So Far Away
“How do I live without the ones I love?
Time still burn the pages of the book is burned
Place and time always on my mind
I have so much to say, but you’re so far away”
— So Far Away, Avenged Sevenfold.
A morte é uma coisa engraçada.
Um dia você está vivendo o seu sonho e no outro dia... Nada.
Mesmo que a nossa única certeza seja a morte. Mesmo que tudo o que vem antes e depois dela seja a mais pura e irrevogável incerteza. Insistimos em passar todo o nosso escasso e inegociável tempo lutando contra a única coisa da qual não há como fugir. Em vão.
Seria trágico se não fosse cômico.
não foi capaz de segurar o sorriso, muito menos o som esganiçado que escapou de sua garganta. Não quando olhou para Gus.
Os olhos fechados. O cabelo milimetricamente penteado. O terno branco, perfeitamente limpo e ajustado ao corpo. A superfície acolchoada delimitada por paredes de madeira. A pele desprovida de cor.
Ele estava ridículo.
Ridiculamente morto.
Gus teria achado aquilo hilário.
Pensar nisso só fez gargalhar ainda mais à medida que o peito arfava e o rosto esquentava perdido na sequência de acontecimentos que se sucederam durante a cerimônia.
Não era necessário muito mais do que isso para criar um escândalo.
não foi à recepção na casa de Train. Não se deu o trabalho de prestar seus sentimentos à família. Não havia restado nenhum. Muito pelo contrário, após o velório, o cantor foi direto para sua mansão em Beverly Hills, onde sua própria recepção já tomava forma. Viva, como August Train foi um dia.
Naquela festa não havia luto. Não havia lágrimas ou arrependimentos ou até mesmo saudade. Havia apenas a mais pura celebração da vida de Gus. dedicou a noite a tudo o que fazia August feliz. Não precisou pedir emprestada a camisa do Metallica favorita do amigo. Bebeu as garrafas de vinho mais velhas da adega que estavam guardando para uma ocasião especial. Misturou álcool, maconha, êxtase, cocaína sem se preocupar com a ressaca ou a rebordose do dia seguinte. Fez uma tatuagem à meia luz com um profissional duvidoso com uma maleta de materiais mais duvidosos ainda. Quebrou duas ou três peças da mobília com um taco de baseball no calor do momento. Trocou socos com um desconhecido por motivo nenhum. Comeu uma aspirante à modelo e uma garota de programa sem se importar com o que sua namorada iria pensar. E foi embora antes de a festa acabar.
Tudo bem, talvez tivesse feito um esforço para fazer um escândalo.
Depois disso, não demorou para que as matérias relacionando o cantor à morte do guitarrista estampassem todos os veículos de comunicação. Teria influenciado a overdose de Gus Train? Não, claro que não. Eles eram amigos desde sempre, formaram a banda juntos, conquistaram o mundo juntos. Mas por quê não deu nenhum pronunciamento desde então?
Onde estava ?
A resposta só apareceu algumas semanas depois, quando o cantor da banda Disclaimer foi encontrado em coma alcoólico em um pub qualquer nos arredores de Milwaukee, com nada além das roupas do corpo, um cartão de crédito ilimitado, cinco pílulas de aspirina, duas gramas de haxixe e um olho roxo. Na verdade, já era uma conquista que ele não estivesse pelado por aí.
passou duas semanas em recuperação no melhor hospital de Milwaukee fingindo que nada havia acontecido. Não falou nada sobre o tempo em que esteve fora. Não tocou uma única vez no nome de Gus. Se era assim que ele queria, então era assim que seria.
