1.
Cannes, França — maio
Meu coração parecia bater em sintonia com a salva de palmas que há minutos tomava conta da sala de cinema.
Por um lado, o barulho longo e ensurdecedor era um bom sinal: se o público tinha gostado do filme tanto assim, isso lhe dava grandes chances de concorrer à Palma de Ouro e aos outros prêmios do Festival de Cannes.
Por outro, me deixava ainda mais nervosa. Logo, os olhos daquela multidão estariam em mim.
Quer dizer, não exatamente em mim.
Em teoria, como intérprete, eu não era o centro das atenções. Eu precisaria estar em cena, é claro, mas para traduzir o que o diretor Lee e o elenco de Restless Harmony tinham a dizer sobre o filme para o mundo — um mundo que, muitas vezes, não costumava sair da própria bolha com relação ao tipo de cultura que consumia.
Na prática?
Mal conseguia puxar o ar pelos pulmões. Sentia como se todos os holofotes estivessem focados em mim.
Forcei mais uma inspiração do meu assento no meio do palco, bem ao lado do diretor e de Park Bogum, a principal estrela do filme. Se tinha alguém mais nervoso do que eu nesse momento, apostaria que era ele. No fim das contas, era sua grande estreia no cenário internacional depois de conquistar os fãs do cinema e dos dramas coreanos.
Eu tinha me preparado minuciosamente, pesquisado tudo o que podia para traduzir cada uma de suas respostas. Não podia e nem queria fazer feio. Mais até do que da grana, eu precisava desse emprego. Era tudo sobre conexões: estar ali, no meio de tanta gente importante, era o caminho mais rápido para me inserir nesse universo — e, quem sabe, chegar até alguma sala de roteiro importante.
Tentava não amassar o caderno que apertava em uma das mãos, a caneta já a postos para entrar em ação assim que a primeira pergunta viesse. Procurei Jimin na plateia, um dos poucos rostos conhecidos naquele turbilhão. Minha amiga acenou para mim e sorriu encorajadora antes de se esconder atrás do telefone, provavelmente gravando mais alguns takes daquele momento para postar nas redes sociais do filme mais tarde.
Quando os aplausos começaram a diminuir, alguém passou um microfone para o diretor Lee, e o movimento me trouxe de volta à realidade.
Era minha deixa.
O bate-e-volta de perguntas passou por mim como um borrão, talvez pelo misto do foco com o nervosismo. A única certeza que tive foi a de que meu coração não desacelerou nem por um minuto.
Só consegui voltar a mim quando desci do palco depois última pergunta, quando o diretor Lee colocou uma das mãos no meu ombro e disse:
— Teremos um longo caminho até o Oscar no ano que vem, . Esteja preparada, sim?
Bingo.
🎬
Tudo nessa experiência parecia surreal, incluindo a vista do restaurante na Boulevard de la Croisette em que estávamos. A produção tinha escolhido o lugar a dedo para celebrar a estreia e o bom desempenho do filme no Festival, de frente para as palmeiras que decoravam a orla. Precisava agradecer minha amiga depois — fora ela tinha me indicado como intérprete para os produtores.
Depois de um brinde regado à champanhe, cercada de tanta gente importante, eu era capaz de sair flutuando por aí. Peguei minha taça e fui até a varanda para tomar um ar, buscando voltar a mim.
Inspirei fundo e soltei o ar, marcando a brisa e o cheiro do mar na minha memória, mas logo ouvi alguns passos pelo deque de madeira. Pelo visto, não era a única que precisava de um minuto a sós.
— Olha só, é o homem do momento! — brinquei quando reconheci a figura de Park Bogum, que se aproximou e parou ao meu lado. Que intimidade é essa, sua doida?, questionou meu próprio filtro. Talvez a bebida já tivesse mesmo subido à minha cabeça.
— Ah, para com isso — respondeu ele, erguendo a taça em minha direção. Sorri com a reação e encostei minha taça na dele, brindando. — Todo mundo trabalhou muito no filme, até você. Na coletiva hoje e tudo o mais. Você foi muito bem.
— Obrigada. Foi uma das primeiras vezes que participei de uma coletiva desse tamanho, sabia? — confessei depois de tomar um gole da minha própria bebida. — Das próximas vezes, vai ser melhor. Mais rápido.
— Das próximas vezes, hein?
— Você e o filme ganharam a competição principal de Cannes — relembrei. — Se tudo der certo, vocês vão para o Globo de Ouro, e então o Oscar e aí...
— Gosto do jeito que você pensa. — Ele hesitou antes de continuar e suspirou, o olhar fixo na paisagem. — É só... muita coisa para se acostumar de uma vez só. Achei que já saberia como é, mas furar essa bolha me faz sentir como se tudo fosse novo outra vez.
