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Revisada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 27/07/2025

Ser uma bartender é, no geral, um trabalho tranquilo. Entre a opção de acordar às cinco da manhã para conseguir pegar o ônibus e trabalhar mais de 14 horas por dia, ela estava bem mais satisfeita com o trabalho de quinta a domingo, das 18h às 5h, que pagava quase o mesmo salário. E, de quebra, conseguir gorjetas grandes com os babacas tentando impressionar as garotas com drinks elaborados, ou dos panacas que davam em cima dela.

O segredo para ser uma boa barwoman era simples: conseguir ler as pessoas. Era a única coisa que realmente importava. Se você conseguia bater o olho e saber qual seria o pedido do seu cliente, metade do trabalho já estava feito.

As pessoas, Sally havia aprendido, eram como bebidas.

Quando entrou no bar, a sua expressão cansada foi a primeira coisa que a bartender notou. Já era tarde para uma quinta, quase meia noite, apenas alguns gatos pingados se encontravam no local. Os alcoólatras inofensivos de rotina, um casal em um encontro (que, pelos olhares e carícias nada discretas embaixo da mesa, com certeza terminaria daqui muitas horas), um homem de terno e, agora, a mulher de cabelo preso e rosto triste.

Confundir cansaço e tristeza era bem fácil. Entretanto, aquela mulher parecia uma junção desses dois e algo a mais. Como um coquetel que não está completo até todos os ingredientes estarem no copo.

Algo estava faltando naquele quebra-cabeças.

A morena se sentou em um dos bancos do balcão, suspirando, perdida em seu próprio marasmo. Sally observou a roupa que ela usava, um casaco azul com letras amarelas anunciando "Departamento de Polícia de Minnesota", uma calça no mesmo tom e botas pretas.

Uma policial. Isso explicava os ombros curvados, o peso perceptível em suas costas.

Normalmente, as mulheres na força encaram a violência como um baque, como uma brutalidade trágica, do jeito que deveria ser. Enquanto os homens, bem... são os responsáveis por mais de 90% dos casos de agressão policial. Sempre com o peito estufado como galos de briga e tratando suas armas como brinquedos, se divertindo com a sensação de poder que o distintivo dá a eles.

A barwoman pensou em procurar o alvará de bebidas que seu chefe deixava no escritório para eventuais batidas, entretanto, não parecia que a oficial estava interessada nisso. Ela ainda não havia dito nada, nem mesmo gastado um olhar na direção das opções expostas na prateleira atrás da Sally ou checado o cardápio.

Ela só parecia... perdida. Talvez no espaço, no tempo, ou em sua própria cabeça. Provavelmente em tudo.

Enquanto limpava uma taça de vinho com pano, a barista tentou conseguir mais alguma informação a partir da estatura da policial. O casaco tinha o sobrenome bordado, e logo foi descartado no banco ao seu lado com um bufo risonho, uma piada que só ela entendia.

Alguma coisa tinha acontecido no turno? Talvez aquele sobrenome não ressoasse mais com ela? Um marido?

Colocando o vidro na parte debaixo do balcão, Sally se dirigiu até a pia e agarrou outro copo, um de tequila — perfeito para dias difíceis e uma cabeça cheia.

Ao levantar o olhar, no entanto, ela percebeu que a oficial, agora esbanjando uma regata branca, havia soltado o rabo de cavalo, correndo os dedos pelos fios marrons.

Ela não parecia ter pressa alguma. Como se não tivesse hora para voltar pra casa.

Ou se estivesse esperando alguém.

Mas não tinha nenhum resquício de ansiedade nela. Sem olhares roubados para as portas, sem checadas no relógio, sem unhas batendo no balcão. Até mesmo os madrugadores ficavam nervosos quando a hora do encontro se aproximava.

enfiou a mão no bolso e a bartender arqueou a sobrancelha com curiosidade, assistindo quando a policial descansou seu distintivo e uma aliança no balcão.

Ela tinha sido demitida? Não, depois que ela tirou o casaco, deu para ver a arma em seu cós. Seu marido morreu? Improvável, ela não tinha derramado uma lágrima. Talvez um divórcio? Mas o que tinha a ver com o distintivo?

Sally era boa em ler as pessoas. Ótima, até! Mas a parecia mais profunda do que uma observação a olho nu, como uma estrela distante que você consegue entender a órbita quando enxerga a constelação.