Na manhã em que recebeu alta do hospital, o vocalista da banda Disclaimer precisou esconder o olho roxo atrás de um par de óculos escuros e usar roupas de moletom simples ao se encaminhar à delegacia mais próxima, para não chamar muita atenção. O que não adiantava de muita coisa já que a companhia de Doc nunca poderia passar despercebida, principalmente com os dois guarda-costas à tiracolo. Quando estava na sala do oficial encarregado, sentado ao lado do seu agente, se limitou a acenar com a cabeça durante a quase uma hora que o policial dedicou a uma reprimenda não tão rigorosa assim sobre as infrações e denúncias que o levaram a ser encontrado quando estava desaparecido. Doc respondeu todas as perguntas em nome do seu cliente e pagou a fiança do vocalista em seu cartão sem se importar com a quantidade de zeros da fatura. não deu a mínima. Se dependesse dele teria até recusado o pedido de autógrafo do policial, mas o olhar lançado pelo agente foi o suficiente para que cedesse. Poderia usar esse favor como moeda de troca mais tarde.
Logo deixaram a delegacia para trás e tomaram o seu rumo para o Aeroporto de Milwaukee, onde compraram passagens para o primeiro voo disponível com destino à Los Angeles. O cantor agradeceu mentalmente pela personalidade introvertida do agente durante o trajeto de cerca de cinco horas, que poderiam facilmente ser dias. não queria falar e Doc certamente não queria ouvir. Era fácil lidar com ele. Não eram necessariamente amigos, mas também não deixavam de ser. Doc não perdia o seu tempo se preocupando com o que o vocalista fazia ou deixava de fazer, contanto que estivesse vivo, fizesse dinheiro e que só se envolvesse em problemas passiveis de solução. Até hoje não havia nada que Doc não pudesse resolver. Nada exceto a morte prematura de Gus.
Em Los Angeles tudo era mais fácil. Estava em casa. Apesar de terem pegado um voo comercial não tiveram problemas, a presença macabra dos guarda-costas era o suficiente para afastar qualquer um que sequer pensasse em se aproximar. A equipe não precisou nem mesmo enfrentar o LAX lotado para reclamar suas bagagens, não tinham nenhuma. O carro forte da gravadora buscou o grupo ainda na pista de aterrisagem, enquanto apenas aceitou o seu destino, o que quer que ele fosse. As ruas de West Hollywood permaneciam as mesmas. Os mesmos carros barulhentos, a mesma onda de calor subindo pelo asfalto, as mesmas pessoas alheias aos seus arredores. A vida continuava, mesmo que Gus tivesse ficado para trás.
queria gritar com alguém, queria bater em alguma coisa, queria fazer qualquer coisa para que as pessoas, alguma pessoa, qualquer pessoa, percebesse que tudo tinha mudado. Mas de que adiantaria? Gus estava morto e isso não fazia diferença alguma. Não tinha como voltar disso. August não voltaria. E certamente também não seria capaz de voltar.
pensou em como seria dali em diante. Se Tony e Kalil já haviam pensado a respeito. A banda era apenas uma ideia, uma loucura, um delírio, uma das maiores insanidades de Gus. Nem eles mesmos se lembravam bem, mas de alguma forma o guitarrista conseguiu convencer os quatro amigos a transformarem o sonho em realidade. Talvez todos eles estivessem perdidos. A verdade nua e crua era essa. A Disclaimer era August Train e August Train era a Disclaimer. Não havia banda sem ele. Era o fim da Disclaimer. E essa consciência se tornou clara à medida que reconhecia o trajeto para o escritório. Mesmo que sentisse lá no fundo, que entraria no grande prédio empresarial e o veria lá, as pernas estiradas sobre a mesa da sala de reuniões em meio a uma gargalhada.
decidiu fingir que era apenas mais um dia. Como qualquer outro.
Fingiu que o mal-estar era culpa de uma noite de bebedeira e não a abstinência da medicação do hospital. Fingiu que as últimas duas semanas nada mais eram do que um borrão causado pela amnésia alcoólica. Fingiu que se preparava mentalmente para mais uma longa sessão de brigas com Leto sobre seu comportamento irresponsável. Fingiu que conversariam sobre o cronograma de desenvolvimento, gravação e divulgação do próximo álbum. Fingiu que daria em cima da nova secretária da gravadora, já que a antiga deveria ter sido demitida após o seu caso com Kalil. Fingiu que dispensaria Doc para pegar carona com Tony para se reunirem na casa de Gus para beber mais um pouco. Fingiu que estava tudo bem como fingia desde que se despediu do seu pai pela última vez. Mas fingir não adiantou nada quando o carro blindado chegou ao prédio espelhado da West Coast Records.
