Revisada: Lightyear 💫
Última Atualização: 03/11/2025Os momentos felizes costumam passar rápido. Bastava apenas aproveitar cada segundo e se entregar à diversão, e tudo depois não passaria de lembranças que ficariam gravadas em nossa mente, guardando o dia em que fossem reveladas ao mundo. No entanto, aquela noite demorou uma eternidade e não entrou para o grupo de momentos felizes que gostaria de relembrar.
Nunca pensei que pudesse acontecer comigo; na verdade, achei que apenas os filmes possuíssem um roteiro tão doloroso.
A chuva caía como uma imensidão, molhando cada partícula de minhas roupas, enquanto dirigia em direção ao último lugar que gostaria de ir. Manobrei a moto no estacionamento, retirando o capacete durante a corrida que fiz até a porta de entrada da delegacia, sendo iluminada pelas constantes luzes azuis e vermelhas que piscavam freneticamente sob o teto dos carros ali estacionados.
Eu sempre odiei dias chuvosos, mas naquela noite tive que engolir meus insanos demônios internos, trancados a sete chaves, a fim de suportar as próximas horas que teria de enfrentar.
Meu par de tênis estava encharcado e meu corpo brigava para se manter aquecido. Só que nada importava; meu coração batia tão rápido contra as costelas, despedaçando-se a cada segundo que passava. A dor e o choque eram tão intensos que achei que fosse desmaiar, recusando-me a acreditar no que havia ouvido pelo telefone.
Empurrei as portas de vidro e adentrei a delegacia, sendo surpreendida por um grupo de policiais que gesticulavam e conversavam sobre algo importante que não consegui ouvir; na verdade, recusei-me a ouvir, porque sabia que tinha a ver com o motivo que me causava aquele aperto na garganta, como se estivesse sendo enforcada por minha própria consciência.
O tempo passava rápido demais. Em um momento, estava deitada na cama prestes a dormir, quando a ligação aconteceu. E aqui estava, diante do delegado da polícia de Nova Jersey. O uniforme colava ao seu corpo e o distintivo pendurado em corrente prata completava o visual; seus músculos eram tão aparentes que desconfiei quando analisei o homem de 1,70 m de altura, com o rosto tão envelhecido que denunciava sua idade avançada de 52 anos. Em outras circunstâncias, o denominaria muito bonito para servir à polícia local, mas, em meio à recepção, tudo que desejava era que sua boca carnuda dissesse o contrário e desmentisse a informação que me levou até ali.
Minhas mãos tremiam, e não conseguia conter a agitação dentro do peito; a reviravolta no estômago estava me deixando enjoada e a inquietação presente em minha mente impedia-me de ficar calma, gerando pânico e tanto desconforto que cheguei a pensar que a morte fosse mais reconfortante que passar por aquilo. Eu queria que fosse mentira. Queria que tivesse sido um engano. Que fossem adolescentes rebeldes e desocupados que se divertiam passando trotes para os moradores.
Não estava preparada para ouvir a verdade.
E o semblante abatido do delegado não alimentou minhas súplicas. As palavras saíram da sua boca com tanto peso que sentia meu corpo sendo golpeado e minha alma sendo dilacerada. Não conseguia acreditar, não era capaz de suportar a dor que se espalhou, me invadindo, me machucando, me despedaçando — e tudo que eu podia fazer era negar.
Era mentira, tinha que ser.
Não conseguia acreditar que havia acontecido comigo; com bilhões de pessoas ao redor do mundo, por que o destino me escolheu para tanto sofrimento? O que eu tinha feito ao universo?
Balancei a cabeça, negando o improvável. O homem, que descobri pelo uniforme se chamar Brandon, me amparou quando minhas pernas fraquejaram. Sua voz grossa e firme gritou por ajuda, enquanto me acomodava no sofá de couro e começava a chamar meu nome, tentando me manter acordada. Minha mente girava, remoendo lembranças que quebravam meu coração em milhões de pedaços. Eu estava em choque, não conseguia me mexer, completamente paralisada; havia esquecido até mesmo como se respirava, entregando-me àquela sensação obscura que rasgava meu interior.
Eu queria gritar, mas a voz não veio.
Eu queria chorar, mas as lágrimas não existiam.
Eu queria vê-los por uma última vez...
A última lembrança que tinha era de um ano atrás. O primeiro aniversário de sua filha.
Noah e Lily estavam tão felizes e radiantes, enquanto observavam a pequena Mia em meus braços, em frente ao bolo de dois andares. Amigos e familiares cantavam a melodia festiva, parabenizando a pequena pelo seu primeiro aniversário. As crianças brincavam ao redor, os adultos gargalhavam e contavam piadas, enquanto eu assistia a tudo segurando minha sobrinha.
Eu amava tudo neles. Noah e Lily eram a minha família. As únicas pessoas nesse mundo que eu não queria perder...
Mas tinha perdido...
Depois de algumas horas, Brandon e os agentes saíram após receberem um chamado. Estava sentada no mesmo sofá de couro, sentindo meu peito clamar por uma pausa das lágrimas compulsivas que rolavam dos meus olhos. Os ombros subiam e desciam, acompanhando os soluços, ignorando a dor que invadia meu coração e se espalhava por todo o corpo. Inclinei-me para a frente, ficando com os cotovelos apoiados nos joelhos, enquanto cobria o rosto com as mãos, deixando tudo me dominar: a angústia, a tristeza, o medo.
Eu estava sozinha.
Não tinha ideia do que fazer para seguir em frente. Não conhecia ninguém em Nova Jersey. Não tinha amigos nem parentes a quem que pudesse ligar e pedir ajudar. Noah era meu irmão, a única família que eu tinha.
Há anos não me sentia assim, com essa dor que consumia cada pedacinho da minha alma, se deliciando com minha agonia. Eu o tinha para me ajudar, segurar minha mão e me fazer viver. Noah era a minha luz, o homem mais bondoso e carinhoso que já conheci. Eu nunca ficaria sozinha, enquanto ele vivesse — até aquela noite…
Estava desolada, perdida e sozinha.
As portas da delegacia se abriram e pude ouvir o som da chuva molhando a cidade com suas lágrimas, como se também chorasse pelo que aconteceu. O vento gelado invadiu a recepção e me encolhi contra o estofado, tentando me aquecer — uma tentativa inútil, mas a única que restava. Descobri o rosto, envolvendo os braços ao meu redor, querendo que o tremor parasse; os dentes batiam involuntariamente, denunciando meu estado. Gelada, fria, abandonada.
Ergui os olhos quando tênis pretos, de solados encardidos que um dia deveria ter sido brancos, invadiram meu campo de visão. As lágrimas me cegaram ao reconhecê-lo. Ele estava diferente, mas ainda o acharia em meio à multidão. Seus olhos amendoados, pigmentados de uma coloração azul tão clara quanto o céu, se encontravam escuros e sem brilhos –- apagados, perdidos, roubados pela fatídica noite. A barba preenchia o maxilar quadrado, mais cheia que da última vez que o vi. Os cabelos estavam molhados e desgrenhados, a coloração loiro-escura se perdendo entre os fios avermelhados, puxados para o tom cobre e dourado.
Seu corpo estava maior do que me lembrava; os ombros largos ligavam-se aos bíceps definidos, apertados pela camiseta azul-marinho, sem estampa. O tronco robusto e as pernas grossas completavam a estrutura, junto a calça jeans escura e ensopada. Ele não era mais o adolescente rebelde que conheci há 13 anos — havia se tornado um homem alto e vistoso, e foram os traços tão semelhantes à irmã que o tornaram a minha última esperança...
Levantei-me num salto e solucei, sendo envolvida pelos seus braços fortes. Agarrei o tecido molhado e macio da camiseta, deixando as lágrimas rolarem desenfreadas enquanto seu aperto me amparava. Não era preciso dizer nada; compartilhávamos a mesma dor. Ele era o único que poderia me entender, porque, apesar do semblante sereno, eu sabia que, por dentro, estava mais dilacerado do que eu...
Lily era a sua irmã gêmea, a outra parte da sua alma.
Noah era meu irmão, a minha luz para viver.
Mia era a união dos dois mundos: a junção do carinho e a bondade de Noah, com a delicadeza e determinação de Lily.
E ali, nos braços de , presos na bolha invisível, isolados do mundo, eu só conseguia pensar na reviravolta gigantesca que nossas vidas teriam quando saíssemos da delegacia. O que faríamos? Por onde começar? Como Mia cresceria sem os pais? Ela passaria a vida inteira presa em um orfanato, esperando para ser adotada? Noah e Lily tinham um plano para caso isso acontecesse?
Eu não tinha respostas para tantas perguntas — e não fazia nem ideia de como respondê-las. Do fundo da minha alma, gostaria muito que tivesse a solução para todos os nossos problemas, mas, a julgar pela tensão em seus músculos, estávamos unidos dentro do mesmo barco, afundando juntos direto para a escuridão mais fria e sofrida do luto.
Teríamos que unir nossas forças se quiséssemos encarar a realidade que nos aguardava...
Quando acordei naquela manhã, com os olhos ardendo pelas lágrimas derramadas nas últimas 48 horas e o corpo dolorido clamando por descanso, não imaginei que acabaria o dia com o medo me consumindo, tomando cada partícula da minha alma e me sufocando com a realidade.
Encarava o reflexo no espelho do quarto minúsculo do meu apartamento alugado, localizado no centro de Nova Jersey. Percorri cada centímetro da escolha de roupa preta, que não achei que um dia se tornaria a cor mais repugnante do guarda-roupa. O vestido simples com mangas longas, sem detalhes ou qualquer marca de uso, foi escolhido a dedo para aquela ocasião.
Nunca imaginei que um dia entraria em um táxi a caminho para a cerimônia de despedida do meu irmão. Ele era tão jovem, com a vida inteira pela frente, a última coisa que pensei foi que veria pela última vez para sempre, ainda mais da maneira cruel que foi arrancado desse mundo.
O delegado Brandon nos apresentou o caso, explicando que havia sido uma colisão inevitável. O carro de Noah percorria a via principal a caminho da sua casa quando tudo aconteceu. Segundo a investigação, no exato momento que atravessavam uma ponte estreita, um caminhão em alta velocidade e completamente desgovernado invadiu a contramão, colidindo com o veículo do casal e causando a tragédia. O motorista do cargueiro também não sobreviveu e, graças à autópsia, descobriram que estava sob efeitos de anfetamina para se manter acordado.
Uma imprudência levou a vida das duas pessoas mais importantes da minha vida.
E ali estava eu, descendo do táxi amarelo em frente ao local que aconteceria a cerimônia. Respirei fundo, me preparando para ouvir todas as condolências da família e dos amigos de Noah. O local estava razoavelmente cheio e fui o centro das atenções quando cruzei o salão, na direção da sala de despedidas, ficando ao lado do corpo sereno e tranquilo do meu irmão, não conseguindo forças para encarar ninguém.
Fiquei isolada, longe dos olhares piedosos, odiando ser sinônimo de pena e assim permaneci até o final, conversando com poucas pessoas. Acompanhei quando chegou à cerimônia, descendo do Hyundai Creta preto e arrumando a gravata em seu pescoço como se o estivesse o sufocando. Seus olhos estavam escondidos pelo óculos escuro, possivelmente escondendo as olheiras e a vermelhidão dos últimos dias.
Ele estava impecável, mas ao longe era nítido o seu desconforto; possivelmente havia sido forçado pela mãe a comparecer de smoking requintado e visivelmente muito caro. Ao seu lado estava um homem e uma mulher, ambos também vestidos elegantemente. Eu não os conhecia, assim como a grande maioria das pessoas; estava tão descolada que nem fiz questão de saber o nome de ninguém.
foi recebido por diversos abraços calorosos e palavras consoladoras e, ao contrário de mim, preferia se misturar em meio à multidão, não se importando com a atenção que era direcionada a si. Agradeci por isso, já que sua presença ajudou a me livrar das pessoas que insistiam em ficar ao meu lado como se esperassem que, a qualquer momento, eu fosse desabar.
Eu gostava da minha privacidade e queria ficar sozinha.
— . — levantei o olhar assim que o calor se fez presente.
estava mais radiante de perto; a escolha de roupas sociais moldava ao seu corpo, deixando-o mais alto e sério. Deixei que meus lábios se curvassem em um sorriso tímido e pequeno, em um cumprimento silencioso.
— Como você está? — perguntou, sentando-se ao meu lado no banco de concreto.
Tinha escolhido o primeiro assento isolado do lado de fora do salão, mas não achei que ele fosse me encontrar ali e fazer a mesma pergunta que ouvi tantas vezes naquele dia. Ninguém de fato queria saber como eu estava, era apenas um pretexto para dizer que havia prestado suas condolências. As pessoas naquela cerimônia não se importavam se eu havia perdido a única família que tinha.
— Estou bem... — menti e soltei o ar pela boca. — Tantas pessoas já me perguntaram isso hoje. — abaixei o olhar, olhando perdidamente para as folhas no chão.
Ele jogou a cabeça para trás e fechou os olhos, parecendo compartilhar da mesma opinião que a minha.
— Meu maxilar dói de tanto responder a mesma coisa. — revelou, e um sorriso brotou em sua boca. — É uma pergunta tola no final das contas.
— Não tem como ficar bem.
V O silêncio pairou sobre nós e ficamos submersos nele, parecendo ser a única válvula de escape. As pessoas conversam dentro do salão e se espalhavam ao redor, mas nenhuma estava preocupada de fato conosco. Queríamos ficar sozinhos, encontrar consolo na nossa própria solidão.
No entanto, o momento durou pouco, logo Stephen, o pai de , nos chamou para finalizar a cerimônia. E não tivemos escolha a não ser seguir a favor da correnteza, nos despedindo pela última vez de Noah e Lily. Nunca mais os veríamos outra vez.
As lágrimas rolaram pelo meu rosto, não conseguindo conter o aperto em meu peito quando, enfim, tudo acabou. Fiquei alguns minutos em frente ao grande túmulo, encarando as placas de prata que eternizariam os nomes de Noah e Lily para sempre. Eu nunca mais os veria, nem mesmo escutaria suas vozes.
Eles seriam apenas lembranças.
Senti quando o braço forte envolveu minha cintura e, ao erguer o olhar, deparei-me com o rosto de . Solucei e o abracei com força, sentindo o calor do seu corpo me acolhendo, aconchegando-me em seus braços. Era estranho saber que a única pessoa que me confortava era o homem que, há anos atrás, eu tanto odiava.
Talvez fosse o luto, eu não sabia dizer.
Sua mão acariciou meu cabelo enquanto me deixava esconder o rosto na curva de seu pescoço. O cheiro do perfume amadeirado, com notas de cedro e pimenta-preta, invocavam a sensação de aconchego e masculinidade. Os batimentos do meu coração se acalmaram, ficando embriagada com o aroma delicioso que emanava da sua pele.
Nunca estive tão calma nos braços de um homem antes, exceto por Noah. Era como se fosse o raio em meio à minha tempestade, possuindo o poder de afastar toda a minha dor. Ele me amparava apenas com seu toque, sem precisar de palavras. E estava gostando do modo como fazia isso. Eu queria passar o resto da minha vida ali, em seus braços, longe de tudo e de todos.
Eu estava ficando louca, tinha certeza.
A parede invisível ao nosso redor desmoronou quando a voz aguda e firme se fez presente. Ainda unidos, nos virando em direção ao homem de terno, engomadinho e impecavelmente sério, que nos observava a poucos metros de distância atrás do óculos de grau de armação fina e requintada. E se não fosse pela presença de , diria que estava diante de um ceifador.
— Sr. e Srta. , sinto muito atrapalhar o momento de vocês. — ele se aproximou. — Mas tenho um assunto pendente que tenho de tratar com os dois. — retirou um envelope de dentro do paletó, entendendo em nossa direção.
o pegou e, juntos, encaramos a assinatura. Era uma carta judicial, remetida a nós e assinada pelo juiz de Nova Jersey, Theodore Meyer.
— Desculpe-me, não me apresentei. Meu nome é Jeremy Clack, era o advogado de Noah e Lily. — apresentou-se, atraindo nossa atenção.
Afastei-me de para que pudesse abrir o envelope e retirar a carta. Era um convite para comparecermos ao tribunal de justiça para tratarmos, em particular, sobre um assunto importante envolvendo a vida da pequena Mia. Arqueei a sobrancelha, encarando o advogado, tentando identificar algo em seu semblante que justificasse aquelas palavras.
— Por que estão nos convocando juntos? — questionou, desviando o olhar do papel.
Jeremy limpou a garganta.
— Podemos conversar em outro lugar em particular? — pediu, olhando ao redor.
Só então notei que ainda havia muitas pessoas da cerimônia caminhando pelo cemitério, e um casal de vizinhos passou por nós, nos cumprimentando e prestando homenagens no túmulo de Noah e Lily.
— Eu sei que não é o melhor momento, mas preciso que saibam a verdade. — continuou a explicação. — Podemos nos encontrar na casa do Noah e da Lily em 20 minutos? — sugeriu, retirando o óculo e limpando a lente.
e eu concordamos em um uníssono e seguimos o advogado até a saída do local. Seja lá o que ele tinha a dizer, sentia meu estômago revirando somente de pensar em Mia. Desde que recebi a ligação da polícia, me preocupava sobre qual seria o destino dela, e talvez estivesse prestes a descobrir o que aconteceria.
Há dois dias, não imaginei que minha vida fosse dar uma reviravolta tão intensa e inesperada, e agora, sentada em frente a Jeremy, com ocupando a cadeira ao meu lado, soube que o universo estava mesmo disposto a mudar tudo o que eu conhecia.
A casa de Noah e Lily era aconchegante, grande, e o leve aroma de lavanda tomava o lugar. Todos os móveis — desde o tapete cobrindo o chão da sala e as persianas em frente às janelas —, cada detalhe, tudo lembrava a eles. E isso só ajudava a aumentar cada vez mais o aperto em meu peito, o nó na garganta e a vontade imensa de desabar em lágrimas em posição fetal no meio do carpete.
Eu odiava me sentir assim: tão frágil e vulnerável.
— Sr. e Srta. , os chamei aqui para tratarmos desse assunto em particular. — Jeremy abriu a maleta sobre a mesa e tirou alguns papéis, colocando à nossa frente. — Como sabem, como advogado da família sou responsável por cuidar e tomar as devidas providências para casos como esses. — explicou. E eu ainda não conseguia entender aonde ele queria chegar com o discurso.
Olhei de relance para ao meu lado, sua mandíbula estava tencionada e os olhos, atentos no homem à sua frente.
— Eu gostaria de esperar para dar essa notícia a vocês, mas a justiça não espera. — apoiou os cotovelos da mesa, estralando os dedos, e prosseguiu: — Há alguns meses, Noah e Lily me procuraram para fazer um pequeno testamento sobre a filha, Mia. Disseram que queriam garantir o futuro dela, caso algo acontecesse com eles, e, como desejado, deixaram por escrito esta carta, para caso esse dia chegasse. — retirou um envelope amarelo da maleta, já sem o lacre. — E eles me pediram que entregasse isso a vocês. — estendeu em minha direção.
Com os dedos trêmulos, peguei o envelope, retirando o papel dobrado de dentro. Meu coração acelerou quando reconheci a caligrafia do meu irmão, desenhada pelas linhas, o traço tão suave quanto a correnteza de um rio. Os olhos marejaram, e tive que conter as lágrimas caso quisesse lê-lo. Engoli em seco e, com o aperto no peito quase me sufocando, comecei a revelar o conteúdo da carta.
Minha doce irmã,
Eu queria que esse dia nunca chegasse, mas se está lendo isso é porque, infelizmente, não podemos mais nos ver. Eu sei que está sofrendo, que está doendo, e não quero que fique desse jeito. O mundo pode parecer cruel, às vezes, mas não escolhemos o nosso destino. Você precisa ser forte, encarar os obstáculos e conquistar o seu êxito. E, através dessa carta, quero que me prometa apenas uma coisa: Mia precisará de alguém que a ajude a seguir em frente, e quero que cuide dela por nós como nosso último desejo.
É pedir muito, eu sei, mas não estará sozinha. Lily me pediu para dizer que gostaria que assumisse as responsabilidades e cuidados de Mia ao seu lado. Sabemos que ele nunca se recusaria a esse pedido, e sei também que cuidará de vocês duas. Ficarei em paz sabendo que estarão com ele. Jeremy os ajudará com a papelada, então não há com o que se preocuparem. Sabemos que farão de tudo para protegê-la.
Encarei as palavras à minha frente, perplexa e sentindo a leve vertigem assumir o controle do meu corpo. Era como levar um golpe no estômago. Meu coração batia tão rápido que achei que seria capaz de saltar pela boca e me abandonar naquele momento tão delicado. Entreabri os lábios, tentando respirar, mas o ar da cozinha não era o bastante — precisava sair, ir em busca de um lugar vazio. Minha mente estava tão confusa que não conseguia pensar com clareza, estava em absoluto estado de choque, não sabia como reagir àquela carta. Eu queria que esse dia nunca chegasse, mas se está lendo isso é porque, infelizmente, não podemos mais nos ver. Eu sei que está sofrendo, que está doendo, e não quero que fique desse jeito. O mundo pode parecer cruel, às vezes, mas não escolhemos o nosso destino. Você precisa ser forte, encarar os obstáculos e conquistar o seu êxito. E, através dessa carta, quero que me prometa apenas uma coisa: Mia precisará de alguém que a ajude a seguir em frente, e quero que cuide dela por nós como nosso último desejo.
É pedir muito, eu sei, mas não estará sozinha. Lily me pediu para dizer que gostaria que assumisse as responsabilidades e cuidados de Mia ao seu lado. Sabemos que ele nunca se recusaria a esse pedido, e sei também que cuidará de vocês duas. Ficarei em paz sabendo que estarão com ele. Jeremy os ajudará com a papelada, então não há com o que se preocuparem. Sabemos que farão de tudo para protegê-la.
Com amor,
Noah e Lily.
Noah e Lily.
E pelo semblante de , sabia que não era a única.
Como Noah e Lily tiveram a coragem de arremessar aquela bomba em nossas mãos? Sem nunca sequer falarem nada a respeito?
Esfreguei o rosto, deixando o papel sobre a mesa e abandonando o cômodo com toda a agilidade que tinha. Precisava de um momento sozinha, longe de todos. Eu queria protestar, gritar, entender como isso foi acontecer. Precisava saber o porquê acreditaram que dois adultos, solteiros e desconhecidos, fossem conseguir cuidar de uma criança de 2 anos. Não estava pronta para ver minha vida desmoronar sem que pudesse fazer algo para impedir. Esperava que Jeremy fosse tratar de qualquer outro assunto, mas isso me pegou completamente desprevenida.
Eu não conhecia . A última vez que nos falamos foi há 13 anos, quando ainda éramos adolescentes e gostávamos de passar o dia inteiro nos odiando pelos cantos. Pensar em dividir uma vida com ele me assustava. Não sabia nada sobre ele: a sua cor favorita, a comida preferida, as manias, os defeitos… Éramos dois completos desconhecidos. Como isso poderia dar certo? E ? Será que concordava com tudo isso? Lily sabia que nunca se negaria a realizar o pedido, mas será que estaria disposto a abandonar tudo e dividir sua vida comigo e com uma criança?
A dúvida consumia cada pedacinho do meu ser, me estrangulando, incomodando, arrepiando os pelos e obrigando-me a roer as unhas de aflição. Eu não entendia o que se passou pela cabeça de Noah e Lily quando acharam uma boa ideia nos unir e jogar a responsabilidade em nossas mãos.
Levei as mãos para os cabelos e puxei os fios, soltando o peso do corpo para que caísse sentada no sofá da sala, não conseguindo pensar em mais nada que não fosse Mia. Ela merecia uma família e ficar perto de pessoas que realmente a amavam. Não queria abandoná-la — uma parte de Noah ainda estava viva dentro dela —, e, pelos anos que passamos juntos, lutando para viver, eu devia isso a ele. Precisava pagar a dívida.
Puxei e soltei o ar repetidamente por alguns minutos, acalmando a palpitação desfreada do meu coração. Minhas mãos estavam tão trêmulas e geladas que achei que estivesse à beira de um colapso. Eu precisava ser forte para encarar todos os desafios que ainda estavam por vir. Prometeria a Noah que cuidaria da sua filha da melhor maneira possível, me tornaria seu porto seguro, o seu lugar de paz e tranquilidade, seria em meus braços que encontraria a calmaria.
Mesmo que para isso tivesse que suportar pelo resto da minha vida.
Eu faria tudo por ela.
Retornei para a cozinha e notei que estava tão ofegante quanto eu. O estudei em silêncio, encostado contra a pia da cozinha, curvado sobre o mármore; seus ombros inclinados para frente subiam e desciam freneticamente. Seus músculos das costas estavam contraídos, e a cabeça abaixada só confirmava o quanto lutava para processar toda a informação.
Queria poder abraçá-lo e oferecer algum conforto, ajudá-lo a encontrar o caminho pela linha tênue que nos rodeava.
— Eu sei que é um momento difícil para assimilar toda essa informação de uma vez. Eu realmente peguei os dois desprevenidos, e me desculpe por isso — Jeremy quebrou o silêncio. — Mas foram escolhidos, e agora possuem a missão de cuidar dela.
— E se não aceitarmos, o que vai acontecer? — encostei-me ao batente da porta, cruzando os braços à frente a barriga.
virou-se e me fuzilou com o olhar incrédulo, surpreso com minhas palavras, mas, no fundo, mais interessado nisso do que eu.
— Bom, vocês têm duas opções — Jeremy começou. — Podem aceitar o pedido de acordo da tutela, e realizar o último pedido de Noah e Lily. Mas também podem recusar, porque estamos falando de uma criança. É um compromisso muito sério. — girava uma caneta entre os dedos. — Se recusarem, a tutela poderia passar para os avôs paternos ou maternos. No entanto, devido à idade avançada, o juiz não acha que seja uma boa ideia. Então, ela seria encaminhada para um orfanato, como uma criança órfã, e ficaria na espera de uma família para adotá-la. E, assim...
— Não! — interrompi, e só então notei que estava ofegante. — Ela não vai para um orfanato — enfatizei, direcionando o olhar para .
— Tudo bem. Então, estão dispostos a assumir esse compromisso, pela Mia?
Abri a boca, prestes a concordar, hesitando no meio do caminho. E se ele não aceitasse? Será que eu conseguiria criar uma criança sozinha?
— Jeremy, nós aceitamos. — disparou, atraindo minha atenção. — Mas como isso irá funcionar? — estreitou os olhos, cruzando os braços à frente ao peito.
— O Conselho Tutelar pede que assinem os termos de responsabilização, e podem buscar a Mia ainda hoje, que entrará em custódia temporária. — indicou os dois papéis que havia colocado sobre a mesa no início da conversa. — Amanhã terão uma audiência com o juiz, somente para concretizar o acordo. Vocês passaram por uma avaliação mensal, durante três meses, pela Assistente Social, que irá avaliar se os dois estão aptos para receber a tutela definitiva.
Jeremy continuou explicando e tirando nossas dúvidas com paciência durante longas horas, até assinarmos os termos de responsabilização. Eu não sabia ao certo onde estava me metendo quando aceitei honrar o último desejo de Noah e Lily. Só sabia que era o certo a fazer.
Durante a tarde, e eu fomos buscar a pequena Mia, na unidade do Conselho Tutelar. O advogado nos acompanhou durante todo o percurso, garantindo que nos ajudaria com a burocracia. Estava tão ansiosa que não conseguia manter as mãos paradas, enrolando os fios de cabelo no dedo indicador, ao mesmo tempo que roía a unha, parecendo uma criança prestes a ganhar o presente mais esperado do ano.
E quando Mia atravessou pela porta, junto da Assistente Social, não hesitei em ir até ela e pegá-la em meus braços, sentindo o cheiro indescritível dos seus cabelos penetrando meus pulmões, apaziguando todos os conflitos internos. A delicadeza dos seus olhos azuis e o sorriso alegre que se fez presente quando nos viu, adoçavam o meu dia.
Ela era tão pequena, tão frágil, que me doía pensar em outra família a adotando. Mia merecia o melhor e nos adorava. Eu a amava com tanta força que era doloroso.
— Oie, querida — sussurrei contra sua cabeça, depositando um beijo no local. — É tão bom ver você, minha linda — sorri, segurando as lágrimas quando o aperto me atingiu. — Vai ficar tudo bem, Mia... Eu prometo. — disse, mas as palavras pareceram ser mais para mim mesma.
O calor surgiu, percorrendo minhas costas e arrepiando a espinha. Virei-me e levantei o olhar para me deparar com os glóbulos azuis de nos olhando, esperando sua vez de se aproximar. Ele parecia tímido, retraído, talvez, até mesmo com medo da reação da pequena.
— Olha, Mia! — fingi entusiasmo, indicando-o com o dedo. — Olha quem também veio. É o tio . — acariciei seus cabelos macios, depositando outro beijo.
— Oi, pequenina. — murmurou, o tom baixo e gentil.
Mia sorriu, imitindo um som tão fofo quando o reconheceu pela voz. Estava tão feliz e confortável com nossa presença. levou a mão até o rosto dela, fazendo um leve carinho que resultou nela clamando por seu colo, esticando os braços em sua direção. Tão fofa.
— Quer ficar com o tio ? — a levantei para que pudesse pegá-la.
Ele a envolveu em seus braços, aconchegando-a em seu peito. Era um alívio vê-la tão calma e confiante, completamente entregue ao nosso carinho, sendo o suficiente para percebermos que não tinha mais volta. Teríamos que cuidar dela — era o nosso dever, a nossa promessa. Iríamos superar os medos juntos e deixar as inseguranças, somente para priorizar o bem-estar dela.
Empurrei a porta do apartamento com o pé, abrindo caminho entre a bagunça para arremessar mais caixas pelo chão. Coloquei as mãos na cintura, olhando o cenário ao meu redor. Parecia que a minha casa havia sido invadida por um exército de ratos que fizeram uma festa, revirando cada metro do lugar em busca de comida. Uma verdadeira zona para quem era acostumada a viver em um ambiente organizado e limpo.
Olhei ao redor, sentando-me no meio da antiga sala que gostava de usar para ver filmes de romance e desvendar os crimes policiais das séries que tanto adorava assistir. Peguei os diversos livros que havia espalhado pelo chão, começando a organizar com cuidado dentro da caixa, calculando cada centímetro para que nenhum amassasse no caminho. Ainda não sabia onde os colocaria na nova casa, por isso precisava ser cautelosa na hora de empacotá-los.
Nova casa. Novo ambiente. Lembranças de Noah e Lily por todos os lados.
O livro de romance de capa clara era o próximo a entrar na caixa. Passei o dedo pela ilustração, delineando cada detalhe da arte. Fechei os olhos e suspirei, abraçando o objeto contra o peito, sentindo o nó na garganta outra vez. Noah havia me presenteado com o ”Como Eu Era Antes de Você” no meu aniversário, depois de passar quase um ano implorando por ele.
As lembranças me assolaram e deixei os olhos marejarem.
Era meu aniversário de 18 anos e, como sempre, Noah e eu comemoramos com um bolo que compramos na primeira confeitaria que achamos. Passeamos no shopping, compramos roupas e muitas besteiras para comer, nos divertimos no parque de diversões como duas crianças. Havia sido um dia incrível.
— Aqui, . Esse é para você. — disse, pegando o pequeno embrulho debaixo do meu travesseiro. — Não é muito, mas sei que irá gostar. — Estendeu-o em minha direção com um brilho intenso nos olhos.
Eu sorri, agradecendo o presente e me sentei ao seu lado na cama, começando a puxar o laço e a rasgar a embalagem de papel. A capa branca, com detalhes precisos em rosa, desenhava a arte que namorava todas as noites antes de dormir. Era o meu sonho ler aquela história, depois do lançamento do filme, tudo o que eu mais queria era conhecer a trajetória de Will Traynor e Louisa Clark, e me sentir mais próxima dos personagens.
— Obrigada, Noah! Eu adorei! — Joguei o corpo contra ele, puxando-o para um abraço apertado e cheio de gratidão.
Tinha sido o melhor presente da minha vida.
Sempre fomos unidos, desde quando nossos pais morreram e tivemos que lutar juntos para sobreviver naquele mundo tão complexo. E agora, pensar que estava me mudando para sua casa era estranho, ainda mais sabendo que nunca mais o teria por perto, para abraçá-lo e sentir o seu carinho.
Depois da audiência bem-sucedida com o juiz de Nova Jersey, Jeremy sugeriu que eu e nos mudássemos para a residência de Noah e Lily. Segundo ele, a adaptação de Mia com os novos “pais” seria mais fácil se ela estivesse em um ambiente que já conhecia. Além disso, todas as coisas dela estavam na casa, o que facilitaria os cuidados diários que teríamos que aprender a ter com a pequena.
Confesso que convencer não foi uma tarefa fácil, mas, depois de muita insistência e ouvir uma palestra gratuita de Jeremy sobre os benefícios que isso traria a Mia, ele concordou. O semblante marrento e sério deixava implícita sua apatia com a decisão, chegando a me fazer pensar que desistiria em algum momento. Ele era calado demais para um homem que, quando mais novo, vivia em baladas, saindo com cada garota que cruzasse o seu caminho.
Talvez fosse o choque recente do luto, ou a sua indignação pelo fato de dividir uma casa comigo. , a única mulher que nunca se deixou cair em seus encantos baratos, desde que era uma adolescente. E não foi por falta de tentativas, já que até mesmo Noah e Lily tentaram nos unir em um encontro arranjado há 13 anos. Havia sido um desastre, e me lembrava perfeitamente daquele dia.
Tinha escolhido o vestido longo e deslumbrante, confeccionado em seda pura, um tecido nobre que conferia um caimento leve e fluido. A silhueta sereia realçava minhas curvas, enquanto o decote em V era profundo, e as mangas longas adicionavam um toque de sensualidade e sofisticação. A cor vermelho rubi, vibrante, era o que o tornava perfeito para o evento da empresa de contabilidade em que Noah trabalhava.
Escolhi uma combinação de joias prateadas e detalhadas que combinavam com o vestido, o salto alto preto de ponta fina e a maquiagem leve, considerando que não precisava de muito para ficar bonita, já que minhas curvas moldadas ao tecido vermelho davam o toque especial.
Eu estava linda, e mesmo assim não foi o suficiente para .
Tudo começou a desmoronar quando fiquei plantada por 2 horas na frente da recepção do meu prédio, que dividia com Noah, esperando até que ele aparecesse para me levar. Tinha apenas 17 anos na época e ainda não possuía carteira de motorista, então ficou combinado que me levaria e entraria comigo no evento, sendo uma grande armação de nossos irmãos.
No entanto, quando o SUV preto finalmente dobrou a esquina e estacionou, tive vontade de subir de volta para o apartamento e fingir que nunca havia concordado com aquela loucura. Entrei no veículo sentindo o cheiro de álcool predominando o interior e tinha os cabelos desgrenhados, assim como a gravata completamente desalinhada com o smoking. Eu sabia que era uma adolescente que o odiava, mas não achei que precisaria de uma boa dose de bebida para me suportar.
— Você foi atropelado por uma carreta no caminho? — disparei, prendendo o cinto de segurança.
— Esse é o preço que tenho de pagar para aguentá-la a noite toda. — A voz embargada denunciava seu estado, enquanto tentava desajeitadamente arrumar a gravata.
Apertei a ponte do nariz com os dedos.
— Ah, , você está bêbado! — Franzi a testa, não acreditando no que estava vendo.
— Ainda não, . — Era um tremendo irresponsável dirigir naquele estado.
Será que seria mais imprudente eu dirigir sem a carteira de motorista ou ele, alcoolizado?
Rolei os olhos, tomando a decisão de ajeitar a gravata que ele lutava com todas as forças para amarrar. Inclinei-me em sua direção, e o cheiro forte de tequila estapeou meu rosto, ardendo os olhos até que lacrimejassem. Quando minhas mãos tomaram o tecido que envolvia o seu pescoço, me controlei para não o enforcar e acabar de vez com aquele pesadelo. Eu poderia inventar uma desculpa esfarrapada depois para justificar o ocorrido, e todos iriam acreditar.
Portanto, a maior surpresa surgiu assim que comecei a fazer o nó em volta do colarinho e encontrei a marca de batom fortemente vermelho na gola da camisa social. Fechei os olhos e prendi o ar, tentando acalmar a raiva que surgia em meu interior, queimando o estômago e se espalhando pelas veias. Queria, mais do que tudo, acertar um soco naquele rostinho delinquente, porque, enquanto eu esperava como uma idiota, sentindo os pés doloridos e reclamando do salto, ele estava ocupado transando com alguma prostituta barata.
Eu sabia que a fama de mulherengo de o precedia, mas não imaginei que era um cafajeste de primeira.
— Você não tem vergonha de ter transado com uma mulher antes de me buscar? — pensei alto demais e deixei escapar pelos lábios.
Ele gargalhou, tão estridente e irônico que meus ouvidos quase explodiram.
— Desde que a mulher em questão não seja você, por mim, está tudo bem. — Os cantos da sua boca curvaram-se em um sorriso cínico, aumentando cada vez mais a vontade de acertar um soco nele.
— , você é um delinquente! — cuspi com ódio.
— Oh, , eu sou muitas coisas: bonito, charmoso, extremamente gostoso. — Convencido feito uma mula. — Mas delinquente não está entre as minhas qualidades.
Abaixou o quebra-sol, arrumando seu cabelo de maneira que ficasse alinhado.
— É porque você ainda não se deu conta disso. — Terminei o nó e cruzei os braços em frente ao peito, notando que seria uma noite longa. — Dirige logo a porra desse carro, antes que eu te jogue pela janela.
O imbecil riu, girando a chave na ignição.
— Vamos, , não seja tão dura. — Girou o volante, finalmente colocando o veículo em movimento. — Nós dois sabemos que você não vive sem mim.
Eu quis me atirar do carro e acabar de vez com aquela tortura. Lembro-me de nunca ter perdoado Noah e Lily por terem me feito passar por aquele estresse gratuito.
No entanto, a noite havia apenas começado. No evento, conseguiu tirar ainda mais a minha paciência, fazendo-me passar mais raiva com as suas piadas sem graça e o comportamento convencido. Ele me apresentava a cada pessoa que conhecia, como se eu fosse uma pirralha mimada, um fardo que ele era obrigado a tomar conta. E, como se não bastasse passar por tudo isso, teve a audácia de me largar sozinha no meio da festa, porque encontrou uma loira bonita e gostosa para entreter o seu pau no banheiro.
Uma noite digna de um Oscar, se fosse uma premiação dos piores encontros da vida.