Era frustrante. Entretanto, meio divertido. Servir bebidas podia ser monocromático às vezes, era legal ter esse joguinho em sua cabeça.

Talvez um Cuba Libre fosse a bebida dela. Ansiando por um novo começo, com muito receio de provar, mas depois do primeiro gole, é impossível parar, e de repente você estava dançando com a revolução.

— Me vê mais uma dose! — um dos bêbados de praxe pediu, enrolando os pés um no outro enquanto tentava alcançar o balcão. — E das boas!

— Um acordo, chara. — Sorriu, se aproximando da extremidade do balcão, longe da policial misteriosa. — Você me dá as chaves do seu carro, e eu te dou um martini, que tal?

O homem pareceu pensar um pouco, sua expressão se contorcendo em uma careta contemplativa antes de assentir animadamente e estender a mão.

— Trato feito!

Sally riu, apertando a palma do senhor antes de se virar para preparar um martini virgem. Ele estava sob influência demais para perceber que o drink era sem álcool, de qualquer maneira. E diminuiria as chances de ele vomitar as próprias tripas no chão — uma memória bastante vívida da semana passada.

A barwoman apanhou as chaves dele, enquanto ele segurava o copo com um sorriso — não feliz, mas satisfeito. O cliente não desperdiçou qualquer tempo antes de levar o líquido até a boca, agradecendo e se virando para tropeçar até a mesa.

O alcoolismo era uma doença fodida para caralho. Assistir enquanto uma pessoa se definhava aos poucos, incapaz de parar de dar o primeiro gole, perdido em garrafas vazias, era agonizante.

Havia um certo sentimento de culpa em Sally. Claro, ela era só uma trabalhadora, mas quantas pessoas não fazem coisas ruins embaixo do manto de apenas seguir ordens? Em alguns dias, parecia que ela era uma facilitadora para esse vício. Quantos alcoólatras já tinha servido, mesmo que sem saber? Quantas moedas de sobriedade perderam o valor nesse bar durante uma promoção depois de um dia difícil? Em quantos dos seus drinks as pessoas procuravam respostas para saciar a necessidade, o vazio?

Um calafrio passou pela sua espinha ao deixar seus pensamentos serem empurrados para aquele lugar. A bartender não gostava de pensar nisso. Ela preferia pensar nos aniversários celebrados, no gosto doce nos beijos dos amantes. Nas noites de baladas com as amigas. Nas comemorações por um aumento.

Balançando a cabeça, ela focou a sua atenção na policial. A testa franzida em uma careta que parecia nunca sair, os lábios levemente contorcidos em incômodo, os olhos castanhos e a pele âmbar, tudo selado por um sinal ao lado do nariz. Ela era bonita. E triste. Tão triste.

A porta rangeu, o barulho incômodo sobressaindo as conversas desconexas e o ruído da televisão ligada em um canal qualquer de esportes. Os outros clientes não pareceram notar, absortos demais em seus próprios mundos, mas Sally e , treinadas em perceber o ambiente das maneiras mais distintas possíveis, encararam a figura que passava pela porta.

Um homem, provavelmente no final dos vinte anos, com um boné escuro escrito Delegado do Sheriff de Count Stark. O condado não era tão longe, mas certamente não valia uma viagem para tomar uma bebida em um bar barato. Ele usava um colete antibalas com a palavra SHERIFF destacada em amarelo, calça cargo com diversos bolsos, botas de combate, e exibia a arma em seu cinto como um troféu.

A diferença na postura era óbvia. O novo cliente parecia confortável, como se o mundo fosse o seu hotel particular, esbanjando sua autoridade como uma mãe orgulhosa das notas do filho esperto, ou um animal contente em matar sua presa.

O Sheriff olhou ao redor, parecendo buscar por algo, e, antes mesmo que Sally tivesse que pensar, a bartender sabia que ele tinha vindo por ela.

Talvez ele fosse o marido, afinal de contas.

Não, não pelo jeito que ele a olhava. Aquele não era o olhar de alguém acostumado a ter a companhia à sua disposição. Era um olhar de querer, de ter fome e não ter o que comer. De desejar. De necessitar.

A postura de machão parecia relaxar quando seus olhos encontraram os de , um sorriso genuíno surgindo no rosto do homem, que logo se nivelou em provocativo. Ele andou até ela, se sentando no banco ao seu lado que não estava ocupado pelo casaco.

