Revisada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 12/02/2026espirrou, esfregando as costas da mão no nariz avermelhado com irritação. Quando mais jovem, ela costumava amar o sótão. Era como sua própria casa assombrada, apenas a alguns passos e uma pequena escada de distância da sua cama quentinha e segura. Isso até seu pai construir uma casa na árvore e suas escaladas começarem a permanecer do lado de fora do seu lar.
A garota, no entanto, nunca deixou de romantizar aquele cômodo, que quase nunca era visitado, a não ser quando sua mãe queria guardar algo velho para dar espaço a coisas novas, ou quando seu pai queria manter os velhos brinquedos dela à vista, resistindo a acreditar que sua garotinha estava crescendo além dele. Mesmo quando ela saiu da cidade para cursar faculdade no outro extremo do país, em sua mente, o sótão sempre estaria lá: protegendo suas lembranças como um velho amigo que não te deixa esquecer de onde você veio.
Em retrospecto, nunca questionou o motivo da sensação de segurança que aquele lugar trazia. Cada canto da sua casa tinha uma boa memória: noites de cinema na sala, preparando uma guloseima com seu pai na cozinha, aprendendo a fazer a maquiagem como nos anos 80 com a mãe no banheiro, correndo no quintal com seu cachorro de infância, brincando de pique-esconde com suas irmãs. Se as paredes falassem, elas só cantariam sobre o amor.
Claro, havia momentos recheados de brigas. A fase rebelde dos 13 anos, a raiva de tudo e todos que a atingiu na adolescência. Achar que está sempre certa e sabe de tudo dura até os 18 anos e, então, você é cuspida no mundo real e tudo parece incerto e assustador. Mas ele sempre teve um lugar para voltar.
E aqui estava , no auge dos seus 20 anos, assistindo a poeira cintilando sobre os raios de sol que entravam pela única janela redonda do seu lugar seguro e esquecido. Ela uniu as sobrancelhas, aperreada pelo cheiro de velhice que a atingia. O lugar parecia intocado pelo tempo, como se tivesse desaprendido que as horas passavam para todos. A garota suspirou, seu aborrecimento diluindo em melancolia.
Ela não podia odiar o sótão pelos mesmos motivos que havia se apaixonado por ele em primeiro lugar.
Havia um reconhecimento naquelas caixas. Pareciam duras por fora, até feias, sem qualquer significado. Ainda assim, a cada papelão que a primogênita abria, uma onda de pertencimento a banhava — com espuma de areia do tempo, também conhecida como muita poeira.
Em algum lugar dentro de si, quase sentiu como se pertencesse ao passado ao abrir aquelas memórias que mal eram suas.
A Barbie cantora que havia ganhado da tia quando era pequena. O seu skate, que durou duas semanas até ela perceber que o esporte definitivamente não era seu forte. Os jogos de tabuleiro que todos costumavam jogar nas reuniões anuais, que foram gradativamente substituídos por outros, exceto o D&D, que havia se tornado uma regra votada pela maioria, à contragosto de alguns que encaravam esses momentos com uma simpatia disfarçada de aborrecimento. O uniforme da escola fundamental. Os seus óculos de sol enfeitados com glitter e lantejoulas, que seu pai havia ajudado ela a criar (e ele ainda guardava os dele em sua penteadeira). Havia tantos pedaços dela ali que, às vezes, a morena queria conseguir pegá-los e encaixá-los de volta, talvez não se sentisse tão sozinha assim.
A universitária bufou para si mesma. Aquilo era ridículo. Ela estava mesmo se sentindo solitária por conta de um feriado idiota? Certo, era o seu primeiro Dia dos Namorados sem um namorado. Mas com certeza conseguiria um cara se ela quisesse! Ela nunca tinha tido problema nenhum com isso. Entretanto, sua inquietação se apoiava em algo maior do que um encontro. Esse era o primeiro ano dela na faculdade da Califórnia: longe dos amigos, longe da escola, longe dos seus pais, longe das irmãs, longe de tudo que ela conhecia.
O fato de ser o feriado mais romântico da terra não ajudava em nada aquela agonia de sentir que estava fora de hora, que estava perdendo algo.
A menina bufou para si mesma, empurrando a caixa com o nome escrito na frente. Ela levantou, escutando os ruídos do chão de madeira enquanto andava pelo sótão, como se o lugar estivesse se reacostumando a tê-la por lá.