Dezenas de pessoas interditavam o caminho para a garagem do edifício. Fãs. Eles usavam camisas da banda, com o rosto de Gus. Os cartazes que carregavam diziam tudo. Para sempre Gus. Train nós te amamos. Nunca esqueceremos August Train. Luto. Descanse em paz. Gus.
Algo se quebrou dentro de e ele se perguntou quantas vezes mais seria capaz de quebrar algo que já estava quebrado.
Não conseguiu evitar. Quando as vozes começaram a clamar o seu nome, o vocalista sentiu o seu corpo se encolher. O ar faltou em seus pulmões à medida que uma gota fria de suor escorria pela sua têmpora. Merda. Deveria ficar mais fácil com o tempo.
O breu e o silêncio do estacionamento não foram o suficiente para ajustar os batimentos descompassados de . Não. Era muito pior. Era mais uma ausência. Mais uma falta. A falta de luz. A falta de som. A falta de Gus. O vocalista nem percebeu quando o carro parou, ou quando os demais passageiros desembarcaram. Não ouviu o que Doc disse quando abriu a sua porta. Apenas viu o agente lhe estender um cigarro e respirou fundo, aceitando com dedos trêmulos e se impulsionando para fora do veículo com um zunido em seus ouvidos. Doc insistia em tentar dizer alguma coisa, mas o vocalista não conseguia ouvir nada além do rugido em sua mente. Sua visão foi ofuscada por uma fração de segundo, quando o reflexo do farol de algum carro que passava por ali refletiu no material metálico do isqueiro que o agente segurava. estendeu a mão em um pedido silencioso, que foi rapidamente atendido.
Uma chama. Um trago. Um sopro. Um trago, um sopro. repetiu o gesto algumas vezes, sentindo a pressão baixar e o os pensamentos se reduzirem a um sussurro inconveniente.
— Se sente melhor? — perguntou Doc, olhando-o de soslaio. No escuro, a sua pele negra não denunciava nenhum traço de expressão.
respondeu com um aceno.
— Melhor se acostumar com a ideia de começar a falar — o agente fez um estalo com a boca — você não vai gostar muito do que vai encontrar lá dentro.
O vocalista deu mais um trago e limpou a garganta.
— A coisa está muito feia?
fez uma careta ao ouvir o som da própria voz. Estava rouca de uma forma errada. O som arranhou sua garganta e morreu áspera. As palavras não pareciam certas. O vocalista sacudiu a cabeça para afastar o pensamento e olhou para o outro com a sobrancelha arqueada.
— A gravadora quer terminar a turnê — Doc disse simplesmente. Sem cerimônias, como quem tira um curativo de uma só vez.
— Não.
— Não é como se você tivesse alguma escolha — o homem deu de ombros — o contrato da banda com a West Coast tem validade para mais dois anos. Até lá vocês pertencem a eles.
Gus está morto, queria dizer. Mas não ousou pronunciar as palavras em voz alta. Preferiu dar mais um trago no cigarro.
— Mesmo que vocês tivessem escolha. Se vocês escolhessem antecipar o fim do contrato a multa seria tão onerosa que vocês e suas famílias teriam que voltar direto para o buraco de onde saíram em Seattle.
bufou em descontentamento. Se Doc queria que falasse, então ele ouviria poucas e boas sobre o que ele achava a respeito disso. Mas antes que pudesse abrir a boca, o agente falou primeiro.
— Sem falar nos Train…
— O que tem eles? — Você sabe… — Doc brincou com um fio solto invisível em seu casaco — A mãe de August está internada há um ano por conta da sua… Condição.