A cenho franzido, se aprofundou da oficial, mas parecia mais confusa do que chateada.

Certo, isso está melhor que uma série, Sally pensou.

— Garota da cidade — o sheriff cumprimentou ela, e o modo que a policial revirou os olhos fez ela achar que aquilo era um tipo de piada interna.

Mulher — a morena corrigiu. — O que está fazendo aqui, ?

— Passeando pela cidade.

A mulher bufou um riso, claramente não comprava a mentira barata. O olhar dela desviou por um momento, e o delegado pareceu respirar, perdendo um pouco da tensão que escondia sobre os ombros. Ainda assim, agarrou um objeto pequeno, um vape branco, e o segurou em cima da mesa, o dedo anelar titubeando o eletrônico, enquanto ele encarava a oficial sem qualquer discrição.

Parecia que ele não sabia o que fazer quando ela não estava olhando para ele, como um cachorrinho chutado.

— Claro, você viajou duas horas, direto da Dakota do Norte, apenas para passear, . — Riu sem humor e voltou seu olhar para bartender, que tentou desviar para não ser pega no flagra. Felizmente, não pareceu notar. — Um grappa, por favor.

Uma bebida feita com o bagaço da uva? Sally quase riu da poesia disfarçada. Era assim que a policial se sentia? O bagaço, o resto, uma pessoa que está deixando de ser gente pelo cansaço?

Do outro lado do balcão, a morena voltou seu foco para , e a resposta dele foi um sorriso malicioso que parecia mais profundo do que deveria ser. Como um drink doce, onde você nem percebe que está perdendo o controle a cada gole.

se mexeu em seu assento, desacostumada com tamanha intensidade. Ali, embaixo do olhar atento de , estava lentamente se embebedando nele.

No cheiro da colônia, nas verdades cortadas ao meio, nas calças cargo idiotas, nas mãos grandes que ele exibia sem pudor, na fragrância estranhamente adocicada que parecia presa a ele por causa do cigarro eletrônico. Mas, principalmente, na maneira que ele falava com ela, sem perceber seus arredores, como se ela fosse a atração principal do que quer que o mundo quisesse apresentar.

não se sentia assim há muito tempo.

— Não posso querer visitar uma colega de farda?

— Não somos colegas.

— Os distintivos dizem o contrário, boneca.

— "Proteger, posso lidar com isso. Mas não estou no ramo de servir." — repetiu as palavras que havia dito no dia que se conheceram, aquele tom arrogante e prepotente que havia assombrado sua cabeça. — Não foi você que disse isso?

Ele riu, parecendo um pouco animado demais por ela lembrar disso. Sally apostaria sua gorjeta da noite que aquele cara havia exagerado apenas para impressionar a policial.

não respondeu diretamente. Parecia uma tendência com ele. Latir, latir, e não morder. O ar entre os dois parecia estranhamente tenso e leve ao mesmo tempo, como se vivessem em uma ambivalência. A certeza do querer, o saber de que não vão ultrapassar um limite imposto.

— Eu gosto do seu cabelo assim — disse depois, de alguns minutos, a assistindo como se fosse uma vista bonita: focado, descarado, sem nunca ousar se virar para outra direção. Ele parecia querer tirar uma foto dela e grudar em suas pálpebras.

Em meio àquele desejo desenfreado, o sheriff quase aparentava estar nervoso. Seu dedo batendo em um padrão mais rápido contra o vape enquanto esperava a reação dela, as bochechas levemente rosadas, mas é claro que ele poderia culpar a luz diurna no bar.

Nesse ângulo, o delegado parecia um dos clientes regulares que sempre pediam um drink de Aperol. Sally nunca foi fã do copo alaranjado, entretanto, entendia o apelo: Aperol possuía uma aparência doce, mas você sentiria o gosto de álcool no primeiro gole. Não muito forte, nem muito fraco. Mas lá, se fazendo presente, se negando a ser esquecido, surgindo detrás de um vislumbre da docilidade. Não era forjado, suas intenções eram óbvias ao primeiro contato.

O tipo de coisa que bebemos quando queremos ter coragem e lucidez ao mesmo tempo.

Talvez isso não fosse sobre ele, mas sobre o querer latente que parecia escalar a cada segundo entre os dois.

fez uma careta, e sorriu como quem achava aquilo adorável, viciado nos trejeitos da mulher que não era sua.

Ela não parecia se lembrar que já havia pertencido a outra pessoa.