Pela porta aberta, conseguia ouvir seus pais rindo na cozinha. Se fechasse os olhos, seria capaz de assistir a cena em suas pálpebras: sua mãe sentada no balcão, sorrindo como uma adolescente apaixonada, enquanto seu pai estava de costas, cozinhando algo e virando para trás incontáveis vezes apenas para roubar mais um olhar dela, tal qual um garoto com seu primeiro amor.
Aqueles dois estavam tão conectados que pareciam um só, era impossível desembaraçar a paixão deles. Ela esperava que, um dia, pudesse encontrar alguém que a amasse assim. Que pudesse amar alguém assim.
— Você vai queimar o macarrão se continuar me olhando! — As paredes da casa ecoaram a voz da matriarca, uma repreensão englobada no tom risonho que só o marido conseguia arrancar dela tão facilmente.
— Bem, você pode me culpar por isso? Você está linda.
— Eu estou uma bagunça. — apostaria todos os seus 20 dólares que sua mãe estava revirando os olhos e corando para o flerte descarado do marido.
— A bagunça mais bonita que eu já vi.
— Que nojo, tem gente em casa! — gritou, antes que os dois começassem a se beijar. O sótão era perto demais da cozinha, e ela não precisava de mais traumas com a demonstração de afeto exagerada deles, obrigada.
— Desça e venha comer! Está quase pronto!
— Eu já vou!
Honrando a teimosia herdada da mãe, ela não foi. Ao invés disso, prosseguiu bisbilhotando as caixas, distraída pela ilusão de eras mais simples, até que quase tropeçou em um dos compartimentos. Arqueou a sobrancelha, tomada pela curiosidade, e se debruçou sobre o cubículo de papelão. O nome dos pais estava escrito na lateral da caixa, junto à década: anos 80.
Ao abrir aquilo, se deparou com um monte de bugigangas. Tudo parecia ter saído diretamente de um filme antigo. Câmera polaroid, vinil, VHS, cadernos desgastados, brinquedos que deveriam ter sido dos seus pais quando eles eram crianças. Ela limpou a mão na saia de cetim, deixando a poeira manchar sua roupa; surpreendentemente, não havia qualquer resquício de mofo nos objetos.
Deu de ombros, estava mais preocupada em cutucar nas relíquias dos seus pais. O murmurinho deles no presente sendo sobressaído pela ideia deles no passado. A garota se perguntou se eles já tinham se sentido tão perdidos quanto ela na sua idade.
Uma coisa em particular chamou a sua atenção. Um cassete player. O tocador de música era preto, com detalhes prateados, e dispunha dos mesmos botões dos aplicativos: play, pause, rewind, forward. Ela pegou o objeto em mãos, rindo ao perceber que era do tamanho da sua palma, apesar de ser um pouco mais pesado do que imaginava. pressionou a rolagem lateral do aparelho, fazendo com que o cassete abrisse e ela desse um pulo, assustada.
— Não é tão difícil — resmungou para si mesma, assentindo satisfeita ao perceber que já havia uma fita dentro do walkman. — Ótimo. Cadê o… Achei!
Vasculhou a caixa e apanhou um velho modelo de fones de ouvido. Ela colocou-os, conectando o cabo no cassete. Já conhecia o gosto musical do pai e da mãe, só esperava que não fosse uma música brega e, sim, uma das boas.
— I hear the drums echoing tonight, but she hears only whispers of some quiet conversation — o walkman cantou em seu ouvido. O som não era tão nítido quanto a internet proporcionava, alguns chiados aqui e ali, como os walkie-talkies que seu tio havia dado de natal alguns anos atrás. sorriu para si mesma, englobada em seus devaneios como uma criança em um cobertor quentinho. — She's coming in twelve thirty flight, the moonlit wings reflect the stars that guide me towards salvation.
Conhecia aquela música muito bem. Mais do que cantos de natal ou melodias de carnaval. Era a canção deles, dos seus pais. Estava presente no vídeo de casamento e tocava em todo aniversário deles. Era tão pateta, de um jeito muito fofo que ela jamais admitiria.
— I stopped an old man along the way.
O ritmo foi interrompido, a cantoria puxada de lado em uma desordem que o fez parecer um integrante de filme de terror que mudava de timbre. A fita parecia estar enguiçada, mas, quando encarou o cassete ainda aberto, as engrenagens continuavam girando normalmente, sem qualquer pista do motivo daquele defeito. Ela deu de ombros, pensando que devia ser o preço de ser algo envelhecido.
— Hoping to find some old forgotten words or ancient melodies.
A melodia voltou ao normal por um segundo, até começarem os chiados. No início, eram baixos o suficiente para parecerem parte do modo vintage de ouvir música.
— He turned to me as if to say.
O ruído se tornou tão alto quanto turbinas de avião direto em seu ouvido. O som semelhante a unhas arranhando um quadro. Todo o sótão pareceu esfriar. A poeira, antes descansando sobre os objetos antiquados, se ergueu como se quisesse transformar em uma memória também. A garota sentiu o peito pesado, parecia que alguém estava tentando arrancar seu coração. Sua garganta estava fechando, o mofo entrando em suas veias de uma maneira que não era possível, não devia ser possível.
— Hurry, girl, it's waiting there for you! — disse uma voz monstruosa, grossa, sem emoção. sentiu calafrios quando aquela pessoa, se é que era um humano, reverberou em seus ouvidos, roubando o lugar da música romântica.
E, de repente, tudo escureceu.
1986, Hawkins, Indiana
Todos encaravam a garota sem saber o que fazer. Até mesmo Nancy Wheeler, que havia liderado o grupo na última tentativa de vencer Vecna, parecia confusa ao encarar a mulher que havia aparecido, do dia para noite, deitada no sofá do porão da sua casa.
Mike residia no sofá do lado de El, aliviado pela namorada conseguir ter, ao menos, alguns minutos de descanso. Ele tentou focar nisso e não na maneira que sua mente corria ansiosa ao pensar no que eles estavam enfrentando e no que isso custaria a ela. Talvez essa nova integrante pudesse ajudar, certo?
Lucas suspirava ocasionalmente, impaciente por não estar no hospital com Max. Horários de visita idiotas. Já Dustin estava comendo os chips de Harrington da maneira mais barulhenta possível.
Jonathan se encontrava encostado na parede, hora conversando com Will, que parecia amuado com algo, outrora ao lado de Nancy, que franzia a testa com preocupação mais e mais a cada minuto.
Steve estava sentado ao lado da Wheeler mais velha, esperando por algum sinal de vida da estranha, ou alguma ordem de Nance. Robin perambulava pelo cômodo, listando os prós e contras de tentar acordá-la.
— Ela pode ser um dos soldados do Vecna. Ou… ela pode ter raiva.
Harrington revirou os olhos. — Dá para você superar o lance da raiva? Ninguém tem raiva.
— Sério? Que médico olhou essa mordida nojenta e te disse isso?
— Pelo menos vai ficar uma cicatriz maneira — disse Argyle, sorrindo sem qualquer preocupação no mundo, um efeito colateral de estar chapado.
— Se ele não morrer antes… — Dustin acrescentou, jogando uma batatinha pringles entre os lábios e mastigando de boca aberta.
— Vocês podem parar? Eu não tenho raiva e não vou morrer — Steve bufou, desviando o olhar da bela adormecida para o Henderson. — E dá para parar de comer de boca aberta?
— Você também faz isso!
— Mas não na frente das garotas, hein? — Buckley piscou para ele, e Harrington respirou fundo, pensando no que ele havia feito para merecer isso.
— Calem a boca! Ela está acordando — disse Nancy, com aquele tom inquisitivo que ela havia aprendido a usar para chamar a atenção de Mike quando ele roubava suas bonecas para fazer parte das campanhas de D&D.
As pálpebras de tremeram e, assim que abriu os olhos, ela sentou no sofá com um arfar. A garota levou a mão até o peito, se encolhendo no sofá enquanto olhava ao redor. Arregalou os orbes, surpresa com a quantidade de rostos conhecidos, mas décadas mais jovens do que deveriam ser. Ela tinha inalado muito mofo? Estava tendo um surto psicótico com as últimas fotos que tinha visto no sótão?
O grupo levantou. Steve tomando a frente, incerto do que aquela estranha iria fazer, apesar de não sentir que ela era uma ameaça. Nancy colocou a mão no cós, pronta para pegar a arma caso precisasse. El, mesmo fraca, ergueu o braço, disposta a fazer o que precisasse para salvar seus amigos. O resto permaneceu estupefato, encarando a mulher sem dizer nada. A respiração ofegante deles era tudo que preenchia o silêncio da sala, até que finalmente disse:
— O que porra está acontecendo?
Lucas Sinclair sempre odiou o cheiro de hospitais.
Uma das suas lembranças mais antigas girava em torno de entrar em uma sala branca que fedia a antisséptico e era feia demais para o seu casaco dos Flintstones. Aos três anos, uma ala médica se assemelhava terrivelmente ao cantinho do castigo, ou às tardes de domingo na igreja, quando ele não podia fazer nada além de olhar para os próprios pés, enquanto os pais faziam coisas de adulto.
Entretanto, daquela vez, Lucas saiu do hospital com uma criança à tiracolo. Essa é Erica, sua irmã, haviam dito. Ele achou que seria legal ter alguém para brincar, mas acontece que um bebê é muito chato. Ela só chorava, comia, cagava e dormia.
Assim como você, seu pai brincou uma vez.
Anos passaram, horas se arrastando, horas tão rápidas que ele nem conseguia checar o relógio antes de ser um novo dia, de ter uma nova idade.
Ele ainda não gostava de hospitais. As cores monocromáticas, as pessoas vestidas de um branco que sempre acaba em tons avermelhados de bordô, a regra do silêncio que valia para tudo, menos para pessoas agonizando em súplicas e soluçando no chão de azulejos marfim quando o luto dava a primeira mordida em sua carne.
Mas as alas banhadas em desinfetante já deram algo bom para ele antes. Erica. Sua irmãzinha. Por mais que ele preferisse pular de um penhasco a admitir isso. Mesmo adulta, a garota ainda conseguia tirá-lo do sério e fazia questão de irritá-lo sempre que podia. Ela não precisava de mais combustível para o seu ego — por mais que isso fosse basicamente um pré-requisito para a carreira política consolidada dela.
Bom, acontece que tudo na vida era um contraste. O céu azul límpido que se tornava chuvoso com uma nuvem, as bordas escuras que contornavam um desenho colorido, o lugar que ele mais odiava guardando a pessoa que ele mais amava.
Lucas Sinclair continuava visitando Max Mayfield todos os dias no Hospital Geral de Chicago, mesmo décadas depois. Alguns médicos, jovens e abusados, sussurravam pelos corredores que seu cérebro estava morto, que ela não ia voltar.
Ele nunca acreditou nisso. Ele acreditava em Max. A mesma Max que ajudou eles a salvarem o mundo, a Max que lutou contra o Vecna e saiu viva para contar a história, mesmo que machucada.
A Max para quem ele fez uma promessa em 1986, você vai ficar bem, você não vai morrer.
Sinclair não iria descumprir essa promessa.
Afinal, eles ainda tinham um encontro no cinema para ir.
Então, lá estava Lucas. Era um dia quente de setembro, Nancy e Steve convidaram ele para um almoço, mas era uma viagem de meia hora até a casa deles, contando com o trânsito, até o hospital em que Max estava internada — e ele não poderia perder o período de visita. Ao invés disso, Sinclair disse que iria aparecer para o jantar, seria bom ver os Harringtons, a casa deles sempre era uma bagunça com o amontoado de filhas. Lucas gostava do barulho mais do que queria de admitir.
Era estranho pensar em como todos cresceram, até mesmo os mais velhos. Mayfield também cresceu enquanto ainda estava parada no tempo. Ela ainda tinha o mesmo rosto angelical pelo qual ele se apaixonou em 1984, ainda fazia uma carranca enquanto dormia como se soubesse que ele estava a observando, admirado. Os cabelos ruivos estavam mais longos; a mãe dela cortava vez ou outra, e Lucas dava o seu melhor para fazer as tranças que Max costumava usar. Ele gostava de pensar que havia aprimorado isso com o tempo.
Ela tinha sido transferida para Chicago no começo dos anos 90, depois de ter passado alguns meses participando de um estudo experimental em Portland. Nada parecia acordá-la, porém, nada parecia piorar a sua situação. Ela estava estável. Era o que os médicos sempre diziam.
Estável. Constante. Imutável.
Mas nunca definitiva.
Lucas se recusava a acreditar que era assim que a história de Max Mayfield terminava.
Em alguns momentos, sua esperança tilintava, oscilante como uma luz de natal piscando. Todavia, ela sempre voltava quando ele segurava a mão de Max; dentro do frio das salas de hospital, a palma dela sempre estava quente.
Sinclair apertou o passo, afobado. Ele mal podia esperar para ter a conversa diária com Max, a segurar entre seus dedos por um tempinho.
Mas, ao chegar ao corredor, percebeu uma comoção que se formava no quarto dela.
Seu coração apertou, sua garganta fechou. O medo que o agarrou era pior do que quando Lucas enfrentou a morte de frente. Era pior do que ver sua terra natal se despedaçar na frente dos seus olhos. Porque Hawkins era só uma cidade.
Max era tudo.
Ele correu até ela, sem se importar com quem empurrava pelo caminho até alcançar a porta do quarto, trombando em um médico antes que pudesse adentrar no cômodo.
— Senhor Sinclair! — Roger, o doutor grisalho que acompanhava Mayfield desde os anos noventa, exclamou ao ver o mais jovem. — Tentamos ligar para o senhor, mas…
— O que aconteceu? Ela está bem? — Lucas cortou o senhor, esticando o pescoço para ver por cima do ombro dele. Sua cabeça girava, a língua estava seca, ele conseguia sentir suas mãos tremendo. Como ainda estava de pé? Parecia que seus joelhos iam ceder a qualquer momento, assim como as lágrimas pinicando seus olhos.
— Bem? — Franziu o cenho, deslizando a caneta no bolso do jaleco. — Senhor Sinclair, ela…
E foi quando Lucas a viu.
Max Mayfield. Sentada na maca de hospital que ela assombrou por anos.
Acordada.
1986, Hawkins, Indiana
— Quem é você?
— Por que invadiu o meu porão?
— Quem te mandou?
— Você está com os russos?
— Ela parece russa, idiota?
— Nem todo russo parece russo!
As perguntas forjadas em confusão e medo atingiram com mais força do que a luz difusa do porão dos Wheelers jamais poderia. Ela colocou as mãos sob os ouvidos, tentando bloquear o falatório apressado daquelas pessoas. Da sua família décadas mais jovem.
— O que ela estava fazendo com as mãos?
— Ela vai usar os poderes!
— Ela só está assustada.
— Cadê o seu taco quando precisamos, Steve?!
— Eu não vou bater em uma garota.
— Isso é tão machista da sua parte.
— Como não bater em uma menina me faz ser machista, seu merdinha?
fechou os olhos com força. Aquilo era um sonho. Tinha que ser. Ou um pesadelo. Sim, um pesadelo. Igual aos que ela tinha quando era criança, com os monstros da floresta e as sombras. Era só isso. Um truque da mente causado pela inalação de mofo. Logo seus pais iriam subir, jogar água no rosto dela e a acordar. iria ouvir um sermão, mas tudo bem
Dez mil sermões eram melhores do que isso.
— Alô? Terra para esquisita?
— Não chama ela assim!
— E se ela tiver fugido do hospício?
— Da última vez que vocês acharam isso, encontramos a El.
— Eu? Hospício?
Ela afundou no sofá. As vozes não paravam, aquela era a experiência extracorpórea mais estranha que ela já tinha tido. Pior do que a vez que sonhou que estava beijando Noah Buckley e acordou lambendo o travesseiro.
— Por que ela não faz nada?
— Será que ela viu o Vecna?
— Ninguém vai tentar nada?
— Eu sugiro sacrificar o Steve.
— O quê?!
— Você gosta de bancar o herói.
sentia sua garganta arder, seus ossos tremendo debaixo da camada de pele. Ela se sentia tão acuada, tão assustada. Pressionando as mãos com intensidade contra as orelhas, as conversas prosseguiram. Não parava. Era a voz dos seus tios, dos seus pais, joviais demais para serem dela.
Talvez até mais novos que ela. Que porra era essa? Por que ela estava paralisada?
Ela só queria seus pais aqui. Ou suas irmãs. Qualquer um que pudesse segurar sua mão.
Mas, então, essas pessoas também não eram eles? havia tido apenas um vislumbre antes de se encolher no velho sofá do porão, fechando as pálpebras o mais rápido possível para fugir daquele sonho estranho.
Por que ela não conseguia acordar?
— Já chega, fiquem quietos!
O comando de Nancy Wheeler cortou as conversas como um tiro no céu. Impetuosa, certeira. O tipo de imposição que fazia todos recuarem com respeito. Ela sempre havia sido uma líder, se posicionando na linha de frente quando todos os demais estavam paralisados demais para fazerem algo. O temor sempre estava lá, montando em suas costas, mas a necessidade de Nance de mudar, de usar suas mãos para algo útil, sempre foi maior do que seu senso de autopreservação.