— E o que isso tem a ver?
— Tem a ver que a parte de August do contrato é o que paga aqueles médicos sabichões, a clínica limpinha e os remédios caros da Srª. Train. Que a parte de August é a única coisa que coloca um teto sobre cabeça moribunda daquele marido solitário dela — explicou o agente com uma calma letal, que fez trincar o maxilar — Você e os outros podem até dar a volta por cima depois disso, vocês estão vivos, já…
— Já entendi — o vocalista disse rápido, antes que o homem pudesse terminar a frase. Sentiu a cabeça começar a doer e respirou fundo. — Merda.
— Sabia que entenderia — Doc deu um sorriso que não chegou aos olhos.
— Eu sei o que você está tentando fazer.
Estava tentando fazê-lo falar.
— O que eu faço de melhor…
Estava tentando fazê-lo enfrentar isso.
— Eu não preciso da sua ajuda — o vocalista resmungou.
— Estou tentando administrar a sua vida — Doc rebateu com uma piscadela — Você deveria tentar qualquer dia desses.
— E tirar o seu ganha-pão?
Os dois quase se permitiram rir.
— Se a gravadora já decidiu terminar a turnê — fez um estalo com a boca — Qual é a da reunião?
— Eles encontraram alguém para substituí-lo — disse o agente, como quem fala sobre o clima. precisou morder a língua para não dizer nada. Doc estava conseguindo. — Hoje é a assinatura do contrato.
O vocalista se engasgou com a fumaça quente da ponta do cigarro, desencadeando uma sequência de tosses. Jogou o filtro no chão, impaciente, cuspindo sobre o objeto como se pudesse de alguma forma ofendê-lo, ou simplesmente tirar aquele gosto amargo da boca.
— Merda — praguejou.
marchou em direção às portas automáticas com uma carranca lhe deformando as feições. É. A coisa não ia ser bonita.
— Vamos acabar logo com isso — disse ao passar por Doc, o tom irredutível dizia tudo que ele não precisou dizer.
O que estava ruim tinha acabado de piorar.
O trajeto até a reunião foi como o inferno particular de . As paredes dos largos corredores pareciam se fechar. O elevador era a sua caixa de Pandora. Cada passo era dado com urgência e mesmo assim o tempo parecia passar mais devagar. As vozes que ecoavam no edifício empresarial somadas ao som pulsante dos batimentos cardíacos nos ouvidos faziam o estômago de se embrulhar. Mas quando avistou a porta de vidro da sala de reuniões o vocalista quase parou, fazendo Doc trombar em suas costas e murmurar um xingamento.
Quando entrou na sala todas as conversas cessaram. O olhar de foi atraído diretamente para a cadeira vazia no centro da mesa, o furo de uma queimadura de cigarro ainda aparente era uma lembrança melancólica daquela ausência sufocante.
— Eu pedi para tirarem a cadeira — Doc disse baixo para que apenas o vocalista pudesse ouvir.
permaneceu estático, como se pudesse ver um fantasma diante dos seus olhos.
— Vamos tirar a cadeira de Gus para as próximas reuniões — disse Leto em cumprimento, recebendo o cantor na porta com um sorriso no rosto e batidinhas no ombro.
respirou fundo e deixou um sorriso debochado ao passar pelo produtor, rumo ao seu assento.
— A cadeira fica.
Não era um pedido.
O vocalista afundou sobre o estofado de sua cadeira e podia jurar que conseguia sentir um cheiro de nicotina exalando do assento ao lado. Aproveitou a privacidade dos óculos escuros para fechar os olhos vagarosamente. Ele estava em todo lugar e ainda sim não estava em lugar nenhum. Quando abriu os olhos encontrou Tony e Kalil à sua frente em seus lugares usuais, suas feições eram um misto de receio e preocupação.
— O quê? — disse sem emitir nenhum som, mas antes que os amigos pudessem gesticular qualquer coisa foram interrompidos pelo som de uma única palma.
