrou, com a eficiência de quem já previu o colapso emocional da cliente.

— Por favor! — ela murmurou.

Diana tomou a dianteira por entre os bastidores, logo após o momento das fotos, guiando a loira por corredores apertados, cheios de caixas de equipamentos, fios enrolados e assistentes de produção que nem levantavam os olhos. Parecia loucura, mas se sentia mais confortável ali, entre os que operavam o show, do que entre os que flutuavam no centro do palco.

Ali ninguém fingia glamour.

Entraram em uma pequena sala e a assessora trancou a porta, logo em seguida. suspirou com alívio, como se a simples presença de uma tranca entre ela e o mundo lá fora bastasse para restaurar um pouco de sanidade que havia sobre dentro de si.

Diana se aproximou com um silêncio cúmplice, e pegou o sobretudo preto que havia deixado pendurado no encosto de uma cadeira. A peça escura, elegante e discreta, era quase uma armadura, o uniforme informal da quando precisava desaparecer. A assessora o segurou aberto, pronta para ajudá-la a vestir.

— Braços. — disse suavemente.

obedeceu sem hesitar, enfiando um braço, depois o outro. O tecido pesado caiu sobre seus ombros como um cobertor conhecido. Era o mesmo sobretudo que usava em seus voos, nas caminhadas solitárias pelos parques de Londres ou nas idas quase anônimas às cafeterias do Soho.

Nele, ela era quase ninguém. E isso era quase tudo.

Diana ajeitou a gola com cuidado, alisando o tecido com um gesto instintivo, da mesma forma que alguém arruma o cabelo de uma irmã mais nova.

— Obrigada. — disse, finalmente olhando para ela. — Odeio isso tudo.

— Eu sei. — respondeu, simples.

Por um momento, ficaram em silêncio.

— Você acha que eu deveria me importar mais? — a atriz perguntou, quase retórica.

A assessora sorriu com os lábios, mas não com os olhos.

— Eu acho que você já se importa demais. Só aprendeu a não demonstrar.

encostou na parede, cruzando os braços por dentro do casaco.

— Talvez seja isso que me salva. Ou o que me destrói. — deu de ombros. — Ainda não decidi.

Diana se recostou na borda da mesa estreita ao lado, sem pressa.

— Pode ser os dois. — gesticulou com uma das mãos. — Às vezes a gente sobrevive pelo mesmo mecanismo que depois vira nossa ruína.

— Dramática! — a loira soltou uma risada curta, revirando os olhos.

— Agora vem! Vamos antes que eles sintam sua falta. — disse, puxando a maçaneta de uma porta lateral, escondida atrás de um biombo improvisado com cartazes do filme.

Do lado de fora, o beco estava deserto, apenas um caminhão de produção roncava distante, encostado ao meio-fio. Holland deu um passo para trás, examinando a cliente como se quisesse ter certeza de que nada na atriz denunciaria sua fuga e depois conferiu os arredores com um olhar rápido de profissional experiente. Afinal, ela já havia feito aquilo outras vezes.

— Vem! Rápido! — a assessora cochichou.

— Você é a melhor Diana Holland! — agradeceu, abraçando-a.

— Eu sei! Agora vai logo! — ela sorriu, antes de fechar a porta e checar que ninguém havia as seguido.

Segundos após, a atriz estava escapando pela lateral do local, dobrando a esquina, com o vestido apertado sob o sobretudo preto, o cabelo meio bagunçando e o coração um tanto acelerado, como se já não tivesse feito isso outras vezes. Ninguém notou.

Exceto ele.

estava lá, escondido atrás de um táxi estacionado. Não era como os outros. Não gritava nomes, não disparava flashes cegantes. Ele observava. Calculava. Enquadrava. E quando se tratava de , precisava ser preciso, pois, de todos os artistas que ele já tinha fotografado, a loira era a única que conseguia desaparecer sem deixar rastros.

Ela havia saído pela porta de maneira rápida, quase coreografada. Era isso que ele admirava nela. O contraste entre o que mostrava e o que escondia. Uma atriz com olhos que imploravam para não ser olhados de verdade. Não conseguia entender como a mesma havia chegado tão longe.

A lente capturou um frame exato.

Um instante entre o fingimento e a fuga.

Não era invasão, ele pensou. Era registro. Era arte. Certo?

não era paparazzo. Não no sentido clássico. Era fotógrafo documental, já havia feito exposições em Berlim, Paris, Lisboa e entre outros lugares, mas, principalmente na Europa. Registrava sombras, silêncios, a beleza do não dito. Os famosos, em geral, imploravam para serem fotografados por ele, o peso de suas fotos era de um requinte diferente, pois, o mesmo não jogava sua arte em sites de fofocas ou redes socais, e, sim em galerias renomadas.

Seu trabalho, era um evento. Não costumava correr atrás de ninguém, também não escolhia seus alvos, apenas os encontrava por acaso e quando conseguia fotografar exatamente o que queria, sempre entrava em contato para pedir autorização do artista e, dificilmente conseguia um “não”, pois para estes era uma honra estar em uma de suas exibições.

Ou seja, não sabia que encontraria a atriz naquele momento, mas, quando percebeu quem era, não podia perder a oportunidade.

Ele abaixou a câmera lentamente com os olhos ainda fixos no ponto onde havia desaparecido. Sem pensar, conferiu o visor da câmera. A foto estava lá. , envolta em sombras, os olhos semicerrados contra o vento, o casaco preto se fechando ao redor do corpo como uma armadura. Ela era uma espécie de silêncio em movimento.

E isso era raro. Incontrolável. Puro.

Do outro lado da rua, a atriz parou abruptamente ao sentir um arrepio. Como se estivesse sendo observada. Virou-se instintivamente, procurando alguém pelo os arredores. O beco estava vazio e silencioso. Mas seu olhar encontrou uma sombra atrás de um táxi.

E, por um breve segundo, os olhos dela se cruzaram com os de .

Ele não desviou.

Não tentou se esconder.

Ela o viu.

E ele sorriu.

Não um sorriso invasivo ou convencido, mas algo discreto. Um gesto que carregava curiosidade e um estranho respeito. Ela deveria ter se incomodado. Deveria ter desviado o olhar, ignorado. Mas não conseguiu. Algo naquele homem, no modo como segurava a câmera, no modo como não se aproximava, a prendeu.

Ela franziu levemente o cenho, dando um passo hesitante na direção dele. Depois outro. Seus saltos tocavam o chão molhado como batidas calculadas de um metrônomo emocional. Quando finalmente estavam a poucos metros um do outro, ela parou.

— Você me fotografou? — a loira levantou as sobrancelhas, incrédula.

manteve a câmera pendurada no ombro com os braços soltos ao lado do corpo. Parecia calmo demais para alguém que acabara de ser pego em flagrante. A jaqueta jeans dele estava entreaberta, revelando uma camisa simples e escura. Ele parecia deslocado ali, e ao mesmo tempo absurdamente à vontade.

— Fotografei. — respondeu sem rodeios. — Você estava linda demais naquela sombra. Não consegui evitar! — explicou, sorrindo sem mostrar os dentes.

cruzou os braços e a fitou um tanto confusa, buscando algum traço de cinismo, algum sinal de que ele era só mais um oportunista. Mas não encontrou.

— Isso é invasão de privacidade. — disse, tentando rebater.

Ele assentiu levemente.

— Provavelmente, mas não foi com essa intenção...

— Ah! E qual seria sua intenção então? — ela o interrompeu, ainda indignada.

— Apenas capturar o momento, eu não achei que se importaria, eu iria contatar você...

soltou uma risada fraca.

— Então sabe quem eu sou? — a loira deu um passo à frente. — Para quem você trabalha? — questionou.

— Sim, eu sei quem você é, mas, não trabalho para tabloides. — retrucou. — Não vendo escândalos senhorita . — a encarou sério. — Só tento entender o mundo pela lente. E, às vezes, o mundo se resume a uma pessoa, numa esquina qualquer de Londres.

o encarou por alguns segundos, em silêncio.

Havia algo incômodo naquela sinceridade despretensiosa. Ela estava acostumada com mentiras bem embaladas, elogios vazios e intenções escancaradas. O homem à sua frente, com os olhos atentos e postura relaxada, não parecia carregar nenhuma dessas coisas. E talvez por isso fosse mais perigoso.

Ele não se mexeu. Apenas a observava. A loira sentiu o frio passando por dentro do casaco, mas era outra coisa que gelava sua espinha, talvez a sensação de estar realmente sendo vista. Não como atriz, nem como produto. Mas como mulher. Como pessoa.

— Você vai usar a foto? — perguntou, depois de alguns segundos.

inclinou levemente a cabeça, como se estivesse decidindo o que dizer.

— Só se você deixar. — respondeu, e foi sincero.

A atriz prendeu a respiração. Aquilo era raro. Tão raro quanto um pedido de desculpas genuíno em uma coletiva de imprensa.

— Pode me mostrar? — pediu, sem jeito, apontando com o queixo para câmera em seu ombro.

hesitou por um instante. Depois tirou a alça do ombro e ligou o visor. Tocou a tela algumas vezes, até encontrar o frame e girou a câmera em sua direção. Ela se aproximou, cautelosa.

E ali estava ela. , envolta pela penumbra, com a cidade desfocada atrás. O olhar meio perdido, meio atento. O cabelo esvoaçando com o vento. Era uma foto bonita. Mas não só isso. Era real. Não havia pose. Era como se tivesse sido arrancada de dentro dela, sem filtro algum.

— Você me fez parecer triste. — sussurrou.

— Eu não te fiz parecer nada. — ele rebateu sem agressividade. — Só capturei o que já estava ali.

Ela apertou os lábios, pensativa, e voltou o olhar para ele.

— E se eu disser que não quero que essa imagem seja usada?

— Então não será. — disse, devolvendo a câmera ao ombro, como se a questão estivesse encerrada.

Mas antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa, ouviu-se um grito ao longe.

! — gritou uma voz masculina, esganiçada e ansiosa.

A atriz se virou na hora.

— Merda! — murmurou, revirando os olhos.

também olhou na direção e viu dois homens dobrando a esquina com câmeras e celulares em punho. Um deles já apontava para ela, gritando seu nome como se fosse uma senha mágica.

— Temos que correr. — ele disse, pegando-a pelo pulso com firmeza, mas sem brutalidade.

Ela não resistiu. Em segundos, estavam correndo pela calçada molhada, desviando de sacos de lixo, pulando pequenas poças e ouvindo atrás de si os sons dos passos acelerados e dos flashes começando a pipocar como fogos.

conhecia Londres como ninguém. Dobrou à esquerda por um beco estreito, puxando com ele. A loira acabou tropeçando, mas ele a segurou antes que caísse. Pararam por um segundo encostados a uma porta de ferro, ambos arfando. Os gritos se aproximavam.

— Por aqui. — ele disse, apontando para uma escada de incêndio.

— Você tá brincando? —arquejou, olhando para os saltos altos.

— Confia em mim. — pediu, assentindo com a cabeça.

A última coisa que ela queria naquela noite era virar manchete por ter fugido de paparazzi com um cara “qualquer”. Mas, ao mesmo tempo, havia algo estranhamente reconfortante naquele homem e no caos que compartilhavam agora.

Sem mais palavras, tirou os sapatos, os segurando nas mãos como armas elegantes, e começou a subir os degraus frios de ferro atrás dele. O metal escorregadio rangia sob seus pés descalços, e a respiração dela estava entrecortada. Já subia com agilidade, como se tivesse feito aquilo mil vezes e talvez tivesse mesmo.

Quando chegaram ao terceiro andar, ele empurrou uma janela entreaberta com o ombro e estendeu a mão para ajudá-la a entrar. Ela agarrou os dedos dele, entrando em um apartamento pequeno e escuro, aparentemente vazio. O som da cidade lá embaixo ficou abafado no instante em que a janela se fechou atrás deles.

Por um momento, se sentiram aliviados.

— Você sempre sequestra atrizes? — ela perguntou, encostada na parede, ainda tentando controlar o ritmo do coração.

riu baixo, afastando uma cortina velha para espiar lá fora.

— Só as que correm bem.

lançou um olhar desconfiado, mas seus lábios tremularam num meio sorriso.

— Você sabe quem eu sou, mas, eu ainda não sei quem você é. — disse, encarando o fotógrafo.

. . — ele respondeu, ainda de costas para ela, espiando pela fresta da cortina.

... — ela sussurrou entre os lábios. — Eu gosto.

Ele virou-se devagar com o rosto iluminado apenas pela luz difusa da cidade entrando pela janela suja, sorriu e seguiu em direção para algum ponto daquele espaço. E logo, a luz se espalhou e só então se deu conta de onde, exatamente, estava.

O apartamento onde estavam era visivelmente um estúdio de artista. Quadros encostados em paredes, rolos de filmes antigos empilhados em caixas, um projetor antigo sobre uma mesinha, e livros espalhados por todos os cantos, sem qualquer tentativa de organização. observou o lugar com atenção. Não parecia armado, nem planejado. Era o tipo de refúgio de alguém que preferia a bagunça sincera ao arranjo perfeito.

— Me trouxe para sua casa? — a atriz perguntou, estreitando os olhos para ele.

parou no meio da sala, tirando a jaqueta com um movimento simples, sem pressa, e a jogando no sofá. A sua pele branca ficou mais evidente por causa do contraste da camisa preta que usava e não evitou morder o lábio ao observá-lo.

Ele era bonito. Muito bonito.

— Tecnicamente, sim. Mas não era esse o plano. — ele deu de ombros. — Foi o único lugar que pensei na hora.

Ela se afastou da parede e caminhou lentamente pelo espaço sentindo os pés, ainda descalços, sobre o piso de madeira gasta, como quem explora um território desconhecido. Deixou os sapatos sobre uma cadeira e logo depois passou os dedos por uma pilha de livros que se equilibrava perigosamente ao lado de um abajur.

— Tecnicamente? — questionou, referindo-se ao local.

— É onde trabalho. — respondeu. — Às vezes durmo aqui quando não quero ser encontrado.

— Entendo a parte de não querer ser encontrado. — ela murmurou. — Ao que parece você tem um talento estranho para estar nos lugares certos nas horas mais erradas. — o fitou de um jeito meio vulnerável.

— Ou ao contrário. — ele se aproximou, apoiando o ombro na parede próxima a ela. — Talvez hoje fosse a hora certa.

Ela arqueou umas das sobrancelhas.

— O que está tentando fazer ?

Ele sorriu, e desta vez havia algo de diferente em seu olhar.

— Nada. — respondeu ainda sem parar de sorrir. — Você sempre confia em estranhos assim? Eu poderia facilmente ser um stalker ou um serial killer. — questionou.

sorriu de canto, sem recuar, a poucos centímetros dele.

— Então agora seria a parte que você tenta me matar? — ela umedeceu os lábios.

— Só se for de curiosidade. — disse em um tom brincalhão.

Os dois riram por um momento.

ainda sentia a adrenalina pulsando sob a pele. Um calor morno se acumulava no peito enquanto seus olhos não deixavam os dele. O silêncio que se formou entre os dois não era desconfortável, mas, foi o primeiro a se mover. Se afastou levemente, apenas o suficiente para quebrar a tensão, e se locomoveu até um pequeno frigobar no canto da sala.

— Quer alguma coisa? Tenho vinho barato, chá ruim e uma Coca esquecida dos anos oitenta. — disse enquanto abria a porta rangente.

— Anos oitenta? — franziu o cenho. — O sabor deve estar bem apurado então. — falou com segundas intenções.

— Está falando da Coca ou de mim? — ele a encarou, desconfiado.

sorriu com os olhos.

— Talvez dos dois. — respondeu sem desviar o olhar.

arqueou levemente uma sobrancelha, claramente se divertindo.

— Você está flertando comigo ? — provocou de forma irônica.

— Depende. Está funcionando? — a atriz inclinou a cabeça, deixando o cabelo loiro cair sobre os ombros.

encostou-se à porta do frigobar com os olhos cravados nela como se tentasse decifrá-la por inteiro. Havia algo no modo como ela combinava a confiança afiada com uma doçura escondida. Algo que ele ainda não sabia nomear, era tentador.

Ela era jovem demais. Bonita demais. E, na cabeça dele, inalcançável demais.

Segundo as manchetes, havia outro homem. Mais novo. Mais rico.

Mas, ainda assim ela estava ali. Tão vulnerável e tão entregue.

— Está funcionando sim, . — respondeu com um sorriso, rendido.

Ela o encarou, em silêncio.

— O problema é que você ainda não sabe o que acontece quando provoca alguém como eu. — ele complementou.

— Ah, é? — ergueu o queixo com leveza. — E o que acontece, ?

Ele a observou por um instante longo. Então, sem dizer uma palavra, ele se afastou do frigobar e caminhou devagar até ela. Seus passos não faziam barulho sobre o piso antigo, mas o coração de parecia trovejar dentro do peito. Quando ele parou à sua frente, havia apenas centímetros entre seus corpos.

O fotografo ergueu uma mão e, com o dorso dos dedos, tocou suavemente uma mecha do cabelo loiro que caía sobre o ombro dela. O gesto não era ousado. Era delicado. Íntimo. O tipo de toque que pede permissão, mas também deixa claro que, se não for interrompido, vai atravessar todas as linhas.

apenas estendeu a mão e tocou o peito dele por cima da camisa e sentiu o calor da pele junto ao coração batendo rápido. Ele era real. Palpável. Nada como os homens cuidadosamente polidos que costumavam cercá-la. era cru, vivo, perigoso.

a puxou pela cintura com uma segurança mansa, sem pressa, como se ela tivesse estado ali desde sempre. Ela sentiu o hálito dele tão próximo que parecia poder absorver o mesmo. Os olhos de desceram devagar dos dela até a linha dos lábios, como se estivesse mapeando uma rota, e depois voltaram, em um aviso silencioso, como se quisesse dizer: se quiser recuar, agora é a hora.

Mas não recuou.

Na verdade, ela inclinou o corpo, ainda com a mão espalmada no peito dele, e ergueu o rosto levemente, como quem se oferece voluntariamente. A respiração dela estava baixa e os olhos esperando por algo que nunca acontecera antes em sua vida.

