12. The Life of a Showgirl

Codificada por: Lightyear 💫
Finalizada em: 02/06/2026


You Wanna Take a Skate on the Inside My Veins?

Confesso que fiquei sentado na moto alguns segundos a mais do que o necessário. Havia uma geada intensa não tão costumeira para a época para a região, além de muita chuva e um clima gelado. Umedeci meus lábios com saliva, que estavam ressecados, observando a cena e levemente hesitante sobre minhas atitudes seguintes. Passei os dedos pelo couro do guidão da moto, estressado, indeciso sobre meus próximos passos.
Não era dúvida, na verdade; era raiva. Uma raiva constante e ardente, quase que primitiva, que queimava meu peito. Raiva de mim por ainda estar ali, por me importar com ela e, consequentemente, com a nossa história. Afinal, o Natal nunca havia sido um problema até ela transformar tudo em ausência após nosso término repentino. Por isso, estava tão desgostoso naquela posição. E me sentindo particularmente patético por remoer todos aqueles sentimentos como um adolescente com sua primeira paixão.
Há dias não me atendia mais. Desde que terminamos — na verdade, ela terminou, importante salientar —, levou a sério a posição de manter-se distante. E eu havia tentado respeitá-la, verdadeiramente, mesmo que o sentimento ainda tomasse conta do meu peito. Houveram sim algumas recaídas, era impossível ficar longe daquela mulher. Eu me via incapaz de não beijá-la ou tocá-la, parecendo a porra de um viciado.
Mas cá entre nós, eu sabia que era viciado nela. No cheiro, na pele macia, nos olhos âmbar e em sua doce voz. E me via incapaz de ficar longe daquele sorriso angelical, dos beijos suaves e dos gemidos sôfregos do meu nome. Das tatuagens que eram dispostas por toda a extensão de seus braços; pelos óculos lindamente posicionados em seu nariz arrebitado. Me arrepiava só de lembrar o quanto ela ainda mexia comigo.
Por isso, a contragosto, saí de cima da moto, deixando o capacete apoiado lá, caminhando em direção à porta de sua casa. Mesmo com a chuva intensa, protegi o pequeno embrulho de qualquer danificação, concentrado apenas em não ceder mais uma vez para uma recaída. Eu a queria mais do que nunca, mas não podia mais fazer isso comigo mesmo. Simplesmente não podíamos continuar levando as coisas dessa forma, resolvendo as coisas de forma momentânea com sexo e prazer. Principalmente porque o pós era o que mais me feria. Chegar em casa e não tê-la depois de tocá-la como se fosse minha, era devastador.
Minha confusão mental se dissipou assim que a porta se abriu. Eu sequer havia tocado a campainha, mas esqueci que ela tinha sensor de presença para sua segurança. Merda. Tive vontade de ir embora no mesmo instante; não porque não a queria, mas porque ela ainda parecia exatamente como alguém que não devia ter me deixado entrar tão fundo.
— Eu… só vim entregar seu presente — falei, mais seco e bruto do que gostaria.
Ela assentiu, como se estivesse me fazendo um favor. Aquilo ardeu mais do que deveria. Detalhista como sou, observei ao seu redor: dentro da casa, tudo beirava à normalidade: cheiro de comida, música baixa, aconchego e luzes baixas. O tipo de cenário que ela dizia não estar pronta para dividir comigo, porque eu tinha bagagem emocional demais. Mas lá estava ela.
Com isso, pude observar o quanto ela estava linda. Os cabelos castanhos caíam em cascatas onduladas, ao passo que ela usava um vestido branco de seda, curto e com uma fenda. Seus olhos claros piscavam ritmados, ainda incrédulos em me ver, e seus lábios carnudos estavam pintados de uma cor vermelha intensa. Confesso que aquela cena mexeu demais com o meu psicológico. Mesmo com raiva, não podia negar o quão linda ela era.
, por sua vez, fez menção para que eu entrasse e fechou a porta assim que eu adentrei a casa. Percebi que seu vestido tinha as costas nuas, além dos saltos altos também na cor branca. Minha boca secou só de imaginar que ela pudesse estar vestida assim para outro homem. Não era justo, em vista que eu já havia tirado aquele vestido mais vezes do que poderia contar.
Umedeci os lábios, com certo ciúmes, respirando fundo. Ela ficou de frente para mim, me encarando em silêncio e eu não pude evitar: observei que sua casa permanecia a mesma. Nada havia mudado, nem mesmo as nossas fotos na parede. As viagens que fizemos, os países que conhecemos,
A sensação de esperança que se acendeu em meu peito fora mais dolorosa do que qualquer suposição. Ela cruzou os braços de forma defensiva, ainda alheia a todos os pensamentos que me cercavam. Sem cerimônia, entreguei-lhe o pequeno embrulho em papel pardo, ao passo que suas delicadas mãos já foram abrir o pacote de imediato.
— Não precisa abrir agora se não quiser.
— Cala a boca, Jeon. — Ela disse, dando uma leve risadinha para quebrar o gelo.
rasgou o papel sem cerimônia, como sempre fazia, de uma forma impaciente, curiosa, viva demais para fingir indiferença por muito tempo. E eu tentei não reagir ou olhar demais, sem esperar nenhuma reação ou expectativa vinda dela. Tentei. Mas quando a caixa se abriu por completo e ela puxou o pequeno objeto de dentro, o ar pareceu ficar mais denso.
Havia uma pequena bússola em um pingente dentro da caixa. Era de prata envelhecida, discreta, pesada o suficiente pra não ser só mais um acessório qualquer, carregada de simbolismo. O polegar dela passou pela tampa devagar, como se estivesse assimilando o significado daquele presente. Mas, nitidamente, ela reconhecera. Era como se aquela enxurrada de sentimentos houvesse nos atingido simultaneamente.
Você ainda se lembra… — ela murmurou baixinho, quase para si mesma.
Engoli seco, desviando o olhar por um segundo. Respirei fundo antes de respondê-la, sem a intenção de ser impulsivo ou estúpido com ela.
— Eu não esqueço das coisas importantes.
Mas, ali eu cometera um grande erro. Porque aquilo não era só sobre velejar, sobre a bússola ou um presente de Natal. Era sobre aquela madrugada específica, anos atrás, quando ela me arrastou para um barco qualquer, em meio às risadas, bêbada de liberdade e de si mesma, dizendo que nunca confiava em mapas — só em direção, intenção e vontade de viver.