Alcoólatras nunca sabem quando parar, sabem?

— Obrigada — disse baixinho, tentando o elogio igual a alguém que prova uma roupa que achava não caber mais e tem uma surpresa agradável. O sorriso em seu rosto era mais relaxado, beirando a provocador, quando olhou-o com as sobrancelhas erguidas. — Você usa boné até em um bar?

— É o boné do batalhão. Vestir o uniforme impõe respeito e medo.

Ele não era um bom homem, Sally conseguia sentir o cheiro de longe. Entretanto, quase parecia um quando colocado do lado dela.

virou-se no banco, estudando ao redor, antes de presenteá-lo com uma expressão zombeteira.

— Não acho que ninguém aqui esteja com medo.

— Estão ocupados demais enchendo a cara. — revirou os olhos, a falta de reverência machucando um pouco do seu ego abatido. — Por que você não está enchendo a cara?

Ela escorregou o copo da policial para perto dela, que agradeceu com em um sussurro e segurou o vidro, uma tentativa de voltar aos próprios sentidos.

— Eu estou bebendo com moderação. — Balançou a bebida entre os dedos, a levando até os lábios, um gesto que foi assistido de perto por , que não desviou os olhos castanhos da boca de nem mesmo quando ela se deu por satisfeita.

— Você parece um daqueles comerciais de se beber, não dirija.

arqueou a sobrancelha. — E isso é algo ruim?

— Depende. — Ele se inclinou na direção dela. — Você vai dirigir depois dessa dose, ou vai me deixar te levar para casa?

suspirou.

— Não quero ir para casa ainda.

— O inútil do seu marido fez alguma coisa? — questionou, a palavra marido amargando em sua língua como se estivesse tomando cerveja quente.

A boca de aparentemente era mais rápida que seu cérebro.

— Não... Ele está fora da cidade — a policial explicou, tomando meio gole do seu copo. — Torneio de golfe.

— Isso nem é um esporte. Achei que você gostava de homens — reclamou, sem perceber o escárnio que pingava dela ao citar os afazeres do companheiro. Ele parecia perdido demais no próprio ciúmes para fazer qualquer coisa além de atacar. O delegado encarou a morena, engolindo em seco antes de perguntar: — É por isso que está triste? Por que ele não está aqui?

Ele estava com medo da resposta. Levantando a mão e pedindo um copo da primeira coisa que veio à mente para Sally antes que pudesse retrucar.

era o tipo de homem que pediria um destilado. Uma bebida intensa demais para seu paladar, mas que ele engoliria até a última gota por ser culturalmente uma "bebida de macho". Depois voltaria para cerveja, mais acostumado e mais gentil ao gosto. Alguém que tenta demais se provar e só queria ser aceito entre seus tropeços e acertos.

— Parei de sentir saudades dele anos atrás, . — Não havia dor detrás da sua afirmação, apenas um vazio. A barwoman colocou a bebida na frente de , despercebida. A sede dele era por outra coisa. A expectativa, o olhar que dava para ela, o desejo dele era tão tangível e, ao mesmo tempo, era uma doença silenciosa que queria tomar o corpo dela. — Às vezes, tudo é só pesado demais.

Um momento de silêncio. apertou o vape entre os dedos, tentando resistir à vontade de tocá-la. Ele queria tanto que conseguia sentir as mãos tremendo. Odiava não poder, odiava estar em público e não ter uma marca dela para exibir.

— Aposto que é menos pesado quando você não tem que carregar um peso morto.

bufou, sem forças para negar aquela acusação. Para que, afinal? Era verdade. sempre sabia em qual ferida jogar o sal, e mesmo com boa intenção, não parava de doer.

— Tanto faz.

— Qual é, . — Ele grunhiu, irritado por ela não ver aquilo como ele via. Aquele idiota não a merecia. Ele só a usava. E não achava que era o tipo de cara que merecia alguém como , mas com certeza ele a trataria melhor do que aquele babaca. — Tudo que ele faz é comer o seu salário e tacar a bola no buraco errado. Ele...

A policial pareceu ter ouvido o suficiente, cansada de maneira bruta e enrolada com que jogava desejo e dor na cara dela.

— A conta, por favor? — pediu, sua voz educada quando virou para Sally e fez menção de se levantar.

— Não, não! — se intrometeu, segurando o pulso dela para impedir que fugisse por entre seus dedos. — Eu vou me comportar.