O beijo não foi imediato, foi antecedido por uma hesitação elétrica, como se ambos soubessem que o que estava prestes a acontecer não poderia ser desfeito. Os lábios dele roçaram nos dela com leveza. E ela arfou ao sentir a maciez dos mesmos. entrelaçou os dedos pelas madeixas loiras dela e a beijou.

Como se tivessem sido feitos exatamente para aquele encaixe.

Então, ele a beijou, abrindo levemente os lábios e tocando a boca dela com a língua, pedindo passagem. A atriz permitiu, respondendo com a própria língua, o encontrando no meio do movimento e levando a mão até a nuca dele, puxando-o com mais força. O corpo dele se pressionou contra o dela, colando os dois.

Ele explorava a boca dela com vontade, mas sem pressa ou brutalidade. retribuía com a mesma entrega, e em um gesto rápido retirou seu sobretudo e o deixou cair ao chão, revelando o vestido preto justo que até então estivera escondido sob o tecido grosso.

a segurou pela cintura e interrompeu o beijo delicadamente e seu olhar desceu por um instante, como se o mundo tivesse parado apenas para absorver aquela imagem. Ela estava descalça, de vestido, os cabelos bagunçados pela corrida, e o peito arfando. E mesmo assim, ou talvez por isso, parecia mais real do que qualquer imagem que ele já tivesse capturado com sua câmera.

— Droga, você é linda... — ele sussurrou com a voz rouca.

sorriu, um sorriso pequeno, quase tímido, como se não estivesse acostumada a escutar aquilo de um jeito que parecesse verdadeiro. Havia ouvido mil variações dessa frase em sets de filmagem, em entrevistas, em festas luxuosas de tapete vermelho. Mas quando saiu da boca de , naquele apartamento empoeirado, sem plateia ou iluminação profissional, soou como um segredo.

— Você fala isso como se eu fosse a primeira mulher bonita que vê. — disse um tanto irônica, mas havia uma pontinha de vulnerabilidade escondida entre as palavras.

— Não é. — assentiu. — Mas é a primeira que me faz esquecer por um instante que o mundo inteiro lá fora quer um pedaço dela.

A respiração de prendeu por um segundo. Havia um nó invisível em sua garganta. Naquele instante, diante de , ela não se sentia observada. Se sentia vista. Com um gesto quase impulsivo, passou os braços ao redor do pescoço dele e voltou a beijá-lo, mais urgente.

E correspondeu da mesma forma, apertando a cintura dela e guiando os dois alguns passos para trás até que as costas de encontrassem uma estante baixa cheia de livros desorganizados. Alguns caíram ao chão com o impacto suave, mas nenhum deles notou.

Os beijos desceram pelo pescoço dela, fazendo-a inclinar a cabeça e morder o lábio inferior. deslizou as mãos pelas costas nuas que o vestido deixava à mostra, sentindo cada curva e reentrância do corpo dela. Ele a ergueu pela cintura numa ânsia contida e a sentou sobre a estante.

o puxou pela camisa para mais perto, e ele voltou a beijá-la com as mãos explorando as pernas dela, que agora estavam levemente afastadas, oferecendo espaço para que ele se encaixasse entre elas. Os dedos de subiram pelas coxas dela e a mesma soltou um suspiro, curto e trêmulo, quando sentiu a mão dele alcançar a parte interna.

— Deveríamos ir para cama? — ele questionou.

— Você está falando sobre dormir? — a loira brincou.

sorriu.

— Acho que dormir é a última coisa que eu conseguiria fazer agora. — levantou as duas sobrancelhas.

deu uma risada fraca.

— Então o que está esperando?

Ele não hesitou. A pegou no colo com facilidade, como se ela fosse parte dele, e a carregou pelo corredor estreito até o quarto. O espaço era simples, não havia muita coisa além do colchão sobre um estrado de madeira, uma janela entreaberta deixando entrar a luz tênue dos postes da rua, e algumas molduras encostadas na parede, fotos que o próprio havia tirado ao decorrer de sua carreira.

a deitou com cuidado, como se o próprio toque fosse celestial. o observava com os olhos entreabertos, as bochechas ainda coradas. Ele tirou a camisa lentamente, e ela notou algumas marcas pequenas, cicatrizes discretas, mas reais. não era feito para o palco. Ele era feito para os bastidores, para aquilo que acontece quando ninguém está olhando.

Ela se sentou brevemente na beirada da cama e as mãos dele deslizaram pelo vestido, subindo devagar até as alças finas que seguravam o tecido sobre os ombros dela. Ele esperou. E ela assentiu com um olhar, o ajudando a retirar a peça, que deslizou pelos braços, deixando à mostra os seios pequenos e redondos e a calcinha preta de renda.

Ele não disse nada, mas viu — sentiu — a maneira como ele a olhava, como se estivesse diante de algo precioso demais.

— Me deixe tirar uma foto, por favor! — ele suplicou.

— Eu...

— Pode esconder os seios se o problema for esse. — disse, a interrompendo sutilmente.

Ela hesitou por um instante.

— Ficaria com raiva se eu dissesse que não? — indagou, ansiosa.

— Claro que não! — ele se aproximou um pouco mais e levou a mão ao rosto dela, acariciando com o polegar a curva da bochecha. — Mas, seria um pena perder uma foto sua. — fez uma careta, fechando um dos olhos.

— Você já tem uma foto minha senhor . — ela inclinou a cabeça.

— Poderia ter uma galeria inteira, não seria suficiente senhorita . — resmungou, com um sorriso de canto.

— Só me conhece há uma hora e já quer uma galeria inteira? — riu, incrédula.

— Esse é meu trabalho sabe? — falou, sarcástico. — Saber quando algo vale a pena ser eternizado. — a encarou.

Ela suspirou com um brilho diferente no olhar.

— Se eu deixar... — começou.

— Vou pegar a câmera. — sinalizou para ela, sem evitar o sorriso.

deu-se por vencida, mesmo sem ter terminado de falar. Sentia-se estranha, mas, de um jeito bom. Não sabia explicar. Há mais ou menos dois anos odiava ser fotografada, de qualquer maneira. As vezes até com seus fãs era algo difícil de fazer. E de repente, ela estava seminua no quarto de um estranho que fazia exatamente isso, tirava fotos.

voltou com a câmera pendurada no pescoço, mas dessa vez, ao contrário das inúmeras vezes que já tinha visto uma lente apontada para ela, não havia pressa, nem direção, nem expectativa. Ele se aproximou com a calma de quem sabe que o tempo é parte do processo, como se aquela imagem estivesse se formando no ar antes mesmo de ser capturada.

— Você poderia tirar a calça né? — fez um bico, manhosa. — Estou seminua, ficaria mais à vontade se fizesse isso. — disse, em um tom divertido.

— Foi daqui que pediram um strip-tease? — ele perguntou, fazendo uma dancinha.

jogou a cabeça para trás e riu, uma risada que não se ensaia, e que poucas pessoas no mundo já tinham escutado de verdade. sorriu também, mas com uma pontada de fascínio. Era como se cada nova expressão dela fosse uma descoberta.

Ele soltou o botão da calça jeans devagar, mantendo o olhar fixo no dela, como se fosse um jogo silencioso entre os dois, e era. A forma como desceu o zíper com teatralidade arrancou mais um riso abafado de , que se acomodou melhor entre os lençóis desalinhados, deitando de lado, com o braço dobrado debaixo da cabeça, observando cada movimento dele como se fosse o primeiro de uma peça que não queria perder.

— Quem diria que fugir de uma première seria tão vantajoso para mim. — ela disse.

terminou de tirar a calça, jogando-a em algum canto esquecido do quarto, e se aproximou da cama, com a câmera ainda pendurada no pescoço. Sentou-se na beirada com o corpo voltado para ela, e os olhos fixos em cada linha que o olhar conseguia alcançar. Ele não levantou a câmera imediatamente. Apenas ficou ali, observando.

— Foi vantajoso pra mim também. — ele respondeu, com a voz mais baixa. — Não achei que fosse encontrar alguém... assim.

arqueou uma sobrancelha, divertida.

— Assim como?

— Descalça, descabelada, deitada na minha cama como se sempre tivesse pertencido a ela. — disse, quase sem pensar.

Ela não respondeu de imediato. Apenas estendeu a mão e puxou-o delicadamente pela alça da câmera, aproximando-o até que os rostos quase se tocassem.

— Cuidado, senhor . — murmurou. — Dizer esse tipo de coisa para uma mulher como eu pode te deixar preso comigo por mais tempo do que planejou.

Ele riu baixo, um som rouco que vibrou contra o silêncio denso ao redor deles.

— Eu aceito o risco, senhorita . — ele sussurrou, sendo sincero.

Ela soltou um suspiro, enquanto sentia o toque dele ainda pendurado na alça da câmera, segurando-a com cuidado. Por um momento, ambos ficaram assim, presos naquela pausa íntima. Então, finalmente levantou a câmera, ajustou a lente lentamente, deixando o clique ser uma extensão do silêncio que compartilhavam.

— Pronta? — perguntou, com um sorriso tímido, ainda com o rosto tão próximo que podia sentir a respiração dela.

Ela assentiu devagar, com um leve curvar de lábios, e voltou a se deitar na cama, dessa vez de costas com os cabelos dourados espalhados sobre o lençol amassado. Um dos braços cobria os seios parcialmente, e a outra mão repousava sobre o ventre, com os dedos levemente entrelaçados. E as pernas estavam cruzadas distraidamente.

a observou através da lente, mas por um instante esqueceu de apertar o botão. Aquela não era apenas uma fotografia. Era um momento raro, um instante que não se repetiria, onde a atriz desaparecia e — a mulher por trás de toda fama, de todos os personagens — finalmente existia, nua de expectativa e desarmada de qualquer papel.

Ele recuou apenas o suficiente para emoldurá-la no visor. fechou os olhos. Respirou. E quando os abriu de novo, estavam úmidos. Não de tristeza, mas de algo mais profundo. Alívio, talvez. Pela primeira vez em muito tempo, não havia máscaras.

Click.

O som do obturador cortou o silêncio. abaixou a câmera devagar e olhou para ela, não pelo visor, não pela lente, mas com os próprios olhos. Ele sabia que tinha conseguido. Aquela foto era mais do que uma imagem bonita. Era íntima, era crua, era verdadeira.

— Não vai me mostrar? — ela questionou.

sorriu e deixou a câmera ao lado da cama com o mesmo cuidado de quem deposita algo divino. Não precisava mais de nenhuma outra imagem. O que havia capturado era o suficiente para guardar aquela noite para sempre. E poderia ver aquela foto a qualquer momento, o que realmente ele queria agora não podia mais esperar.

Sem falar nada, ele estendeu a mão e tocou o rosto dela com o polegar, acariciando a linha do maxilar, como se quisesse decorar cada contorno. E então, sem mais palavras, a puxou para um beijo lento, profundo, carregado de uma intensidade que ia além do desejo.

Depois deitou-se sobre ela com cuidado, sustentando o próprio peso com um dos braços, enquanto o outro deslizava pela lateral do corpo dela, da cintura até a curva da coxa. envolveu as pernas ao redor dele num impulso involuntário.

O beijo se intensificou, e as mãos dele exploravam cada centímetro da pele exposta da loira. Quando seus dedos alcançaram o elástico delicado da calcinha dela, ele parou por um instante, e encontrou os dela, como se pedisse permissão mais uma vez.

Ela assentiu, arfando levemente, e ele a despiu com delicadeza, como se estivesse desembrulhando algo precioso demais para ser apressado. A peça deslizou pelas pernas dela e foi esquecida ao lado da cama, assim como o resto do mundo naquela hora.

a admirou por um tempo, completamente nua. E não era só o seu corpo.

Depois voltou a beijá-la, no pescoço, em seguida nos ombros, descendo lentamente até os seios, onde parou para adorá-los com os lábios e a língua. arqueou o corpo, soltando um gemido baixo, que vibrou no quarto abafado.

o observava entre os cílios pesados, os lábios entreabertos e a respiração entrecortada. Não havia mais sorrisos irônicos ou frases de efeito. Só havia ela, entregue, exposta, confiando naquela vulnerabilidade que sempre aprendera a esconder. A forma como a olhava não deixava espaço para inseguranças. Pela primeira vez, ela não se sentia julgada, nem desejada como produto, mas tocada como uma mulher.

Ele subiu novamente, seus lábios traçando um caminho devoto pelo centro do peito dela, devagar, voltando ao rosto como se cada centímetro importasse. Quando seus olhos se encontraram, havia mais do que desejo. Havia reverência, um tipo de cuidado que não lembrava de ter sentido em nenhuma outra ocasião íntima.

Era, demasiadamente, intenso.

A mão dela percorreu o abdômen dele até alcançar a cintura da cueca. Com um gesto ousado, puxou-a para baixo. se livrou da peça e então voltou a se deitar entre as pernas dela, encaixando seus corpos com uma naturalidade quase surpreendente.

Ela estremeceu. Não de medo, não de hesitação, mas de algo mais profundo, quase primitivo. O toque dele entre suas coxas, a pressão crescente de seu corpo sobre o dela e a forma como seus quadris se alinhavam, parecia orquestrado. Como se aquela dança já estivesse escrita antes mesmo de se conhecerem, como se eles estivessem dançando de mãos atadas.

Ele não a penetrou de imediato. Em vez disso, deslizou os quadris lentamente, provocando o atrito preciso, como se quisesse prolongar aquele momento de expectativa. O limiar entre o querer e o ter. parecia determinado a fazê-la sentir cada segundo, cada nuance, cada arrepio.

mordeu o lábio absorvendo tudo. Ele se inclinou e colou a testa na dela por um instante, ofegante. O silêncio entre eles era espesso, carregado de uma tensão elétrica que não precisava de palavras. E então, com um movimento firme e ao mesmo tempo gentil, ele a preencheu por inteiro.

Ambos soltaram um gemido baixo, quase sincronizado.

O mundo se apagou. O quarto pareceu diminuir, como se só existisse a cama, os lençóis desalinhados e o calor da pele deles colada. Ele se moveu com ritmo constante, profundo, como quem entendia que urgência não era o mesmo que pressa.

As mãos dela exploravam as costas dele, com as unhas deixando marcas suaves sob a pele conforme o ritmo aumentava, como se ele fosse o único ponto fixo possível. A respiração de ficou mais irregular enquanto os quadris batiam com mais força, mas nunca sem brutalidade.

entrelaçou os dedos aos dela acima da cabeça, fixando-a com suavidade no colchão enquanto seus movimentos se tornavam mais profundos, mais intensos. Ela respondeu arqueando-se contra ele com os olhos fechados, e sem evitar gemer.

apertou a mão dele com força. Sentia o mundo girar ao redor, mas estava segura ali, com ele dentro dela. alternava o ritmo de seus movimentos com precisão quase intuitiva, escutando os sons que ela fazia, sentindo os pequenos espasmos que percorriam sua pele.

… — ela sussurrou, como se o nome dele fosse uma prece.

Ele colou os lábios ao pescoço dela, sussurrando de volta, sem parar de se mover dentro dela.

— Estou bem aqui.

As palavras fizeram os olhos dela se abrirem por um breve instante.

Havia algo diferente ali. Não era apenas sexo.

Ela mordeu o ombro dele com leveza, impulsivamente. E gemeu baixo em resposta, apertando ainda mais os dedos entrelaçados aos dela. Os movimentos dele começaram a ficar mais intensos, mais urgentes, e ela soube que estavam perto. O ápice estava chegando.

— Olha pra mim. — ele pediu, colando a testa na dela.

obedeceu.

Os olhos deles se encontraram.

afundou mais uma vez, profundo, e foi o suficiente.

finalmente se desfez, foi com a cabeça jogada para trás. Ele a acompanhou segundos depois, enterrando-se com força uma última vez antes de deixar que o prazer o tomasse por completo, afundando o rosto no pescoço dela com um gemido abafado e grave.

Eles ficaram assim por um tempo, apenas respirando. Ofegantes. Silenciosos.

Ela sorriu.

notou o sorriso, nascido no canto dos lábios dela, quase preguiçoso, quase inocente.

— Por que está sorrindo? — ele perguntou, sem se afastar totalmente.

demorou um pouco para responder. Os olhos vagaram pelo teto, depois voltaram para ele.

— Porque… — ela começou, e então riu, encolhendo os ombros. — Porque eu estou bem. E não sei quando foi a última vez que me senti assim.

Ele não disse nada. Apenas estendeu a mão e afastou uma mecha de cabelo que havia grudado na testa dela e deslizou para o lado, puxando-a consigo até que estivessem deitados de frente um para o outro com as pernas entrelaçadas, e o corpo ainda quente do que haviam sido um para o outro instantes antes. passou o polegar pelos lábios dela, como se quisesse gravar aquele sorriso na memória.

— Acho que essa é a foto que eu queria tirar. — ele murmurou, baixinho. — Essa, aqui. Você, dessa forma, feliz.

fechou os olhos por um instante e respirou fundo, saboreando aquele momento. O toque dele, as palavras, o jeito como a olhava. Tudo parecia real demais, intenso demais, bom demais para durar. Ela tinha um pressentimento e não era bom. E era isso que a assustava.

— O que foi? — o fotógrafo questionou, preocupado.

— Precisamos comprar uma pílula do dia seguinte, transamos sem camisinha. — ela desconversou, não queria expor o que estava sentindo naquela hora.

— Não acredito! — revirou os olhos. — Tudo o que eu mais queria era um filho com uma das atrizes mais famosas que existe. — brincou.

disse isso rindo, tentando aliviar o peso súbito que pairou no ar, mas o olhar de não acompanhou a brincadeira. Ela sorriu de leve, quase no automático, enquanto deslizava os dedos pelo lençol, distraída. Ele percebeu e o humor dele esmoreceu um pouco, então o mesmo se inclinou para beijar a testa dela, carinhoso.

— Ei... — sussurrou com os lábios ainda perto da pele dela. — Você está assustada?

Ela hesitou antes de responder, mordendo o lábio inferior.

— Eu estou... estranhamente assustada. Não com isso. — apontou com os olhos para eles dois, nus, entrelaçados — Mas, com o que vem depois. Eu sempre espero o depois e o depois sempre estraga tudo.

— O depois não existe ainda, . Só existe agora. E agora, eu só vejo você aqui, comigo. — ele a fitou sério.

— Na realidade... eu preciso te contar uma coisa. — a loira se ajeitou na cama para encará-lo melhor.

— Que você namora? — o fotografo adiantou, o que a desarmou.

— Como você...

— Como eu sei? — soltou uma risada. — Você é uma atriz famosa, acho que o mundo todo sabe que você namora o , o queridinho da indústria cinematográfica.

prendeu a respiração por um instante, o nome dele dito em voz alta parecia um soco.

— Só para que você saiba... Não estamos funcionando já há um bom tempo, eu...

— Não pedi uma explicação. — ele deslizou os dedos pelo rosto da loira com cuidado e sorriu.

— Você merece saber. — rebateu, pedindo.

a observou em silêncio com os olhos escuros fixos nos dela e assentiu.

— O e eu... — ela começou, desviando o olhar por um momento. — Somos uma conveniência pública. A gente não é um casal há muito tempo, só dois rostos que vendem uma boa história. Eu tentei, . Eu juro que eu tentei. Mas eu estou tão cansada de tentar manter um papel fora das câmeras...

A atriz fechou os olhos e respirou fundo. não a interrompeu.

— Eu não vim pra cá planejando isso. Você sabe disso, né? Eu só... — bufou, frustrada. — Eu precisava de um lugar para desaparecer por um tempo.

— Eu sei. — ele assentiu. — E você conseguiu?

— Sim! — confirmou com a cabeça. — Hoje, com você, foi a primeira vez em anos que eu me senti... eu mesma. — completou. — E isso me apavora porque agora estou me lembrando de quem eu sou, de quem esperam que eu seja. E do que eu fiz.

— O que você fez foi viver. — ele rebateu, com firmeza. — Você não é uma boneca de vitrine. Você não é só a namorada do , nem a atriz premiada. Você é uma mulher que quis estar aqui comigo.

Ela o fitou com os olhos marejados.

— Isso não muda o fato de que eu traí ele.

— Não. — admitiu, sincero. — Não muda. Mas talvez... só talvez... você tenha traído a ideia de quem você deveria ser, e não a pessoa.

sentiu um nó se formar na garganta.

As palavras de não vieram com julgamento. Vieram com uma compreensão tão profunda que quase doeu, fazendo com que ela se encolhesse um pouco. Ele se aproximou e a aconchegou em seus braços.

— Não foge de mim agora. — murmurou.

Ela fechou os olhos com força. Não era apenas culpa. Era vergonha, era medo, era aquele maldito costume de viver sob o olhar dos outros. E, ao mesmo tempo, havia uma chama dentro dela que ela não queria apagar.

— O ... ele não é um vilão — disse, baixinho. — Ele me salvou de muita coisa no começo. Ele foi meu parceiro de cena e de vida, mas a gente parou de se encontrar no meio do caminho.

não disse nada imediatamente. Apenas respirou contra a nuca da loira a sua frente, e traçou linhas invisíveis na pele dela com seus dedos, como se tentasse ancorá-la naquele instante.

— Eu não espero que você escolha nada agora. — ele quebrou o silêncio. — Nem por mim, nem por ninguém.

Ela virou o rosto devagar até encará-lo por cima do ombro.

O olhar dele estava ali. Inteiro, sóbrio, intenso.

Sem promessas vãs, porém, cheio de verdade.

— Só não enterra o que você sentiu hoje. — o fotografo continuou. — Não finge que foi só um erro ou uma fuga. Porque não foi e você sabe disso.

— E se eu decidir voltar para o conto de fadas que eles acreditam lá fora? — ela sussurrou.

— Então volta com honestidade. Mas sem se perder de novo no processo. — aproximou seu rosto e segurou o queixo dela. — E se escolher ficar... a gente encontra um caminho.

se virou completamente de novo, o encarando de frente.

— Você é perigoso, . — ela disse, tentando sorrir.

— Eu sei. — ele respondeu com um canto da boca repuxado em um sorriso breve. — Mas você também não é tão inofensiva quanto parece.

A atriz soltou uma risada fraca.

— Eu estou muito cansada, sabia? — confessou.

— Vem aqui. — puxou o lençol para cobri-los e ajeitou a posição até que ela ficasse deitada sobre o peito dele, com o rosto aconchegado próximo ao coração. — Você precisa dormir senhorita !

— Você vai ficar aqui? — ela perguntou, com a voz meio embargada pelo sono.

— Vou. — garantiu, passando a mão devagar pelos cabelos dela. — Eu não vou a lugar nenhum.

Ela soltou um suspiro longo e deixou o corpo relaxar por completo contra o dele. continuou o carinho, desenhando círculos invisíveis nas costas da loira, até sentir o ritmo da respiração dela desacelerar. Não demorou para que adormecesse, entregando-se àquele abrigo provisório nos braços que acabara de encontrar.

Ele permaneceu ali, acordado por mais algum tempo, sentindo o calor que compartilhavam debaixo do lençol. Tentou não pensar no depois, como havia dito. Tentou não se permitir o luxo de querer mais do que o agora.

Mas era difícil.

Acabou adormecendo também, com os braços firmes ao redor dela, como se inconscientemente tentasse garantir que, ao acordar, ela ainda estaria ali.

[...]

Na manhã seguinte, o celular de tocava insistentemente em algum lugar do apartamento, arrancando-a de um sono profundo e inquieto. Ela franziu a testa antes mesmo de abrir os olhos, sentindo o corpo ainda dolorido em lugares bons, lembranças vivas da noite anterior.

ainda dormia ao lado com o braço pesado envolvendo sua cintura e o peito subindo e descendo em um ritmo lento e constante. Era aconchegante, mas o escândalo insistente a puxava de volta à realidade como um alarme de incêndio prestes a explodir.

Com cuidado para não acordar o homem ao seu lado, ela tentou sair da cama com a maior delicadeza possível e seguiu em direção a sala. O chão, agora, parecia bem mais frio que na noite anterior. Continuou acompanhando o som até chegar ao seu sobretudo e retirar o aparelho do bolso com um tanto de dificuldade.

Quando viu o nome na tela, seu coração apertou. Diana ligando a àquela hora da manhã não poderia ser algo bom. Olhou para atrás vendo se havia acordado com todo o barulho e após confirmar que não, colou o celular no ouvido e atendeu em silêncio.

Pelo amor de Deus, , você perdeu completamente o juízo?

A voz de Diana veio alta e cortante, tão afiada quanto um estilete. levou um segundo para entender o tom, mas quando o nome dela foi dito com aquele sobrenome profissional, soube imediatamente que não era uma ligação pessoal.

— Oi pra você também, Di... — murmurou, tentando manter a voz baixa para não acordar .

Não vem com essa, sua maluca. Você sabe onde você está? Em todas as manchetes de fofoca do planeta! TMZ, Daily Mail, Page Six, Twitter... as redes estão colapsando!

A loira congelou.

— O quê?

"Atriz premiada foge com fotógrafo famoso". " trai com , fotográfo conhecido por documentar os artistas fora dos holofotes!". "Do roteiro à realidade: atriz vive affair secreto em Londres". Esses são só alguns dos títulos. Quer que eu continue?

afundou na poltrona próxima à janela, com a mão no peito.

— Mas, como eles descobriram quem o é? — questionou, confusa.

Não sabe quem é o cara que segurou sua mão e saiu correndo pelas ruas de Londres com você? — Holland perguntou.

— Eu sei quem ele é, quero dizer...

ganhou, no mínimo, vinte e cinco prêmios durante toda sua carreira , se duvidar ele é mais famoso que você. Toda celebridade quer ter uma foto tirada por esse homem. Como não sabia quem ele era? — indagou, parecendo indignada.

— Eu não imaginava que ele fosse tão famoso assim... — respondeu num tom meio culposo, esfregando o rosto com a mão livre. — Ele parecia... real.

Real? — Diana bufou do outro lado da linha. — Você passou a noite com um dos homens mais influentes do circuito artístico internacional, foi fotografada fugindo de mãos dadas no meio da rua, e agora está me dizendo que não pensou na repercussão porque ele parecia real?

permaneceu em silêncio. Aquilo não era uma justificativa, ela sabia. Mas era a verdade.

Você está entendendo a gravidade da situação? — a assessora perguntou, tentando parecer mais calma. — O já sabe. Eu não falei com ele, mas o agente dele me mandou uma mensagem seca dizendo: “Parabéns, Diana. Sua estrela principal virou manchete pelo motivo errado.”

fechou os olhos. O peso da vergonha, da culpa, da exposição. Aquilo tudo desabando como uma avalanche. E pior, sendo envolvido.

— Eu não planejei isso, Diana. — a atriz apertou os olhos, sentindo a náusea subir. — Achei que eles não haviam conseguido capturar alguma foto, estava escuro e a gente conseguiu despistar os dois tão rápido.

Eu acredito em você, . — Holland assentiu. — Mas o mundo não vai. E essa narrativa... você sabe como funciona. é o mocinho, você a atriz ingrata. ? O fotógrafo britânico enigmático, que vai ser pintado como destruidor de lares.

— Isso não é justo com ninguém.

Não é. Mas é assim que funciona. E agora a única coisa que você pode controlar é como vai lidar com isso. Você vai negar? Vai fugir? Vai fingir que não aconteceu? Ou vai assumir que, por uma vez na vida, você fez algo por você mesma?

soltou um gemido de preocupação, pois, dessa vez não era só sobre ela, envolvia outra pessoa. Alguém que havia trazido luz a vida dela em menos de vinte e quatro horas, sem que ela soubesse que isso era possível. Era como estar se afogando e ter sido resgatada quando não conseguisse mais respirar.

— Diana... — a voz dela falhou. — Eu... não quero perder mais ninguém.

Ela fechou os olhos por um breve instante, lembrando-se de quando ainda era apenas uma menina de cinco anos, correndo pelos bastidores de um estúdio lotado de câmeras. Sua carreira de atriz começara tão cedo que, para ela, parecia que nunca existira um “antes” sem holofotes.

Naquela época, tudo eram risadas e aplausos — até o dia em que completou dezoito anos. Na volta de uma festa surpresa preparada pelos pais, dirigia o carro que havia ganhado de presente quando um veículo em alta velocidade perdeu o controle e colidiu de frente com o deles.

Seus pais não sobreviveram. E, a partir daquele momento, , que era o nome que ninguém usava fora das câmeras, deixou de ser a atriz promissora e passou a ser a garota órfã que a imprensa tratou como “trágica desde o início”. Ela nunca mais foi a mesma.

Diana sabia exatamente do que ela estava falando — e, para ser comparado àquilo, significava que, finalmente, começava a enxergar uma luz no fim do túnel, depois de tantos anos.

Ele vale tudo isso?

virou-se devagar, voltando o olhar para a cama onde o fotógrafo ainda dormia. Ele havia se mexido levemente, como se sentisse sua ausência mesmo adormecido. Os cabelos estavam bagunçados, os lençóis embolados ao redor do quadril, e o rosto sereno.

Ela sorriu. Um sorriso pequeno, triste e bonito.

— Vale. — respondeu com sinceridade.

Do outro lado da linha, Holland ficou em silêncio por um momento.

Então, prepare-se. Porque a guerra lá fora já começou. Mas, dessa vez, Isa... você vai ter que escolher se quer continuar sendo a atriz principal de um roteiro escrito pelos outros ou se vai dirigir a porra do seu próprio filme.

A ligação caiu logo depois.

ficou parada por um momento, sentindo as palavras da sua assessora reverberarem dentro dela. Voltou com passos lentos em direção ao homem que lhe entregou a melhor noite da sua vida. O mundo lá fora estava ruindo. Mas ali, naquele apartamento, no calor daquele quarto, havia uma paz que ela não encontrava há anos. Ela se aproximou devagar da cama e sentou-se ao lado de , que abriu os olhos preguiçosamente ao sentir o colchão afundar.

— Já é de manhã? — ele perguntou, com a voz ainda rouca de sono.

assentiu com um sorriso sem mostrar os dentes.

— Está tudo bem? — a encarou gentilmente.

— Estamos em todas manchetes possíveis, com os títulos mais sensacionalistas que eu já vi, . — sussurrou.

O fotógrafo não pareceu surpreso. Apenas se sentou devagar, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Mediante ao que aconteceu ontem, eu imaginei que iriam fazer isso mesmo, mas, esqueci que você é e que isso tomaria uma repercussão maior do que eu esperava. — murmurou.

Ele esfregou o rosto com as mãos e soltou um suspiro lento e pesado. Ainda não totalmente desperto, mas já entendendo a dimensão da bomba que explodira fora daqueles lençóis.

— Quando ia me contar que é mais famoso que eu? — ela fez um bico.

O fotografo soltou uma risada curta, meio envergonhada, e olhou para ela de lado, ainda com as mãos cobrindo parcialmente o rosto.

— Eu não sou mais famoso que você. — rebateu.

— Pelo que Diana me contou você é sim. Mas, por que não me disse nada ontem? — o fitou confusa.

— Quando nos esbarramos, tive receio que soubesse quem eu era e que por isso me confrontou. — explicou, baixando as mãos. — Mas, depois, quando falei meu nome e você não esboçou nenhuma reação exagerada, eu me senti bem por ser só um cara interessado em uma mulher incrivelmente linda. — a encarou, com uma expressão travessa.

— Sair correndo de mãos dadas comigo pelas ruas de Londres e virar manchete global não estava no plano, não é? — arqueou uma sobrancelha.

— Definitivamente não. — ele sorriu torto. — Achei que ia conseguir manter a realidade separada da fantasia por um tempo. Eu estava enganado.

Ela suspirou.

— Você está bravo? — perguntou, hesitante.

— Não. — ele a encarou. — Estou preocupado com você.

Aquelas quatro palavras, ditas com tanta firmeza e ternura, fizeram os olhos marejarem. Havia algo profundamente desarmante em . Ele não a cobrava. Não pedia explicações. Não exigia promessas. Apenas estava ali, inteiro. Presente. E isso, para alguém que viveu sob pressões e contratos desde a infância, era revolucionário.

— Você devia estar bravo. — ela disse, olhando para as próprias mãos. — Eu te coloquei no meio disso. Eu sou a porra de uma bagunça. — engoliu o nó na garganta.

— Você é a porra da bagunça que, agora, eu quero. — ele segurou o rosto dela com as duas mãos. — A partir do momento em que peguei sua mão naquela rua, eu sabia o que estava fazendo. Sabia o que significava. E faria tudo de novo. — disse, sem tirar os olhos dos dela.

não conseguiu conter o soluço que veio logo após as palavras dele. Não era o tipo de declaração que vinha com p frases decoradas. Era crua, honesta, ardente. estava ali, vendo cada falha dela com clareza e ainda assim... escolhendo ficar.

Ela fechou os olhos por um instante, permitindo que o toque dele a sustentasse. O calor das mãos dele em sua pele era o lembrete silencioso de que, mesmo com tudo desmoronando do lado de fora, havia uma escolha a ser feita e não era mais sobre sobrevivência. Era sobre viver.

— Eu não sei como enfrentar isso tudo. — confessou. — Eles vão me destruir lá fora, . Vão me chamar de ingrata, infiel. — tentou segurar as lágrimas, olhando para cima. — Ainda tem o , a imprensa, os patrocinadores, meu contrato com a série nova... é um efeito dominó. E você não merece ser atingido por nada disso.

— Eu posso lidar com o que vier. — ele retrucou.

— Você sempre fala como se tudo fosse tão simples. — ela riu, com uma mistura de ironia e admiração.

— Não é simples. — ele admitiu. — Mas é claro. O que a gente sentiu, ... não acontece todo dia. E nem com qualquer pessoa.

— Eu sei e é exatamente por isso que não posso deixar você no meio desse fogo cruzado, é porque você vale demais. — a loira acariciou a bochecha dele.

fechou os olhos por um breve segundo sob o toque suave dela, como se aquilo fosse suficiente para silenciar tudo o que poderia acontecer do lado de fora.

— Eu até posso aceitar esse seu discurso, mas a única coisa que eu não aceito... é que você jogue fora o que a gente pode viver por medo.

Ela mordeu o lábio, tentando conter a avalanche de emoções.

Queria chorar, queria gritar, queria abraçá-lo e nunca mais sair dali — tudo ao mesmo tempo.

— Eles vão dizer que você destruiu meu relacionamento. — sussurrou.

— Então deixa que digam. — ele deu de ombros. — Eu prefiro ser odiado por fazer parte de uma escolha verdadeira do que ser amado por uma mentira pública.

— Você é maluco! — riu fraco.

— Devo ser! — o fotografo concordou.

Ela se inclinou, apoiando a testa na dele, respirando fundo, tentando ancorar-se na firmeza da presença dele.

— Você vai me odiar quando perceber o que essa exposição vai fazer com a sua carreira. — murmurou com os olhos fechados e as mãos enlaçadas no pescoço dele.

— Pode apostar que não. — ele sorriu contra a pele dela.

— A imprensa vai te procurar. — ela suspirou.

— Que tentem. — tocou o queixo dela com delicadeza. — Eu não tenho o que esconder, e pela primeira vez em muito tempo, não tenho medo de ser visto.

fechou os olhos por um instante, como se precisasse memorizar aquele toque, aquela frase.

"Eu não tenho medo de ser visto."

Havia algo poético — e brutalmente real — nessas palavras.

Ela, que sempre viveu sob os holofotes como se eles fossem prisões disfarçadas, agora estava diante de alguém que enxergava a própria exposição como liberdade. Após respirar fundo, se afastou, apenas, o suficiente para encará-lo de novo. Havia tantas decisões a serem tomadas, tantos riscos, tantos abismos.

— Você ficaria? Mesmo quando tudo desandar?

— Eu estou aqui, não estou? — respondeu, com um sorriso pequeno, mas firme.

assentiu, mas antes que pudesse responder, o celular vibrou de novo.

— Provavelmente mais uma bomba. — ela murmurou, antes de abrir a notificação, que era da sua assessora.

", a assessoria do acabou de publicar uma nota confirmando o término. Ele disse que está arrasado, mas prefere não comentar os motivos por respeito à sua privacidade. Estão tentando blindá-lo como a vítima. Precisamos agir agora. Marquei uma coletiva no fim da tarde. Esteja preparada!"

Logo abaixo a mensagem de Diana, havia o link que redirecionava para o pronunciamento dele. sentiu o estômago revirar. As palavras dançavam na tela como uma sentença.

Era tudo calculado, claro. sempre soube jogar com a opinião pública. Sempre soube vestir a máscara do bom moço, do namorado dedicado, do homem que “suportou demais”. E agora ele fazia exatamente o que se esperava dele: recuava com elegância, comedidamente devastado, deixando que o resto do mundo preenchesse as lacunas com a narrativa mais conveniente.

— Ele soltou uma nota. — ela falou, com a voz embargada.

— Sobre você? — perguntou, cauteloso.

— Sobre nós. — bufou. — Mas sem dizer uma palavra direta. Ele só confirmou o término e deixou implícito que foi pego de surpresa.

— Ou seja, o suficiente pra te pintar como a vilã sem precisar sujar as mãos. — o fotógrafo disse, com amargura contida.

assentiu lentamente.

Havia raiva. Mas mais do que isso, havia tristeza.

Tristeza pelo que ela havia vivido com , mesmo que hoje parecesse um papel ensaiado.

Tristeza por perceber que, por anos, ela se moldou para caber em narrativas que nem eram suas.

— Eu preciso falar com ele. — explanou.

se enrijeceu levemente, mas não disse nada. Apenas balançou a cabeça de maneira positiva, respeitando a decisão. Então, ela se levantou, foi até o canto do quarto e discou o número. Não podia evitar se sentir ansiosa enquanto escutava o toque da chamada. O telefone chamou duas, três vezes. Na quarta, a ligação foi atendida com um silêncio pesado do outro lado da linha.

? — a voz dela saiu mais frágil do que ela esperava.

A respiração dele veio baixa, mas audível.

— Você me expôs, . — ele disse.

A voz era baixa, mas carregada de uma mágoa calculada.

Nenhuma explosão. Nenhum grito.

Só aquela entonação fria que ela conhecia tão bem. O tom que ele usava quando sabia que já havia vencido o jogo.

— Eu não queria que fosse assim. — ela tentou se explicar. — Eu ia te ligar assim que...

— Assim que o TMZ publicasse a terceira manchete? — o ator interrompeu, com uma risada seca e amarga. — Porque a primeira e a segunda vieram com fotos, em alta definição.

fechou os olhos, apertando os dedos contra a própria têmpora.

— Você sabe que nosso relacionamento já estava em ruínas há meses. —pausou. — Só estávamos mantendo a aparência por contrato, . Por conveniência. Por comodidade.

— Talvez. — concordou. — Mas eu não fui o primeiro a quebrar o acordo. — soou exasperado. — E ainda assim, sou eu quem sai de cena parecendo o idiota.

encostou a cabeça na parede, deixando que as palavras dele tomasse algum tipo de sentido. Mas, o pior de tudo era que, em algumas partes, ele tinha razão. O acordo implícito, o teatro para a imprensa, os sorrisos falsos. Estava tudo ali, presente há meses. Mas a verdade sempre tem dois lados, e já não havia como voltar atrás. E, mais importante do que isso, ela não queria.

— Me desculpa, . De verdade. — disse, depois de alguns segundos. — Por não ter sido mais honesta com você antes disso. Nós dois merecíamos mais do que a mentira confortável que estávamos vivendo.

— Sabe o que mais dói, ? — a voz dele vacilou por um instante, mas logo se firmou. — Não é o fato de você ter se envolvido com outro homem. Não é a traição midiática. É o fato de que, no fundo, eu já sabia. Só não queria enxergar.

Aquelas palavras atingiram de um jeito inesperado. não havia sido apenas o namorado da imagem pública. Ele tinha sido seu parceiro em noites de eventos, confidente em momentos de fraqueza, o porto seguro na tempestade da fama — mesmo que tudo estivesse ruindo há tempos.

— Nós dois sabíamos, . — ela respondeu, suavemente. — Só estávamos esperando que o outro fosse embora primeiro.

Ele soltou um suspiro lento, longo. Quase exausto.

— E no fim, foi você quem saiu correndo. Literalmente.

Ela apertou os olhos ao lembrar da noite anterior, da fuga pelas ruas de Londres, da mão de entrelaçada à sua, da adrenalina, da sensação de liberdade que não sentia havia anos.

— Aquilo não foi planejado. — sussurrou.

— Claro que não foi. — ele concordou.

A pausa entre eles foi mais significativa do que qualquer palavra.

— Eu sinto muito, . Por não ter terminado isso com dignidade. — mordeu o lábio inferior.

— Eu também sinto. — disse soando um tanto triste. — Eu me pergunto se, em algum momento, a gente ainda estava tentando... ou só seguindo o roteiro.

— Talvez um pouco dos dois. — a loira respondeu com honestidade.

— Você parecia feliz ontem, nas fotos. — confessou, sem ironias.

Ela sentiu a garganta apertar.

— Eu estava.

respirou fundo do outro lado.

— Eu não vou dar entrevistas. — o ator declarou. — Não vou sujar seu nome, . Mas a imprensa vai pintar a história como quiser. E você sabe como isso funciona. — pigarreou. — Então, espero que ele valha tudo isso.

— Não precisa se preocupar com isso, eu sei me virar. — respondeu, com a voz embargada.

— Boa sorte com seu novo herói. — ele disse por fim. — Espero que ele aguente o peso de ter te escolhido.

permaneceu parada, com o celular ainda encostado na orelha mesmo depois do sinal de desligado. Um ciclo tinha sido encerrado. Não da maneira mais bonita, mas talvez da única forma possível. Não havia vencedores ali, apenas duas pessoas que se perderam tentando manter um castelo de areia de pé.

Ela voltou devagar para perto de , que a observava em silêncio, respeitando o espaço que era necessário. Ele não perguntou como foi. Só abriu os braços, e a loira correu e se encolheu dentro deles.

Ali, naquela concha humana quente e segura, ela chorou.

Chorou por , por tudo que eles tentaram e fracassaram. Chorou por si mesma, por anos de controle, de fingimento, de exaustão silenciosa. Chorou porque agora não havia mais volta e, mesmo com medo, ela não queria recuar.

Quando o choro cessou, a manteve perto, acariciando seus cabelos em silêncio, como quem sabia que não há nada mais valioso do que ser testemunha do que é verdadeiro. Depois de alguns minutos, ela se afastou levemente, fungando.

— Preciso ir para casa me preparar, Diana marcou uma coletiva para hoje à tarde. — sussurrou, ainda entre soluços.

— Tudo bem. — o fotografo concordou.

Então, ela se levantou, caminhou até a sala e pegou sua bolsa, vestindo o sobretudo escuro por cima do vestido, que o homem com quem dormiu retirara com tanta facilidade. apareceu logo atrás, vestindo apenas uma calça jeans e com os cabelos bagunçados.

— Você quer que eu vá com você? — ele perguntou, apoiando-se no batente da porta.

Ela hesitou. Parte dela queria que ele estivesse ao seu lado durante a coletiva. Que segurasse sua mão enquanto enfrentava os olhos famintos da imprensa, que traduzisse em presença tudo aquilo que palavras não conseguiam conter. Mas outra parte sabia que esse era um passo que precisava dar sozinha, não por orgulho, mas por autonomia.

— Não. — disse, suavemente. — Mas quero que você esteja por perto depois.

assentiu, respeitoso.

— Eu estarei. — ele garantiu.

Ela se aproximou e o beijou com delicadeza, um beijo demorado, cheio de significado. Como se estivesse selando um pacto antes de ir para guerra. Então se afastou, sorriu com os olhos, apesar do medo, e saiu do apartamento.

[...]

Horas depois, o carro da produção parava diante de um hotel cinco estrelas onde a coletiva estava marcada. desceu com os óculos escuros escondendo parte do rosto e um lenço envolvendo o pescoço, mas os flashes já a aguardavam. Era como se os jornalistas sentissem o cheiro de sangue, ansiosos para arrancar dela qualquer reação que pudesse virar mais uma manchete.

Diana estava na entrada, digitando furiosamente no celular, e ergueu os olhos assim que viu se aproximar. A mulher vestia um blazer preto e uma calça social impecável, uniforme de guerra para dias como aquele. Não pode evitar notar o semblante da loira, em meio a todo caos havia um brilho diferente nela.

Holland deixou escapar um sorriso, mas, logo voltou a sua postura quando se aproximou.

— Você está pronta? — Diana perguntou, entregando o celular para um assistente e estendendo a mão para .

respirou fundo, tirou os óculos escuros devagar e o guardou na bolsa, depois voltou seu olhar para sua assessora.

— Não. Mas vou mesmo assim.

— Boa resposta. — Holland soou orgulhosa.

Elas entraram juntas no saguão, onde membros da produção e seguranças coordenavam a imprensa em um salão de conferência elegante. Havia uma mesa com microfones e garrafas de água, cadeiras organizadas em fileiras e uma cortina de veludo vermelho ao fundo, dando ao ambiente um ar teatral. Era até um pouco irônico, dado o teor do evento.

Diana guiou até o camarim reservado. Uma assistente ajeitou os fios da atriz, enquanto outra retocava a maquiagem. se olhou no espelho e viu mais do que sua imagem refletida. Ela viu todas as escolhas que a levaram até ali.