— Que maravilha que tenha nos concedido a honra da sua companhia hoje, — começou Leto, sorrindo tão forte que era possível que todos os seus dentes se quebrassem. Estranho. — Aposto que voltou de viagem com tantas notícias para compartilhar quanto nós.
O vocalista sorriu amarelo para as pessoas ali reunidas.
Pela primeira vez, percebeu que a sala estava mais cheia que o normal. Além da banda, do agente e do produtor, havia mais três pessoas engravatadas, duas mulheres e um homem. quase podia ouvir artigos de lei sendo berrados em sua cara apenas com um olhar. Advogados eram inconfundíveis em qualquer lugar do mundo, com seus ternos cinzentos, pastas sanfonadas e olhar analítico. A sua presença era como uma doença contagiosa, pronta para infectar a banda Disclaimer e destruí-la de dentro para fora. O vocalista sentiu um bolo se formar em sua garganta.
— Estamos aqui hoje com grandes notícias — Leto olhou nos olhos de cada um ao iniciar o que parecia ser um monólogo, fazendo suspirar. — A perda de Gus, que Deus o tenha, foi uma grande tragédia para os familiares, amigos e fãs.
O vocalista sentiu as mãos fecharem em punhos sob a mesa. Ele não podia estar fazendo isso.
— Achamos que era o fim, mas não poderíamos deixar que o legado de Gus se perdesse junto com ele. August Train era uma inspiração, um homem bom que acreditava que o amor poderia mudar o mundo…
gargalhou alto.
Era como estar no velório mais uma vez.
— Algum problema, ? — perguntou o produtor, impaciente.
O vocalista limpou uma lágrima que ameaçava escorrer pelo olho direito.
— Você é muito engraçado, Leto, só isso — o sorriso ainda brincava nos lábios do vocalista.
Doc chutou a cadeira do artista em repressão, mas não surtiu efeito algum.
— Gus não é nada disso — não era capaz de dizer as sentenças no passado e todos na sala repararam nisso. — Ele é um canalha de primeira categoria que age primeiro e conversa depois. Alguma coisa ou alguém sempre acaba quebrado no final.
Leto engoliu em seco quando um silêncio constrangedor dominou o recinto, mas foi logo suprimido por uma risada feminina. Uma das mulheres engravatadas olhava do vocalista para o produtor com um brilho de diversão. Tinha os cabelos presos em um coque baixo apertado até o último fio de cabelo e usava óculos de armação fina que a conferiam um ar de superioridade incontestável. a odiou no momento em que colocou os olhos nela.
O som de alguém limpando a garganta cortou a sala.
— Ainda bem — ela disse com um sorriso debochado — Estava começando a achar que poderíamos ter problemas.
Leto pareceu suspirar aliviado.
— Como eu ia dizendo… — o produtor retomou o seu discurso — O sonho de Gus e toda a banda Disclaimer não poderia partir com ele. Em honra a tudo o que ele fez e que poderia fazer ainda o sonho deve continuar. E é com imensa gratidão e orgulho que hoje oficializamos a nova configuração da Disclaimer.
já podia sentir o seu maxilar doer ao trincá-lo com cada vez mais força. Não conseguiu evitar de xingar August mentalmente de todos os palavrões que tinha em seu vocabulário.
Aquilo não poderia estar acontecendo.
Por que ele tinha que simplesmente morrer?
Filho da puta. Cuzão. Imbecíl Pau no cu. Canalha. Vigarista. Desgraçado. Retardado. Corno. Idiota. Energúmeno. Arrombado. Zé buceta. Fodido.
O produtor tomou um longo fôlego antes de dar um sorriso triunfante. Era o fim.
— Dêem as boas-vindas à — disse Leto, estendendo o braço para o grupo de engravatados. A mulher que estava rindo a pouco se levantou com um sorriso de canto dos lábios olhando para os demais com toda a sua glória. — A nova guitarrista da Disclaimer.
A nova guitarrista da banda.
A nova guitarrista da banda era uma mulher. Era aquela mulher.
Não.
— Vocês só podem estar de brincadeira — murmurou encarando a mulher com puro ódio no olhar.
— O que disse, ? — perguntou Leto.
— Eu disse que vocês só podem estar de brincadeira — o vocalista disse. Ele estava puto, o que só alargou o sorriso da mulher quando notou o seu olhar.
— Certo, , desculpe se esquecemos de consultar com você enquanto passou mais de dois meses completamente entorpecido atravessando todos os quatro cantos da América fugindo das suas responsabilidades — ironizou o produtor.
— Eu sou o líder da banda!
— August era o líder da banda — Leto respondeu rispido. trincou o maxilar. — Talvez essa função deva ser herdada pela sua sucessora.
Os músculos do vocalista se enrijeceram instantaneamente.
— Eu não estou muito interessada — disse simplesmente, para ninguém em especial.
Os homens se entreolharam. A tensão no ar era palpável.
– Você não precisa fazer isso, – disse a mulher de cabelos curtos ao lado dela. – Não faz parte dos termos do contrato.
— Obrigada, Marta – disse baixo, voltando a sentar-se ao seu lado com um sorriso gentil que nada combinava com suas feições.
Leto pareceu satisfeito com a intervenção da segunda mulher.
— é graduada em Comunicação Social, tem pós-graduação em Trade Marketing, toca violão, guitarra e piano — o produtor decidiu continuar como se nada houvesse acontecido. — Além disso, ela já é reconhecida no mercado fantasma como compositora e já escreveu alguns dos grandes hits que temos no mercado hoje em dia, o que faz dela uma grande aquisição para a banda nesse momento desafiador de transição que vamos enfrentar.
não deixou de notar torcendo o nariz em meio a um gesto de cruzar os braços, claramente fingindo prestar atenção. Não se permitiu simpatizar com a sua postura, não enquanto ela era uma das grandes responsáveis pela contaminação do sonho do seu melhor amigo.
— Leto, por favor, os rapazes não estão interessados nessa ladainha — disse Marta. Será que ao menos ela era a advogada daquela aberração? — Vamos ao contrato, sim?
O vocalista quase riu quando Leto não conseguiu conter a careta. O produtor deu um aceno positivo com a cabeça para o homem de gravata ao lado de Marta e ele prontamente entregou a papelada para a mulher.
— Vejamos aqui — murmurou a mulher, fazendo sons ao prosseguir com a leitura. — Vigência de dois anos. Não exclusividade para desenvolvimento de propriedade autoral. Autorização de uso de imagem. Multa em caso de violência física, verbal ou sexual pelos contratados e subcontratados. Remuneração compatível com a do último contratado para a função. Multa por quebra de contrato em 30% da original. 20% dos lucros sobre as produções e merchandising relativos à vigência do contrato. Disponibilidade para jornada de trabalho diversificada e viagens. Plano de saúde. Mediação e arbitragem de conflitos pelo ICC.
olhou para o teto, entediado.
— O toxicológico? — perguntou em um sussurro tão baixo que os demais não tiveram certeza do que tinham ouvido.
— Foi retirado — murmurou o homem. tinha quase certeza que já tinha o visto antes. Devia ser o advogado da West Coast. Willie, Billie, Millie alguma coisa.
— Ficamos felizes — Marta deu um aceno breve. — Se os contratos dos demais não tem essa cláusula, não há motivo para haver nesse.
deu um sorriso diabólico enquanto a advogada terminava a leitura. tentou não reparar demais.
— Parece que está tudo aqui — a advogada anunciou aos presentes e se virou para a sua cliente. — , pode fazer as honras.
Leto deu um largo sorriso ao retirar do bolso interno do casaco uma caneta Montblanc cravejada e entregou-a para a guitarrista. não pareceu se importar com a celeridade do gesto, apenas abriu o objeto e rabiscou todas as páginas do contrato sem nem pensar duas vezes.