Olhei para o horizonte, com os barquinhos flutuando na água ao longe contra o a luz do fim de tarde. Ficamos ali os dois, em silêncio. Um momento de paz, enquanto tanta coisa acontecia ao mesmo tempo. Talvez, no fim do dia, não fôssemos tão diferentes assim.
— Eu... acho que te entendo. — Ouvi minha própria voz quebrar a calmaria. O que ele tinha que tornava tão fácil de se abrir perto dele?
Bogum olhou para mim, os olhos um pouco arregalados.
— Quer dizer, eu sou uma aspirante à roteirista e você é uma estrela global — acrescentei rapidamente antes de me esconder atrás de outro gole. — Não imaginava mesmo que ia estar aqui.
— Poliglota, intérprete e roteirista, é? — ele enumerou com a mão livre. — Me conta mais sobre isso.
Foi minha vez de arregalar os olhos.
— Realmente quer saber sobre isso?
O Park Bogum? Querendo saber mais sobre a minha vida?
— Hm. — Ele assentiu. — Você mesma disse, srta. . Próximas vezes, lembra? Não custa nada nos darmos bem.
Bem, se ele estava dizendo...
— Na verdade, eu trabalho com as duas coisas, né? Tenho contas para pagar — respondi com um sorriso. — Mas é esse o plano. Preciso começar de algum lugar.
— E você não teria nada a mão aí para eu dar uma olhada agora, teria? — perguntou ele com olhos semicerrados.
— Deus, não! — Neguei com a cabeça. — Quer dizer, você é o Park Bogum e eu adoraria que algum dia você lesse um roteiro meu, mas não desse jeito. Sou uma profissional, sabia?
— Ah, que bom! — Ele levou as mãos ao peito, suspirando de um jeito dramático que me fez soltar outra gargalhada. — Vai que essa era uma emboscada e eu tinha caído direitinho na sua armadilha.
Qualquer receio que eu tivesse parecia ter evaporado. Ele era bom ouvinte, tinha senso de humor e sabia manter a conversa. Talvez realmente o próximo ano trouxesse boas coisas para nós dois.
O barulho de dentro do restaurante chegou até nós, roubando nossa atenção. O rosto vermelho do diretor Lee estava na porta.
— Bogum, venha cá! Queremos um discurso seu! — ele pediu, chamando-o com uma das mãos. Dava para ouvir o resto da equipe vibrando do lado de dentro.
Ele deu mais um gole na bebida, tentando abafar uma risadinha.
— E essa é minha deixa — disse ele, me lançando uma piscadinha antes de sair.
🎬
Meu celular continuava a vibrar insistentemente na cômoda. Sonolenta, tateei pelo móvel até alcançar o aparelho, preparada para desligá-lo de uma vez. Era cedo demais para acordar. Todo mundo tinha ganhado uma manhã de folga depois da noite de ontem e eu pretendia aproveitá-la ao máximo no quarto de hotel e na praia.
Por isso, estranhei a quantidade de mensagens de Jimin que subiam pela tela. Ela prometia que tudo ia ficar bem e me pedia para ligar para ela assim que acordasse. Mas o que...
Cliquei no primeiro link que apareceu no chat.
EXCLUSIVO: Park Bogum é flagrado com mulher misteriosa em Cannes!
O celular escapou dos meus dedos trêmulos, caindo no chão com um barulho alto. O som me trouxe de volta o suficiente para me abaixar, resgatar o aparelho e conferir o estado da tela antes de olhar novamente. Abri o próximo link.
Park Bogum em Cannes: o queridinho dos k-dramas conquista corações na Riviera Francesa
O quê?! Em que momento isso poderia ter acontecido? Quer dizer, o cara vinha de uma indústria que prezava por uma imagem perfeita. Mal tinha saído do hotel durante o Festival ou falado com alguém que não fosse da equipe.
Não tinha como voltar a dormir depois dessa.
Parei para analisar o artigo com um pouco mais de atenção, dando uma olhada nas imagens. Mesmo com a qualidade baixa, típica de fotos tiradas com muito zoom, reconheci o vestido da mulher ao lado dele. Gelei.
Era o mesmo que eu usei ontem à noite no restaurante.
Olhei para a cadeira no canto do quarto, onde a peça de roupa estava prestes a cair do encosto. Eu a tinha jogado ali de qualquer jeito quando cheguei do jantar.
Essa não.
Tudo começava a se encaixar na minha memória. O brinde, a conversa na varanda, Park Bogum olhando diretamente para mim enquanto conversávamos.
Meu estômago embrulhou.
Variações das fotos e da mesma chamada passavam pelos meus olhos em quanto eu abria os links e posts que chegavam até mim. Em algum momento, esbarrei em um comunicado oficial da empresa de Bogum. Não consegui processar muita coisa do que dizia, apenas o “é difícil confirmar detalhes da vida pessoal do artista”, típico desse tipo de pronunciamento.