“Se eu me perder, eu sinto o caminho! E sigo meu instinto!” ela dissera aos berros, abrindo os braços como naquela cena do Titanic. Eu tinha achado aquilo a coisa mais insana e divertida que ouvira naquela noite, completamente justificada pela nossa pouca idade e intensidade que ela vivia sua vida. Porém, assim como , eu era intenso. E acabei tatuando uma bússola dias depois. Por causa dela.
Sempre por causa dela.
levantou o olhar pra mim de novo e dessa vez não tinha graça ou deboche. Suas emoções pareciam embaralhadas, mais cruas. Como se algo dentro dela tivesse mudado. Ela engoliu em seco, balbuciando:
— Jeon… Eu…
Meu sobrenome saiu mais baixo, de uma forma cruelmente verdadeira. Por um segundo, eu achei que ela ia atravessar o espaço entre a gente. Que ia fazer exatamente o que a gente sempre fazia: ignorar o caos, ignorar as consequências e simplesmente… Ceder. Ela transaria comigo e me faria promessas que não cumpriria no dia seguinte; que me colocaria no meio daquele delicioso caos de novo. Mas ela não fez. podia ser uma mulher surpreendente quando queria e ela pareceu usar de todo seu autocontrole para me encarar fixamente nos olhos. Ela fechou a bússola com um clique suave, segurando firme demais, como se aquilo pesasse mais do que devia. E então respirou fundo, afastando-se com um passo para trás.
— Eu realmente agradeço, mas… tenho que sair.
Foi simples assim, seco; de certa forma, até um pouco hostil. Aquilo me pegou desprevenido. A mudança foi tão brusca que levou um segundo pra minha mente acompanhar, piscando devagar.
— Sair? — repeti, baixo. — O que?
Ela assentiu, já evitando meu olhar, voltando para aquela versão dela que o mundo conhecia. A versão controlada, intocável e altamente sensual. Todavia, um tanto quanto covarde para expressar seus sentimentos e se abrir. De certa forma, eu era culpado e já deveria imaginar que ela não baixaria sua guarda. Não havia sido intencional; na verdade, a compra daquele presente fora antes de nosso término. Mas agora, ela me tratava como um estranho. Como os milhares de homens que lhe desejavam, sem saber o quão incrível aquela mulher era.
— Claro.
Eu podia ter insistido e não tê-lo feito também pegou-a de surpresa; era nítido em seus olhos a confusão por não ter identificado insistência. Podia ter perguntado para onde ou com quem… Podia ter lembrado que aquela casa ainda tinha fotos nossas nas paredes como uma piada de mau gosto. Mas ainda sim, não o fiz. Porque, diferente dela, eu sabia quando algo estava acabando.
Verdadeiramente. E estava cansado de tentar.
Dei um passo pra trás, ajeitando a jaqueta de couro ainda úmida e pigarreando. Ela levantou o olhar rápido, como se fosse dizer alguma coisa, porém calou-se, apenas encarando-me em silêncio. Apenas dei de ombros, com um sorriso amarelo e andei em direção à porta. Nunca dizia nada quando realmente importava. Talvez fôssemos mais parecidos que distintos, de qualquer forma.
Arrependido, não pude deixar de dizer-lhe antes de me retirar.
— Espero que você encontre seu caminho, .
Não esperei resposta, e sinceramente, nem precisava. Abri a porta e saí de volta pra chuva, deixando o calor, o cheiro dela… e tudo o que eu ainda queria pra trás. E dessa vez, quando montei na Harley Davidson, eu não olhei para trás. Estava determinado a deixar no passado.
Para sempre.

The Life of a Showgirl

, você precisa ver isso! — a voz da minha assessora tirou-me dos devaneios, diferente daquela firmeza habitual; havia uma tensão contida ali que me fez franzir o cenho mesmo antes de pegar o celular em mãos.
Cansada, suspirei, ainda diante do espelho, terminando de ajustar o batom com precisão quase automática. Minha imagem permanecia impecável, como sempre — cada detalhe calculado, cada traço no lugar. O batom vermelho desenhava os lábios carnudos perfeitamente, ao passo que as roupas de couro evidenciaram minha pele branca, ainda mais pálida graças ao inverno que se aproximava.
Por fora, nada denunciava o caos que eu já sabia que viria. Conhecia o tom de Alice suficientemente bem para imaginar quando uma bomba estouraria no nosso colo.
Eu sempre preciso ver alguma coisa — respondi, irônica, estendendo a mão para o aparelho sobre a bancada.
As notificações explodiram na tela de uma forma que mal consegui o que ocorrera de imediato. Haviam menções, mensagens, chamadas perdidas. Meu nome subindo rápido demais para ser algo bom, principalmente nos trending topics do X. Abri o primeiro link sem pensar muito e imediatamente senti o estômago revirar em agonia ao dar play naquele vídeo.
Não era só um vídeo; era aquele vídeo. Antigo, granulado, íntimo de um jeito que nenhuma edição conseguiria disfarçar. Um recorte curto, mente vazado com intenção, sugerindo o suficiente para alimentar qualquer narrativa que quisessem construir sobre mim. Minha voz, alguns gemidos baixos, meu corpo em um momento que nunca foi feito para ser público. Sem personagem, sem controle, sem defesa. Apenas eu, entregue a uma pessoa em que confiava.
volta aos holofotes — e não é pelo lançamento de mais um álbum mediano”. Era essa a maldita manchete que estampava o meu retorno após um ano sem lançamentos. Longos meses de um trabalho intenso, escrita criativa e muita produção arruinados por uma maldita sextape. Tanto trabalho para terminar igual a Kim Kardashian.
Crescer sob os holofotes não foi algo que aconteceu comigo de repente, na verdade, era quase que uma maldição. Desde muito nova, minha imagem já era consumida, analisada, moldada por outras pessoas — e, pior, incentivada por quem deveria ter me protegido disso. Enquanto outras meninas aprendiam a se esconder, eu aprendia a me expor. A ser desejada antes mesmo de entender o que aquilo significava de verdade.
E a única pessoa para qual me entreguei, havia exposto uma das poucas partes de mim que eu havia preservado.
Houve um momento em que tudo deixou de parecer estranho. Posar, provocar, ultrapassar limites, apenas virou rotina; algo esperado e naturalizado. Eu era elogiada por isso, recompensada por isso. E quando se cresce assim, cercada por gente que chama exploração de oportunidade, você para de questionar. Você começa a acreditar que esse é o seu valor. Que ser vista daquele jeito é, de alguma forma, poder.