E, desde aquela desastrosa noite, não nos vimos mais, seguimos caminhos diferentes. Ele ingressou na faculdade de medicina veterinária em outra cidade e eu comecei a cursar direito, mas abandonei o curso antes do primeiro semestre. Quando iniciou o estágio, raramente aparecia nas festas de família, sendo assim, nossas vidas foram apenas se cruzar novamente no casamento de Lily e Noah, em um evento bem minimalista onde não trocamos nenhuma palavra, e depois no aniversário de 1 ano de Mia, agindo como dois desconhecidos que nem mesmo se cumprimentavam.
E, apesar de estar completamente diferente, gostava de pensar que não só seu físico havia mudado, mas também a sua mente. Seu corpo magro ganhara tantos músculos nos últimos anos que eu nem era capaz de nomeá-los. A barba cheia e desenhada destacava o maxilar, abandonando seu rosto de garoto jovial. Diria que apenas os olhos azuis-claros permaneceram os mesmos, apesar de ter notado que o brilho de adolescente desaparecera, abrindo caminho para um olhar mais maduro e sazonado.
era um homem, e espero que tenha largado seus modos inconsequentes de lado.
Ah, como eu criaria uma criança com ele? Mal nos falamos nos últimos dias, como construiríamos uma relação saudável desse jeito? Eu estava perdida, não sabendo nem por onde começar, depois de anos sem vê-lo, percebi que não sei mais nada a seu respeito.
Balancei a cabeça, voltando a empacotar meus pertences. Tinha que acabar tudo até às 16h00 da tarde, antes de pegar Mia na creche, e não podia deixar que as lembranças e inseguranças me atrapalhassem desse jeito. Ainda assim, não conseguia parar de pensar que o maior obstáculo da minha vida, agora, não era aprender a como cuidar de Mia, mas sim a como me aproximar do homem que viveria ao meu lado — que nem sequer sabia mais quem era.
O cheiro adocicado e revigorante preenchia o ambiente, lembrando-me um jardim florido, recheado por flores frescas e radiantes. Fui envolvida em uma atmosfera calma e relaxante, sendo arremessada para outro mundo onde o estresse e a ansiedade não existiam. Li uma vez que o aroma era muito usado como técnica terapêutica, buscando promover a saúde do corpo e da mente.
E era assim que me sentia: relaxada, calma, acolhida.
Empurrei a porta com a mão livre, fechando-a, segurando Mia nos braços, observando os detalhes e os móveis posicionados na sala. Ao lado da entrada, havia um vaso branco habitado por uma Monstera, com folhas grandes e verdes, chamando a atenção de tão belas, e, em companhia, uma cortina branca, que ficava na enorme janela feita de vidro, que dava vista para o jardim. Logo à frente, ficava o sofá-cama retrátil — o estofado em coloração preta magnífica, o formato em L virado para a televisão pendurada na parede, localizado acima de um rack claro. A tonalidade creme constatava com os detalhes castanhos que formavam as prateleiras, combinando com os porta-retratos. Havia também uma mesinha de centro — de madeira rústica delicada — e alguns vasos de plantas ao redor.
Beijei o topo da cabeça de Mia, colocando-a dentro do cercadinho em frente à televisão. Havia acabado de pegá-la na creche, então teria a tarde toda livre para ficarmos juntas, além de arrumar um tempo para desempacotar as caixas que estavam espalhadas pela sala. Sentei-me no chão, sentindo o tecido macio do tapete acomodar minhas pernas, agarrei o controle remoto e liguei a TV no programa favorito da pequena — era o desenho de um dinossauro roxo que ensinava as crianças a cantarem músicas infantis.
Enquanto ela se divertia, puxei a caixa ao meu lado, começando a retirar a pilha de porta-retratos, pensando onde iria colocá-los. Olhei ao redor buscando pelo melhor lugar, mas abandonei a ideia quando meu estômago revirou e senti o nó na garganta. A casa de Noah e Lily era um santuário de fotografias que eternizavam as memórias em família — um lugar onde a felicidade e a tristeza se entrelaçavam.
E eu era uma intrusa, profanando aquele espaço sagrado.
Os quadros nas paredes brancas e em cima do rack, contavam a história da família. Noah e Lily em seu lindo e perfeito casamento; o nascimento de Mia; a pequena, desajeitadamente, dando seus primeiros passos; os três juntos em um parque de diversões, com Mia sobre os ombros do pai. A cada fotografia, era como se eu recebesse um golpe em cheio no estômago, com meu coração ficando cada vez mais apertado. As molduras deveriam ter sido escolhidas a dedo para combinar com a mobília, e o modo como foram penduradas nas paredes destacava as horas que passaram analisando os melhores lugares.
A cada imagem, era uma lembrança dolorosa da vida que haviam construído, da qual eu nunca faria parte disso.
Não sei dizer ao certo em que momento me levantei, mas sentia as pernas fraquejarem a tal ponto que precisei urgentemente me sentar, antes que caísse no chão. Por sorte, o sofá estava logo ali, para acomodar meu corpo. O estofado me envolveu em um abraço de consolação; puxei os joelhos e os apertei contra o corpo. As caixas de papelão espalhadas pela sala pareciam zombar de mim, estapeando meu rosto como um lembrete constante de que estava invadindo um espaço que não me pertencia.
O que eu estava pensando? Pegaria minhas coisas e mudaria toda a casa como se fosse minha?
A onda de culpa e inadequação me consumiu. Olhei pela janela, em busca de algo para aliviar a pressão em meu peito, mas tudo que consegui foi intensificá-la, as lágrimas surgiram no canto dos olhos. O sol da tarde iluminava o jardim — o lugar preferido de Mia. A grama verde e macia era onde costumava brincar com seu pai. Conseguia ver a imagem deles juntos, entre risos e muito carinho, enquanto ela tentava pegar a bola de futebol que ele havia chutado. E, ao lado, Lily observando a cena com o rosto iluminado, e encantada pela ternura do momento.
As lágrimas quentes escorreram pelo meu rosto, desenhando caminhos tortuosos pela pele. Cruzei os braços sobre os joelhos e escondi o rosto neles, deixando que a dor me atingisse, como as ondas do mar se chocando contra rochas. Sentia-me como um barco à deriva, perdido em um oceano de incertezas. O peso da responsabilidade era insuportável, como uma âncora me puxando para o fundo.
Olhei para Mia, que dançava alegremente com a melodia do dinossauro roxo. Seu riso infantil preenchia a sala, me atingindo como uma afronta à realidade. Como poderia dar a Mia tudo o que precisava? Como poderia ser a mãe que ela merecia? Como poderia fazer isso, sem ter ideia de por onde começar?
A dor de perdê-los seria, por um longo tempo, uma ferida aberta. E eu queria tanto que Noah estivesse ali — ele saberia me dizer o que fazer. Solucei e meu peito se dilacerou com as lâminas afiadas. Nunca mais o veria, não ouviria mais a sua voz sábia. Eu estava sozinha com a responsabilidade de cuidar de sua filha e de preservar a memória de uma família que nunca mais seria a mesma.
Mas tinha uma única certeza e me apegava a isso: eu faria de tudo para proteger e garantir que Mia tivesse uma vida feliz e cheia de amor.
O relógio era meu pior inimigo. Uma criatura tão incompetente que nem sequer poderia atrasar as horas, pelo menos naquele dia. O horizonte já pintava os últimos raios solares em volta da enorme bola laranja que desapareceria aos poucos entre os prédios, dando caminho para a lua radiante e brilhante dominar o céu. Minha jornada de trabalho estava no fim, sendo então eu era obrigado a encarar todos os problemas que tanto lutava para evitar.
Sentia falta de quando conseguia comandar minha própria mente com maestria. Porque agora, quando a penumbra chegava, as sombras da noite me aprisionavam, roubando minha autonomia e me deixando à deriva em mar de incertezas.
Atravessei o corredor, empurrando a porta da sala de internações, sendo recebido pelas luzes ofuscantes que brilhavam intensamente, iluminando cada centímetro do local. Procurei pelo prontuário sobre a mesa metálica encostada à parede, ao lado da porta e do armário de medicamentos, de frente para as quinze baias empilhadas e enfileiradas. Meu paciente estava ótimo e já poderia voltar para casa. Li as últimas observações que anotara mais cedo, antes de procurar pela baia desejada.
O número três clamava por atenção. Através do vidro, conseguia ver a agitação do filhote ao me ver — ele sabia que havia recebera alta. O balançar de sua pequena cauda, em contraste com os olhos castanhos brilhantes, já me bastava como o agradecimento mais sincero. O latido agudo e curto mostrava seu entusiasmo assim que meus dedos abriram a tranca.
O pequeno poodle veio em minha direção, saltando sobre meus braços estendidos. Acariciei sua cabeça; os pelos macios e cacheados, como uma ovelha, era o charme da raça. Ele tinha a pelagem mesclada de mel e o branco, tornando-o único. Fechei a portinha e, rapidamente, percorri os olhos sobre as outras baias para me certificar de que todos estavam bem e confortáveis na ala de internações.
Não consegui conter o sorriso quando o filhote alcançou meu rosto e disparou lambidas molhadas e rápidas. Acariciei seu focinho, tentando acalmar sua euforia, sendo uma tentativa inútil, já que, assim que deixei a sala, voltou a lamber como se estivesse agradecendo por salvá-lo de uma virose.
Atravessei o corredor, conversando com o pequeno como se ele me entendesse. E assim que pisei na recepção, uma garotinha com seus sete anos, os cabelos ondulados e castanhos, correu em minha direção, saltitando e gritando pelo nome do cãozinho. Abaixei-me até ficar na sua altura, observando quando o filhote a reconheceu e não hesitou em abandonar meus braços para pular sobre ela.
A gargalhada da menina preencheu a recepção e forcei meu melhor sorriso amarelo, voltando a endireitar o corpo enquanto ela corria com o filhote em mãos para mostrar aos pais. Enfiei as mãos nos bolsos do jaleco, notando que o tecido branco estava decorado por pelos pretos, alguns laranjas e outros cinzas, típico de veterinário.
— , está tudo bem com ele? — o homem se aproximou. Não era comum os tutores me chamarem de “doutor”.
— Está ótimo. — respondi, ainda olhando para a menina saltitando com o filhote. — Ele só terá que voltar em três semanas para tomar a última dose da vacina. Até lá, sem passeios para ele.
— Agradeço por todo o carinho que teve com ele — agradeceu, estendendo a mão em minha direção.
Aceitei o aperto, ainda com o sorriso estampado no rosto. Mas bastou apenas a família atravessar a porta para que ele desaparecesse, e minha boca transformar-se em uma linha fina e endurecida. Minha atenção decaiu sobre um ponto qualquer, e suspirei, como se isso bastasse para retirar o peso dos ombros. O brilho em meus olhos escureceu e senti a pontada tão familiar no peito.
Os últimos dias tinham sido sempre assim: na frente dos tutores e funcionários, colocava o melhor sorriso no rosto e, depois, quando estava sozinho, deixava meu corpo agir livremente. Não havia lugar para sentimentos dentro da clínica. Passei anos construindo cada pedacinho dela, sendo cobrado pelas responsabilidades, e gostava da minha posição de chefe. Então, não havia tempo para me distrair com a dor — e também não queria que ninguém a visse pelos corredores.
— ... — a voz feminina, fina e calma, me despertou. — Está tudo bem com você?
Fechei os olhos por um instante, tentando me recompor. Ao me virar e abri-los, encontrei os globos verdes de Yelena cravados em mim, tão atenta que parecia sondar a minha alma. Ela era uma das poucas pessoas na clínica que sabia me ler através da fachada de veterinário. Seus conhecimentos em psicologia lhe davam liberdade para conhecer todos os meus defeitos e qualidades. E, por algum motivo, sabia que, se me abrisse com ela, o fardo pesado em meu peito diminuiria — mas não queria falar sobre Lily com ninguém.
— Estou tentando ficar bem. — Não era de tudo mentira.
Ela colocou as mãos na cintura e me fuzilou, como se estivesse lidando com uma criança teimosa. Evitei qualquer contato visual.
— Sabe que um dia terá que falar sobre isso com alguém — às vezes, ela agia como uma psicóloga já formada.
— Eu não tenho que falar sobre nada — Fui ríspido, atravessando a recepção como um raio para sair do seu campo de visão.
Conhecia Yelena. Sabia que ela tentaria me arrastar para uma conversa profunda, insistindo em soluções e conselhos. Mas era justamente o oposto do que eu precisava naquele momento. Queria apenas um pouco de paz e silêncio, um tempo para digerir tudo sozinho, e não alguém cutucando minhas feridas em uma sessão de terapia forçada. Isso me sufocava. Precisava de espaço, de tempo para que as coisas se encaixassem na minha cabeça, longe de qualquer boa intenção que viesse disfarçada de preocupação.
O corredor era calmo e frio, o melhor lugar para ficar quando se buscava o silêncio e a solidão. Passei a mão pelos cabelos, bagunçando os fios e descendo para o pescoço, continuando a caminhar até minha sala. Era hora de pegar minha mochila, o Hyundai Creta e desaguar pelas ruas de Nova Jersey, em busca de algum lugar aberto para comprar a minha janta — e depois me afogar no oceano que era a solidão do meu apartamento.
Passei o dia todo na clínica, ocupando-me com cirurgias e consultas apenas para evitar ir para casa. Gostava do modo como o trabalho conseguia me distrair, desde que perdi Lily, era o jeito que encontrei de não pensar na minha dor. Além disso, também estava fugindo de e da responsabilidade que Jeremy jogou em minhas costas: morar com uma mulher que não via e com quem não falava há 13 anos, e com uma criança, era a última coisa que desejava na vida.
E sabia que Lily estava rindo de mim, se divertindo com a situação. Ela sempre sonhou em me ver casado, construindo uma família, dizendo que a minha vida de solteiro tinha que acabar, e que deveria me apaixonar por alguém, assumir um compromisso sério e ser pai de vários filhos. Mas, ao contrário dela, não conseguia me ver amarrado a um casamento — gostava da minha liberdade e da diversão.
Eu era um homem de apenas uma noite, e não de uma vida inteira.
No entanto, Lily conseguiu o que queria, planejando pelas minhas costas e jogando-me nos braços da única mulher que sempre me odiou. Era como se minha irmã estivesse me punindo, forçando-me a conviver com a pessoa que mais me tirava do sério. , desde a adolescência, tinha um prazer doentio em me irritar, e eu, em troca, adorava provocá-la, criando um jogo de gato e rato que nos divertia quando éramos jovens. Agora, como adultos, não sabia dizer como seria a dinâmica entre nós, ainda mais com um bebê no meio.
E como se não pudesse piorar, ela havia se transformado em uma mulher... linda e muito atraente.
Se antes era uma garota gordinha e desengonçada, agora era uma mulher belíssima e confiante. Suas curvas eram perfeitas, suaves e femininas, e a pele tinha aparência macia e luminosa. Os olhos castanhos, antes resguardados, agora brilhavam com uma intensidade que me deixava sem fôlego. Seus cabelos negros, sempre presos em um rabo de cavalo desleixado, caíam em cascatas sedosas sobre os ombros, emoldurando o rosto que exibia um sorriso radiante.
Lembrava-me das nossas provocações constantes, das suas reações explosivas, e não tinha ideia de como seria dividir o mesmo teto com ela. Por isso, estava adiando o inevitável, ainda buscando alguma saída para não ser obrigado a conviver com as consequências de um plano arquitetado por alguém que já não estava mais entre nós, como uma magnífica ironia.
Ah, se eu soubesse que Lily acabaria com a minha vida, colocando-me em uma coleira contra a minha vontade, nunca teria sido padrinho do seu casamento.
Empurrei a porta, indo em direção à janela, sentindo uma força magnética me atraindo até ela. Minha sala ficava no segundo andar da clínica e era possível observar as ruas movimentadas com a caída da noite, os carros com os faróis intensos iluminando o caminho, da mesma maneira que a luz da lua refletia nos meus olhos, revelando os turbilhões de emoções. Suspirei, concentrado nos sons da cidade, sentindo a pontada de dor me dominar ao pensar em Lily. Sentia tanto a sua falta que me dilacerava, rasgando meu peito e abrindo feridas que não cicatrizariam tão cedo.
Eu a amava como parte da minha alma. E, por mais que sentisse raiva pelo que fez com a minha vida, no fundo, havia uma chama de esperança tímida de que, junto com , pudéssemos construir um lar para Mia. Eu nunca seria como o Noah, mas estava disposto a me esforçar para ser a figura masculina que a pequena precisaria em seu crescimento.
— Você pretende criar raízes nessa clínica, ? — A risada zombeteira acompanhou a voz.
Revirei os olhos antes de me virar para encará-lo, ficando com as costas encostadas no parapeito da janela. Cruzei os braços em frente ao peito, observando o homem de cabelos castanhos, alguns cachos escuros caindo sobre a testa; o corpo magro e esbelto se acomodava em minha cadeira e a girava feito um moleque travesso. Eu sabia que o deixar trabalhar na clínica era uma péssima ideia, mas tinha que admitir: sua especialidade com os felinos era de ótima excelência.
Aidan era meu melhor amigo; cursamos medicina veterinária juntos e sempre foi nosso sonho construir uma clínica onde pudéssemos exercer nossas profissões. Eu só não contava que, no meio do caminho, ele jogasse toda a responsabilidade burocrática nos meus ombros, o que resultou na chefia em meu nome, e, desde então, passou a viver como se fosse a minha sombra.
— Se quebrar essa cadeira, terá que comprar uma nova — alertei, observando-o abusar do objeto.
— Você está pior do que um velho ranzinza — colocou os pés sobre a mesa, sentindo-se o dono da sala. — O que aconteceu? A desconhecida não é tão gostosa assim?
Jogou a cabeça para trás e gargalhou.
Apertei a ponte do nariz e fechei os olhos por um instante, o arrependimento estapeou meu rosto com tanta força que tive vontade de dar um tiro em Aidan e acabar de vez com o tormento. Eu sabia que assim que falasse para ele o que tinha acontecido, isso me resultaria em diversos momentos estressantes como esses.
— Ela não é uma desconhecida. — enfatizei, gesticulando com uma mão.
— Vocês não se veem há 13 anos. — Só então notei que girava uma caneta na mão. — Tem alguma foto dela para eu ver se é bonita?
O sorriso travesso curvou seus lábios, os olhos verdes cintilavam. Era um demônio mesmo.
— Por que teria uma foto dela, Aidan? — Franzi as sobrancelhas.
— Porque você vai praticamente se casar com ela, o mínimo é ter uma foto, cara. — Abriu os braços como se estivesse falando algo óbvio. — Mas... Você não negou que ela é gostosa.
— Eu não sei se ela é gostosa. — era bonita, mas gostosa, eu não sabia dizer; não havia tido tempo o suficiente para notar isso, e nem era minha intenção.
— Você a viu mais de uma vez e não reparou se é gostosa? — seu semblante franzido expressava sua indignação.
— Eu não sou um tarado compulsivo como você.
Voltei a olhar para as ruas movimentadas, analisando o sinaleiro mudando da cor vermelha para a verde.
— Eu sou analista, é diferente. — defendeu-se, ainda brincando com a caneta.
Lancei um último olhar para as ruas, antes de me virar e focar minha atenção nele.
— Nós iremos criar uma criança juntos. E eu não sei nada sobre ela, só sei que, há 13 anos, me odiava. — soou como um desabafo.
— Cara, ainda acho uma loucura essa história de morarem juntos, vocês são desconhecidos. Como isso vai funcionar? — girou a caneta entre os dedos, com o olhar distraído.
— É uma loucura, mas o advogado disse que será o melhor para a adaptação da Mia. — E tinha razão, a pequena havia acabado de perder os pais, não deveria ficar pulando de casa em casa com uma guarda compartilhada.
— Eu acho que você perdeu a cabeça, . — disparou e me encarou com o cenho franzido.
— Não fui eu que perdi a cabeça, a Lily armou para cima de mim! — defendi-me, apontando o meu peitoral com as mãos.
— Não culpe a Lily, você perdeu a cabeça, cara, só não quer admitir para si mesmo. — acusou.
Tencionei o maxilar, sentindo a raiva crescer cada vez mais em meu interior. Eu odiava quando as pessoas me acusavam daquele jeito.
— Qual o seu problema? — Largou a caneta e cruzou os braços. — Sobre cuidar da Mia, eu entendo. Mas se submeter a viver na mesma casa com uma estranha, que, aliás, nem gosta de você...
— Ela não é uma estranha, Aidan. — corrigi, interrompendo-o. — Nós crescemos juntos por um tempo, só nunca nos demos bem.
— Mesmo assim, cara. Por que aceitou isso?
— Foi pela Mia. É para preservar as lembranças que ela tem do lar.
E, no fundo, gostava de acreditar que foi pela pequena que aceitei o acordo. De fato, seria bom que ela crescesse na mesma casa em que sempre viveu — era onde estavam as lembranças de seus pais, além de ajudar na adaptação dela conosco. Mas o fato de ter que dividir minha vida com a única mulher que me rejeitou e odiou ainda era uma incógnita.
— Não deixo de achar tudo um absurdo. — Aidan quebrou o silêncio, retirando os pés da mesa.
— É um absurdo, mas não tenho como fugir das minhas responsabilidades. — Encarei o relógio no pulso, decidindo que era uma boa hora para ir embora.
— Eu nem te reconheço falando assim. — Colocou a mão no peito, fingindo surpresa. — Já contou para a Madison?
— Não, fique à vontade para fofocar sobre a minha vida com ela. — desencostei do parapeito, pegando a mochila sobre a mesa e guardando o notebook.
— Ela vai rir muito quando souber que virou um homem de família — zombou.
Rolei os olhos com seu comentário, jogando a alça da mochila sobre o ombro.
— Tenho que empacotar as coisas da minha casa, então feche a clínica hoje — Joguei o molho de chaves em sua direção.
Não esperei que respondesse para desaparecer pelo corredor. E, conhecendo Aidan como conhecia, sabia que o infeliz já estava mandando uma mensagem de áudio explicando todos os detalhes para Madison — e que os dois passariam horas fofocando sobre minha vida. Passei a mão pelos cabelos e suspirei; por mais que odiasse ser o centro das conversas, sabia que eles adoravam isso. E não havia nada que pudesse fazer para evitar.
Abri a porta do SUV, jogando a bolsa no banco do passageiro e sendo rápido em ocupar o lado do motorista, desbloqueando o celular e pedindo a comida mais gostosa para ser a minha janta da madrugada. Seria uma longa noite e precisaria de uma boa dose de álcool também se quisesse sobreviver; por sorte, tinha uma garrafa cheia de vodka me esperando. Girei a chave na ignição e manobrei o veículo, torcendo para que minha mente decidisse ficar calada e me deixasse sozinho, usufruindo do completo silêncio do mundo.
Tudo que menos precisava era ser atormentado por um pesadelo do qual não conseguia acordar.
Durante um tempo, não imaginei que estaria sentado no meio da sala do apartamento, com uma caixa fechada de pizza sabor calabresa disposta ao meu lado e uma garrafa grande de vodka me fazendo companhia. Eu havia oficialmente chegado ao fundo do poço. A escuridão reinava ao meu redor; as luzes apagadas do cômodo deploravam a minha existência.
O álcool desceu queimando cada partícula da minha garganta, deixando o rastro ardido pelo caminho. Fechei os olhos e balancei a cabeça de um lado para o outro, batendo a garrafa no chão. Meu estômago reclamou, se retorcendo, contraindo-se pela falta de alimento. Eu queria ficar bêbado e acabar o dia dormindo tão pesado que só acordaria no dia seguinte com uma puta ressaca, mas, ao invés disso, tinha que controlar as doses.
Puxei o chaveiro do bolso da calça e o girei no dedo, dando outro gole na bebida. A chave prateada era o tormento da minha noite. As caixas estavam prontas, embaladas no canto perto da porta de entrada, esperando para serem movidas para o novo lar: a casa de Lily e Noah. E precisava fazer isso nas próximas horas, ou não teria mais coragem; a ideia de morar com ainda me incomodava, mas não tinha escolhas — era a vontade da minha irmã e tinha que honrar com a minha palavra.
Joguei a cabeça para trás, sentindo o impacto com a parede; a pequena dor não era nada comparada àquela que me atormentava todos os dias. Peguei o celular, que deixei em cima da caixa da pizza ao meu lado, deslizei os dedos por alguns minutos até parar na galeria de fotos. Gostava de me torturar ao ver a imagem do segundo mês de vida de Mia, onde Lily e Noah a seguravam em frente a um a pequeno bolo e sopravam a vela. Naquele dia, tentei fazer o possível para comparecer à celebração, mas estava preso no Canadá, sendo responsável pelo parto de uma égua que carregava dois bebês. Analisei a fotografia; eles eram tão felizes juntos. Duas pessoas tão compatíveis, que acho que todos gostariam de viver a vida deles.
Arrastei para o lado, sentindo um aperto na garganta me sufocando quando o vídeo da formatura de Lily em Administração começou a rodar, deixando o barulho da comemoração preencher o ambiente vazio do meu lar. Ela gritava junto com os outros alunos, tendo o maior sorriso de felicidade nos lábios, jogando o capelo para cima. Tomei um grande gole da vodka, passando para mais uma foto.
E aquela socou meu estômago com tanta força que precisei me conter para não jogar o aparelho longe. Lily estava radiante na festa de formatura; os cabelos louros-escuros se perdiam entre os fios avermelhados caindo sobre os ombros em ondas. O vestido azul, longo e com brilhantes, destacava a cor dos seus olhos; sua mão estava em meu rosto, apertando minhas bochechas, enquanto fazíamos caretas para a câmera em frente a um arranjo de flores brancas. Lembro-me de ela ter acabado com a minha raça porque queria que eu usasse um conjunto smoking bonito e me comportasse com as mulheres, dizendo que aquela noite era o momento dela.
Minha boca se curvou em um sorriso de saudade, sendo invadido pelas lembranças do momento daquela foto. Lily brigou comigo na frente de todos porque havia me recusado a fazer a careta, obrigando-me, não me restando escolha, a não ser ceder. Além disso, ficou no meu pé a noite inteira depois de ver uma das amigas delas dar em cima de mim descaradamente — e a culpa ainda foi minha.
Eu não tinha culpa das mulheres se derreterem quando usava smoking.
Bloqueei o aparelho e o joguei ao lado do corpo, apoiando os cotovelos sobre os joelhos dobrados, esfregando o rosto com as mãos e o escondendo ali. Fiquei imóvel por alguns minutos, lutando com a dor que insistia em me consumir por inteiro, despedaçando cada sentimento do meu coração. Eu não queria me sentir assim; sempre fui o homem forte, rude e petulante, então por que doía tanto? Por que parecia que garras enormes e afiadas me rasgavam por dentro apenas por me lembrar dela?
Eu a amava, mas nunca pensei que perdê-la me afetaria tanto.
Olhei ao redor da sala, não conseguindo pensar em mais nada que não fosse Lily e minha dor. Eu queria que tudo parasse, que voltasse a ser o que conhecia. Morar na casa dela não me ajudaria em nada, mas pela pequena eu tinha que tentar; não se tratava mais de mim, tinha que pensar em Mia acima de qualquer coisa.
Meus devaneios foram interrompidos quando ouvi o ronronar do felino que esfregava o corpo pelas minhas pernas. Levei minha mão para acariciar suas costas, assistindo-o ronronar mais alto e amolecer o corpo, entregando-se ao carinho. Sky era um bichano insolente, que não se preocupava em me consolar, só estava atrás de comida. Continuei o afago, até que ele caísse no chão e rolasse, ficando com a barriga exposta para cima, em uma armadilha, já que assim que me aproximasse, sairia correndo como se estivesse ofendido.
Os cantos da minha boca transformaram-se em um sorriso divertido. Eu gostava de como Sky tinha o poder de acalmar os meus piores demônios apenas com sua presença. E, como veterinário, sabia que os animais tinham o dom de curar nossas feridas mais profundas, e foi o que aconteceu nos últimos dias. Com o gato preguiçoso e gordo sendo o único a presenciar as minhas fraquezas, soube o quanto era verdade.
— Ah, Sky... No que a Lily foi me enfiar? — falei para o bichano, esperando que me entendesse.
No entanto, o que recebi em resposta foi o som alto vindo do fundo da sua garganta, um miado estridente e depois um ronronar. Ele pulou sobre a mesinha de centro logo à minha frente, acomodando os pelos pretos ao me encarar com os olhos amarelos intensos e brilhantes, julgando-me por ainda não ter levantado para alimentá-lo com sachê de salmão, seu favorito.
Balancei a cabeça e levei a mão em direção ao nariz, esfregando a palma em um movimento urgente. Engoli em seco, a garganta arranhando como um disco antigo. A sensação era incômoda e parecia que o universo me pressionava, fazendo uma pressão pesada em meu peito. Fiz uma careta, era como se minúsculos fios, macios e finos, invadissem minhas narinas, causando a irritação que coçava insuportavelmente.
Entreabri os olhos, sendo atingida por uma parede escura que bloqueava minha visão turva. Não consegui tempo para ver ao certo o porquê de haver uma barreira negra na minha cabeça, quando um espirro estrondoso se sucedeu, obrigando-me a virar o rosto e cobrir a boca com o antebraço. A queimação dominou minhas vias aéreas, bloqueando qualquer passagem de ar e rasgando cada pedacinho que percorria. Meus lábios se abriram em uma fenda estreita, possibilitando a respiração acompanhada de rangidos do fundo dos brônquios.
Tentei puxar o ar e meus pulmões reclamaram, transformando a tarefa simples em um campo de batalha, continuando a sentir o peito doendo e a estrutura pesada ainda repousava sobre ele. Será que o universo decidiu se vingar de mim e agora levava minha alma para o submundo?
Forcei as pálpebras pesadas a se arrastarem, deixando que a maré de lágrimas se formasse no canto dos olhos. Soltei o ar pesadamente pela boca e não havia palavras para definir a onda de desespero que me tomou quando encontrei círculos gigantescos e dourados, brilhantes e faiscantes, me encarando como se fossem me devorar. As pupilas minúsculas pareciam ler a minha alma.
Engoli em seco, levantando-me abruptamente em um movimento tão rápido que o felino pulou contra o estofado com as perfeitas quatro patas e continuou a me encarar, me analisando minuciosamente. Outro espirro me acometeu.
— O que caralhos você está fazendo aqui? — disparei, olhando para o gato como se fosse uma bomba-relógio prestes a explodir.
Esfreguei as mãos no rosto com desespero, sentindo a pele ardendo. Levei os punhos em direção aos olhos e os cocei, não conseguindo suportar o nariz bloqueado clamando por socorro. Minha rinite alérgica não me atacava há anos, mas bastou apenas aquela coisinha peluda se aproximar para minha respiração fazer as malas e balançar a mão em uma despedida solene para o quinto dos infernos.
Olhei ao redor, com os olhos marejados e provavelmente vermelhos como o fogo, percebendo que tinha apagado na noite anterior no sofá. Depois de organizar as caixas no quarto de hóspedes, tomar um banho e colocar Mia para dormir, deveria ter colocado um filme qualquer para assistir no canal de streaming. E lembro-me de ter esperado por algum sinal de antes de ser vencida pelo sono, com a consciência confusa ao pensar que ele provavelmente fugiria das responsabilidades.
Mas agora tinha um gato no meio da sala, me fuzilando em um julgamento silencioso. O que ele estava fazendo ali, sendo que Noah e Lily não tinham animais de estimação?
— Bom dia, . — A voz máscula, grossa e mais rouca do que me lembrava invadiu a sala.
Fiquei surpresa e meu coração quase pulou pela boca. Virei o rosto e me deparei com encostado ao batente da porta da cozinha, vestindo uma calça jeans, uma camiseta preta de linho com os primeiros botões abertos que delineavam os seus músculos, tênis brancos impecáveis e os cabelos bagunçados, parecendo não ter tido tempo para ajeitá-los. Como um adolescente magro e desprovido de beleza tinha se transformado em um homem tão atraente? Quando sua voz estridente e irritante havia adotado um tom firme e sexy?
— Vejo que já conheceu o Sky. — Apontou o bichano com a xícara que segurava em mãos.
Franzi o cenho e apontei para o esquilo peludo ao meu lado.
— Essa coisa se chama Sky? — O gato pulou do sofá, caminhando como um lorde na direção de , esfregando os pelos contra a calça dele.
— Não é uma “coisa”, é um gato — disse calmamente, bebericando a bebida que, pelo aroma, era café.
— Sério? — usei meu melhor tom de surpresa. — Nossa, achei que fosse um babuíno! — bati as mãos nas coxas, levantando-me e indo em direção à cozinha.
só poderia estar de brincadeira comigo. Um gato? Um ser que se achava superior a todos os outros, morando debaixo do mesmo teto que eu?
— Por que trouxe um gato para esta casa? — Eu tinha que saber.
E, enquanto esperava a resposta para o meu protesto, lavei as mãos, jogando água no rosto e depois esfregando as roupas com a umidade, retirando qualquer resquício de pelo que houvesse. Se não tomasse o antialérgico, passaria o dia sofrendo com os sintomas da rinite e, como entendedora no assunto, sabia que não era nada agradável ficar espirrando a cada cinco minutos e ter que ficar lubrificando as vias aéreas com soro para afastar um pouco do incômodo rotineiro que causava.
— Não é óbvio? — disparou e, mesmo de costas, sabia que tinha um sorriso infeliz nos lábios.
Fechei as mãos em punho, clamando por paciência.
— O que é óbvio, ? — Virei-me, fuzilando-o. — Um gato preto se chamar Sky, sendo que o significado desse nome é Céu? — Era muita ironia para começar o dia.
— Qual o problema com o nome do meu gato? — Encostou o corpo contra o balcão que dividia a cozinha, inclinando-se para frente, apoiado nos cotovelos.
— Seu gato? — Arquei as sobrancelhas e cruzei os braços em frente ao peito. — Trouxe um gato para esta casa sabendo que tenho alergia a pelos?
O felino pulou no balcão da cozinha à sua frente, emitindo um grunhido que pareceu indignação. Sentou-se e os pelos se acomodaram como um lorde, marcando sua ilustre presença, como se soubesse que estávamos falando dele. acariciou a cabeça do bichano.
— Eu não sabia que tinha alergia, na verdade, não sei nada sobre você — deu de ombros, levando a xícara aos lábios com a mão livre. — Mas não precisava fazer uma tempestade em copo d’água, sabia que existem antialérgicos para isso? — Contou como se tivesse acabado de fazer uma descoberta incrível.
— Antialérgicos são feitos de corticoides e essas merdas me deixam inchada. — Da última vez que usei os comprimidos continuamente, meu peso na balança subiu tanto que fiquei abismada.
Acompanhei quando deixou a xícara no balcão e abriu o armário acima da geladeira, localizada ao seu lado, revelando um estoque de sachê de salmão, petiscos e muita ração premium para gatos. Revirei os olhos, mas era só o que me faltava, ia ser mesmo obrigada a aceitar a presença do felino. Eu deveria estar sendo muito castigada para isso.
— Nem todos os antialérgicos possuem corticoides, posso recomendar alguns, aliás, eu sou médico. — Quando voltou a me encarar, segurava um pacote de sachê e o rasgava, enchendo o pote do gato, e este, por sinal, miava, parecendo desesperado.
— Você é veterinário, é médico de animais! — Talvez ele estivesse me enxergando como uma mula alérgica.
— Sabia que a maioria dos medicamentos de humanos agora serve para animais? Então, tecnicamente, estou por dentro da indústria farmacêutica. — O modo como falava parecia que havia feito uma descoberta histórica.
— Isso não substitui uma consulta com o especialista em humanos. — Cruzei os braços.
— Vá em frente. — Balançou os ombros em desdém, dando outro gole no café. — Gaste horrores com consultas e exames caros, só para no final receitarem um anti-histamínico barato que nem precisa de prescrição médica. — Arqueou uma sobrancelha, o olhar fixo em mim com um desafio mudo.
E, como imaginei, poderia ter mudado da água para o vinho no quesito beleza, o corpo de Deus grego, com direito a tanquinho e tudo, mas a mentalidade continuava a de um adolescente mimado que adorava me provocar.
— Eu não estaria tendo que passar por isso se tivesse me comunicado que traria um gato para morar comigo! — Venci o espaço até o balcão, não segurando o espirro por causa do felino.
— Conosco, é o termo correto — corrigiu, com o sorriso cínico nos lábios.
Pressionei a ponte do nariz e fechei os olhos com força.
— E, já que prefere uma apresentação formal, — indicou o esquilo peludo. — , este é o Sky, e será o nosso mascote. — Acariciou as costas do gato e o ouvi ronronar. — Ele é um gato castrado, gordo e preguiçoso que é carente, gosta de colo e lugares quentinhos para dormir. — Deu mais um gole, indo até à mesa da cozinha e enchendo a xícara com mais café. — E uma curiosidade sobre ele: Sky tem problemas com continência urinária, então tudo o que pode comer é restrito e está naquele armário. Não o alimente com comida ou qualquer outra coisa que não seja a ração e o sachê especial.
Franzi o cenho.
— Então, além de eu ter que lidar com você, terei que me preocupar com a taxa de sódio dessa coisa? — Olhei para o gato, que me encarava com os olhos dourados, julgando-me.
— Deixe que eu o alimente, se preocupe com a sua vida e pare de chamar meu gato de coisa — disse, sentando-se à mesa e servindo seu prato de pão, ovos e muito bacon, um café da manhã nada saudável.
— Você vai comer isso? — questionei, olhando para os ovos fritos e o bacon. — Não é nada saudável.
revirou os olhos.
— , quando eu pedir a sua opinião sobre o meu café da manhã, aí você poderá compartilhá-la comigo. — Deu uma garfada tão generosa na comida, parecendo ser a última maravilha do mundo.
— Ah, que ótimo... Agora vou ter que dividir a casa com um gato preguiçoso e com uma pessoa que não liga para a própria saúde. — Quando morresse, a primeira coisa que faria seria procurar pelo meu irmão no reino divino e estrangulá-lo por me fazer passar por tudo aquilo.
— Não tenho culpa se o coelhinho gosta de comer salada no café da manhã. — Ainda era cedo para dizer que morar com ele era uma péssima ideia?
— Eu priorizo minha saúde, algo que você deveria fazer — acusei, pegando o celular para conferir a meteorologia, meu ritual sagrado de todas as manhãs.
bateu as mãos na mesa e se levantou em um salto, vindo em minha direção como um raio. Seus olhos azuis estavam escuros e havia uma pequena faísca no fundo das íris, onde consegui ver perfeitamente o meu reflexo. Com certeza, não era a única a pensar que era uma tremenda perda de tempo dividirmos uma casa.
— Isso nunca vai dar certo se você continuar sendo a garota mimada de sempre — esbravejou, fuzilando-me com tanta intensidade que achei que fosse me matar somente com o olhar.
— E você continua sendo o garoto arrogante e irritante de sempre! — retruquei, levantando as mãos para o alto. — É mais que óbvio que isso não vai dar certo! Não precisa ser especialista no assunto.