Eu não deveria estar ali. Não deveria ser notícia. Era questão de tempo — horas, talvez até minutos — descobrirem meu nome, quem eu era e o que fazia da vida. Minha respiração parecia ter travado dentro do peito.
Logo, outra notificação subiu na tela.
Pode vir até a sala de reuniões do hotel às 10h? Gostaríamos de conversar com você.
Era do Sr. Kim, o principal produtor executivo do filme.
Meu chefe.
🎬
Decidi entrar na sala como quem arrancava um band-aid: o mais rápido possível, porque o processo iria doer de qualquer jeito.
Suspirei derrotada. Bem que diziam que o que era bom durava pouco.
Com o rosto abaixado, reuni o máximo de coragem que tinha para abrir a porta e cumprimentar meu chefe para começar aquela tragédia. Mas mais vozes me responderam.
— Sr. Park? — perguntei quando levantei os olhos. O que ele estava fazendo ali? E... — Jimin? Você tá aqui também?
Que ótimo. Agora, não só eu seria demitida, como também teria uma plateia para aquele show de horrores: a amiga que tanto tinha confiado em mim e o sr. Homem do Momento, a principal estrela do filme.
— Não viu minhas mensagens? — perguntou minha amiga do seu lugar na mesa. Seu sorriso era educado, mas não chegava até os olhos.
— Só as primeiras — respondi, me envolvendo com os próprios braços ao sentar. — Eu desliguei o celular depois... Depois que o Sr. Kim me pediu para vir até aqui.
Ela assentiu, compreensão pintando os traços seu rosto.
— Bom, acho que podemos começar — disse o Sr. Kim. — Acho que você já deve saber o motivo de estarmos aqui, Srta. .
Assenti.
— Eu sinto muito, Sr. Kim, de verdade — comecei. Quanto mais rápido começasse, mais rápido terminaria. — Eu... devia ter tomado mais cuidado. Obviamente, não é nada verdade, tenho certeza que o Sr. Park já deve ter dito isso. De toda forma, sou grata pela experiência. Se já tiverem outra pessoa em mente, posso passar meu material—
— Espere, Srta. — o produtor me interrompeu com um gesto da mão. — Nós não estamos aqui para tratar de uma demissão.
Uma pontinha de esperança aqueceu o meu corpo.
— Então... eu não me ferrei? — perguntei em busca de confirmação.
— Na verdade, queríamos te fazer uma proposta — seguiu ele, gesticulando para Jimin. — Por favor, srta. Yoo.
Ela parecia até mesmo... um pouco sem graça? O que estava acontecendo aqui?
— Então... — Jimin engoliu em seco e colocou seu tablet na mesa entre nós. — Você viu as notícias, mas... o que rolou foi justamente o contrário do que a gente esperava. O público amou, .
Minha amiga abriu um arquivo no aparelho, que se iluminou com uma série de gráficos e palavras coloridas.
— As procuras pelo filme e o nome do Bogum aumentaram em quase 150% desde que saíram as fotos. Parece até que aumentaram as pré-vendas de ingresso, mas ainda não tenho dados oficiais sobre isso — explicou, mudando a imagem na tela. — Dei uma olhada nas redes sociais e boa parte do público está bem positiva. Você tem até edits, olha só!
Um vídeo começou a tocar: um compilado de cortes meus durante a coletiva ao som de “Whiplash” do Aespa. Eu tinha certeza de que a transmissão não tinha focado tanto assim em mim, então tinham feito um milagre com minhas poucas palavras, sorrisos tímidos e até o momento que joguei o cabelo para trás do ombro.
Eu parecia... importante. Bonita. Interessante, até.
— Mas, espera, se eu não rodei, o que exatamente vocês querem de mim? — Busquei os olhares dos três. Meu chefe me encarava com um grande sorriso, enquanto Jimin e o Sr. Park mantinham os rostos baixos. O Sr. Kim gesticulou mais uma vez para minha amiga, incentivando-a a continuar.
— A produção quer te propor... um namoro falso — anunciou ela devagar, com os olhos ainda presos à mesa. — Com o Sr. Park Bogum.
O quê?
— Espera, eu acho que não entendi direito. Pode repetir? — insisti.
Minha amiga procurou alguma forma de consolo no ator ao seu lado, que suspirou.
— É isso mesmo, Srta . — Bogum se pronunciou, finalmente olhando para mim. — A gente quer... eu... quero saber se você topa... ser minha namorada de mentira.
Meu corpo parecia ter travado. Talvez até tivesse parado de respirar. Era uma pegadinha, era a única explicação possível.
Senti que passaram minutos, horas até alguém falar algo novamente.
— Considerando a reação do público, o time de marketing e a produção acham que realmente pode ajudar a campanha do filme — explicou o ator. — Parece que ele estourou a bolha. E se estivermos na mente do pessoal...
— Aumentam as chances de verem o filme — completei.