Minha mãe, aquela desgraçada, nunca disse não. Me colocou para atuar em Moulin Rouge muito antes de eu ter dimensão do que aquilo significava, e desde então, nunca mais parou. Nunca fora capaz de proteger a minha imagem de qualquer perversão. Pelo contrário — ela enxergava tudo aquilo como parte do caminho, como estratégia, como construção de carreira. E talvez, no mundo em que a gente vivia, realmente fosse. Mas ninguém nunca parou pra pensar no que aquilo fazia comigo. Na linha que foi sendo apagada, pouco a pouco, entre quem eu era e o que esperavam que eu fosse.
Hoje, quando olho pra trás, percebo que há coisas que eu preferia não ter feito. Momentos que não eram meus de verdade, escolhas que não vieram de um lugar consciente. Mas, ao mesmo tempo, eu estava condicionada a acreditar que arrependimento era fraqueza. Daí construiu-se a imagem de mulher inabalável, provocadora, quase intocável. Uma sexsymbol que lutou incessantemente para desvencilhar-se desta imagem.
Por isso aquele maldito vazamento parecia ainda mais devastador. Não era um escândalo isolado, mas a reabertura de uma narrativa antiga, que lutei muito tentando reescrever, sem jamais conseguir apagá-la completamente.
Fiquei imóvel por alguns segundos, absorvendo o impacto enquanto meu maxilar se contraía involuntariamente. Antes, aquilo era só um boato mal enterrado, uma história que eu conseguia negar com naturalidade ensaiada.Agora era real, palpável, compartilhado em massa. Passei o dedo pela tela e, contra meu próprio bom senso, abri os comentários. Bastou uma linha para entender o rumo de tudo: eu voltava a ser exatamente aquilo que sempre tentaram me reduzir.
Soltei uma risada baixa, sem humor algum, apoiando as mãos na bancada enquanto encarava meu reflexo. Minhas mãos tremiam, furiosa demais para qualquer palavra que pudesse dizer. Continuava tudo perfeito ali, controlado e limpo. Como se a versão exposta ao mundo não fosse apenas mais uma camada cuidadosamente construída. Do outro lado da linha, minha assessora continuava falando em uma ligação, tentando traçar estratégias, conter danos, repetir que já havíamos passado por situações piores. Balancei a cabeça devagar, interrompendo.
— Eu preciso resolver isso. — Alice pronunciou, pegando seu telefone e iniciando ligações.
Minha mão foi automaticamente até o pescoço, encontrando a bússola repousando contra a pele. O metal frio trouxe um contraste quase irônico diante do calor que subia pelo meu corpo. Abri a tampa com cuidado, observando o ponteiro girar antes de se estabilizar, firme, seguro, sempre apontando uma direção. Arranquei-a com raiva, deixando que as lágrimas que tanto segurei, descerem pelo meu rosto. Com raiva. Com ódio.
Fechei os olhos por um instante, sentindo o peso da escolha que fiz há um ano atrás. Eu disse não ao casamento, não à ideia de pertencer a alguém, não àquilo que ele me oferecia com uma seriedade que me assustava mais do que qualquer escândalo público. Mas, no fundo, a verdade era mais simples — e mais difícil de admitir. Eu não fugi da instituição. Eu fugi dele. Do que ele despertava. Do quanto me fazia querer ficar.
Jeon Jungkook não era um homem exatamente fácil de esquecer.
E o que não fazia sentido, era aquele homem que tanto amei, depois de tanto tempo, ter vazado algo que poderia prejudicar-me de forma absurda. Respirei fundo e abri os olhos, deixando a hesitação se dissolver aos poucos.
Eu não deixaria que mais ninguém dominasse a narrativa da minha vida ou das minhas atitudes. Tiraria aquela história a limpo imediatamente. Portanto, peguei o celular novamente, ignorando o caos que ainda pulsava na tela e então me movi. Bolsa, chaves, qualquer coisa ao alcance. Eu precisava agir antes que o medo tivesse tempo de me alcançar. Deixei Alice falando sozinha e mandei que ela contivesse os danos com a imprensa, enquanto eu colocaria àquela história à limpo.


O quarto do hotel estava silencioso demais. Não era um silêncio exatamente confortável; era denso, que se arrasta pelas paredes e te obriga a pensar mais do que deveria. A decoração branca me engolia conjuntamente ao silêncio, enquanto o maior barulho vinham dos meus pensamentos. Porque, obviamente, eu já tinha visto o vídeo. Claro que tinha visto. Seria impossível não ver. O nome dela estava em todo lugar de novo, mas dessa vez… diferente. Principalmente porque eu estava envolvido e não havia nada que pudesse fazer.
A televisão permanecia ligada, mas eu não prestava atenção em nada. As imagens passavam, os comentaristas falavam, e tudo que eu conseguia enxergar era aquele maldito vídeo. Granulado, cortado, fora de contexto… e ainda assim íntimo o suficiente pra ser reconhecível. Pra mim, então… Inconfundível. Um momento nosso, íntimo e privado, que nunca deveria ter sido exposto.
Passei a mão pelo rosto, exausto, sentindo a tensão acumulada no maxilar. Aquilo não fazia sentido. E de certa forma, estava apavorado com outras possíveis informações que poderiam ter roubado acerca do meu pessoal. Sempre fui extremamente discreto em todos aspectos que diziam respeito à minha intimidade, mas agora me restava apenas receio.
A HYBE já havia recolhido meu celular antigo e me entregado um nono. Os meninos me deram espaço para pensar antes de retornar à agenda exaustiva de shows e turnês que nos aguardava e eu agradeci mentalmente por isso. Estava sem cabeça nenhuma para qualquer tipo de exposição naquele momento.
Acendi um cigarro mentolado, impaciente, dando um gole no whisky. Eu não era de beber sem meus amigos, de forma que não fosse social, mas nada pareceu tão certo quanto aquilo naquele momento. No entanto, a campainha do quarto tocou — insistente, agressiva, mesmo que eu tivesse deixado explícito que não receberia visitas —, meu corpo reagiu antes da minha cabeça.
