“O caminho de luz que a lua deixa no mar”.
Um pequeno feixe de luz solar adentrava o quarto através de uma fresta das cortinas. O dia estava tão radiante do lado de fora que sua intensidade foi o bastante para incomodar os olhos de no exato momento em que ela os abriu.
Tão repentino quanto a forma como a mulher despertou, foi o grunhido que escapou de sua boca, então ela se virou de bruços e afundou a cabeça no travesseiro ao lado. Tudo nela doía, como se um caminhão tivesse a atropelado, e passou uns bons minutos naquela posição, enquanto desejava nem ter acordado.
A noite anterior era um borrão em sua mente, e ela não fazia ideia de como havia chegado em casa.
Tornando a se virar de barriga para cima, ainda com os olhos fechados, tentou reconstituir os acontecimentos e percebeu que era um tanto difícil. Primeiro, porque, em um dado momento, parecia que ela simplesmente havia apagado e acordado em outro lugar, e segundo, porque podia jurar que algumas coisas certamente eram fruto de sua imaginação.
lembrava de ter adorado o local onde Carter havia a levado, do segurança doido para agarrar a , enquanto ela só parecia ter olhos para Madison, e até mesmo de ver Daria e Kyle juntos em todos os lugares, algo que despertou nela uma esperança de os dois finalmente se pegarem.
Talvez as dores em seu corpo se dessem ao fato de ela ter dançado horrores. As músicas eram tão boas que não conseguia parar de dançar, assim como as bebidas que ela foi tomando no decorrer da noite.
De repente, lhe ocorreu que era aquele o seu objetivo. Beber e dançar ao ponto de esquecer de tudo, até mesmo do motivo que a levou àquilo. Mas, infelizmente, a lembrança do que havia descoberto ao abrir suas redes sociais estava bem nítida, tanto em sua mente, quanto em seu coração.
Pietro realmente era um filho da puta.
Como ele e Brooke podiam ter feito aquilo com ela?
A sensação era a de que simplesmente não os conhecia mais e, desde o momento do término, ambos se tornaram pessoas completamente diferentes diante de seus olhos.
sentia nojo daquela nova versão. Um nojo que a fez respirar bem fundo e procurar pensar em outras coisas, porque precisava parar de remoer o que apenas a machucava.
Mais lembranças vieram.
Em algum momento da noite, ela e Daria riam alto, enquanto dançavam uma na frente e a outra, atrás de Kyle, fazendo um “sanduíche”, segundo as palavras da amiga. Aquilo a fez gargalhar e experimentar mais uma vez abrir os olhos. Sua cabeça parecia prestes a explodir, mas, ainda assim, o humor da mulher melhorou um pouquinho. Era impossível não rir na companhia de seus amigos.
Carter e Madison também passaram o tempo todo juntas, mas, se rolou algo, não fazia ideia. Porém ela só podia imaginar que havia sido a que a trouxe para casa.
Pensar naquele sobrenome lhe trouxe mais algo à mente, mas duvidou que fosse real. Afinal de contas, em que mundo teria simplesmente ido buscá-las sozinho no meio da noite e ainda a trazido nos braços até o quarto? Quer dizer, ela havia notado, sim, que aquilo poderia ser o tipo de coisa que o homem faria, mas não tinha acontecido. Tinha? Sem falar que as próximas imagens também só poderiam fazer parte de sua mente iludida, ou outro daqueles sonhos que vinha tendo com ele em uma frequência cada vez maior. Olhando para as próprias roupas, ela havia mesmo tomado banho, mas com ali no banheiro depois de ter segurado seus cabelos enquanto a mulher vomitava? E não havia a menor possibilidade de ele ter ficado ali ao seu lado, como aconteceu na tarde dos filmes. Quer dizer, acordou completamente sozinha e…
Sacudiu a cabeça. Com certeza havia sido um sonho. Delírios de bêbada.
Ao se virar de bruços outra vez, ela suspirou demoradamente e só naquele momento se deu conta do cheiro gostoso vindo do travesseiro. Um cheiro de perfume masculino, o qual a mulher levou meio segundo para identificar a quem pertencia.
A intensidade dava a impressão de que havia acabado de sair dali e, de repente, soltou mais um grunhido irritado.
Por que ele sempre fugia depois que ela dormia?
Tudo bem, se aquilo era verdade, seria a segunda vez, mas não queria que fugisse. Ela queria acordar com os braços dele ao seu redor, daquele jeito aconchegante só dele, com um cuidado que a fazia se sentir a mulher mais segura do mundo.
Seria errado pedir aquilo a ele?
Não importava. o faria. Estava cansada de ficar cogitando possibilidades e seus amigos tinham razão.
Subitamente decidida a não passar o dia todo na cama, se sentou, se espreguiçou e franziu o cenho ao tentar ignorar as dores. Ia colocar alguma coisa no estômago e tomar logo uma aspirina antes que sua cabeça de fato explodisse.
No entanto, antes que a mulher colocasse o pé para fora da cama, a porta foi aberta devagar, e ela instintivamente se deitou novamente. Provavelmente era Julieta, ou seu pai, prestes a lhe darem algum sermão pelo fiasco da noite passada.
Quando se deu conta de que não era nenhum dos dois, ela sentiu como se seu coração resolvesse tocar bateria dentro do peito e aquela mesma sensação do corpo inteiro esquentar. A figura de ali já era o bastante para causar aqueles efeitos, mas a bandeja com café da manhã que ele trazia para ela simplesmente era demais.
Como aquele homem podia ser
real?
Ela se desarmou por inteiro. Só podia estar sonhando ainda.
— Aposto que você achou que eu tinha deixado você sozinha outra vez, certo? — O sorriso exibido por ao vê-la acordada era lindo, e estava completamente encantada, tanto que precisou despertar para respondê-lo.
— Para falar a verdade, sim, mas também pensei que estivesse sonhando — ela soltou, sem nem refletir em suas palavras.
O sorriso de aumentou enquanto ele se aproximava. se sentou outra vez, e o homem colocou a bandeja diante de si. Não era nada muito exagerado, apenas uma tigela com algumas frutas, um copo com suco de laranja e um comprimido em um pires.
— Pensei que acordaria com fome. — a observou, enquanto a mulher analisava tudo sem conseguir conter o sorriso. — E com dor de cabeça — completou, e ela olhou mais uma vez para o comprimido.
— Qualquer dia desses eu vou acabar descobrindo que você realmente não existe, . — Simplesmente não era possível.
Uma risadinha rouca escapou dos lábios dele, que continuou a prestar atenção nela e a acompanhou quando a mulher tomou o remédio, bebeu um gole de suco e pegou o garfo para começar a comer.
— Então, isso costuma acontecer com você? — puxou assunto, e ela tornou a encará-lo no rosto, com uma expressão confusa. Segundos depois, pareceu entender e fez uma careta.
— Não! Não, eu juro que não. Para falar a verdade, consigo contar nos dedos quantas vezes na vida cheguei àquele ponto. Me desculpe por isso, . — Estava se sentindo péssima, principalmente porque as cenas dele a trazendo para casa e cuidando dela voltavam à sua mente. Não podia acreditar que havia feito fiasco na frente dele, e aquilo a deixou um tanto agoniada. — Sério, me desculpe mesmo. Acabei vendo umas coisas que me deixaram mal, e de repente eu só queria esquecer de tudo, sabe? Foi um jeito bem idiota, mas…
— — a chamou gentilmente, ao perceber que ela estava de fato preocupada.
— Eu?
— Não se preocupe. Não é como se eu nunca tivesse tomado um porre na vida, sabe? Eu jamais a julgaria por isso. — Abriu mais um pequeno sorriso ao concluir sua fala.
o encarou por alguns segundos, piscou os cílios devagar e então sorriu em travessura.
— Você tomando porre? Está aí algo que eu jamais conseguiria imaginar — brincou, então comeu um pedaço de kiwi e se controlou para não fechar os olhos com aquilo. Ela simplesmente amava aquela fruta.
— E por que não? — ergueu uma sobrancelha, em um misto de indignação, surpresa e vontade de rir com ela.
— Porque você é você, sabe? O . — O olhou significativamente.
— Estou em um dilema entre te contar a verdade sobre mim, ou deixar que descubra, senhorita .
A princípio, não era intenção dele que a frase soasse tão sugestiva, mas sempre havia algo nos olhos de que despertava tantas coisas que ficava cada vez mais difícil de conter seus impulsos.
Um arrepio percorreu o corpo da mulher ao ouvir as palavras dele. Conseguia imaginar várias coisas que gostaria de descobrir com . Mesmo que quisesse, simplesmente não fez questão alguma de se controlar.
— Normalmente, eu sou uma pessoa bem curiosa, mas tenho a impressão de que vou adorar descobrir, senhor . — Ele quem havia começado, ela estava apenas devolvendo.
E aquilo o havia atingido em cheio. Se antes já imaginava, de repente se viu desviando seu olhar para conter mais uma vez o desejo de fazer tudo o que as palavras implícitas sugeriam, porém as coisas só pioraram quando seus olhos pousaram nas coxas descobertas da mulher. ainda usava apenas a camiseta grande, e, naquele momento, a peça estava tão levantada que ele quase podia ver sua calcinha.
Também não era a sua intenção continuar a olhar, odiava a ideia de desrespeitá-la de alguma forma, mas, de repente, desviar sua atenção dali ficou ainda mais difícil. queria tocá-la. Queria sentir qual seria a textura de sua pele e se era tão quente quanto o calor que ele percebia emanar de seu corpo, puxando o dele quando estavam próximos.
Por Deus, como alguém podia mexer tanto com ele? A ponto de momentaneamente esquecer tudo ao seu redor e apenas ver diante de si?
Porém haviam coisas que não podiam ser ignoradas. Coisas que sua consciência praticamente gritava em seu ouvido e, por esse motivo, suspirou longamente e fechou os olhos por um segundo antes de mirar os dela.
— … — murmurou, numa tentativa de usar um tom de repreensão que acabou por expor o quanto ele se sentia torturado.
— O quê? — Ela fingiu inocência, ergueu uma sobrancelha para ele e mordeu um sorriso ao pescar mais uma fruta da tigela, para depois colocá-la na boca e mastigar com gosto. não havia só percebido como sentido a intensidade do olhar de sobre ela, o que mais uma vez causou ondas de arrepios por todo o seu corpo.
A forma como o homem deixava claro que estava afetado a instigou, e abriu um pouco mais as pernas. Ela poderia colocá-las em volta dele naquele momento se era o que desejava.
— Não faça isso comigo. — A voz dele ecoou tão rouca que fez sorrir ladina.
— Fazer o que, senhor ? — Não, ela não podia atiçá-lo daquele jeito. Não podia convidá-lo a tocá-la a cada gesto que fazia.
ainda estava fragilizada com os últimos acontecimentos, a noite anterior havia deixado bem claro, sem falar em todos os outros motivos que o impediam de simplesmente se livrar daquela bandeja e a puxar para si.
— Acho que você sabe muito bem, senhorita — conseguiu falar, um pouco mais firme.
— Outra coisa que eu vou ter que descobrir, pelo jeito. — lambeu os lábios e o fez acompanhar o gesto com o olhar, então mais uma vez se deliciou com um pedaço de kiwi.
Por alguns minutos, permaneceu apenas a observá-la, a percebeu escolher mais da mesma fruta e acabou por sorrir com aquilo. Ele não sabia como responder ao que a mulher havia falado sem acabar se deixando levar mais uma vez pelo quanto a queria. E precisava ser prudente. Não queria se afastar dela, mas tinha que entender que estava fora do seu alcance, pelo menos naquele momento.
— Como está se sentindo? — Acabou questionando, depois de um silêncio confortável entre os dois.
sorriu e adorou o fato de ele ainda estar ali, cuidando dela.
— Bem melhor. — Então, num gesto impensado, levou sua mão até a dele e a segurou. — Obrigada, . Por tudo.
— Sem problemas. — retribuiu o sorriso e apertou seus dedos contra os dela.
Como na primeira vez em que haviam se tocado, um calor gostoso irradiou, e nenhum dos dois queria se afastar, mas sabiam que era preciso. Foi ela quem tomou a iniciativa, pigarreou baixinho e colocou uma mecha de cabelo para trás da orelha.
— Sério. Se não fosse por você, sabe-se lá o que poderia ter acontecido, onde eu poderia ter acordado… — Se sacudiu ao sentir um arrepio ruim com o pensamento.
— Se depender de mim, não tem a menor possibilidade de algo ruim te acontecer, .
E mais uma vez a mulher quis agarrá-lo só por aquilo. Que desgraça de homem!
— Você me deixa mal-acostumada assim. — Riu fraquinho, e o viu abrir mais um daqueles sorrisos perfeitos.
— Não ligo se ficar. — Piscou, então desviou o olhar para o celular dela em cima do bidê ao lado da cama. — Anota o meu número. Sempre que você precisar, não importa a hora, pode me ligar.
mal pôde esconder sua reação ao gesto. Seus olhos se arregalaram levemente e ela riu mais uma vez.
— Sabe, eu estou admirada por estarmos trocando telefones só agora. Faz o que, dois meses que cheguei aqui?
Não que aquilo fosse obrigatório, ou algo do tipo, mas era engraçado, levando em conta a amizade que surgiu entre eles.
— Confesso que fico longe do meu sempre que posso, mas se você tivesse um assessor como o Todd, iria entender. — Uma careta tomou suas feições.
— Não me julgue se eu acabar não gostando do Todd de cara se falar com ele algum dia desses, viu? Se julgar, vou contar que foi você que fez a caveira dele. — A mulher estreitou seus olhos, então desbloqueou o celular e o entregou a .
soltou uma risada mais alta com as palavras dela e pegou o aparelho, um tanto confuso.
— Anota o seu número aí, . Prometo tentar deixar a sua experiência mais interessante. — Piscou para ele, com uma expressão divertida. sabia que, mais uma vez, as coisas poderiam caminhar para um outro tipo de conversa, porém não se importava, adorava vê-lo afetado.
— Vou cobrar isso, . — riu baixo e ficou olhando a foto do fundo de tela do aparelho por alguns segundos. Era ela fazendo graça com Carter e os outros amigos. — Gostei da foto.
— Sua irmã sabe se divertir. Ela sempre vem com algum lugar diferente para irmos. — manteve seu olhar nele, enquanto o homem anotava seu número.
— Não diga a ela que falei isso, mas a Carter é a melhor companhia para todos os momentos. Sempre admirei isso nela. — sorriu, então devolveu o celular a ela para que salvasse o contato da forma que quisesse.
— Vou te mandar um “oi” pra você salvar o meu também. — desviou seu olhar para o telefone e, depois de gravar o número de , abriu mais um sorriso para o homem. — Pode ficar tranquilo, não vou falar nada. Mas é bonito o jeito que você fala dela. Me faz desejar ter tido algum irmão também.
— Sua mãe não se casou novamente, então?
— Não. E talvez eu apenas seja uma romântica incurável, mas tenho certeza de que ela ainda gosta do meu pai. — sorriu novamente ao ouvir aquilo.
— Charlie nunca a superou também. Ele já me falou tanto na sua mãe que se um dia eu encontrá-la, vou sentir como se ela já fosse uma grande amiga.
De repente, o pensamento de como seria conhecer a mãe de cruzou sua mente e procurou afastá-lo o mais rápido possível, principalmente por imaginar circunstâncias diferentes de uma simples visita da mulher, por exemplo.
Céus, ele realmente precisava voltar à razão.
— Quem sabe um dia os dois não se reencontram, não é? — O olhar dela indicava que tinha mesmo esperanças. — Acho que ela vai gostar de você, mas quem não gosta? — Riu baixinho.
— Não se engane. Já ouviu falar na minha concorrente? — Era engraçado como os assuntos fluíam entre os dois e, por aquele motivo, sempre perdiam qualquer noção do tempo.
— Aquela Italia alguma coisa? — fez uma careta. — Ela é uma babaca.
O comentário o fez rir.
— Pelo jeito, já ouviu mesmo. Sim, a própria.
— Ela claramente não te conhece, . Sempre faz suposições totalmente absurdas sobre você. Mas nunca deixe ela te atingir. — O encarou nos olhos com uma intensidade que denunciava a preocupação dela em relação àquilo.
— Não deixarei. — retribuiu o olhar e de repente se viu perdido nas írises dela.
Definitivamente, havia algo naqueles olhos capaz de bagunçar tudo dentro dele. Talvez fosse aquele brilho, que sempre o fazia lembrar o da lua sobre o mar.
Durante todo aquele tempo ali naquela manhã com ela, se questionava se lembrava de suas últimas palavras antes de adormecer. A mulher não havia dado sinal, sequer tocou no assunto, então era provável que não lembrasse, porém, a única maneira de ter certeza seria questioná-la.
E o homem estava prestes a fazê-lo, porém foi quem quebrou o silêncio.
— Falando em concorrentes, você não tem nada marcado para hoje, não? — A pergunta era apenas por curiosidade e sabia disso, mas acabou deixando uma expressão indignada se formar apenas para brincar com ela.
— Está me expulsando do seu quarto, ?
arregalou os olhos e abriu a boca em surpresa.
— Claro que não, seu bobo. Estou só perguntando, porque não quero ser a causa do infarto do seu assessor se você perder algum compromisso.
Ela tinha razão, é claro. Todd teria mesmo um infarto e, sim, tinha um compromisso às dez e quinze da manhã.
Foi a vez do homem arregalar os olhos.
— Que horas são? — , que ainda estava com o celular em mãos, apenas acendeu o visor.
— Nove e quarenta.
— Certo. Todd está a salvo, mas precisarei correr. — Ele se adiantou para pegar a bandeja, porém o impediu.
— Não se preocupe com isso. Eu levo para a cozinha. — Sorriu e o viu retribuir e se levantar da cama. — Obrigada, .
Mesmo à contragosto, ele se afastou, então parou diante da porta e se virou para encará-la mais uma vez.
— Tenha um bom dia, senhorita .
o observou por inteiro, sem conseguir disfarçar o quanto aquele homem mexia com ela. De repente, a mulher nem mesmo se lembrava das dores da ressaca.
Se pudesse, o puxaria de volta e não deixaria que saísse dali, mas precisava se controlar, então se limitou a apenas respondê-lo.
— Você também, senhor .
💋
Conforme os dias passavam, ficava cada vez mais fácil para deixar para trás qualquer lembrança de Pietro e Brooke, ou seus sentimentos por eles. A companhia de seus amigos, assim como os trabalhos e provas que começaram a surgir na faculdade, ajudavam e muito naquele processo, porém não podia negar, ter por perto era o que mais tornava fácil seguir em frente.
Os dois não se encontraram muito depois daquela manhã. No entanto, passaram a trocar mensagens com uma frequência cada vez maior. , que costumava evitar mexer no celular sempre que podia, de repente já não o fazia mais, pelo contrário, se via acender o visor a cada oportunidade que recebia, na espera de encontrar alguma mensagem dela, e mal escondia o sorriso quando acontecia.
Nenhum dos dois via algo ruim naquilo. Sim, as perguntas com outras intenções implícitas continuavam, assim como as provocações e o desejo de saber qual seria a reação do outro, mas repetia várias vezes mentalmente que os dois eram apenas amigos e precisavam permanecer daquela forma. Talvez o correto fosse se afastar da mulher, mas aquilo estava completamente fora de cogitação. fazia bem a ele, mesmo quando não estava fisicamente ao seu lado, e sentia o mesmo.
Eles não voltaram a conversar sobre a noite em que cuidou de . Embora o homem desejasse saber se ela se lembrava das palavras que trocaram, algo o impediu e ele não sabia explicar o motivo. Quem sabe fosse um receio de constatar que realmente não se recordava de nada, ou talvez de descobrir o contrário e ter de lidar com todos os sentimentos que aquilo despertava nele.
De qualquer forma, não haviam surgido tantas oportunidades para que conversassem a sós. Todd reforçou a agenda de compromissos de , principalmente porque ele foi fotografado na boate em que foi buscar e Carter. Especulações surgiram sobre o candidato estar caindo na farra junto à irmã, e Phillips vinha enchendo sua paciência desde então, deixando claro que precisava de outras ações para que tudo fosse esquecido o mais rápido possível.
E falando em esquecer, fez questão de deletar tudo o que tinha a respeito de Pietro e Brooke, além de bloqueá-los em todas as redes sociais. A sensação de alívio que sentiu ao fazê-lo foi realmente libertadora.
Naquele dia, ela estava animada. Não aconteceria nada de especial, era apenas um dia comum na universidade, mas a mulher havia despertado com um enorme sorriso no rosto e tanta disposição que até saiu mais cedo de casa, decidida a malhar na academia da faculdade para depois ir às aulas.
A quem queria enganar? A maior parte de sua animação possuía nome e sobrenome, e, naquela manhã, assim como em várias outras, ela havia acordado com uma singela mensagem de bom dia.
Desejou que ao menos o visse mais tarde, quando voltasse.
sabia bem o quanto aquele caminho era perigoso, porém não conseguia evitar. Estava cada vez mais envolvida por .
— Juro que uma hora dessas eu vou roubar o seu celular só pra ver o que tá rolando aí. — A voz de Carter ecoou, numa tentativa sem sucesso de despertar a mulher dos seus pensamentos, enquanto mantinha o olhar fixo na tela do aparelho.
Os cinco amigos estavam reunidos em um dos bancos da área aberta do campus para aproveitarem o belo dia de sol.
Mesmo não estudando ali, a jovem de vez em quando aparecia, e conseguia imaginar qual seria o real motivo, mas, quando questionada, Carter apenas disse que estava conhecendo o ambiente, porque pretendia estudar ali no próximo semestre.
— Pelo jeito é importante, hein? Ela nem te escutou. — Kyle entrou na onda.
Nenhum deles realmente tomaria o celular dela, apenas pegavam em seu pé, já que a mulher estava um tanto distraída da conversa do grupo.
Daria, sentada do lado direito de , deu uma cutucada leve na costela da amiga, que pulou de susto.
— Tá maluca, garota? — arregalou os olhos e passou a mão na região, porque, mesmo que o gesto tivesse sido fraco, ela sentiu o desconforto. — Eu podia ter virado a mão na sua cara por causa disso!
Não era mentira. costumava ter algumas reações exageradas quando era pega de surpresa. Madison havia descoberto aquilo quando tentou assustá-la no banheiro um certo dia.
— Minha mandíbula tá doendo até hoje com o tapa que essa ogra me deu. — Maddie fez uma careta e arrancou algumas risadas do grupo.
— Primeiro, ogra é você. E segundo, Carter, não tá rolando nada. — abriu um sorrisinho para a amiga que dizia exatamente o contrário.
— Ah, mas tá rolando, sim! Você não sabe disfarçar, sua ridícula. — Carter estreitou os olhos, e gargalhou.
— Se não tá rolando mesmo, você não vai se importar se eu pegar seu celular rapidinho, né, amiga? — Daria fez menção de que realmente ia fazê-lo, e reagiu instintivamente, tirou o aparelho de cima da mesa e revirou os olhos ao perceber que tinha caído na armadilha dela.
— Tá legal. Eu conto — suspirou derrotada, porém não disse mais nada além disso. Ficou só encarando os amigos.
Kyle não levou nem dois segundos para perceber o que ela estava fazendo.
— Ela tá enrolando pra que dê o horário da próxima aula, hein. Essa tática aí é minha. Quero os direitos por isso, .
— Cala a boca, Beltane! Você disse que eu podia usar quando quisesse. — Como o rapaz estava sentado ao lado de Carter e de frente para ela, se inclinou e quase se desequilibrou para dar um tapa nele.
— Segura a emoção aí. Não tô lembrado disso, não.
— Para de ajudar ela a enrolar, garoto! — Dessa vez foi que o estapeou, e todas as garotas riram da expressão indignada de Beltane.
— Vocês são muito violentas.
— Achei que você gostasse de uns tapas, meu bem. — abriu um sorriso malicioso, e até ele riu dessa vez.
— , desembucha! — Carter insistiu, porém, naquele momento, o celular vibrou, notificando uma nova mensagem de , e nem teve tempo de tapar o visor, porque todos os quatro se inclinaram para vê-lo.
— Ah, sua safada! — Daria soltou uma risadinha animada.
— Não acredito que você tá trocando mensagens com o gostosão e não contou pra gente! — Madison não escondeu a indignação.
No começo, era um tanto estranho falar de na presença de Carter, mas a garota nunca se importou com aquilo e até concordava quando chamavam seu irmão de gostoso. Adorava dizer que era a genética dos .
— Pela cara do Kyle, ele sabia. — Foi o que ela comentou e estapeou o amigo mais uma vez.
— Acho que foi por isso que ela não contou. Vai que vocês resolvem encher ela de tapas também? — Beltane fez uma careta.
— Desde quando vocês trocaram telefone? — Daria indagou curiosa, sem prestar atenção nos outros dois.
— Gente, vocês são muito exagerados. A gente troca mensagens desde o dia que ele foi lá nos buscar na
Heaven. — viu Carter e Maddie abrirem a boca para dizer algo, porém ela as interrompeu. — Não tem nada demais. Ele me conta o que tá fazendo, eu faço o mesmo e acabamos emendando algum assunto. — Deu de ombros.
abriu um sorriso malicioso para ela e negou com a cabeça.
— , … Não banque a inocente, amiga. Meu irmão nem gosta de mexer no celular. Se ele tá falando com você, tem coisa aí, sim.
Sem conseguir se conter, abriu um pequeno sorriso, adorando ouvir aquilo. Claro que havia, sim, comentado com ela sua aversão ao próprio telefone, mas era diferente ouvir alguém comentar de fora, ainda mais esse alguém sendo a irmã dele.
— Tá vendo só? Aproveita, garota. Investe logo nesse macho, ou vou roubá-lo de você! — Daria brincou, e arqueou uma sobrancelha.
Mesmo tendo todos os motivos do mundo para não confiar em ninguém, ela sabia que Vandervoot não falava sério. Até porque Daria havia superado o crush em Kyle e estava de rolo com um outro colega da universidade.
— Vocês estão esquecendo que ele é uma pessoa pública.
Carter bufou alto e revirou os olhos.
— Socorro, você pareceu o Todd falando agora.
Aquilo arrancou uma careta de , mas, por mais que o assessor de fosse bastante irritante — e ela dizia aquilo apenas por relatos de e Carter, já que ainda não teve chance alguma de interagir com ele —, não estava errado.
— Credo, garota! Mas nisso ele até tem razão, sabe?
— Então você pega o cara escondido. Pronto, resolvido.
— Kyle! — o repreendeu um tanto risonha. Tinha certeza de que, algum dia desses, os amigos a jogariam em cima de .
Não que ela achasse ruim, é claro. Mas estava tentando fazer o certo.
— É sobre isso. Escondido é até mais gostoso. — pôde jurar que Madison trocou um olhar com Carter ao dizer aquilo, mas qualquer comentário que pudesse fazer foi interrompido por Daria.
— Temos que voltar, gente. Tá em cima da hora, e o Figgins não deixa ninguém entrar depois que começa a aula, não esqueçam. — Já foi se levantando, e apenas Carter não imitou seu gesto.
— Mais tarde combinamos alguma coisa. Tem um pub que acho que vocês vão adorar. — sorriu quando os quatro se despediram dela.
— Me diz que tem música ao vivo nesse pub. Se eu passar mais uma noite ouvindo música eletrônica, vou enlouquecer — Maddie resmungou.
— Relaxa, meu anjo. Hoje tem cover do The Neighbourhood. — Vandervoot suspirou aliviada e agradeceu. — , espera aí que eu quero falar com você.
viu Kyle olhar em sua direção, como se questionasse se ela queria que ele ficasse também, porém a mulher apenas sorriu e negou com a cabeça. Beltane sempre agia daquela forma com ela, como se estivesse disposto a defendê-la em qualquer situação.
— Podem ir. Eu alcanço vocês — dispensou as amigas, então se sentou ao lado de Carter. — Diga, amiga.
— Não vai ler o que ele te mandou? — indicou o celular na mão de , que franziu o cenho, um tanto confusa, mas logo entendeu tudo.
— Carter… — começou e ficou tensa de repente, como se estivesse prestes a ser xingada.
— Tô só zoando com você, meu bem. — Riu ao negar com a cabeça, então estalou a língua. — Eu só quero te dar um conselho, amiga. Não dê ouvidos ao Todd.
— Nunca falei com ele, só sei o que você e o me contam.
— Mas se em algum momento ele te falar algo, prometa que não vai dar ouvidos. — se endireitou para que pudesse olhar bem nos olhos de , anormalmente séria.
— Certo. — não sabia mais o que dizer, então apenas esperou ao sentir que a amiga diria mais algo.
— Falo sério, amiga. O Todd é um babaca e acha que meu irmão tem que agir como se fosse um robô sem sentimentos que nem ele é.
ficou intrigada com aquilo. Será que havia acontecido algo entre ela e Todd?
— Carter, você e o Todd…
— Não. Mas é o sonho dele. Por isso enche o saco toda vez que eu apareço em algum tabloide.
— Como assim? E seu irmão sabe disso?
— Sabe. Nós não costumamos esconder nada um do outro, . E é por isso que digo pra você não ouvir o Todd.
suspirou fundo, então abriu um pequeno sorriso.
— Prometo que não irei.
As duas ficaram em silêncio por alguns segundos, então Carter o quebrou.
— Quando a Amy se foi, levou todo o brilho que o tinha. Eu não acreditava que as pessoas pudessem mesmo chegar ao ponto de viver apenas por viverem até ver acontecer com o meu irmão. Uma parte minha morreu junto a ela, mas ele simplesmente se apagou, sabe?
prestou atenção em cada palavra e percebeu os olhos da amiga ficarem mais brilhantes conforme ela falava. Carter nunca havia se aberto daquela forma.
— Então um dia eu cheguei em casa e estava rindo. Eu me assustei, porque fazia tanto tempo que ele não ria! — riu baixinho e abaixou o olhar para encarar as unhas. — Ele estava conversando com você nesse dia, . — Então se voltou mais uma vez para a amiga, que não disfarçou a surpresa.
Com os olhos levemente arregalados, sentiu seu coração bater tão forte que tinha certeza de que Carter podia ouvi-lo.
Naquele momento, uma certa lembrança tomou seus pensamentos. Bem, na verdade, ela não sabia se era mesmo uma lembrança, porque não havia mencionado nada sobre o assunto.
“Confesso que eu não procurei pelo meu ponto de luz. Ele simplesmente entrou pela porta da minha casa e ficou admirando meu piano”.
— Você faz bem ao meu irmão, e eu sei que ele também te faz. É por isso que apoio vocês juntos.
— Carter… — suspirou e de repente seus próprios olhos marejaram.
— É sério, amiga. Só que o é cabeça dura com algumas coisas. Com certeza ele tá pirado com a ideia de você ser mais nova, ou achando que o Charlie vai bater nele.
riu fraco.
— E o que eu devo fazer?
— Faz ele ver que não tem nada de errado em ser feliz.
— Quem é você e o que fez com a Carter? — brincou para descontrair, porque não sabia como responder àquilo.
— Vai te catar, sua boba! — esbarrou seu ombro no dela, depois a puxou para um abraço.
a apertou contra si e só percebeu naquele momento o quanto precisava daquilo.
— Agora lê a mensagem. — Tornou a indicar o celular quando as duas se afastaram.
Negando com a cabeça, desbloqueou o visor e leu o que havia escrito.
Por acaso você tem planos para hoje à noite, senhorita ?
Um tanto surpresa, a mulher estreitou os olhos e encarou Carter.
Ela sabia que o irmão planejava algo.
— O que vocês estão aprontando? — questionou desconfiada.
— Eu, nada. Responde de uma vez.
ia retrucar, mas sabia que não adiantaria nada, então voltou a mexer no celular.
Além de fazer um balde de pipoca e maratona de Scream?
Acha que sobrevive uma noite sem sua maratona?
Depende do que você tem em mente, senhor .
Uma vez você me disse que sempre quis ver um espetáculo de Ópera.
Talvez eu tenha ingressos para o desta noite.
— Quê? — murmurou impressionada, olhou para Carter e viu a amiga com um meio sorriso estampado nos lábios.
— Não olha pra mim, foi ele quem teve essa ideia toda. Eu só falei que ele precisava parar de ficar pensando nas consequências de cada passo da vida dele. — Deu de ombros.
Era como se o coração de fosse pular do peito. Então, com as mãos um tanto trêmulas, num misto de surpresa, nervosismo e emoção, respondeu a mensagem.
Impossível recusar um convite desses.
Fico feliz que tenha gostado.
Te encontro às 19 horas, na frente do piano.
Combinado.
Mal posso esperar.
Eu também, senhorita .
Vou deixar uma coisa em cima da sua cama. Espero que me perdoe pela invasão.
🏛
tinha consciência de que Todd falava com ele, mas, honestamente, não prestava atenção a uma palavra sequer. Desde o momento em que soube a respeito do espetáculo em cartaz no
Hippodrome Theatre, não conseguiu se concentrar em nenhuma outra coisa. Foi inevitável não pensar em . A mulher era apaixonada por música clássica e, vez ou outra, os dois conversavam sobre musicais e apresentações de canto lírico.
O sonho da era ir a um espetáculo daqueles. Nunca havia tido a oportunidade, porque não tinha Ópera na sua cidade em Ohio e, mesmo que houvesse, ela não sabia se teria condições de ir a alguma.
Encarando seu celular, posto em cima da mesa de reuniões, enquanto Todd Phillips continuava tagarelando e discutindo estratégias de campanha com sua equipe, ponderou se seria sensato fazer o que tinha em mente.
Se convidasse a ir com ele, o que aquilo seria? Um passeio entre amigos? Um encontro?
Algo dentro dele dizia que sabia exatamente qual era a resposta e, ao mesmo tempo em que sentia um certo nervosismo e um anseio por aquele significado, havia também aquele lado de sua consciência gritando todos os motivos pelos quais o homem não podia se envolver com .
Enquanto pensava naquilo, uma certa voz ecoou nítida em suas lembranças recentes.
Quando chegou em casa naquele dia, não podia negar que desejava encontrar mais uma vez, porém estava um pouco tarde. O candidato ficou preso na gravação de mais uma entrevista que viria ao ar na noite seguinte e, embora não encontrasse nenhuma dificuldade em responder cada pergunta recebida, não conseguia parar de pensar no que havia acontecido, ou se preocupar com o estado de , já que não a via desde a manhã em que acordou ao seu lado.
Como os dois trocaram telefones e conversavam com uma frequência cada vez maior, poderia simplesmente mandar uma mensagem questionando se a mulher estava bem, mas algo lhe dizia que naquele dia não seria o bastante. realmente queria vê-la, e um certo incômodo deixava claro, ele sentia saudades dela.
A meio caminho de seus aposentos, o homem fez uma careta e por fim cedeu ao impulso de seguir por outro corredor que o guiaria até o quarto de . Não faria mal algum bater à porta dela apenas para lhe dar um breve ‘boa noite’, ver se estava tudo certo e olhar para ela mais uma vez.
Um alerta piscava em sua mente. Aquele mesmo que continuava repetindo que não vê-la era bom, assim não se envolveria. não podia se envolver.
Mas o que ele faria se já estivesse envolvido? Ir até o quarto dela assim, sem mais nem menos, não era um sinal de envolvimento?
— Perdeu a viagem, maninho. Ela não está aqui. Foi encontrar com o pessoal no Black Roses.
mal teve tempo de assimilar o momento exato em que sua irmã saiu do quarto de , segurando o que parecia ser um casaco preto em mãos, enquanto fechava a porta atrás de si com a outra e o olhava como se estivesse prestes a fazer algum comentário sugestivo.
— Carter? — Foi tudo o que o homem conseguiu dizer, ainda confuso. De todas as possibilidades, ele sequer havia cogitado encontrá-la por ali.
— Desculpa te desapontar, mas, sim, sou eu. — E ali estava o tom de malícia, insinuando que ela sabia o motivo do irmão estar ali melhor do que ele mesmo.
— Deixe de ser boba. Não estou desapontado, apenas surpreso em te encontrar saindo do quarto da . — riu, ao tentar disfarçar um certo nervosismo ao ser “pego em flagrante”.
— Jura? Acho que posso dizer o mesmo de te encontrar prestes a entrar ali. — Carter piscou e abriu um sorriso esperto.
O mais velho balançou a cabeça em negação. No entanto, o que diria?
Outra vez, ele sequer teve tempo para formular uma resposta.
— Relaxa. Vou fingir que não vi nada, prometo. — Ela juntou os dois dedos indicadores, deu um beijinho e piscou os olhos, numa tentativa de expressão angelical que funcionaria com qualquer pessoa, menos com seu irmão.
— Mas o que você estava fazendo ali, afinal? Por que não foi ao Black Roses também? — tentou desviar o foco da conversa, se encostou na parede atrás de si e cruzou a perna direita.
Carter ergueu uma sobrancelha, numa indagação muda se ele realmente estava usando aquela tática com ela, porém o respondeu mesmo assim.
— Eles foram direto pra lá depois da aula. Estou indo encontrar com eles agora, e a me pediu pra levar essa blusa. — Mostrou a peça em sua mão. — Algum idiota derramou cerveja nela.
Foi a vez de arquear uma sobrancelha, e Carter sorriu maliciosa com sua reação.
— Que foi? — Ele não conseguiu evitar questionar, sem entender a expressão da irmã.
— Não fique com ciúmes, maninho. Aposto que ela vai adorar saber que você estava procurando por ela. Se me deixar contar, é claro.
— De onde você tira essas coisas? — riu, sem conseguir enganar nem a si mesmo. — Só vim ver como ela estava, Carter. Desde aquele dia, me preocupo com . — Cedeu e confessou aquilo.
— Desde aquele dia, né? Você acha que consegue disfarçar, . E pra maioria das pessoas consegue mesmo. Mas eu sou sua irmã, lembra? Você baba pela só de ouvir o nome dela.
Mesmo acostumado com a sinceridade de Carter, o homem foi pego de surpresa e ficou momentaneamente sem fala. Era verdade que a cada dia precisava de mais determinação para lembrar que os dois eram amigos e só poderiam ser aquilo, porém não imaginava ter transparecido em algum momento a ponto de ser notado.
Então um outro sentimento tomou conta dele. O de que, mesmo brincando com aquilo, sua irmã achasse que ele traía a memória de Amélia.
Era a primeira vez que lhe ocorria aquilo. A primeira vez que se deu conta de que, depois de anos, havia olhado para outra mulher sem ser sua esposa.
Uma mulher bem mais nova, com a idade de sua irmã.
Por que ele sempre ficava preso àquele argumento da idade?
— ? — Pelo tom usado por Carter, ela já havia o chamado antes, e aquilo só se confirmou quando a mulher se aproximou do irmão e mudou a expressão divertida para uma um tanto preocupada. — Ei, olha pra mim.
O mais velho soltou um suspiro, então focou seu olhar nela e a fez odiá-lo pela milésima vez por ter roubado os olhos só para ele.
— Qual é o problema, maninho? — Era um tanto engraçado ouvi-la chamá-lo daquela forma, tanto pela sua idade, quanto pela altura dele.
abriu a boca e a fechou algumas vezes, incerto se deveria mesmo falar o que estava pensando.
— Ela está mexendo com você, não é? — Mais uma vez, Carter tomou a frente. Ele engoliu em seco e, por fim, acenou afirmando.
— Não deveria, mas está. E fica cada vez mais difícil fugir disso.
Aquela era a relação de e Carter. No fim das contas, sempre acabavam confidenciando tudo um ao outro. E, no fundo, ambos se sentiam gratos por aquilo.
— Mas por que você tá tentando fugir? — Um vinco se formou na testa dela, enquanto franzia o cenho, confusa.
— Porque não é certo, Carter. tem a mesma idade que você.
— E daí? — Ela continuava sem entender.
— Como assim, e daí? São quase onze anos de diferença, irmãzinha. — Foi a vez de ele ficar confuso.
— Não tô vendo o problema aí, . Você acha que eu nunca fiquei com pessoas da sua idade? — Carter ergueu uma sobrancelha, e o mais velho imitou o gesto.
— Ficou? — Sua pergunta ecoou apenas em um tom de curiosidade. Por mais cuidado que tivesse com a irmã, não gostava de interferir nas relações dela. Estaria ali sempre disposto a protegê-la se fosse preciso, mas sabia que ela também poderia fazer aquilo por si mesma.
— Nem preciso responder, não é? E o foco não sou eu, pare de desconversar! — ralhou, e quase o fez rir. — Você pensa demais sobre as coisas, maninho. Sempre foi assim. Lembra quanto tempo levou para você finalmente falar como se sentia para a Amy? Se teve uma coisa que a partida dela me ensinou, foi que a vida é curta demais para a gente ficar se preocupando com o que os outros vão pensar.
— Você está esquecendo de uma coisa. Charlie está entre essas pessoas, Carter.
— Eu tenho certeza de que o Charlie quer ver a filha dele feliz, . E vocês fazem isso um pelo outro até sem perceberem.
Não era muito comum ver Carter falar coisas daquele tipo e usar um tom sério como aquele. Normalmente, ela fazia comentários maliciosos, ou zoava dele. Mas a mulher via o quanto o irmão lutava contra aqueles dilemas e até o entendia, porém só queria vê-lo feliz no fim das contas.
ficou encarando o rosto da irmã por alguns segundos, se perguntou mentalmente quando ela havia amadurecido daquele jeito e obteve a resposta segundos depois. O luto fez aquilo com Carter, ou melhor, Amy fez.
Uma risada rouca escapou de seus lábios e, sem aviso, ele simplesmente a puxou para um abraço. A mais nova rapidamente envolveu a cintura dele e o apertou com força contra si. Carter havia convivido com o pai por um período muito menor que , e, por essa razão, o irmão representava também uma figura paterna a ela. E mesmo adorando bancar a durona na maior parte do tempo, a também precisava daquilo.
Sem dizerem nada, os dois permaneceram daquela forma, até que uma confissão baixinha escapou dos lábios de Carter.
— Sinto tanta falta dela, . — A quebra de sua voz denunciou o quase choro, e o mais velho a apertou um pouco mais.
— Eu também sinto. Todos os dias. E não sei o que fazer, irmã. Não quero trair a memória dela, ou… — Os olhos dele marejaram e foi a vez de sua fala falhar.
Carter afrouxou seus braços e se afastou para encará-lo mais uma vez.
— Olha só quem está sendo bobo agora, maninho. Não tem a menor chance de você trair a memória da Amy. Ela te amava e ia gostar de te ver feliz, seguindo em frente. Chega de pensar demais, de ficar medindo consequências, . Chama a pra sair e agarra logo essa mulher.
O último comentário o fez rir, então o homem olhou para cima, a fim de espantar as lágrimas e permitiu à irmã se desvencilhar dele.
Carter tinha razão, ele sabia daquilo. Ainda assim, a hesitação continuava presente.
— Eu não sei, Carter. Não consigo medir ou explicar como mexe comigo, e…
— Não precisa fazer isso agora, mas pensa em tudo que te falei, tá? E caso você ainda não tenha percebido e queira saber, você também mexe com ela”.
Carter estava realmente certa, então por que ainda hesitava? Por que ainda temia consequências? Por que se refreava?
Estava agindo feito um tolo. Não havia mal algum em chamar para ir à Ópera com ele.
Então, antes que sua consciência voltasse a desencorajá-lo, desbloqueou o celular e enviou a mensagem à mulher. Uma nova onda de expectativa cresceu dentro de si quando seu convite foi aceito.
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A sensação era de que voltava à sua adolescência. Durante o restante do dia, se esforçou ao máximo para se manter focado em seus compromissos, porque quem sabe assim as horas passariam mais rápido, e no início até funcionou. No entanto, conforme a noite se aproximava, a sensação de que algo revirava em seu estômago foi ficando cada vez maior e levou sua concentração junto.
Era engraçado ficar daquele jeito. Primeiro, porque ele já havia ficado completamente sozinho com antes e em diferentes situações. Segundo, porque jamais imaginaria que se sentiria daquela forma outra vez. Acreditava que, depois de Amy, não seria capaz de sequer olhar para outra pessoa, e, mesmo com todas as palavras de Carter sobre o assunto, não conseguiu evitar outra dose de culpa.
jurou amar e honrar a esposa até que a morte os separasse, e foi o que aconteceu. No entanto, quando a morte levou Amélia, ele teve a certeza de que seus sentimentos por ela iriam muito além daquilo. Por aquele motivo, seu luto foi tão doloroso, a ponto do homem duvidar ser capaz de se reerguer do abismo.
Até o dia em que conheceu .
Ao encarar seu próprio reflexo no espelho, se deixou mergulhar na própria expressão confusa e contida o tempo todo. Estava cansado daquilo. Cansado de pensar demais em tudo. E mesmo sem saber ao certo o rumo que as coisas entre ele e a tomariam depois daquela noite, decidiu que tentaria se arriscar.
Duas batidas na porta de seu quarto o fizeram virar para trás.
— Senhor , desculpe incomodá-lo. Só vim ver se ainda vai precisar de mim.
Ao encarar a figura de Charles , precisou se conter para não engolir em seco. Carter não achava que o homem fosse reagir de uma forma ruim se soubesse que estava prestes a sair com sua filha, porém o candidato discordava.
Charles precisou ser dissuadido de ir até Ohio quando soube o motivo do término do namoro de com Pietro, e aquilo era o suficiente para deixar claro que, mesmo não tendo estado completamente presente na vida da filha, faria de tudo para protegê-la.
— ? — repetiu, e só então percebeu que se perdeu novamente em pensamentos enquanto encarava o homem à sua frente.
— Não, Charlie. Pode ir descansar sossegado. — Incapaz de permanecer daquela forma, virou de frente para o espelho mais uma vez e ajeitou o colarinho da camisa social preta que vestia. Como ia a uma Ópera, calças e sapatos sociais compunham o restante de seus trajes, assim como o paletó também preto o faria assim que o vestisse. A única coisa que dispensou foi o uso da gravata e abriu os dois primeiros botões da camisa para não ficar tão formal assim.
— Tem certeza, senhor? — Charles insistiu, exatamente por ver que o chefe estava arrumado.
— Já falei pra não me chamar de senhor. — Riu um pouco para disfarçar a tensão. — Mas tenho, sim.
assentiu e abriu um sorriso de soslaio ao entender do que aquilo se tratava. ia sair com alguém e, mesmo com a natural curiosidade em saber quem era, não questionaria. Se quisesse revelar, ele o faria.
— Tudo bem então. Aproveite a noite.
Assim que a porta se fechou, se sentiu culpado mais uma vez. Deveria ter sido franco com o homem, no entanto, sabia que não o havia feito, porque uma parte sua temia alguma reação que o impedisse de sair com .
A ansiedade o fez seguir em direção à sala do piano com vinte minutos de antecedência. Depois da breve interação com Charles, cogitou se não deveria ter combinado encontrar em algum local diferente, porém não mudaria aquilo na última hora. Além disso, ele não estava fazendo nada de errado e precisava continuar tentando se convencer daquilo.
se serviu de uma pequena dose de uísque apenas para molhar a garganta e ficar um pouco mais relaxado e, depois de bebê-la, se sentou diante do piano, tentado a dedilhar as teclas mais uma vez. Não costumava sentir falta de tocar. Como ele mesmo havia dito, não era um grande pianista, mas de repente percebeu que agora sentia. Assim como ansiava pelo toque da mão de na sua.
Parecia que ultimamente tudo se convertia nela, tudo o fazia lembrar de algum momento que tiveram juntos.
— Você toca? — se surpreendeu ao ouvir a voz da e sorriu, porque sabia que ela se referia ao dia em que se conheceram.
imaginava o que veria, mas quando ergueu seus olhos em direção à mulher, sentiu seu queixo cair ainda assim.
O vestido de cetim, longo e com amarração nas costas, havia caído perfeitamente no corpo dela. havia prendido seu cabelo em um coque alto, com alguns fios soltos, expondo a pele de seu pescoço. A sandália com um pequeno salto e um tom prateado completava tudo perfeitamente, porém o maior destaque ia para o tom azul royal do vestido, que parecia ressaltar ainda mais o brilho nos olhos dela. escolheu uma maquiagem leve e destacou apenas seu olhar com um delineado e cílios bem moldados.
Quando os olhos de pararam nos lábios de , percebeu que um meio sorriso se formou ali, numa indicação de que já fazia um tempo considerável que apenas a encarava, sem piscar ou respondê-la.
Pigarreando baixo, o homem coçou a nuca, então se levantou.
— Você está linda, senhorita .
O sorriso dela se alargou mais, e já que havia a analisado tão minuciosamente, não haveria problema se ela fizesse o mesmo, certo?
Duvidava que alguma roupa ficasse feia naquele homem, mas aquele terno com a camisa preta havia lhe caído tão bem que não se importaria em ficar ali apenas olhando para ele.
De onde estava, a mulher conseguia sentir o cheiro inconfundível de e lambeu os lábios discretamente ao pousar o olhar na abertura de sua camisa. Aquele não era um bom momento para ela se imaginar abrindo botão por botão daquela peça.
— Olha só quem fala. — Deu alguns passos na direção dele, e engoliu em seco.
Que ideia havia sido aquela de convidá-la para ir à Ópera? Como conseguiria resistir a ela?
— Estava apenas tentando ficar à altura. — Piscou charmoso, e sentiu que poderia agarrá-lo por aquilo.
— Normalmente eu não discordo que sou linda e maravilhosa, mas acho que dessa vez o maior crédito é do vestido, tá? Obrigada, mas você não precisava ter comprado ele para mim.
mal havia acreditado quando finalmente entrou em seu quarto e encontrou a caixa branca com fitas prateadas sob sua cama. Após reprimir um grito, a mulher pegou o presente e sorriu maravilhada com o singelo bilhete que o acompanhava.
“Tenho a impressão de que vai combinar com seus olhos”.
.
— A graça é essa mesmo. Eu não precisava, mas achei que um presente e um convite para a Ópera seriam uma boa desculpa para nos vermos.
O coração de acelerou dentro do peito ao ouvir aquilo. Ele havia mesmo feito aquilo apenas para vê-la?
Podia escutar a voz de Daria em seu ouvido repetir que ela devia agarrar aquele homem de uma vez e isso a fez quase rir.
— Cuidado, senhor . Assim eu vou achar que está com saudades do meu rostinho.
— Não só dele. — estava tão hipnotizado por naquele momento que não controlava seus impulsos e nem queria.
Mais uma vez, a mulher ficou surpresa e afetada com aquela resposta. Ele não podia dizer coisas daquele tipo e esperar que ela apenas ficasse o olhando.
No entanto, por alguns segundos, foi exatamente o que a mulher fez. Estava embasbacada com ele desde o início do dia, mas naquele momento chegou a perder a fala.
— Vamos então? — quebrou o silêncio e estendeu seu braço para que ela o entrelaçasse.
— Vamos. — tentou não demonstrar como seu corpo tremia quando aceitou o gesto.
Toda vez que se tocavam, parecia que seus corpos se incendiavam, e naquele instante não foi diferente. sentiu o calor vindo dela, enquanto quase ficava sem ar com o dele. Ela podia simplesmente afundar seu rosto no pescoço dele, provar o gosto de sua pele e, enquanto pensava naquilo, não fazia ideia de que ele queria fazer o mesmo com cada parte exposta dela.
Durante o trajeto até o carro, até cogitou se encontrariam com alguém na casa. Não havia dito nada ao pai sobre sair naquela noite, mas ela normalmente não o fazia mesmo. Charles não era controlador e nem nada do tipo, porém não conseguia imaginar qual seria sua reação se ela dissesse que sairia com , muito menos se ele visse os dois.
A mulher achou no mínimo surpreendente não passarem nem por Julieta, que vivia “zanzando” pela casa, mas desconfiou que tinha dedo de alguém naquilo. Quem sabe de Carter?
Os dois continuaram a andar em silêncio até adentrarem o carro de e o homem dar partida.
— Então, você me chamou para esse espetáculo, mas não faço ideia de qual é. — virou o rosto para encará-lo, enquanto dividia sua atenção entre ela e a direção.
— É segredo. — O homem sorriu de canto, o que a fez estreitar os olhos.
— Você sabe que eu sou curiosa, . E a Carter não me deixou pesquisar o que está em cartaz.
Aquilo o fez rir alto.
— Só mais um pouco e você verá.
— Não acredito que os dois se uniram pra conspirar contra mim. — Fingiu estar emburrada e negou com a cabeça.
— Eu não diria que é contra, mas sim, eu e Carter sempre fizemos um bom time. — Seu tom orgulhoso a fez amenizar as feições.
— Pelo jeito vocês tocavam o terror quando eram mais novos.
— Literalmente. Qualquer época do ano era Halloween para ela, e eu sempre fiz de tudo pela minha irmãzinha.
Por alguns segundos, ficou imaginando os dois fantasiados por aí e se pegou suspirando.
— Acho linda a relação de vocês.
sorriu fraco.
— Nós acabamos nos afastando nos últimos tempos. A campanha me consome mais do que eu gostaria e teve a questão da Amy também.
— Não se culpe por isso. Pelo menos agora vocês estão correndo atrás do prejuízo, não é?
— Tenho a impressão de que eu poderia fazer mais, mas suponho que sim. — fez uma careta.
— A Carter te ama, . Tenho certeza de que ela entende que você faz o que pode. — tentou tranquilizá-lo, e ele assentiu em concordância, algo dentro dele aqueceu por conta daquele gesto.
Os dois passaram o restante do caminho desviando o assunto para outros mais descontraídos, e, assim que percebeu que chegavam ao enorme teatro, sua fala morreu e seus olhos ganharam um brilho imenso.
Ela nunca havia visto um lugar tão lindo, estava maravilhada e ansiosa para descobrir como era por dentro.
poderia dizer que apenas aquela visão já havia feito sua noite, porém não queria se despedir daquela mulher tão cedo. A companhia dela sempre tornava tudo leve e seu riso saía fácil.
— — o chamou, assim que o candidato estacionou o carro. — Vão reconhecer você, não vão? — Havia um certo receio na voz dela, e imaginou que a mulher poderia estar desconfortável com a ideia de ser exposta.
— Não. Nós vamos entrar por outra porta. — Piscou para ela, que soltou o ar aliviada.
Realmente, estava com medo da exposição e do que diriam. Não queria prejudicar a campanha de de jeito nenhum e sabia muito bem que qualquer coisinha poderia se tornar uma verdadeira bomba.
Perdida em pensamentos, tomou um pequeno susto quando a porta do carona se abriu e sorriu com o coração indo até a boca ao encarar com a mão estendida para ela.
Quando achava que aquele homem não poderia ser mais perfeito, ele ia lá e provava o contrário.
Dessa vez, sentiu a mão trêmula dela quando entrelaçou o braço de no seu e tentou tranquilizá-la.
— Ninguém vai nos ver.
No entanto, ela já não estava mais preocupada com aquilo e sim com o fato de que, durante aquela noite, estava praticamente vivendo um conto de princesas com .
Como tudo já estava combinado com os donos do local, os dois seguiram para a entrada lateral do teatro e foram guiados por um funcionário até um camarote isolado, de onde dava para ver o palco de um ângulo perfeito.
não sabia para qual lado dava mais atenção, estava simplesmente boquiaberta, sem conseguir acreditar que aquele lugar era real.
Sua imaginação não fez jus àquele teatro. A decoração impecável toda trabalhada em ouro, o grande lustre abarrotado de cristais, as cadeiras douradas com um estofado vermelho de veludo que combinava com o tom das cortinas fechadas, em um palco com pinturas renascentistas na parte da frente.
Aquilo tudo realmente era um sonho, só podia ser. Desconfiava de que durante todo aquele tempo estava apenas dormindo e quando acordasse se descobriria de volta a Ohio.
Riu baixinho de si mesma. Ela nunca mais pisaria em Ohio e faria de tudo para tirar sua mãe de lá.
— Fico feliz que tenha gostado — comentou, sem conseguir tirar os olhos de . A expressão maravilhada dela a deixava tão radiante e não havia visão mais linda em sua opinião.
— Eu não gostei, . Eu estou apaixonada por esse lugar. Se pudesse, moraria nesse teatro. Pelos deuses, obrigada! — Precisou de muito autocontrole para não pular no pescoço do homem e o abraçar com força.
Conhecer um teatro e assistir a uma ópera era um de seus maiores sonhos e estava o realizando graças a ele. Queria poder retribuí-lo a altura um dia.
— Continuo feliz por isso. — riu e indicou que ela poderia se sentar se quisesse. — Quer beber alguma coisa?
— Me surpreenda de novo, senhor . — Piscou para ele, simplesmente porque estava adorando o quanto acertava em tudo que se propunha fazer por ela naquela noite.
— Acho que podemos comemorar a sua primeira ida à Ópera com um champanhe. O que me diz? — o candidato sugeriu, e a mulher sorriu abertamente outra vez.
Para falar a verdade, as bochechas de até doíam de tanto que sorria.
— Primeira ida? — Ela ergueu uma sobrancelha, sem deixar de notar aquilo. sabia muito bem que a jamais conseguiria pagar para ir a um lugar como aquele, pelo menos não enquanto fosse apenas uma universitária.
Aquilo a fez pensar que precisava ir atrás de um emprego, mas deixou para refletir mais tarde.
precisava admitir, foi pego de surpresa pela pergunta. Não esperava que ela fosse se atentar àquilo, porém ele realmente escondia intenções por trás daquelas palavras.
— Não vejo por que não trazê-la aqui novamente, . — Sorriu simplesmente, e a mulher mais uma vez precisou se controlar.
— Fala a verdade. Você não existe, . É só uma invenção perfeita e gostosa da minha cabeça.
Uma sobrancelha dele se arqueou com aquilo e umedeceu os lábios.
— Me acha gostoso, é?
não se deu conta de suas palavras até aquele momento, no entanto, mesmo sentindo as bochechas aquecerem, ela também ergueu a sobrancelha de uma forma sugestiva.
— Não sou cega, senhor . Você é até demais para a minha sanidade.
Àquela altura, já esperava uma resposta daquelas. nunca recuava em suas provocações, e ele não tinha intenção alguma de fazê-lo naquela noite.
No entanto, antes que pudesse retrucar, ambos foram interrompidos pelo garçom, que trouxe a garrafa de champanhe e encheu as taças para os dois sem ter ideia do que acontecia ali.
Trocando olhares um tanto risonhos, e beberam do champanhe após se acomodarem nos assentos. Um silêncio confortável reinou entre eles, até que as luzes do ambiente foram diminuindo e suas atenções se voltaram para o palco.
se empertigou em seu lugar. Estava inquieta. Finalmente descobriria qual era o espetáculo da noite, embora nem ligasse de não ver nada para apenas permanecer ali ao lado de .
Quando as cortinas se abriram, no entanto, a mulher arregalou os olhos e levou a mão à boca ao reconhecer o cenário, os figurinos e até mesmo a primeira nota entoada pela intérprete.
Se sentiu idiota por não ter prestado atenção em nenhum cartaz na área externa do teatro, mas no fundo sabia que não havia como ter percebido. Não quando estava com o braço enroscado no dela.
— … — Ela o olhou e seus olhos marejaram de tão emocionada. — , como assim?
— Esse é o seu musical favorito, não é? O Fantasma da Ópera.
— Caramba! Eu poderia beijar você agora por isso! — Num impulso, as palavras foram ditas sem filtro, e, quando ela percebeu aquilo, suas bochechas esquentaram outra vez.
teve vontade de retrucar que estava ao seu dispor, no entanto, em questão de segundos, foi completamente arrebatada pelo musical.
A mulher era apaixonada demais por O Fantasma da Ópera. O enredo, as músicas cantadas, a atmosfera trágica e ao mesmo tempo sombria de tudo mexiam com ela na medida certa, e, durante o espetáculo, até mesmo cantarolou baixinho algumas canções.
, por outro lado, não conseguiu focar sua atenção completamente. Mesmo se não conhecesse a história, provavelmente, ainda assim, continuaria a observar a mulher ali consigo a todo momento. A expressão radiante dela o deixava vidrado simplesmente por ser genuína. No meio em que vivia, o mais comum eram pessoas fingindo a todo momento, mas não, era apenas ela e aquilo o encantava.
— Você vai me julgar se eu disser que sempre torço para o Eric nessa história? — A mulher fez uma expressão culpada e indicou o personagem mascarado que dava nome à peça.
— Você torce para o fantasma? — ergueu uma sobrancelha, surpreso, e levou uma mão à boca e afirmou com a cabeça. — Mas ele é um assassino.
— Eu sei. Porém quando penso em tudo que ele passou, não consigo não pensar que se não tivessem o tratado como um animal, as coisas seriam diferentes. — Deu de ombros.
— Provavelmente seriam, mas, ainda assim, não consigo torcer por ele. — soltou uma risada baixa.
— Eu sabia que você ia me julgar! — mordeu a boca e negou com a cabeça. — Mas não estou dizendo que Christine deveria ficar com ele, viu? Só que gostaria que o passado dele não fosse tão triste.
— Tá bom, agora estou julgando menos — ele brincou, sem conseguir evitar descer o olhar até os lábios da mulher.
— Ah, essa é uma das minhas músicas favoritas. — bateu palmas animadas quando
Music of the Night começou a tocar e, mais uma vez, ficou mais atento a ela do que à performance que acontecia no palco.
Enquanto cantarolava a letra, dominada pela emoção que era ouvir aquela música ao vivo, sentiu que era observada e, de soslaio, pegou em flagrante.