— E consequentemente de indicarem o filme e os atores quando chegar a hora — acrescentou o sr. Lee com um grande sorriso. Então era sobre isso, no fim das contas. — Caso você aceite, estamos dispostos a dobrar seu pagamento. Claro, você continuaria...
Não registrei as outras palavras que saíram da boca dele. Só ouvia o bater do meu coração nos ouvidos. Parecia que eu ia sufocar a qualquer momento.
— Eu acho que preciso de um ar — anunciei antes de me levantar e sair dali o mais rápido possível.
🎬
O quarto de hotel parecia ser o único lugar que não ia me engolir naquela cidade. Se eu mantivesse meu celular desligado, talvez pudesse fingir que tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto. Ou um pesadelo. O que acabasse primeiro.
As batidas na porta me trouxeram de volta à realidade, mas minhas pernas se recusavam a sair da cama para conferir. Não precisava de mais visitas ou surpresas por hoje.
O barulho se repetiu uma e, então, duas vezes.
— Srta. , sou eu. — Veio a voz de Bogum do outro lado. — Podemos conversar?
Ele só podia estar de sacanagem com a minha cara.
— Me desculpa pela... — ele começou assim que entreabri a porta.
— Pela cilada? — disparei, parcialmente escondida pela madeira. — Vocês me encurralaram. Acharam que a Jimin me dar a notícia ia suavizar alguma coisa?
— Sua amiga não tem culpa — ele rebateu. — Talvez os caras de cima realmente quisessem a Srta. Yoo lá por esse motivo, mas ela só fez o que pediram.
Eu bufei. Eu ia era bater a porta na cara dele, isso sim.
— Me deixa entrar — tentou ele outra vez, colocando a mão entre a porta e o batente. — Quero me desculpar. Nada daquilo foi legal. E, se mesmo assim você quiser me mandar embora, eu vou.
Eu já não tinha muito mais a perder. Dei passagem e cruzei os braços.
— Você tem dez minutos, Sr. Park.
Bogum se sentou na cadeira no canto do quarto. Seu corpo estava inclinado para a frente, o olhar fixo nas mãos entrelaçadas em seu colo. Ele respirou fundo.
— Olha, também achei estranho sugerirem um namoro falso — revelou ele depois de alguns momentos. — Nunca passei por isso antes. Mas, no fim do dia, faz parte do trabalho.
— É o que você pensa disso tudo? — Minha voz aumentou um tom. — Me meter em um namoro falso é trabalho?
— Droga, tudo que eu falo vai parecer errado — ele negou com a cabeça. — É que... as regras do jogo em Hollywood são diferentes. E, concordando ou não, tenho que jogar para ganhar. Não acho que proporiam isso se não acreditassem que vai dar certo.
— Você parece calmo até demais com isso — notei quando sentei na ponta da cama, bem de frente para ele.
— Acredite, eu também esperava outra reação — ele completou, coçando o pescoço. — Não é como se meu nome não tivesse aparecido em um ou outro rumor de namoro por aí ao longo dos anos. Mas, como disse, as regras do jogo são diferentes aqui.
Ele finalizou com um suspiro, virando o rosto para procurar a janela do quarto.
— Houve um tempo em que eu nem sonhava em estar aqui. Sou muito grato a todos que me apoiaram, mas preciso pensar primeiro em mim. No que eu quero pra minha carreira.
As palavras ecoaram em mim, dividindo o espaço com o meu próprio turbilhão de emoções. Bem lá no fundo, em meio a toda a minha raiva e tristeza, começava a crescer um pouco de compreensão.
Bogum olhou para mim novamente, sem desviar dessa vez.
— Se estiver tudo bem por você, eu acho que vale a pena tentar — disse ele. — Não precisa ser mais do que isso: trabalho.
— Tenho medo. Do que isso pode mudar na minha vida — confessei baixinho. — É um mundo pequeno. Parte do motivo de eu ter aceitado o emprego de intérprete era me inserir nele.
— Eu entendo. Mas, sabe, nessa indústria, aprendi que tudo é sempre a maior notícia de todos os tempos até surgir uma outra na próxima semana.
A tentativa de me reconfortar me fez rir.
— Você tem um argumento muito bom — comentei, a voz ainda sem emoção.
Ele levantou da cadeira e se sentou perto de mim, apoiando as mãos ao lado de si na cama.
— Eu sinto muito, de verdade. Não queria que as coisas tivessem tomado esse rumo.
— Eu ‘tô em uma grande saia justa agora, você sabe, certo? — Ele assentiu. — É uma aposta muito arriscada. Tem tanta gente envolvida nisso...
— Eu sei. E, de novo, não queria te colocar nessa situação. Mas vou fazer o meu melhor para nós dois tirarmos algo dessa bagunça.
Estava ali o tão esperado pedido de desculpas, mas que mais parecia uma promessa no meio daquele caos. A resposta já tinha começado a se formar dentro de mim.
