Revisada/Codificada por: Gemini
Última Atualização: 06/01/2026Por um lado, o barulho longo e ensurdecedor era um bom sinal: se o público tinha gostado do filme tanto assim, isso lhe dava grandes chances de concorrer à Palma de Ouro e aos outros prêmios do Festival de Cannes.
Por outro, me deixava ainda mais nervosa. Logo, os olhos daquela multidão estariam em mim.
Quer dizer, não exatamente em mim.
Em teoria, como intérprete, eu não era o centro das atenções. Eu precisaria estar em cena, é claro, mas para traduzir o que o diretor Lee e o elenco de Restless Harmony tinham a dizer sobre o filme para o mundo — um mundo que, muitas vezes, não costumava sair da própria bolha com relação ao tipo de cultura que consumia.
Na prática?
Mal conseguia puxar o ar pelos pulmões. Sentia como se todos os holofotes estivessem focados em mim.
Forcei mais uma inspiração do meu assento no meio do palco, bem ao lado do diretor e de Park Bogum, a principal estrela do filme. Se tinha alguém mais nervoso do que eu nesse momento, apostaria que era ele. No fim das contas, era sua grande estreia no cenário internacional depois de conquistar os fãs do cinema e dos dramas coreanos.
Eu tinha me preparado minuciosamente, pesquisado tudo o que podia para traduzir cada uma de suas respostas. Não podia e nem queria fazer feio. Mais até do que da grana, eu precisava desse emprego. Era tudo sobre conexões: estar ali, no meio de tanta gente importante, era o caminho mais rápido para me inserir nesse universo — e, quem sabe, chegar até alguma sala de roteiro importante.
Tentava não amassar o caderno que apertava em uma das mãos, a caneta já a postos para entrar em ação assim que a primeira pergunta viesse. Procurei Jimin na plateia, um dos poucos rostos conhecidos naquele turbilhão. Minha amiga acenou para mim e sorriu encorajadora antes de se esconder atrás do telefone, provavelmente gravando mais alguns takes daquele momento para postar nas redes sociais do filme mais tarde.
Quando os aplausos começaram a diminuir, alguém passou um microfone para o diretor Lee, e o movimento me trouxe de volta à realidade.
Era minha deixa.
O bate-e-volta de perguntas passou por mim como um borrão, talvez pelo misto do foco com o nervosismo. A única certeza que tive foi a de que meu coração não desacelerou nem por um minuto.
Só consegui voltar a mim quando desci do palco depois última pergunta, quando o diretor Lee colocou uma das mãos no meu ombro e disse:
— Teremos um longo caminho até o Oscar no ano que vem, . Esteja preparada, sim?
Bingo.
Tudo nessa experiência parecia surreal, incluindo a vista do restaurante na Boulevard de la Croisette em que estávamos. A produção tinha escolhido o lugar a dedo para celebrar a estreia e o bom desempenho do filme no Festival, de frente para as palmeiras que decoravam a orla. Precisava agradecer minha amiga depois — fora ela tinha me indicado como intérprete para os produtores.
Depois de um brinde regado à champanhe, cercada de tanta gente importante, eu era capaz de sair flutuando por aí. Peguei minha taça e fui até a varanda para tomar um ar, buscando voltar a mim.
Inspirei fundo e soltei o ar, marcando a brisa e o cheiro do mar na minha memória, mas logo ouvi alguns passos pelo deque de madeira. Pelo visto, não era a única que precisava de um minuto a sós.
— Olha só, é o homem do momento! — brinquei quando reconheci a figura de Park Bogum, que se aproximou e parou ao meu lado. Que intimidade é essa, sua doida?, questionou meu próprio filtro. Talvez a bebida já tivesse mesmo subido à minha cabeça.
— Ah, para com isso — respondeu ele, erguendo a taça em minha direção. Sorri com a reação e encostei minha taça na dele, brindando. — Todo mundo trabalhou muito no filme, até você. Na coletiva hoje e tudo o mais. Você foi muito bem.
— Obrigada. Foi uma das primeiras vezes que participei de uma coletiva desse tamanho, sabia? — confessei depois de tomar um gole da minha própria bebida. — Das próximas vezes, vai ser melhor. Mais rápido.
— Das próximas vezes, hein?
— Você e o filme ganharam a competição principal de Cannes — relembrei. — Se tudo der certo, vocês vão para o Globo de Ouro, e então o Oscar e aí...
— Gosto do jeito que você pensa. — Ele hesitou antes de continuar e suspirou, o olhar fixo na paisagem. — É só... muita coisa para se acostumar de uma vez só. Achei que já saberia como é, mas furar essa bolha me faz sentir como se tudo fosse novo outra vez.
Olhei para o horizonte, com os barquinhos flutuando na água ao longe contra o a luz do fim de tarde. Ficamos ali os dois, em silêncio. Um momento de paz, enquanto tanta coisa acontecia ao mesmo tempo. Talvez, no fim do dia, não fôssemos tão diferentes assim.