Mesmo naquele momento, a voz firme da Wheeler trouxe conforto para . Eu sempre vou te proteger, a velha promessa parecia um sussurro em seu ouvido. Ela respirou fundo, sentindo os olhos molhados com lágrimas não derramadas que significavam tão mais do que uma típica tristeza; era o seu corpo extravasando horror, confusão, e tudo mais no emaranhado que ela era.
— Você pode abrir os olhos? — Nance disse, com o tom manso, um chão familiar no meio do furacão. — Nós não vamos te machucar.
A garota fungou, obedecendo como sempre fazia quando se tratava dela, apesar de estar menos que pronta para encarar as pessoas na sala. As pessoas com quem ela havia crescido, correndo entre suas pernas, segurando suas mãos, rindo em mesas cheias de comida e discussões bobas que ninguém se lembrava pela manhã.
Todos atordoados pela própria juventude.
Era como olhar uma foto antiga ganhar vida. O desbotado pelo tempo se moldando em gente, em pele, em realidade.
Seu olhar varreu o cômodo primeiro, uma tentativa inútil de prolongar o choque que sentia borbulhando embaixo dos seus dedos.
O porão era idêntico às fotografias empoeiradas no fundo do sótão. A maneira com que as conversas se embaralhavam como acontecia em todos os natais. As roupas. Os cassetes que não haviam se tornado itens vintage ainda. Isso era possível?
Então, Steve Harrington apareceu em sua visão periférica.
Seus cabelos ainda não tinham fios brancos teimosos, seu rosto, apesar de mais jovem, parecia carregar peso. Ele ainda não tinha a cicatriz embaixo do queixo.
Mas os olhos continuavam iguais. Os mesmos olhos que ela herdou dele.
— Pai?
Caos generalizado.
Essa era a única maneira de descrever o que estava acontecendo no porão dos Wheeler.
Steve estava branco igual um papel, encarando a menina que havia acabado de chamar ele de pai. Harrington tentou balbuciar algo, mas nada saía. As engrenagens da sua cachola tinham pifado, enferrujado, pegado fogo. Ele não conseguia focar em nada além de:
1. A garota que se teletransportou para o porão do Mike Wheeler dizia ser sua filha.
2. Ela parecia dolorosamente como uma mistura dele e de Nancy Wheeler.
Ao seu lado, Robin não tinha a mesma dificuldade. Ela estava quase pulando de empolgação. Metade por estar certa sobre, bem, tudo que Steve estava negando para si mesmo enquanto tinha aquela cara de cachorrinho apaixonado quando olhava para Nancy. Já a outra metade era porque, caramba, aquela menina veio de outra década? Como seria o futuro? Eles já haviam descoberto a civilização de reptilianos que com certeza moravam nos esgotos?
Mike e Dustin discutiam sobre a probabilidade de viagens no tempo serem possíveis e as chances de aquilo ser mentira, o que, dado ao histórico de acontecimentos bizarros em Hawkins, não era grande. Erica sustentava uma carranca, ocasionalmente gritando com os dois sobre suas teorias de nerds idiotas e como eles não percebiam que podia só ser uma mentira.
Lucas permanecia atento, os ombros tensos ao observar a menina. Se ela estava dizendo a verdade, ele poderia perguntar sobre Max. Quando ela iria acordar. Como eles venciam o babaca do Vecna.
Eddie estava rindo, puxando os cabelos enquanto andava de um lado para o outro. Aquela merda era inacreditável, bem mais maluca do que qualquer brisa enquanto ele estava chapado.
Argyle simplesmente acreditava que tudo aquilo era um produto da sua mente entorpecida. Monstros? Ok, provavelmente. Gente de governo perseguindo inocentes? Tem isso em todo livro de história. Pessoas que não gostam de abacaxi? Infelizmente são reais. Uma menina com superpoderes que tem nome de número e viaja enquanto está em um banheiro? Meio esquisito, mas ela era careca, então tudo bem. Gente careca tem seus segredos. Mas uma filha futurista do cara que com certeza estava pegando a namorada do seu melhor amigo? Isso era bizarro.
Jonathan… ele realmente desejava ter um baseado agora. O debate instantâneo sobre a paternidade de Steve Harrington não estava nos seus planos para hoje. Por que tudo tinha que ser assim em Hawkins?