— Tudo bem, eu vou confiar em você. — Os olhos dele pareceram brilhar com a resposta. Ergui um dedo em sua direção. — Mas eu quero o triplo do valor.
🎬
Por um lado, o barulho longo e ensurdecedor era um bom sinal: se o público tinha gostado do filme tanto assim, isso lhe dava grandes chances de concorrer à Palma de Ouro e aos outros prêmios do Festival de Cannes.
Por outro, me deixava ainda mais nervosa. Logo, os olhos daquela multidão estariam em mim.
Quer dizer, não exatamente em mim.
Em teoria, como intérprete, eu não era o centro das atenções. Eu precisaria estar em cena, é claro, mas para traduzir o que o diretor Lee e o elenco de Restless Harmony tinham a dizer sobre o filme para o mundo — um mundo que, muitas vezes, não costumava sair da própria bolha com relação ao tipo de cultura que consumia.
Na prática?
Mal conseguia puxar o ar pelos pulmões. Sentia como se todos os holofotes estivessem focados em mim.
Forcei mais uma inspiração do meu assento no meio do palco, bem ao lado do diretor e de Park Bogum, a principal estrela do filme. Se tinha alguém mais nervoso do que eu nesse momento, apostaria que era ele. No fim das contas, era sua grande estreia no cenário internacional depois de conquistar os fãs do cinema e dos dramas coreanos.
Eu tinha me preparado minuciosamente, pesquisado tudo o que podia para traduzir cada uma de suas respostas. Não podia e nem queria fazer feio. Mais até do que da grana, eu precisava desse emprego. Era tudo sobre conexões: estar ali, no meio de tanta gente importante, era o caminho mais rápido para me inserir nesse universo — e, quem sabe, chegar até alguma sala de roteiro importante.
Tentava não amassar o caderno que apertava em uma das mãos, a caneta já a postos para entrar em ação assim que a primeira pergunta viesse. Procurei Jimin na plateia, um dos poucos rostos conhecidos naquele turbilhão. Minha amiga acenou para mim e sorriu encorajadora antes de se esconder atrás do telefone, provavelmente gravando mais alguns takes daquele momento para postar nas redes sociais do filme mais tarde.
Quando os aplausos começaram a diminuir, alguém passou um microfone para o diretor Lee, e o movimento me trouxe de volta à realidade.
Era minha deixa.
O bate-e-volta de perguntas passou por mim como um borrão, talvez pelo misto do foco com o nervosismo. A única certeza que tive foi a de que meu coração não desacelerou nem por um minuto.
Só consegui voltar a mim quando desci do palco depois última pergunta, quando o diretor Lee colocou uma das mãos no meu ombro e disse:
— Teremos um longo caminho até o Oscar no ano que vem, . Esteja preparada, sim?
Bingo.
Tudo nessa experiência parecia surreal, incluindo a vista do restaurante na Boulevard de la Croisette em que estávamos. A produção tinha escolhido o lugar a dedo para celebrar a estreia e o bom desempenho do filme no Festival, de frente para as palmeiras que decoravam a orla. Precisava agradecer minha amiga depois — fora ela tinha me indicado como intérprete para os produtores.
Depois de um brinde regado à champanhe, cercada de tanta gente importante, eu era capaz de sair flutuando por aí. Peguei minha taça e fui até a varanda para tomar um ar, buscando voltar a mim.
Inspirei fundo e soltei o ar, marcando a brisa e o cheiro do mar na minha memória, mas logo ouvi alguns passos pelo deque de madeira. Pelo visto, não era a única que precisava de um minuto a sós.
— Olha só, é o homem do momento! — brinquei quando reconheci a figura de Park Bogum, que se aproximou e parou ao meu lado. Que intimidade é essa, sua doida?, questionou meu próprio filtro. Talvez a bebida já tivesse mesmo subido à minha cabeça.
— Ah, para com isso — respondeu ele, erguendo a taça em minha direção. Sorri com a reação e encostei minha taça na dele, brindando. — Todo mundo trabalhou muito no filme, até você. Na coletiva hoje e tudo o mais. Você foi muito bem.
— Obrigada. Foi uma das primeiras vezes que participei de uma coletiva desse tamanho, sabia? — confessei depois de tomar um gole da minha própria bebida. — Das próximas vezes, vai ser melhor. Mais rápido.
— Das próximas vezes, hein?
— Você e o filme ganharam a competição principal de Cannes — relembrei. — Se tudo der certo, vocês vão para o Globo de Ouro, e então o Oscar e aí...
— Gosto do jeito que você pensa. — Ele hesitou antes de continuar e suspirou, o olhar fixo na paisagem. — É só... muita coisa para se acostumar de uma vez só. Achei que já saberia como é, mas furar essa bolha me faz sentir como se tudo fosse novo outra vez.