— Eu... acho que te entendo. — Ouvi minha própria voz quebrar a calmaria. O que ele tinha que tornava tão fácil de se abrir perto dele?
Bogum olhou para mim, os olhos um pouco arregalados.
— Quer dizer, eu sou uma aspirante à roteirista e você é uma estrela global — acrescentei rapidamente antes de me esconder atrás de outro gole. — Não imaginava mesmo que ia estar aqui.
— Poliglota, intérprete e roteirista, é? — ele enumerou com a mão livre. — Me conta mais sobre isso.
Foi minha vez de arregalar os olhos.
— Realmente quer saber sobre isso?
O Park Bogum? Querendo saber mais sobre a minha vida?
— Hm. — Ele assentiu. — Você mesma disse, srta. . Próximas vezes, lembra? Não custa nada nos darmos bem.
Bem, se ele estava dizendo...
— Na verdade, eu trabalho com as duas coisas, né? Tenho contas para pagar — respondi com um sorriso. — Mas é esse o plano. Preciso começar de algum lugar.
— E você não teria nada a mão aí para eu dar uma olhada agora, teria? — perguntou ele com olhos semicerrados.
— Deus, não! — Neguei com a cabeça. — Quer dizer, você é o Park Bogum e eu adoraria que algum dia você lesse um roteiro meu, mas não desse jeito. Sou uma profissional, sabia?
— Ah, que bom! — Ele levou as mãos ao peito, suspirando de um jeito dramático que me fez soltar outra gargalhada. — Vai que essa era uma emboscada e eu tinha caído direitinho na sua armadilha.
Qualquer receio que eu tivesse parecia ter evaporado. Ele era bom ouvinte, tinha senso de humor e sabia manter a conversa. Talvez realmente o próximo ano trouxesse boas coisas para nós dois.
O barulho de dentro do restaurante chegou até nós, roubando nossa atenção. O rosto vermelho do diretor Lee estava na porta.
— Bogum, venha cá! Queremos um discurso seu! — ele pediu, chamando-o com uma das mãos. Dava para ouvir o resto da equipe vibrando do lado de dentro.
Ele deu mais um gole na bebida, tentando abafar uma risadinha.
— E essa é minha deixa — disse ele, me lançando uma piscadinha antes de sair.
Meu celular continuava a vibrar insistentemente na cômoda. Sonolenta, tateei pelo móvel até alcançar o aparelho, preparada para desligá-lo de uma vez. Era cedo demais para acordar. Todo mundo tinha ganhado uma manhã de folga depois da noite de ontem e eu pretendia aproveitá-la ao máximo no quarto de hotel e na praia.
Por isso, estranhei a quantidade de mensagens de Jimin que subiam pela tela. Ela prometia que tudo ia ficar bem e me pedia para ligar para ela assim que acordasse. Mas o que...
Cliquei no primeiro link que apareceu no chat.
EXCLUSIVO: Park Bogum é flagrado com mulher misteriosa em Cannes!
O celular escapou dos meus dedos trêmulos, caindo no chão com um barulho alto. O som me trouxe de volta o suficiente para me abaixar, resgatar o aparelho e conferir o estado da tela antes de olhar novamente. Abri o próximo link.
O quê?! Em que momento isso poderia ter acontecido? Quer dizer, o cara vinha de uma indústria que prezava por uma imagem perfeita. Mal tinha saído do hotel durante o Festival ou falado com alguém que não fosse da equipe.
Não tinha como voltar a dormir depois dessa.
Parei para analisar o artigo com um pouco mais de atenção, dando uma olhada nas imagens. Mesmo com a qualidade baixa, típica de fotos tiradas com muito zoom, reconheci o vestido da mulher ao lado dele. Gelei.
Era o mesmo que eu usei ontem à noite no restaurante.
Olhei para a cadeira no canto do quarto, onde a peça de roupa estava prestes a cair do encosto. Eu a tinha jogado ali de qualquer jeito quando cheguei do jantar.
Essa não.
Tudo começava a se encaixar na minha memória. O brinde, a conversa na varanda, Park Bogum olhando diretamente para mim enquanto conversávamos.
Meu estômago embrulhou.
Variações das fotos e da mesma chamada passavam pelos meus olhos em quanto eu abria os links e posts que chegavam até mim. Em algum momento, esbarrei em um comunicado oficial da empresa de Bogum. Não consegui processar muita coisa do que dizia, apenas o “é difícil confirmar detalhes da vida pessoal do artista”, típico desse tipo de pronunciamento.
Eu não deveria estar ali. Não deveria ser notícia. Era questão de tempo — horas, talvez até minutos — descobrirem meu nome, quem eu era e o que fazia da vida. Minha respiração parecia ter travado dentro do peito.
Logo, outra notificação subiu na tela.
Pode vir até a sala de reuniões do hotel às 10h? Gostaríamos de conversar com você.
Era do Sr. Kim, o principal produtor executivo do filme.
Meu chefe.
Decidi entrar na sala como quem arrancava um band-aid: o mais rápido possível, porque o processo iria doer de qualquer jeito.