Will estava quieto, assistindo a cena se desenrolar debaixo do seu nariz. Tinha algo inquietante sobre a estranha, similar ao que ele sentia por El. Uma ligação que conectava os três de algum jeito. Mas como?
E então, tinha Nancy Wheeler.
Nancy Wheeler, que franziu o cenho assim que a palavra pai escapou pelos lábios da garota, de um jeito tão cru e quebradiço que ela não podia pensar que era mentira. Seu corpo estava ensopado por emoções diferentes que pareciam bater umas nas outras como carros desgovernados. Steve tinha uma filha no futuro? Claro que ele tinha, Harrington era mais paternal (e maternal) do que qualquer um deles. Ela era filha deles, ou apenas dele? Ele tinha outra pessoa algumas décadas no futuro, a certa? Nancy iria se tornar apenas um caso esquecido de amor falido? Ou eles haviam encontrado o caminho de volta para algo que perderam?
Acima de tudo, ela não conseguia evitar o aperto em seu peito ao ouvir aquilo, como se…
Como se ela devesse proteger a menina.
Porém, Nancy era uma jornalista. Ela não podia confiar apenas em instintos — eles eram parte do trabalho, mas não se construía uma matéria sem fatos.
Ela abriu a boca para iniciar o interrogatório, entretanto, a porta do porão foi escancarada.
— Crianças, que barulho é esse?!
Karen Wheeler apareceu no topo da escada, segurando um bebê loiro no colo. arregalou os olhos, estupefata. Aquela só podia ser a tia Holly. Meu Deus, ela era tão pequena! Agora tinha sentido a mania do tio Mike de sempre perturbar a mais nova chamando-a de bebê Holly, mesmo com ela tendo quase dois metros de altura.
— Desculpa, mãe. Nós nos… animamos com uma partida de D&D. — Nancy deu um sorriso forçado para a mãe. Karen arqueou a sobrancelha, olhando desconfiada para os presentes.
— Vocês estão jogando D&D? — A pergunta parecia se direcionar para os mais velhos mais do que para as crianças.
Robin soltou uma risada nervosa, tentando vender a mentira: — Sabe como é, os pirralhos insistiram!
— Uh, sim. — A matriarca assentiu, desconfiada. Todavia, não insistiu. — Abaixem o tom de voz. Estou tentando fazer Holly dormir.
— Pode deixar, senhora Wheeler.
Antes de sair, a mulher pousou os olhos em .
— Você é nova, não é?
A vontade de chorar voltou. Era tão estúpido. É claro que sua avó não iria reconhecê-la, aparentemente, ela nem tinha nascido ainda.
— Sou… Meu nome é — a garota futurista disse, seu tom mais suave do que antes. Ela voltou sua atenção para os outros, demorando o olhar em Steve e depois em Nancy. — .
— Bom, seja bem-vinda, querida. E mantenham o volume baixo, por favor.
Alheia à desordem que se espalhava embaixo dos seus pés, Karen Wheeler fechou a porta e se dirigiu para a sala, deixando as coisas ainda mais complicadas do que antes.
.
— Acho que se eu tivesse uma filha, eu chamaria de — Steve disse uma vez, durante o verão de 84, dando de ombros como se não estivesse pensando e repensando o assunto. — Ou uma cachorra. O nome combina com os dois.
— Steve. — Nancy revirou os olhos, mas suas palavras pingavam afeição. — Você não pode ter um nome para um cachorro e uma filha.
— É multifuncional, Nance — ele se defendeu, se esgueirando para mais perto dela na cama. Eles estavam curtindo um sábado lento, que não clamava por nada além da companhia deles. Em momentos como esse, ter a casa dos Harrington vazia era um alívio. — Eu sou um cara extremamente multifunções.
— É claro que sim, Harrington — ela ironizou, recebendo um grunhido indignado do então namorado.
— É assim, não é? — Os olhos de Steve brilharam com o desafio enquanto ele se aproximava dela. E Nancy deixou. Ela sempre deixava. — Vou te mostrar o quão multifuncional eu posso ser, Nancy Wheeler.
Nancy levantou o olhar, encarando a garota. A pergunta escrita em sua feição. A resposta veio por um aceno com a cabeça. Ela já sabia antes mesmo que a outra falasse em voz alta.
— Eu sou Wheeler-Harrington. — respirou fundo, vasculhando a coragem que se escondia em suas estranhas. — E essa não é a minha época.