Eu instantaneamente soube. Mesmo antes mesmo de abrir a porta… eu sabia que aquilo só podia significar uma coisa. E automaticamente, fiquei nervoso. À contragosto, levantei-me e fui em direção a porta, enquanto o barulho era ritmado em socos na porta e toques na campainha estridente. Devagar, girei a maçaneta, o que de início percebi ter sido um grande erro.
invadiu o quarto como um furacão, e naquele momento, nem me questionei como ela soube que eu estava ali — e como havia subido sem ser anunciada. O cheiro dela veio primeiro, familiar demais, levemente floral e adocicado, mas completamente diferente da última vez que a vi. Não havia suavidade, não tinha hesitação. Só raiva. Pura, cortante, quase palpável. E os olhos… Os olhos claros dela estavam em chamas.
— Você é um filho da puta, Jeon!
A frase veio sem aviso, sem pausa, carregada de uma fúria que fez o ar entre nós ficar pesado na mesma hora. Franzi o cenho, fechando a porta atrás dela com calma calculada, mesmo com o corpo já tenso. Respirei fundo, disposto à não iniciar uma discussão com minha ex após um ano sem vê-la.
— Do que você tá falando, ?
Havia sido uma pergunta idiota, eu sabia exatamente disso. Mas não podia me desculpar por algo que não havia sido minha culpa. Conhecendo bem minha ex-namorada, ela sequer daria chance para que eu me explicasse, de qualquer forma. Por isso, coloquei as mãos no bolso esperando que ela me respondesse.
— Não se faça de idiota comigo! — ela explodiu, dando um passo na minha direção. Mesmo de salto alto, ela ainda ficava mais baixa que eu. — O vídeo, Jeon. Aquele vídeo. Você acha que eu não reconheceria?
Meu estômago afundou.
, eu…
— Foi você, não foi? — A voz dela falhou por um segundo, mas voltou mais alta, mais afiada. Era notável que seus olhos estavam marejados — Foi você que vazou aquilo? Por que você ainda tinha aquilo?
Aquilo acertou como um soco em cheio no rosto. Não pela acusação em si, mas pela coragem de questionar algo daquele nível. Como se ela não conhecesse minha índole ou caráter. E aquele fato me feriu quase que instantaneamente, fazendo-me soltar um riso incredulamente baixo e irônico, passando a mão pelo cabelo.
, você tá falando sério?
— Aquilo era nosso. Era algo privado! — ela continuou, ansiosa e trêmula. — E, de repente, tá na porra da internet inteira!
Dei um passo à frente também, mantendo a voz baixa e controlada. Encarei seus olhos profundamente como não fazia há tempos. Eles ainda eram doces e apaixonantes como me lembrava. Quando enfurecida, suas bochechas ficavam vermelhas e os olhos também. Mesmo que estivesse nervoso, reconhecia o quanto era linda independente da circunstância.
— Você realmente acha que eu faria isso com você?
Um terrível silêncio fez-se presente no quarto, de forma curta e pesada. Porém não houvera negação imediata, sequer uma resposta plausível. E isso aquilo me irritou mais do que deveria com o que ela proferiu ao seguir.
— Eu não sei mais do que você é capaz — ela respondeu, mais baixa agora, mas não menos intensa. Cruzou os braços, mantendo a pose irritadiça. — Não depois de um ano. Não depois de você simplesmente sumir.
Inclinei a cabeça, encarando ela com mais atenção, tentando manter a calma que mente já estava por um fio.
— Eu sumi porque você terminou comigo, . Ou você esqueceu essa parte? — abriu a boca pra responder, mas hesitou por um segundo. E foi o suficiente pra eu continuar: — Eu respeitei. Coisa que, aparentemente, você não tá fazendo agora entrando aqui e me acusando de uma merda dessas.
A respiração dela estava irregular, o peito subindo e descendo rápido demais. A raiva ainda estava ali, mas agora misturada com outra coisa. Talvez fosse confusão ou dúvida, mas não foi suficiente para fazê-la recuar. De qualquer forma, ela nunca recuava; era teimosa demais para isso.
— Então você vai me dizer que isso é coincidência? — ela insistiu, a voz mais baixa, porém ainda carregada de irritação. — Que um vídeo nosso simplesmente aparece do nada na época do lançamento do meu álbum?
— Eu não vazei aquilo. — Passei a mão pelo rosto de novo, puto de raiva, soltando o ar devagar. — Nunca faria isso com a nossa intimidade muito menos com a sua imagem. Ou você esqueceu que eu também estou entrando em turnê?
A fala simples e direta fez engolir em seco. Mesmo que não houvesse espaço para qualquer interpretação que não fosse a verdade, era visível em seu rosto que ela veio até mim tomada por uma fúria descomunal, que lhe impediu até mesmo de racionar. Dei mais um passo, apagando o cigarro no cinzeiro, e finalmente diminuindo a distância entre a gente.
— Eu nunca faria isso com você, . — Fiz questão de enfatizar mais uma vez. Afinal, aquela acusação era, no mínimo, infundada. Principalmente considerando tudo que vivemos juntos. — Aquilo… — continuei, mais baixo — não era só um vídeo qualquer.
Os olhos dela vacilaram por um segundo, piscando mais ritmados que o normal. E, pela primeira vez desde que entrou ali, ela pareceu desarmar. Verdadeiramente atingida pelas minhas palavras. Talvez não por convencimento, mas por raciocínio. No fundo, ela sabia que eu nunca seria capaz de colocá-la em uma situação vexatória. foi a mulher que mais amei na vida.
Ela deu um passo para trás, apertando os olhos. Chamei seu nome uma vez, mas ela permaneceu me ignorando. Ela passou a andar no quarto de forma ansiosa, e eu sabia que ela estava no auge de seu nervosismo. Gentil, deixei que minha mão tentasse alcançar o braço dela antes que atravessasse a sala mais uma vez, mas simplesmente se desvencilhou com força, como se qualquer toque meu fosse uma maldição gravada em sua pele.
— Não encosta em mim, Jeon!
Ela estava agora com o rosto repleto de lágrimas. Qualquer aproximação minha era repreendida e repelida pelo seu corpo, ao passo que ela voltou em direção à saída do quarto. A porta bateu com violência segundos depois, ecoando pelo quarto de hotel como um ponto final que eu não estava pronto para aceitar. Mais um.
Fiquei parado ali por um tempo que não soube medir, olhando pro nada, tentando organizar o que tinha acabado de acontecer. Mas não havia nenhuma organização possível. Só a imagem dela — furiosa, ferida, convencida de algo que eu não tinha feito. E, pior… Incapaz de baixar a guarda e conversar comigo civilizadamente. Nervoso, passei a mão pelo rosto, soltando o ar com força. Aquilo não ia acabar ali, eu conhecia muito bem.

Looking Back, I Guess It Was Kismet

Nos dias seguintes, o mundo parecia girar em torno do nome dela. Matérias, especulações, teorias. O vídeo continuava circulando, sendo analisado quadro por quadro como se fosse entretenimento. E, no meio de tudo isso, um detalhe começou a crescer mais do que qualquer outro:
tinha sumido. Não compareceu em nenhum evento, sequer fez alguma postagem. Não houvera nenhuma aparição, absolutamente nada.
A internet entrou em colapso do jeito previsível de sempre, somado à preocupação fingida misturada com curiosidade doentia. Todo mundo queria saber onde ela estava, o que estava fazendo, com quem. Mas absolutamente ninguém sabia. Ninguém além de mim. Porque podia enganar o mundo inteiros, porém não a mim.
Nunca a mim.
A estrada de terra parecia ainda mais longa do que eu lembrava. O céu estava nublado, pesado, combinando perfeitamente com o tipo de silêncio que só o interior conseguia ter. Sem câmeras ou barulho. Sem absolutamente ninguém que atrapalhasse. Era exatamente o tipo de lugar que ela escolheria quando quisesse desaparecer de verdade.
Estacionei o carro alguns metros antes da casa, que estava linda e conservada como sempre. Uma propriedade que nunca julgariam como dela.
Respirei fundo uma vez antes de deixar o veículo. Fui até a porta da casa, que obviamente, não estava trancada. Claro que não estava. Conhecia ela bem demais para saber que estava sem cabeça nenhuma, até para pensar em sua própria segurança.
Empurrei o material pesado devagar, sentindo o ranger leve da madeira ecoar pelo ambiente vazio. O cheiro era familiar, não pela casa em si, mas por ela. Sempre tinha algo dela nos lugares que escolhia ocupar.
Encontrei na varanda dos fundos. Ela estava descalça, com cabelos soltos, bagunçados pelo vento. Não havia nenhuma maquiagem em seu rosto, sem personagem, sem nada que lembrasse a mulher que o mundo achava que conhecia. Mas a tensão ainda estava estampada ali. Ela virou o rosto no instante em que ouviu meus passos. Seus olhos estavam fundos e sua face não tinha uma expressão amigável.
— Você tá me seguindo agora? — sua voz saiu fria, carregada de irritação.
Cruzei os braços, mantendo certa distância.
— Eu não te segui. Mas eu te conheço e fiquei preocupado.
Ela soltou uma risada sem humor, virando o corpo completamente pra mim.
— Você não me conhece, JungKook.
Aquilo quase me fez sorrir de forma irônica e irritadiça.
— Eu sei exatamente o que você faz quando quer sumir.
O silêncio que veio depois não foi de negação. Ela estava obviamente irritada pelas minhas constatações. Mas em hipótese alguma deixaria que isso ficasse sem uma de suas respostas ácidas.
— Veio até aqui pra quê? — ela retrucou, mais ríspida. — Já não fez o suficiente não apagando a porra daquele vídeo quando devia?
Suspirei, passando a mão pelo cabelo. A situação me deixou extremamente estressado porque ela duvidava de mim. Eu que mataria e morreria por aquela mulher. Chegava a ser ultrajante.
— Eu não vazei aquele vídeo, . Eu nunca faria isso.
— Ah, sério? — ela rebateu na hora, com o tom de voz subindo. — Então me explica como aquela merda foi parar na internet!
Dei um passo à frente, mantendo o tom firme.
— Foi um hacker. Eu já descobri o que aconteceu e o time está tomando as medidas cabíveis.
— Claro. — riu de forma amarga. — Sempre tem um hacker. Que conveniente.
Aproximei mais um pouco, o suficiente pra ela não conseguir ignorar completamente minha presença.
— Invadiram um backup antigo. Eu descobri depois que começou a circular. Eu tentei derrubar e ainda estou tentando.
— Tentou? — ela cortou, avançando também. — Tentou como, Jeon? Porque o vídeo ainda tá em todo lugar! Com a minha cara estampada.
Aquela pergunta veio carregada de algo mais do que raiva. Era uma dor velada. E foi isso que me fez travar por um segundo. Eu conhecia a história de e sabia que não deveria estar sendo fácil para ela. Não estava sendo fácil para mim.
— Eu não consegui. — A resposta saiu mais baixa, de forma honesta.
Os olhos dela piscaram, surpresa por um instante — mas logo a raiva voltou, mais afiada.
— Então você simplesmente deixou? Não achou que devesse me contar?
Soltei o ar devagar, passando a mão pelo rosto antes de encarar ela de novo.
— Eu ainda não consegui apagar. Eu jamais conseguiria apagar você.
Houve um silêncio diferente dessa vez. Mas ainda era denso e sombrio. Ela não respondeu na mesma velocidade. Apenas me encarou e estranhamente, pela primeira vez desde que entrei pela sua porta, a raiva não era a única coisa ali. Era um misto de sentimentos.
— Aquilo… — continuei, mais baixo agora — não era só um vídeo pra mim. Significou muito. Você significou muito.
O vento passou entre a gente, levando o silêncio junto por um segundo. desviou o olhar, como se aquilo tivesse atingido mais do que queria admitir.
— Não muda o que aconteceu — murmurou, mais fria, tentando se recompor.
Assenti devagar.
— Eu sei. E não estou tentando justificar. — Dei um passo próximo à ela. — Mas muda quem eu sou.
soltou uma risada curta, completamente desacreditada, cruzando os braços como se aquilo fosse uma barreira real entre nós.
— Não muda quem você é? — repetiu, a voz carregada de ironia. — Engraçado, porque eu acabei de ver exatamente quem você é na porra de um vídeo que o mundo inteiro tá assistindo.
— Você tá sendo injusta.
— E você tá sendo conveniente! — ela rebateu na mesma hora, dando um passo à frente.
Aquilo seria até engraçado, se não fosse tão sério. Porque ela parou bem na minha frente, minúscula e furiosa. Praticamente tremendo de raiva enquanto me encarava de baixo, como se pudesse me derrubar só com o olhar. Mas ainda era linda, tão linda. Uma boneca. Passei a língua pelos lábios, contendo um impulso completamente inadequado pro momento.
— Você acha mesmo que eu faria isso com você?
— Eu acho que eu não te conheço tanto quanto achei que conhecia — ela disparou, sem hesitar.
Aquilo me acertou, mas não do jeito que ela desejava. Inclinei a cabeça levemente, dando um passo à frente também. Agora não tinha mais espaço entre a gente e já era possível sentir nossas respirações conjuntamente.
— Não — falei baixo, firme. — Você me conhece. Você só prefere fingir que não quando fica mais fácil fugir.
Os olhos dela faiscaram em fúria.
— Não vem jogar isso pra cima de mim!
— Então para de jogar essa merda em cima de mim! — rebati, pela primeira vez elevando a voz.
O silêncio que veio depois foi pesado. A respiração dela estava irregular, o peito subindo rápido demais. Ela abriu a boca pra falar alguma coisa, mas eu fui mais rápido.
— Desde que você me procurou, me acusou como se eu fosse qualquer um — continuei, mais baixo agora, mas ainda carregado. — Como se eu fosse capaz de te expor desse jeito. Como se eu não tivesse te amado pra caralho.
— E o que eu devia pensar, então? — ela explodiu de novo. — Me explica! Porque aquele vídeo não surgiu do nada!
— Eu já te expliquei!
— Isso não explica porra nenhuma!
Ela segurou meu peito com as duas mãos. E eu, quase que em um gesto recupero, repousei minha mão sobre a dela. Não com força, mas o suficiente para pará-la. O suficiente pra fazer ela congelar em seu ato. Seus olhos desceram pro ponto onde nossas peles se tocavam e depois subiram de novo, de forma lenta e perigosa. Nossa respiração tornou-se uníssona e a pele queimava em brasa.
Havia apenas aquela tensão absurda que nunca deixou de existir entre a gente.
— Me solta — ela disse, mas não se afastou. Sua voz saiu mais baixa, menos firme.
Engoli seco, sem soltá-la.
— Você não confia em mim — falei, encarando ela de perto demais agora.
— Eu confiava.
Os lábios dela se entreabriram. Porra. Ter ido ali foi uma má ideia, uma péssima ideia. Porque, de repente, não era mais só raiva. Era tudo misturado: lembrança, saudade, nostalgia, desejo pelo seu toque. O jeito que a gente sempre acabava no mesmo lugar, fodendo gostoso um contra o outro e um com a vida do outro.
Ela tentou puxar o braço de novo, dessa vez, mais devagar. Quase sem vontade de quebrar o contato.
— Jeon…
Meu nome na boca dela nunca foi só um nome. Era uma súplica doce que fez meus pelos se arrepiarem. E isso… isso foi o que quase me fez perder completamente o controle.
— Você quer mesmo brigar, ? — perguntei baixo, os olhos caindo pros lábios dela sem pedir permissão.
— Eu, não é isso, é que— — ela começou, mas travou.
— Por que o quê? — eu ainda mantive nosso contato. — Você ainda acha que eu fiz aquilo? — perguntei, mais calmo agora.
Ela hesitou de novo. E dessa vez… Não respondeu. Ficou com os lábios entreabertos sem me dizer uma única palavra, próxima o suficiente para que eu sentisse seu perfume. Só ficou ali.
Mas o silêncio entre nós não durou, não de verdade. Porque, no segundo em que ela desviou o olhar… alguma coisa em mim simplesmente cedeu. Um ano inteiro engolindo tudo. Um ano inteiro respeitando uma decisão que eu nunca quis. Um ano inteiro tentando esquecer alguém que estava, literalmente, gravada na minha pele.
Chega.
— Você não me respondeu — falei, a voz mais baixa, mas muito mais firme.
respirou fundo, mente tentando se recompor, tentando voltar praquele controle irritante que ela sempre usava como escudo.
— Isso não importa agora—
— Importa pra mim. Importa para caralho.
Ela ergueu o olhar de novo, pronta pra rebater. Mas não deu tempo. Porque dessa vez eu não esperei. Minha mão foi direto na cintura dela, puxando sem espaço pra dúvida, sem espaço pra fuga. O impacto do corpo pequeno contra o meu foi imediato, quente, familiar, perigoso demais.
— JungKook. — ela começou, surpresa, mas a frase morreu no meio. Porque eu estava perto demais. E sabia bem disso.
— Você literalmente me acusou — murmurei, a poucos centímetros do rosto dela, sentindo a respiração dela bater na minha — como se eu fosse capaz de te destruir.
Minha mão apertou levemente a lateral do corpo dela, segurando firme o suficiente pra deixar claro que eu não ia simplesmente deixar ela sair andando de novo.
— E ainda assim… eu vim até você.
Os olhos dela vacilaram por um segundo. E foi aí que eu vi aquele brilho familiar pelo qual eu era tão apaixonado.
— Você acha mesmo que isso é só raiva? — continuei, mais baixo ainda, o olhar preso no dela.
— Me solta — disse, mas a voz já não tinha a mesma firmeza de antes.
Ignorei-a completamente. Porque, dessa vez, não era sobre ganhar a discussão. Era sobre tudo que a gente nunca resolveu. Minha mão subiu da cintura até o maxilar dela, segurando com cuidado — o oposto da força que ainda mantinha o corpo dela preso contra o meu. Aquilo era contradição pura, assim como nós.
— Você ainda confia em mim? — perguntei, baixo, sério, sem desviar o olhar.
Os lábios dela se entreabriram, mas nenhuma resposta veio. E foi aí que eu perdi o controle de vez. Eu encostei a testa na dela por um segundo — como se desse uma última chance pra ela recuar. E por incrível que pareça, não recuou.
Minha boca encontrou a dela com uma urgência contida por tempo demais, não violenta, mas intensa o suficiente pra carregar tudo que a gente não disse. Raiva, saudade, frustração, desejo… tudo misturado de um jeito perigoso. Ela travou por meio segundo, mas depois, se rendeu. Como precisávamos há tempos.
Minha mão apertou mais a cintura dela, puxando ainda mais pra perto, como se fosse possível diminuir uma distância que nunca foi só física. O beijo aprofundou sem pressa, mas sem controle também — familiar demais, fácil demais, como se o corpo lembrasse exatamente o caminho mesmo depois de tanto tempo.
Quando me afastei, foi só o suficiente pra respirar. A testa ainda encostada na dela, com os dois ofegantes.
— Isso também foi culpa do hacker? — ela sussurrou, a voz baixa, ainda meio perdida.
