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Independente do Cosmos🪐
Finalizada em: 31/01/2026


Capítulo Único

— I don't know why I always find the way to make you cry
I never meant to be your problem child
A porta bate com força na parede, escancarando-se, e o eco se espalha pela cobertura silenciosa àquela hora da madrugada.
entra primeiro, rindo alto demais, dominada por uma onda de felicidade que a deixa elétrica. Gostaria de poder dizer que estava em êxtase por tudo o que acontecera ao longo da noite, mas mal conseguia lembrar de algo além de borrões de movimentos e vozes misturadas.
vem logo atrás. A expressão régia não entrega seus sentimentos, mas os ombros caídos denunciam o cansaço.
Os olhos dele acompanham — sua estrela, sua companheira, seu amor — enquanto ela se embola e gargalha ao tentar se livrar dos saltos. O olhar sobe pela saia do vestido longo cor de vinho, desenhado para realçar cada curva que conhece tão bem quanto a palma da própria mão. Passa pelo pescoço que ele tanto gosta de beijar e, então, se fixa na mancha branca bem no centro do rosto dela.
No pó grudado em seu nariz avermelhado.
O riso de continua, solto, despreocupado, enquanto ela finalmente vence a luta contra os sapatos e os abandona no meio da sala.
— Você viu a cara deles? — ela pergunta, a voz arrastada pelo efeito que está começando a passar. — Eu nunca vi tanta gente me aplaudindo de pé. Nunca.
fecha a porta atrás de si com mais cuidado do que gostaria. O som do trinco parece alto demais no silêncio que se instala. Ele afrouxa a gravata, respirando fundo, mas não responde.
percebe a ausência de reação apenas quando se vira para ele. O sorriso diminui um pouco, mas não desaparece.
— O que foi? — pergunta, sua mente enevoada não conseguindo compreender a situação.
encara o rosto dela outra vez. A maquiagem borrada, o brilho excessivo nos olhos, o resquício do pó que não deveria estar ali. Tudo aquilo forma um quadro que ele já conhece. Que ele odeia conhecer tão bem.
E que vem se tornando cada dia mais frequente.
— Você está chapada, .
Ela ri, como se fosse um elogio ou uma amenidade.
— Estou feliz. Não é a mesma coisa?
— Não! Você subiu naquele palco desse jeito. — Ele a encara, o desgosto e a decepção explícitos em suas feições.
— Claro, eu ganhei.
A frase vem acompanhada de uma risada despreocupada.
— Você estava cheirando cocaína minutos antes de receber um prêmio nacional. — As palavras saem pesadas de ressentimento, de amargura. — Sequer se deu o trabalho de limpar a porra do nariz depois de cheirar uma carreira.
O silêncio que se segue é pesado. passa a mão pelos cabelos, andando pela sala sem saber exatamente para onde ir. Quer ir o mais longe possível de e de seu efeito kamikaze, mas, ao mesmo tempo, quer puxá-la para perto, acomodá-la contra o próprio peito e prometer que tudo ficaria bem.
Mas, por mais que a ame profundamente, sabee que ele não pode ajudá-la se ela não quiser receber essa ajuda.
— Eu estou cansado disso — ele diz, finalmente, a voz baixa, controlada demais. — Cansado de fingir que não vejo. Cansado de recolher os pedaços no dia seguinte.
cruza os braços, defensiva, o brilho nos olhos oscilando. A gravidade da situação — e das palavras de — corta parte da névoa que a envolvia.
— Você sabia com quem estava se envolvendo.
Ele se vira bruscamente.
Os olhos de estão injetados e vermelhos — não de choro, mas de qualquer outra mistura que ela tenha feito. A expressão altiva começa a crescer ao seu redor como uma armadura quando ela se afasta em direção à cozinha. Não demora a pegar uma garrafa de vodca no balcão.
— Não — diz, seguindo-a. — Eu sabia quem você era. Não quem você está se tornando.
gira a tampa com força, os dedos trêmulos. Serve um copo generoso, sem gelo, e leva à boca antes que ele termine a frase.
— Não começa, — ela retruca. — Hoje foi perfeito. Você viu. Todo mundo viu.
— Eu vi você sumir no meio da festa — ele rebate. — Vi você voltar diferente. Vi isso — aponta para o rosto dela, para o copo em sua mão.
solta uma risada curta, sem humor.
— Isso faz parte. Sempre fez. É assim que funciona.
— Não — ele diz, a voz falhando pela primeira vez. — Não é assim que precisa funcionar.
apoia as mãos no balcão, inclinando-se para a frente. Por um segundo, parece cansada. Muito mais cansada do que qualquer noite de excessos poderia explicar. Cansada de uma vida inteira de vícios disfarçados de glamour.
— É só um pouco de diversão, . Desencana.
Ela sai sem esperar resposta.
O som dos passos ecoa pelo corredor até a porta do quarto se fechar com força. permanece imóvel na cozinha, o copo intocado sobre o balcão, a garrafa de vodca ainda aberta — como os resquícios de destruição deixados pela passagem de um evento catastrófico.
Do outro lado do corredor, a música começa a tocar, abafada. Alta demais para aquela hora. Alta demais para ser ignorada.
fecha os olhos. Um suspiro cansado foge de seus lábios e o peso em seus ombros parece aumentar.
Ele encosta as costas na bancada, deslizando lentamente até se sentar no chão frio. Passa as mãos pelo rosto, pressionando os olhos, como se pudesse empurrar para longe a imagem de sozinha naquele quarto, se anestesiando do mundo mais uma vez.


acorda com a sensação de que estão martelando seu crânio.
A luz invade o quarto sem pedir permissão, atravessando as frestas da cortina mal fechada e queimando seus olhos. Ela geme baixo, vira o rosto contra o travesseiro e leva alguns segundos para perceber se situar.
A madrugada de ontem é um borrão em sua cabeça, sequer lembrava de ir para casa, quem dirá de deitar na sua própria cama. Não seria a primeira vez que ela acordaria em um quarto desconhecido sem saber como fora parar ali.
O estômago revira quando ela tenta se mover. A boca seca, a língua pesada, o gosto amargo que não precisa de memória para ser explicado.
Sua ressaca diária.
O celular começa a vibrar em algum lugar da cama. Uma vez. Duas. Três. Depois não para mais. O som se mistura à dor de cabeça, cada notificação como uma aplicando a martelada.
estica o braço às cegas, encontra o aparelho sob o lençol e o puxa para perto. A tela acende mostrando centenas de notificações que não param de chegar.
Mensagens não lidas.
Menções.
Chamadas perdidas.

Ela franze a testa, confusa demais para sentir medo ainda. Ela abandona o celular em sua coxa, recorrendo à pequena embalagem escondida na fronha de seu travesseiro. deposita o conteúdo branco na tela do celular, não se preocupando em separá-los antes de limpar a superfície com uma fungada só.
O ardor vem primeiro. Cru, agressivo.
Depois, o gosto amargo escorrendo pela garganta.
Ela fecha os olhos por um instante, respirando fundo. O mundo ainda dói, mas começa a ficar… distante. O peso no peito afrouxa. A confusão vira uma espécie de falsa clareza.
Só então volta a atenção para o aparelho.
Desbloqueando a tela e deslizando o dedo para as redes sociais.
Vídeos da premiação ocupam toda a tela. Gravações de todos os ângulos possíveis. Câmeras de celulares pixeladas e desfocadas.
Mas todos focam na mesma coisa.
Nela.
No zoom extremo em seu rosto, no sorriso torto, no olhar perdido e na marca seca de pó que mancha seu nariz. Um trecho específico se repete sem parar: ela tropeçando no próprio discurso, rindo fora de hora, errando nomes, precisando se apoiar no apresentador para não cair.
Os comentários são cruéis. “O prêmio dela deveria ser dado para outra participante, qualquer uma que não envergonhasse a premiação.” “Essa vadia sempre foi uma drogada fodida, finalmente a máscara dela caiu.” “Constrangedor, ela é patética. não merecia estar passando por isso.” “Viciada de merda.”
Seu estômago embrulha, o ácido do vômito subindo até a sua língua.
O efeito começa a bater. Rápido demais.
Seu coração acelera igual as asas de um beija-flor. Sua mãos suam. A sensação de controle vira irritação. desce a tela com mais força do que o necessário, abandonando as redes sociais pelo navegador com as notícias pipocando na tela.
Reportagens. Paparazzis. Manchetes tendenciosas.
“Atriz Collins vira assunto após comportamento errático em premiação.”
“Fontes afirmam que estúdios estão reconsiderando contratos.”
“Vício desenfreado: até quando Hollywood vai fingir que não vê?”