Suspirei derrotada. Bem que diziam que o que era bom durava pouco.
Com o rosto abaixado, reuni o máximo de coragem que tinha para abrir a porta e cumprimentar meu chefe para começar aquela tragédia. Mas mais vozes me responderam.
— Sr. Park? — perguntei quando levantei os olhos. O que ele estava fazendo ali? E... — Jimin? Você tá aqui também?
Que ótimo. Agora, não só eu seria demitida, como também teria uma plateia para aquele show de horrores: a amiga que tanto tinha confiado em mim e o sr. Homem do Momento, a principal estrela do filme.
— Não viu minhas mensagens? — perguntou minha amiga do seu lugar na mesa. Seu sorriso era educado, mas não chegava até os olhos.
— Só as primeiras — respondi, me envolvendo com os próprios braços ao sentar. — Eu desliguei o celular depois... Depois que o Sr. Kim me pediu para vir até aqui.
Ela assentiu, compreensão pintando os traços seu rosto.
— Bom, acho que podemos começar — disse o Sr. Kim. — Acho que você já deve saber o motivo de estarmos aqui, Srta. .
Assenti.
— Eu sinto muito, Sr. Kim, de verdade — comecei. Quanto mais rápido começasse, mais rápido terminaria. — Eu... devia ter tomado mais cuidado. Obviamente, não é nada verdade, tenho certeza que o Sr. Park já deve ter dito isso. De toda forma, sou grata pela experiência. Se já tiverem outra pessoa em mente, posso passar meu material—
— Espere, Srta. — o produtor me interrompeu com um gesto da mão. — Nós não estamos aqui para tratar de uma demissão.
Uma pontinha de esperança aqueceu o meu corpo.
— Então... eu não me ferrei? — perguntei em busca de confirmação.
— Na verdade, queríamos te fazer uma proposta — seguiu ele, gesticulando para Jimin. — Por favor, srta. Yoo.
Ela parecia até mesmo... um pouco sem graça? O que estava acontecendo aqui?
— Então... — Jimin engoliu em seco e colocou seu tablet na mesa entre nós. — Você viu as notícias, mas... o que rolou foi justamente o contrário do que a gente esperava. O público amou, .
Minha amiga abriu um arquivo no aparelho, que se iluminou com uma série de gráficos e palavras coloridas.
— As procuras pelo filme e o nome do Bogum aumentaram em quase 150% desde que saíram as fotos. Parece até que aumentaram as pré-vendas de ingresso, mas ainda não tenho dados oficiais sobre isso — explicou, mudando a imagem na tela. — Dei uma olhada nas redes sociais e boa parte do público está bem positiva. Você tem até edits, olha só!
Um vídeo começou a tocar: um compilado de cortes meus durante a coletiva ao som de “Whiplash” do Aespa. Eu tinha certeza de que a transmissão não tinha focado tanto assim em mim, então tinham feito um milagre com minhas poucas palavras, sorrisos tímidos e até o momento que joguei o cabelo para trás do ombro.
Eu parecia... importante. Bonita. Interessante, até.
— Mas, espera, se eu não rodei, o que exatamente vocês querem de mim? — Busquei os olhares dos três. Meu chefe me encarava com um grande sorriso, enquanto Jimin e o Sr. Park mantinham os rostos baixos. O Sr. Kim gesticulou mais uma vez para minha amiga, incentivando-a a continuar.
— A produção quer te propor... um namoro falso — anunciou ela devagar, com os olhos ainda presos à mesa. — Com o Sr. Park Bogum.
O quê?
— Espera, eu acho que não entendi direito. Pode repetir? — insisti.
Minha amiga procurou alguma forma de consolo no ator ao seu lado, que suspirou.
— É isso mesmo, Srta . — Bogum se pronunciou, finalmente olhando para mim. — A gente quer... eu... quero saber se você topa... ser minha namorada de mentira.
Meu corpo parecia ter travado. Talvez até tivesse parado de respirar. Era uma pegadinha, era a única explicação possível.
Senti que passaram minutos, horas até alguém falar algo novamente.
— Considerando a reação do público, o time de marketing e a produção acham que realmente pode ajudar a campanha do filme — explicou o ator. — Parece que ele estourou a bolha. E se estivermos na mente do pessoal...
— Aumentam as chances de verem o filme — completei.
— E consequentemente de indicarem o filme e os atores quando chegar a hora — acrescentou o sr. Lee com um grande sorriso. Então era sobre isso, no fim das contas. — Caso você aceite, estamos dispostos a dobrar seu pagamento. Claro, você continuaria...
Não registrei as outras palavras que saíram da boca dele. Só ouvia o bater do meu coração nos ouvidos. Parecia que eu ia sufocar a qualquer momento.
— Eu acho que preciso de um ar — anunciei antes de me levantar e sair dali o mais rápido possível.
O quarto de hotel parecia ser o único lugar que não ia me engolir naquela cidade. Se eu mantivesse meu celular desligado, talvez pudesse fingir que tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto. Ou um pesadelo. O que acabasse primeiro.