Olhei para o horizonte, com os barquinhos flutuando na água ao longe contra o a luz do fim de tarde. Ficamos ali os dois, em silêncio. Um momento de paz, enquanto tanta coisa acontecia ao mesmo tempo. Talvez, no fim do dia, não fôssemos tão diferentes assim.
— Eu... acho que te entendo. — Ouvi minha própria voz quebrar a calmaria. O que ele tinha que tornava tão fácil de se abrir perto dele?
Bogum olhou para mim, os olhos um pouco arregalados.
— Quer dizer, eu sou uma aspirante à roteirista e você é uma estrela global — acrescentei rapidamente antes de me esconder atrás de outro gole. — Não imaginava mesmo que ia estar aqui.
— Poliglota, intérprete e roteirista, é? — ele enumerou com a mão livre. — Me conta mais sobre isso.
Foi minha vez de arregalar os olhos.
— Realmente quer saber sobre isso?
O Park Bogum? Querendo saber mais sobre a minha vida?
— Hm. — Ele assentiu. — Você mesma disse, srta. . Próximas vezes, lembra? Não custa nada nos darmos bem.
Bem, se ele estava dizendo...
— Na verdade, eu trabalho com as duas coisas, né? Tenho contas para pagar — respondi com um sorriso. — Mas é esse o plano. Preciso começar de algum lugar.
— E você não teria nada a mão aí para eu dar uma olhada agora, teria? — perguntou ele com olhos semicerrados.
— Deus, não! — Neguei com a cabeça. — Quer dizer, você é o Park Bogum e eu adoraria que algum dia você lesse um roteiro meu, mas não desse jeito. Sou uma profissional, sabia?
— Ah, que bom! — Ele levou as mãos ao peito, suspirando de um jeito dramático que me fez soltar outra gargalhada. — Vai que essa era uma emboscada e eu tinha caído direitinho na sua armadilha.
Qualquer receio que eu tivesse parecia ter evaporado. Ele era bom ouvinte, tinha senso de humor e sabia manter a conversa. Talvez realmente o próximo ano trouxesse boas coisas para nós dois.
O barulho de dentro do restaurante chegou até nós, roubando nossa atenção. O rosto vermelho do diretor Lee estava na porta.
— Bogum, venha cá! Queremos um discurso seu! — ele pediu, chamando-o com uma das mãos. Dava para ouvir o resto da equipe vibrando do lado de dentro.
Ele deu mais um gole na bebida, tentando abafar uma risadinha.
— E essa é minha deixa — disse ele, me lançando uma piscadinha antes de sair.
Meu celular continuava a vibrar insistentemente na cômoda. Sonolenta, tateei pelo móvel até alcançar o aparelho, preparada para desligá-lo de uma vez. Era cedo demais para acordar. Todo mundo tinha ganhado uma manhã de folga depois da noite de ontem e eu pretendia aproveitá-la ao máximo no quarto de hotel e na praia.
Por isso, estranhei a quantidade de mensagens de Jimin que subiam pela tela. Ela prometia que tudo ia ficar bem e me pedia para ligar para ela assim que acordasse. Mas o que...
Cliquei no primeiro link que apareceu no chat.
EXCLUSIVO: Park Bogum é flagrado com mulher misteriosa em Cannes!
O celular escapou dos meus dedos trêmulos, caindo no chão com um barulho alto. O som me trouxe de volta o suficiente para me abaixar, resgatar o aparelho e conferir o estado da tela antes de olhar novamente. Abri o próximo link.
O quê?! Em que momento isso poderia ter acontecido? Quer dizer, o cara vinha de uma indústria que prezava por uma imagem perfeita. Mal tinha saído do hotel durante o Festival ou falado com alguém que não fosse da equipe.
Não tinha como voltar a dormir depois dessa.
Parei para analisar o artigo com um pouco mais de atenção, dando uma olhada nas imagens. Mesmo com a qualidade baixa, típica de fotos tiradas com muito zoom, reconheci o vestido da mulher ao lado dele. Gelei.
Era o mesmo que eu usei ontem à noite no restaurante.
Olhei para a cadeira no canto do quarto, onde a peça de roupa estava prestes a cair do encosto. Eu a tinha jogado ali de qualquer jeito quando cheguei do jantar.
Essa não.
Tudo começava a se encaixar na minha memória. O brinde, a conversa na varanda, Park Bogum olhando diretamente para mim enquanto conversávamos.
Meu estômago embrulhou.
Variações das fotos e da mesma chamada passavam pelos meus olhos em quanto eu abria os links e posts que chegavam até mim. Em algum momento, esbarrei em um comunicado oficial da empresa de Bogum. Não consegui processar muita coisa do que dizia, apenas o “é difícil confirmar detalhes da vida pessoal do artista”, típico desse tipo de pronunciamento.
Eu não deveria estar ali. Não deveria ser notícia. Era questão de tempo — horas, talvez até minutos — descobrirem meu nome, quem eu era e o que fazia da vida. Minha respiração parecia ter travado dentro do peito.
Logo, outra notificação subiu na tela.
Pode vir até a sala de reuniões do hotel às 10h? Gostaríamos de conversar com você.
Era do Sr. Kim, o principal produtor executivo do filme.
Meu chefe.
Decidi entrar na sala como quem arrancava um band-aid: o mais rápido possível, porque o processo iria doer de qualquer jeito.
Suspirei derrotada. Bem que diziam que o que era bom durava pouco.
Com o rosto abaixado, reuni o máximo de coragem que tinha para abrir a porta e cumprimentar meu chefe para começar aquela tragédia. Mas mais vozes me responderam.
— Sr. Park? — perguntei quando levantei os olhos. O que ele estava fazendo ali? E... — Jimin? Você tá aqui também?
Que ótimo. Agora, não só eu seria demitida, como também teria uma plateia para aquele show de horrores: a amiga que tanto tinha confiado em mim e o sr. Homem do Momento, a principal estrela do filme.
— Não viu minhas mensagens? — perguntou minha amiga do seu lugar na mesa. Seu sorriso era educado, mas não chegava até os olhos.
— Só as primeiras — respondi, me envolvendo com os próprios braços ao sentar. — Eu desliguei o celular depois... Depois que o Sr. Kim me pediu para vir até aqui.
Ela assentiu, compreensão pintando os traços seu rosto.
— Bom, acho que podemos começar — disse o Sr. Kim. — Acho que você já deve saber o motivo de estarmos aqui, Srta. .
Assenti.
— Eu sinto muito, Sr. Kim, de verdade — comecei. Quanto mais rápido começasse, mais rápido terminaria. — Eu... devia ter tomado mais cuidado. Obviamente, não é nada verdade, tenho certeza que o Sr. Park já deve ter dito isso. De toda forma, sou grata pela experiência. Se já tiverem outra pessoa em mente, posso passar meu material—
— Espere, Srta. — o produtor me interrompeu com um gesto da mão. — Nós não estamos aqui para tratar de uma demissão.
Uma pontinha de esperança aqueceu o meu corpo.
— Então... eu não me ferrei? — perguntei em busca de confirmação.
— Na verdade, queríamos te fazer uma proposta — seguiu ele, gesticulando para Jimin. — Por favor, srta. Yoo.
Ela parecia até mesmo... um pouco sem graça? O que estava acontecendo aqui?
— Então... — Jimin engoliu em seco e colocou seu tablet na mesa entre nós. — Você viu as notícias, mas... o que rolou foi justamente o contrário do que a gente esperava. O público amou, .
Minha amiga abriu um arquivo no aparelho, que se iluminou com uma série de gráficos e palavras coloridas.
— As procuras pelo filme e o nome do Bogum aumentaram em quase 150% desde que saíram as fotos. Parece até que aumentaram as pré-vendas de ingresso, mas ainda não tenho dados oficiais sobre isso — explicou, mudando a imagem na tela. — Dei uma olhada nas redes sociais e boa parte do público está bem positiva. Você tem até edits, olha só!
Um vídeo começou a tocar: um compilado de cortes meus durante a coletiva ao som de “Whiplash” do Aespa. Eu tinha certeza de que a transmissão não tinha focado tanto assim em mim, então tinham feito um milagre com minhas poucas palavras, sorrisos tímidos e até o momento que joguei o cabelo para trás do ombro.
Eu parecia... importante. Bonita. Interessante, até.
— Mas, espera, se eu não rodei, o que exatamente vocês querem de mim? — Busquei os olhares dos três. Meu chefe me encarava com um grande sorriso, enquanto Jimin e o Sr. Park mantinham os rostos baixos. O Sr. Kim gesticulou mais uma vez para minha amiga, incentivando-a a continuar.
— A produção quer te propor... um namoro falso — anunciou ela devagar, com os olhos ainda presos à mesa. — Com o Sr. Park Bogum.
O quê?
— Espera, eu acho que não entendi direito. Pode repetir? — insisti.
Minha amiga procurou alguma forma de consolo no ator ao seu lado, que suspirou.
— É isso mesmo, Srta . — Bogum se pronunciou, finalmente olhando para mim. — A gente quer... eu... quero saber se você topa... ser minha namorada de mentira.
Meu corpo parecia ter travado. Talvez até tivesse parado de respirar. Era uma pegadinha, era a única explicação possível.
Senti que passaram minutos, horas até alguém falar algo novamente.
— Considerando a reação do público, o time de marketing e a produção acham que realmente pode ajudar a campanha do filme — explicou o ator. — Parece que ele estourou a bolha. E se estivermos na mente do pessoal...
— Aumentam as chances de verem o filme — completei.
— E consequentemente de indicarem o filme e os atores quando chegar a hora — acrescentou o sr. Lee com um grande sorriso. Então era sobre isso, no fim das contas. — Caso você aceite, estamos dispostos a dobrar seu pagamento. Claro, você continuaria...