Os músicos tiveram dificuldade de acreditar quando o sorriso torto do produtor aumentou ainda mais. Leto se aproximou da mulher, estendendo o braço para um aperto de mãos que foi aceito com prontidão.
— Seja bem-vinda, — disse ele, ao segurar a sua mão.
— — corrigiu ela, os olhos brilhando em desafio.
— — repetiu ele.
O sorriso que ela deu causou arrepios sinistros que percorreram todo o corpo do vocalista.
— Doc, meu amigo — Leto se dirigiu ao agente. — Você se importaria de tirar uma foto?
— Sem problemas.
— Vamos, meninos? — o produtor convidou os integrantes da banda.
Um a um, Kalil, Tony e se levantaram. Mesmo que à contragosto do último. Por último, . Ela se posicionou entre Leto e o baterista ao mesmo tempo em que o produtor puxou para ficar do seu outro lado. Doc apontou a câmera do celular e fez uma contagem antes de apertar o botão. Era isso. A primeira foto da nova banda Disclaimer.
O início do fim.
O produtor puxou uma salva de palmas e foi seguido pelos demais em comemoração. Todos, exceto . O vocalista apenas sustentou um olhar assassino sobre , que ao notar lançou-lhe um sorriso debochado em resposta.
ficou à deriva, enquanto os demais engataram em uma conversa sobre os próximos passos. Planejaram uma grande festa de divulgação na próxima semana. O vocalista estava tão aéreo que nem mesmo encontrou sua voz para protestar quando decidiram que a recepção seria em sua casa. Tony e Kalil pareceram já ter conhecido a nova guitarrista antes ao conversarem com a mulher entre uma ideia ou outra, pareciam realmente levar a sua opinião em consideração. Já a opinião de não valia de nada, não foi provocado a colaborar uma única vez durante todo o andamento da discussão, então não se deu o trabalho de se intrometer. Anthony parecia se divertir com o humor ácido de , falava mais bobagem que o normal apenas para ver o que ela poderia dizer em resposta. Ainda sim, ele não parecia deixar de ficar surpreso com as palavras ásperas e irônicas que saíam da boca da mulher, deixando-o de olhos arregalados ou sem fôlego em meio ao riso entrecortado. Era insuportável para . Ao menos Kalil era normal. O baterista de cabelos compridos se mantinha segundo plano como de costume, concordando ou discordando quando achasse pertinente, mas sem se preocupar em dar mais explicações. Tinha permanecido próximo à desde o momento da foto, olhava-a com atenção enquanto ela falava e vez ou outra fazia comentários sussurrados, mas nada fora do usual. Era um cara quieto, falava baixo, tratava as pessoas bem e não dava trabalho. Não era nada como e seu pavio curto. Assim, o vocalista permitiu a si mesmo que se perdesse em seus pensamentos autodestrutivos.
Se fosse à sete palmos do chão e não o melhor amigo, nada seria desse jeito. Gus naquela sala ele estaria empolgado. Não pensaria duas vezes antes de começar a discutir ideias para o próximo álbum. Soltaria alguns palavrões e riria na cara de cada um que o olhasse em reprovação. Talvez até mesmo acenderia um cigarro só para deixar uma nova marca no estofado de couro de sua cadeira. Chamaria todos para emendar as comemorações em sua casa, com direito a bebida e quaisquer outras coisas que os convidados quisessem consumir. Contaria à nova integrante da banda sobre o seu melhor amigo. Falaria dele como se fosse a melhor pessoa que já pisou na Terra, mesmo que fosse exatamente o contrário. Mentiria sobre suas aventuras para que parecessem ainda mais inacreditáveis. Ficaria feliz por dar continuidade ao sonho do amigo que se tornou realidade.
Mas não era nada como Gus.