— Por que nossos irmãos nos colaram nessa cilada? — Seu tom estava alterado, mais firme e rude.
— Eu não sei o que pensaram quando acharam que uma mulher como eu, gostaria de morar com um homem insuportável como você!
— Acha que concordei com isso? A última coisa do mundo que eu queria era dividir uma casa com uma mulher teimosa e egoísta como você! — praguejou, levando as mãos para os cabelos, desarrumando mais os fios.
Eu iria retrucar, fazê-lo pagar pelas palavras malcriadas, mas foi o barulho baixo e quase perceptível do choro da pequena Mia que me impediu de fazer isso. Suspirei, recuperando a compostura antes de ir vê-la e deixá-lo sozinho, sozinho, com a companhia do gato — o único ser que o suportava.
A pequena banheira rosa estava quase pronta. Mergulhei a mão na água, sentindo a temperatura morna aquecer minha pele. Desliguei a torneira e passei pela porta, atravessando a suíte do quarto de Noah e Lily. A pequena estava deitada com uma chupeta, sobre a enorme cama do casal, mexendo os olhos brilhantes e curiosos ao redor, investigando o cômodo nos mínimos detalhes.
— Vamos tomar um banho quentinho, princesa? — A peguei em meus braços, analisando o quarto. — Você gosta de ficar aqui, não é? — Beijei o topo da cabeça dela. — Eu também sinto falta deles. — A dor preencheu meu peito.
Os perfumes ainda estavam nos lençóis, em cada fio de seda. E, apesar de cada canto que olhava me lembrar deles, de certo modo me sentia confortável. Mia também estava mais calma, de um jeito indecifrável, como se estivesse sendo abraçada pelos pais. Ela havia parado de chorar quase instantaneamente quando entrei no quarto, não sendo minha intenção, já que procurava a porta do banheiro.
— Vamos para o banho, pequena. — A balancei nos braços, indo em direção à suíte e a colocando na banheira.
Mia sorriu e brincava com o patinho de borracha, que apitava quando apertava, batendo as mãos na água e me molhando inteira. Acompanhei-a na risada, com a leveza dominando meu ser. Vê-la se divertindo, enquanto esfregava o sabonete em sua pele delicada, deixava meu coração quentinho.
O banho foi rápido, calmo e sereno. Enrolei o corpinho em uma toalha macia e a sequei, coloquei a fralda, passei a colônia com notas florais de rosa e baunilha, deixando sua pele perfumada e refrescante. Havia escolhido um vestido verde-claro com flores e sapatinhos brancos, transformando-a em uma princesa linda e cheirosa.
Peguei-a no colo e nos despedimos do quarto, indo em direção ao dela, levando o patinho junto. Arrumei o berço antes de colocá-la por alguns minutos, sendo o tempo que levei para ajeitar a bolsa com os pertences para sairmos. Seus pais haviam optado pela introdução dela na creche desde cedo, acreditando que isso ajudaria a desenvolver os sentidos, além de conseguirem organizar a rotina de trabalho no período da manhã.
Mia já tinha completado 2 anos e estava se aventurando com os primeiros passos, que foram presenciados pelos pais, sendo cruel pensar que não estariam presentes para vê-la dizer a primeira palavra. Será que seria ? Ou seria ? Talvez o nome do gato?
Desci as escadas assim que troquei as roupas molhadas, com a alça da bolsa no ombro e a segurando nos braços, brincando com o patinho junto com ela. A recepção foi calorosa, já que, quando chegamos nos últimos degraus, apareceu da cozinha com um sorriso largo estampado nos lábios.
— Olha quem acordou! A minha bebê favorita! — aproximou-se, depositando um beijo na testa da pequena.
Ele a pegou no colo e Mia não perdeu tempo, pressionando o brinquedo contra a bochecha dele, emitindo o som do apito, arrancando gargalhadas do homem. Observei a cena e sorri, percorrendo os olhos pela sala até pairar sobre Sky. Deitado no sofá, o felino levantou a cabeça para olhar a agitação, retornando rapidamente a dormir, ignorando tudo ao redor. Neguei com a cabeça, qual era a graça que as pessoas viam em gatos?
Mia ficou agitada quando notou que tínhamos um animal de estimação, apontando o bichano, ficando eufórica no colo de . Cruzei os braços e optei por apenas observar a cena dele aproximando-se do gato, com a pequena balançando os braços, ansiosa para tocar os pelos longos e macios.
— É, Mia, agora temos um gatinho — murmurou.
E como um perfeito delinquente, Sky levantou a cabeça e arregalou os olhos dourados; a pupila dilatou, disparando em uma corrida desesperada em direção da cozinha, deixando claro que odiava crianças perto dele. Cobri a boca com a mão, tentando segurar o riso zombeteiro que me atingiu.
— Ainda... — ri, não me contendo. — Ainda acha que o seu gato é uma boa ideia? — provoquei, atravessando a sala, me rendendo à risada.
endireitou o corpo e me acompanhou até a porta. Seu semblante fechado e abatido, enquanto Mia puxava os botões da camiseta, ignorando o comportamento do gato.
— Ele vai se acostumar, não é todo dia que é acordado por uma maluca histérica o chamando de “coisa” — retrucou, segurando a porta.
Rolei os olhos e passei pela saída, trancando a fechadura. Descemos os dois degraus da varanda em silêncio, olhei para os lados em busca de um táxi para nos levar até a creche. No entanto, quando estava levantando a mão para sinalizar, pensei que a figura imponente ao meu lado poderia fingir ser um bom cavalheiro e me poupar de gastar dinheiro.
— Vai me acompanhar até a creche? — disparei, tentando não soar oferecida. — É importante para a Mia que fôssemos juntos como uma família, já que somos os pais dela. — Contive o sorriso pilantra que queria se curvar em meus lábios.
— Nós somos os tios dela — corrigiu, colocando a mão no bolso da calça.
— Nós recebemos a guarda temporária dela, então temos que agir como figuras paternas — gesticulei.
— Se quer gastar a gasolina do meu carro a levando para a creche, é só dizer, . — Deu uma piscadela em minha direção, retirando a chave do veículo do bolso. — Depois preciso ir para a clínica, consigo deixá-la em casa — falou sobre os ombros, cumprimentando os vizinhos curiosos com nossa presença.
— Pode me deixar no mercado na volta, tenho que comprar algumas coisas para a casa e para minha dieta. — Ajeitei a alça da bolsa, ficando em seu encalço.
— Combinado, — concordou, apertando o botão do alarme.
Meus olhos caíram sobre o carro quando as luzes piscaram, indicando que havia sido destravado. O modelo SUV era de uma pintura negra, profunda e brilhante, com linhas perfeitas e musculosas que contrastavam com a suavidade das curvas. A grade frontal, imponente, parecia como a de um felino pronto para saltar. Seus faróis, desenhados iguais aos olhos de um gato, cortariam qualquer escuridão; as rodas de liga leve eram envoltas em pneus largos, denunciando sua potência latente e expondo a capacidade off-road surpreendente.
O Hyundai Creta é a combinação perfeita de beleza.
— Achei que tivesse um carro. — quebrou o meu momento, abrindo a porta do passageiro traseiro.
Adentrei o veículo, sendo abraçada pelo banco confortável, colocando o cinto de segurança. Estendi os braços, recebendo o corpo pequeno e delicado de Mia, sentando-a sobre minhas pernas, já que não tínhamos tido tempo para instalar a cadeirinha infantil — teríamos que fazer do modo tradicional. Não era tão seguro, mas era nossa única opção.
— Eu tenho uma moto, ainda não tive dinheiro para comprar um carro — respondi, prendendo os olhos no interior do veículo.
Tudo era envolto em uma elegância escura, denunciando o convite para o conforto e o relaxamento; os detalhes cromados nos bancos de couro eram os responsáveis por dar o toque final de sofisticação.
— E como irá voltar para casa com as compras? Voando? — quis saber, ocupando o lado do motorista.
Rolei os olhos, notando quando ele acomodou os óculos escuros no rosto, realçando sua beleza. Como era possível o carro combinar tanto com o condutor?
— Eu chamo um táxi ou peço para o mercado entregar a compra, ainda não desenvolvi minhas habilidades voadoras. — Olhei para os lados, tentando ocupar minha atenção com qualquer coisa que não fosse o retrovisor interno refletindo a imagem do cretino.
Mia riu, atraindo minha atenção.
— Está vendo, Mia, o que seus pais fizeram comigo? — brinquei, segurando sua mão que tocou meu rosto. — Condenaram os meus últimos neurônios saudáveis a queimarem por ter de conviver com esse imbecil — ergui o olhar, mirando .
Ele deu a partida no veículo e curvou o sorriso irônico no canto dos lábios.
— E os meus neurônios não estão em risco, ? — disparou. — Você tem alergia a gatos e ainda come pior do que um coelho, se dependêssemos da sua dieta, o mundo passaria fome. — Ele só estava daquele jeito porque a geladeira estava cheia de frutas e alimentos saudáveis.
— E se dependesse da sua, todos nós teríamos obesidade mórbida e morreríamos antes dos 40 anos — acusei, ouvindo Mia se divertindo com nossa discussão.
— Comer açúcar e carboidratos no café da manhã é uma forma de deixar o meu dia mais produtivo.
— Sério? Comer dois ovos fritos e uma pilha de bacon é ser produtivo? — De onde aquela mente fértil tirava tantas asneiras?
— A Mia aprovaria minha ideia, ao contrário de você, que prefere começar o dia comendo frutas e café sem açúcar — provocou, parando o veículo no sinaleiro e virando o corpo para me encarar. — Por isso é tão reprimida. — Abaixou um pouco os óculos e estralou a língua no céu da boca.
Deus que me ajudasse, porque eu ia matar aquele homem antes da primeira visita da assistente social.
— Você é o imbecil dessa conversa, , o reprimido aqui é você! — esbravejei, com os olhos ardendo em fendas faiscantes. — Agora, dirige a droga desse carro!
— Mia, ela falou uma palavra feia, agora está devendo um dólar para o Cofrinho dos Impropérios. — E foi a última provocação dele, retornando a atenção para a estrada.
O Cofrinho dos Impropérios era um recipiente que Noah e Lily criaram para controlar o uso de palavrões, sendo uma técnica lúdica e educativa. A ideia era ser uma penalidade para cada palavra feia que fosse proferida, tornando-se uma brincadeira engraçada. E levando em consideração minha situação atual, sabia que faltariam potes no mundo para encher, morando debaixo do mesmo teto com .
Ele era tão insuportável que não sabia até quando aguentaria ficar sem acertar um tapa na sua cara.
Eu estava decidido a arrumar as malas, me mudar para o outro lado do mundo, fazer uma nova identidade e começar uma vida do zero sem nenhuma mulher me importunando. Seria feliz e esqueceria que tive um passado tão conturbado que me levou a fazer essa loucura.
A única coisa que me impedia de desaparecer era a pequena Mia, que não tinha culpa dos pais terem achado que me unir com uma criatura abominável seria uma ótima ideia. Ela me odiava com tanta força que não achei que fosse capaz de uma mulher de 1,66 m de altura suportar tanto ódio, nem parecia a mesma que encontrei aos prantos na delegacia e me abraçou como se fosse a sua última esperança.
me tirava do sério de um jeito que ninguém jamais conseguiu e, se dependesse de mim, o cofrinho dos impropérios encheria tão rápido que a Mia conseguiria comprar uma casa antes de completar a maioridade.
Depois de passar o dia preso na clínica monitorando uma gata com oito filhotes — preenchendo relatórios das suas reações após a cesariana de emergência — tudo que mais queria era me deitar em uma estrutura macia e adormecer até o amanhecer. No entanto, o universo achou uma ótima ideia acabar com a minha noite quando cheguei em casa e me deparei com sentada no sofá, assistindo a um filme de romance clichê, chorando por causa do casal principal.
Rolei os olhos com a cena e subi as escadas em silêncio, imaginando que, depois de um longo banho quente e relaxante, teria terminado de derramar suas lágrimas com um casal fictício e deixaria o sofá-cama livre, mas em nenhum momento imaginei que a noite estava apenas começando. Como ela havia ficado com o quarto de hóspedes, tudo que me restou foi a sala, como um perfeito homem “casado”.
Mas, ao descer a escada, só consegui cruzar os braços e parar no último degrau para olhá-la ainda chorando, aumentando o volume do filme. Ela estava enrolada na coberta que havia deixado dobrada no estofado na noite passada, abraçada ao meu travesseiro e mais duas almofadas. Olhei para cima com um suspiro de frustração, desejando que os deuses me concedessem paciência extra para lidar com aquela mulher depois de um dia tão estressante.
— Se pretende ficar na sala a noite toda, então pelo menos libera o meu lugar — quebrei o silêncio, atravessando a sala e ficando na frente dela.
Sem dizer nenhuma palavra, arrastou-se para o canto do sofá, deixando o espaço ao seu lado livre, arremessou o travesseiro contra o estofado e abraçou uma almofada. Ela não fez questão de me olhar, concentrada no filme e em limpar as lágrimas. Talvez fosse melhor assim, sem diálogos, resultaria em uma noite calma e sem desavenças, que era tudo o que mais precisava.
Sentei-me na beirada no sofá, soldando o televisor pela primeira vez, tendo que controlar minha vontade de voltar para a clínica assim que identifique o filme. só poderia estar de brincadeira. O grande navio britânico estava se partindo ao meio no grande oceano, os tripulantes se agarravam na estrutura, outros pulavam na água e a grande maioria corria tentando salvar suas vidas. A cena era insana, retratando toda a emoção e o desespero que deveria ter sido viver o momento real da tragédia.
O casal principal lutava para sobreviver, enquanto as pessoas ricas observavam horrorizadas ao longe nos botes salva-vidas. Metade do Titanic afundou, deixando a outra parte submersa por alguns minutos antes de seguir pelo mesmo caminho. Joguei o corpo para trás, desistindo de assistir ao filme para finalmente dormir, embriagado pela fragrância vibrante, frutada que as notas de romã e verbena exalavam daquela mulher. Conscientemente, virei as costas para ela, ficando de bruços como se assim conseguisse impedir que me tocasse com o toque cítrico, quente com sua doçura suculenta.
Fechei os olhos, achando que finalmente descansaria, quando começou a suspirar e a soltar pequenos soluços que penetraram meus ouvidos, espalhando a irritação por todo meu corpo, o aquecendo ao ponto da camiseta verde-mar incomodar com o calor que se irradiava. Tentei ignorar por alguns minutos, torcendo para o sono me dominar, mas bastou apenas ser torturado pelo seu choro para não aguentar mais.
Virei-me, encarando a televisão que transmitia a famosa cena do casal, com Rose em cima da porta, enquanto Jack estava dentro da água gelada. Franzi a testa, negando com a cabeça, era nítido o quanto tudo não se tratava de uma mentirada do cinema, olhei para o lado, encontrando absorta no filme com os olhos marejados, abraçando a almofada com força.
— Você está de brincadeira, . — apoiei-me nos cotovelos, encarando a televisão. — Isso é a maior mentira, a porta nunca aguentaria o peso de uma pessoa.
— Você não ia dormir? — esfregou as mãos no rosto. — Por que está julgando o meu filme? — aumentou o volume.
— Eu quero dormir, mas não dá para fazer isso com você chorando por causa do Titanic. — Despenquei o corpo, alcançando o travesseiro. — Não acha que já assistiu filmes românticos o suficiente por hoje? — disparei, pressionando o travesseiro no rosto, pensando seriamente em me sufocar com ele.
— Você é tão amargo, — comentou, fazendo uma careta.
Retirei o travesseiro e esfreguei as mãos no rosto. Meu peito borbulhando de raiva.
— Eu não sou amargo, só estou cansado — gesticulei, olhando para o teto da sala. — Porque, ao contrário de você, eu passei o dia inteiro trabalhando.
— Eu não deveria te dar satisfações sobre a minha vida, mas para a sua informação, eu trabalho tanto quanto você. — Bateu as mãos na almofada.
— Você fica em casa o dia todo, em que momento que trabalha? — zombei, expressando um sorriso cínico.
— Não é da sua conta! — cuspiu, aumentando o volume mais uma vez.
— , por favor! — exclamei, tomando o controle da sua mão e pausando o vídeo. — Eu só quero dormir e, se continuar aumentando, essa porcaria vai acordar a Mia. — endireitei o corpo, ficando sentado e encostando a cabeça no estofado.
— É a melhor cena do filme, só que o áudio está muito baixo. — apontou a tela. — O Jack está se declarando para a Rose.
Ela tentou pegar o controle, mas com rapidez o ergui, deixando-o fora do seu alcance.
— Esse filme é de 1997, você já deve tê-lo visto milhares de vezes — Estava me divertindo com suas tentativas falhas de pegar o controle. — Ou seja, até decorou as falas.
— Isso não quer dizer que não posso ver de novo. Não há uma regra para isso. É um país livre! — esbravejou, cruzando os braços em frente ao peito. — Me devolve o controle, ainda não terminei de assistir! — estava irada.
— Eu trabalhei o dia todo e preciso descansar — Joguei a cabeça para trás. — Não pode pegar o notebook e terminar no quarto?
Ela apertou a ponte do nariz, parecendo pensar em uma solução.
— Eu abaixo o volume e assim você consegue dormir — sugeriu, estendendo a mão em minha direção.
— A hora que esse filme acabar, você vai dar o fora daqui?
— Claro, acha que dormiria junto com você? Nem se o mundo dependesse disso. — Sorriu com o canto dos lábios, balançando a mão em um lembrete. — Agora, o controle.
Soltei o ar pela boca, entregando-o como o combinado, permitindo que meus dedos roçassem sua pele quente e macia por um instante. Uma corrente elétrica percorreu meu corpo, arrepiando os pelos pelo caminho e acendendo uma chama incômoda em meu interior. não pareceu sentir o mesmo. Rapidamente, desviei minha mão, observando-a dar o play e voltando a se aconchegar no sofá, presa novamente ao filme.
Passei as mãos pelos cabelos, deitando o corpo no sofá, cobrindo-me com o pedaço da coberta livre, ignorando a sensação que me consumia. A tensão era palpável, parecendo carregar o ar de eletricidade. Será que estava alucinando ou o ódio entre nós era tão forte a ponto de causar um choque físico? Isso era loucura.
Eu me sentia estranho e, como previsto, quando o sono e o cansaço finalmente me venceram, continuei sendo atormentado por . Sonhei que ela me estrangulava por atrapalhar sua maratona de filmes românticos, torturando-me enquanto falava que eu não passava de um homem amargurado que precisava de um pouco de amor para ser feliz. Além de bater sucessivamente minha cabeça no chão, repetindo diversas vezes a pergunta do porquê eu não era como os príncipes encantados.
Na manhã seguinte, acordei ao som de um gato escaldado vindo da cozinha. Olhei o horário no celular, querendo achar o primeiro assassino que estivesse disposto a me matar com um tiro no peito e depois mais três, somente como garantia de que nunca mais voltaria para esse mundo. Os números marcavam exatamente 6h35min da matina. Quem, caralhos, ousava acordar tão cedo?
Sonolento, os olhos ardendo pela péssima noite de sono e o corpo reclamando por ter sido acordado pelo barulho dos infernos, o máximo que consegui fazer foi afundar o rosto no travesseiro, sendo inevitável não prestar atenção ao som incomum. Se eu não fosse um veterinário, diria que havia uma cabrita grunhindo de dor na cozinha.
— Porra! — xinguei, pressionando uma almofada na cabeça.
Eu não ia aguentar essa tortura. Morrer, era, sem dúvidas, a melhor opção.
Apoiei o corpo sobre os antebraços, desistindo da morte lenta que planejava em meio aos tecidos. Lily me buscaria no submundo se fizesse isso. Estreitei os olhos, erguendo a cabeça, parecendo levar uma pancada com a dor que me assolou. Estava péssimo, como se estivesse de ressaca sem nem ter tomado uma gota de álcool.
— You madeeee me a, you madee me a belieeeverrrr, belieeeverrr.
O som ficou mais intenso. Apertei os olhos com o incômodo que as palavras me causaram ao espancarem meu crânio, esmagando o cérebro até não restar nada. Sentei-me no sofá, fechando as mãos em punho quando reconheci a quem a voz insuportável pertencia. cantava mal demais, capaz de quebrar todos os vidros da casa se continuasse com o seu show particular horrível.
— My lifeee, my lovee, my drivee it came frommm. Painn! — ela não gritou, mas xingou em outra língua.
Saltei do sofá decidido a enterrar a minha cabeça dentro de um buraco. O que eu tinha feito de tão ruim para ter que aguentar isso? Como infernos moraria com uma cabra engasgada? E o pior, como conseguiria dormir com tanto barulho?
Sky me saldou com miados, esfregando o corpo contra minhas pernas, totalmente alheio à vontade que estava de arremessar do vigésimo andar de um prédio. Curvei-me, coçando atrás da sua orelha. O felino era o único ser na Terra que me trazia paz, concedendo paciência para lidar com o mundo, mas bastou o próximo “Belieeeverrr” invadir meus tímpanos, para acabar com toda a minha esperança.
— Oh, céus... — endireitei o corpo, apertando o canto dos olhos.
Como se não bastasse ter que lidar com todo o estresse que a morte precoce de Lily me acometia, os deveres que tinha com a clínica e a responsabilidade de cuidar de Mia, ainda tinha que suportar a mulher mais complicada de todos os tempos tentando me matar aos poucos, e não era nem com veneno. Talvez, jogar ácido nos meus ouvidos fosse menos sofrido.
Perdi o controle quando mais uma nota desafinada balançou a casa. Fiquei surpreso ao ver como atravessei a distância até a cozinha tão rápido. Sky me seguiu como um bom interesseiro em sachê. Parei no batente, observando a cena à minha frente com incredulidade. segurava uma enorme bacia azul contra o antebraço e, com a mão, realizava movimentos rápidos e circulares com um batedor de claras, concentrada na mistura, não notando minha presença. Ao redor, o balcão da pia estava sujo com farinha e leite, além de ter uma panela no fogo borbulhando sem supervisão.
— O que caralhos você está fazendo, ? — esbravejei, tão enraivecido que nem reconhecia minha voz.
Ela deu um salto no lugar do susto, me fuzilando. Acompanhei quando o semblante calmo e sereno se transformou em linhas de expressões desagradáveis e odiáveis. Contive o sorriso malicioso, apesar dela ficar estranhamente fofa com as bochechas rosadas de raiva, no fundo, estava adorando saber que minha presença a incomodava tanto.
— Você não sabe começar o dia com um simples “bom dia”? — brandou, voltando a bater a massa.
Cruzei os braços em frente ao peito, encostando-me no batente e não conseguindo parar de observá-la, controlando o sorriso que brincava em meus lábios.
— Não quando sou acordado com o som de uma cabra agonizando — rebati.
— O seu gato me acordou ontem e nem por isso fiquei tão ranzinza. — Então era uma vingança?
Olhei fixo para Sky, que havia subido em cima do balcão, ao lado do seu pote de ração, me encarando com os olhos amarelos espertos e os bigodes longos. Precisava lembrar de deixá-lo sem petisco de salmão por uma semana por ter me feito passar por aquela humilhação.
— O Sky é um anjo, ele tem a inocência de uma criança de 2 anos — defendi-o, ainda olhando para o felino. — E você, tem a teimosia de uma mula. Não poderia ter esperado um pouco mais para começar a fazer esse... O que está fazendo? — arquei a sobrancelha.
suspirou e revirou os olhos, puxando uma assadeira retangular de alumínio em cima da mesa.
— Estou fazendo bolo de cenoura com cobertura de chocolate. — deu de ombros, despejando a massa amarelada na forma, salpicando raspas de chocolate no meio.
— E precisava ser tão cedo? Não poderia esperar até todos acordarem? — gesticulei, sem descruzar os braços.
Ela suspirou, parecendo cansada.
— Ah, ... — sorriu travessa. — Você estava tão engraçado babando no travesseiro quando acordei, que seria um pecado acordá-lo tão cedo. — provocou.
E em seguida, o que ela fez ultrapassou todos os meus limites. A desgraçada levou a colher até os lábios e lambeu em um movimento lento — que achei tremendamente sexy. Os olhos castanhos me encaravam, fixos nos meus, com a intensidade de um desafio, querendo me enlouquecer.
Mulher dos infernos!
— Quer me ajudar com a cobertura? — Passou a língua nos lábios, lambendo os resquícios de massa.
— Você é tão irritante. Ainda é cedo para dizer o quanto quero te matar? — sorri cínico, tentando controlar os batimentos do coração com sua provocação atrevida.
— , admita, não conseguiria viver nem um mês sem mim — disse sobre o ombro, colocando a assadeira no forno e ajustando a temperatura.
Suspirei, desistindo de ter uma manhã serena. estava disposta a me enlouquecer, então a melhor decisão que poderia tomar era ir para a clínica, por mais que isso significasse chegar uma hora mais cedo. Eu tinha que ficar longe dela, antes que fizesse uma besteira e me jogasse sobre seu corpo, envolvendo o pescoço magro com minhas mãos e apertando-o até me deliciar com a falta de ar que a causaria.
Minhas manhãs costumavam ser pacíficas, entre atendimentos de rotina e pequenas cirurgias que conseguia realizar com os olhos vendados, sendo quase entediante. O que melhorava era saber que havia tido uma ótima noite de sono, deixando-me produtivo e ansiando pela tarde. Sempre era surpreendido por uma ligação de emergência ou um resgate que exigia a ajuda da equipe veterinária inteira. Ensinava os estagiários a como driblar um felino agressivo que passou a vida inteira maltratado por pessoas cruéis e deploráveis. Uma tarefa bastante difícil, precisando de muita paciência para não levar o animal a um estresse maior.
E quando não conseguia dormir, possuído pela insônia, passava o dia me arrastando, torcendo para que as pessoas se esquecessem da minha existência, além de ficar um tanto quanto irritado. Sempre fui dedicado à minha profissão e, desde que tive a ideia de construir o Institute of Veterinary Medicine, fui considerado o melhor na minha área, garantindo prêmios de destaque para a clínica, então não existia cansaço que não me prendesse a uma cama a noite toda.
Tinha 24 anos quando comecei a assumir as responsabilidades que as paredes grossas exigiam, era muito jovem e aprendi a deixar o adolescente irresponsável para trás. As vidas de diversos animais dependiam dos meus conhecimentos e, nos anos que dediquei estudando medicina veterinária, abracei cada caso, desdobrando-me ao máximo para salvá-los. Perdi pacientes, em alguns tive que ser profissional para tomar a melhor decisão e também tive momentos felizes quando acompanhava o pequeno ser debilitado se agarrando à vida, quando já não tinha mais esperanças.
A minha trajetória não tinha espaço para falhas e noites mal dormidas, mas bastou apenas a pequena criatura invadir a minha vida sem permissão para tudo desmoronar. era o animal selvagem que nunca conseguiria domar, tendo o dom de me atormentar até mesmo de longe. Aquela mulher seria a minha ruína, obrigava-me a dormir ao som de filmes românticos, provocava-me com sua língua maldita e malcriada e sabia me levar ao delírio somente pelo modo como pronunciava meu nome. E estava por um fio de acabar de vez com o seu privilégio de ficar viva por ousar contar a história.
Passei a mão pelo rosto, observando Aidan e o estagiário, consultando ambos os filhotes de gato, recém-nascidos, deixados na frente da clínica na noite passada. Minha cabeça latejava e meus olhos não paravam de doer, não conseguindo me concentrar em nada que não fosse o plano maligno que insistia em tentar me convencer de que o mundo seria um lugar melhor sem uma mulher irritante e teimosa como . Conseguia sentir os músculos tensos e minha mandíbula travada, assombrado pelos poços castanhos, com traços dourados, me estudando como uma felina prestes a fazer sua próxima presa.
— Problemas no paraíso, chefe? — Aidan disparou, guardando dois frascos de amostras em uma maleta.
Devido às condições precárias em que recebemos os filhotes, era de grande importância realizar exames para detectarmos quaisquer doenças infecciosas e fatais, como a FIV e FeLV, que nos obrigariam a entrar com os tratamentos específicos.
— Não estou com paciência para lidar com as suas brincadeiras hoje. — Balancei as mãos com as sobrancelhas franzidas.
Aidan abriu o sorriso debochado, entregando os frascos para o estagiário levar para análise, deixando-nos sozinhos em uma sala de atendimentos, tudo de que menos precisava.
— , você é meu amigo, meu irmão, pode me contar tudo. — Apoiou os cotovelos na mesa metálica, acariciando a cabeça de um dos filhotes que estavam enrolados em um pequeno cobertor.
— Não tenho nada para contar. — Remexi os ombros, sentando-me na cadeira em frente ao computador, pegando a xícara de café que havia deixado ao lado do teclado.
— Você já deve ter tomado dois litros de cafeína hoje. — Às vezes, eu odiava o quanto Aidan era observador. — Já que não vai me contar, posso tentar adivinhar — sugeriu, adorando a ideia.
Girei a cadeira e o fuzilei, dando um longo gole na bebida.
— Você não cansa de ser insuportável? — cuspi, apertando o canto dos olhos, em uma tentativa falha de parar a ardência.
— Sou o seu melhor amigo, é meu dever ser insuportável — ele fez uma mesura rápida. — Deveria colocar colírio, ajuda na ardência dos olhos — gesticulou com o dedo.
Levantei rapidamente as sobrancelhas, engolindo mais uma dose de café, enchendo a xícara com mais da bebida. Havia garantido uma garrafa enorme apenas para me ajudar a suprir o dia intenso e longo que me esperava.
— A não me deixou dormir à noite — resolvi contar, ele não iria parar de me importunar enquanto não soubesse a verdade, e a sua voz estava começando a me irritar.
Aidan riu, ainda acariciando os filhotes.
— E como ela conseguiu fazer isso? Você dorme feito uma pedra.
— Assistindo filmes de romance. O Titanic. — Revirei os olhos, ficando enjoado por lembrar da cena de Rose e Jack se declarando em cima da porta.
— Cara, o Titanic é um clássico, mas um filme tão maçante. Como não dormiu com ele? — Sorriu para o gatinho laranja, que agarrou a ponta do seu dedo com fome. — Me ajuda a dar a mamadeira para eles.
Aidan pegou a garrafa térmica aquecida — como especialista em gatos, conhecia uma fórmula caseira que servia como um substituto do leite materno, servindo também para cachorros e outros animais. Usávamos bastante a mistura com os filhotes recém-nascidos que resgatávamos e os que ficavam órfãos. Ele despejou o líquido nas duas mamadeiras, conferindo a temperatura com uma gota sobre a pele.
Forcei meu corpo a se levantar, ficando do lado oposto da mesa, esfregando e soprando as mãos para que ficassem quentes e confortáveis para os filhotes. Aidan envolveu o gatinho laranja, deixando-me com o branco. Eles eram tão pequenos que, entre nossos dedos, desapareciam; os miados famintos tomaram a sala, cessando assim que agarraram o bico de borracha da mamadeira, aliviando a fome que tanto sentiam.
— A minha cama é o sofá da sala e gosto de dormir no escuro — respondi à pergunta de Aidan, atraindo sua atenção.
— Por que não levou a sua cama do apartamento?
— Aluguei o apartamento mobiliado, tudo que me pertencia eram apenas as roupas e objetos pessoais — concentrei os olhos no filhote, garantindo que não se engasgassem.
— Então... Você dormiu junto com a ? — Quis saber, curioso.
— Não exatamente, cada um ficou com um lado do sofá-cama — expliquei, sentindo uma pontada na cabeça devido à falta de sono. — Mas a questão é que, depois de assistir Titanic, ela começou a assistir Diário de uma Paixão, não se importando comigo.
— E por que não explicou para ela que precisava dormir?
— Acha que não fiz isso? A garota é mais teimosa do que uma mula — suspirei de nervoso. — E, como se não bastasse atrapalhar a minha noite, acordei com ela berrando, enquanto tentava cantar uma música, ao mesmo tempo em que preparava um bolo. Isso às 6h35 da manhã!
— E você não foi muito agradável com ela, suponho.
— Você seria Aidan? — disparei, tentando não lembrar da provocação dela na cozinha. — Ela é insuportável — disse entre os dentes. — Eu gostaria de matá-la, só para me livrar desse pesadelo.
Aidan sorriu com o canto dos lábios, parecendo se divertir com a minha situação.
— Precisaria ter motivos para isso.
— E não tenho o suficiente? Ela me odeia, tem alergia a gatos, gosta de filmes românticos clichês e parece querer fazer da minha vida o verdadeiro inferno.
— Está sendo muito radical, — riu, envolvendo o gatinho na manta assim que terminou de alimentá-lo.
— Quer trocar de lugar comigo, Aidan? E então, veremos quem está sendo radical — bufei, colocando o filhote junto do irmão.
Aidan gargalhou, divertindo-se com a minha vida. acabou com a minha noite, me acordou cantando feito uma cabra agonizando e eu que estava sendo o radical?
— Lembre-se de que você aceitou isso pela Mia — pontuou. — Não tem como escapar dessa responsabilidade e você não quer que a Mia vá parar em um orfanato.
Cruzei os braços em frente ao peito, com o semblante carrancudo.
— Veja o lado bom, cara, até alguns dias não conhecia nada sobre a garota, agora já sabe até o gênero de filme favorito dela — zombou, rindo em seguida.
— Eu achei que fosse meu amigo, Aidan.
— E, sendo seu amigo, sugiro que tente uma boa convivência com a . — Voltou a apoiar os cotovelos na mesa. — Ela não conhece você, tudo o que tem é uma imagem de 13 anos atrás. Se mostrar que mudou, talvez ela veja que não há motivos para odiá-lo — gesticulou, torcendo os lábios. — Você disse que a tem alergia a gatos, e o que fez quando ela conheceu o Sky?
Engoli a saliva e passei as mãos no rosto, não era possível que estivesse recebendo conselhos do maior mulherengo da cidade.
— Pela sua falta de resposta, irei entender que não fez nada.
— O que você queria que eu fizesse, Aidan?
— Compre um antialérgico e leve para ela. Abaixe as armas e mostre que se importa — sugeriu, endireitando o corpo. — , você vai passar o resto da sua vida cuidando da Mia ao lado da , não tem como dar um bom exemplo, sendo que não consegue nem conviver com a mulher que será a nova mãe dela. Pense nisso, cara. — Ele saiu logo em seguida da sala, indo buscar o resultado dos exames.
Joguei o corpo contra a cadeira do computador e esfreguei os dedos no maxilar, assimilando o conselho. havia perdido o irmão e, assim como eu, não teve tempo para viver o luto, caindo no abismo caótico que nos obrigou a cuidar de uma criança. E se eu tentasse ser mais sensível? Será que ela pararia de implicar comigo? O que eu tinha que fazer para ser mais agradável?
Fechei os olhos e suspirei. não era como as mulheres a que estava acostumado, ela era como um labirinto em que estava disposto a me perder, somente para dar a família que Mia tanto merecia. Sabia que me perderia nos mistérios daquela mulher, e era errado me sentir ansioso para embarcar nessa jornada?
O mercado estava vazio. A noite caiu e ainda tinha que planejar qual seria o cardápio para o jantar. Pensava em algo simples que não exigisse um preparo complexo que me prendesse por horas na frente do fogão. Estava exausta, passei o dia inteiro correndo atrás de Jeremy, que me ajudou com a burocracia da casa. Segundo ele, a residência deveria ser passada judicialmente no meu nome e no de , já que havia sido uma herança deixada por Noah e Lily.
A papelada esperava em cima do balcão da cozinha para ser assinada por , assim o advogado poderia dar seguimento para o reconhecimento do imóvel. Contas de água e luz também teriam o remetente alterado, passando a ser registradas em meu nome, já que bastava apenas um responsável para assumir a dívida.
E, por isso, era exatamente 17h20min e estava vagando pelos corredores com Mia no bebê conforto do carrinho, comendo os pedaços de bolo de cenoura que havia levado para ela. Depois que a busquei na creche, não tive outra escolha a não ser levá-la para me acompanhar nas compras. A sombra de nem ousou aparecer durante o dia — e provavelmente não apareceria tão cedo. E eu estava achando isso uma maravilha, depois de ter me irritado no dia anterior ao ponto de desistir de ir ao mercado, após ouvi-lo reclamar do aclamado Titanic e do meu pequeno ataque de ansiedade pela manhã, tudo que mais queria era conseguir aproveitar o dia sem ter de olhar na sua cara.
O cretino tinha o dom para ser insuportável.
Depois que terminei de ver Titanic e, em seguida, Diário de uma Paixão, subi para o quarto de hóspedes, rolando na cama pelas próximas horas, sem nenhum sinal de sono. Meu coração palpitava e minha garganta estava trancada, sendo assombrada por pensamentos repulsivos. Não conseguia parar de me sentir uma intrusa na casa de Noah e Lily. Tentei fazer as técnicas de relaxamento que aprendi com a psicóloga, mas nada diminuiu minha ansiedade, restando apenas tentar a última opção que era cozinhar. A minha segunda paixão depois da escrita.
Mas, apesar de liderar o meu ranking de pessoas mais detestáveis do mundo, uma faísca me acendia no interior, pesando na consciência de modo tão apertado que meu peito corroía. O nó na garganta dificultava a respiração sempre que era atingida pelas lembranças da noite anterior, e só começaram a aliviar quando passei pela porta do supermercado, imaginando que poderia cozinhar algo como um pedido de desculpas. Ele não tinha culpa de eu estar sobrecarregada com estresse.
Escrever um poema para me livrar da culpa seria mais fácil, no entanto, estava decidida a cozinhar para . Eu só não sabia ainda o que faria. Não o conhecia para saber dizer suas preferências. Será que ele gostava de massa? Ou preferia um prato com carne? Tinha alergias? Restrições alimentares? E se fosse vegano? Balancei a cabeça e sorri, para quem comia bacon e ovos cheios de gordura no café da manhã, era óbvio que não se importava muito com o que comia.
Um risoto de camarão seria uma esplêndida ideia, sofisticado e digno de um pedido de desculpas, além de ter visto um prato fundo belíssimo no armário. Os detalhes em dourado combinariam na hora de elaborar o prato. Já conseguia sentir o cheiro da riqueza, quando fui sacudida, levando o tapa mais ardido do universo ao ver a embalagem de plástico dentro do freezer, marcando os três dígitos por apenas 800g do crustáceo.
Se a pobreza fosse uma pessoa, estaria me processando por danos morais naquele momento.
Fiz uma careta involuntária, Mia gargalhou no carrinho e não pude evitar fazer cócegas em sua barriga. Até a pequena estava zombando de mim.
O risoto era um prato relativamente fácil de fazer para as poucas horas que possuía e que agradava à maioria das pessoas, mas fazer isso significaria levar a minha situação financeira para o abismo, e não merecia tanto. Empurrei o carrinho, sentindo-me uma idiota por ter agido daquela forma na noite passada, queria mostrar a ele que eu não era tão irritável como pensava.
