Revisada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 20/02/2026.Ela veio transferida do Brasil.
Você ouviu o jeito que ela fala?
Será que ela já bebeu Coca-Cola?
A última revista que meu pai comprou tinha uma garota do mesmo país que ela.
As conversas se misturam ao ponto que é difícil desembaraçá-las, como problemas de matemática com números e letras, ou seu cabelo quando ele esquece de hidratar antes de ir dormir. Os estudantes viram a cabeça para a direção da aluna estrangeira, se perguntam qual será o armário dela e agarram os braços dos amigos, sussurrando teorias mal elaboradas sobre o motivo de alguém sequer escolher se mudar para lá.
Carol Perkins — melhor amiga de Steve desde o fundamental e uma das piores pessoas que existem — está ao lado dele, mascando o mesmo chiclete de iogurte de sempre, mexendo no cabelo com o dedo indicador como sempre, julgando cada pessoa que passa por eles como sempre.
Tudo é um eterno como sempre em um lugar como Hawkins. Haveria uma comoção mesmo se um aluno da cidade vizinha fosse transferido para a escola. Então não é surpresa nenhuma que todos estejam falando sobre a última (e única) novidade do momento.
.
Ele a encara de longe, a estudando com mais interesse do que qualquer matéria. O cabelo é escuro, ondulado como em um comercial de verão. Seus olhos são castanhos, e ela sorri abertamente enquanto conversa com uma menina ruiva baixinha. As roupas são a parte favorita de Steve: calça jeans justa, um cinto marrom e regata vermelha com um decote em V. Mais ousado do que a maioria das garotas do ensino médio, dá para ver pelos olhares indiscretos dos meninos e os bufos cheios de julgamento das meninas.
Para o seu crédito, não demonstra se está incomodada com toda a atenção. Nenhuma rachadura na máscara, nenhum olhar esgueirando preocupado com o que estava dizendo sobre ela. Harrington pode admirar isso. Com toda a reputação de Rei Steve, ele sabe que não há propaganda ruim. As pessoas só falam sobre o que importa de alguma maneira, é assim que populares continuam no topo. Ele sabe que, ao mero sinal de fraqueza, alguém promissor deixa de ser interessante e se torna um alvo.
— Eu ouvi dizer que ela veio para um intercâmbio cultural, seja lá o que isso significa — Carol comenta, cada palavra interceptada por um mastigado em seu chiclete desgastado. — Quem escolhe Hawkins para um intercâmbio? Eu teria ido para New York.
— Que bom que ela escolheu aqui — Steve responde distraidamente, observando a garota de cima a baixo. . O nome ecoa em sua mente como uma bola de ping-pong batendo nas paredes de uma sala fechada: repetitivo, insistente.
Ela balança a cabeça com algo que a ruiva diz, gargalhando antes de colocar uma mecha de cabelo atrás da orelha, exibindo um brinco de argola despreocupadamente.
Ele já havia saído com várias garotas da escola, quase toda a equipe das líderes de torcida (um marco, obrigado). Algumas meninas liberais do teatro. Uma ou outra garota que não ligava para grupos sociais, mas que gostava do status quo de Steve. Entretanto, nunca alguém como ela.
Diferente, intrigante, do jeito que um desafio devia parecer. Sem contar que ela era brasileira, a última vez que Harrington tinha visto alguma estrangeira latina havia sido durante a breve viagem para Chicago com os pais no verão passado.
Carne nova no pedaço, Tommy diria.
— Alguém está de olho em um novo alvo. — Falando no diabo, seu amigo aparece zombando como sempre. Ele puxa Carol pela cintura e beija sua bochecha, um alô singelo antes da sessão de pegação no ginásio. Entretanto, por agora, sua atenção está em Steve e o novo jogo que já se forma em sua mente. — Ela é nova, de outro país... acho que cai nos seu papinho em dois dias.
Perkins balança a cabeça, assopra uma bola de chiclete e a poca com os dentes antes de falar: — Tenho que saber mais sobre ela para apostar.
— Não tem aposta nenhuma. — Steve revira os olhos, recebendo vaias dos amigos. Ele ri quando o chamam de estraga prazeres, mas não desvia o olhar dela. — Vou me oferecer para mostrar a cidade, como um cavalheiro. Se acabarmos na pedra do amasso, bom… É um lugar histórico. Tenho quase certeza de que o intercâmbio cultural envolve conhecer lugares históricos.
Um sorriso malicioso surge em seus lábios enquanto ele se encosta no armário, movendo o pescoço para conseguir um vislumbre melhor da estrangeira.
Aquelas calças realmente são de outro mundo.
— Você é um babaca, Steve — Carol diz, mas não há maldade em sua voz, apenas resquícios de uma risada.
Talvez ele seja. Quem liga?
Acima de tudo, ele é um homem em uma missão.