Soltei uma risada curta, sem humor, passando o polegar de leve pelo maxilar dela.
— Não. Isso é completamente culpa nossa.

The More You Play, The More That You Pay

Beijar os lábios de tinha o sabor do paraíso. Beijar os lábios de tinha o gosto do paraíso. Era desesperado, saudoso, como se eu ainda estivesse tentando recuperar em segundos todo o tempo que passamos separados. Minhas mãos tremiam levemente enquanto deslizavam por sua cintura, puxando-a para mais perto.
mal conseguia respirar entre um beijo e outro, mente excitada com os meus movimentos. Eu, no entanto, afastei alguns fios de cabelo de seu rosto, encontrando o seu olhar. Não soube distinguir se era dor, saudade ou desejo, mas eu não ia conseguir ir embora dali. Não sem tocá-la ao menos uma vez.
A conduzi pelo corredor sem desviar o olhar, como se tivesse medo de que ela desaparecesse novamente. Eu conhecia cada centímetro daquela casa como a palma de minha mão — e talvez quisesse prová-lá em todos eles. Porra. Estava alucinado.
— Eu nunca faria isso com você, porra. — ele praticamente rosna. — Não tem um dia desde que você me deixou que eu não pense em você.
Ele segura em seu rosto.
— Eu ainda te amo, .
As palavras atingiram com força, mas também foram um baque para mim. Verbalizar aquilo era sempre um desafio, principalmente após tanto tempo. Ela fechou os olhos por um instante, sentindo o coração acelerar.
— Eu sei — sussurrou, tão baixo que quase não ouvi. — Porque eu também nunca consegui esquecer você.
Minha expressão deve ter vacilado. Engoli em seco, encostando minha a testa na dela.
— Então por que foi embora?
não respondeu imediatamente. Em vez disso, levou uma das mãos até o meu peito, sentindo as batidas aceleradas de seu coração:
— Porque eu tinha medo. Eu ainda tenho… Minha vida é tão confusa, não posso colocar ninguém no meio disso.
Eu soltei uma risada amarga.
— Apesar de tudo, eu ainda estou aqui. — pronunciei, encarando-a profundamente. — E quero você. Pra caralho.
O silêncio que se seguiu foi curto. me deu permissão para que eu voltasse a beijá-la, mas dessa vez sem a urgência de antes. Era um beijo lento, carregado de sentimentos guardados por tempo demais. Como uma promessa silenciosa de que, por aquela noite, nenhum dos dois queria fugir. Eu provava devagar todos os cantos de sua boca, excitado demais para não sentir vontade de transar com ela ali mesmo.
Eu não sei em que momento minhas pernas começaram a se mover. Talvez fosse o tesão do caralho que eu estava sentindo que me movia, mas guiei pelo corredor, minha mão firme na dela, como se eu precisasse ter certeza de que ela é real. Que ela não fosse desaparecer outra vez. Tal possibilidade fez meu coração bater tão forte que chegou a doer.
Quando chegamos ao quarto, parei na entrada e a encarei por alguns segundos. Depois das discussões, do silêncio, das noites em claro encarando o teto e me perguntando onde foi que nós nos perdemos, nós estávamos aqui. E não era puramente pelo sexo.
Era um profundo e insaciável desejo.
ergueu os olhos para mim, e aquele simples gesto era suficiente para desmontar qualquer muralha que eu tentei construir durante todos esses meses. Levei uma das mãos até seu rosto, devagar, enquanto a outra fechou a porta do quarto. Como se eu estivesse tocando algo precioso demais — porque eu estava.
— Eu sei que te machuquei. — ela pronunciou, com um pouco de vergonha.
— Não. Você não sabe. Você não faz ideia. — Meu polegar deslizou por sua bochecha. — Porque se soubesse, nunca teria ido embora daquele jeito.
Observei a culpa atravessar seu olhar, mas não é isso que eu queria naquele momento. Definitivamente, não queria lavar roupa suja com a minha ex enquanto meu pau estava duro como uma rocha. Portanto, soltei um suspiro cansado e aproximei minha testa da dela.
— E a pior parte é que eu tentei te odiar. Deus, como eu tentei. — senti sua respiração vacilar contra a minha.
— E conseguiu?
Abri os olhos novamente. Ela estava tão perto que consigo ver cada detalhe de seu rosto. Cada detalhe que minha memória se recusou a esquecer.
— Nem por um segundo. Nem se eu quisesse.
— Então, Jeon — ela sussurrou em meu ouvido, baixo e profundo o suficiente para que apenas eu ouvisse. —, mostra o que você sente por mim.
Meu coração perdeu o ritmo por um segundo. O som da voz dela ficou preso na minha mente, ecoando entre cada pensamento racional que eu ainda tentava manter. Quando virei o rosto para encará-la, encontrei aqueles olhos já fixos nos meus, como se soubesse exatamente o efeito que causava. Sorri de canto.
— Tem certeza que quer isso? — perguntei, a voz mais rouca do que eu pretendia.
Ela não respondeu. Apenas se aproximou um pouco mais e finalmente me beijou. Deslizei a mão pela cintura dela, trazendo-a para perto devagar, sentindo o calor do corpo dela atravessar cada centímetro de distância que ainda existia entre nós.
Suas roupas encontraram o chão mais rápido do que eu queria. Eu sabia o quanto amava aquela mulher, mas eu estava sendo guiado pelo desejo naquele momento. Não havia nada que eu quisesse mais do que vê-la nua.
O quarto estava começando a ficar escuro e a meia luz deixava tudo ainda mais excitante. Tratei de tirar minhas próprias roupas, coisa que a deixou me observando de uma forma carregada de desejo. sabia que eu não tinha feito aquilo com ela, eu nunca teria coragem. Porra. Eu era alucinado naquela mulher!
Coloquei ela sobre a cama organizada em lençóis de cor creme, observando o lindo contraste de sua pele com o material. Seus lábios estavam inchados de tanto beijá-lós e seu corpo estava extremamente sexy. Puta que pariu.
Beijei-a de forma nada gentil, passeando a mão de forma íntima por aquele corpo que conhecia tão bem. Deixei que escorregasse estrategicamente até sua intimidade, me certificando que estava tão excitada quanto eu. E, caralho, ela estava. Muito molhada.