— E por isso você está aqui, vagando como uma assombração em busca de algo interessante, nem sabendo se ele vai gostar. — Pensei alto demais, notando que duas mulheres me encaravam e sussurravam entre elas. — E ainda vou ser considerada uma maluca. — Revirei os olhos, guiando o carrinho para a parte do açougue. — Mia, me ajuda, do que ele gostaria?
A que ponto cheguei para pedir ajuda a uma criança de 2 anos?
Peguei a embalagem de carne bovina e mostrei para a pequena que não esboçou reação.
— Sério? — Arquei a sobrancelha. — Eu poderia fazer tantas coisas. — Devolvi para a prateleira, pegando a próxima opção, uma fonte rica em proteína.
Mia abriu um sorriso, parecendo concordar com minha escolha. Encarei o pacote, franzindo o cenho ao tentar pensar em uma receita para fazer com a carne de frango, eram tantas opções que não sabia qual seria a melhor para a ocasião. Eu poderia temperar com ervas frescas e limão, depois levar ao forno para assar com batatas, ficaria uma delícia, mas me custaria muito tempo de preparo e não tinha horas suficientes para isso. Bufei, estava tão acostumada a cozinhar bovinos e crustáceos que me encontrei dentro de uma bolha fria e vazia.
Coloquei o pacote no carrinho, bastante pensativa. Mia me observava com curiosidade, enquanto caminhávamos por entre a seção de frios.
— Mia, temos o ingrediente principal para o jantar — disse, analisando as opções na prateleira. Requeijão, queijo parmesão, muçarela, manteiga. — Agora, vamos ver o que mais precisamos para fazer um prato delicioso. — Peguei a embalagem de queijos e coloquei no carrinho, ainda em dúvida do que faria.
Percorri os corredores, pegando alguns ingredientes pelo caminho, como arroz, latas de milho e ervilha, e mais alguns tipos de queijos diferentes. Estava pensando em uma ideia específica e arriscada, que se consolidou quando adentrei a parte dos legumes frescos. Sorri, embrulhando as opções que listei na minha cabeça, sendo minuciosamente inspecionada por Mia.
— Acho que isso vai ser o suficiente. — Pensei e depositei um beijo no rosto da pequena. — Vamos, Mia, temos um jantar para preparar! — ditei, o estômago agitado pela ansiedade da escolha.
Enquanto pagava no caixa do mercado, pude notar que minhas mãos estavam levemente trêmulas. Não era de costume ficar tão nervosa por conta de um simples jantar, havia feito milhares de vezes a receita durante a vida, não tinha segredos. Eu sempre fui uma cozinheira excelente, no entanto, algo lá no fundo me incomodava. poderia me tirar do sério, me irritar profundamente, mas somente de imaginá-lo odiando minha comida, me causava calafrios na espinha.
Eu queria que ele gostasse.
Sacudi a cabeça, tentando afastar qualquer pensamento que roubasse minha concentração. Não poderia deixar-me afetar daquela maneira por uma situação que estava completamente fora do meu controle. poderia simplesmente fingir que não gostou apenas para me provocar, então não tinha por que esperar algo dele. Respirei fundo dentro do táxi a caminho de casa, tentando manter minha mente calada por todo o trajeto, enquanto me distraía rolando o dedo pela tela do celular.
Ajeitei Mia adormecida em meus braços e beijei sua testa. Ela ficou tão cansada que, assim que saímos do mercado, não hesitou em dormir em meu colo, tão tranquila e serena. Afastei o celular, alargando um sorriso, observando-a, apreciando os traços da pequena que tanto lembravam ao pai, sendo uma miniatura delicada de Noah. Acariciei sua bochecha com o polegar, a ponta de saudade perfurando meu peito. Eu daria tudo para estar com meu irmão naquele momento.
Se Noah estivesse vivo, nunca estaria passando pela indecisão de cozinhar para .
O celular vibrou no banco do carro, encarei a tela, notando a mensagem pulando no topo, revelando o nome já tão conhecido. Massageei a testa com os dedos, fechando os olhos e deixando o suspiro de cansaço escapar por entre os lábios. Havia-me esquecido completamente de que tinha marcado uma consulta online com a psicóloga às 19h00, dali a exatamente 30 minutos. Como pude esquecer de algo tão importante quando estava planejando um jantar de desculpas? ), a mulher mais organizada no mundo, esquecendo-se de abrir a agenda por um minuto para verificar seus compromissos.
Era o fundo do abismo.
O motorista parou assim que chegamos ao endereço e reconheci o pequeno jardim de flores e o caminho de pedra até a varanda. Por sorte, quando desci do carro, o homem me ajudou com as sacolas do mercado, levando-as até as deixar próximo à porta de entrada. Agradeci e paguei a corrida, desejando-lhe boa noite, equilibrando Mia nos braços com cuidado para não a acordar; a pequena, quando dormia a noite inteira, era o verdadeiro paraíso, mas quando acordava no meio da madrugada chorando e berrando, tornava-se um pesadelo.
Li uma vez que os bebês possuem a energia triplicada de um adulto normal, então não precisam de exatas oito horas de sono para estarem novos em folha para brincar e se divertirem. E com Mia não era diferente, alguns dias eram uma luta intensa para fazê-la dormir, e quando conseguia, tinha que ser cautelosa para colocá-la no berço antes que acordasse e o ciclo vicioso começasse outra vez. Ali, em meus braços, a calmaria me atingia, ela dormia tão serena que imaginei que ficasse as próximas horas assim.
Girei a chave na fechadura, empurrando a porta com a ponta do pé, tomando todo o cuidado do mundo, parecendo que carregava uma bomba relógio que a qualquer momento fosse explodir e destruir toda a Nova Jersey. Deixei as compras na varanda e adentrei a casa, não me preocupando em acender as luzes, notando que apenas a cozinha estava iluminada. Cheguei nos primeiros lances de escada e passei a subi-los, não conseguindo desviar a atenção do rosto de Mia, temendo que os olhos verdes esmeralda despertassem.
— Srta. ). — Escutei meu sobrenome ser pronunciado contra minhas costas.
Paralisei na escada, a garganta seca pelo susto que quase me desequilibrou. Olhei por sobre o ombro e encontrei a mulher de meia-idade, parada no final dos degraus, com um guardanapo em mãos, enxugando os braços e dedos molhados. Não consegui enxergar direito as feições da estranha, devido à pouca iluminação, mas algo em sua voz me soava familiar, um timbre de conforto e aconchego. Notei brevemente as vestimentas pretas com detalhes minuciosos em branco nas mangas e barras; o avental amarrado na cintura me dava a ideia de quem ela era.
— Hum... Oi. — Virei-me lentamente, tentando comportar os pés no pequeno degrau.
— Olá! Posso chamá-la de ? — Ela abriu um sorriso simpático.
— Sim... Pode sim... — falei rápido, tentando espantar o nervosismo. — Desculpe-me, foi o que chamou você?
Ela riu, balançando a mão.
— Oh, não. Eu trabalhava para o Noah e a Lily, era a empregada doméstica da casa antes deles... Bem, você sabe. — notei um finco de tristeza transparecer em seu rosto. — Me chame de Greta.
Assenti e passei a língua nos lábios ressecados.
— Greta, é um prazer. — Sorri amável. — Podemos conversar depois, só vou colocar a Mia no quartinho. — Indiquei a pequena com a cabeça, passando a olhá-la.
— Claro, , a casa é sua. — Sorriu, mexendo as mãos com o guardanapo.
A casa é sua.
— Gostaria que eu fizesse alguma coisa enquanto isso? Posso preparar o jantar — sugeriu, indicando a cozinha.
— Ah, eu... Poderia pegar as sacolas de compras na varanda? Não consegui carregá-las — disse, sem jeito. — Eu iria preparar o jantar, deve chegar daqui a pouco, se não se importar em adiantar algumas coisas — falei com receio de ela me achar uma completa inútil.
— Não se preocupe, estou aqui para ajudá-la em tudo o que precisar. — Deu as costas, abrindo a porta de entrada e pegando as sacolas.
Meneei um aceno, voltando a subir os degraus das escadas a caminho do quarto de Mia. Então Noah e Lily tinham uma empregada doméstica e eu nem sequer sabia da existência dela? Sacudi a cabeça, confusa e ainda em choque pelo pequeno susto que tomei, não estava acostumada a lidar com estranhos invadindo a minha privacidade, já bastava ter que aguentar a presença imponente de pela casa.
Entrei no quarto de Mia, pressionando o interruptor com o cotovelo e me guiando até o berço, colocando a pequena sobre os lençóis macios. Puxei a cobertura para cobri-la e fiquei ali, parada com as mãos apoiadas nas grades de madeira, sendo invadida por pensamentos que pareciam ter adquirido vida própria. Respirei fundo, massageando as têmporas, precisava de espaço para assimilar tudo o que estava acontecendo, comecei a numerar a lista de afazeres invisível, atropelando os pensamentos intrometidos, precisava urgentemente retomar o controle da minha vida.
A cor verde sempre foi a minha favorita. Brilhante, cheia de vida e clorofila. A água fria descia pela torneira, limpando as folhas macias e suaves, levando todos os resquícios de sujeira que pudessem. A textura delicada exigia toda a minha delicadeza, dedos leves e uma calmaria sem fim. A bacia azul, rasa, ao meu lado, repousava a alface que esperava para se transformar em uma salada rica em vitaminas e minerais.
me chamava de coelhinha e, quando o assunto era verduras e legumes, tinha que concordar com ele. As chances de eu me perder e ser encontrada saltitando em uma horta cheia de fontes de fibras e pobres em calorias — que ajudavam a promover a saciedade e a ajudar a controlar o peso na balança — eram altíssimas. O primeiro apelido que combinava comigo.
Desliguei a torneira, abrindo o forno levemente para verificar a coloração do queijo que gratinava. O cheiro estava inebriante, envolvendo a cozinha em um aroma tão delicioso que revirava meu estômago, roncando e me fazendo salivar como um cachorrinho faminto. Fechei o forno e era como se tivesse me tornado um desenho animado, flutuando pelo cômodo, enquanto inspirava a fumaça no ar.
Cozinhar me fascinava e nem notei quando o sorriso satisfeito preencheu meus lábios. Se não gostasse do meu sumptuoso arroz de forno com frango, eu mesma o jogaria do primeiro abismo que encontrasse, porque o mundo ficaria melhor sem um homem tão frio vagando pelas ruas. Até Greta ficou impressionada com meus dons culinários, pedindo que guardasse um pouco para almoçar no dia seguinte, então não tinha como alguém renegar o meu talento.
E precisava lembrar de agradecer a Greta pela ajuda. Sem ela, não conseguiria terminar tudo a tempo. Enquanto me consultava com a psicóloga, a mulher se encarregou de cortar os legumes e preparar o frango, deixando para mim apenas a finalização, que era a montagem do prato e o tempo de preparo no forno. Também tivemos tempo para nos conhecer melhor, apesar de ela ter tido que ir embora, dizendo que tinha passado apenas para limpar a casa e aproveitar para me conhecer depois que Jeremy a procurou e contou sobre a guarda da pequena Mia.
Greta era uma mulher com seus 50 anos, tinha os olhos castanhos, caramelos, a pele levemente enrugada com sardas espalhadas pelas bochechas e nariz. Os cabelos pretos se misturavam a alguns fios brancos e caíam em ondas até os ombros. Além de possuir um conhecimento gigantesco com crianças, chegando a me dar algumas dicas para lidar com Mia – dicas que havia me esquecido de anotar, mas a teria por perto para me lembrar.
E a maior surpresa que tive foi quando contou que Lily a trouxe para trabalhar em sua casa, quando se conheceram no haras da família . Greta foi a babá dos gêmeos e ajudou a criá-los, tendo que ter muita paciência para controlar um pequeno , inconsequente e sem limites, correndo entre os estábulos e assustando os cavalos. Eu ria conforme me contava as travessuras dos dois que quase a deixaram maluca, não conseguindo imaginar que minha cunhada tinha sido uma garota tão travessa quanto o irmão.
A relação das duas apenas ficou mais forte com o tempo e, quando Lily se casou com Noah, não pensou duas vezes antes de trazer Greta para trabalhar em sua casa.
— Lily, era como minha filha — confessou, com os olhos marejados. — sempre foi arrisco, não gostando dos cuidados de uma babá — ela riu, tentando espantar o semblante carregado de tristeza. — E quando eu soube do acidente, fiquei tão devastada... Eu só conseguia pensar na pequena Mia. — Segurou minha mão e a apertou, buscando consolo.
Cobri sua mão com a minha, tentando confortá-la com o meu calor. Seu olhar estava estranho, os glóbulos oculares tão apagados que transpareciam a sombra da sua tristeza, que despertou uma dor intensa em meu peito. Eu poderia ter perdido o irmão, mas Greta perdeu algo maior: uma filha, a menina que viu crescer por toda a vida.
Mas, apesar de tudo, ela estava feliz e aliviada por saber que eu e fomos os escolhidos para ficar com a guarda de Mia, afirmando que não existiam pessoas melhores do que os tios da pequena. Segundo Greta, era como se Noah e Lily, por menor que seja, vivessem em nós.
Cortei as folhas de alface em pequenos pedaços para ficarem melhores na apresentação do prato. Manuseei a faca com cuidado, desviando os olhos por alguns minutos para encarar a tela do celular que reproduzia mais um episódio da minha série criminal favorita. Chicago P.D. era meu vício, depois dos filmes de romance, gostando de assistir aos episódios sempre que cozinhava, realizava atividades domésticas ou tinha um tempo livre.
Finalizei a salada, temperando com os temperos favoritos. Coloquei as luvas de silicone, abrindo e retirando a travessa de vidro do forno, acomodando-a sobre a mesa organizada com os pratos e talheres, junto com a jarra cheia de suco de laranja. Afastei-me da mesa em dois passos e uni as mãos em frente ao rosto, mordiscando as pontas dos polegares, tentando raciocinar se estava tudo no seu devido lugar.
Esfreguei o rosto com as mãos e suspirei, encarando a mesa novamente. Meu coração batia acelerado, parecendo prestes a correr uma maratona, e um frio na barriga me impedia de respirar fundo. Por que estava sentindo minha pele fervendo como se estivesse prestes a entrar em colapso? Era só um jantar de desculpas, apenas isso, então por qual motivo estava tão nervosa pela presença de ?
Havia algo inexplicável acontecendo, me deixando inquieta e confusa. Ouvi a porta da frente se abrindo e fechei os olhos por um instante, tentando acalmar os batimentos descompassados que batiam em meus ouvidos. O que estava acontecendo comigo? Eu nunca tinha perdido o controle daquela maneira e era essa falta que estava me assustando; no fundo, era como se o destino estivesse me avisando que algo estava prestes a mudar.
Pisquei algumas vezes, jogando a cabeça para trás até que o encosto do banco do carro me acertasse com um solavanco brusco. Apertei os olhos, implorando aos deuses que a ardência concedesse uma trégua de paz pelo menos uma vez no dia inteiro, as horas se arrastaram em uma tortura tão lenta e torturante, carregando-me para o abismo. A cada minuto temia entrar em colapso, meu corpo insistindo em me lembrar da exaustão e aproveitando para aplicar uma lição de moral. Cheguei ao ponto em que dormir não era mais uma obrigação, mas sim uma necessidade urgente.
A irritação dominava cada partícula do meu corpo, enfurecendo e fazendo com que nem mesmo Aidan e Madisson conseguissem aguentar o mau humor infernal. Estava completamente fora de controle, capaz de atirar a primeira pessoa que me irritasse do penhasco mais alto que resultasse em uma queda dolorosa e mortal. Era impressionante o quanto me tornava psicótico pela falta de sono.
O dia inteiro passei preso atrás de uma mesa, revisando os casos de internações, deixando claro para Madisson que ficaria encarregada de atender todos os pacientes que chegassem à clínica. Mas ao invés de me concentrar no trabalho, só conseguia pensar nas diversas maneiras de torturar por ter me feito passar por aquele tormento. Imaginei-a pendurada no lustre da sala enquanto a obrigava a assistir filmes de terror. A Invocação do Mal seria um belíssimo castigo.
A vingança perfeita.
Mais cedo, quando estava sentado à mesa da minha sala na clínica, girava uma caneta entre os dedos, olhando para um ponto fixo na parede. Os cotovelos estavam apoiados na madeira, enquanto minha mente planejava os passos para meu plano de retaliação. Até a porta se abrir, atraindo minha atenção e me puxando do abismo cruel, frio e desequilibrado no qual mergulhei de cabeça e me afogava.
Madisson jogou os cabelos ruivos por sobre os ombros, colocando a mão na cintura, ficando apoiada com a outra na maçaneta da porta. O rosto fino, o queixo em triângulo destacava as feições delicadas, mas que naquele momento ofuscava quaisquer sinais da mulher calma e empática que conhecia. Os lábios pequenos estavam torcidos em um bico tenebroso, os olhos verdes me fuzilavam como se estivesse prestes a me queimar na sua frente, as sardas ao redor do nariz empinado pareciam mais aparentes com a sua raiva.
— Posso saber o que está acontecendo com você? — Ela invadiu a sala, batendo a porta atrás de si.
— O que você quer, Madisson? — Estava impossível controlar o temperamento.
— Eu quero saber que bicho te mordeu hoje, porque com certeza foi venenoso. — Cruzou os braços.
Soltei a caneta e esfreguei o rosto com as mãos, era só o que me faltava.
— Está todo mundo falando que você dormiu desacompanhado ontem, por isso está com esse mau humor dos infernos! — acusou, apontando para a porta.
Sorri com o canto dos lábios, as pálpebras pesavam e os músculos tensos.
— É tão bom saber que os meus funcionários não têm nada melhor para fazerem, além de falarem da minha vida pessoal. — Franzi as sobrancelhas em uma expressão retorcida.
— É claro, com o jeito que os tratou mais cedo no resgate do cãozinho, você deu motivos para falarem. — Madisson venceu a distância até a mesa, espalmando as mãos na madeira e me encarando com os olhos intensos.
— Eles não sabiam se deveriam segurar o cachorro ou pegar a focinheira. — Dei de ombros, unindo as mãos em frente ao peito e as apertando com força.
— Qual o seu problema, ? A maioria deles são estagiários. — Como uma boa puritana, saiu em defesa dos estudantes.
— Eles estão aqui há cinco meses, deveriam saber que um cachorro em situação de maus tratos iria reagir agressivamente com o contato humano. — Mostrei os dentes, pronunciando cada palavra.
— Igual a você? — Arcou as sobrancelhas, torcendo os lábios.
— Está me chamando de vira-lata?
— Você é um vira-lata, — confirmou, tomando distância da mesa. — Está espalhando ódio gratuito por essa clínica o dia inteiro, mas ao contrário de um cachorro, sabemos que é porque tomou um fora ontem.
Ri, não conseguindo segurar a risada que escandalizou do fundo da minha garganta, ela não poderia estar falando sério.
— Foi isso que o Aidan te contou? — Suspirei pesadamente. — Querida, Madisson, eu não tomei um fora, eu nunca tomo um fora.
Ela revirou os olhos.
— Ele me contou que a te fez virar a noite, e pelo seu estado, digamos que o “entretenimento” foi intenso. — Riu com sarcasmo.
— Madisson, se veio aqui para encher a minha paciência, a porta fica logo ali. — Apontei com sutileza para a saída, apertando os olhos com força por causa da dor de cabeça que me apossou.
— Ahh... Então é mesmo esse o motivo do seu tormento — ela gargalhou jogando a cabeça para trás, se deliciando com a minha desgraça. — Eu vivi para ver o poderoso perder o controle para uma mulher.
Apertei a ponte do nariz, cerrando o punho, a fúria me consumindo.
— Você e o Aidan se banqueteiam com a minha miséria. Um verdadeiro espetáculo de crueldade.
— Não seja dramático, — disse com um sorriso sarcástico.
Recostei o corpo na cadeira, esfregando a testa com os dedos, não conseguindo desviar os olhos da ruiva à minha frente. Eu não sabia o porquê todas as mulheres resolveram que seria uma ótima ideia me enlouquecer.
— Então, também veio aqui para me dar conselhos? — disparei, a assistindo se acomodar na cadeira à minha frente. — Como já sabe, não me dou muito bem com mulheres.
— Eu sou a única que ainda tenta colocar um pouco de juízo em você.
— Olha para você, Madisson, parece a minha mãe — zombei, fazendo uma careta e torcendo os lábios.
— , o que você precisa é de uma boa dose de whisky. — Bateu na mesa e se levantou, caminhando até o meu armário onde sabia que eu escondia uma bela garrafa de Johnnie Walker Blue Label.
— Eu não acho que beber, vai ajudar a resolver os meus problemas. — Girei na cadeira e cruzei os braços, observando-a abrir a garrafa e pegando dois copos.
— Se você não quer beber, ótimo, eu bebo por você. — O sorriso sem vergonha que a iluminou revelava suas verdadeiras intenções.
— Não vai beber o meu whisky caríssimo. — Levantei-me e tomei a garrafa das suas mãos, fechando a tampa, a segurando longe das mãos atrevidas. — Sabe o quanto foi difícil arrumar uma garrafa dessas?
— Você precisou apenas salvar o Shih Tzu de um escocês riquíssimo. — Ela revirou os olhos.
— E lembra como foi difícil salvar aquele cachorro da Dermatite Atópica?
Havia sido um caso tão complexo que cheguei até a duvidar das minhas capacidades de salvar o pequeno animal de um destino tão cruel. O sofrimento do coitadinho era evidente. O tratamento exigiu que ficasse quase um mês internado sob os meus cuidados, sendo tratado com antibióticos e diversos cremes dermatológicos. E quando finalmente o alívio da recuperação completa chegou, a gratidão do tutor se materializou com a garrafa caríssima do whisky, dizendo que era um presente por toda a dedicação e o carinho que tive com seu cachorro.
E desde aquele dia a bebida se tornou meu consolo amargo, um elixir que só ousava tocar quando o estresse me esmagava ou tormentos colossais me assombravam.
— Em compensação, este whisky é um veneno maravilhoso. — Madisson alargou o sorriso interesseiro no canto dos lábios.
Rolei os olhos.
— E você e o Aidan gostam de se aproveitar do meu presente.
— , é o preço que cobramos para ter que aguentar você. — Ergueu os olhos em uma expressão de inocência.
Fechei os olhos por um instante e suspirei.
— Você vai me dizer o que veio fazer aqui ou vai continuar jogando seu charme barato para cima do meu whisky?
— Eu quero que faça amizade com a — revelou, com uma serenidade absurda.
Sorri com o canto dos lábios e gargalhei em seguida. Era uma piada, tinha que ser.
— Perdeu seu tempo, Madisson. — Erguei as sobrancelhas.
Olhei para a garrafa, o líquido âmbar agitado. Refleti se realmente não era uma boa ocasião para afogar as angústias no bálsamo delicioso. Eu precisaria de forças do submundo para aguentar aquela conversa; a ruiva teimosa não estaria disposta a desistir até me convencer de que me aproximar de resolveria os meus problemas. Uma boa dose de álcool me ajudaria.
— Nem pense em abrir essa garrafa, . — Madisson fuzilou meus pensamentos. — Eu quero você sóbrio para falar sobre a .
— Você queria beber até alguns minutos atrás.
— Mudei de ideia, se você ficar bêbado vai esquecer de tudo o que eu disser.
— Talvez eu quisesse esquecer. — Soltei o ar pela boca. — Não vai me convencer a virar “amiguinho” da .
Madisson crispou os lábios, negando com a cabeça.
— E qual o problema nisso, ?
— Ela é atrevida, respondona e extremamente certinha, e o pior, romântica até o último fio de cabelo — pontuei, abandonando a garrafa no armário. — Somos opostos, isso nunca daria certo. — Retornei a me sentar na cadeira. — Me peça para caminhar pelo inferno que será mais fácil.
— Não seja deprimente — Madisson zombou. — A não parece ser tão ruim assim, só precisa conhecê-la melhor.
— Tenho certeza de que vocês seriam melhores amigas.
Madisson e tinham o mesmo gênero romântico para filmes e livros, ambas estavam em busca do perfeito príncipe encantado. Elas se entenderam tão bem que ninguém mais poderá separá-las.
— , se continuar agindo dessa maneira, a clínica sofrerá com o seu mau humor. — Ela estava preocupada, consigo ver isso em seu tom de voz. — Todos estão preocupados, não vemos você assim desde...
— Desde o término com a Nora, não precisa me lembrar disso — falei com tédio; aquela mulher era algo que eu queria poder queimar do meu passado.
— Você é nosso chefe, o respeitamos e o admiramos. Não queremos vê-lo resmungando pelos cantos, incomodado com algo que é tão simples de resolver.
— A não é um filhotinho de cachorro que consegue confiar só porque ofereço carinho e ração de qualidade. — Esfreguei o polegar no maxilar.
— Mas assim como os cães, a confiança é conquistada — gesticulou. — Se for gentil, poderá ver que não é tão difícil conviver com ela. — Eu suspeitava muito disso. — As mulheres gostam quando são respeitadas; demonstre isso e seus dias serão menos turbulentos. — Ela se levantou, apoiando as mãos no encosto da cadeira.
— Madisson, eu nunca morei com ninguém na vida, não sei como fazer isso — revelei, o tom de voz beirando ao desespero.
— Tenha em mente que uma relação é construída com base na confiança e no respeito. — Ela falava com tanta naturalidade e calma que nem sequer imaginava que eu não tinha ideia de como colocaria em prática com a coelhinha.
— Como eu posso fazer isso?
— , eu vejo você controlar essa clínica e possuir o respeito dos funcionários há anos. — Emanou um aceno. — Será uma tarefa fácil para você.
Era diferente, comandar o Institute of Veterinary Medicine e manter os funcionários e estagiários na linha, não era nada comparado ao furacão que era. Aquela mulher era a fera que nunca conseguiria domar, seu temperamento e o modo de vida que levava não eram nem um pouco normais perto das experiências que eu vivenciava. Preferia mil vezes lidar com um guepardo selvagem e agressivo do que com ela.
O felino, ao menos, tinha regras claras: respeito ao território, cautela nos movimentos e a promessa de uma mordida rápida e fatal se ultrapassasse os limites. , por outro lado, era um labirinto de emoções e reações imprevisíveis, um enigma que me desafiava a cada instante. Não havia manual de instruções, apenas a certeza de que a cada passo em falso poderia desencadear uma tempestade de proporções épicas.
E, para um homem como eu — que sempre prezou pelo controle —, essa falta de previsibilidade era aterrorizante.
Depois que Madisson saiu da sala, não hesitei em pegar minha mochila e ir embora; não conseguiria passar mais nenhum segundo na clínica. Nada me faria concentrar nos arquivos, porque tudo que conseguia fazer era me deixar ser contaminado por toda onda de sentimentos insuportáveis que vinha somente por pensar na coelhinha.
Porra, eu estava completamente irritado!
Madisson e Aidan me encheram de conselhos durante o dia inteiro e, por mais que minha língua coçasse para mandá-los para o inferno, sabia que só queriam me ajudar. Estava ciente do quão insuportável me arrastei pela clínica e tinha que admitir que precisava resolver isso, antes que a situação saísse do controle. Os estagiários não deveriam sofrer por causa da minha falta de sono e controle, a clínica não poderia correr o risco de ser prejudicada porque não sabia lidar com uma mulher.
É claro que era mais fácil ignorar a presença de e fingir que ela sequer existia, mas com uma bebê no meio, a situação tornava-se mais complicada. Era minha obrigação conviver com , por mais que isso me perturbasse; eu tinha um dever com Mia e deveria cumprir com maestria. Mas, olhando agora através do vidro do carro, estacionado em frente à minha nova casa, estava começando a me deixar ser corroído pela irritação outra vez.
Era uma péssima ideia forçar uma amizade com , mas tinha que tentar, pelo menos assim teria como argumentar contra Madisson e Aidan pelos próximos dias.
Peguei a sacola e a mochila no banco do passageiro, me preparando psicologicamente para enfrentar o furacão que me aguardava quando finalmente passasse pela porta. Desci do veículo, ativei o alarme e venci a distância até a entrada, toquei a maçaneta prestes a abri-la, mas hesitei, olhando por sobre o ombro pelas ruas escuras e desertas de Nova Jersey. As grandes árvores balançavam acompanhando a direção dos ventos, as luzes brancas dos postes iluminavam porcamente o asfalto e o silêncio que dominava o ambiente parecia me puxar como uma corda invisível presa ao meu pescoço.
E se eu não entrasse e passasse a minha noite embriagando-me no primeiro pub que encontrasse?
Balancei a cabeça, afastando a ideia absurda que parecia mais tentadora do que o comum. Abri a porta, sentindo-me pronto para enfrentar qualquer coisa, menos o cheiro inebriante e envolvente que me abraçou assim que avancei o primeiro passo. Estreitei os olhos, olhando ao redor da sala, encontrando as luzes amarelas dos abajures acesas e a televisão desligada, sendo a cozinha o único cômodo iluminado da casa.
Fechei a porta com lentidão, desconfiado do silêncio perturbador que pairava sobre o lugar. Meu estômago traiçoeiro roncou quando uma nova onda do aroma salgado e delicioso me atingiu em cheio, e fui obrigado a ser conduzido até a cozinha para descobrir o que estava acontecendo. E nada me preparou para a cena intrigante que encontrei; meus olhos se abriram e entreabri os lábios, impressionado com o tamanho do esforço que estava disposto logo à minha frente.
— , boa noite! — exclamou com um entusiasmo desconhecido. — Espero que esteja com fome, fiz arroz de forno para o jantar. — Era brincadeira, talvez, um sonho.
segurava a espátula na mão direita, cortando uma generosa porção da comida dentro da travessa de vidro localizada ao centro, servindo o prato branco e sem detalhes. O queijo gratinado por cima esticou com o movimento e a cena remexeu meu estômago de uma maneira que me incomodou. A mesa da cozinha estava coberta por uma toalha azul-bebê com detalhes em branco, acomodando um copo ao lado de uma jarra cheia de um líquido laranja e ao lado estavam os talheres de prata junto com duas folhas de guardanapo. Uma bela mesa de jantar para apenas uma pessoa.
Engoli em seco e fiquei ali, paralisado ao lado do batente da cozinha, tentando assimilar a situação surpreendente, enquanto encarava servindo o prato com toda a delicadeza e calma do mundo, enchendo o copo com o suco desconhecido. Comecei a me perguntar o que tinha acontecido para ela cogitar cozinhar para mim sem motivo, depois de tudo o que aconteceu na noite anterior. Ela me odiava, então o que era tudo aquilo?
Trinquei o maxilar ao pensar que poderia se tratar de uma armadilha. Não era possível que tivesse cozinhado de pura e espontânea vontade para o homem que jurava odiar eternamente. Eu nem sabia que ela sabia cozinhar.
— É melhor comer logo, , senão poderá esfriar. — Ela endireitou o corpo e apontou para a cadeira em frente ao prato cheio de comida.
Pisquei, saindo do devaneio, atravessando a cozinha até ficar ao lado da mesa, ainda encarando tudo.
— O que significa tudo isso, ? — perguntei, a voz carregando minha desconfiança.
Passei o dedo indicador na toalha e a mirei, aguardando uma explicação. Ela remexeu as mãos, embolando os dedos em uma atitude claramente nervosa e muito suspeita.
— E-eu... Queria pedir desculpa pelo que houve ontem e hoje de manhã — gaguejou, parecendo não familiarizada com as palavras.
Arqueei a sobrancelha ao notar que fugia do meu olhar, não querendo encará-los.
— Não seria mais fácil apenas me dizer isso?
— Sim, mas... — Ela então finalmente me olhou, ficando presa no enlaço dos nossos olhos. — Eu sempre tive a mania de cozinhar para o Noah quando tinha que pedir desculpas. É uma peculiaridade minha — explicou-se e meneei um aceno, percebendo a sinceridade em sua fala.
Analisei suas feições por mais alguns minutos, em busca de algo que pudesse revelar algo a mais por trás daquele jantar. Eu não confiava em o suficiente para arriscar empurrar a comida pela garganta do meu precioso corpinho musculoso.
— Então, por que está tão nervosa? — questionei, atípico, atento a suas reações.
— Eu não sei se vai gostar — ela respondeu rápido demais, o que aumentou ainda mais a minha desconfiança.
Ponderei por um momento, desviando o olhar para analisar a mesa novamente. Ajeitei a alça da mochila no encosto da cadeira e deixei a sacola ao lado do prato. Meu olhar levantou-se até o rosto de , prendendo-me aos olhos castanhos que revelavam o poço de ansiedade. Curvei um sorriso alinhado, disfarçando o deboche nos lábios, acomodando o corpo na estrutura de ferro, os músculos relaxando contra as almofadas macias do assento e encosto.
— Jante comigo, . — Indiquei o lugar vazio à minha frente.
Ela analisou a ideia, olhando para a cadeira.
— Tem muita comida aqui, tenho certeza de que poderá me ajudar a comer tudo isso. — ofertei.
— Estou sem fome, a comida é toda sua — desconversou, coelha esperta.
— Então... — Apoiei os dedos ao lado da cerâmica do prato e o empurrei em sua direção. — Não vai se importara de experimentar. — Sorri malicioso. — Eu não vou comer a sua comida sem que você prove antes. — Estreitei os olhos, a fuzilando.
Acompanhei quando os glóbulos castanhos adotaram o tom escuro e sombrio, destroçando qualquer brilho que ousasse aparecer. Ela poderia ser esperta, mas eu era mais experiente nesse jogo. Cerrou os punhos, soltando o ar pesadamente pelos lábios e poderia jurar que estava prestes a pegar o garfo e enfiar fundo na minha garganta.
— Está insinuando que armei esse jantar para te matar? — Arqueou uma sobrancelha, apertando a ponte do nariz. — , você é... Você é um cretino, sabia? — cuspiu e percebi o tamanho do seu ódio.
— Eu não sou idiota, — devolvi. — Quer mesmo que eu acredite que de repente, do nada, você passou a ser boazinha comigo? — Ergui o queixo, entrando na afronta.
— Você não é capaz nem de aceitar um simples pedido de desculpa, sem fazer o inferno antes? — Eu a irritei e estava me deliciando com isso.
— Não quando o pedido vem de você. — lambi os lábios em uma provocação ousada.
Apesar da minha segurança e do glorioso deleite, não esperava pela reação repentina de . Sua mão direita apertou o encosto da cadeira, queimando minha pele através da camiseta, enquanto a esquerda apoiava-se sobre a mesa. Seus ombros rígidos se inclinaram para frente, e seu rosto se aproximou tanto do meu que nossos narizes poderiam facilmente se resvalar. Sua respiração quente e firme aqueceu meus lábios, e as sobrancelhas arqueadas acompanhavam a intensidade dos olhos cruéis e abismados.
Curvei os lábios em um sorriso malicioso, sabendo que a tiraria do sério, e deslizei o olhar até pairar sobre a boca carnuda e rosada em uma provocação descarada.
— Acha mesmo que me intimida, ? — sussurrei, a voz rouca e baixa, o olhar fixo no dela. — Você está jogando com fogo.
Ela engoliu em seco, mas não desviou o olhar.
— Eu não tenho medo de você, . — O desprezo como pronunciou meu sobrenome, era como um veneno que me consumia.
— Deveria ter. — Aproximei mais nossos rostos. — Porque eu adoro brincar com fogo.
— Mas eu posso ser mais perigosa. — Seus olhos se transformaram em fendas, crispando fogo para todos os lados. — Agora, coma essa comida antes que eu enfie na sua goela abaixo — ordenou, e notei um leve tremor em sua voz.
Afastei nossos rostos e quebrei o contato visual por tempo suficiente para pegar o garfo, espetando o arroz de forno, pescando uma porção generosa. Levei a mão até a altura de nossas bocas, posicionando-a próximo à dela, recebendo a faísca intensa dos seus olhos me fuzilando, possuída pela raiva.
— Só depois de você. — Sorri malicioso, a desafiando. — Como posso saber se não está realmente tentando me envenenar, ? — Torci os lábios em um apelo silencioso.
— Não seja dramático, . Eu não me prestaria ao trabalho de esconder o seu corpo — respondeu, irritada.
— Então me mostre que posso confiar em você. — Mexi o garfo.
— Você é muito inseguro. — Ela negou com a cabeça.
estreitou os olhos em desdém, pegou o garfo com raiva e levou a comida à boca, cada movimento sob minha supervisão. Mastigou com relutância, parecendo não apreciar o gosto, por mais que estivesse uma delícia. Seus olhos voltaram a se fixar nos meus.
— Satisfeito? — largou o talher, sentando-se na cadeira vaga.
— Ainda não — resmunguei, o cenho franzido.
— Deveria parar de ser tão teimoso, está uma delícia. — Ela cruzou os braços, servindo o copo de suco de laranja e tomando a bebida como se fosse a última maravilha do mundo.
Torci os lábios quando vi lamber os lábios, tirando qualquer resquício do suco. Como ela poderia gostar tanto de uma bebida tão sem graça? Coca-Cola era mil vezes melhor.
Olhei para a mesa arrumada e encarei os talheres, depois a travessa cheia de arroz de forno. Não costumava ter uma mulher cozinhando para mim, sendo tudo novidade. Sempre me virei sozinho, comprando uma pizza, um lanche e passava a noite sozinho, na companhia de algo gorduroso. A última vez que tive alguém cozinhando na minha cozinha foi quando minha mãe me visitou e fez questão de preparar um banquete.
O queijo gratinado, dourado, parecia me chamar, exalando uma fumaça quase transparente, invadindo minhas narinas com o aroma mais delicioso que já tinha sentido. Decidi provar, já que era nítido o esforço de para preparar o jantar, e, apesar de tudo, a coelhinha parecia cozinhar muito bem.
Segurei o garfo, notando que estava na mira do olhar atento de , ansiando pela minha reação. Provei o arroz de forno e tive que conter o gemido de puro prazer ao sentir o sabor arrebatador que explodiu em minha boca. A textura macia do queijo contrastava com o arroz e o frango, formando aquela combinação deliciosa. Salgado, quente, maravilhoso e tinha gosto de lar. Era como se cada ingrediente tivesse sido escolhido a dedo, cada tempero adicionado com precisão.
— O que achou? — perguntou, os cotovelos apoiados na mesa e o queixo sobre as mãos.
— Não é tão ruim. É até comestível — retruquei, não daria o braço a torcer.
revirou os olhos.
— Você não confia em mim nem para comer um simples arroz de forno? — O tom baixo, parecia ofendida.
— Com você, nem para atravessar a rua — zombei, tentando descontrair o clima tenso que nos sondou. — Por que está sendo tão gentil comigo? — soltei, me dando conta de que já tinha perguntado, mesmo sabendo que não era um crime querer saber a verdade.
encheu o copo novamente, bebericando a bebida.
— , eu atrapalhei a sua noite ontem. Você só queria dormir e eu não respeitei o seu espaço — confessou, parecendo difícil para ela confessar em palavras. — Eu queria pedir desculpas, mas achei que só dizer “não” fosse o suficiente.
— E pensou que o jantar fosse completar o pedido? — Quis saber, enchendo o prato com mais comida.
Ela meneou um aceno, não conseguindo sustentar o meu olhar, as bochechas coradas.
— , eu trouxe isso para você. — Empurrei a sacola da farmácia em sua direção. — Tome um comprimido por dia, irá ajudar com a alergia — orientei, voltando a me deliciar com o arroz de forno, enquanto ela abria a embalagem.
— Por que comprou um antialérgico? — Ela olhou a caixa, lendo o rótulo.
— Pelo mesmo motivo do seu jantar — confessei, dando uma chance para o suco de laranja. — Ah! E não tem corticoides. — Encarei o líquido no copo, dando um longo gole e ficando mais uma vez impressionado com o sabor.
Foi o melhor suco de laranja que já tomei em toda a vida.
— Obrigada, . — Ela sorriu pequeno, desviando o olhar dos meus.
— Aceito suas desculpas, . — Um sentimento de alívio pairou sobre meus ombros, como se finalmente eu e a coelhinha estivéssemos nos entendendo pela primeira vez em anos.
Tinha acabado de beber a última gota do suco mais saboroso que já tinha bebido, quando escutei o som estridente e distante do choro de Mia. Estreitei os olhos, olhando para cima instintivamente, ouvindo soltar o ar ao meu lado, parecendo cansada.
— Eu sabia que ela ia acordar. — Quebrou o silêncio em um desabafo. — É tão difícil fazê-la dormir. — Levantou-se indo em direção às escadas.
— Eu vou com você — decidi, seguindo-a.
Sky pulou no balcão e miou, no mesmo instante em que saiu da cozinha. O ignorei, o sachê de salmão poderia esperar e o felino estava gordo o suficiente para não morrer de fome. Mia precisava mais de mim agora.
A porta do quarto estava entreaberta, a pequena fresta iluminava o corredor. O choro estridente se espalhava pela casa, preenchendo cada cômodo e causando uma sensação estranha em meu peito, a fisgada incomum e latente. Não era especialista em bebês e acho que nunca serei, mas estava disposto a mover céus e terras para ver minha pequena calma e tranquila.
Entrei no quarto, encontrando em frente ao berço, balançando os braços de um lado para o outro. Os ombros rígidos acompanhavam os músculos das costas retesados, dizendo palavras desconexas, sendo a grande maioria uma imploração desenfreada. A voz falha e rouca me dava claros sinais do rosto que encontraria quando pairasse ao seu lado, escutei quando fungou e não consegui conter as sobrancelhas teimosas que arquearam.
Por que a estava chorando? Qual era o problema com as duas?
— Por favor, Mia... — clamou. — Eu não sei o que está acontecendo... — fungou, derramando lágrimas desesperadas.
Venci a distância até elas, posicionando o corpo ao lado delas, olhando da pequena para . As duas mulheres que insistiam em permanecer na minha vida estavam aos prantos na minha frente e eu não tinha ideia do que fazer para ajudá-las. Engoli em seco, tentando raciocinar no meio do caos que habitava minha mente. O barulho me desconcertou, mas precisava pensar. Eu era o único que poderia fazer alguma coisa.
— ... — chamei, a voz baixa, tentando não a assustar.
A coelhinha soluçou e me encarou com os grandes círculos castanhos, os pequenos pontos dançando ao redor da pupila, dominados pelo aspecto terroso. Sua pele clara estava tingida pela vermelhidão, a pontinha do nariz parecendo uma cereja silvestre gigante e as pálpebras levemente inchadas, formando a visão mais delicada que já vi.
— Deixe-me pegá-la. — Estiquei os braços e só então notei que minhas mãos estavam trêmulas, os batimentos levemente acelerados.
— E-eu não sei o que ela tem, ... — As lágrimas marcavam um rastro pelas maçãs do rosto dela. — E-ela... E-eu... — Embolou as palavras, sufocando nos próprios soluços.
— Eu sei, , está tudo bem. — Tentei acalmá-la, sentindo algo se retorcendo em meu peito por vê-la tão desesperada. — Só preciso que fique calma. Vamos resolver isso juntos, mas duas mentes funcionam melhor do que uma. — Pisquei, preso no contato visual de nossos olhos.
Fiz menção com as mãos, acompanhando a hesitação de , que pendurou por alguns instantes, antes de ceder e entregar Mia em meus braços. A pequena continuava a chorar, as mãos cerradas em punho, as pernas retraídas e o rosto tão vermelho que temi por alguns segundos. A garganta secou ao me lembrar de um artigo que li, que explicava sobre a facilidade dos bebês se engasgarem durante uma crise de choro. Senti um aperto no peito ao vê-la tão aflita.
— O-o que... Você acha que ela tem? — perguntou, a voz afetada e trêmula ao meu lado.
A verdade? Eu não tinha nem ideia.
— Vamos descobrir — respondi, começando a balançar Mia suavemente — e você trate de se acalmar — ordenei, não conseguindo me concentrar com fungando e roendo as unhas.
Comecei a observar Mia com atenção, buscando sinais que pudessem indicar algum sinal de desconforto. Franzi o cenho, acariciando os fios loiros que enfeitavam a pequena cabeça, esfregando os dedos delicadamente ao verificar a temperatura corporal. Ela não parecia ter febre, um fato que retirou uma tonelada das minhas costas. Sua pequena mão envolveu meus dedos em um aperto firme, movendo livremente os membros, aumentando a intensidade do choro.
Descartei a possibilidade de dor física. As lágrimas persistiram e a agitação me levou a ter uma suspeita, algo que presenciava todos os dias na clínica veterinária. Fiz uma careta e neguei com a cabeça; não era possível que eu estava pensando em algo assim. Passei anos estudando o comportamento dos animais, entre eles, cães e gatos, e nunca associei suas reações com as dos humanos, até aquele momento...
— Quando foi a última vez que ela comeu? — perguntei, erguendo a cabeça, buscando por .
Ela estava ao lado do berço, roendo a unha do dedo indicador, os olhos nublados e sem brilho, completamente fora do planeta Terra. precisava urgentemente de tratamento para conseguir controlar suas emoções, não tinha como uma pessoa viver desse jeito, entrando em pânico sempre que a situação saísse do controle. E conhecendo o caos que nos enfiaram, o descontrole seria um intruso atrevido em nossas vidas. Franziu a testa quando perguntei novamente, tentando formular uma resposta em meio a mente turbulenta.
— Foi antes de irmos no mercado... — Olhou para cima, calculando alguma coisa. — Umas três horas atrás, eu acho — concluiu.
Arregalei os olhos, minha garganta arranhou de surpresa.
— Não pode estar falando sério, — retruquei. — Três horas?
A coelhinha me olhou, o semblante confuso, ainda roendo as unhas.
— Acha que ela pode estar com fome? — questionou, o fio de voz em dúvida.
— Tenho quase certeza. — E então caminhei em direção ao corredor.
Desci as escadas, o choro da pequena escorrendo pela casa inteira. vinha logo atrás, o barulho dos seus passos tentando ficar em meu encalço era inconfundível. Mordi o lábio inferior assim que atravessei a sala, chegando na cozinha e olhei ao redor, perdido, pensando em algo que Mia pudesse comer. Sky arregalou os olhos quando me viu e saiu correndo como se tivesse sido disparado de um canhão, ele nunca estivera tão perto de uma criança antes e não o julgava, também era minha primeira experiência com um bebê berrando em meus braços.
Minha mente trabalhava a mil por hora, rodando as engrenagens em busca de uma solução. Encarei a mesa abandonada do mesmo jeito que a deixamos, torci o nariz, aquele arroz de forno não seria uma boa opção para uma criança de 2 anos se alimentar à noite. Ela poderia passar mal e ter indigestão pelo alto teor de gordura dos queijos. Baguncei os cabelos com os dedos, a garganta tão seca quanto o deserto e meu coração palpitando como o inferno, preocupado, confuso e com medo.
Fazia anos que não me sentia desse jeito. O medo se tornou um sentimento que aprendi a dominar depois que comecei a faculdade. Aquilo tudo era culpa da minha irmã e da sua cria, que fez questão de jogar nos meus braços. Começou quando Jeremy decidiu me arremessar para o fundo do abismo, anunciando que a guarda da bebê estava nas minhas mãos junto com a mulher mais insuportável do mundo. Eu morreria antes de confessar isso, mas senti medo de não ser suficiente para as duas.
E agora, estava apavorado, perdido, quase entrando em pânico.
Balancei a cabeça, não querendo perder o controle dos meus próprios pensamentos. me pagaria muito caro por me abandonar, sozinho, naquela situação. Fui até os armários, abrindo as portas em busca de algo saudável, e, por mais que não soubesse quase nada do que isso significava, tinha consciência de que uma criança precisava de algo melhor do que enlatados e bebidas alcoólicas.
— Que droga! — resmunguei sozinho, buscando pela única pessoa que, talvez, pudesse me ajudar.
Os olhos vermelhos e inchados, a preocupação estampada em seu rosto, as mãos inquietas, o leve rubor nas bochechas. A imagem me atingiu com força, causando um nó na garganta. Será que era mesmo uma boa ideia? Sendo ou não, era a última esperança para um homem solteiro que nunca teve que cozinhar ou fazer uma lista de compras com produtos saudáveis para bebês.
— O que crianças comem, ? — disparei, a voz carregada de pânico.
Ela fixou meu olhar, entreabrindo levemente os lábios, ponderando uma resposta.
— Como assim, o que elas comem, ?
— Qual é a parte do supermercado que é exclusiva para a alimentação de crianças? — perguntei, alargando um sorriso sem graça.
arqueou as sobrancelhas e, por mais que tentasse, não resistiu e explodiu em uma risada alta, tampando o rosto com as mãos em seguida. O riso estridente misturou-se ao choro da bebê.
— Do que você está rindo? — Franzi o cenho, a pontada de uma raiva explodindo em meu peito.
— Desculpa, é que... Eu estou tão nervosa, mas você... — Caiu em outra crise de risos. — não existe uma seção específica no supermercado. As crianças não comem ração como os animais.
— Então o que elas comem? — A mirei, começando a ficar mais preocupado. — Ovos cozidos? Batata doce? Frango? Isso é saudável, não é? — disparei sem reconhecer a própria voz.
— Sim, claro. Se você quiser que a Mia vire uma parede de músculos com 2 anos, acrescente whey protein na dieta — gargalhou em outra crise.
Tencionei o maxilar, faltando apenas um fio da minha paciência para esganar aquela coelha dos infernos.
Ela respirou fundo, passando as mãos no rosto e limpando as lágrimas teimosas que se acumularam no canto dos seus olhos.
— Já acabou com a sua crise de risos? — disparei, balançando Mia que começou a chorar mais alto e desesperador.
— Desculpa... — murmurou, não conseguindo conter os sorrisos atrevidos.
Revirei os olhos, voltando a estudar as feições de Mia como se a qualquer momento a solução para os meus problemas saltasse na testa da pequena. Engoli em seco; era um choro tão insistente, agudo, que só conseguia me lembrar dos filhotes famintos que cuidava na clínica.
— A Mia ainda toma fórmula. — A coelha indagou depois de alguns minutos de recuperação. — Apesar de já estar em introdução alimentar.
— É como o leite que preparamos na clínica para os filhotes — comentei alto demais. — Temos isso aqui?
assentiu, indo em direção ao armário em cima do micro-ondas na bancada, pegando a enorme lata de alumínio com o rótulo azul indicando as diversas vitaminas que o leite artificial concentrava. A embalagem era diferente da qual estava acostumado, apesar de possuírem a mesma função no final das contas.
— Como tem tanta certeza de que é fome? — Quis saber, preparando a mamadeira.
— Bebês precisam comer com frequência, estão em fase de pico de crescimento. — Beijei o topo da cabeça de Mia, desejando de alguma forma retirar todo seu incômodo.
— Pico de crescimento? — Arqueou a sobrancelha, levando a mistura ao micro-ondas.
— Acontece com os filhotes também, é quando há um aumento repentino no apetite, geralmente acompanhado de irritabilidade e choro — expliquei, encarando o cronômetro no pequeno visor. — É como se o corpo deles estivesse pedindo mais combustível para crescer.
sorriu com o canto dos lábios.
— Aprendeu isso na faculdade de veterinária?
— Na verdade, foi na prática. — Acompanhei, ansioso, enquanto ela retirava a mamadeira do micro-ondas, jogando os cabelos sobre os ombros. — A clínica recebe muitos filhotes todas as semanas e cuidamos deles até serem adotados.
— Então, aprendeu a ler os filhotinhos? — Quis saber curiosa, testando a temperatura do leite em seu pulso.
— Cada choro tem um som diferente, alguns são estridentes, agudos, baixos, sôfregos — expliquei. — Com o tempo, você aprende a diferenciá-los.
me observou com atenção, enquanto eu estava empolgado em explicar as maneiras de identificar os diferentes tipos de choro dos filhotes e o quanto eles são parecidos com os bebês. Ela absorvia cada palavra, os olhos brilhantes de surpresa, assemelhando-se a uma garotinha nerd, concentrada em aprender mais sobre a lição de casa.
— Acha que os bebês são parecidos com os filhotes? — Estendeu a mamadeira em minha direção.
— Talvez.
Peguei o leite, sentando-me em uma cadeira à mesa da cozinha, ajeitando Mia em meu colo e oferecendo a mamadeira para a pequena. No início, ela hesitou, relutando, mas bastou apenas um pouco de insistência para agarrar o bico, mamando com voracidade, sugando o líquido com força. O choro diminuiu gradualmente, dando lugar a pequenos suspiros de satisfação, o som suave da sucção preenchendo a cozinha, um ritmo reconfortante que me acalmou instantaneamente.
Os bracinhos agitados se acalmaram, as mãozinhas delicadas encontrando meu braço em um aperto suave, aquecendo minha pele, enquanto as perninhas balançavam em um ritmo feliz. Observei Mia, os olhinhos fechados, o rosto relaxado, e uma onda de ternura me invadiu. Um suspiro cansado escapou por entre meus lábios, aliviando a tensão que se acumulava em meus ombros. Era incrível como um ser tão pequeno podia despertar sentimentos tão intensos, uma mistura de proteção, admiração e um calor inexplicável no peito.
E, no fundo, minha teoria se confirmava: os filhotes e os bebês compartilhavam mais semelhanças do que eu imaginava.
— Graças a Deus! — exclamou.
Um sorriso involuntário brotou em meus lábios, um reflexo do alívio que sentia.
— Ela estava faminta! — constatou, aproximando-se e observando Mia por cima dos meus ombros.
— É incrível como um simples copo de leite pode acalmar um bebê tão rápido — murmurei, sem conseguir desviar os olhos da pequena.
A cena me transportou para a clínica, para os filhotes famintos que encontravam conforto e saciedade em uma mamadeira. A diferença era que Mia, com seus olhinhos fechados e a expressão serena, despertava em mim um sentimento muito mais profundo, uma conexão que eu não sabia que era capaz de sentir.
— Você sabe lidar bem com bebês — comentou, um tom de admiração.
— Eu não sei lidar com bebês. — Fiz uma careta. — Eu sei lidar com animais. E a Mia é como um cachorrinho faminto que chorou porque estava com fome.
riu, um som suave e melodioso que me fez sorrir também.
— Ela não é um cãozinho, .
— Funcionou, , é o que importa — respondi, dando de ombros.
O silêncio reinava na cozinha, quebrado apenas pelo suave som das nossas respirações. Mia terminou de mamar, soltando um arroto alto e fofo. Seus olhinhos, antes marejados, brilharam brevemente antes de se fecharem por completo, entregando-se ao sono. Aconcheguei-a em meus braços, depositando um beijo no topo da sua cabeça, balançando os braços devagar em movimentos lentos, cuidadosos, como se ela fosse feita de porcelana. Um calor estranho invadiu meu peito, uma sensação de proteção que nunca havia experimentado se apossou do meu corpo.
Ela era tão pequena e frágil que o medo de levantar da cadeira e acabar derrubando me aterrorizava. Passei a calcular cada movimento e notei que até mesmo controlava o ritmo da minha respiração. Estava paralisado, como se um passo em falso pudesse quebrar a pequena delicadeza em meus braços. E eu, que sempre me considerei forte e capaz, me sentia completamente impotente diante daquela criaturinha.
Os traços delicados e o semblante sereno da bebê abriram espaço para as palavras de minha mãe e de Lily ecoarem em minha mente, relembrando os momentos de um passado distante no haras dos . Elas sempre diziam que eu seria um pai maravilhoso, observando-me cuidar dos cavalos com paciência e carinho, enquanto as crianças me seguiam para todos os lados, curiosas e gostando de imitar os meus passos. Na época, eu apenas sorria, incrédulo, e tentava relevar, já que se tratava dos filhos de nossos clientes, mas nunca imaginei que segurar um bebê de verdade pudesse despertar tamanha apreensão.
Um medo irracional de que meu toque, por mais leve que fosse, pudesse causar algum dano irreparável.
Toda a minha vida, não soube lidar com crianças. Meus conhecimentos se limitavam aos animais, às suas necessidades e comportamentos. Bebês, por outro lado, eram um mistério completo, um território desconhecido que me deixava completamente inseguro. A fragilidade de Mia, a dependência total que ela tinha de mim, me assustava e encantava ao mesmo tempo. Era como segurar uma responsabilidade imensa que eu não sabia se estava preparado para assumir.
Controlei os tremores das mãos, respirar era uma tão tarefa difícil perto de Mia.
— Ela dormiu? — sussurrou, tocando o encosto da cadeira, me tirando dos devaneios.
— Para a nossa sorte, sim. — Senti um calor estranho nas costas e no peito. — Acho melhor levá-la para o quarto.
acomodou-se na cadeira ao meu lado, enchendo o prato vazio com uma porção tão grande do arroz de forno que me perguntei para onde iria parar tanta comida em uma mulher tão pequena. A forma como seus ombros se moviam, a curva do seu pescoço, tudo parecia amplificado sob a luz quente da cozinha. A delicadeza de suas mãos enquanto segurava o garfo, a maneira como seus dedos longos se curvavam ao redor do cabo, despertavam um fascínio estranho em mim.
— Ela parece tão tranquila no seu colo, vamos esperar mais um pouco. — Espetou o garfo, levando-o à boca, me prendendo de uma maneira hipnotizante quando gemeu em puro deleite, fechando os olhos em apreciação. — Isso está divino! — murmurou, apreciando o sabor de outra garfada, o som escapando por entre seus lábios reverberando estranhamente em meus ouvidos.
Desviei o olhar dos seus lábios carnudos, onde um brilho sutil de queijo derretido realçava o movimento da língua que limpava os cantos da sua boca. Um gesto tão simples, tão cotidiano, que carregava uma sensualidade que me perturbou profundamente. O calor estranho se espalhou pelo meu corpo, um formigamento percorrendo minha espinha e se concentrando em um ponto específico do meu ser.
Tencionei o maxilar, engolindo em seco, tentando controlar a onda de desejo que me invadia sem permissão. A mandíbula tiqueou nervosamente, denunciando a luta interna. saboreava a comida com uma expressão de êxtase, os gemidos baixos, a maneira como fechava os olhos, como se a cada garfada fosse uma experiência transcendental, me hipnotizando, enfeitiçando em uma loucura assustadora e incomum.
— Você come como se estivesse em um comercial de comida — murmurei, limpando a garganta, tentando afastar qualquer pensamento obsceno que insistia em me consumir.
me encarou, intensificando o calor quando vi o brilho travesso dançando em seu olhar.
— Isso está realmente delicioso. — Serviu o copo de suco. — Deveria ser um crime pensar que envenenaria uma maravilha dessas — brincou, encostando-se na cadeira.
— Precisamos conversar sobre isso — disparei, percebendo que havia falado demais.
— Conversar sobre a sua sincera falta de confianças nas pessoas? — zombou, rindo em seguida.
— Engraçadinha, mas não, . — Rolei os olhos, notando que a tensão havia se dissipado do meu corpo. — Sobre nós, sobre tudo isso que está acontecendo. — As palavras de Madisson me atingiram em cheio; a ruiva estava certa, precisava tentar ter uma boa convivência com a coelhinha. — Acho que precisamos de um acordo de paz.
— Um acordo de paz? — ela repetiu, arqueando a sobrancelha em confusão.
— Todo lugar precisa de regras básicas de sobrevivência. É assim que mantemos a ordem. — Uma pequena gota de suor escorreu por minha testa e só então notei o quanto estava nervoso.
Os olhos castanhos me encaravam com uma intensidade desconhecida, vidrados e atentos a cada palavra que ousava pronunciar. me estudava, concentrada nas minhas reações e, julgando pela expressão serena em seu rosto, sua cabeça estava rodando as engrenagens, buscando descobrir onde eu queria chegar com aquela conversa. E, apesar de achar o que Madisson me propôs um tremendo absurdo, tinha que tentar, talvez fosse a solução para os nossos problemas.
Um acordo de paz cairia perfeitamente como uma pluma entre nossos conflitos.
— Você quer dizer, como não invadir o espaço um do outro? — gesticulou, bebericando a bebida.
— Exatamente — concordei. — Vivemos na mesma casa, podemos dividi-la como um condomínio.
— Quais as chances de isso dar muito errado? — Cruzou os braços em frente ao peito.
Eu sabia que tinha de tentar, mas não possuía nenhuma esperança que fosse dar certo.
— , as coisas não estão fáceis para mim, e imagino que para você também não estejam — comecei, olhando para Mia. — Nossas vidas viraram de cabeça para baixo. De repente, eu tinha a minha liberdade e agora me sinto sufocado em uma coleira com um bebê em meus braços.
A minha vida era perfeita e acredito que a de não fosse muito diferente. Fomos arrancados à força do nosso comodismo e obrigados a cuidar de uma criança da noite para o dia, não conseguindo tempo nem para vivermos o luto pelos nossos irmãos. E apesar de gostar da ideia de ver abandonando a sua responsabilidade e desaparecendo de vez da minha vida, no fundo, tê-la ao meu lado me ajudando a cuidar de Mia me causava um certo alívio.
Eu não sabia nada sobre crianças e , de certo modo, tinha uma bagagem maior que a minha, já que pelo menos ela parecia saber segurar um bebê sem medo de derrubá-lo.
— O que você sugere, ? — perguntou, depois de um tempo em silêncio, olhando para Mia, evitando me encarar.
— Vamos dividir a casa, seremos como vizinhos em um condomínio. — Ela finalmente me encarou, interessada na ideia. — Você pode ficar com o quarto de hóspedes, suas coisas já estão nele. A sala é toda minha, o sofá será a minha cama e nada de você o invadindo na madrugada — pontuei, sentindo meu coração bater rápido, nervoso com a sua possível reação. — Os outros cômodos da casa serão comunitários.
Ela soltou uma risada seca.
— Então iremos dividir a casa como dois estudantes universitários?
Meneei um aceno em concordância.
— É melhor do que vivermos como inimigos, . Não podemos nos mudar, isso afetaria o crescimento da Mia, então que tenhamos uma convivência agradável e saudável.
Ela mordeu o lábio inferior e balançou a cabeça em um aceno. Finalmente concordávamos em alguma coisa.
— Precisamos estabelecer alguns detalhes. — Pressionou os lábios, refletindo. — Você vai tirar o lixo, porque eu me recuso a acordar cedo para isso. A Mia terá horários para dormir. E gosto de assistir filmes aos sábados até tarde, então você... Não sei, dorme na casa de alguma mulher, ou simplesmente desaparece, quero a sala para mim. — Foi levantando os dedos conforme pontuava.
— , eu não dormia na casa de mulheres, elas que dormiam na minha. — Curvei um sorriso sarcástico.
Ela estralou os dedos, apontando em riste em minha direção.
— Ah, e você não irá trazer nenhuma delas para cá, não sou obrigada a acordar e me deparar com a visão do inferno no meio da sala.
Apertei a ponte do nariz, isso seria mais difícil do que eu imaginava.
— Mais alguma coisa, coelhinha? — perguntei, começando a sentir a leve irritação surgir.
Esfregou o queixo, torcendo os lábios em um beicinho.
— Nada de flertar — disparou, pegando-me de surpresa. — Não quero que ache que quero algo com você só porque estou sendo gentil ou quero outras coisas. — Suas bochechas coraram levemente. — Quero manter nossa relação profissional. Amamos a Mia e é isso que importa. — A vergonha explícita em seus olhos deixava claro suas intenções e me sentia ofendido em saber que ela achava que iria tocá-la ou me atirar como um maníaco.
— , eu não faço ideia do que você acha sobre mim ou sobre os homens, mas acredite, eu não sou esse monstro que você pensa. — Por que eu sentia que havia algo muito maior por trás daquele pedido?
Ela suspirou e pressionou os lábios, parecendo aliviada, ao mesmo tempo, em que algo a afligia, já que não conseguia retribuir o meu olhar. Sua respiração ofegante chamou minha atenção, a gota de suor frio surgindo em sua testa. Tentei tocar a mão pousada sobre a mesa e fui surpreendido com o movimento brusco e repentino; afastou-se e se encolheu contra a cadeira como se eu fosse machucá-la de alguma forma, os olhos arregalados e perdidos estavam tingidos de pavor. Meu peito se retorceu ao ver os dedos agitados, se remexendo sobre o colo e os olhos perdidos, presa dentro de um pesadelo. O que tinha acontecido com ela? Ela parecia ter medo de um simples toque.
— Você... — A voz falha me despertou. — Você tem algum requisito que eu deveria saber? — Notei a súbita vontade de mudar de assunto.
Neguei e ela franziu o cenho.
— Não tem nada que queira colocar no nosso acordo?
— Só que as duas fiquem seguras — revelei, beijando a cabeça de Mia. — Ah! E nada de me obrigar a assistir filmes românticos. — Sorri sarcástico.
— Tudo bem. — Ela concordou. — Mas se você me irritar, vou te jogar pela janela. — Ameaçou e riu em seguida, ali estava a que eu conhecia.
— Temos um acordo? — Quis confirmar.
— Sim. — Concordou, levantando-se da cadeira e indo em direção à pia para lavar os pratos e copos que usamos no jantar. — Ah! Não se esqueça de assinar a papelada em cima do balcão.
O peso pareceu abandonar de vez os meus ombros e me peguei sorrindo em silêncio e sozinho, enquanto subia as escadas com cuidado para não acordar a criaturinha minúscula em meus braços. Empurrei a porta do quarto com o pé e acomodei a pequena no berço, me surpreendendo com a calmaria que a envolvia no sono mais confortável que já tinha visto.
Por mais difícil que fosse aceitar o meu destino e continuar morando debaixo do mesmo teto para cuidar de Mia, nunca desistiria. Ela não era capaz de abandonar a sobrinha nas minhas mãos e viver a vida com a consciência limpa. E eu também não. Então, no final, Madison e Aidan tinham razão: nenhum dos dois poderia desistir. A pequena dependia de nós e éramos tudo o que ela tinha.
O melhor seria unir nossas diferenças, ao menos para facilitar uma boa convivência. Eu tinha uma clínica para administrar, uma profissão que tinha de honrar com perfeição e, para isso, precisava de paz e tranquilidade na minha vida. Mesmo que morar com pudesse desencadear um incêndio incontrolável, eu estava disposto a ceder a faísca que nos prenderia para sempre à pequena Mia.
A dor é o sinal de vida.
O medo é o eco da alma.
E o trauma é a encruzilhada onde a dor e o medo se encontram, definindo o rumo da nossa existência...
O calor irradiou por minha pele, os dedos longos me tocavam de maneira grotesca. Espalmei as mãos contra o peito duro, unindo forças do submundo para empurrá-lo. Eu o queria longe de mim, seu toque me enojava, sua boca forçando contra a minha, implorando pela passagem que nunca teria. Solucei quando minhas costas encontraram a parede com tanta força e brutalidade que fiquei sem ar. Tentei lutar, me debati com desespero quando o brutamonte veio para cima, puxando minha camiseta com tanta fúria, rasgando o tecido em milhões de pedaços.
Encolhi-me quando ele se afastou, tentando cobrir meus seios expostos com os pequenos braços. As lágrimas insistiam em rolar e não conseguia controlar; a dor me dilacerava, a ardência na lateral do meu rosto e o gosto metálico invadindo meu paladar me causaram calafrios, assim como a breve visão dos três homens parados à minha frente, me encarando, analisando, os olhos tão obscuros quanto os aterrorizantes demônios. O medo estampava o meu rosto e, por um momento, implorei que a morte me encontrasse, seria um destino menos doloroso.
— Por favor, Kaleb... — implorei, a voz trêmula, os olhos cheios de água. — Eu confiei em você...
— Não se preocupe, . — O homem esguio, cabelos negros como a noite e olhos tão obscuros, se aproximou, tocando meu queixo e o levantando. — Eu e meus amigos vamos pegar leve com você; sabemos que é a sua primeira vez. — Seus dedos apertaram as laterais da minha bochecha, pressionando a pele contra os dentes, o gosto metálico me invadindo mais e mais. — E você vai adorar ser a nossa putinha. — Eles dispararam em risadas, causando náuseas.
Arregalei os olhos, sentindo o aperto firme da mão de Kaleb ao redor do meu braço e me puxando para si, colando nossos corpos. Eu reagi, debatendo o corpo com desespero, os outros dois se aproximaram, os sorrisos demoníacos estampados em suas faces, deliciando-se com meu choro, o medo e a resistência, a minha ânsia de lutar.
— NÃO! POR FAVOR, NÃO ME TOQUEM! — rugi entre soluços, tentando me livrar das mãos de Kaleb que seguravam sem piedade as laterais dos meus braços.
O incômodo se apossou do meu corpo conforme me debatia, mas a força de Kaleb não foi suficiente para conter meus olhos de se abrirem em completo pânico quando percebi que um dos seus amigos puxava o cinto da calça. Prendi o ar com as gargalhadas estridentes, imaginando que primeiro planejavam me espancar até que cedesse às investidas ou ficasse inconsciente para fazerem o que quisessem comigo. No entanto, entendi quais eram as suas verdadeiras intenções assim que começou a desabotoar os botões e descer o zíper, ao mesmo tempo, em que fui arremessada contra o chão com tanta brutalidade, batendo a cabeça na parede.
Os músculos reclamaram, a mente rodou e não tive tempo para pensar. Kaleb caiu sobre mim, tentando rasgar o resto das roupas que ainda me cobriam com uma faca, e foi quando tudo ficou em câmera lenta. A lâmina encontrou a lateral do meu abdômen, perfurando a região com grosseria, rasgando a pele e perfurando minha alma para sempre. A dor não era nada comparada ao medo que estava sentindo; eu queria morrer só para não ter que viver para relembrar aquele dia tão cruel.
Mordei os lábios para evitar o grunhido de dor, levando as mãos para estancar o ferimento. A textura quente e viscosa em contato com os dedos foi suficiente para fazer minha mente reagir, calculando as chances que ainda me restavam. As memórias invadiram em cheio o meu cérebro, o rosto de Noah sorrindo e beijando minha testa, proferindo palavras doces se tornaram meu alicerce para continuar a viver. E foi entre o medo e o desespero em que lutei, arrancando forças de onde nem sabia que existiam. Olhei para a faca, a lâmina e o cabo ensanguentados, brilhavam me atraindo em uma armadilha audaciosa, enquanto os três homens riam e se vangloriavam sobre suas ideias do que iriam fazer comigo.
Eu não pensei muito antes de agir, agarrei a mão de Kaleb e mordi seu pulso com tanta força que o fez soltar a faca e se afastar, levantando-se em um salto, cambaleando. E, sendo a minha última esperança, agarrei-me a ela com força, urgência, peguei o cabo e apontei para eles, forçando o corpo a reagir, obrigando as pernas a se moverem, sustentando meu peso. Minhas mãos sentiram a textura do meu sangue retalhado na madeira.
— Não se aproximem de mim! — gritei, o corpo levemente curvado devido ao ferimento.
Eu tremia dos pés à cabeça. Não tinha ideia do que seria capaz de fazer para sair viva daquele estacionamento frio, gelado e recheado da energia impura que aqueles imundos exalavam. Eles caíram em uma gargalhada intempestiva e em seguida me encararam, não expressando medo algum perante mim, era como se eu fosse a criatura mais frágil do mundo que estavam doidos para me chutar.
— Você me mordeu, sua vadia — Kaleb cuspiu, esfregando a mão na região onde estava perfeitamente a marca da minha arcada dentária. — Vou te ensinar como respeitar o seu homem! — E veio para cima de mim com tudo.
Não pensei duas vezes antes de cravar a faca em seu estômago, tentando segurar as lágrimas para não me cegarem. Queria vê-lo sofrer por tudo o que me tinha feito. O sangue quente e fresco jorrou em minhas mãos, e por mais doentio que fosse, o líquido vistoso em contato com a pele me confortou. Agradeci aos treinos intensivos dos superiores da academia.
— VADIA DESGRAÇADA! — ele urrou. — Eu vou matar você!
A ameaça retumbou em meu peito, e vi em seus olhos fundos e escuros que nunca mais desistiria de me caçar. Empurrei-o na direção dos outros dois e ele caiu de lado no chão. Não hesitei em disparar a correr para fora do estacionamento da boate. Todo o meu corpo doía, solucei com tamanho desespero, enquanto a água gelada da forte tempestade me envolvia assim como tudo pelas ruas de Nova York.
Meus lábios tremiam e minha pele ficava cada vez mais fria conforme adentrava a tempestade, correndo sem rumo, querendo chegar em casa. Um relâmpago cortou o céu logo à minha frente, iluminando brevemente as construções ao redor. Eu parei no meio-fio, apavorada, o coração batendo em meus ouvidos, caindo em um choro compulsivo, sofrido, dolorido, ciente de que daria qualquer coisa para sair daquele pesadelo que me assombraria para toda a eternidade.
Cai de joelhos no asfalto, não conseguindo mais ser forte. O choro me sufocava, as lágrimas de angústia e medo se misturando em meio as gotas da chuva. Os raios cortavam o céu, pintando a escuridão com sua claridade assustadora. Eu me encolhia cada vez mais a cada estrondo, tapando meus ouvidos em uma tentativa inútil de encobrir os sons. Meu corpo estava nojento, coberto com as marcas dos toques mais imundos do mundo.
Toques que, um dia, pensei que não fossem capazes de me machucar…
E por isso encarava a tela do celular, a respiração falha e o coração batendo querendo explodir dentro do peito. A notificação da meteorologia alertava que uma forte tempestade atingiria Nova Jersey nas próximas horas, e já conseguia ouvir o balançar das árvores e as pequenas gotas atingindo o telhado da casa.
Fechei o notebook, levantando-me da cadeira em frente à escrivaninha e indo em direção à janela, observando as ruas desertas, escuras, começando a ser varridas pela água que aumentava a cada segundo. Mordi o dedo indicador, puxando a pele do canto da unha, sentindo a garganta se fechando lentamente com a corda invisível ao redor do pescoço.
Eu odiava a chuva. Odiava como ela conseguia me arremessar de volta para aquela noite de tortura.
O estrondo, acompanhado do gigantesco raio que cortou o céu, me fez saltar para longe da janela. As gotas ficaram mais fortes, atingindo o vidro e escorrendo até desaparecerem, inundando minha consciência, me forçando a lembrar do momento em que meus joelhos encontraram o asfalto e rezei para que uma alma caridosa me ajudasse em uma cidade tão grande e desconhecida como Nova York.
Engoli em seco, desviando os olhos da claridade. Senti quando a angústia dominou cada célula do meu corpo, ao mesmo tempo em que o ar me abandonou, esvaziando meus pulmões sem permissão. Cambaleei em desespero, tratando de fechar os olhos com força e morder os lábios quando outro trovejar estourou, funguei, sendo incapaz de encarar a tempestade que ganhava forças a cada instante.
Fechei as cortinas e corri para fora do quarto, tentando fugir da obscuridade que me afligia. Desci as escadas, sem me preocupar em tropeçar nos degraus. Parei na sala, ofegante, observando as janelas abertas, e estava prestes a cair em um precipício quando passei os olhos pelos móveis e fui empurrada de uma vez em direção a ele, o sofá estava bagunçado e sem o corpo masculino que deveria estar dormindo ali. Meu corpo tremeu, as mãos ficaram frias e a garganta se fechou de um jeito sufocante. A claridade penetrou o ambiente, reforçando o meu apavoro, a enxurrada do lado de fora ganhava forças e pareceu invadir a casa para me machucar.
Puxei o ar, ofegante, não conseguindo controlar a pressão e o desespero que me tomavam. Bruscamente virei a cabeça na direção da cozinha quando o som de utensílios se tornou rarefeito, encontrei a luz acesa e minha boca ofegou, conseguindo ouvir os batimentos descompassados do meu coração batendo nos ouvidos. Eu não tinha para onde fugir; se corresse para a porta, ele poderia ver o meu vulto, e então me caçaria pelas ruas até me alcançar e acabar de vez com a minha vida.
Tateei o nada, encontrando o corrimão da escada, onde apoiei o peso do corpo, com medo das pernas fraquejarem de tão bambas que se encontravam e acabar sendo flagrada por . Ele não seria capaz de fazer nada comigo, seria? A dúvida me corroeu, a incerteza, paralisando-me no lugar. Eu queria gritar, correr, me esconder, mas o medo me prendia com correntes invisíveis, a incerteza consumindo cada pedacinho do meu ser.
Solucei de nervosismo, tapando a boca com as duas mãos imediatamente. E com os olhos marejados, observei a luz fraca da cozinha, os pelos enrijeceram e o arrepio tomou conta da minha espinha, imaginando-o ali, observando-me na espreita, em silêncio, esperando o momento certo para atacar. A visão de Kaleb se sobrepôs à de e veio em minha direção, os olhos escuros, cruéis, encarando-me com desprezo, as mãos imundas ansiando por me tocar.
Fechei os olhos e balancei a cabeça; não era Kaleb, eles eram diferentes. Ele me ajudou com Mia, cuidava de nós duas, até mesmo se preocupava comigo. Mas, e se tudo não passasse de uma farsa? E se ele estivesse fingindo assim como Kaleb fez durante os dois anos que namoramos? E se fosse o monstro com quem eu compartilhava a casa?
Eu não deveria ficar ali para descobrir. Engoli em seco, sentindo o estômago revirar e, em passos trêmulos, comecei a subir as escadas, cada degrau sendo um esforço agonizante. O medo me perseguia, sussurrando em meu ouvido, distorcendo a realidade. Cheguei ao quarto e só quando tranquei a porta é que consegui respirar aliviada. Meu corpo ainda tremia, o coração batia forte, mas por um lado me sentia segura.
— É só uma chuvinha, ... — disse baixo, enfiando-me debaixo das cobertas. — É só uma chuvinha... Só... — resfoleguei, abraçando os travesseiros.
Encostei o corpo contra a cabeceira da cama, soluçando, tentando respirar. Eu estava segura, ninguém iria me fazer mal... Arregalei os olhos quando olhei para a parede e a imagem de Kaleb surgiu em meio à escuridão, no mesmo instante em que o trovão reverberou, o sorriso demoníaco estampado em seus lábios e a faca envolta nos dedos ensanguentados. Joguei a coberta sobre o corpo e me encolhi, deixando as lágrimas saírem, me sufocando como sempre fizeram todas às vezes que chovia.
— Alguém me ajuda, por favor... — implorei, desabando no choro sofrido e dolorido. — Por favor...
Funguei, apertando os travesseiros com força, querendo me agarrar a alguma coisa real, para não ser sugada para dentro do buraco negro, carregado de dor, desespero, medo e pavor. Desejava que um dia ficasse livre desse tormento, que não precisasse mais me sentir como se estivesse sendo puxada para num abismo. Eu queria ser apenas uma mulher comum, que gostava de dormir com o som da chuva e não, passar a noite em claro, chorando com medo de que as nuvens ganhassem vida, braços imundos e me agarrassem.
Eu sabia que estava sujeita a ser sempre destruída, nunca mais seria capaz de confiar em um homem de novo, exceto em Noah, o único que eu sabia que nunca levantaria um dedo para me machucar, sendo o resto apenas uma ameaça em potencial.
Massageei a nuca, puxando o ar como se a minha vida dependesse disso. Obriguei o corpo a se virar, ficando com as costas tocando o estofado macio e aconchegante, enquanto abria e fechava os olhos lentamente, tentando me acostumar à claridade constante que iluminava a sala como enormes holofotes girando, projetando poderosos feixes de luz em frente à casa, tentando revirar a minha alma adormecida.
Porra! Por que caralhos o universo adorava caçoar do meu sono?
Havia chegado tarde, já que acabei tendo uma cirurgia de emergência para realizar. Um cachorro foi atropelado, acabando por sofrer fraturas múltiplas. O condutor do veículo o levou às pressas até a clínica, faltando alguns minutos para o meu expediente acabar. Por sorte, Madisson e Aidan estavam comigo organizando a documentação dos medicamentos que tínhamos que entregar no dia seguinte. Eles me ajudaram a sedar o animal para realizar os exames, e acabamos descobrindo que, além das fraturas, estava com hemorragia interna, o que poderia levá-lo a óbito.
Felizmente conseguimos controlar a hemorragia, mas ele ainda estava em estado crítico, então o deixamos em observação. Madisson ficaria de plantão para que eu pudesse descansar e me avisaria caso acontecesse algo fora do esperado. Estava torcendo para que ficasse bem e, para minha surpresa, o condutor se voluntariou para pagar todas as despesas e adotar o cãozinho quando ele recebesse alta. Um gesto bastante solidário.
Levantei-me do sofá, arrastando-me até a cozinha, esfregando as mãos no rosto pelo caminho. A pequena brisa fria atingiu minha pele desnuda do tórax, causando pequenos arrepios. A temperatura despencou de uma maneira tão drástica. Quando saí da clínica, havia recebido um alerta da meteorologia de que uma forte tempestade atingiria Nova Jersey nas próximas horas, mas não imaginei que fosse verdade, já que ultimamente as previsões estavam um pouco imprecisas.
Eu adorava ouvir o barulho da chuva, a intensidade e a força com que o vento batia contra as árvores, a água varrendo tudo o que via pela frente, ocasionando uma terapia muito relaxante. Era o meu fenômeno meteorológico favorito.
Abri a geladeira, pegando a primeira garrafa de água que encontrei, enchendo um copo logo em seguida, precisava de algo para molhar a garganta seca e arranhada. Encostei as costas no mármore da pia, arrepiando-me com a temperatura fria, apreciando o som das gotas de chuva batendo no telhado da casa. Beberiquei a bebida e Sky adentrou a cozinha, com sua cauda longa e peluda balançando, os passos delicados como os de um belíssimo lorde, pulando em seguida no balcão à minha frente.
O felino miou, me encarando com os grandes olhos amarelos. Alarguei um sorriso com o canto dos lábios, deixando o copo de vidro vazio sobre a pia, tratando de obedecer às ordens do mini chefinho de quatro patas. Peguei um pacote de petisco de salmão e despejei na tigela, acariciando o pelo macio e sedoso, observando-o se deliciar com as guloseimas. Sorri quando Sky tentou morder meus dedos, não gostando de ser incomodado em seu momento mais precioso.
A janela da cozinha refletiu a claridade dos relâmpagos silenciosos, sincronizações como se tocasse uma melodia divina e tranquilizadora. Fechei os olhos, inspirando profundamente, tentando apreciar o cheiro de petricor que exalava da chuva, quando o som abafado de um soluço escoou baixo, quase imperceptível. Franzi o cenho, abrindo os olhos e largando o pacote de petisco ao lado do pote de ração de Sky. O barulho de passos rápidos e velozes logo surgiu, batendo contra o assoalho com precisão, me deixando com a interrogação pairando no ar.
Venci a distância até a sala em passos largos, movido por uma inquietação que não conseguia ignorar. Ao alcançar o batente da cozinha, flagrei um vulto esguio e ágil subindo os últimos degraus da escada e desaparecendo no corredor. A escuridão da noite engolia os fios negros que escapavam de um coque frouxo, e o azul pálido do pijama contrastava com a sombra, confirmando minhas suspeitas.
Arqueei uma sobrancelha, cruzando os braços, os olhos fixos na escadaria. Por que estava correndo daquela forma, desesperada, como se fugisse de um fantasma?
A pergunta ecoou em minha mente, enquanto me esforçava para encontrar uma resposta. O estrondo de um trovão cortou o silêncio e assustou a pequena Mia, que começou a chorar estridentemente, um grito agudo e desesperado. Sem hesitar, subi os degraus com pressa e corri para o quarto da pequena, encontrando-a com os olhos azuis arregalados, marejados, um soluço preso em seus lábios rosados. Outro lampejo cortou a cidade no instante em que me aproximei do berço, a acolhendo em meus braços, acariciando sua bochecha macia e os fios finos de cabelo.
— Shhh — sussurrei, a embalando na pequena coberta. — Está tudo bem, pequena. É só uma chuva. — Aconcheguei-a em meu peito. — Estou aqui para proteger você. — O rosto delicado parecia aliviado em encontrar um rosto familiar em meio ao caos da tempestade.
Balancei os braços suavemente, a acalentando, caminhando em direção ao corredor, cantando uma melodia infantil para distraí-la do temporal. Mia se aconchegou em meu peito, buscando segurança no calor do meu corpo. Para ela, tão pequena e indefesa, os trovões eram monstros aterrorizantes, um gatilho para emoções avassaladoras. E não me importava de passar a noite inteira entretido com filmes, se minha pequena encontrasse em mim um lugar de proteção.
Parei perto da escada, observando os olhos azuis começando a fechar lentamente. Depositei um beijo em sua bochecha, acabando por ficar com a mente livre para ser atormentado pelo furacão . A imagem dela correndo escada acima, o desespero em seus passos, me perturbava. Ergui os olhos para o corredor, uma sensação estranha e quente se espalhando pelo meu peito, minha consciência ficando confusa, remexida e perturbadoramente, preocupada.
Será que ela estava bem? Precisa de ajuda com alguma coisa?
A resposta veio em forma de soluços abafados que me guiou até me encontrar parado em frente ao quarto da coelhinha. O choro angustiante atravessou a porta, agarrando meu pescoço com fúria, me enforcando, prendendo-me em um nó sufocante, causando uma profunda dor e impotência em meu peito. Encostei a orelha na porta, tentando decifrar o que estava acontecendo, as palavras sussurradas.
— Por favor… Alguém me ajuda… — ela desabou, engasgando-se em uma crise. — É só uma chuva… Só isso, uma chuva… — fui atingido com um soco no estômago.
A tempestade que tanto me confortava, para ela era um gatilho imenso, dolorido, que a rasgava profundamente.
Um conflito se instalou em meu peito, preso entre a angústia e a preocupação. Eu queria entrar, arrombar aquela porta para confortá-la, embalar seu corpo frágil e pequeno em meus braços, protegê-la de alguma forma dos demônios que tanto me atormentavam. Mas a porta trancada criava a barreira entre nós, a linha tênue que não poderia ultrapassar. Era o lembrete do nosso acordo, que, apesar de morarmos sob o mesmo teto, não tínhamos o direito de invadir a privacidade um do outro, nem mesmo para descobrir os mistérios que a coelha tanto escondia.
Outro estrondo caiu sobre a cidade, emitindo um estouro ensurdecedor que sacolejou as paredes e acabou com a energia elétrica da casa. Olhei ao redor em meio a escuridão, sendo agarrado novamente pelos soluços de , que ganharam intensidade e força, sua voz implorando por ajuda e tentando se convencer de que era apenas uma chuvinha. A imagem dela frágil, sozinha e assustada, me perturbou, e pensei seriamente em arrombar a porta de uma vez, sendo impedido apenas pelo único fio de consciência: nunca confiaria em mim para me deixar entrar em seu mundo.
Sentei-me no chão, encostando o corpo contra a porta. Mia se remexeu e, graças aos deuses, permaneceu adormecida, enquanto fiquei ali em silêncio. não enfrentaria seus demônios sozinha; eu estaria ali, mesmo que não soubesse da minha presença. Respirei fundo, virando-me o suficiente para encostar a mão na madeira fria, o choro alto ecoando em meus ouvidos. Eu cuidaria dela, mesmo que tivesse que ficar ali a noite inteira até se acalmar ou a última gota de chuva caísse do céu.
— Você não está sozinha, coelhinha. — sussurrei. — Eu estou aqui…
De algum modo, desejei que minhas palavras a alcançassem, que a confortassem de alguma maneira. Ela não merecia sofrer tanto com um fenômeno tão belo quanto a chuva.
O medo, por vezes, nos aprisionava em uma dança paralisante, onde a fuga se tornava a única coreografia que conhecíamos. Por um longo tempo, acreditei, ilusoriamente, que a dor se dissiparia, como se o passado fosse apenas uma sombra que desaparecia ao amanhecer. No entanto, passei anos me convencendo de que, se a dor fosse uma pessoa, seria pura teimosia, que insistia em se enraizar nas minhas células, sendo o único jeito de enfrentá-la era confrontando-a.
Respirei fundo, preenchendo os pulmões com a promessa de coragem, enquanto meus dedos seguravam o corrimão da escada. O aroma adocicado pairava no ar, um convite cativante para a cozinha. Meu estômago roncou, um lembrete de que a vida tinha de continuar, apesar dos fantasmas que me assombravam. Fechei os olhos, fazendo uma contagem silenciosa, imaginando as ondulações dos números em minha mente, tentando evitar que o coração disparasse.
Eu sabia, em algum lugar profundo e inexplorado, que precisava enfrentar meus medos, desfazer os nós que me prendiam ao passado. Encontrar a cura para as feridas que me definiam.
Naquela manhã, passei horas a fio deitada na cama encarando o teto, envolta em uma conversa interna com os próprios pensamentos. A cada reflexão, a coragem brotava, tímida, persistente. Precisava encarar , mas não como o monstro a ser temido; tinha que o ver como o homem que, por mais estranho e irônico que fosse, dividia o mesmo teto que eu.
E não deveria permitir que o medo, um fantasma criado pela minha própria mente, me impedisse de seguir em frente.
não era Kaleb, e eu não era mais a mesma , inocente e indefesa.
Era hora de reescrever a minha história, de enfrentar os demônios e torcer para, talvez, finalmente encontrar a paz que tanto almejava. Então começaria encarando o homem que, desde o início, nunca demonstrou sinais de que queria me machucar, apenas que tinha como único objetivo tornar a minha vida um verdadeiro inferno. E eu conseguiria viver com isso.
Desci os últimos degraus da escada, concentrada em inspirar e expirar o ar a cada passo que dava até a cozinha. O bolo que bloqueava minha garganta parecia aumentar cada vez mais, prestes a me sufocar. Venci a distância, pegando a coragem no submundo para adentrar o cômodo de onde o delicioso cheiro de panquecas, doce, açucarado me envolveu em um abraço apertado.
Aliviei a pressão em meu peito, vasculhando cada centímetro da cozinha e não encontrando nenhum sinal de , apenas do esquilo peludo que estava sentado no balcão, escovando a pelagem preta, sedosa e brilhante com a língua, os movimentos sincronizados, esbaldando-se de sua beleza. O fogão estava desligado e ao lado, em cima do mármore, estava um enorme prato de vidro com as panquecas castanhas, a textura parecendo firme e macia.
— Oi, Sky. — Aproximei-me do balcão, sendo recebida com um miado curto, o pescoço do felino alongando para encontrar minha mão estendida.
Acariciei atrás da orelha dele, o escutando ronronar, levantando-se e esfregando o corpo contra meus dedos, em uma clara demonstração de interesse.
— Você quer sachê? — Sorri, acariciando-o na lombar. — Só tem que me prometer que o não pode saber disso — falei baixinho, como se ele conseguisse me entender.
Desde que a bola peluda invadiu a minha vida, nossa convivência se baseou em um exercício de diplomacia felina. No início, a alergia e o gato disputavam território, com Sky invadindo minhas sessões de escrita durante a tarde na cozinha ou na sala. Ele, com sua audácia, me afrontava, escalando o notebook e aninhando-se sobre o teclado, me encarando com aqueles penetrantes olhos amarelos, como se emitisse uma ordem clara e direta.
Um chefe exigente, persuasivo.
Diante do impasse, tivemos que entrar em um acordo mútuo. Sky receberia sachê à vontade e, em troca, eu receberia minha privacidade. Ele aceitou prontamente e acabou se transformando em um companheiro silencioso e leal, passando horas dormindo ao meu lado ou no colo, sendo o guardião felpudo que me acompanhava nas divagações literárias. O problema era que não tinha ideia do que selamos em segredo.
— Vai me acompanhar na leitura hoje? — Sorri, enchendo o pote de sachê. — O não pode saber disso, senão, estarei morta — murmurei, observando-o devorar a iguaria como se fosse a última maravilha do mundo.
— O que eu não posso saber? — a voz irrompeu na cozinha, um eco distante que me fez estremecer.
Arregalei os olhos, sentindo o arrepio gélido percorrer minha espinha, como se o mármore frio do balcão tivesse se infiltrado em minha alma. A surpresa me paralisou, o coração batendo acelerado contra as costelas, ameaçando saltar para fora do peito e cair no abismo da vergonha. O flagra me pressionou contra a superfície fria, o rubor tingindo minhas bochechas. Forcei-me a girar, encontrando encostado no batente da porta, tentando conter meus olhos atrevidos que descaradamente engoliram a imagem à minha frente, me deixando sem fôlego.
Os braços cruzados contra o peito nu realçavam o seu corpo grande, musculoso e torneado. A maldita bermuda preta era a única peça que o cobria. A pele bronzeada, o peitoral rijo e esculpido, se exibia como uma obra de arte perfeita, e me peguei imaginando a sensação de deslizar os dedos por cada músculo, explorando cada curva e contorno. havia se transformado em um completo deus grego.
Engoli em seco, desviando o olhar, lutando contra o impulso de admirar cada detalhe daquela visão. Não queria parecer uma tola babando, especialmente com as lembranças da noite anterior ainda frescas em minha mente. O medo que ele me causara ainda pairava no ar, tornando a situação ainda mais confusa. Como conciliar o homem que me aterrorizava com essa visão que me deixava sem ar? Era como se duas pessoas completamente diferentes habitassem o mesmo corpo, e eu estava presa no meio desse paradoxo.
— O que eu não posso saber? — repetiu, a voz carregada de curiosidade e um toque de diversão.
Abri e fechei a boca, tentando encontrar uma mentira convincente.
— Não é nada de mais — menti, remexendo as mãos.
Ele me sondou, aproximando-se como um predador. Engoli em seco, tentando manter a calma e os olhos longe dele.
— Está alimentando o meu gato? — perguntou, erguendo uma sobrancelha e um sorriso malicioso brincando em seus lábios. — Então, além de ter que lidar com uma bebê e uma garota mimada, ainda terei que conviver com um gato traidor? — Fingiu um tom ofendido.
— Eu não sou uma garota mimada — bufei, revirando os olhos. — Eu e o Sky temos um acordo: eu o alimento com sachê e ele me deixa em paz.
— Você sabe que ele sofre com continência urinária, não sabe? — estreitou os olhos.
— Mas, pelo que me lembro, você disse que tudo o que está naquele armário a bola peluda pode comer, então não tem problema — gesticulei, dando de ombros.
— Moderadamente, . — Atravessou a cozinha, abriu a geladeira e pegou uma sacola de mercado. — Se os níveis de sódio do Sky subirem, terei que interná-lo para estabilizarem. A ração, o sachê e os petiscos são os mais recomendados do mercado, controlando o sódio, e...
— Eu já entendi, — interrompi, coçando atrás da orelha de Sky. — A bola de pelos não pode comer em excesso.
— Isso quer dizer que o acordo de vocês tem que acabar. — Fechou a geladeira, deixando a sacola sobre a mesa e pegando o prato com panquecas.
— E o que você ainda está fazendo aqui? Achei que já tivesse saído. — Mudei de assunto, sabendo que romper meu acordo com o felino estava fora de questão. Apenas diminuiria a quantidade de sachês.
— Greta me pediu para ficar, ela teve que sair para resolver algumas coisas na cidade. — explicou, retirando alguns potes de frutas da sacola.
— E por que não me acordou?
— Ouvi você chorando ontem à noite, então pensei que não deveria ter dormido nada. — revelou com naturalidade, como se pedisse um copo d’água.
O receio me dominou e tive que pensar em uma resposta rápida, não tendo muito tempo para pensar.
— E-eu estava lendo um livro... O casal principal morreu no final — gaguejei, esfregando a nuca.
sorriu de lado, os lábios curvados com sarcasmo.
— Já não está muito grandinha para ler Romeu e Julieta? — Eu esperava qualquer coisa, menos que citasse a maior história de amor trágica.
— É um clássico da literatura, e posso ler onde e quando quiser. — Fui ríspida, sentindo minhas bochechas corarem.
— Estava realmente chorando por causa de um livro? — apertou os olhos, espalmando as mãos na mesa, as veias do seu braço saltando em um pedido descarado por atenção.
— Sou emotiva. — Fui indiferente, esfregando o indicador na cabeça do felino que ainda se deliciava com o sachê de salmão.
Espiei por cima do ombro, curiosa para ver a reação de , mas o encontrei absorto em suas tarefas. Com a precisão de um cirurgião, ele ajeitava a calda caramelizada na mesa. Abriu o pote de geleia de morango, o cheiro doce e frutado se espalhando pelo ambiente, revelando em seguida as embalagens de framboesas e mirtilos, junto com os morangos vermelhos e brilhantes. Seus dedos habilidosos selecionavam as frutas como se escolhesse pedras preciosas, antes de cortá-los em pequenos cubos minúsculos.
Sorri com os cantos dos lábios, não conseguindo acreditar na cena à minha frente.
— Por que está cortando frutas? Você nem come isso — disparei, curiosa, tentando ignorar a visão do seu corpo escultural.
ergueu a cabeça, um sorriso encantador iluminando seu rosto.
— Não são para mim, . São para você — revelou, e um calor estranho se apossou do meu peito, as bochechas esquentando.
— E que tipo de veneno você escolheu para me envenenar? — zombei, tentando disfarçar a súbita onda de nervosismo.
— A falta do seu senso de humor. — respondeu, voltando a cortar as frutas com precisão. — Mas não acabamos de conversar? Tem certeza de que estava chorando por causa de um livro? — Havia algo em seu tom de voz, um fio de preocupação que não estava ali antes.
Engoli em seco, ajeitando o cabelo atrás da orelha, até onde ele me escutou ontem à noite?
— Por qual outro motivo seria? — rebati, sentindo a garganta seca.
Ele ajeitou a postura, soltou o ar em um suspiro, lançando um mirtilo na boca.
— Você estava gritando e parecia tentar se convencer de que era só uma chuva. — ok, por essa eu realmente não esperava.
— Ficou escutando atrás da minha porta? — acusei, sentindo um arrepio percorrer minha espinha, será que estava gritando tão alto assim?
Ele fez uma careta.
— Na verdade, eu tentei entrar. Você parecia estar precisando de ajuda. — revelou, me deixando tensa só de imaginá-lo em meu quarto, sozinho, comigo.
— E-e por que achou que deveria? — gaguejei, limpando a garganta que arranhava.
— Porque prometi ao Noah que cuidaria de você e da Mia. É minha obrigação que as duas estejam bem.
Rolei os olhos, me sentindo uma garotinha de cinco anos que precisava de uma babá.
— Como você é protetor, . — Fui irônica, cruzando os braços.
Aproximei-me da mesa, acompanhando a movimentação sinuosa dos dedos dele.
— Mas há uma coisa que você deveria saber: não precisa ficar se preocupando comigo, eu sei me cuidar sozinha.
curvou um sorriso divertido com traços de zombaria, enquanto movimentava sua parede de músculos em direção à geladeira.
— Não foi o que me pareceu ontem. — Deu de ombros, guardando as embalagens de frutas.
Apertei o canto dos olhos quando me peguei novamente presa em seu corpo estrutural. A estrutura forte, os músculos das costas se movendo sob a pele, um ritmo que me aprisionava em um fascínio mudo. Desviei os olhos, sentindo a cor da vergonha tingir minhas bochechas. Precisava parar de agir como uma descarada. Além disso, deveria ser um crime aquele homem andar pela casa apenas de bermuda.
— Não deveria ficar me bisbilhotando — disse, recuperando minha compostura.
— Eu não estava. A Mia ficou assustada com a chuva e pensei que seria uma boa ideia te chamar para me ajudar com a pequena, mas pelo visto, a sua situação era muito mais delicada. — Voltou-se para a mesa, sentando-se em uma das cadeiras.
— Eu tenho medo de chuva. Melhorou para você? — Levantei as mãos em um gesto de irritação, crescendo em cada palavra.
— Continue mentindo, . Uma hora, toda a verdade irá aparecer. — Sua voz fria me causou um calafrio.
Inspirei profundamente, tentando desesperadamente acalmar a mente e dominar a fúria que me consumia. A loucura parecia um caminho tão tentador: agarrar aquele infeliz e sentir o metal de um garfo perfurando sua traqueia. Que audácia a dele ao tentar me confrontar daquela forma!
Sentei-me na cadeira à sua frente, servindo o prato com algumas panquecas e frutas.
— Acredita mesmo que Romeu e Julieta possa ser real? — ele quebrou o silêncio.
— Já vai zombar dos meus livros de romance? — entrei na defensiva, não estando com muita paciência para suas gracinhas.
— Só quero saber se acredita que um homem estaria disposto a morrer por você de pura e espontânea vontade. — Deu de ombros, mastigando um pedaço da panqueca com muito melado.
— Romeu e Julieta se amavam e preferiram morrer a viverem separados para sempre.
— A Julieta poderia ter escolhido viver e encontrado um novo amor, você não acha? — Recostou-se contra a cadeira, deixando os músculos do peito contraídos e com a visão do paraíso.
Fechei os olhos por alguns instantes e balancei a cabeça, começando a comer meu café da manhã. Homens realmente não entendem nada sobre romantismo.
— , você é tão amargurado, quem foi a responsável por todo esse amargor? — Não o encarei, saboreando as frutas doces.
— Então, realmente acredita que alguém prefira morrer, por que não suportaria viver sem você? — Fugiu da pergunta descaradamente.
— O amor é assim, se abrisse o seu coração para alguém, saberia o verdadeiro significado do amor. — Apoiei o cotovelo na mesa, mordendo um morango.
Ele riu com escárnio, o sorriso cínico no canto dos lábios.
— Da última vez em que estive disposto a beber veneno por uma mulher, ela não poupou esforços para esfregar na minha cara que não me amava.
Suas palavras soaram tão sinceras e, ao mesmo tempo, tão amargas, como uma ferida cicatrizada que ainda doía profundamente em sua alma.
— É por isso que prefere viver mergulhado na escuridão da amargura? Por que não consegue superar as dores do seu passado? — Quis saber, curiosa.
— Me diga você, chorou ontem porque realmente tem medo da chuva ou de alguém que a machucou para o mundo? — disparou, fixando os olhos intensos em meu rosto, atento a cada reação minha.
O embate entre nós era palpável, mas, no fundo, não passávamos de duas almas feridas que lutavam com seus demônios internos.
— Não vou falar dos meus medos com você — declarei, mordendo um pedaço da panqueca, tentando afastar as lembranças da noite passada.
— As pessoas não querem viver em um conto de fadas, . O mundo real é cruel, frio e não existe amor verdadeiro.
— Existe, mas estamos tão concentrados em pensar o contrário que não vemos a paixão e o amor no dia a dia. O amor das nossas vidas pode estar caminhando na rua nesse exato momento, enquanto estamos aqui, discutindo sobre uma teoria e nos escondendo dos nossos traumas. — Meu lado escritora estava inspirado.
— Isso foi profundo — comentou, erguendo uma sobrancelha. — , o que aconteceu com você, de verdade?
Tive minha confiança traída pelo homem que deveria me proteger? Fui agredida e ameaçada em um estacionamento imundo de uma boate? Os dois melhores amigos do meu namorado eram tão frios e cruéis a ponto de me verem machucada e não fazerem nada? O lançamento do meu primeiro livro se tornou uma lembrança dolorida por causa daquela noite? Ou, , queria saber sobre a parte da minha vida em que perdi o único homem em quem era capaz de confiar?
— Tive um pesadelo com o Romeu — desconversei, não querendo adentrar naquele assunto com ele nem ser atormentada pelos demônios.
— Não seja ridícula. — Sorriu sarcástico.
— Eu conto, se me contar o que aconteceu com você. — As palavras saíram tão rápido, que só me dei conta da merda que havia dito quando o semblante de se fechou.
— Não há nada para contar. — O tom de voz era baixo, frio e levemente ferido?
— Existia uma mulher que te quebrou. Quem era ela? Qual o nome dela? — Quis saber, mas não como uma forma de provocá-lo; no fundo, ele parecia precisar desabafar para se desprender das amarras.
— , coma sua panqueca, eu não quero falar sobre isso. É passado. — Um passado que o fere até hoje.
— O passado sempre encontra um jeito de nos alcançar, . — Hesitei em esticar a mão para consolá-lo. — Ao menos que encontremos uma maneira de lidar com ele.
bagunçou os cabelos, massageando a nuca.
— , prometemos que íamos compartilhar a casa e não invadir o espaço um do outro. A nossa vida pessoal entra nesse requisito — bradou, levantando-se da cadeira.
Observei se afastar, procurando alguma coisa nos armários. A tensão na musculatura dos ombros e a mandíbula marcada indicavam a turbulência que deveria estar na sua cabeça naquele momento. Deixei o garfo de lado, pegando alguns pedaços de fruta do potinho, sem conseguir desviar os olhos dele, como se estivesse enfeitiçada. Uma mistura de fascínio e curiosidade que me prendia.
O que aconteceu para que ele tenha parado de acreditar no amor? A mulher do seu passado foi a única que o machucou tão profundamente para deixá-lo amargurado, ou haveria outros fantasmas que o assombravam? E por que eu estava tão intrigada com isso?
Talvez fosse a fragilidade que ele escondia sob a armadura de sarcasmo e indiferença. Ou talvez, no fundo, eu estivesse apenas começando a enxergar o reflexo da minha própria dor em seus olhos, uma sombra do passado que também o assombrava. E a curiosidade estava me impulsionando a desvendar os mistérios que envolviam o homem que dividia o mesmo teto que eu.
— Você deixou isso no sofá ontem. — A voz de me despertou.
Abaixei os olhos, ficando hipnotizada com as veias saltadas que decoravam o antebraço em movimentos silenciosos e desciam, espalhando-se pela mão que segurava o meu notebook. Fixei a atenção no objeto, o pegando e colocando ao lado do prato com panquecas, quando passos ecoaram pela cozinha e a voz suave, doce e aveludada, contagiaram cada pedacinho do ambiente com sua alegria e simpatia.
— Humm… esse cheiro de panquecas está incrível! — Greta colocou as sacolas sobre o balcão da cozinha, depositando um beijo carinhoso no rosto de . — , estou surpresa de que ele não tenha colocado fogo na casa — zombou, aproximando-se e beijando o topo da minha cabeça, um gesto carinhoso e afetuoso, exclusivo dela.
— Muito engraçado, Greta. — fez uma careta, pegando a xícara na mesa e enchendo-a de café. — Fico ofendido que subestime meus dotes culinários.
— Ele não sabia nem fazer um ovo frito — a mulher sussurrou, rindo em seguida.
Alarguei um sorriso, acompanhando quando Greta deu um empurrão divertido no corpo do homem, afastando-o, enquanto anunciava sua necessidade de espaço para organizar as sacolas de compras no balcão. pegou a xícara, trocando provocações com a senhora, pairando ao meu lado, completamente envolvido na brincadeira deles, arrancando minhas melhores risadas. Era incrível como a sintonia dos dois beirava a calmaria, quase a mesma que eu sentia com Noah.
— , querida, quer mais alguma coisa para o café da manhã? — Greta ofereceu, enxugando as mãos no guardanapo. — Posso fazer uma vitamina de frutas ou um bolo de banana saudável. — Ela se adaptou com facilidade às minhas preferências culinárias, sempre me incentivando na dieta.
— Não precisa se preocupar, Greta, as panquecas estavam ótimas — agradeci com um sorriso, abrindo o notebook.
Ela colocou as mãos na cintura, o olhar divertido e um brilho travesso nos olhos castanhos fixados em .
— Então, quer dizer, que você realmente aprendeu a cozinhar — zombou novamente.
— Eu sou perfeito em tantas coisas, Greta, que você se surpreenderia — ele respondeu, com um sorriso de canto e um tom de voz que bebia da própria convicção, enquanto dava um gole no seu café.
Greta gargalhou, uma risada sonora e contagiante que a fez cobrir a boca com a mão. Os ombros balançando para frente, ela iniciou uma conversa animada com . Tentei acompanhar as lembranças que fluíam com naturalidade conforme eles relembravam os velhos tempos, a imagem daquele homem enorme, uma verdadeira muralha de músculos, completamente perdido ao tentar acender o fogão, transformando uma tarefa simples em uma missão quase épica.
Mas a voz de Greta se tornou um murmúrio distante quando reviveu outra lembrança. Minha atenção se fixou na tela do notebook, abrindo o editor de documentos, observando a barra de carregamento avançar lentamente. Passaria o dia ocupada, mergulhada nas palavras do meu livro, revisando o capítulo anterior e iniciando um novo, justamente na parte mais emocionante, que era o tão esperado envolvimento do casal principal.
A ansiedade borbulhava, me consumindo, as pontas dos dedos queimando em antecipação, implorando para começarem a digitar.
Enquanto o arquivo carregava, aproveitei para pesquisar a previsão do tempo. Tinha muito trabalho a fazer no livro, então chover estava fora de questão. Além disso, se havia me escutado na noite passada, teria que tomar mais cuidado com as crises. Ele deveria estar me achando uma louca, e por mais insano que fosse, não tirava sua razão. Uma pessoa berrando no meio da madrugada era cenário de filme de terror.
Rolei a página da meteorologia, soltando o ar pela boca, os ombros relaxando e querendo dançar em comemoração quando vi o sol desenhado ao lado da data do dia. A tempestade da noite anterior havia sido apenas uma grande nuvem que passou por Nova Jersey, a caminho do sul do país, então tudo indicava que não haveria dias chuvosos tão cedo, sendo assim, teria muito tempo para revisar e trabalhar em meu livro.
Finalmente comecei a ler, revivendo a cena do jantar de Joshua e Elisa, unidos por um contrato, se beijarem sob os olhares da família. A tensão entre eles era palpável e acabariam sucumbindo ao desejo que tanto os envolvia. Elisa não estava muito segura de conhecer todos os parentes do marido. Aliás, o casamento havia sido apenas para salvar a sua vida, já que, ao se envolver em uma investigação sigilosa, ninguém se atreveria a tocar na esposa de um guarda-costas poderoso.
Elisa era uma jornalista investigativa que estava prestes a alavancar a sua carreira, quando se deparou com um caso policial em andamento. E, junto com o amigo da polícia local, começaram a investigar o assassinato, mas, quando ela descobriu que os possíveis responsáveis trabalhavam dentro da própria base da polícia, foi obrigada a se afastar e pedir ajuda ao guarda-costas, o único em quem poderia confiar.
No entanto, o romance consistia em fazer Joshua e Elisa dividirem a mesma casa para mantê-la segura. Eles só não imaginavam que essa convivência poderia gerar sentimentos que nunca imaginaram florescer.
Percorri os olhos pelas linhas, devorando cada palavra, corrigindo a pontuação e alguns deslizes gramaticais. A história estava ficando incrível, fervilhando e pulsando com vida, e logo seria meu quarto lançamento na Amazon. A excitação me inundava, um turbilhão de ideias e expectativas; estava tão animada que não conseguia parar de pensar no meu livro estampado no site e os leitores enlouquecendo com cada capítulo. Eu amava tudo isso, ser escritora, criar mundos inteiros com palavras; era a mais pura magia.
Greta gargalhou, contagiando o ambiente.
— E como vocês estão lidando com todo o caos que é cuidar de uma criança? Os piores momentos são as madrugadas em claro — questionou, e nem sequer prestei atenção.
— Com maestria — ouvi responder. — Afinal, quem precisa de sono quando se tem uma bela mulher para cuidar?
O arrepio percorreu minha espinha, engoli em seco sentindo a garganta arranhando. A mesma fala do personagem ecoava em minha mente. Ergui o olhar, mirando o homem ao meu lado, perto o suficiente para conseguir ler tudo o que havia escrito. Cretino dos infernos. Agora estava se divertindo com a sua provocação barata, esfregando na minha cara o sorriso cínico em seus lábios, não restando dúvidas de que tinha lido cada parágrafo e não consegui evitar o calor subindo pelas minhas bochechas, uma onda de vergonha e desejo que me fez querer sumir, que além dele ter descoberto meu segredo, ainda teve a audácia de dizer aquilo na frente da Greta.
A senhora riu, e notei um brilho de curiosidade em seus olhos.
— Então, vocês estão se dando bem? — perguntou, como se quisesse confirmar, olhando de mim para o imbecil ao meu lado.
— Greta, como cão e gato — respondi, tentando controlar a situação, não queria que ela pensasse algo errado de nós. — Mas estamos sobrevivendo.
— Sobrevivendo? — repetiu, e tive vontade de pular contra ele e arrancar sua língua. — Eu diria que estamos prosperando.
Franzi o cenho, fuzilando-o, desejando que começasse a entrar em chamas para queimar o sorriso cretino estampado no rosto.
— Não é, ? — arqueou a sobrancelha em minha direção, inclinando o corpo para mais perto.
O calor se espalhou, me dominando, consumindo cada partícula do meu ser. O cheiro da colônia amadeirada, máscula, me deixou tonta. estava tão próximo que conseguiria enforcá-lo se quisesse. Seus braços estavam ao meu redor, as mãos apoiadas contra a mesa, me prendendo no meio. Sua cabeça perto demais do meu ombro. Minha mente gritava para que eu o empurrasse, acertasse o cotovelo naquele rosto insolente, mas meu corpo implorava para que ele ficasse, a consciência indo para o inferno e desejei que chegasse mais perto, que me embriagasse com seu perfume.
Malditos hormônios.
— Nós... Nós estamos... É... — Merda, a respiração dele roçava meu pescoço, quente e provocante, tendo o poder que me fazer esquecer de como se falava.
— Nós estamos aprendendo a conviver — o cretino completou, afastando-se lentamente.
Segurei firme as bordas da mesa, tentando acalmar o calor que insistia em se irradiar em meu peito e descer para zonas desconhecidas do meu corpo. Droga, eu não conseguia nem respirar.
— Isso é um grande avanço! — Greta comemorou, batendo as mãos. — Fico tão feliz em ouvir isso. A Mia sempre estará em boas mãos. — O sorriso satisfeito dançava em seus lábios. — , querida, quer me fazer companhia hoje? Terei que ir ao supermercado e levar a Mia à creche. — Terminou de guardar as compras de mais cedo nos armários e caminhou em direção à saída da cozinha.
— Claro, será ótimo. — Meneei um aceno.
Enquanto Greta se despedia, dizendo que iria acordar a pequena para sairmos, senti o peso daquele olhar, um arrepio incômodo percorrendo minha espinha. me analisava em silêncio, minuciosamente, como se fosse capaz de ler meus pensamentos mais profundos. Assim que Greta saiu da cozinha, fixei meus olhos nele, arqueando as sobrancelhas, determinada a acabar com a tensão que pairava no ar.
— O que você pensou que estava fazendo? — disparei, a voz controlada, mas carregada de irritação.
— Fazendo o quê? — fingiu inocência. — Contar em como estamos “prosperando”? — curvou os lábios, o sorriso irônico.
— Você estava flertando comigo na frente da Greta! — acusei, o rosto ardendo de vergonha. — Prometeu que nunca faria isso.
— Só fiquei inspirado com o que estava escrevendo. — Ergueu os ombros em desdém, mas havia um brilho travesso em seus olhos. — Aliás, o que é isso? — Apontou para o notebook, aproximando-se com curiosidade.
Rapidamente, em um reflexo quase violento, fechei a tampa do aparelho, protegendo as palavras que ele jamais deveria ter lido. me encarou, os olhos estreitos e penetrantes, tentando desvendar o que desesperadamente eu tentava esconder.
— Não é nada de mais — respondi, tentando parecer casual, mas a voz saiu mais aguda do que imaginei. — É apenas um conto — menti.
— Um conto de fadas? — perguntou, arcando uma sobrancelha.
— Talvez — murmurei, desviando o olhar.
— Estava mais para um roteiro de filme... adulto — disparou, a expressão impassível, mas com um toque de diversão. — Não existe trabalho, não é? Você é escritora.
Prendi a respiração, o coração disputando uma maratona. Além das paredes do quarto, ninguém mais sabia do meu segredo.
— Eu... Eu nunca contei isso para ninguém — gaguejei, o rubor em minhas bochechas aumentando. — E-eu... Tenho vergonha.
— Claro, você escreve putaria.
— Não é putaria, ! — defendi, a voz tremendo. — Eu escrevo romance, e, caso tenha sofrido uma lavagem cerebral, casais fazem sexo.
— Já fez tudo isso que escreveu? — quis saber, ignorando tudo o que disse.
A curiosidade brilhava em seus olhos. Ele parecia se divertir assistindo minhas reações, como um gato brincando com um novelo de lã. Apertei a ponte do nariz; ele não poderia estar falando sério.
— O quanto você leu? — perguntei, puxando o ar. — Achei que estivesse conversando com a Greta.
— Eu consigo fazer as duas coisas. — Deu de ombros, indiferente. — Mas você ainda não respondeu à minha pergunta.
O desconforto me invadiu como um arrepio. Levantei-me, peguei o notebook e o abracei contra o peito, como se fosse um escudo.
— Eu... — engoli em seco. — Greta deve estar me esperando para sairmos. É melhor eu ir.
Tentei fugir, mas o nervosismo me paralisou quando ouvi a voz de .
— , você nunca... — O cenho franzido denunciava sua surpresa.
— , nós combinamos em dividir a casa, nada de assuntos pessoais, lembra? — Dei as costas, não esperando que ele dissesse mais nada, e saí da cozinha, o coração batendo nas costelas.
Minhas mãos tremiam, a garganta seca, o medo me abraçando. O que um homem como pensaria se soubesse do meu segredo? Como reagiria se eu contasse que era virgem, inexperiente, uma fraude que criava mundos de romance, sem nunca sequer ter experimentado um beijo de verdade? Será que ele me olharia com desprezo ou como um depravado como todos os outros homens que já conheci?
Subi as escadas correndo, buscando refúgio no meu quarto. Pressionei a testa contra a porta fria, as lágrimas quentes se formando no canto dos olhos. O segredo que tanto guardava parecia ter ganhado vida própria. E, junto com ele, o pesadelo que tanto lutava para enterrar, pulsando como um animal selvagem, ameaçando escapar.
não era o homem que me machucou, mas tinha medo de que acabasse se tornando mais um a me assombrar em meio às tempestades.
A luz no horizonte era quente, reconfortante, a minha fonte natural de inspiração. Eu amava dias ensolarados, o calor, o brilho que raiava no céu, pintando em delicadas pinceladas o grande quadro azul. Minha criatividade se transformava graças ao combustível natural, trazendo ideias que nunca poderia pensar em dias chuvosos ou nublados. Era cientificamente comprovado que a maioria dos escritores adorava escrever sob o som da chuva, conseguindo inspiração nas gotículas que tocavam o mundo.
A tinta da caneta desenhava as letras discursivas, maltratando o papel quando rabisquei a frase com força, criando uma enorme e grotesca mancha preta na folha do caderno. Apesar do astro solar ser meu companheiro constante, naquele começo de tarde, não estava me ajudando em nada, já que não conseguia descrever uma parte crucial da história, a parte que todas as leitoras adoravam imaginar: o físico perfeito do protagonista.
De todos os personagens masculinos que construí, o Joshua conseguiu superar o marco da dificuldade. Nunca enfrentei desafios para descrevê-los, sempre seguindo inspirada em avatares que salvava na internet, adicionando alguns detalhes sagazes na história que sempre faziam a diferença. Era como se tivesse perdido a capacidade de escrever, e isso estava começando a me irritar.
Além de tudo, ainda tinha que lidar com a mente traiçoeira que insistia em reviver o pequeno espetáculo que fez na cozinha. As costas torneadas, o peitoral esculpido e definido, carregado de curvas, músculos marcados, desenhados na medida certa. Mordi o interior da bochecha, jogando a cabeça para trás, mas que merda de feitiço era aquele? Por que não conseguia parar de pensar nele quando deveria manter distância?
Torci os lábios e suspirei, ajeitando-me na cadeira de balanço na varanda, esticando as pernas e pressionando os pés contra a cerca delicada que envolvia toda a entrada da casa. Virei a folha no caderno, determinada a começar de novo, dessa vez com mais concentração. Eu conseguiria e não seria um veterinário com corpo de deus grego que me impediria. A caneta começou o seu trabalho, delineando as palavras quando a ideia mais insana que tive em anos me arrebatou.
E se eu... Não!
Balancei a cabeça, tentando espantar os pensamentos absurdos e teimosos que insistiam em criar o cenário perfeito. Eu já tinha roubado o perfume amadeirado com notas de cedro e pimenta preta depois de ficar embriagada com o cheiro na noite em que o perturbei com os filmes românticos. Levei a caneta aos lábios, mordiscando a tampa, fechando os olhos em vergonha ao lembrar que havia me aproveitado da noite para invadir o banheiro principal da casa onde eu sabia que guardava a colônia inebriante.
Tirei uma foto do rótulo e pesquisei mais sobre a fragrância, decidida a colocar como o perfume marcante de Joshua. Então, eu já havia atingido minha cota de roubos, não poderia pegar mais nada de e usar como se fosse o avatar do protagonista. E mesmo que o veterinário se encaixasse perfeitamente nos traços do guarda-costas, seria um problema se algum dia deixasse meu notebook desprotegido pela casa e ele acabasse descobrindo toda a verdade.
O ego de ficaria tão inflado que nem mesmo a queda de um meteoro poderia pará-lo.
Mas como nunca fui uma boa garota em seguir regras e adorava um desafio, eu roubaria mais uma coisa do meu “colega de condomínio”. Só torcia que ele nunca descobrisse, isso preservaria o mundo e todos os meros mortais da sua arrogância e egocentrismo.
Sorri com o canto dos lábios, notando que minha mão dançava sobre o papel em uma valsa hipnotizante. Era incrível como as palavras fluíam muito mais fácil quando se tinha uma inspiração real, viva e em cores ocupando cada canto da minha mente. poderia ser um cafajeste, especialista em jogar um jogo bastante irritante, cujo único objeto era me tirar do sério, mas não poderia negar sua presença sedutora, um homem que se destacaria em qualquer multidão.
Se os deuses decidissem esculpir um mortal em forma de estátua, seria, sem dúvida, o modelo perfeito. A musculatura definida, a postura altiva, o olhar intenso que escondia mistérios e dores profundas. Era como se cada traço de seu corpo e alma fosse uma obra de arte, esculpida com precisão e paixão. A forma como ele se movia, a força e a delicadeza em seus gestos, com que seus olhos suavizavam ao cuidar de Mia.
Era uma combinação perfeita que me intrigava e me fascinava. Ele era um enigma, um labirinto de emoções e segredos que me atraía como uma mariposa para a chama.
— Ooi! —Uuma voz animada, alegre me despertou.
Mas que...
Fechei o caderno em pânico, um impulso mal calculado derrubou a caneta pelo caminho. Olhei para cima e encontrei um par de olhos azuis claros, vibrantes e penetrantes. Engoli em seco, molhando a garganta que arranhava com o susto repentino. A mulher sorriu para mim, movimentando o braço e a mão em um aceno amigável. Os cabelos loiros claros caíam sobre os ombros tão majestosamente que se assemelhavam aos de uma princesa.
— Desculpa, acho que te assustei. — Riu, fazendo uma careta simpática. — Sou a Bethany, sua nova vizinha. Moro na terceira casa à direita.
Apontou para a residência de linhas modernas em tons escuros, sóbrios de bronze, com uma passarela de concreto polido guiando até a garagem e um jardim frontal meticulosamente cuidado e aparado. A casa que, há poucos dias, exibia uma placa de “vende-se”, agora ostentava um ar de recém-habitada, como se um novo capítulo estivesse prestes a começar.
— , é um prazer. — Sorri de volta, o canto dos lábios tremendo ainda surpresa com a visita inesperada.
— Eu não queria te interromper, mas vi você e não resisti. Queria me apresentar. — Apoiou as mãos no parapeito da varanda.
— Não se preocupe, já estava quase terminando aqui. — Inclinei o corpo para pegar a caneta, ajeitando minhas pernas.
Ela se sentou no degrau da escada, passando as mãos pela barra do vestido branco com a estampa delicada de rosas vermelhas.
— É tão bom finalmente conhecer alguém nesse bairro — confessou. — Você deve saber, mudar sempre é uma coisa tão pesada. Tudo é novo, eu estou meio perdida.
— Eu sei como é isso. — Se tinha alguém que entendia sobre mudança, esse alguém era eu.
— Moro com meu irmão e o Woody. — Ela gargalhou ao falar o nome. — É um husky siberiano. Quando ele era filhote comprei um brinquedo do xerife de Toy Story para a minha filha, e ele odiava o boneco. — Contou animadamente.
— Ah, você tem uma filha? — perguntei, remexendo as mãos, sem saber como lidar com pessoas novas.
— Tenho, a Jessy. Foi por ela que quis conhecer você. — Afastou alguns fios do cabelo do rosto, o sorriso ainda ali. — Vi que tem uma menininha também e pensei que elas poderiam ser amigas!
— A Mia... Ela não é minha filha, sabe... Não de verdade. — Como explicar todo o turbilhão que bagunçou a minha vida?
— Vocês a adotaram! — deduziu, gesticulando.
Como era possível alguém ser tão animada e possuir uma energia contagiante desse jeito?
— É... Meio que sim — respondi. — Ela era filha do meu irmão e da irmã do , e ficamos com a guarda dela, quando eles... — A voz falou e senti a pontada certeira no coração.
Por que era tão difícil de dizer?
— Eles sofreram um acidente de carro.
Bethany desfez o sorriso, os olhos expressando compaixão, estendendo a mão para pegar a minha em um consolo silencioso.
— Sinto muito, .
— Obrigada. — Contive as lágrimas de saudade, que apertava meu peito, forçando um sorriso. — Faz quase três semanas que estamos cuidando dela, e está tudo uma maluca. — Tentei soar divertida.
— Criar um bebê não é fácil, mas acredite, é bem mais difícil quando temos de criar sozinha. — Suspirou, um toque de melancolia em sua voz. — O pai da Jessy não quis participar da minha gravidez, nem da criação dela. Sabe? Foi o clássico: “não quero estragar a minha vida”. — Alargou um sorriso, o brilho nos olhos voltando, apesar da tristeza em seu olhar. — O melhor de tudo é saber que posso contar com a ajuda do meu irmão. Ele é incrível com crianças.
— Ele é só um babaca! — exclamei, sentindo uma onda de raiva me invadir. — Como ele pode ser tão... insensível?
Bethany deu de ombros.
— Homens, . — Rolou os olhos. — Mas, como eu disse, meu irmão é diferente. Ele sempre me ajudou com a Jessy em tudo. E sou muito grata por isso.
Nossa conversa fluiu naturalmente, como se nos conhecêssemos há anos. Rimos, compartilhamos histórias e descobrimos que tínhamos muito em comum. Ela até me contou das diversas atrocidades que seu cachorro, Woody, fez quando era filhote e quase deixou o irmão dela louco por comer as pastas de relatórios de treino da academia onde ela trabalhava. Bethany também era uma mulher forte e inspiradora, além de animada ao extremo, possuindo um espírito divertido que contagiava o ambiente.
— ! — chamou com entusiasmo. — Poderíamos marcar de jantar na minha casa, assim a Mia pode conhecer a Jessy! — Bateu palmas, comemorando.
Hesitei por um momento, pensando sobre o convite. A ideia de passar uma noite fora de casa, longe das paredes que se tornaram meu refúgio, era tentador pensar em recusar para passar horas e horas digitando no notebook, como um gênio do mal. No entanto, a breve imagem de ver Mia brincando com outra criança era irresistível e foi o que me convenceu.
Seria maravilhoso para a pequena e eu poderia usar da oportunidade para socializar um pouco. Talvez, fazer uma amiga.
— Iríamos adorar, Bethany — respondi, um sorriso tímido surgindo em meus lábios.
— Perfeito! — exclamou em êxtase. — Pode ser amanhã à noite, o que acha?
— Preciso confirmar com o . Ele trabalha até tarde na clínica veterinária, e não sei quais são os horários livres dele.
— Não tem problema, podemos combinar outro dia. Um que ficará melhor para todos! — Ela se levantou, sacudindo a poeira invisível do vestido. — Do que vocês gostam de comer? Gostam de frutos do mar?
Sorri para ela, apreciando o entusiasmo em sua voz enquanto listava as opções que poderia fazer para o jantar. Risoto de camarão, fettuccine com cogumelos, salmão ao molho, ravióli de carne. A sofisticação em suas palavras me impressionou, e não consegui me conter, começando a falar sobre o assunto, explodindo em êxtase por encontrar uma conhecedora culinária tão apaixonada quanto eu.
Era animador encontrar alguém com quem pudesse falar sobre qualquer assunto sem medo de ser julgada por isso. Nunca tive uma melhor amiga com quem pudesse me abrir completamente, mas com Bethany me sentia livre para comentar sobre tudo, até mesmo sobre a folha seca no chão. Era como se nos conhecêssemos há anos, um encontro de almas. Ela me entendia até nas entrelinhas e não havia necessidade de esconder minhas opiniões e paixões.
Pela primeira vez, depois da partida de Noah, sentia que poderia ser eu mesma de novo.
Acompanhei quando o carro preto, o imponente e reluzente SUV, estacionou na rua, fazendo um frio estranho revirar meu estômago. A porta do motorista se abriu e surgiu, seu corpo se destacando na camiseta branca, parecendo reverenciado pelo próprio sol. Franzi o cenho, revirando minha mente em busca de algum compromisso que o levou a almoçar em casa e que eu poderia ter esquecido, mas nada surgiu. Então o que ele estava fazendo ali? Será que, pela primeira vez em três semanas, minha tarde seria preenchida por algo além da minha própria companhia, a solidão e o gato preguiçoso viciado em sachês?
Seus ombros pareciam carregados de um peso invisível, os passos pesados, as mãos dentro do bolso e a habitual luz em seu olhar havia se apagado, restando apenas um homem diferente do que estava acostumada, causando uma ruga de preocupação na minha testa.
— ! — chamei, tentando disfarçar minha preocupação. — Eu não sabia que vinha almoçar hoje.
Ele meneou um aceno, parando ao nosso lado, cumprimentando Bethany com um sorriso forçado nos lábios.
— Desculpe, não queria interrompê-las. — Sua voz estava rouca, baixa, carregada de exaustão. — Vejo você lá dentro, .
E simplesmente se virou, empurrando a porta da frente e desaparecendo, deixando o ar carregado da sua energia abatida. Arqueei as sobrancelhas e Bethany fez uma careta, mordendo o lábio inferior. Eu sabia que ela também tinha notado a tensão que o rodeava.
— O seu namorado não é de falar muito... — disse, o tom suave.
— Ele não é meu namorado. — Fui rápida em corrigir.
Ela me lançou um olhar confuso.
— A gente... só está compartilhando a guarda da Mia — expliquei. — Moramos junto porque o advogado disse que seria... melhor para ela.
Bethany assentiu, olhando para a porta por onde entrou. Ela alargou um sorriso.
— Ele é interessante, .
— Interessante? — repeti, o cenho franzido.
— É... Sabe, ele tem um ar de mistério e tem a elegância de um protagonista de livro. — Ela corou levemente, enrolando o cabelo no dedo indicador. — É um homem bonito.
Senti um calor subir pela base do meu pescoço, aquecendo a região de uma maneira ardente. Uma sensação estranha e desconhecida me invadiu.
Limpei a garganta arranhada.
— É melhor... eu ir ver como ele está — desconversei, sentindo a ponta de preocupação ainda me assolando.
— Depois combinamos sobre o jantar. — Ela sorriu, me puxando para um abraço caloroso. — Eu adorei conhecer você, . E tenho certeza de que meu irmão e a Jessy também irão te adorar! — despediu-se com um aceno, seguindo pela calçada, cumprimentando todos que encontrava pelo caminho.
Rolei os olhos, entrando de uma vez na casa. Minha mente tentava processar a cena que acabara de ver e buscando algum significado para o que as mulheres tanto viam em . Desde novo ele atraía os olhares femininos, mas nunca concordei que era para tanto; elas pareciam ficar cegas, enfeitiçadas. Fechei os olhos e massageei a testa, suspirando ao mesmo tempo em que me punia mentalmente pelo que iria dizer, algo que nunca na vida imaginei pensar ou concordar.
era um homem atraente.
Ele tinha o charme de um deus grego, mas era só isso.
Seu físico poderia convencer a maioria das mulheres que ficavam hipnotizadas com a sua beleza; no entanto, eu, como sempre, conseguia fugir à curva. E, apesar de usá-lo como inspiração na construção do meu personagem, a personalidade e as atitudes de Joshua nunca seriam como as de . O veterinário era convencido, arrogante e egocêntrico, e o guarda-costas era romântico, protetor e cavalheiro.
Os dois opostos perfeitos no mundo da literatura.
Balancei a cabeça em negação quando os pensamentos começaram a ganhar forças, trilhando uma batalha entre a realidade e a ficção. Eu ficaria louca se continuasse deixando que me consumisse desse jeito. Decidi tomar um rumo na minha vida e ir me arrumar para buscar Mia na creche dali a uma hora, quando passei na frente da entrada da cozinha e me deparei com a imagem mais inusitada que já tinha visto. Olhei ao redor, verificando a sala como se buscasse algum motivo invisível que justificasse o que meus olhos viam, mas algo mais forte do que eu me obrigou a vencer a distância que nos separava.
Em passos sinuosos, me aproximei, estudando curvado sobre o balcão da pia, os cotovelos apoiados contra o mármore enquanto as mãos estavam em sua cabeça, os dedos enroscados em seus cabelos. Tão cabisbaixo, os ombros retraídos. Senhor, ele estava péssimo. Completamente diferente do homem ao qual estava acostumado a ver espalhando sua prepotência e petulância todos os dias.
— ? — chamei, o tom beirando a confusão.
Seu corpo contraiu e, por um momento, ficou tenso. Levantou a cabeça, olhando através da janela de vidro da cozinha que dava vista para os arbustos da casa vizinha. Seu olhar estava distraído e perdido.
— Está tudo bem? — Toquei seu ombro, o músculo enrijecendo ao meu toque.
Ele suspirou.
— Não, não está, mas vai ficar... — disse mais para si mesmo.
— Pode conversar comigo, se quiser. — Mexi os dedos em um carinho sinuoso.
— Eu não sou de falar sobre os meus problemas com as pessoas, . — E então ele me encarou.
Por mais que eu pudesse julgá-lo como arrogante, notei o cuidado com as escolhas de palavras e o tom de voz baixo, quase falho. Mas não foi isso que me surpreendeu, e sim seus olhos azuis. O oceano, antes tão reluzente e cheio de brilho, agora se encontrava devastado em meio à escuridão, um abismo opaco.
— Não precisamos falar dos seus problemas. — Virei-me para subir no balcão, o mármore frio encontrando minha bunda. Fiz uma careta. — Podemos falar sobre o que vamos comer. Eu não fiz almoço e a Greta não deixou nada pronto.
— Você não almoça? — Mudou de assunto.
— Eu almoço, às vezes. — Passei as mãos nas coxas, puxando a barra do short de algodão. — Hoje eu ia pedir burritos; estou morrendo de vontade. — Sorri, já imaginando o sabor da tortilha e da carne invadindo minha boca.
— Não sabia que coelhos gostavam de burritos. — Riu com o canto da boca.
— Uma lebre não vive só de alface e cenoura — brinquei.
— Você sabe que lebres e coelhos são animais diferentes, né? — Ali estava uma ponta do veterinário cheio de convicção que conhecia.
— Os dois têm orelhas pontudas e gostam de cenoura; É a mesma coisa. — Dei de ombros.
— Na verdade, as lebres são maiores e solitárias, já os coelhos são menores e gostam de viver em grupo — explicou, o sorriso ainda brincando em seus lábios. — E pelo seu tamanho, você é uma coelhinha, nunca seria uma lebre — disse, com um tom de provocação.
Fiz uma careta.
— Argh. Não gosto de pessoas, prefiro, a solidão do meu quarto — revelei. — Talvez, eu seja uma híbrida de lebre com coelho.
— Nossa, que imaginação fértil, . — Rolou os olhos, não contendo o sorriso de divertimento. — Realmente, gosta de passar todos os dias trabalhando sozinha, sem contato com pessoas ou com o mundo lá fora? — perguntou depois de um tempo em silêncio.
— É relaxante, sem ninguém te dizendo o que fazer ou querendo te punir porque fez algo errado. — Inclinei o corpo para trás, buscando uma posição confortável. — Não é tão ruim assim. Eu só precisei aprender a lidar comigo mesma, criar uma rotina e seguir os compromissos à risca. Depois de um tempo, me acostumei com isso, não sinto falta de conviver com as pessoas. — Olhei fixo para um ponto qualquer na cozinha, refletindo que havia me fechado depois do que houve em Nova York.
— Não sente falta, nem por um momento?
Neguei com a cabeça.
— As pessoas não sentem falta daquilo que um dia as machucou, . — Abaixei os olhos, evitando que minha mente se perdesse nas lembranças daquela noite terrível.
— E nunca mais tentou de novo? — Quis saber, parecendo realmente interessado.
— Eu me encontrei no mundo da escrita, mas quando sinto falta de calor humano, vou para a academia ou saio para passear no parque. Mas isso se tornou menos frequente agora, porque tenho a Mia e o Sky.
— O meu gato? — Arcou a sobrancelha.
— Ele é um preguiçoso, mas um ótimo companheiro. — Ri. — É claro, se depois ganhar um sachê como pagamento em troca da sua companhia, ele se torna bastante amigável.
riu, o brilho levemente voltando no fundo dos olhos.
— É bom ver que ele se adaptou bem à mudança. — Ele fez uma pausa, pressionando os lábios. — Eu acho que não conseguiria fazer isso.
— Isso o quê? Se vender por um pacote de sachê? — brinquei, mas, no fundo, curiosa, estudando suas feições.
— Estou falando de me privar do mundo. — Ele me encarou, seus olhos intensos como o oceano agitado. — Nasci no meio de tantas pessoas que nem me lembro dos nomes direito, e acho que se ficasse preso dentro de quatro paredes por muito tempo, ficaria louco.
— Mas não existe uma teoria de que veterinários escolhem a profissão por que odeiam pessoas?
Ele fez uma careta divertida.
— Não é uma teoria muito válida, já que ainda temos que lidar com os tutores. Os animais são nossos pacientes, mas sem os tutores não temos dinheiro.
— E você prefere lidar com animais ou com pessoas?
— Se realmente gostasse de pessoas, teria me tornado médico, e não veterinário — respondeu, afirmando que a minha teoria não estava tão errada assim.
Nós rimos, como se fôssemos apenas dois amigos falando sobre seus problemas e as teorias da conspiração. E só então percebi que, apesar de vivermos em mundos opostos, tínhamos mais em comum do que imaginava.
No entanto, bastaram apenas alguns minutos para voltar a adotar o semblante abatido, parecendo ser atingido por uma onda de melancolia ou por um pensamento doloroso que o transportou para um lugar distante, onde as sombras o assombravam.
— Está tudo bem com você? Parece tão... triste. — A pergunta escapou dos meus lábios antes que pudesse detê-la.
Ele parecia tão... distante, perdido em pensamentos que obscureciam o seu olhar. Havia algo de errado, tinha quase certeza. Os sinais eram claros: os ombros tensos, o olhar perdido, a ausência das provocações que tanto me irritavam.
Ele suspirou, abaixando o olhar.
— Aconteceu, mas não quero falar sobre isso. — Por que eu sentia que existia um bloqueio que o impedia de se abrir?
Mordi os lábios, pensando em uma maneira de quebrar a tensão que se formou entre nós. E a ideia que tive, provavelmente ele recusaria.
— Sabe o que eu faço sempre que estou com problemas? — disparei, prendendo sua atenção.
— Por favor, me diga que não é cantar.
Revirei os olhos, descendo do balcão.
— Eu não canto tão mal assim — retruquei, fazendo uma careta.
— Só parece uma cabra agonizando.
— Agora, só por causa dessa ofensa, terá que fazer o que irei te mostrar — desafiei, uma pontada de emoção subindo pela base do meu pescoço.
— Nada comparado à sua melodia estridente, pode ser tão ruim assim — concordou, endireitando o corpo, parecendo realmente disposto a cumprir sua promessa.
— Eu não teria tanta certeza se fosse você. — Soltei no ar, saindo da cozinha e indo até o sofá da sala.
Acomodei o corpo nas almofadas macias, aconchegando-me contra o encosto, enquanto apertava o botão da televisão, assistindo à tela iniciar. Meu coração estava levemente acelerado, ansiando pela reação dele, quando finalmente entendesse o que estava prestes a fazer. Abri o aplicativo de streaming, arrastando o comando para a aba de filmes.
invadiu meu campo de visão, concentrado em observar. Os braços cruzados na frente do peito, deixando os bíceps mais aparentes.
— Prefere uma comédia romântica ou um clichê água com açúcar? Deixarei você escolher — falei, soando como uma criança travessa.
Ele apertou a ponte do nariz, parecendo finalmente ter caído a ficha.
— Não vai me obrigar a assistir filmes românticos com você, — resmungou, virando em minha direção.
Puxei as almofadas para o lado, batendo a mão no espaço vago do sofá.
— Você não tem escolha. Deveria ter pensado nisso antes de me chamar de cabra agonizante. — Sorri atrevida, folheando as diversas capas dos filmes na categoria de romance.
— Eu não estava pensando direito.
— , pare de ser teimoso e se entregue de uma vez ao romance. — Bati mais uma vez no estofado. — Você pode escolher ou podemos ver o filme que sempre vejo em dias ruins.
— Eu tenho até medo de perguntar: qual seria esse filme? — Franziu o cenho, sentando-se na beirada.
— Cartas para Julieta — respondi, pesquisando o filme e deixando a tela fazer o seu trabalho de exibir a capa do filme com a lindíssima Amanda Seyfried.
— Acho que não pode ser tão ruim assim.
— É o meu favorito. — Iniciei o filme, abraçando uma almofada.
— Apesar de que já estou sentido meus neurônios sendo queimados um a um por ter de assistir a isso.
Um sorriso cínico curvou-se em meus lábios, deixei o controle de lado, trocando-o pelo celular, querendo vasculhar o aplicativo de comida em busca de alguma coisa que pudéssemos almoçar e acompanhar o filme. O estofado ao meu lado afundou, , ainda receoso, se acomodou, colocando seu travesseiro atrás da cabeça, apoiada contra o encosto, e uma almofada em cima da barriga, com suas mãos sobre ela. Seu corpo era largo e robusto, quase o dobro do meu, ocupando metade do sofá.
— Sempre vê esse filme quando seus dias são ruins? — Quis saber, curioso, os olhos concentrados na televisão.
— Eu assisto a vários, mas esse é o meu favorito — respondi, rolando a tela, em busca do meu restaurante de burritos favorito.
— E isso acontece com quanta frequência? — Relaxou, tirando os tênis com os próprios pés.
— Em todos os dias chuvosos. — Abaixei o celular, virando-me para ele. — E com você?
— Quando decidi que queria ser veterinário, sabia que viveria rodeado de pelos e salvaria vidas inocentes, mas com isso veio o lado ruim também. — Respirou fundo em uma pausa, remexendo o corpo. — Um animal de estimação não é só um paciente, ele é o amor de alguém. E a responsabilidade de ter uma vida nas suas mãos é uma tarefa enorme... E às vezes, a gente perde.
Soltei o ar pela boca, a garganta ficando embargada com a confissão dele.
— , eu sinto muito. — Toquei sua mão sobre a almofada, apertando em um consolo.
— Recebemos uma denúncia anônima e resgatamos um cachorro, vítima de maus-tratos — continuou. — Sabe, , o amor que um animal sente pelo seu dono é indescritível. Eles são leais, nossos melhores amigos. E ver aquele cachorro na situação em que o encontramos é muito... cruel. Saber que alguém tem a coragem de maltratar um ser tão puro e inocente, que vem ao mundo querendo apenas ser amado.
As palavras me atingiram com uma força inexplicável, um golpe certeiro em meu peito. , o homem de fachada inabalável, dono do sarcasmo e da autoconfiança, estava ali, a vulnerabilidade transparecendo em seu rosto. Havia uma dor profunda em seus olhos, a dor da perda o dilacerando e eu não sabia como ajudá-lo.
— Nem tudo está no nosso alcance, . — Apertei os dedos ao redor da mão dele.
Ele suspirou pesado, seu olhar se encontrando com o meu.
— Eu perdi um paciente hoje, . E me sinto estranho por estar dizendo isso a alguém. — Um sorriso tímido brincou no canto dos seus lábios. — Ele era apenas um filhote com 10 meses. — Piscou, tentando conter as lágrimas não derramadas. — Não teve tempo de conhecer como é ser amado de verdade, ter um dono e encontrar um lar.
Coloquei o celular de lado, deitando o corpo ao lado dele, virando a cabeça para encará-lo, sem conseguir desviar o contato visual, nossas mãos ainda enlaçadas.
— Se ele teve a sorte de conhecer você, então deve ter se sentido grato por ter tido alguém que lutou por ele até o último minuto — falei, com uma vontade imensa de abraçá-lo, perdida dentro dos olhos azuis. — Tem algo que te ajude nesses momentos? Eu gosto de comer burritos e assistir a filmes românticos. — Sorri, arrancando uma risada divertida dele.
— Acredito em uma teoria — disse, dobrando o braço, apoiando a cabeça na mão sobre o cotovelo.
— E qual seria?
— Na faculdade, li um artigo que dizia que quando os animais morrem, existe um paraíso reservado somente para eles, onde encontram a paz e brincam entre as nuvens, esperando pelos seus donos que ficaram na terra — revelou, olhando para nossas mãos unidas. — Gosto de acreditar que meus pacientes estão nesse paraíso e a dor desaparece, abrindo caminho para a alegria.
— Deve ser um lugar tão lindo. — Sorri, a imagem do paraíso que descreveu me aqueceu. Os animais se divertindo, correndo de um lado para o outro, brincando entre as nuvens que parecia algodão doce, a felicidade transbordando em cada movimento.
Fomos abruptamente interrompidos quando Sky, com um salto elegante, aterrissou no sofá, aninhando-se entre nós, nos obrigando a abrir passagem para vossa majestade e separar nossas mãos. O ronronar alto e constante vibrou, uma serenata felina que preenchia o silêncio. , em um gesto automático, acariciou o pelo macio do gato, um toque que pareceu dissipar um pouco a rigidez em seus ombros.
O felino miou em um tom meloso, satisfeito por ser o centro das atenções. Não consegui conter o riso, acompanhando-o quando ele se virou, esticando-se preguiçosamente, como se reivindicasse o espaço. A barreira peluda nos separava como uma pausa no meio da tempestade de emoções que nos envolvia.
— Vamos pedir algo para comer, estou faminta — anunciei, sentando-me e procurando pelo celular entre as almofadas. — Eu preciso de burritos. — Praticamente implorei.
— Peça também um cheeseburger com muito queijo e bacon — pediu com um sorriso, cutucando o bichano que agora estava com a barriga para cima e tentando pegar a mão dele.
— Você tem que parar de comer essas porcarias. Sabia que a cada embutido que comemos perdemos anos de vida?
— , meus exames estão ótimos, faço exercícios físicos todos os dias, além disso, sou incrivelmente gostoso. — E convencido feito uma mula.
Soltei uma gargalhada, voltando a me deitar no sofá, enquanto decidia se finalizava ou não o pedido de comida no aplicativo.
— É tão presunçoso, . — Balancei a cabeça, tentando conter o sorriso irônico. — Realmente, você e o Sky se merecem.
— A sua amiga loira concordaria comigo — retrucou, a fala retumbando como uma alfinetada, carregada de malícia.
O calor se formou na base do meu pescoço, descendo pela garganta e se instalando no meu peito com uma pontada intensa, aguda, assim que assimilei as palavras. Então o cretino havia notado o interesse descarado de Bethany.
— Ela tem uma doença, um problema de visão, então é esperado essa reação — desconversei, desviando o olhar, qualquer lugar era melhor do que encarar aqueles poços azuis provocantes.
— Que tipo de problema? Talvez eu possa ajudá-la. — Sua voz se tornou um sussurro rouco, perigosamente perto demais.
Engoli em seco e suspirei, sentindo uma vontade imensa de abrir um buraco e enterrar aquele homem ainda com vida para sofrer pela sua audácia.
— É a doença que faz com que todas vejam algo em você que simplesmente não existe. — Um sorriso cínico se curvou em minha boca. — Elas ficam cegas e começam a te ver como um deus grego da medicina veterinária. Um objeto para os seus desejos mais impuros e tudo o que querem é encontrar um jeito de descobrirem o que você tanto esconde embaixo das roupas cheias de pelos e cheiro de cachorro molhado.
riu, um som baixo e rouco que fez meu coração acelerar, reverberando em cada fibra do meu ser.
— E você não concorda com elas? — disparou, me puxando para uma armadilha perigosa.
Virei o rosto e deixei que seus olhos encontrassem os meus em uma luta dançante. A batalha silenciosa entre as chamas e a razão. Por um instante, o mundo ao nosso redor desapareceu e me vi presa na teia invisível que ele tecia com seu charme perigoso. O oceano azul estava agitado, as pupilas se movendo como ondas fortes e traiçoeiras, revelando uma intensidade crua, uma vulnerabilidade que me atraía como um ímã.
Pressionei os lábios um contra o outro, reprimindo o impulso súbito de me aproximar, de preencher o espaço que nos separava. Eu queria queimar no fogo que o envolvia, sentir o calor do seu corpo contra o meu, ser consumida pelas chamas em seus olhos. Queria desvendar o mistério que tanto fascinava as mulheres. Experimentar o gosto dos seus lábios, sentir seu toque aquecendo a minha pele, apertando com firmeza, me devorando aos poucos e me fazendo arfar por isso.
Queria saber como era ser beijada por ele, um beijo de verdade.
O som estridente do meu celular vibrando me trouxe de volta à realidade, como um balde de água fria. Abaixei o olhar, o coração batendo contra as costelas em um protesto doloroso. Peguei o aparelho, desligando o alarme que havia colocado para não me esquecer do horário.
— Preciso ir buscar a Mia — anunciei, a voz tremendo levemente.
Engoli em seco e me levantei em um salto, sentindo minhas bochechas arderem em um rubor intenso. assentiu, sem dizer uma palavra. Seus olhos escuros me seguiam enquanto eu subia as escadas até o quarto. Ele parecia me desafiar, criando um abismo tentador que me chamava para o fundo. E a cada passo que eu dava, era dominada pela voz que sussurrava em minha mente, implorando para que eu fugisse, que me afastasse do magnetismo que me atraía com uma força inexplicável.
Mas como negar as chamas que insistiam em me puxar para mais perto do fogo que ameaçava me consumir? E eu, como uma tola, ansiava pela dor da queimadura, disposta a me queimar e ceder ao desejo que tanto me assustava.
A água quente deslizou pela pele, uma dor prazerosa que reagia tentando em vão acalmar a tempestade que rugia pela minha alma atormentada. Afundei o rosto no jato, afogando as lembranças e o pulsar insistente do coração sempre que a imagem das esferas castanhas insistia em me perseguir, cada olhar sendo uma tortura. Eu queria que o banho me ajudasse a esquecer, mas quanto mais tempo passava sob a água, mais o calor se intensificava, os pelos eriçando em resposta aos turbilhões de emoções.
Inclinei-me, os antebraços apoiados contra o azulejo branco, frio, o contraste da temperatura aguçando meus sentidos. Fechei os olhos, abaixando a cabeça. A água caiu sobre os ombros e desceu pelas costas, levando tudo para o ralo, mas se esquecendo daquela visão em meio à corrente torrencial. Perdi a noção do tempo, a percepção da existência e tudo que me restava era ela.
Os olhos caramelos tão intensos percorrendo meu rosto, estudando os traços másculos, demorando-se em minha boca, parecendo tentar gravá-la a ferro e fogo em sua memória. Os lábios entreabertos e carnudos, imploravam em um convite silencioso para os deixarem vermelhos e inchados. As bochechas rosadas, a respiração acelerada, denunciavam seu nervosismo, o desejo pulsando nas veias, ansiando pelo meu toque.
Ela me queria. E eu me sentia sujo por desejá-la.
Passei a mão no rosto, retirando a água dos cabelos, os dedos afundando contra a nuca, não ousando abrir os olhos. Torci o pescoço, o peso em meus ombros aumentando conforme a culpa me corroía a cada instante em que pensava na coelhinha. era o fruto proibido, a irmã de Noah, a mulher que eu jamais deveria desejar. Tinha uma dívida com o cunhado, a promessa de protegê-la e ajudá-la a cuidar de Mia — e não de sucumbir aos desejos mais impuros.
Um sorriso amargo curvou-se em meus lábios, imaginando a reação de Lily que provavelmente estava acotovelando o marido naquele exato momento, ainda sonhando em me ver dentro de um casamento, aliança de ouro decorando o dedo anelar. Ela sempre seria a eterna casamenteira, acreditando fielmente que a solução para todos os meus problemas era uma mulher que controlaria meus impulsos e curaria a ferida do amor aberta no meu coração
— Não será tão fácil assim, irmãzinha — sussurrei sozinho, a voz rouca, usando o diminutivo que tanto adorava para provocá-la. — Escolha outra vítima para seus planos, menos a .
Seus braços provavelmente estariam cruzados, o nariz empinado e o bico gigantesco adornando sua boca, típica pose da minha irmã que nunca soube lidar com frustrações. E conhecendo-a bem, tinha certeza de que essa obsessão doentia que me fez fugir para a clínica assim que foi para o quarto, era mais uma das suas ideias malucas que estavam sendo arquitetadas, seja lá em qual dimensão paralela estivesse.
Ah, eu estava enlouquecendo, à beira do precipício da loucura.
A música estridente do toque do meu celular sacudiu as paredes do banheiro, invadindo o vapor quente, arrancando-me do estado vegetativo em que me encontrava. Fechei o registro do chuveiro, passando as mãos nos cabelos encharcados, espremendo o excesso de água, o silêncio repentino atingindo o espaço. Deslizei a porta do box suavemente, revelando o chão frio sob meus pés descalços, alcancei a toalha branca e felpuda, pendurada no suporte cromado e a envolvi ao redor da cintura, formando uma ilha de maciez em meio à umidade.
Arrastei-me pelas grandes placas de porcelanato, cada passo um eco abafado naquele santuário de cores terrosas e toques de branco. O banheiro principal da casa era enorme, conseguindo facilmente engolir o espaço apertado do meu antigo apartamento. A porta de madeira rústica ficava no meio do corredor, se abrindo para um ambiente que exalava elegância e calma.
Parei diante do imponente espelho quadrado que escalava a parede até o teto, encontrando meu reflexo escondido pela pequena nuvem de vapor que manchava o vidro. A pia espaçosa repousava sobre um balcão de mármore branco, sua superfície lisa dividida entre a cuba e discretos vasos de plantas artificiais que davam um toque de verde em meio à paleta neutra. Abaixo, duas gavetas embutidas guardavam um universo de amenidades: sabonetes perfumados, frascos de shampoo e condicionador alinhados, refis de sabonete líquido e pilhas de toalhas macias. No canto esquerdo, uma prateleira estreita abrigava dois cestos retangulares de fibras naturais, repletos de objetos para a higiene pessoal.
À direita, o vaso sanitário branco contrastava com a parede de tom mais escuro, enquanto no lado oposto, o box de vidro do chuveiro se unia à banheira dupla com hidromassagem em um convite silencioso ao relaxamento. As luzes suaves que emanavam dos spots embutidos no teto acariciavam as superfícies, realçando a textura dos materiais e a sensação de serenidade que permeava o ambiente.
Peguei o aparelho celular largado em cima das roupas, a notificação de chamada perdida e as incontáveis mensagens de Aidan e Madisson decorando a tela me fizeram revirar os olhos. A dupla dinâmica usara dos seus únicos neurônios quando concluíram que o chefe da clínica andou mal-humorado o dia inteiro e precisava afogar as mágoas no álcool. Segundo eles, eu precisava acabar dentro de um dos quartos privados da The Obsidian Club com alguma desconhecida gostosa.
Pobre almas iludidas.
Mal sabiam a verdadeira intenção por trás da minha aceitação: uma tentativa de expulsar a imagem persistente da minha linda e infernal coelhinha da cabeça.
Digitei, os dedos voando pelo teclado, respondendo às enxurradas de mensagens diretas dos impertinentes que queriam garantir a minha ilustre presença, e é claro, se divertiam debochando sobre minha repentina “vida de casado”. Virei o celular com a tela para baixo sobre o mármore, não querendo mais ser incomodado. Peguei outra toalha, terminando de secar as últimas gotículas de água que insistiam em adornar minha pele e os fios ainda úmidos do cabelo, antes de sair e seguir para o quarto, iniciando o ritual de vestimentas.
Abotoei a camiseta de linho preta com manga comprida, o tecido se acomodando suavemente na pele. Dobrei o tecido até a altura dos cotovelos, dando um toque de informalidade, deixando os dois últimos botões de cada punho propositalmente abertos, revelando um vislumbre do interior dos pulsos. Revirei o guarda-roupa, escolhendo uma calça jeans cáqui de corte reto que oferecia um equilíbrio entre o casual e o arrumado. Nos pés, calcei o par de tênis pretos com discretos detalhes em branco nos cadarços e na linha da sola de borracha.
O único acessório que adicionei foi o relógio de pulso, um modelo clássico com pulseira de couro preto e mostrador minimalista. Encarei o espelho de corpo inteiro na porta do guarda-roupas, passando os dedos entre os fios louros escuros, arrumando-os para trás. Guardei o celular e a carteira no bolso da calça, sem demorar para me lançar no corredor e descer as escadas, pronto para aproveitar a minha noite.
No entanto, o universo adorava brincar comigo...
Os soluços me atingiram como uma onda impetuosa, esmagando o ar dos meus pulmões. Na penumbra da sala, sendo a tela da televisão a única fonte de luz, a atmosfera carregada me dava uma amostra do que meus olhos estavam prestes a testemunhar. Respirei fundo, olhando para cima instintivamente, clamando para que o universo fosse bonzinho e concedesse apenas alguns minutos de paz e sossego, pelo menos uma vez desde que a Lily me amarrou aquela criatura chorona no sofá.
Ocupei os dedos, mexendo na pulseira do relógio, enquanto vencia a distância até a mesinha de centro, onde estava a chave do carro. Deixei que a atenção caísse sobre o filme; a cena retratava um acampamento militar alojando as tropas durante a operação. Dois soldados conversavam sobre alguma coisa que não consegui identificar, enquanto um deles queimava cartas em um tambor alto de alumínio. Franzi a sobrancelha, mirando a coelha abraçada a uma almofada, os olhos vermelhos de tanto chorar, com uma caixa de chocolate no colo e outra ainda fechada ao seu lado; pelo chão se acumulavam diversas embalagens vazias de doce.
Mas o que caralhos estava acontecendo ali? Ela conseguiria facilmente desidratar desse jeito.
— Você está bem, ? — Minha voz possuía um fio de preocupação. Se aquela mulher passasse mal de tanto chorar, eu seria o responsável por levá-la a um médico.
— Ela não tinha o direito de fazer isso! — Desabou em lágrimas, enfiando um chocolate inteiro na boca.
— Quem? O que ela poderia ter feito que foi tão ruim assim? — Engoli em seco, começando a ficar realmente assustado. Que droga!
— A Savannah! — Apontou para a televisão, a voz embargada pelo choro. — O John... Ele foi para a guerra e, quando voltou... Ela tinha se casado com outro. Nem sequer esperou por ele — contou entre soluços.
Pressionei as mãos contra o rosto, um grunhido escapando da minha garganta. O soco da frustração atingiu meu estômago. Que idiota fui por ter me dado ao trabalho de perguntar, por um mísero segundo cogitando a possibilidade de me preocupar com algo real. Ah... Talvez a solução para todos os meus problemas seja internar em uma ala psiquiátrica, presa em uma camisa de força.
— Você só pode estar de brincadeira. — Apertei a ponte do nariz. — , isso é um filme! — bravejei entre os dentes.
— Não interessa. Ela tinha que ter esperado por ele. — Enfiou outro chocolate na boca e fiquei impressionado como ela não conseguia se engasgar, comendo feito uma morta de fome. — Você deve saber como é lutar pelo seu país e, depois, quando voltar para casa, a sua namorada ter se casado com outro. — Limpou as lágrimas com o dorso das mãos.
Rolei os olhos.
— Eu não fui para a guerra. E nunca deixei nenhuma mulher para trás, e ela se casou com outro. — Eu não fazia ideia de onde ela se inspirava para conseguir pensar em tantas asneiras.
Suspirei, guiando-me até o cercadinho em frente à televisão e pegando Mia no colo. Ela me abraçou, bagunçando os cabelos que estavam perfeitamente penteados para trás, mas não me importei de depois ter de arrumá-los no espelho do carro; adorava sentir o abraço mais gostoso e carinhoso do mundo.
— Está vendo, princesa? — Fiz uma careta e ela gargalhou. — Por favor, me prometa que não será sentimental igual à sua tia. Uma ainda consigo aguentar, mas duas, irei enlouquecer. — Sorriu, as mãozinhas bagunçando os cabelos e abraçando a minha cabeça.
— Eu não sou sentimental, ela só não tinha o direito! — protestou e fungou, mordendo outro chocolate.
Abaixei o olhar, mirando as embalagens no chão e ficando preocupado com a quantidade absurda de açúcar que ela estava digerindo. Uma lâmpada se acendeu sobre a minha cabeça e franzi o cenho, assimilando a ideia sobre o único motivo plausível para deixá-la daquele jeito, só poderia ser isso.
— , você está de TPM?
Ela me lançou os olhos marejados, jogando o resto do chocolate na boca.
— Sim. Qual o problema nisso? — disparou, arisca como uma felina.
— Nenhum, só não imaginei você comendo essas duas caixas de chocolate sozinha. — Sorri para Mia, que segurou minha boca e o nariz, brincando com o rosto.
— A loja dos burritos não abriu hoje ànoite, então, sim, vou comer as duas caixas, sozinha — afirmou, o tom levemente irritado.
Eu ri, não conseguindo segurar o riso cínico que me acometeu, virando-me para a pequena e depositando um beijo em sua cabeça, depois de conseguir escapar das suas mãos.
— Mia... Você é a minha única esperança. Por favor, não me decepcione. — A ergui no ar, arrancando um gritinho de surpresa.
— Você gosta de se alimentar de almas inocentes, impressionante, ! — retrucou, voltando a chorar quando uma nova cena do filme começou; parecia um funeral.
— Eu gosto de pessoas normais — provoquei, colocando Mia no cercadinho e me inclinando para pegar a chave do carro na mesinha. — Vou sair com o Aidan e a Madisson, divirta-se com o seu drama particular.
Passei pelo sofá, sendo obrigado pelo caminho a retirar o celular do bolso da calça quando começou a vibrar. Encarei a tela e neguei com a cabeça. Uma mensagem de Aidan piscava com as seguintes palavras: “Onde você está, cara? A patroa não te deixou sair?”, e depois enviou diversos emojis rindo. Eu tenho um amigo muito miserável.
— Ainda não largou essa vida de mulherengo? — zombou, jogando a cabeça para trás no encosto do sofá e rindo.
— Se fosse mais como eu, não estaria chorando por causa de um personagem fictício e seria menos amargurada. — Dei de ombros, guardando o celular, não me dando ao trabalho de responder à mensagem.
— É melhor do que chorar por um homem de verdade — gritou em protesto.
— Um homem de verdade é mais interessante, não acha?
— Se todos os homens forem como você, prefiro ficar com os meus personagens fictícios. Obrigada — rebateu, o sorriso zombeteiro nos lábios. — Mudando de assunto... onde está colocando suas coisas? — questionou, curiosa.
— Greta arrumou o guarda-roupa antigo do Noah e da Lily. Ela colocou minhas roupas e pertences nele — expliquei, enterrando os dedos nos cabelos, tentando arrumar os fios desgrenhados.
— Mas... e as roupas deles? — Virou-se no sofá, o semblante franzido.
— Ela guardou nas caixas que trouxemos, e... disse que precisamos decidir o que iremos fazer com elas. — O aperto se apossou do meu peito ao dizer as palavras.
se virou bruscamente, ficando ajoelhada no sofá, as mãos apertando nervosamente o encosto.
— Como assim, “o que vamos fazer com elas”? — Engoliu em seco. Seu olhar perplexo causou um nó em minha garganta.
Suspirei, olhando ao redor da casa. Evitei olhar para os poços castanhos que perdiam mais o brilho a cada segundo. Eu sabia que esse era um assunto delicado, principalmente para ela.
— Talvez, ... esteja na hora de pararmos de agir como se eles fossem voltar. — Era duro admitir, mas tínhamos de seguir em frente alguma hora.
— Não acha que é muito cedo para isso? — Sua voz ressoou baixa, quase rouca.
— Não sou a pessoa certa para dizer se é cedo ou não... — Trinquei o maxilar, o tique nervoso revelando meu desconforto.
Ela abaixou a cabeça, virando-se de costas para mim e se encolhendo contra o sofá, abraçando os joelhos e enterrando o rosto ali. Os ombros subiram e desceram conforme começou a soluçar, o choro me atingindo em cheio, decepando as minhas pernas. Vê-la daquele jeito dilacerava meu peito de um jeito que sentia como se fosse cair de joelhos e não conseguisse mais levantar.
Me cortava a alma, era como um diamante tão frágil.
— ... — soprei, vencendo a distância até o sofá. — Não chora, por favor... — Sentei-me na beirada, tentando tocar em seu braço.
O movimento brusco me pegou de surpresa, girou o antebraço e acertou minha mão, erguendo os olhos e me fuzilando, os olhos vermelhos e inchados. Eu quis puxá-la para os meus braços e segurá-la até que se acalmasse, e fiquei por um fio de fazer isso, se não fosse sua relutância e a figura assustada no fundo dos seus glóbulos castanhos.
Ela me olhava, parecendo diante de uma besta perversa e cruel.
— ... — chamei, o cenho franzido. — Eu não queria... Me desculpe...
— Quero ficar sozinha... — sussurrou, deslizando pelo estofado querendo ficar o mais longe possível de mim.
— Tem certeza de que não quer que eu fique?
— Eu não quero nada de você, . — A voz cortou o ar, fria e distante.
Ela não encontrou o meu olhar, afundando o rosto nos braços cruzados sobre os joelhos, criando uma barreira que me impedia de alcançá-la.
Soltei o ar pela boca, reconhecendo que seria inútil tentar me aproximar. Mordi o interior da bochecha, varrendo a sala com o olhar até encontrar o celular abandonado no sofá. Fui rápido em pegá-lo, notando a ausência de senha assim que a tela acendeu. Meus dedos deslizaram pelo teclado numérico, emitindo o som característico, atraindo a atenção dela.
Lentamente, fungou, girando a cabeça, o nariz vermelho e os olhos marejados, fixos em meus movimentos.
— O que está fazendo? — Quis saber com a voz embargada.
— Adicionando o meu número de celular. Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, não hesite em me ligar. — Enviei uma mensagem para o próprio contato para depois salvá-lo.
Era um absurdo pensar que, mesmo morando sob o mesmo teto, fôssemos tão desconectados ao ponto de não termos o número um do outro.
— Não vou ligar para você. — Limpou as lágrimas que desciam pelas bochechas.
— Não precisa, mande uma mensagem. Um emoji já serve. — Deixei o aparelho no sofá e me levantei em seguida, indo em direção à porta que me chamava como uma fuga.
Atravessei a entrada da casa, apertando o botão do alarme do carro. Ocupei o lado do motorista, colocando a chave na ignição e dando uma última olhada na casa antes de ligar o veículo. Algo me dizia que ficar longe de era a melhor opção. Ela precisava de espaço, de silêncio para refletir sobre o assunto e minha presença ali só a atrapalharia, além daquela súbita vontade de envolvê-la em meus braços até que não tivesse mais lágrimas para chorar e as batidas erráticas do coração se acalmassem.
Eu estava perdendo o juízo, considerando abandonar Aidan e Madisson para ficar ao lado da mulher que, naquele momento, me odiava com todas as forças.
Tudo era precipitado, eu sabia.
Quando Greta falou sobre os pertences deles, também não reagi muito bem. A dor da perda de Noah e Lily ainda era um nó apertando em minha garganta, e a ideia de ter que decidir sobre o futuro das coisas deles era um peso insuportável. Mas acreditava – talvez sendo ingênuo da minha parte – que seria mais fácil lidar com o luto, a saudade e a ausência se não estivéssemos rodeados por lembranças materiais do casal.
O som abafado da música eletrônica e as luzes coloridas atingiram o interior do carro. Manobrei o veículo, entrando no estacionamento, e me dei conta de que passei o caminho todo submerso nos pensamentos sobre e acabei dirigindo no automático, nem sequer prestando atenção na estrada. Desliguei o motor e tombei a cabeça para trás, esfregando o rosto com as mãos, enchendo os pulmões de ar antes de sair e passar pelas portas da boate.
A atmosfera carregada de testosterona, perfume barato e o cheiro de álcool impregnava cada canto da The Obsidian Club. Os seguranças menearam um aceno discreto com a cabeça assim que cruzei o estreito corredor da entrada. Entrei no imenso salão, lotando por homens e mulheres que dançavam, bebiam e se agarravam. Engoli em seco, a garganta áspera, arrumando a gola da camiseta num gesto automático, enquanto varria o mar de rostos em busca das duas criaturas insolentes.
A pista de dança se perdia entre as luzes vermelhas e azuis, circundando mesas estrategicamente posicionadas de frente para o palco que exibia estruturas de pole dance onde as dançarinas se apresentavam, os movimentos sensuais dentro de lingeries minúsculas. O bar, extenso e iluminado, ocupava a parede direita, com prateleiras repletas de garrafas cintilantes. E à direita, era o meu refúgio habitual: uma cortina de veludo vermelha, elegante como as de teatro, ocultava a entrada para os quartos privados onde casais poderiam se divertir com mais privacidade.
Avistei Aidan no camarote VIP, localizado na parte superior da boate, um lugar que sempre escolhíamos para escapar da multidão cheia de hormônios. Ele acenou na minha direção, os cabelos loiros desalinhados e o sorriso debochado, cercado por mulheres risonhas e taças de champanhe. Madisson, com seu vestido preto colado ao corpo, apoiava-se no parapeito do andar, o olhar felino estudando a pista de dança com um ar entediado.
Subi os degraus que levavam ao camarote, cruzando com casais que se dirigiam aos quartos privados e senti um aperto incômodo no estômago. A promessa de uma noite recheada de diversão parecia vazia; os risos e a música alta soavam como um ruído distante, não sendo suficientes para afastar a imagem dos olhos marejados de e a fragilidade em que seu corpo se encontrava. Suspirei, sacudindo a cabeça e me aproximei da mesa, sendo recebido por um abraço de Madisson.
— Olha aí, o bom samaritano resolveu dar o ar da graça! — Aidan gritou, enlaçando a cintura de uma ruiva e erguendo a taça em um brinde irônico. — Pensei que tinha nos trocados por uma noite de tricô.
Forcei um sorriso cínico.
— Ele nunca faria isso — respondeu à ruiva, desvencilhando-se do braço de Aidan e vindo na minha direção.
Os traços delicados, quase angelicais, me atraíram com um magnetismo inesperado. Os olhos verdes eram duas esmeraldas faiscantes, cheios de lascívia pura. A boca carnuda, pintada de vermelho, entreabriu-se formando uma fenda extremamente sexy. Algumas sardas salpicavam suas bochechas, e o vestido verde, com um decote profundo, abraçava as curvas convidativas, os seios quase saltando em uma oferta descarada.
Sua mão deslizou pelo meu ombro, descendo ao peitoral, o olhar fixo em meus lábios.
— Estou louca por você, hoje... — sussurrou próximo ao meu ouvido, deslizando um bilhete dobrado no bolso da camiseta de linho. — Te espero depois do show, não me decepcione, gatinho. — Sorriu, depositando um beijo rápido em minha boca.
E nem mesmo o toque quente dos seus lábios foi o suficiente para dissipar a imagem persistente de , que mais parecia uma sombra disposta a me atormentar a noite inteira. Que inferno!
— Humm... O que a “esposa” vai achar disso? — Aidan zombou quando a mulher se afastou, levando as outras dançarinas consigo.
Peguei o copo de vodca em cima da mesa e o virei, esvaziando-o em um único gole. Fiz uma careta, a garganta queimando e, ao mesmo tempo, aquecendo o corpo por dentro, tornando-se o combustível perfeito para encarar a noite.
— Ele está aproveitando que conseguiu escapar da vida de casado para reviver os velhos tempos — comentou Madisson, a voz embargada pela bebida.
Revirei os olhos, enchendo o copo com a garrafa que estava pela metade, aproveitando para retirar o bilhete do bolso. Beberiquei a bebida, desdobrando o papel e lendo a mensagem explícita da ruiva gostosa, informando que me esperaria no quarto quatorze para uma noite quente de prazer depois do show.
— Agora ele é pai, Aidan, precisa ter responsabilidades — ela gargalhou.
Dei mais um gole, avistando os holofotes girando em cima do palco e as dançarinas se preparando para a apresentação.
— Lily me pediu que cuidasse da Mia, não que virasse um santo — Arquei uma sobrancelha, esvaziando mais um copo.
— Melhor pegar leve com a bebida, cara — Aidan alertou, enquanto completava mais uma dose.
— Eu preciso beber — Dei de ombros.
Aidan fez o mesmo, terminando a taça de champanhe e enchendo um copo de vodca. Madisson dançava à nossa frente, movendo o corpo em movimentos sinuosos e sensuais, enquanto olhava para a mesa ao lado, ocupada por dois homens aparentemente da nossa idade.
— E então... Como está a ? — meu amigo perguntou, meio hesitante. — Quando vou conhecê-la?
Minha boca se curvou em um sorriso frio.
— Ela não é o tipo de mulher para você, Aidan. — A frase saiu cortante, mais áspera do que imaginei.
O copo bateu na mesa em um baque surdo, uma onda de calor se apossou do meu corpo em um sentimento visceral. Sendo pego desprevenido.
Ele riu sem humor, batucando o indicador na lateral do copo, pensativo.
— Então para quem seria, ? — Quis saber, o sorriso infeliz no rosto. — Sabemos que para você, ela também não é. Mal consegue pronunciar o nome dela sem beber antes.
Estreitei os olhos, enchendo a boca com a bebida amarga e queimando a garganta ao engolir. A mão esquerda, escondida embaixo da mesa, se fechou em punho tão apertado que os nós dos dedos ficaram brancos. Relaxei os dedos quando assimilei melhor as palavras dele. Aidan estava certo.
— Só fica longe dela. — Minha voz era um aviso baixo. — A ... Merece alguém que queria algo sério e verdadeiro. — disse, as palavras retumbando em minha mente como um corretivo para os tormentos.
— Por que está a defendendo tanto? — Aidan insistiu, com um tom de curiosidade na voz. — Desde quando se importa tanto com o que ela merece? — estreitou os olhos em uma suspeita. — Tem algo a mais acontecendo? Algo que não está me contando?
Limpei a garganta, bebendo mais um gole, a acusação de Aidan atingindo um ponto sensível.
— Não há nada acontecendo. Estou apenas... Cumprindo uma promessa. — Tensionei a mandíbula.
— Uma promessa que te deixa tão tenso a ponto de esvaziar uma garrafa de vodca? — Aidan rebateu, o olhar perspicaz. — Qual é o seu problema com ela, ? Ou melhor, qual é o problema com a ideia de eu conhecê-la?
Engoli em seco, a pontada característica apunhalando meu peito. E quando estava prestes a responder, Madisson chamou minha atenção. Roubou o copo já cheio que segurava, virando de uma vez. Ela fez uma careta, limpando as gotículas nos cantos da boca com a mão, aproximando-se de Aidan, mexendo nos cabelos dele com as mãos.
— Preciso chamar a atenção daquele gostoso da mesa ao lado — comentou, apoiando a mão no ombro de Aidan e descendo o corpo, rebolando, os olhos presos no homem que era a sua vítima.
— Quando irá parar de me usar para chamar a atenção dos homens? — Aidan retrucou, iniciando uma discussão engraçada com a mulher.
Ri com o canto dos lábios, decidido a observar a pista de dança, inclinando-me no parapeito. Os dedos batucando o copo de vidro, varrendo o palco em que a dançarina ruiva se apresentava, sendo um borrão ao lado da criatura mais deslumbrante que contemplei naquela boate inteira. Os cabelos pretos caíam sobre os ombros em ondas suaves. A lingerie escura, extremamente provocante, combinava com a máscara, intensificando o mistério da sua identidade.
Seu corpo se movia em sincronia com a batida hipnótica da música, girando na barra de pole dance desafiando a gravidade. A cabeça tombando para trás em um movimento sexy, enquanto as mãos percorriam as curvas atraentes, acenderam minha imaginação. Beberiquei a vodca, e por um breve instante, a imagem de se sobrepôs àquela visão, dançando livre, despreocupadamente, um sorriso radiante iluminando a escuridão, olhando perigosamente para mim.
— Eu preciso dessa também. — Madisson roubou meu copo de novo. — Agora... Estou pronta! — anunciou, remexendo os ombros e me devolvendo o objeto vazio.
— Ela vai passar mal desse jeito — comentei, voltando para a nossa mesa já que o show havia terminado.
— Madisson só quer aproveitar a noite, algo que deveríamos fazer. — Empurrou outra bebida, acendendo um cigarro. — Ela está brava porque viu que vai chover e isso estragará a chapinha dela. — Tragou, soltando a fumaça para cima.
Arquei a sobrancelha, mirando seu rosto levemente vermelho pelo álcool.
— Tem uma previsão de chuva para hoje? — Quis saber, a voz quase trêmula.
— Para as próximas horas, para ser exato, meu amigo. — Alternou entre fumar e beber, pedindo outra garrafa de vodca ao garçom.
Peguei o celular, a garganta arranhando de tão áspera. Abri o aplicativo e verifiquei a meteorologia. O resultado confirmou o que eu temia e fez meu coração acelerar, batendo fortemente contra o peito, parecendo desesperado, prestes a parar a qualquer momento. Os gritos de invadiram minha mente, a dor em cada som, o terror dos trovões a assombrando. Estremeci só pela lembrança.
— Eu preciso ir — anunciei, guardando o aparelho e dando as costas para a mesa.
A urgência dominava meus sentidos, o nó apertado no peito.
— Mas, e a garota gostosa? — Aidan gritou, a voz arrastada.
Pesquei o bilhete que havia guardado no bolso e o deslizei pela mesa em sua direção.
— Tenha uma ótima noite com ela. — Bati em seu ombro. — Vejo você na clínica amanhã. — E em seguida, saí da área VIP como um raio, descendo as escadas com rapidez, cada degrau acelerando meu pulso.
Empurrei as portas de saída, meus olhos capturando o céu nublado, a atmosfera carregada assim como as nuvens escuras. Os relâmpagos clareavam o horizonte em um brilho sinistro. Corri para o estacionamento, os passos prejudicados pelos efeitos da bebida, tentando ao mesmo tempo buscar as chaves nos bolsos da calça de maneira desajeitada.
Ergui o olhar, a visão turva dificultando a busca pelo carro, sendo tudo apenas um borrado de metais com rodas. Passei as mãos no rosto, puxando os cabelos em nervosismo, começando a me desesperar, a frustração e o pânico se misturavam com a culpa por não ter me atentado ao tempo antes de sair. Corri por entre as fileiras, olhando os veículos um por um, me perdendo nos borrões claros e escuros.
Que droga! Eu não deveria ter bebido quase uma garrafa inteira de vodca!
Um táxi seria a opção mais segura e me faria chegar em casa antes do mundo desabar em água. Balancei a cabeça, a ideia sendo uma solução plausível dentro da mente confusa e alcoólica, ao mesmo tempo em que pareceu absurdo deixar meu carro naquela boate. A imagem de Mia sozinha, enquanto se afogava em uma crise de pânico, me consumiu.
— Porra! — xinguei, chutando uma pedra em um reflexo de impotência.
O choque gelado das primeiras gotas na pele me paralisou, os pelos enrijeceram e senti as roupas ficarem úmidas. E foi então que a adrenalina cortou o efeito do álcool, não me restando muito tempo. Comecei a correr entre os carros, apertando o botão do alarme em completo desespero. Parecia um maníaco. O bipe do Hyundai Creta soou, os faróis piscando sendo o ponto familiar na escuridão. Agradeci aos deuses por amenizarem a bebedeira o suficiente para conseguir dirigir até em casa, tendo somente que torcer para não cruzar com alguma viatura militar no caminho.
Entrei no carro, o medo me consumindo. A camiseta estava ensopada, colada ao corpo pela chuva que engrossava a cada instante. Girei a chave na ignição e manobrei, saindo do estacionamento com a esperança de que não fosse tarde demais. Eu lutaria contra o tempo, correria o risco de perder a habilitação, tendo apenas os gritos aterrorizados de como minha única direção.
Cada segundo estava em jogo, o tempo sendo o meu pior inimigo.
Os sonhos refletem as experiências mais fantásticas. A mente é capaz de criar um mundo completamente novo e nos mergulhar nesse paraíso, tornando-se o lugar onde os desejos e a positividade se encontram em uma dança encantadora. Mas quando a escuridão invade a perfeição, construindo um reino de terrores viscerais, o nosso coração fica prestes a entrar em colapso, sendo esmagado pelo peso do medo, a perturbação o dilacerando a cada instante.
E eu estava prestes a ir de encontro com o pior pesadelo da minha vida.
Girei a maçaneta, empurrando a porta com urgência, depois de passar longos minutos com os dedos trêmulos, perdidos, no emaranhado de chaves. Maldito nervosismo. Deslizei a mão pelos cabelos, os fios encharcados assim como as roupas. Apertei o interruptor, a luz iluminando a sala escura, que estava sendo clareada apenas pela televisão, exibindo os créditos do filme com uma melodia dramática.
A chuva densa cobria Nova Jersey, prometendo lavar cada pedacinho da cidade por longas horas a fim. A meteorologia anunciava que somente no dia seguinte o céu ficaria calmo e sem resquícios de tempestades. E eu deveria estar comemorando por ter o privilégio de dormir ao som das gotas tocando o chão na canção mais aconchegante do universo, mas pela primeira vez em anos, estava com medo, o gosto amargo da bile subindo pela garganta.
Os gritos insistiam em ecoar na minha mente, grudando como um chiclete pegajoso.
Caminhei pela casa, vencendo a distância até o sofá, onde encontrei as duas mulheres que insistiam em virar a minha vida de cabeça para baixo. Elas dormiam tranquilamente, causando uma sensação de alívio imediato no peito. tinha a cabeça sobre o meu travesseiro, os cabelos esparramados para todos os lados, o corpo de lado e em uma das mãos tinha um livro aberto, enquanto a outra segurava a pequena, parecendo protegê-la mesmo adormecida. Agradeci aos deuses por não terem escutado a chuva.
Cuidadosamente para não acordá-las, envolvi Mia nos braços, notando que minha pele fria a incomodou, já que se remexeu, fazendo uma careta fofa. Alcancei a coberta que estava entre as almofadas, a enrolando para que ficasse aquecida. Balancei os braços suavemente, os movimentos milimetricamente calculados, intercalando com os passos ruidosos e encharcados pelos degraus da escada.
Atravessei o corredor, depositando um beijo na cabeça dela, antes de empurrar a porta do seu quarto com o cotovelo. Não me preocupei em acender a luz, deixando-me ser guiado pela iluminação que entrava pela janela. Parei diante do berço e a aconcheguei no colchão macio, puxando outra coberta, substituindo a que já se encontrava levemente úmida. Deslizei os dedos pelas bochechas gordinhas, curvando um sorriso quando ela se virou, em um sono profundo e tranquilo.
Saí do quarto em silêncio, fechando a porta com um cuidado que nem sabia que existia. Encarei o corredor, a claridade iluminou as paredes quando um raio cortou o céu. O estrondo explodiu no horizonte, tremendo a cidade inteira. Cessei os passos, apoiando as mãos no parapeito de proteção, atento aos sons no andar de baixo. Qualquer grito ou desespero que saísse da boca de , eu estaria disposto a me jogar daquela altura para encontrá-la.
Não tinha ideia do que estava acontecendo comigo, mas só de imaginá-la chorando e implorando para que a chuva parasse, meu coração rasgava-se em milhões de pedaços.
Engoli em seco, ficando longos minutos parado, os batimentos descompassados nos ouvidos. Fechei os olhos e suspirei, esfregando o rosto com as mãos, decidindo seguir o meu caminho, rumo ao quarto principal para trocar as roupas ensopadas – que já começavam a colar na pele – por peças limpas e secas. Como um jato, empurrei a porta, voando em direção ao guarda-roupa. Agarrei a primeira combinação que julguei aceitável para passar a noite: uma bermuda e uma camiseta de algodão, ambas simples e pretas.
Larguei os tênis em um canto qualquer, sentindo a temperatura fria do porcelanato sobre os pés enquanto fazia o caminho de volta para a sala, a claridade dos relâmpagos iluminando meus passos. Desci as escadas, percebendo que nem sequer tinha se movido. Soltei o ar dos pulmões sem perceber que o tinha prendido. Não demorei muito para vencer a distância até o sofá, procurando pelo controle entre as almofadas e desligar a televisão que ainda tocava a melodia dramática.
Sentei-me ao lado do corpo adormecido, afastando alguns fios teimosos do rosto dela. O semblante tão sereno me remetia a uma calmaria sem fim. Acariciei em círculos a bochecha levemente ruborizada, o calor abraçando meus dedos em uma ardência estranhamente familiar, despertando em mim uma ternura imediata. Seus lábios entreabertos exalavam um suspiro suave, e em um impulso quase incontrolável, inclinei-me, o arrepio percorrendo minha espinha com a intensidade do seu perfume, a fragrância frutada de romã e verbena hipnotizante.
— . — Toquei o ombro delicado, acariciando com o polegar.
Ela resmungou algo desconexo, parecendo mais um grunhido.
Meus lábios curvaram-se em um sorriso, uma corrente elétrica que me fez levantar e cuidadosamente a envolver nos braços, aconchegando seu corpo contra meu peito. Em outro impulso aproximei o rosto dos seus cabelos escuros, macios e sedosos. Fechei os olhos, expirando o cheiro de argan e manteiga de cacau, suave e tão gostoso, que era capaz de causar uma confusão nos meus sentidos. Talvez fosse apenas o alívio de vê-la em paz, ou talvez, fosse algo desconhecido que estivesse crescendo no interior do meu peito carregado de eletricidade.
— O que você está fazendo comigo, coelhinha? — sussurrei, completamente enfeitiçado por ela.
se remexeu, esfregando a cabeça contra meu peito, como uma gata manhosa buscando calor e segurança. Não contive o sorriso ao observar a cena, hipnotizado pela beleza dela, uma doçura inesperada florescendo em meu peito. Subi de novo as escadas, dessa vez os passos no automático, não conseguindo desviar os olhos dos traços delicados suavizados pelo sono. Os olhos fechados tão entregues à inconsciência que nem parecia a mesma mulher que tem medo de chuva.
Parei em frente à porta do quarto, tão encantado por ela que nem sequer percebi para onde estava indo. Aconcheguei seu corpo contra o colchão, observando a respiração calma movendo os ombros levemente sob o cobertor amassado. Uma onda súbita de proteção me invadiu, o desejo de afastar qualquer coisa que pudesse perturbar aquela paz, e estava disposto a fazer de tudo para que o trovão que cortou o céu naquele instante não a fizesse mergulhar de cabeça nos seus pesadelos.
Encarei a janela em um movimento urgente, correndo para puxar as cortinas com força, impedindo que a claridade lancinante dos relâmpagos invadisse o quarto. O gemido torturante, carregado de terror, causou arrepios na minha espinha como uma descarga elétrica. Os batimentos cardíacos aceleraram a um ritmo frenético quase insuportável.
Outro estrondo irrompeu no céu com uma fúria ensurdecedora, mais alto e visceral do que os anteriores, sacudindo as paredes da casa igual a folhas frágeis de papel. A chuva do lado de fora se intensificou, transformando-se numa torrente implacável, a água batendo contra o vidro da janela com força em um ataque violento, ameaçando engolir tudo ao seu redor, inclusive o meu coração.
— Por favor... Por favor, me deixem em paz! — gritou, a voz esganiçada pelo desespero, um grito cortante.
Atravessei o quarto como um raio com a visão do corpo pequeno se debatendo convulsivamente na cama. As lágrimas desciam pelo rosto, antes tão calmo, deixando rastros de puro terror. Seus olhos cerrados tentavam bloquear a visão do pior monstro do universo. Sem hesitar, subi no colchão e a puxei para os meus braços, causando uma reação imediata e desesperadora. tentou se desvencilhar, os braços e pernas se moveram em espasmos involuntários, distribuindo socos e tapas cegos que atingiam meu corpo.
De repente, senti a dor pungente de suas unhas cravando fundo na pele dos meus antebraços. Uma agonia cortante e absurda que se intensificava a cada movimento do seu corpo, tentando escapar do meu abraço.
— SAI DAQUI! ME SOLTA! — berrou, a voz rouca e carregada de pânico, o corpo retorcendo-se em uma luta desesperadora.
— Não vou a lugar nenhum, . — A apertei mais.
Segurei seu braço antes que acertasse um soco na lateral do meu rosto, prendendo-a com força quando começou a tentar me chutar, as pernas balançando em desespero. Meu coração partiu-se ao meio quando ela começou a chorar e implorar que a deixassem em paz, seus olhos ainda estavam fechados, as bochechas vermelhas e as sobrancelhas apertadas. Eu não sabia dizer se estava ou não acordada, mas tinha certeza de que estava presa em uma crise de pânico, igual àquela noite, a única diferença era que eu estava ali para acalmá-la, e não estava disposto a soltá-la nem que o mundo acabasse.
— Sou eu, coelhinha — sussurrei perto do ouvido dela, o nó se formando em minha garganta conforme os soluços me invadiam. — Sou eu. Está tudo bem... Você tem que se acalmar.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAA — ela gritou assim que outro estrondo estourou no céu. — Me solta! ME SOLTAAAA! — berrou entre soluços sofridos, a voz embargada.
— Sou eu, pequena, sou eu... — Vê-la daquele jeito estava me dilacerando. — Escute a minha voz, ... Está tudo bem... — falei no pé do seu ouvido.
— Não está... Eles... Eles... — fungou, agarrando o tecido da minha camiseta.
Se espremeu contra o meu peito e enfiou a cabeça contra o pescoço.
— Coelhinha, precisa se acalmar. Eu estou aqui. — Passei o braço pela sua cintura, trazendo-a para mais perto. — Eu não vou machucar você... Quero protegê-la dos seus monstros. E não irei embora, nunca irei deixá-la sozinha. — Encostei o corpo contra a cabeceira, aconchegando-a melhor, nos cobrindo com a coberta.
estava ofegante, a respiração entrecortada e os soluços abafados contra meu tronco. Ela fungava compulsivamente, um som doloroso que ecoava pelo quarto. Ela tremia de uma maneira visceral que nunca tinha visto, espasmos pequenos e incontroláveis a percorrendo, lutando com os monstros invisíveis que a assombravam há muito tempo, sempre sozinha. O medo a prendia em um nó sufocante, tornando-se difícil até de respirar.
— Me deixe te ajudar, pequena... Quero protegê-la. — Colei minha boca em seu ouvido, torcendo para que conseguisse me ouvir. — Não tenha medo de mim, eu não vou te machucar. — Fechei os olhos, depositando um beijo terno em sua testa e me repreendi pelo afeto no momento seguinte, mas ignorei tudo o que isso significava, não me importando com mais nada, apenas ela. — Pode chorar no meu ombro, . Estou aqui para você, e não irei a lugar algum. Ficarei aqui a noite inteira, só respire devagar, por favor — implorei, temendo que ela desmaiasse por não conseguir puxar o ar.
Deslizei a mão pelos cabelos macios, movendo os dedos em um afago lento e constante, sentindo a tensão dos seus ombros ceder aos poucos sob meu toque, mesmo com a fúria da chuva chicoteando o telhado. Se pudesse, ficaria ali a noite inteira, como um guardião contra os seus demônios. E apesar de não ter dormido com nenhuma mulher depois da Nora, com , estava disposto a fazer isso, mesmo que ela me odiasse no dia seguinte.
— O que aconteceu com você, pequena? — murmurei, a voz rouca e baixa, acompanhando o ritmo da sua respiração. — Quando foi que passou a ser assombrada desse jeito? — Acariciei seus cabelos, o aroma sutil e adocicado invadindo meus instintos, fechei os olhos quando depositei outro beijo contra sua testa. Meus lábios permaneceram ali, incapazes de se afastar, buscando um conforto inexplicável no calor da sua pele. — Vai ficar tudo bem, eu prometo, coelhinha.
Ela nunca mais enfrentaria a fúria dos seus demônios sozinha. Porque eu sempre seguraria a sua mão na escuridão.
As próximas horas se arrastaram como uma eternidade. Acordei com uma insuportável dor no pescoço, a cabeça tombada para o lado ainda apoiada sobre a de , seus cabelos macios sendo o meu amparo. Minhas costas reclamaram quando ousei me mexer, implorando para me deitar em uma cama dura onde pudesse esticar o corpo. Além disso, os efeitos da ressaca chegaram, causando mais estrago.
Merda, eu estaria fodido ao amanhecer.
Lentamente deslizei pela cama, soltando os braços de que estavam ao meu redor, abraçando minha cintura como se fosse a sua última esperança. Apoiei sua cabeça sobre um dos travesseiros, puxando a coberta e a enrolando no tecido, evitando que a pequena brisa da noite a atingisse. A chuva ainda caía do lado de fora, deixando claro que não daria trégua para Nova Jersey tão cedo, mas pelo menos estava mais calma; os relâmpagos cortavam o céu em absoluto silêncio.
Verifiquei o celular que havia deixado sobre a mesa de cabeceira quando troquei de roupa mais cedo. 3h45. