11. House Tour
Codificada por: Lua ☾
Finalizada em: Abril/2026.
Capítulo Único
São Paulo era um novo mundo para garotas como .
Ela havia crescido em uma capital do nordeste, onde havia um aeroporto do tamanho de uma sala de cinema do Aricanduva e as passagens áreas sempre eram caras demais: o lugar era um paraíso banhado por tantas praias que era impossível visitar todas em um único dia.
A beleza natural moldava a cidade. A sua característica principal era seu intocada pelo tempo em sua tropicalidade digna de filmes e, ainda assim, ter apenas o toque necessário para de tornar moderna o suficiente para atrair gente rica e turistas maravilhados (normalmente, pessoas que se enquadravam em dois grupos).
Em suma, morava no lugar onde todos passavam as férias. Como qualquer anjo que nasceu no céu, ela mal podia esperar para descer a escada e se divertir um pouco na terra.
Essa viagem era a oportunidade perfeita.
— Que cheiro de mijo.
O que, claramente, não significa que tudo eram flores. Essa é a coisa sobre uma garota da cidade pequena em uma grande metrópole: tudo é enorme, exagerado e corrido. É estranho pensar que você pode se sentir claustrofóbico em um estado que parece maior do que o mar, com arranha-céus e fast-foods do tamanho de casarões, mas espere até pisar na rodoviária.
Alice, sua melhor amiga e companheira de decisões questionáveis, assentiu: — É, parece xixi de cachorro.
— Deve ser de gente, esse cheiro não é de cachorro. — fez uma careta, olhando ao redor. Suspirou aliviada ao lembrar dos inúmeros conselhos maternos sobre a falta de segurança na grande São Paulo. — Pelo menos tem um carro de polícia perto.
— Pois é. — O foco da outra estava no celular. Estava tentando acompanhar o carro de aplicativo há alguns minutos. — Ele já está chegando. José. Carro branco. Placa JKM.
— Carro branco, certo. — Ajustou a mochila rosa no ombro e trouxe a mala de rodinhas para mais perto do corpo, observando a fileira de gente entrando e saindo de outros carros. — Nossa, a maioria dos Ubers aqui são carros bem caros, né?
As discrepâncias entre as duas cidades, mesmo sendo capitais, eram gritantes. São Paulo era um misto de luxo, bagunça, sobrevivência e diversidade. Macatoera alegre, bonita, tinha ar fresco e era solícita demais com qualquer um.
não tinha do que reclamar; seria o mesmo que ser uma mãe e escolher entre duas filhas com personalidade distintas. Não havia sentido nisso. A não ser por uma coisa:
Por que os Ubers de São Paulo se recusaram a ligar o ar-condicionado?
Já dentro do carro, ela não evitou uma pequena carranca com essa constatação. Estava quente, obrigada. Mais quente do que todo mundo (inclusive os aplicativos e os jornais) haviam dito que estaria. A mala dela, estufada com quinze casacos diferentes, parecia rir e estar prestes a explodir ao mesmo tempo.
Pelo menos, o trânsito era igualmente irritante nas duas cidades.
— Quero chegar no hotel e me deitar em uma cama de verdade. — resmungou e logo bocejou, a viagem havia sido longa. — Dormir no aeroporto é horrível.
— Dormir no aeroporto por 15 horas. — Alice relembrou enquanto digitava uma mensagem para os pais, avisando que já estava na estrada. — E depois uma viagem de ônibus de quase duas horas.
— Pelo menos o hotel vai ser incrível. — ela sorriu abertamente e bateu nas pernas com animação. — Os pontos do seu tio nos salvaram, de novo..
— Vai que a gente encontra algum famoso?
— Espero que seja a Lorde, quero um autógrafo. — suspirou.
— E eu quero o Lewis Capaldi!
— Ou o pessoal da TV Girl?! Ouvi dizer que a baixista está com intoxicação alimentar e..
A conversa prosseguiu em um ritmo frenético entre as duas até o final da corrida. O Uber não falou nada, mas pareceu aliviado ao ajudar elas com as malas; provavelmente cansado da rotina de trabalho, do calor (de novo, cadê o ar-condicionado?) e do falatório desenfreado das garotas em seus vinte e poucos anos.
— Ai. Meu. Deus. — Alice sussurrou.
— O quê? — Ela perguntou, ainda lutando contra a mala para deixar a rodinha reta. — Essa porra de..
— Olha pra cá! — Ali bateu no ombro da amiga, que logo se virou com uma expressão alerta; não havia nenhum roubo em andamento ou cena de crime ou garoto fofo. Estava prestes a brigar com a outra quando seus olhos ficaram no hall do hotel.
Parecia um palácio. Era espaçoso, com sofás de couro jogados nos cantos estrategicamente. Havia esculturas azuis que iam do chão até o teto, enrolando-se em si mesmas. A iluminação era em parte embutida, em parte reluzente em lustres enormes, dignos de uma sala em um frame do Scorcese. Um bar residia quase no meio, com uma mesa de mármore e bancos, as inúmeras garrafas exibidas como prêmios de riqueza.
“Aí, meu Deus”. Com certeza.
— Agradeça de novo ao seu tio pelos pontos, porque puta que pariu. — riu em pura descrença. — Com certeza vamos encontrar pelo menos um influencer enjoado por aqui.
E esvaziar o frigobar, com certeza.
Horas depois, as garotas estavam voltando do segundo dia de festival. O Lollapalooza era tudo que alguém iniciando a vida adulta poderia querer: um evento grande, cheio de brindes gratuitos e tantas opções de músicas que você precisa sair no meio de um show para ir para outro se quiser assistir tudo.
Felizmente, elas não estavam sozinhas: Alice tinha alguns amigos que conheceu em um grupo da internet e que, por sorte, eram boas pessoas. Uma colega da faculdade de tinha uma casa em São Paulo e também viajou para o Lolla. Uma pessoa conhece outra, que conhece outra, e logo estavam voltando em um metrô lotado às 2 da manhã.
— Não funciona sempre nesse horário. É por causa do Lollapalooza. — Um deles explicou.
Demorou cerca de uma hora, o que parecia um tempo exorbitante pela rapidez do metrô. Entretanto, o amontoado de jovens voltando do Lolla fizeram uma mini-viagem divertida. Todos estavam dormindo, conversando, ou tirando fotos. Era engraçado ver alguém vestido igual a Chappell Roan reclamando que outro fã não parava de peidar e chorar ao lado dela no show.
As duras suspiraram em puro alívio ao chegar no hotel, arrastando os pés até a recepção. Acenaram para os trabalhadores que ainda estavam a postos e se dirigiram até um dos elevadores, carregando um amontoado de copos temáticos, squeezes e merchs.
— Ainda não acredito que a área vip é daquele tamanho. Fica super longe do palco e nem enche!
— Uma das meninas que estava do meu lado na grade disse que foi menor no ano passado. — explicou, fazendo uma careta. Nos shows em Macato, a diferença de proximidade não era tão grande. Nem mesmo no show solo que foi no Rio a diferença tinha sido tanta. Os eventos de São Paulo realmente gostava do contraste entre filhinhos de papai e gente que trabalha. — Mas foi enorme dessa vez. A sorte era que o palco era alto. É sério: só tinha boy* e influencer. Aquela Morgana Shious só foi lá, tirou foto e saiu. Ela nem viu o show!
— Que novidade. — Alice revirou os olhos e apertou no botão para o 49° andar. — Amanhã vamos acordar de que horas?
— Vamos aproveitar o café da manhã do hotel, vai que vemos alguém famoso? — Brincou, encostando-se na superfície espelhada do elevador. — Mas vamos cedo. Quero pegar grade amanhã.
— Vou colocar o alarme para umas nove, então. — assentiu. As duas ficaram em silêncio antes de Ali prosseguir: — Você acha que as pessoas sabem que estamos aqui por causa de pontos?
— Com certeza. Somos bem mais divertidas que os riquinhos, olha quantos copos a gente tem?
— Você pegou esses copos do chão.
— Do chão do Lollapalooza. É um detalhe importante.
As garotas tiram cúmplices, adotando posturas sérias assim que as portas do elevador se abriram. Um casal de idosos bem vestidos encarou as duas com sobrancelhas arqueadas enquanto as duplas trocavam de lugar. Não era surpresa nenhuma: a cidade toda devia saber que São Paulo estava sediando o Lollapalooza, mas a maioria não se importava. Então, ver suas mulheres sujas, com os cabelos bagunçados, carregando um monte de brindes e com rostos exaustos em um hotel que cobrava até por respiração não era exatamente algo comum.
Assim que o elevador partiu, as duas gargalharam ainda mais alto.
No outro dia, o quarto estava mais agitado do que Paulista ao meio dia: maquiagens jogadas pelos cantos, uma calcinha em cima da cama, um sutiã na janela, roupas esparramadas pelos cantos. Era o último dia de festival. havia vomitado assim que acordou, um presente especial de um salgado de palmito duvidoso que ela havia comido na estação (lição para vida: não coma no metrô). Alice, por outro lado, enfiava remédios de enjôo na mochila rosa da amiga enquanto tentava decidir qual blusa usar.
— Marrom ou..
— Marrom.
Ela bufou: — Mas você nem viu a outra!
— A outra tem manga. Você vai morrer de calor. — apontou para a segunda opção, uma blusa rosa fofa que com certeza transformaria a amiga em uma poça de suor.
— Realmente. — ela deu de ombros.
voltou a ficar na maquiagem, disfarçando ao máximo a aparência do seu mal-estar. Ela não havia nadado tanto para morrer na praia agora; de um jeito ou de outro, ela iria curtir o último dia do Lollapalooza, e pegar grade!
— Você tem certeza que está bem? — Alice perguntou quando as duas já estavam prontas.
— Não. — Admitiu, mas logo sorriu brincalhona. — Mas se eu desmaiar lá, viro notícia. Quem sabe vou até para o backstage?
Elas andaram até o elevador, esperando que ele descesse. Quando estava há apenas uma nadar de distância, Alice bateu na testa.
— O quê?
— Esqueci os lanches. — Ela murmurou, buscando dentro da bolsa. — Eu já volto!
— Eu te perguntei se já tava na bolsa!
As portas do elevador abriram. Ela não olhou para a morena, apenas acenou com a mão.
— Vai na frente e pega uma mesa. Eu já desço.
— Tá, mas vai rápido! — bufou e arqueou as mãos em rendição antes de entrar no elevador.
— Parece que sua amiga te abandonou.
As palavras vieram em inglês, mas não parecia ter qualquer sotaque. arqueou a sobrancelha, curiosa, e levantou o queixo para encarar o dono daquela interação tão incomum para São Paulo; a garota havia notado que, normalmente, as pessoas ficavam mais quietas, a não ser que estivessem brigando.
O homem era alto, tinha cabelos bagunçados escondidos debaixo de um boné e usava óculos escuros e uma regata preta. Seus braços eram cobertos de sinais e ele parecia tão confortável em sua própria pele que a deixava um pouco intimidada.
Gostoso.
— Não se preocupe com isso. — Bufou, revirando os olhos de brincadeira. O sorriso em seus lábios denunciava que não estava chateada. — Ela vai escalar o prédio como o Homem-Aranha e me encontrar lá embaixo.
Ele riu, inclinando a cabeça para observá-la de cima a baixo: cabelos escuros, olhos castanhos, uma estatura tão menor que a dele. Ela era linda. — Seu inglês é muito bom. Você é daqui?
— Você poderia dizer que sim. — enrugou o nariz. Ela com certeza era brasileira, só não de São Paulo. Porém, não queria ter que explicar isso para um gringo, por mais gato que ele fosse. — Eu trabalho em uma assessoria de relações internacionais. Então, tenho que falar muito inglês.
— Parece um trabalho bem legal.
— Ah.. tá mais para a stuck in the mud* one. — Riu, balançando a cabeça. — Eu só recepciono as pessoas, explico as coisas e deixo elas descobrirem a aventura dos intercâmbios.
— Bom, espero que fique mais interessante em breve. — Disse com honestidade. Era legal pra caralho conversar com alguém que não pedia autógrafos e fotos. Claro, amava as suas fãs, todavia, certamente existiam menos delas no Brasil e era divertido poder perambular por aí e ter conversas de elevador com uma garota bonita que não sabia quem ele era.
— Claro que vai. Como você diz? There are bumps on the road*. Mas as coisas sempre ficam melhores. — deu de ombros. — Pelo menos, é assim que pensamos aqui.
Ele arqueou a sobrancelha: — Sério?
— Sim, os brasileiros tem um jeito irritante de sempre achar que as coisas vão terminar bem. — revirou os olhos, apesar do divertimento em suas palavras. — Te deixa doido às vezes.
— Acho que é um jeito legal de pensar. — Respondeu. E então, ainda curioso, acrescentou; — O que você quer ser?
— Acho que vamos ter que esperar para ver. — Piscou para o mais alto, que soltou um riso anasalado. — I write. Awfully so.*
— How come?*
— Acho que sentimentos são as coisas mais interessantes que alguém pode fazer. Você não pode aprender eles, você não pode criá-los, você não pode ficar eles. Eles apenas existem e te deixam doido e é como sempre estar na parte brilhante da faca.
Ele a encarou, ligeiramente maravilhado por aquela explicação; lembrava-o de si mesmo uma década antes, aspirando por coisas que não podia nomear, muito menos tocar.
E agora, estavam em suas mãos como se sempre tivessem pertencido a ele.
— Acho que as coisas melhoram mesmo, então. — Respondeu baixinho. Ela apenas assentiu.
Quando o elevador abriu e os dois saíram, ela sorriu para o homem.
— Tenha uma boa estadia aqui. Eu diria que não esqueça de ir nas praias, mas não tem muitas em São Paulo. — Balançou a cabeça. — Às vezes eu acho que não tem coisas boas naturais nesta cidade.
— Onde estão as coisas boas, então? — perguntou, se aproximando um pouco mais dela.
— Macato.
— É de lá que você é?
deu um sorriso convencido: — Depende. Você acha que eu sou uma coisa boa?
Ele inclinou a cabeça antes de assentiu.
— Acho que eu gostaria de descobrir.
A garota riu.
— Você nunca me disse o que faz.
deu de ombros. Ele esperava que isso não estragasse as coisas.
— De tudo um pouco. No momento, música.
Ela piscou, estudando o rosto dele. O hotel, as respostas, a nacionalidade.. merda. Ele era quem dos artistas que iam se apresentar no festival? Não era um headliner, pelo menos não se lembrava dele das propagandas, mas..
— Ah.
Ele deu um sorrisinho sem graça: — É, ah.
— Aqui é uma cidade grande. Seria tipo.. você é americano né? Bom, seria tipo a sua New York. Sempre tem alguém que conhece alguma coisa, ou outra pessoa. Não tem privacidade nenhuma.
— Sim. Eu percebi isso, mas já é bem menos do que nos Estados Unidos. — cruzou os braços, sem entender onde ela queria chegar, mas ouvindo com atenção.
— Bom, eu acho que ninguém te reconheceria nas praias de Macato.
— É? — Ele sorriu.
— É.
— Eu poderia te dar um House Tour. — sugeriu.
— Não tenho shows por mais duas semanas depois de hoje. — Disse. Os dois se encararam, os olhos brilhando como duas crianças que guardam um segredo.
— Então, vai ser um prazer te conhecer…? — Estendeu a mão para o mais alto.
Ele imediatamente encaixou a palma na dela, balançando em um cumprimento que demorou mais do que o normal, e menos do que ele queria.
— Crave.
— .
— Quem sabe você não tem um espaço no café da manhã, então? — Sugeriu, tentando sua própria sorte.
E riu.
— Acho que você vai descobrir agora.
O último dia do Lollapalooza mal tinha começado, e já parecia quase inesquecível.
Glossário:
Só tinha boy* = só tinha mauricinho/patricinha.
A stuck in the mud* one = Algo sem graça. Nesse sentido, um trabalho parado.
There are bumps on the road* = Existem obstáculos no caminho.
I write. Awfully so.* = Eu escrevo. Muito. Aqui, awfully pode ser interpretado de dois jeitos.
How come?* = Como assim?
Ela havia crescido em uma capital do nordeste, onde havia um aeroporto do tamanho de uma sala de cinema do Aricanduva e as passagens áreas sempre eram caras demais: o lugar era um paraíso banhado por tantas praias que era impossível visitar todas em um único dia.