Tentei aliviar a pressão em meu pau com a outra mão, massageando o local. Ela, por sua vez, me olhava com certa fúria e desejo, ao passo que disparou:
— Não me faz esperar mais, Jeon. — ela praticamente sussurrou.
Não havia nada em mim que impediria de realizar seu desejo. Teria muito tempo posteriormente para me deleitar em preliminares e provar cada pedaço de seu corpo nu, completamente ao meu dispor. Mas agora, precisávamos sanar nosso desejo reprimido de quase um ano.
Por isso, fui até a gaveta do móvel já conhecido por armazenar alguns preservativos e coloquei-o rapidamente, voltando para entre as pernas de . Ela soltou um gemido quando percebeu meu pênis encaixado em sua entrada molhada. Segurei em seu rosto com a mesma delicadeza que usei para penetrá-la.
Os movimentos não permaneceram calmos por muito tempo. Segurei na cabeceira da cama — a qual já comi ela tantas vezes — e equilibrei os movimentos para ouvir seus gemidos deliciosos. Nada era tão saboroso quanto ouvir meu nome sendo suplicado por ela, imerso em tesão e desejo.
Segurei em sua cintura e depois em sua bunda, com a mão inquieta demais para pará-la em apenas um local. Após meses sem sexo com ela, eu precisava provar cada detalhe de seu corpo de novo.
— Caralho, Jeon…
Porra, eu estava alucinado. E não ia durar muito tempo naquilo. Só conseguia me tirar do sério daquela forma, fazendo com que todos os pelos do meu corpo se arrepiassem.
Jeon… Eu amo você.
E foi com aquele sussurro que cheguei ao meu limite. Não apenas ao ápice de prazer, mas a tudo que meu emocional considerava certo ou errado, porque naquele momento, só existia ela.


Eu ainda estava tentando processar que ela estava ali. Depois de um ano inteiro longe, depois de toda aquela confusão emocional que causamos um no outro. Um ano de entrevistas vazias, de músicas com significados que ninguém entendia, de noites encarando o teto e imaginando onde ela estava.
E agora ela estava deitada ao meu lado. De novo.
O quarto, agora escuro, permanecia em silêncio, exceto pela chuva fraca batendo na janela. Ela tinha a cabeça apoiada no meu peito enquanto eu passava os dedos distraidamente por seus cabelos. Aquilo parecia um sonho. Um sonho que eu tinha desejado tantas vezes que quase tinha esquecido como era sentir seu toque.
— Jungkook… — a voz dela saiu baixa.
— Hm?
Ela demorou alguns segundos para continuar, me deixando levemente curioso.
— Me desculpa.
Meu peito apertou. Ela era muito orgulhosa para pedir desculpas por qualquer motivo e aquilo obviamente me surpreendeu.
— Pelo quê exatamente?
Ela ergueu o rosto para me olhar, apoiando o queixo em meu peitoral. Fiz carinho em seus cabelos soltos e espalhados.
— Por ter terminado com você.
Por um instante, fiquei em silêncio. Porque eu lembrava exatamente daquele dia, do sentimento de raiva e decepção que me invadiu. Do presente de Natal e de como ela me ignorou depois de tudo que vivemos juntos. Nós quase casamos e fomos reduzidos a nada. Obviamente não foi fácil atravessar aqueles sentimentos, mas olhando para ela agora, nada daquilo parecia importar.
Soltei um suspiro.
— Você tinha motivos para estar magoada. E eu também tive. É passado.
— Eu devia ter confiado em você.
Fechei os olhos por um momento. A coisa mais íntima que já tivemos transformada em manchete. Ela acreditou que eu tinha vazado. E mesmo sabendo que não tinha sido eu, eu entendia por que ela pensou aquilo. Minha vida estava sendo revirada e a dela também.
— Eu também preciso pedir desculpas.
Ela franziu a testa.
— Pelo quê?
— Por não ter protegido aquilo ou apagado. Eu sei que errei.
Sua expressão suavizou imediatamente.
— Jungkook…
— Eu deveria ter sido mais cuidadoso. Não importa que eu não tenha divulgado. Eu falhei em manter você segura.
— Não foi nossa culpa.
— Mas era minha responsabilidade.
O silêncio voltou, mas dessa vez entrelacei nossos dedos e beijei sua testa.
— Nunca mais vou deixar ninguém te machucar desse jeito, .
— E o que exatamente isso significa? — Ela ergueu uma sobrancelha.
Não consegui evitar uma risada. Uma daquelas risadas desacreditadas.
— É sério isso?
— Estou perguntando.
— Você realmente não entendeu, ?
Ela tentou esconder um sorriso.
— Talvez eu só… queira ouvir.
Eu praticamente atravessei a cidade atrás dela, passei por cima de tudo que acreditava sobre mim, mas ela ainda assim, precisava que eu verbalizasse.
— Significa que eu vou ficar com você, porra.
Ela começou a rir. E eu continuei:
— Significa que eu ainda te amo.
O sorriso dela desapareceu devagar, substituído por algo mais suave e verdadeiro.
— Eu também te amo. Mas — Meu coração quase parou. — Eu só… estou cansada, Jungkook. Cansada de viver como se cada erro, cada lágrima, cada pedaço meu pertencesse ao mundo inteiro. Cansada dos holofotes, das manchetes, das pessoas achando que me conhecem. E, principalmente, cansada de enfrentar tudo isso sozinha. Ainda me sinto aquela garota patética que minha mãe controlava.
Aquelas eram as palavras que eu mais senti falta de ouvir. Não só sobre o amor, de fato; era sobre como ela se mostrava verdadeira e entregue a mim dentro da nossa relação. Aproximei meu rosto do dela.
Puxei-a para mais perto de mim até sentir seu rosto se esconder no meu pescoço. Fechei os olhos por um instante e depositei um beijo demorado em seus cabelos. Mantive meus braços ao redor dela, firme o bastante para que entendesse que eu não pretendia soltá-la de novo.
— Você não está mais sozinha agora, . Pode vir o mundo inteiro olhando, julgando e falando o que quiser, mas eu vou estar aqui, do seu lado. Em cada palco, em cada queda, em cada manchete. Não precisa carregar tudo sozinha nunca mais. Só deixa eu cuidar de você.
E, pela primeira vez em muito tempo, ela relaxou completamente nos meus braços. E eu soube que, acontecesse o que acontecesse lá fora, eu faria de tudo para ser o lugar onde ela pudesse finalmente descansar.

FIM!

Nota da autora: Sem nota!