— Eles estão todos lá dentro. CNN, BBC, Variety, até a Elle mandou alguém. — a assessora avisou, entregando um papel que continha apenas os tópicos principais. — Lembra o que conversamos. — tocou os ombros dela. — Você vai falar com o coração. Se tropeçar, tudo bem. Se chorar, tudo bem também. — sorriu, enquanto encarava a atriz pelo espelho. — Mas não fuja. Seja verdadeira. É tudo o que você precisa fazer.

respirou fundo, absorvendo aquelas últimas palavras. “Seja verdadeira.” Durante tanto tempo, ela havia interpretado papéis, até fora das telas. Mas naquele instante, enquanto ouvia o burburinho da imprensa do lado de fora crescendo, entendeu que o momento exigia não uma performance. Mas, sua alma.

Levantou-se com calma, ajeitou o blazer de alfaiataria sobre os ombros e virou-se para Diana.

— Vamos acabar com isso. — disse, com a voz mais firme do que esperava.

A porta do camarim se abriu e as duas caminharam lado a lado até o salão. Assim que surgiu na entrada, o zunido das vozes se transformou em silêncio cortante, seguido por uma sequência implacável de flashes. Ela não desviou o olhar, não se escondeu. Subiu ao palco a sua frente com uma leveza incomum e sentou-se. Como se, apesar de tudo, estivesse finalmente livre.

O som das câmeras disparando era quase ensurdecedor.

Diana ficou logo ao lado, levemente afastada, como escudo.

ajeitou o microfone e, antes mesmo que a mediadora do evento tomasse a palavra, a atriz a interrompeu com um gesto discreto.

— Se me permitem… eu gostaria de começar. — falou, hesitante.

Um breve murmúrio correu entre os jornalistas, mas ninguém ousou interrompê-la.

Então, ela respirou fundo mais uma vez e começou.

— Nas últimas horas, minha vida pessoal se tornou um espetáculo público. Não foi minha intenção. Não planejei isso. E muito menos tentei ferir alguém. — suas mãos estavam firmes, mas seus olhos estavam visivelmente marejados. — Mas não posso e não quero fingir que não aconteceu.

A sala estava imóvel.

— Durante anos, vivi de forma calculada. Fiz escolhas com base no que esperavam de mim, no que manteria minha imagem intacta. Mantive relacionamentos por contrato, sorrisos por conveniência, e fui treinada para não mostrar nenhuma rachadura. — fez uma breve pausa, antes de continuar. — Mas a verdade é que eu sou feita de falhas, de medos, de desejos e de contradições.

Os dedos de Diana estavam cruzados sobre o colo, o maxilar travado de tensão. estava indo muito bem, para ser sincera, a mulher não esperava tanta maturidade assim. Talvez quando você não tem mais nada a perder é quando entende que pode perder a coisa mais importante — a si mesmo.

— Sim, houve um término. — os flashes se intensificaram após a confissão, mas, ela não recuou. — Sim, houve uma nova conexão que nasceu no meio desse processo. E não, não foi um escândalo planejado, nem uma traição fria e calculada como alguns veículos estão sugerindo. — proferiu de maneira sólida. — O que aconteceu foi algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais complexo. Eu escolhi viver algo verdadeiro. Pela primeira vez em muitos anos, eu escolhi a mim mesma.

Quando os murmúrios aumentaram, se inclinou ligeiramente para frente.

é uma pessoa maravilhosa. Me apoiou em muitos momentos difíceis. E lamento profundamente que tenhamos chegado a esse ponto. — ajeitou a postura. — Mas ele merece verdade, assim como eu. E nós dois sabíamos que aquilo que sustentávamos era uma encenação.

Um jornalista aumentou a voz no meio da multidão.

, você está dizendo que seu relacionamento com foi forjado para a imprensa? — questionou.

Ela assentiu.

— Não forjado. Mas prolongado. Nosso vínculo se manteve além do que era real, porque era conveniente para todos os envolvidos. Era seguro. Era o que se esperava. — deu de ombros. — E eu aceitei esse papel por muito tempo. — sua voz falhou por um instante, mas ela recuperou o fôlego rapidamente. — Até não conseguir mais. — Um flash disparou mais forte e ela piscou, mas não desviou o olhar. — Eu o respeito. Sempre respeitei. E lamento profundamente se qualquer atitude minha o machucou. Nunca foi essa a intenção.

Outro repórter pediu a palavra.

— E quanto a ? Ele tem algo a declarar? — arqueou ambas sobrancelhas.

é fotógrafo. Não é ator. E apesar do reconhecimento na indústria, não está acostumado a holofotes. — mordeu o lábio inferior devagar. — O que posso dizer por ele é que tudo foi verdadeiro. Não se trata de um caso passageiro ou de uma distração. — sorriu de leve. — Pelo contrário, da noite para o dia ele me viu quando nem eu me via mais.

Logo após sua resposta, a imprensa explodiu em perguntas. Um mar de vozes se levantou ao mesmo tempo.

— "Você e estão juntos oficialmente?"

— " te traiu antes?"

— "Você vai continuar na série da Netflix?"

— "Pretende se pronunciar sobre o contrato publicitário com a Dior?"

— "Você e estavam se relacionando antes do fim com ?"

Diana levantou uma das mãos como quem tentava acalmar uma sala de aula em chamas. respirou fundo mais uma vez e apontou para uma das jornalistas mais respeitadas da Variety, uma mulher mais velha, de cabelos grisalhos, que aguardava pacientemente sua vez.

— Senhorita , a senhorita está ciente de que esse posicionamento pode impactar seus contratos com marcas, seu papel na nova série e sua imagem pública? — a mulher perguntou.

não hesitou.

— Estou. — balançou a cabeça. — Mas pela primeira vez... eu aceito isso. Porque se meu trabalho depende de eu viver uma mentira... — respirou fundo, antes de continuar. — Então, talvez seja hora de rever o que eu quero fazer com a minha carreira.

Diana soltou um suspiro discreto. Aquilo não estava nos tópicos. Mas era exatamente o que o mundo precisava ouvir.

olhou para a plateia e, pela primeira vez em muitos anos, não teve medo de ser olhada de volta.

— Eu não sou uma personagem. Não estou interpretando um papel aqui. Sou uma mulher que erra, que sente, que ama, e que está tentando ser fiel a si mesma. E se isso for um problema para o mundo... — encarou a câmera a sua frente. — Bem, que sorte a minha por finalmente estar vivendo algo real. — sorriu.

O silêncio instalou-se por um momento.

Então, um dos jornalistas da BBC, talvez mais humano do que o cargo exigia, começou a bater palmas. Depois outro. E outro.

Logo, o salão inteiro aplaudia.

permaneceu sentada, sentindo as lágrimas escorrerem pelo seu rosto, mas sem esconder o sorriso que insistia em não sair da sua boca. Ela, finalmente, estava sendo aplaudida não por uma performance em algum filme ou série, mas por sua verdade.

Diana aproximou-se, olhos marejados, mas mantendo o profissionalismo até o fim.

— Essa é minha garota! — sussurrou, enquanto a ajudava a levantar.

apenas sorriu, sem conseguir falar, e juntas saíram discretamente pelos bastidores, guiadas por dois seguranças até uma saída lateral. Fora do salão, os flashes haviam ficado para trás, os repórteres abafados pelas portas grossas e pelo protocolo de proteção.

— Tem um carro te esperando, eu vou ficar por aqui. — Holland disse. — Preciso organizar toda sua agenda, por que depois de hoje, estaremos lotadas. — a mulher riu fraco.

— Muito obrigada D! Eu não conseguiria sem você. — a atriz abraçou Diana com amor, antes de se despedir dando um tchau com a mão.

Após seguir sozinha pelo hall, passou pela entrada principal e desceu os degraus a sua frente, sentindo o salto ecoar no concreto molhado da calçada. Quando sentiu o vento gélido no rosto, percebeu que o som do mundo parecia distante, quase irreal, como se pertencesse a outra vida — aquela que ela havia acabado de abandonar, ao menos em parte.

O lenço ainda envolvia seu pescoço, agora apenas como um detalhe. O blazer lhe dava a postura que sempre esperaram dela, mas seus olhos eram de alguém que acabava de se despir de todas as armaduras.

E então, ela o viu.

estava encostado discretamente em um dos carros estacionados à sombra de uma árvore, de braços cruzados e o semblante sereno. Não havia seguranças, nem holofotes, nem urgência. Apenas ele. Com uma camisa escura simples, os cabelos bagunçados pelo vento e os olhos mais suaves que ela já vira.

Ele não se moveu de imediato.

Ela também não.

Mas quando seus olhares finalmente se encontraram, algo silencioso se estabeleceu entre os dois. Um entendimento mútuo.

deu um pequeno passo à frente. descruzou os braços devagar.

E então, ambos sorriram.

E foi nesse instante, no intervalo entre o passado e o que estava por vir, que ela soube. Não precisava mais se esconder. Porque ali, naquela calçada fria de Londres, alguém a enxergava. Não como atriz, nem como manchete. Mas como mulher.

E isso… era tudo.

FIM!

Nota da autora: Sem nota!