As batidas na porta me trouxeram de volta à realidade, mas minhas pernas se recusavam a sair da cama para conferir. Não precisava de mais visitas ou surpresas por hoje.
O barulho se repetiu uma e, então, duas vezes.
— Srta. , sou eu. — Veio a voz de Bogum do outro lado. — Podemos conversar?
Ele só podia estar de sacanagem com a minha cara.
— Me desculpa pela... — ele começou assim que entreabri a porta.
— Pela cilada? — disparei, parcialmente escondida pela madeira. — Vocês me encurralaram. Acharam que a Jimin me dar a notícia ia suavizar alguma coisa?
— Sua amiga não tem culpa — ele rebateu. — Talvez os caras de cima realmente quisessem a Srta. Yoo lá por esse motivo, mas ela só fez o que pediram.
Eu bufei. Eu ia era bater a porta na cara dele, isso sim.
— Me deixa entrar — tentou ele outra vez, colocando a mão entre a porta e o batente. — Quero me desculpar. Nada daquilo foi legal. E, se mesmo assim você quiser me mandar embora, eu vou.
Eu já não tinha muito mais a perder. Dei passagem e cruzei os braços.
— Você tem dez minutos, Sr. Park.
Bogum se sentou na cadeira no canto do quarto. Seu corpo estava inclinado para a frente, o olhar fixo nas mãos entrelaçadas em seu colo. Ele respirou fundo.
— Olha, também achei estranho sugerirem um namoro falso — revelou ele depois de alguns momentos. — Nunca passei por isso antes. Mas, no fim do dia, faz parte do trabalho.
— É o que você pensa disso tudo? — Minha voz aumentou um tom. — Me meter em um namoro falso é trabalho?
— Droga, tudo que eu falo vai parecer errado — ele negou com a cabeça. — É que... as regras do jogo em Hollywood são diferentes. E, concordando ou não, tenho que jogar para ganhar. Não acho que proporiam isso se não acreditassem que vai dar certo.
— Você parece calmo até demais com isso — notei quando sentei na ponta da cama, bem de frente para ele.
— Acredite, eu também esperava outra reação — ele completou, coçando o pescoço. — Não é como se meu nome não tivesse aparecido em um ou outro rumor de namoro por aí ao longo dos anos. Mas, como disse, as regras do jogo são diferentes aqui.
Ele finalizou com um suspiro, virando o rosto para procurar a janela do quarto.
— Houve um tempo em que eu nem sonhava em estar aqui. Sou muito grato a todos que me apoiaram, mas preciso pensar primeiro em mim. No que eu quero pra minha carreira.
As palavras ecoaram em mim, dividindo o espaço com o meu próprio turbilhão de emoções. Bem lá no fundo, em meio a toda a minha raiva e tristeza, começava a crescer um pouco de compreensão.
Bogum olhou para mim novamente, sem desviar dessa vez.
— Se estiver tudo bem por você, eu acho que vale a pena tentar — disse ele. — Não precisa ser mais do que isso: trabalho.
— Tenho medo. Do que isso pode mudar na minha vida — confessei baixinho. — É um mundo pequeno. Parte do motivo de eu ter aceitado o emprego de intérprete era me inserir nele.
— Eu entendo. Mas, sabe, nessa indústria, aprendi que tudo é sempre a maior notícia de todos os tempos até surgir uma outra na próxima semana.
A tentativa de me reconfortar me fez rir.
— Você tem um argumento muito bom — comentei, a voz ainda sem emoção.
Ele levantou da cadeira e se sentou perto de mim, apoiando as mãos ao lado de si na cama.
— Eu sinto muito, de verdade. Não queria que as coisas tivessem tomado esse rumo.
— Eu ‘tô em uma grande saia justa agora, você sabe, certo? — Ele assentiu. — É uma aposta muito arriscada. Tem tanta gente envolvida nisso...
— Eu sei. E, de novo, não queria te colocar nessa situação. Mas vou fazer o meu melhor para nós dois tirarmos algo dessa bagunça.
Estava ali o tão esperado pedido de desculpas, mas que mais parecia uma promessa no meio daquele caos. A resposta já tinha começado a se formar dentro de mim.
— Tudo bem, eu vou confiar em você. — Os olhos dele pareceram brilhar com a resposta. Ergui um dedo em sua direção. — Mas eu quero o triplo do valor.
Era estranho voltar para casa e perceber que nada continuava igual. Eu mal olhava esse tipo de coisa no dia a dia e principalmente depois de...
Depois de tudo.
Se fosse sincera, mal tinha olhado meu telefone nos últimos 15 dias, por mais difícil que tivesse sido. Fechei meus perfis nas redes sociais, conforme a equipe de produção tinha me orientado, depois que fomos eu e Bogum juntos atrás do Sr. Kim para comunicá-lo sobre nossa decisão. Porém, na falta do que fazer enquanto esperava minha companhia, fui vencida pelo hábito e o vício.
Meus olhos logo caçaram os comentários da postagem.
Ela é uma distração para Bogum antes das indicações ao Oscar. No que ele estava pensando?
Ouvi dizer que ela é a intérprete do elenco. Que deselegante.
Ele é bem mais bonito do que ela.
Só quero a felicidade dele. Depois de um caminho tão difícil, ele merece alguém especial em sua vida.
— Você devia parar de ler esse tipo de coisa.
Virei para encarar o dono da voz que acabava de chegar: o meu “date” de hoje, o ator principal de Restless Harmony. Ainda dava para reconhecer sua silhueta, mesmo que seu rosto estivesse escondido por uma máscara e um boné. A empresa dele e a produção do filme tinham organizado uma pequena cena para sermos fotografados juntos, nada demais: uma caminhada pelas ruas de um bairro que começava a ficar popular pelos cafés e restaurantes.
— É sério — ele insistiu quando parou ao meu lado. — Não vai te fazer bem, nem te acrescentar nada.
Desliguei a tela do aparelho e tirei os fones do ouvido, guardando tudo na bolsa.
— Foi força do hábito. Não consegui resistir — eu respondi. — Boa noite, Sr. Park.
— Bogum, por favor — ele logo me corrigiu. — Se... isso... vai funcionar, acho que o mínimo que podemos fazer é nos tratar mais informalmente, certo?
Concordei com a cabeça, digerindo a permissão devagar. Ele não estava errado, no fim das contas. Precisávamos parecer um casal, mesmo que reservado, para quem nos visse ou ouvisse. Eu me balancei nos calcanhares, ainda sem saber como agir. Qual era a etiqueta adequada para um namoro de mentira?
A energia do momento era completamente diferente daquela primeira conversa na varanda em Cannes. Nada parecia fluir, e um silêncio constrangedor preencheu o espaço entre nós.
— É estranho para você também, não é? — soltei antes que enlouquecesse.
Ele suspirou, aliviado. A espontaneidade do gesto me fez sorrir.
— Nossa, demais! — ele concordou, rindo. — Disse para mim mesmo que ia ser como atuar, mas é difícil quando o papel é você mesmo. Ou uma versão sua, pelo menos.
— E se formos para algum lugar? — ofereci. — Para conversar. Quer dizer, acho que vai ser mais fácil se te conhecer além da sua filmografia. Dessa eu já vi bastante, acredite.
Bogum riu outra vez, gesticulando para que eu fosse adiante.
— Mostre o caminho, .
— Sabe, posso não entender muito de namoro falso, mas entendo de dramas — disse Bogum depois de tomar um gole da sua bebida. — E filmes. E sempre que tem um desses, tem um contrato.
— Mas eu assinei um contrato, lembra? — Levei minha própria xícara aos lábios para provar meu cappuccino. — E um acordo de confidencialidade, caso tenha esquecido.
Os termos eram até mais simples do que imaginei: algumas aparições públicas casuais, como essa em que estávamos. Continuar meu trabalho. Participar das coletivas de imprensa para o lançamento mundial do filme. Uma entrevista para um programa de TV dos Estados Unidos para divulgar a história e Bogum para os votantes da Academia.
— Digo um contrato nosso, minha cara namorada — esclareceu ele.
Arregalei os olhos, apontando para ele e, depois, para mim.
— No-nosso?
— É. Coisas que cada um acha ok de fazer, o que não podemos fazer de jeito nenhum. Acho que pode ajudar a gente a ter um pouco mais de controle da situação.
Se tinha algo que eu acreditava ter perdido nisso tudo, esse algo definitivamente era controle. Mas, se não podíamos vencê-los...
— Tudo bem, você é o especialista em romances da ficção — disse, apoiando minha xícara na mesa. — O que você tem em mente?
Bogum sorriu como se já soubesse minha resposta.
— Tem uma caneta?
Sacudi a cabeça, rindo, então peguei a caneta dentro da bolsa e entreguei a ele. Bogum pegou um guardanapo no suporte na mesa. No topo do papel, ele escreveu “CONTRATO DE NAMORO” e, em seguida, um número 1.
— Bom, aqui vou repetir nosso objetivo, as indicações da temporada. Ah, e nosso prazo, que é...
— Setembro — confirmei. — Depois da entrevista nos EUA. E de enviarem seu nome e os outros créditos para as premiações.
— Certo. — Ele completou sua anotação. — Agora, podemos repassar nossa história.
— Tenho quase certeza que a empresa não vai permitir perguntas sobre seu relacionamento em entrevistas. — Eu tinha retomado essa parte da pesquisa sobre Bogum nos últimos dias. Nenhum outro rumor de romance tinha sido citado em suas aparições na TV ou nos jornais. — E até onde eu sei, não vou conhecer ninguém da sua família, então-
— É construção de personagem, , vamos lá — tentou ele outra vez. — Um ator precisa conhecer bem quem está interpretando.
Ergui as mãos, me rendendo. Só me restava seguir os conselhos de um profissional — ou de quem chegasse mais perto disso na nossa situação.
Ele rabiscou um número 3 no papel.
— Não precisamos mentir e complicar também essa parte, então vamos no simples — sugeriu. — Nos conhecemos durante as preparações para o lançamento do filme em Cannes.
Bogum aproveitou para anotar também as próximas aparições pedidas pela produção, me contou mais sobre o filme, mas meu cérebro não registrava as informações. Um assunto em específico ainda não tinha aparecido, o que formou um frio na minha barriga. Mordi o lábio inferior, sem muita cabeça para comentar algo a mais.
— Algum problema? — Era lógico que ele tinha percebido. Suspirei, decidindo me abrir.
— Olha, sei que não exigiram nada sobre demonstrações públicas de afeto, apenas as saídas. Mas... quais são os limites aqui?
— Está preocupada em ter que me beijar ou algo assim? — ele riu, deixando o papel de lado.
— Não tem graça. — Fechei a cara. — Não me leve a mal, não é que você seja feio ou desinteressante-
— Puxa, obrigada!
— Ah, qual é! É só que...
— Não é de verdade, né? — Ele pareceu ler meus pensamentos. Assenti.
— Mas, ao mesmo tempo, se não fizermos nada, acho que não vamos convencer ninguém — acrescentei.
— Eu entendo — disse ele. — E se essa é sua condição, tudo bem. Se formos analisar, é você quem está me fazendo um favor. Mais do que isso até.
O peso nos meus ombros começava a se desfazer. Talvez essa coisa de namoro de mentira pudesse funcionar entre nós, no fim das contas.
— Vamos fechar em dar as mãos uma vez ou outra, trocar olhares mais longos durante os eventos... Um braço na cintura, se a situação pedir? — Bogum sugeriu.
— Fechado.
— O beijo fica para uma emergência — lançou ele.
— Ei! — Me atrevi a dar um soquinho no seu ombro.
— Ai, não precisa disso também! — reclamou Bogum, rindo.
Com o tempo, conseguimos formar uma rotina. Entre uma gravação e outra, a agenda de Bogum tinha um espaço para mim. Em geral, só precisávamos esperar algumas horas antes das fotos saírem pelos tabloides — e, muitas vezes, ele era o primeiro a enviar as notícias para mim.
Pena que não vamos poder ser o próximo casal de Ano Novo da Dispatch, escreveu ele sobre a última vez.
Tinha que dar esse ponto para ele — o cara realmente era esforçado. Em algum momento, não precisei mais fingir as risadas, porque simplesmente saíam. Um toque se tornava natural no meio da conversa. Era quase como se tivéssemos uma piada interna, um segredo compartilhado entre dois adolescentes. Era fácil estar com alguém que estava vivendo a mesma coisa com você.
O desafio de verdade talvez não fosse vender a história, no fim das contas. Talvez fosse não se perder no meio da mentira.
A produção tinha me pedido para ficar ao lado de Bogum no palco, o que não era comum nesse tipo de programa. Intérpretes costumavam ficar em um espaço separado, comunicando-se à distância com o entrevistado. Mas queriam nos mostrar juntos ao público, dessa vez, oficialmente. E, de quebra, deixar Bogum mais à vontade naquela situação.
Não havia espaço para errar no ao vivo.
Bogum podia até ter distribuído sorrisos para quem passasse por ele, mas reparei que sua perna não parava de mexer desde que sentara na cadeira da maquiadora no camarim.
— Ei. — Apertei o ombro dele assim, chamando sua atenção. — Vai dar tudo certo.
— Eu queria muito dizer que sim, mas meu estômago está embrulhado desde que chegamos aqui — Bogum confessou. Quando a maquiadora finalizou os últimos retoques em seu rosto, alguém da equipe veio para nos guiar até as cortinas que nos separavam das câmeras e da plateia.
Nenhum de nós ousou dizer uma palavra.
— Relaxa, Sr. Homem do Momento — sussurrei. As palavras podiam até ter sido direcionadas para ele, mas não sabia quem de fato eu estava tentando convencer. Minhas mãos não paravam de tremer.
O apelido conseguiu arrancar uma risada dele e dissolveu um pouco da tensão que se acumulava nos meus ombros.
— Nós repassamos boa parte das respostas mais cedo. Consegue fingir que somos só nos dois ali? — Apontei para além das cortinas.
A pauta tinha um pouco de flexibilidade, mas os assuntos tinham sido definidos antes com o Sr. Kim, o produtor do filme, e o empresário de Bogum, que nunca estava muito atrás de nós. Com um pouco de prática, o charme do ator começou a ganhar de seu nervosismo.
Uma das produtoras do programa chegou ao nosso lado, informando que entraríamos no ar em poucos segundos. Respirei fundo — estava quase na hora.
— E você consegue? — ele devolveu. Bogum ajeitou a postura, jogando os ombros para trás.
— Acredite, estou tentando o meu melhor para não surtar — respondi. O barulho da plateia ficou ainda mais alto quando afastaram o tecido para nos dar passagem. — Então é melhor eu conseguir.