Ele murmurou. Machucava fisicamente dizer aquilo, mas valia a pena. O delegado não a via há duas semanas.

O toque das mãos calejadas dele pareceram amansar . Ela sorriu. Era pequeno, quase imperceptível, mas ele viu. Ele sempre via.

— Você nunca se comporta.

— E você se comporta demais, policial. — Seu sorriso foi polido em malícia, os olhos castanhos brilhantes. As entrelinhas eram claras: eu sou assim, mas você gosta.

O jeito que suspirou pesadamente e voltou a sentar do lado dele, um pouco perto demais para colegas e longe demais para amantes, confirmou que aquilo não era um delírio do sheriff.

E o sorriso que ele deu quando ela decidiu ficar foi o mais verdadeiro desde que ele entrou no bar.

A noite foi se desgastando através de conversas. continuava falando como um brutamontes do Sul Estadunidense, mas não abria novas feridas, bem domesticado.

tocava em todo tipo de assunto, ele tocava nela com uma ansiedade adolescente — dedos roçando, rosto perto suficiente para sentir a respiração, uma mão que encostava na coxa dela, um ombro que tocava no outro durante uma crise de riso, um dedo que se enrolava no cabelo quando ele fazia questão de elogiá-la daquele jeito brusco de novo.

E ela permitia. Em meio a olhares julgadores que deviam pertencer a igrejas, caretas que faziam mostrar ainda mais os dentes, bufos falsamente sem paciência, tentativas vãs de se afastar apenas para se ver ficando um pouquinho mais perto dele.

Outras pessoas chegaram ao bar nesse meio tempo. A menina com roupas curtas e olhos arregalados sempre preferia doses de shot; ela era jovem e queria se divertir mais do que qualquer coisa. Os olhos brilhantes escondiam um cansaço que só se via em décadas de vida, tão jovem e tão preocupada. Os shots de cachaça salvavam ela da ansiedade latente do que estava por vir.

O cara de blusa preta estava deslocado e ia pedir qualquer coisa com gin antes de voltar para a mesa com os colegas de trabalho. Talvez, no final da noite, ele tivesse conseguido se enturmar mais ou faria uma bagunça e culparia a bebida. Ele só precisava de um apoio e encontraria isso no copo.

Os que estavam à caça gostavam de Pitu, ficavam altos o suficiente para conseguirem chegar em garotas e aguentar os foras das indomáveis. Depois, bebiam beats para melhorar o gosto da língua. Eles só queriam não se sentirem sozinhos por uma noite e alimentarem o ego quebradiço.

A menina vestida de preto dos pés à cabeça bebia Whiskey como um velho. Ela não pedia gelo, não misturava com refrigerante. Era o gosto puro, forte, intoxicante. Ela aguentava. Observava as amigas embriagadas, conversava e ria, mas apenas com quem conhecia. Ela se mantinha em sua própria cabeça a maior parte do tempo, até uma das meninas tocar em seu ombro e puxá-la para longe dos seus próprios pensamentos. Ela bebeu mais um gole. Sem careta, sem reação. Devia estar acostumada à amargura.

Outra moça bebericava como um passarinho a cada copo da mesa. Ela ficava bêbada fácil e não arriscava um copo inteiro. Seu tom mudava de acordo com quem conversava. Ela queria que gostassem dela, queria se sentir livre, mas se prendia a gaiolas mentais. Insegurança? Medo? Mais um gole, pequeno e anestesiante.

Sally voltou sua atenção para seus clientes favoritos ao terminar de servir os drinks.

havia tomado um Dry Martini (bonito ao olho nu, mas com uma aspereza que poucos conseguiam aguentar até o final) e convencido de que ele gostaria de um Negroni (em um copo comum de whiskey, com um gosto que amargura, mas refrescava depois).

Ele havia provado, mas ela que terminou de beber e, minutos depois, ele estava roubando goladas do seu coquetel de morango com guarda-chuvinha rosa, um meio termo entre ambos. Eles arriscaram uma Cachaça Brasileira e Caipirinhas, parecendo mais eles e menos seus papéis a cada copo. Uma diversão, um gosto da possibilidade de um lugar para fugir quando o resto do mundo queria comê-los vivos.

Quando ela voltou sua atenção para o casal policial, havia pegado o vape de em algum momento, deixando o delegado parcialmente indignado. Eram 4 da manhã e a exaustava está pintada no rosto deles, tão óbvia quanto o desenho de uma criança com canetinha em uma parede branca.