A respiração dela fica curta. A substância que deveria anestesiar começa a fazer o oposto — amplifica tudo. O ódio. A vergonha. A paranoia.
Ela abre uma das matérias. Lê seu nome repetido como se não fosse mais dela.
Irresponsável.
Instável.
Difícil de trabalhar.

O passado sendo desenterrado em parágrafos frios, episódios antigos tratados como padrão, não como exceção.
E, no fim, a frase que a atravessa como um golpe seco:
“Segundo fontes próximas, o relacionamento com Walker já estaria estremecido.”
— Filhos da puta — ela murmura, a voz tremendo, alta demais para um quarto vazio.
Bloqueia a tela com força, como se isso pudesse silenciar o mundo e apagar seus erros. Não funciona. O celular continua vibrando, insistente, quase acusador.
olha ao redor.
A cama vazia do outro lado.
Nenhum bilhete.
Nenhuma mensagem.
O desespero bate. Onde estaria? Por qual motivo não tinha falado com ela?
Mas sabia muito bem a resposta para a segunda pergunta. Tinha o envergonhado, envergonhado a si própria, e agora o tinha perdido.
A ansiedade disparou.
Ficar ali é insuportável. Pensar é impossível. E precisa de mais.
Precisa afogar as mágoas, se entorpecer até esquecer seus deslizes.
Ela se levanta rápido demais, a cabeça girando, mas não para. Troca de roupa sem cuidado, sem se preocupar com qualquer coisa que vá vestir, além dos óculos escuros e do boné.
Ela precisa sair.
Precisa espairecer.
Precisa calar tudo.

Horas depois, a cidade já está escura novamente quando tenta acertar o caminho de voltar para casa. O álcool mistura-se com o todas as outras substâncias que usou, o corpo em descompasso com a mente. Os passos são incertos, a calçada parece se mover sob seus pés.
Ela tropeça uma vez, rindo sozinha ao se desequilibrar.
Tropeça de novo, mas a gargalhada morre antes mesmo de romper seus lábios rachados.
O joelho cede. O mundo gira. cai no chão frio, o impacto arrancando o ar de seus pulmões. Fica ali por alguns segundos — ou minutos — sem saber exatamente quanto tempo passa, até que um clarão corta a noite.
Seus olhos enevoados se erguem para o céu, em busca de nuvens carregadas, mas a noite está limpa, estrelada, indiferente.
Outro clarão.
Depois mais um.
Só então entende.
Flashes. Câmeras apontadas para ela enquanto permanece caída, desalinhada, vulnerável demais para se proteger. Sussurros atravessam o ar, misturados ao clique incessante. Seu nome é dito em tons curiosos, famintos, como se ela não fosse mais uma pessoa — apenas um acontecimento.
Ela tenta se mover. O braço falha. A visão embaça. O mundo gira de novo.
, olha pra cá.
— Isso é por causa da premiação?
— Você viu as notícias? Pode confirmar se o seu relacionamento com acabou?
As perguntas se atropelam, não esperando respostas. Um dos flashes estoura perto demais, branco demais, e ela fecha os olhos tarde demais para não ver estrelas em sua vista. Logo estão todos ao seu redor, aproximando-se sem pudor, famintos por um furo ainda maior, por mais uma queda, por mais um erro que ainda não cometeu, mas parece destinada a cometer. Uma lágrima solitária escorre por sua bochecha. Depois outra. E outra. Até que seu rosto esteja encharcado, levando junto qualquer resquício de controle. , você está bem?
— Gostaria de dizer alguma coisa?
Ela abre os olhos com esforço. O sorriso que surge em seus lábios é torto, depreciativo, vazio de humor — um reflexo automático, ensaiado ao longo de anos.
— Me desculpem por ser… — a voz falha, mas ela continua — a criança problemática de vocês.
Alguns risos baixos. Mais cliques.
O sorriso dela treme, desaba, e vira o rosto, incapaz de sustentar o espetáculo que se espera dela. Naquela noite, ali no chão frio, ela entende com clareza dolorosa: não importa o quanto caia, sempre haverá alguém pronto para assistir.