Escolhi um ponto fixo à frente, tentando não focar em nenhum rosto. Então, encaramos juntos a multidão que nos aguardava.
Bogum tinha treinado bastante suas respostas, e os pontos levantados pela equipe de marketing do filme saíram de maneira quase natural. Em boa parte do tempo, consegui ouvir os aplausos e risadas da plateia.
Sua presença era mesmo magnética, pensei satisfeita. Eu apenas afinava um detalhe ou outro para garantir que ela cativasse o público certo.
— Agora, a produção me avisou aqui que você também está comprometido — disparou o entrevistador. O público vibrou. — Tudo bem se falarmos sobre isso?
Travei. Isso não estava roteiro que eu tinha estudado.
Bogum riu. Ele olhou para a lateral do palco, buscando a permissão de seu empresário.
Depois, olhou diretamente para mim. Seus olhos se prenderam aos meus por apenas alguns segundos a mais antes de voltar para o apresentador. Exatamente como tínhamos combinado alguns meses antes.
Não consegui segurar um risinho de nervoso, e meu coração errou algumas batidas.
— Eu só... fico feliz de poder compartilhar esse momento com alguém especial — respondeu ele diretamente ao entrevistador. A resposta perfeita, que parecia entregar mais do que fato dava a entender. Sucinto, mas impactante.
Caramba, o cara era realmente bom nisso.
Então, senti uma das suas mãos na minha coxa. Leve e rápida. Minha respiração pareceu parar, todas as sinapses do meu cérebro entrando em curto.
Céus, o que estava acontecendo comigo?
Ok, foco. Não era hora, nem lugar para pensar sobre esse tipo de coisa. Era tudo parte do jogo.
Me forcei a prestar atenção pelo resto da entrevista, garantindo que Bogum teria ajuda quando necessário, mesmo que cada batida do meu peito rugisse nos ouvidos. O tempo passou ainda mais rápido depois disso. Quando me dei conta, o apresentador já estava de pé.
— Esse foi Park Bogum, pessoal, uma salva de palmas! Restless Harmony estreia essa semana nos cinemas de todo o país, não percam!
Eu e Bogum nos levantamos, agradecendo com uma mesura rápida antes de acenar para a plateia e sair. Logo, o empresário veio buscá-lo nos bastidores — algo sobre algumas fotos e gravações para divulgar a participação no programa. Aérea como estava, não consegui processar a rápida sucessão de palavras que ele cuspia.
— A gente se vê depois, certo? — Bogum me disse por cima do ombro, o braço do empresário garantindo que ele continuasse andando pelo estúdio.
— Não se preocupa, anda! — incentivei, gesticulando para que ele seguisse adiante. — Precisam de você, Sr. Homem do Momento.
— Você não me respondeu! — ele insistiu. Um grupinho começava a se formar ao redor dele, cheio de gente que queria cumprimenta-lo, tirar uma selfie ou apenas roubar um segundo seu.
Bogum merecia cada segundo dessa atenção, tinha trabalhado demais por ela. Mesmo assim, ele seguia ali esperando uma confirmação minha, como se só nos dois importássemos no meio daquela bagunça.
O calor preencheu meu peito.
Espiei o rosto de seu empresário — ele parecia ainda mais apressado do que o normal enquanto tentava navegar por aquele caos. Bogum fazia questão de atender a quem conseguisse, lançando alguns olhares em minha direção entre uma pessoa e outra.
— Tudo bem, tudo bem — confirmei, tentando não o segurar ali mais do que o necessário. — Eu te mando uma mensagem mais tarde, agora vai!
Ele sorriu e acenou antes de, finalmente, se virar completamente para ir embora. O estúdio pareceu cair em um silêncio profundo.
— Que loucura, não é? — uma das produtoras do programa comentou quando passou por mim. — Esse menino ainda vai longe.
Era uma frase educada, que saía da boca para fora naquela situação. Para mim, foi um balde de água fria. Meu rosto se contorceu em uma careta.
A jornada do filme podia só estar começando, mas nosso acordo tinha uma data marcada para acabar.
— Vai — respondi, mas um sorriso triste já pintava meus lábios. — Ele vai sim.
— Imaginei que você ia estar aqui — Bogum disse quando me encontrou na varanda do hotel. Ele não esperou um convite meu e se sentou ao meu lado, apertando o sobretudo ao redor do corpo. — Você tem uma coisa com varandas, não é?
Minha cabeça não havia parado de rodar desde que saímos do estúdio. Tudo tinha corrido bem — os cortes já haviam sido publicados, a página do filme já tinha divulgado a entrevista, as fotos começavam a se espalhar mais uma vez. Recebi mais alguns edits, tanto os meus quanto os de mim e Bogum juntos. A produção de Restless Harmony parecia muito feliz.
— Se eu bem me lembro, estamos nessa situação porque você também tem — respondi ao olhar para ele.
Eu me sentia a um passo de me perder. Por isso, não tive vontade comemorar.