— O cheiro nem é ruim. É de melancia. — Ele bufou, teimoso.

semicerrou os olhos: — Em que mundo isso tem cheiro de melancia?

— Tem o gosto de melancia. — tentou, braços cruzados, e Sally quis rir do quanto aqueles dois conseguiam testar os limites um do outro. — Você gosta de melancia. Não pode reclamar desse.

As feições da morena suavizaram. Era óbvio que o machão mudou o gostinho do cigarro eletrônico para uma fruta que ela gostava. A barista teve que segurar o riso e a vontade de revirar os olhos ao mesmo tempo. Enjoativamente doce, igual àquela fumaça.

— Você é um babaca — a policial disse, mas não tinha maldade esgueirada em suas palavras. O delegado fez um beicinho e ela pôde jurar que quase se inclinou e o beijou.

Em vez disso, a policial deslizou o vape de volta no bolso dele (Sally não queria pensar no tipo de reação que aquele homem teve com aquele tipo de toque, obrigada). seguiu o movimento como um cachorro bem-treinado, ansioso para conseguir algum afago, maravilhado por ela sequer tocá-lo.

E então, disse algo idiota.

— É melhor do que os cigarros que você fuma.

— Pelo menos são cigarros de verdade.

— Me desculpem, mas já vamos fechar — a bartender anunciou, com um olhar apologético, sentindo que estava desligando a televisão no meio de um episódio da sua sitcom favorita.

— Já? Que tipo de lugar fecha às... — ele arregalou os olhos ao checar o relógio — quatro da manhã. Certo. — levantou a cabeça, vestindo um sorriso arrogante ao encarar Sally. Lá vem, ela pensou, enquanto balançava a cabeça. — Que tal eu te pagar cem dólares para deixar a luzinha acesa por mais uma hora, hein?

— É sério? Você está subornando ela? — acusou, indignada com as ações do companheiro, mas não particularmente surpresa.

— Não é suborno, só um trato. — Ele deu de ombros.

— Você é um delegado, aja como tal.

— Eu estou, . — revirou os olhos, acostumado a brincar pulando a linha entre certo e errado. — Você que parece esquecer que é uma policial.

respirou fundo, se controlando para não gritar de frustração. Por que ela gostava tanto daquele idiota?

— As coisas não funcionam assim, — disse, em um tom de carão. — Não é o certo.

O delegado riu, olhando-a de cima a baixo antes de dizer:

— Tem muita coisa que não é certa e parece certa para caralho.

Ela o encarou, dividida entre estar atônita por quão direto ele era e pela raiva do que ele disse. acabou optando por outra saída, se virando para Sally com um sorriso educado.

— Desculpe pelo inconveniente. Já estamos de saída.

bufou no fundo, balbuciando algo sobre ela não ser divertida. Se a policial escutou, ela não respondeu.

— Sem problemas — a barista respondeu.

— Eu só vou ao banheiro — anunciou e deixou a bolsa no balcão, um lembrete de que ia voltar.

Assim que a morena saiu de vista, soltou um suspiro derrotado.

— Quanto deu a conta? — perguntou, apontando para si e a cadeira do lado.

— 89 dólares no total. — Ele assentiu, tirando uma bota de 100 da carteira e entregando para ela.

— Gorjeta inclusa.

— Obrigada.

Ele gesticulou com a mão, não resistindo à quietude por mais de dois minutos.

— A oferta ainda está de pé. — O delegado arqueou as sobrancelhas, sugestivo. — 200 dólares.

Sally tinha certeza de que se dissesse sim, ele aceitaria pagar até mil dólares por mais uma hora perto de . Uma pena que seu chefe a mataria.

— Tenho certeza de que a sua namorada vai brigar com você se eu aceitar.

— Ela não é minha namorada — murmurou, como uma criança birrenta, virando o rosto para onde estavam os banheiros, seguindo com o olhar enquanto ela voltava. — Ainda.

— Ainda o quê? — questionou, agora repousando ao lado dele.

— Ainda estamos aqui? Vamos embora. Eu tenho uma viagem de duas horas de volta para a Dakota do Norte, onde bares de verdade ficam abertos até às 6h — ele desconversou, dando uma rápida olhada para Sally.

Ela guardaria o segredo dele.

revirou os olhos. — Você pode ir embora. Eu tenho que pagar a conta e...

— O seu... — A barista pensou. Como esses dois se definiam? Amigos, amantes, algo pior? — Companheiro já pagou.

— Ah. — A morena piscou, surpresa. A policial virou para , tão tímida quanto uma adolescente. — Obrigada.

Ela já tinha esquecido como era ser cuidada, considerada de maneira tão natural assim.

— É o mínimo que um homem pode fazer — disse, um sorrisinho arrogante. — Talvez um dia o inútil do seu marido aprenda.

É, a barwoman concluiu, ele pode ter um bom coração, mas precisa manter a boca fechada.

— Última saideira — ela disse, pegando dois copinhos e uma garrafa de Escorrega. Despejou o líquido e empurrou para os dois.

Eles precisavam de uma despedida, ou de um acelerador. O gosto de Escorrega era singular o suficiente para arder na língua e ainda ser apreciado. O equilíbrio entre o forte e o sútil, o bom e o ruim. Qual a diferença entre fins e começos mesmo?

— Obrigada — agradeceu, e acenou com a cabeça em concordância. Quando os dois andaram até a porta, ele hesitou por um segundo antes de colocar as mãos nas costas dela.

E ela deixou.

Sally riu, balançando a cabeça.

Algumas pessoas são mais complicadas do que um pedido simples. Algumas pessoas bebem o cardápio inteiro porque não conseguem colocar a boca na única coisa que realmente querem. Como bartender, o trabalho dela era fácil. Dava para saber o que um cliente queria só de observá-lo. Mas e quando o que ele precisava não estava no cardápio?

Ela suspirou. Já tinha casca grossa para a maioria das histórias de bar. Todavia, uma romântica incurável, ainda sentia um pouco de dor ao pensar que saiu segurando as chaves do próprio carro. Eles pareciam uma bagunça, mas uma que tentava abrir espaço um para o outro. Sally torcia por aqueles dois pelo pouco que tinha visto.

Quando saiu pela porta da frente, trancando o estabelecimento e acenando tchau para os companheiros de trabalho, só havia cinco carros no estacionamento. O vermelho de Anne, o preto de Emmett, o seu velho corolla, um carro da polícia de Minnesota, e uma caminhonete com a placa da Dakota do Norte.

O sol começava a melar as nuvens de laranja. Sally andou até seu carro, estacionado ao lado da caminhonete. Ela não conseguiu evitar uma espiada, um leve olhar para o lado, tão rápido que só poderia ser um acidente.

e estavam no banco de trás. Ela estava com a cabeça deitada no ombro dele, sua mão descansando acima do peito do delegado, brincando com o distintivo entre os dedos. , por sua vez, tinha o nariz enterrado no cabelo dela, olhos fechados como se apreciasse a raridade que era um toque gentil, uma das mãos enroladas na cintura da policial, um claro aviso de que não a deixaria ir embora tão cedo.

O sol ficava mais teimoso, se espreguiçava, abria espaço. O cheiro de manhã pairava pelo ar, uma cortesia da padaria no final da rua.

Contente pelo destino decidir amansar sua curiosidade sobre aqueles dois, Sally abriu a porta do seu carro. Ela assistiu pelo retrovisor enquanto se afastava do bar, do jeito que alguém vê a última cena de um filme que acaba bem.

A maior parte da noite, a bartender sentiu que estava vislumbrando a janela de um vizinho. Como se estivesse vendo trechos de um livro que nunca leu, chegando no meio da história. E, ainda assim, estava cativada pelas pessoas. Por seus anseios. O querer que eles tinham um pelo outro.

Ainda parecia complicado, ainda parecia pesado, o que quer que eles tivessem. Mas era real, e isso era o suficiente para dar esperança de que talvez desse certo.


FIM


Nota da autora: Mais uma história desses dois! Mas dessa vez é o Especial de um ano do site! Quem diria? Eu ainda me lembro de quando soube que ele ia ser lançado e agora o versinho já tem um ano. E eu tinha que comemorar com uma short por quem sou doida. Se você quiser ler mais sobre esse casal, você pode dar uma olhada nas seguintes histórias:

Homens de Verdade (Não) Fazem Isso — Hot, Shortfic.

O Rottweiler De Gravata Rosa — Doguinho juntando o casal, Shortfic.

Espero que gostem e comentem!

E, é claro, feliz aniversário, Versinho! Vamos abrir uma garrafa de Champanhe.

🪐



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Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


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