Não registrei as outras palavras que saíram da boca dele. Só ouvia o bater do meu coração nos ouvidos. Parecia que eu ia sufocar a qualquer momento.
— Eu acho que preciso de um ar — anunciei antes de me levantar e sair dali o mais rápido possível.
O quarto de hotel parecia ser o único lugar que não ia me engolir naquela cidade. Se eu mantivesse meu celular desligado, talvez pudesse fingir que tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto. Ou um pesadelo. O que acabasse primeiro.
As batidas na porta me trouxeram de volta à realidade, mas minhas pernas se recusavam a sair da cama para conferir. Não precisava de mais visitas ou surpresas por hoje.
O barulho se repetiu uma e, então, duas vezes.
— Srta. , sou eu. — Veio a voz de Bogum do outro lado. — Podemos conversar?
Ele só podia estar de sacanagem com a minha cara.
— Me desculpa pela... — ele começou assim que entreabri a porta.
— Pela cilada? — disparei, parcialmente escondida pela madeira. — Vocês me encurralaram. Acharam que a Jimin me dar a notícia ia suavizar alguma coisa?
— Sua amiga não tem culpa — ele rebateu. — Talvez os caras de cima realmente quisessem a Srta. Yoo lá por esse motivo, mas ela só fez o que pediram.
Eu bufei. Eu ia era bater a porta na cara dele, isso sim.
— Me deixa entrar — tentou ele outra vez, colocando a mão entre a porta e o batente. — Quero me desculpar. Nada daquilo foi legal. E, se mesmo assim você quiser me mandar embora, eu vou.
Eu já não tinha muito mais a perder. Dei passagem e cruzei os braços.
— Você tem dez minutos, Sr. Park.
Bogum se sentou na cadeira no canto do quarto. Seu corpo estava inclinado para a frente, o olhar fixo nas mãos entrelaçadas em seu colo. Ele respirou fundo.
— Olha, também achei estranho sugerirem um namoro falso — revelou ele depois de alguns momentos. — Nunca passei por isso antes. Mas, no fim do dia, faz parte do trabalho.
— É o que você pensa disso tudo? — Minha voz aumentou um tom. — Me meter em um namoro falso é trabalho?
— Droga, tudo que eu falo vai parecer errado — ele negou com a cabeça. — É que... as regras do jogo em Hollywood são diferentes. E, concordando ou não, tenho que jogar para ganhar. Não acho que proporiam isso se não acreditassem que vai dar certo.
— Você parece calmo até demais com isso — notei quando sentei na ponta da cama, bem de frente para ele.
— Acredite, eu também esperava outra reação — ele completou, coçando o pescoço. — Não é como se meu nome não tivesse aparecido em um ou outro rumor de namoro por aí ao longo dos anos. Mas, como disse, as regras do jogo são diferentes aqui.
Ele finalizou com um suspiro, virando o rosto para procurar a janela do quarto.
— Houve um tempo em que eu nem sonhava em estar aqui. Sou muito grato a todos que me apoiaram, mas preciso pensar primeiro em mim. No que eu quero pra minha carreira.
As palavras ecoaram em mim, dividindo o espaço com o meu próprio turbilhão de emoções. Bem lá no fundo, em meio a toda a minha raiva e tristeza, começava a crescer um pouco de compreensão.
Bogum olhou para mim novamente, sem desviar dessa vez.
— Se estiver tudo bem por você, eu acho que vale a pena tentar — disse ele. — Não precisa ser mais do que isso: trabalho.
— Tenho medo. Do que isso pode mudar na minha vida — confessei baixinho. — É um mundo pequeno. Parte do motivo de eu ter aceitado o emprego de intérprete era me inserir nele.
— Eu entendo. Mas, sabe, nessa indústria, aprendi que tudo é sempre a maior notícia de todos os tempos até surgir uma outra na próxima semana.
A tentativa de me reconfortar me fez rir.
— Você tem um argumento muito bom — comentei, a voz ainda sem emoção.
Ele levantou da cadeira e se sentou perto de mim, apoiando as mãos ao lado de si na cama.
— Eu sinto muito, de verdade. Não queria que as coisas tivessem tomado esse rumo.
— Eu ‘tô em uma grande saia justa agora, você sabe, certo? — Ele assentiu. — É uma aposta muito arriscada. Tem tanta gente envolvida nisso...
— Eu sei. E, de novo, não queria te colocar nessa situação. Mas vou fazer o meu melhor para nós dois tirarmos algo dessa bagunça.
Estava ali o tão esperado pedido de desculpas, mas que mais parecia uma promessa no meio daquele caos. A resposta já tinha começado a se formar dentro de mim.
— Tudo bem, eu vou confiar em você. — Os olhos dele pareceram brilhar com a resposta. Ergui um dedo em sua direção. — Mas eu quero o triplo do valor.