acorda devagar, como se estivesse emergindo de um lugar fundo demais, sua consciência lutando para permanecer dispersa. Sua cabeça lateja como sempre. Seu corpo todo doi, como se tivesse sido atropelada por um caminhão.
Há um gosto metálico na boca e uma ardência familiar no nariz.
O quarto está escuro demais, sequer consegue descobrir que horas são. Seus olhos passeiam pelo quarto, logo descobrindo que não está sozinha.
está sentado na poltrona em frente à cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos entrelaçadas. Ele a encara em silêncio, um semblante cansado nubla suas expressões.
Ela sabe muito bem o que isso significa.
— Que horas são? — a voz dela sai rouca, quebrada.
Ele não responde de imediato. Continua a encarando, como se precisasse confirmar que ela realmente acordou.
— Como eu cheguei aqui? — ela pergunta de novo, a testa franzida. — Eu… eu lembro de ter saído.
— Eu te trouxe — diz, enfim. — Depois da sua… situação ontem à noite.
A palavra paira no ar, pesada. engole em seco. Uma memória fragmentada tenta se formar — flashes, chão frio, luzes brancas.
— Você caiu — ele continua, lendo-a tão bem que sabe que ela não consegue se lembrar. — Os paparazzis te cercaram. Você mal conseguia ficar em pé.
Ela vira o rosto, incomodada.
— Não precisava ter feito isso.
— Precisava, sim — ele rebate, baixo. — Se não fosse por mim, era capaz de você estar lá até agora!
O silêncio se estica de maneira frágil, prestes a quebrar e se transformar em algo feio. se senta com dificuldade, puxando o lençol até o peito como se aquilo fosse algum tipo de defesa.
Vestindo sua armadura.
— Então é isso? — ela diz, ríspida. — Você veio me dar sermão agora?
se levanta. O movimento é lento, decidido.
— Eu não aguento mais, .
Ela ri. Um riso curto, sem humor.
— Claro que não aguenta. Você nunca aguenta quando as coisas ficam feias.
— Não é isso — ele diz, a voz finalmente tremendo. — Eu fico. Eu sempre fico. Mesmo quando você some. Mesmo quando mente. Mesmo quando se destrói na minha frente.
levanta também, ainda instável, mas o orgulho a mantém de pé.
— Ah, me poupe. Eu nunca te pedi nada disso, você que tem essa síndrome de salvador.
Ele balança a cabeça, incrédulo.
— Você realmente acredita nisso?
— Eu acredito que você sabia exatamente com quem estava se envolvendo — ela dispara. — E agora quer bancar o surpreendido porque não consegue mudar quem eu sou. Mas adivinhe só, … EU NÃO QUERO MUDAR, PORRA!
As palavras são afiadas.
às empunha como facas, disposta a tirar sangue. A forçar a recuar.
— Você não é meu salvador, . Nunca foi. E eu não te pedi pra ficar.
O rosto dele se fecha, a faca atingindo bem o alvo.
— Não. Mas eu fiquei porque te amava.
A frase cai como um golpe baixo — e sente.
Ela quer chorar e pedir desculpas, abraçar e deixar que seu corpo a aqueça na cama e a faça esquecer de tudo, mas ela não pode. Não pode continuar com , mesmo que doa em seu coração, enquanto ele achar que ela tem salvação.
Que ela quer ser salva.
— Então talvez esse seja o seu erro — ela diz, fria. — Amar alguém como eu.
O silêncio que se segue é absoluto. a encara por alguns segundos, como se estivesse gravando cada detalhe dela na memória. Depois, assente uma única vez.
— Talvez seja — ele concorda. — Mas continuar aqui seria um erro maior ainda.
Ela cruza os braços, erguendo o queixo.
— Ótimo. Então vai embora.
Uma dor lancinante dispara por seu corpo, e poderia jurar que era o seu coração se partindo por ver as lágrimas nos olhos dele.
Um déjà vu passar em sua mente, todas as vezes que magoou , o envergonhou e o deixou à beira das lágrimas.
Ele passa por ela sem tocá-la. Para na porta apenas por um instante, o corpo tenso.
— Quando você decidir parar de se machucar… — ele respira fundo — você sabe onde me encontrar.
A porta se fecha atrás dele com um clique suave.
Os joelhos de falham no mesmo instante. Ela cai no chão, incapaz de se sustentar, e deixa que as lágrimas finalmente rolem livres por seu rosto.
Pela primeira vez, não há aplausos.
Não há câmeras.
Não há ninguém para transformar sua dor em manchete.
Só o silêncio.
E o espaço vazio onde costumava estar.

FIM!

Nota da autora: Essa história é bem diferente do que eu costumo escrever, mas espero que vocês tenham gostado!