Quando se deu conta, o seu olhar vazio estava fixo em uma bunda redonda perfeitamente ajustada à uma calça de alfaiataria. Uma bela bunda. Entretanto, ao perceber a quem pertencia a expressão do vocalista se fechou como um temporal.
estava à sua frente no elevador, conversando descontraída com Tony. Ao seu lado, Kalil o olhava de esgueira com um sorriso contido nos lábios. bufou encarando o visor do elevador como se pudesse fazê-lo chegar ao piso da garagem mais rápido.
Aquele espaço era pequeno demais para ser dividido com . Não suportava ouvir aquele riso de escárnio reverberar pelo seu corpo. O perfume dela sufocava o ar em seus pulmões. A voz como era como uma maldição em seus ouvidos.
Quando as portas de abriram, se permitiu respirar fundo. Foi um alívio miserável. Colocou as mãos nos bolsos do moletom e manteve sua distância.
— A conversa está ótima, mas eu preciso ir — anunciou , sem rodeios, olhando para os demais membros da banda sobre o ombro anguloso do blazer.
Aos poucos, o peso sobre os ombros de parecia aliviar. Ele quase agradeceu mentalmente por isso.
— Nós costumamos nos reunir na casa de Gus depois das reuniões… — começou Tony sugestivamente.
apenas arqueou uma sobrancelha.
— Costumávamos — corrigiu Kalil suavemente.
— Acho que agora vamos precisar frequentar a casa de de agora em diante — ele riu sem jeito, mexendo no cabelo como se fosse capaz de disfarçar o desconforto.
percebeu que seus sentidos lhe enganaram mais uma vez. De repente, começou a sentir a cabeça latejar. Puxou do bolso traseiro da calça um maço de cigarros que Doc esgueirou para ele durante a reunião e sacou o isqueiro que esqueceu de devolver mais cedo.
Ótimo.
Kalil limpou a garganta para preencher o silencio.
— Você não quer ir? — perguntou Tony, quando o amigo soltou o primeiro trago. Maravilha.
olhou para quando ele pareceu puxar a nicotina com mais força. O vocalista não se deu o trabalho de retribuir o olhar. Não ofereceria nada a ela.
— Quem sabe uma próxima vez? — foi a única resposta dela.
Anthony aceitou com um aceno de cabeça e se despediu dela com um beijo em cada lado do rosto. Ela se aproximou lentamente de Kalil para um abraço rápido, mas foi surpreendida com um beijo cuidadoso na bochecha, parecendo parar por um momento para pensar.
Logo, percebeu o que viria a seguir. Sentiu o corpo inteiro enrijecer quando a mulher deu alguns passos em sua direção. Colocou o cigarro na boca, como se fosse possível fingir que esse era o motivo da carranca que deformava a sua expressão.
Talvez o câncer industrializado fosse o suficiente para espantá-la.
Foi quando se deu conta que não precisaria mesmo oferecer nada a ela. tomaria tudo o que quisesse.
Só precisou chegar perto o suficiente e estender o braço para tomar o cigarro aceso de seus lábios. pareceu entretida ao fitar o olhar mortífero do vocalista sobre si, quando levou o objeto à boca e deu dois longos tragos. sentiu uma das mãos se fechar em um punho no bolso do moletom, no mesmo momento em que a mulher assoprou a fumaça em seu rosto.
— O gato comeu a sua língua? — sussurrou ela, para que apenas ele pudesse ouvir, olhando-o de cima a baixo com um sorriso irônico no rosto.
A guitarrista não esperou uma resposta. Jogou o cigarro pela metade no chão como se não fosse nada e tirou uma chave do sutiã.
trincou o maxilar quando a mulher desfilou até uma moto que não estava muito longe dali.
— Ei, — o vocalista jurou nunca ter ouvido a voz de Kalil tão alta.
A mulher olhou para o grupo por cima dos óculos, enquanto subia cavalete da motocicleta.
— O capacete — disse o baterista, como se isso explicasse tudo.
Por algum motivo, aquilo pareceu a coisa mais engraçada do mundo.
apenas jogou a cabeça para trás em uma gargalhada genuína e saiu do estacionamento cantado pneu, enquanto os demais ficavam para trás.