— Tem razão — ele concordou com uma risada baixinha. — Tem algo sobre a vista. Ou talvez o ar. Ajuda a manter os pés no chão depois do turbilhão.
— Acho que é bem por aí mesmo. — Deixei escapar uma risadinha fraca.
A pausa que se seguiu foi rápida, mas me deixou nervosa mesmo assim.
— Esperei sua mensagem — ele confessou. Segurei a respiração.
— Desculpa — disse, soltando o ar. — Eu só precisava... de um momento para mim.
Bogum assentiu, uma ruguinha se formando entre as sobrancelhas.
— Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou.
— Estava pensando no que vou fazer. — Engoli em seco.
— Quando o contrato acabar? — Fiz que sim com a cabeça, desanimada. — Ainda falta um mês, ainda dá tempo. Ah, e eu conversei com—
— Não é sobre isso — interrompi. — Sabe, depois de hoje, me dei conta de que... Acho que meu papel acabou. Você só precisava de mim até aqui — digo baixinho.
Cada palavra doeu em mim. Mas elas eram necessárias — melhor cortar o mal pela raiz antes que eu começasse a confundir as coisas.
— Mas... ainda temos alguns meses até a temporada de premiações — Bogum relembrou. — Você... não quer continuar na equipe, é isso?
— Não acho que vão me deixar continuar depois de setembro, de todo modo. O acordo era esse, lembra? — argumentei. — Mas fico feliz, é sério. Você tem um ano brilhante pela frente. Essa loucura toda funcionou.
Apoiei uma das mãos em seu braço, aquele que estava mais perto de mim, e sorri para ele. Como seria poder fazer isso de verdade, me perguntei. Mas não era real, era eu quem estava me deixando levar.
— E onde fica o que eu quero nisso tudo? — devolveu Bogum.
— Você não queria as indicações? Os prêmios?
— Claro que sim, mas não—
— É sobre as entrevistas? Depois podem contratar outra intérprete. Alguém mais profissional. Alguém que não tire o foco de você.
— Mas nenhuma delas vai ser você, vai? — Bogum negou com a cabeça, exasperado.
Meu coração apertou dentro do peito.
— O que quer dizer com isso?
— Eu só... — Seus punhos se abriram e fecharam, e ele suspirou, olhando para cima. — Deixa para lá. Eu achei que tinha algo aqui. Algo especial.
Não era possível. Ele também estava confundindo as coisas.
— Nós nos demos bem, acho que foi por isso que funcionou. No fim do dia, era só uma jogada de marketing. Namoro de mentira, lembra? — insisti. Fingi limpar uma poeira na perna da minha calça e me levantei. — A gente se vê amanhã de manhã.
Só tinha dado alguns passos quando a voz de Bogum me fez dar meia-volta.
— Hoje, quando eu tive medo do que estava acontecendo, eu respirei mais tranquilo porque sabia que você estaria lá — declarou. — E sabe? Não era nem porque eu tinha medo de não me entenderem. Era porque era você ali comigo.
Ele olhou diretamente para mim, aproveitando para diminuir a distância entre nós.
— Bogum—
— Me escuta. Por favor — ele insistiu, segurando um dos meus pulsos. — Eu achei que talvez estivesse misturando as coisas... mas eu acho que não.
Com a mão livre, ele ajeitou um fio de cabelo que caiu sobre o meu rosto. O toque se demorou um pouco em minha bochecha. Meus pés pareciam presos ao chão, enquanto as batidas dentro do meu peito se aceleravam.
— Eu quero dar uma chance para o que a gente tem — ele continuou. — Ou pode ter, eu não sei. Então esse sou eu, te pedindo que não vá embora.
Seus olhos buscaram os meus, fazendo o caminho até os meus lábios antes de subirem novamente. Não havia mais tanto espaço entre nós.
— Me diz, . — A decisão agora era minha. Ele a tinha deixado nas minhas mãos. — O que você realmente quer?
A pergunta tinha um toque final, como se aquele instante fosse definir tudo o que seríamos dali para a frente. De dois adolescentes dividindo um mesmo segredo para estranhos mais uma vez.
Como seria não o ter tão perto assim?
Eu não queria descobrir. Então, me arrisquei.
Envolvi os braços ao redor do seu pescoço e me aproximei, pressionando meus lábios contra os seus. Bogum não precisou de muito tempo para retribuir — logo senti suas mãos ao redor da minha cintura, me puxando para ainda mais perto de si.
— O que aconteceu com a regra sobre beijos no nosso contrato? — Bogum perguntou ao se afastar, encostando a testa na minha. Sua risada preencheu meus ouvidos.
— Acho que podemos considerar que era uma emergência — respondi, retribuindo com um sorriso. — Eu estava prestes a ir embora, no fim das contas. O que fazemos agora?
— Eu não sei ao certo — A dúvida era a única certeza que tínhamos, no fim do dia. Sua segurança, no entanto, transparecia em sua voz. — Só sei que quero começar isso de verdade.