A beleza natural moldava a cidade. A sua característica principal era seu intocada pelo tempo em sua tropicalidade digna de filmes e, ainda assim, ter apenas o toque necessário para de tornar moderna o suficiente para atrair gente rica e turistas maravilhados (normalmente, pessoas que se enquadravam em dois grupos).
Em suma, morava no lugar onde todos passavam as férias. Como qualquer anjo que nasceu no céu, ela mal podia esperar para descer a escada e se divertir um pouco na terra.
Essa viagem era a oportunidade perfeita.
— Que cheiro de mijo.
O que, claramente, não significa que tudo eram flores. Essa é a coisa sobre uma garota da cidade pequena em uma grande metrópole: tudo é enorme, exagerado e corrido. É estranho pensar que você pode se sentir claustrofóbico em um estado que parece maior do que o mar, com arranha-céus e fast-foods do tamanho de casarões, mas espere até pisar na rodoviária.
Alice, sua melhor amiga e companheira de decisões questionáveis, assentiu: — É, parece xixi de cachorro.
— Deve ser de gente, esse cheiro não é de cachorro. — fez uma careta, olhando ao redor. Suspirou aliviada ao lembrar dos inúmeros conselhos maternos sobre a falta de segurança na grande São Paulo. — Pelo menos tem um carro de polícia perto.
— Pois é. — O foco da outra estava no celular. Estava tentando acompanhar o carro de aplicativo há alguns minutos. — Ele já está chegando. José. Carro branco. Placa JKM.
— Carro branco, certo. — Ajustou a mochila rosa no ombro e trouxe a mala de rodinhas para mais perto do corpo, observando a fileira de gente entrando e saindo de outros carros. — Nossa, a maioria dos Ubers aqui são carros bem caros, né?
As discrepâncias entre as duas cidades, mesmo sendo capitais, eram gritantes. São Paulo era um misto de luxo, bagunça, sobrevivência e diversidade. Macatoera alegre, bonita, tinha ar fresco e era solícita demais com qualquer um.
não tinha do que reclamar; seria o mesmo que ser uma mãe e escolher entre duas filhas com personalidade distintas. Não havia sentido nisso. A não ser por uma coisa:
Por que os Ubers de São Paulo se recusaram a ligar o ar-condicionado?
Já dentro do carro, ela não evitou uma pequena carranca com essa constatação. Estava quente, obrigada. Mais quente do que todo mundo (inclusive os aplicativos e os jornais) haviam dito que estaria. A mala dela, estufada com quinze casacos diferentes, parecia rir e estar prestes a explodir ao mesmo tempo.
Pelo menos, o trânsito era igualmente irritante nas duas cidades.
— Quero chegar no hotel e me deitar em uma cama de verdade. — resmungou e logo bocejou, a viagem havia sido longa. — Dormir no aeroporto é horrível.
— Dormir no aeroporto por 15 horas. — Alice relembrou enquanto digitava uma mensagem para os pais, avisando que já estava na estrada. — E depois uma viagem de ônibus de quase duas horas.
— Pelo menos o hotel vai ser incrível. — ela sorriu abertamente e bateu nas pernas com animação. — Os pontos do seu tio nos salvaram, de novo..
— Vai que a gente encontra algum famoso?
— Espero que seja a Lorde, quero um autógrafo. — suspirou.
— E eu quero o Lewis Capaldi!
— Ou o pessoal da TV Girl?! Ouvi dizer que a baixista está com intoxicação alimentar e..
A conversa prosseguiu em um ritmo frenético entre as duas até o final da corrida. O Uber não falou nada, mas pareceu aliviado ao ajudar elas com as malas; provavelmente cansado da rotina de trabalho, do calor (de novo, cadê o ar-condicionado?) e do falatório desenfreado das garotas em seus vinte e poucos anos.
— Ai. Meu. Deus. — Alice sussurrou.
— O quê? — Ela perguntou, ainda lutando contra a mala para deixar a rodinha reta. — Essa porra de..
— Olha pra cá! — Ali bateu no ombro da amiga, que logo se virou com uma expressão alerta; não havia nenhum roubo em andamento ou cena de crime ou garoto fofo. Estava prestes a brigar com a outra quando seus olhos ficaram no hall do hotel.
Parecia um palácio. Era espaçoso, com sofás de couro jogados nos cantos estrategicamente. Havia esculturas azuis que iam do chão até o teto, enrolando-se em si mesmas. A iluminação era em parte embutida, em parte reluzente em lustres enormes, dignos de uma sala em um frame do Scorcese. Um bar residia quase no meio, com uma mesa de mármore e bancos, as inúmeras garrafas exibidas como prêmios de riqueza.
“Aí, meu Deus”. Com certeza.
— Agradeça de novo ao seu tio pelos pontos, porque puta que pariu. — riu em pura descrença. — Com certeza vamos encontrar pelo menos um influencer enjoado por aqui.
E esvaziar o frigobar, com certeza.
Horas depois, as garotas estavam voltando do segundo dia de festival. O Lollapalooza era tudo que alguém iniciando a vida adulta poderia querer: um evento grande, cheio de brindes gratuitos e tantas opções de músicas que você precisa sair no meio de um show para ir para outro se quiser assistir tudo.
Felizmente, elas não estavam sozinhas: Alice tinha alguns amigos que conheceu em um grupo da internet e que, por sorte, eram boas pessoas. Uma colega da faculdade de tinha uma casa em São Paulo e também viajou para o Lolla. Uma pessoa conhece outra, que conhece outra, e logo estavam voltando em um metrô lotado às 2 da manhã.
— Não funciona sempre nesse horário. É por causa do Lollapalooza. — Um deles explicou.
Demorou cerca de uma hora, o que parecia um tempo exorbitante pela rapidez do metrô. Entretanto, o amontoado de jovens voltando do Lolla fizeram uma mini-viagem divertida. Todos estavam dormindo, conversando, ou tirando fotos. Era engraçado ver alguém vestido igual a Chappell Roan reclamando que outro fã não parava de peidar e chorar ao lado dela no show.
As duras suspiraram em puro alívio ao chegar no hotel, arrastando os pés até a recepção. Acenaram para os trabalhadores que ainda estavam a postos e se dirigiram até um dos elevadores, carregando um amontoado de copos temáticos, squeezes e merchs.
— Ainda não acredito que a área vip é daquele tamanho. Fica super longe do palco e nem enche!
— Uma das meninas que estava do meu lado na grade disse que foi menor no ano passado. — explicou, fazendo uma careta. Nos shows em Macato, a diferença de proximidade não era tão grande. Nem mesmo no show solo que foi no Rio a diferença tinha sido tanta. Os eventos de São Paulo realmente gostava do contraste entre filhinhos de papai e gente que trabalha. — Mas foi enorme dessa vez. A sorte era que o palco era alto. É sério: só tinha boy* e influencer. Aquela Morgana Shious só foi lá, tirou foto e saiu. Ela nem viu o show!
— Que novidade. — Alice revirou os olhos e apertou no botão para o 49° andar. — Amanhã vamos acordar de que horas?
— Vamos aproveitar o café da manhã do hotel, vai que vemos alguém famoso? — Brincou, encostando-se na superfície espelhada do elevador. — Mas vamos cedo. Quero pegar grade amanhã.
— Vou colocar o alarme para umas nove, então. — assentiu. As duas ficaram em silêncio antes de Ali prosseguir: — Você acha que as pessoas sabem que estamos aqui por causa de pontos?
— Com certeza. Somos bem mais divertidas que os riquinhos, olha quantos copos a gente tem?
— Você pegou esses copos do chão.
— Do chão do Lollapalooza. É um detalhe importante.
As garotas tiram cúmplices, adotando posturas sérias assim que as portas do elevador se abriram. Um casal de idosos bem vestidos encarou as duas com sobrancelhas arqueadas enquanto as duplas trocavam de lugar. Não era surpresa nenhuma: a cidade toda devia saber que São Paulo estava sediando o Lollapalooza, mas a maioria não se importava. Então, ver suas mulheres sujas, com os cabelos bagunçados, carregando um monte de brindes e com rostos exaustos em um hotel que cobrava até por respiração não era exatamente algo comum.
Assim que o elevador partiu, as duas gargalharam ainda mais alto.
No outro dia, o quarto estava mais agitado do que Paulista ao meio dia: maquiagens jogadas pelos cantos, uma calcinha em cima da cama, um sutiã na janela, roupas esparramadas pelos cantos. Era o último dia de festival. havia vomitado assim que acordou, um presente especial de um salgado de palmito duvidoso que ela havia comido na estação (lição para vida: não coma no metrô). Alice, por outro lado, enfiava remédios de enjôo na mochila rosa da amiga enquanto tentava decidir qual blusa usar.
— Marrom ou..
— Marrom.
Ela bufou: — Mas você nem viu a outra!
— A outra tem manga. Você vai morrer de calor. — apontou para a segunda opção, uma blusa rosa fofa que com certeza transformaria a amiga em uma poça de suor.
— Realmente. — ela deu de ombros.
voltou a ficar na maquiagem, disfarçando ao máximo a aparência do seu mal-estar. Ela não havia nadado tanto para morrer na praia agora; de um jeito ou de outro, ela iria curtir o último dia do Lollapalooza, e pegar grade!
— Você tem certeza que está bem? — Alice perguntou quando as duas já estavam prontas.
— Não. — Admitiu, mas logo sorriu brincalhona. — Mas se eu desmaiar lá, viro notícia. Quem sabe vou até para o backstage?
Elas andaram até o elevador, esperando que ele descesse. Quando estava há apenas uma nadar de distância, Alice bateu na testa.
— O quê?
— Esqueci os lanches. — Ela murmurou, buscando dentro da bolsa. — Eu já volto!
— Eu te perguntei se já tava na bolsa!
As portas do elevador abriram. Ela não olhou para a morena, apenas acenou com a mão.
— Vai na frente e pega uma mesa. Eu já desço.
— Tá, mas vai rápido! — bufou e arqueou as mãos em rendição antes de entrar no elevador.
— Parece que sua amiga te abandonou.
As palavras vieram em inglês, mas não parecia ter qualquer sotaque. arqueou a sobrancelha, curiosa, e levantou o queixo para encarar o dono daquela interação tão incomum para São Paulo; a garota havia notado que, normalmente, as pessoas ficavam mais quietas, a não ser que estivessem brigando.
O homem era alto, tinha cabelos bagunçados escondidos debaixo de um boné e usava óculos escuros e uma regata preta. Seus braços eram cobertos de sinais e ele parecia tão confortável em sua própria pele que a deixava um pouco intimidada.
Gostoso.
— Não se preocupe com isso. — Bufou, revirando os olhos de brincadeira. O sorriso em seus lábios denunciava que não estava chateada. — Ela vai escalar o prédio como o Homem-Aranha e me encontrar lá embaixo.
Ele riu, inclinando a cabeça para observá-la de cima a baixo: cabelos escuros, olhos castanhos, uma estatura tão menor que a dele. Ela era linda. — Seu inglês é muito bom. Você é daqui?
— Você poderia dizer que sim. — enrugou o nariz. Ela com certeza era brasileira, só não de São Paulo. Porém, não queria ter que explicar isso para um gringo, por mais gato que ele fosse. — Eu trabalho em uma assessoria de relações internacionais. Então, tenho que falar muito inglês.
— Parece um trabalho bem legal.
— Ah.. tá mais para a stuck in the mud* one. — Riu, balançando a cabeça. — Eu só recepciono as pessoas, explico as coisas e deixo elas descobrirem a aventura dos intercâmbios.
— Bom, espero que fique mais interessante em breve. — Disse com honestidade. Era legal pra caralho conversar com alguém que não pedia autógrafos e fotos. Claro, amava as suas fãs, todavia, certamente existiam menos delas no Brasil e era divertido poder perambular por aí e ter conversas de elevador com uma garota bonita que não sabia quem ele era.
— Claro que vai. Como você diz? There are bumps on the road*. Mas as coisas sempre ficam melhores. — deu de ombros. — Pelo menos, é assim que pensamos aqui.
Ele arqueou a sobrancelha: — Sério?
— Sim, os brasileiros tem um jeito irritante de sempre achar que as coisas vão terminar bem. — revirou os olhos, apesar do divertimento em suas palavras. — Te deixa doido às vezes.
— Acho que é um jeito legal de pensar. — Respondeu. E então, ainda curioso, acrescentou; — O que você quer ser?
— Acho que vamos ter que esperar para ver. — Piscou para o mais alto, que soltou um riso anasalado. — I write. Awfully so.*
— How come?*
— Acho que sentimentos são as coisas mais interessantes que alguém pode fazer. Você não pode aprender eles, você não pode criá-los, você não pode ficar eles. Eles apenas existem e te deixam doido e é como sempre estar na parte brilhante da faca.
Ele a encarou, ligeiramente maravilhado por aquela explicação; lembrava-o de si mesmo uma década antes, aspirando por coisas que não podia nomear, muito menos tocar.
E agora, estavam em suas mãos como se sempre tivessem pertencido a ele.
— Acho que as coisas melhoram mesmo, então. — Respondeu baixinho. Ela apenas assentiu.
Quando o elevador abriu e os dois saíram, ela sorriu para o homem.
— Tenha uma boa estadia aqui. Eu diria que não esqueça de ir nas praias, mas não tem muitas em São Paulo. — Balançou a cabeça. — Às vezes eu acho que não tem coisas boas naturais nesta cidade.
— Onde estão as coisas boas, então? — perguntou, se aproximando um pouco mais dela.
— Macato.
— É de lá que você é?
deu um sorriso convencido: — Depende. Você acha que eu sou uma coisa boa?
Ele inclinou a cabeça antes de assentiu.
— Acho que eu gostaria de descobrir.
A garota riu.
— Você nunca me disse o que faz.
deu de ombros. Ele esperava que isso não estragasse as coisas.
— De tudo um pouco. No momento, música.
Ela piscou, estudando o rosto dele. O hotel, as respostas, a nacionalidade.. merda. Ele era quem dos artistas que iam se apresentar no festival? Não era um headliner, pelo menos não se lembrava dele das propagandas, mas..
— Ah.
Ele deu um sorrisinho sem graça: — É, ah.
— Aqui é uma cidade grande. Seria tipo.. você é americano né? Bom, seria tipo a sua New York. Sempre tem alguém que conhece alguma coisa, ou outra pessoa. Não tem privacidade nenhuma.
— Sim. Eu percebi isso, mas já é bem menos do que nos Estados Unidos. — cruzou os braços, sem entender onde ela queria chegar, mas ouvindo com atenção.
— Bom, eu acho que ninguém te reconheceria nas praias de Macato.
— É? — Ele sorriu.
— É.
— Eu poderia te dar um House Tour. — sugeriu.
— Não tenho shows por mais duas semanas depois de hoje. — Disse. Os dois se encararam, os olhos brilhando como duas crianças que guardam um segredo.
— Então, vai ser um prazer te conhecer…? — Estendeu a mão para o mais alto.
Ele imediatamente encaixou a palma na dela, balançando em um cumprimento que demorou mais do que o normal, e menos do que ele queria.
— Crave.
— .
— Quem sabe você não tem um espaço no café da manhã, então? — Sugeriu, tentando sua própria sorte.
E riu.
— Acho que você vai descobrir agora.
O último dia do Lollapalooza mal tinha começado, e já parecia quase inesquecível.
Glossário:
Só tinha boy* = só tinha mauricinho/patricinha.
A stuck in the mud* one = Algo sem graça. Nesse sentido, um trabalho parado.
There are bumps on the road* = Existem obstáculos no caminho.
I write. Awfully so.* = Eu escrevo. Muito. Aqui, awfully pode ser interpretado de dois jeitos.
How come?* = Como assim?
FIM!
Nota da autora: Eu juro solenemente falar apenas a verdade é somente a verdade! Essa influencer, que eu escondi o nome, apareceu só para fazer propaganda e SUMIU. Mas outros apareceram, curtiram os show e foram super fofos. Mas a crítica a área vip continua. A história mescla um pouco de inglês e português já que o diálogo era entre pessoas de diferentes nacionalidades. E juro, nunca mais como nada de metrô. Tirando isso, foi tudo legal demais. 🥺 Espero que tenham gostado tanto quanto eu gostei de São Paulo!