— Está gostando, senhor ? — Se atreveu a perguntar.
— Muito — o homem respondeu, ainda sem tirar os olhos dela, e aquilo a fez virar o rosto lentamente para encará-lo, enquanto continha um sorriso.
— É mesmo? E de qual parte você gosta mais? — ergueu uma sobrancelha, então fixou o olhar no seu ao perceber que ela não estava se referindo apenas ao espetáculo.
— Por que escolher uma parte quando eu posso apreciar o todo? — Ele nunca havia se sentido tão livre para expressar o que lhe vinha à mente, e acabou descobrindo como a sensação era ótima. Já nem entendia mais os motivos por se conter a todo momento.
mordeu o canto da boca mais uma vez, certamente tendo uma ideia de como aquilo o afetava.
— Ah, você pode? — De repente, nem ela prestava mais atenção ao musical. Ao virar seu tronco na direção dele, a mulher se inclinou para dizer aquilo um pouco mais próxima.
não recuou, muito pelo contrário, imitou o gesto dela e sentiu que poucos centímetros impediam seus lábios de roçarem um no outro.
Sem conseguir se refrear, ergueu sua mão esquerda, a levou até o rosto de , acariciou sua bochecha com a ponta dos dedos e deslizou um carinho enquanto explorava até os lábios dela. deixou um suspiro escapar, e umedeceu a própria boca ao também percorrer a dela com os dedos para sentir o quanto era macia.
Sem nem perceber, fechou seus olhos, apreciando os toques dele, e ficou cada vez mais sedenta para sentir a boca dele a explorar da mesma forma.
voltou a descer a mão até o queixo da mulher, seguiu até o pescoço dela e a encarou com tanta intensidade que o coração de transbordou. Mais um pouco daquilo, e ela de fato imploraria que ele a beijasse.
— Eu quero muito poder. — A voz de ecoou em um tom mais rouco do que ele esperava, e segurou a mão dele com a sua, entrelaçou seus dedos do mesmo jeito que eles haviam feito aquele dia no piano, então a guiou até sua cintura, num pedido mudo para que o homem a segurasse.
— Você pode, .
E aquela seria a deixa perfeita para que saciasse o desejo absurdo que sentia por ela. A vontade avassaladora que tinha de apertar sua cintura e a puxar para si.
Uma salva de palmas ensurdecedora então os trouxe de volta à realidade e os lembrou do lugar onde estavam.
Odiaram aquilo.
— Vamos sair daqui. — Num impulso, se viu pedindo e só se deu conta naquele momento de que sua respiração estava ofegante.
— Como? — pensou ter ouvido errado, então franziu o cenho e oscilou seu olhar entre os lábios de e o peito dela, que subia e descia acelerado.
— Vamos embora, . Vamos para qualquer outro lugar.
Os olhos dele se arregalaram levemente, e olhou para o palco de soslaio. Notou as cortinas se fecharem, enquanto se iniciava um intervalo antes do próximo ato.
— Tem certeza? — Ele queria, sim, levá-la para onde ela quisesse, porém aquele era o sonho dela.
— Tenho. Você não disse que me traria aqui novamente? — O sorriso esperto de o fez rir.
— Sim, eu disse.
— Então vamos. — Ainda segurando a mão dele, se levantou e o puxou para que a acompanhasse para fora do camarote.
permitiu que ela o guiasse, embora estivesse cada vez mais perto de simplesmente empurrá-la contra uma daquelas paredes para terminar o que quase haviam começado outra vez.
Não conseguia raciocinar mais nada que não fosse o quanto a desejava e sabia muito bem que era mais um dos efeitos de sobre si.
Ao apertar os dedos dela com os seus, estava prestes a ceder à tentação, quando a última pessoa que desejava ver saiu de outro camarote.
arregalou os olhos ao reconhecê-la de cara e, num ato reflexo, soltou a mão de . Percebeu-o encará-la em confusão e apenas negou com a cabeça.
— Quando digo que esse mundo é pequeno, é a isso que me refiro. Ora, ora, se não é . — O sorriso que moldou aquele rosto não era nenhum pouco sincero, tampouco os que e lançaram em resposta.
— Italia Whitmore, finalmente nos conhecemos pessoalmente. — Estendeu uma mão e a cumprimentou rapidamente. — Prazer em vê-la. Essa aqui é…
— , assessora do senhor . — A mulher se adiantou, num gesto impulsivo. Pela forma como Italia olhava para , ela usaria qualquer coisa para destruí-lo, e mais uma vez temeu ser um motivo para prejudicar a candidatura dele.
— Uau, você é deslumbrante. Foi por isso que ele trocou o Todd Phillips por você? — quis socar a cara de Whitmore e a fazer engolir de volta aquele veneno disfarçado de elogio.
— Não troquei o Todd, não. É perfeitamente normal ter mais de um assessor, certo? — O tom manso de não demonstrava em nada a ironia de sua resposta.
— Ah, com certeza é. — Italia mediu dos pés à cabeça mais uma vez e deixou uma sobrancelha levemente arqueada.
— Além disso, o Todd trabalha demais, né? E ele não é fã de ópera como eu — tornou a se pronunciar e manteve um sorriso nos lábios, sem demonstrar o desconforto que sentia com a presença de Italia e a forma como a encarava.
detestava qualquer tipo de rivalidade contra outra mulher. No entanto, era quase impossível não sentir aversão à principal concorrente de . Até havia tentado dar o benefício da dúvida, afinal, as coisas fora das telas de tv e lentes de câmeras eram bem diferentes. E, naquele momento, em menos de cinco minutos na presença dela, descobriu que Whitmore era ainda mais detestável.
— Mas por que estão fugindo do espetáculo se você gosta tanto assim, senhorita…? — Italia franziu o cenho ao tentar lembrar o nome dela.
— — ela retrucou e teve vontade de mandar aquela mulher ir cuidar da própria vida.
— Não tem ninguém fugindo, Italia. Só estávamos aproveitando o intervalo para ir ao toalete. — compartilhava do mesmo sentimento que .
Costumava sempre manter a educação, independente de como o tratassem, porém cada pergunta que Whitmore fazia parecia mascarar outras intenções, e ele não gostava nada da sensação ruim que aquilo lhe causava.
— Ah, não? Me desculpem. Não era a minha intenção ser invasiva, só estou tentando puxar conversa e, como vocês pareciam estar apressados, acabei deduzindo errado.
— Está tudo certo. Pior seria se você saísse por aí falando sobre algo que “deduziu errado”, não acha? — acabou a alfinetando sutilmente ao se referir às coisas que a mulher insistia em dizer sobre ele em cada uma de suas entrevistas quando questionada a respeito de seus oponentes. O grande foco dela era sempre e o fato de que ele não passava de um homem bonito.
— É claro. Longe de mim fazer uma coisa dessas. — Italia ergueu as duas mãos em rendição e quase derrubou a bolsa de mão que segurava. — Mas, já que não estão fugindo, o que acham de se juntarem a mim e ao meu esposo?
e trocaram olhares discretamente. Nenhum dos dois gostava daquela ideia, principalmente porque arruinaria o plano deles de sair dali. No entanto, entendia que recusar aquilo seria rude e poderia repercutir de uma forma bem errada, justamente por se tratar de Italia Whitmore. Então ela conteve um suspiro e, ainda mantendo a discrição, acenou em concordância para demonstrar que não teria problema.
— Não queremos atrapalhar a noite de vocês, Italia. Provavelmente seremos cercados pela imprensa e isso nos tomaria longas horas. Porém agradeço o convite. Quem sabe numa outra ocasião. — tentou escapar daquilo mesmo assim. Havia sido uma recusa educada.
— Ah, não se preocupe. Não estão atrapalhando nada, mas entendo o seu argumento. — E, mais uma vez, o olhar de Whitmore pousou em , como se ela soubesse exatamente o que acontecia ali.
Aquilo deixou nervosa a ponto de querer se intrometer e aceitar o convite, porém foi mais rápido dessa vez.
— Pois então. Não vão faltar oportunidades, não é? — Sorriu cordial.
— Com certeza, não. — Italia voltou a encará-lo firme.
— Sendo assim, foi de fato um prazer conhecê-la pessoalmente. — estendeu sua mão para ela, que a segurou prontamente para trocar mais um aperto de mão.
— O prazer foi todo meu, acreditem. — E ali estava mais uma expressão sugestiva que fez desejar estapeá-la.
— Até mais, Italia. — sorriu e lutou ao máximo para não demonstrar a má vontade em fazer aquilo.
— Nos vemos no debate. Eu poderia dizer que espero que esteja preparado, mas, na verdade, é o contrário. — Whitmore não escondeu o tom atrevido, e riu baixo e permaneceu firme em não deixar aquela mulher desencorajá-lo.
— Nesse caso, você será desapontada então. Eu sempre estou.
E ao se virarem na direção oposta, ele e não tiveram alternativa se não a de voltarem ao seu camarote.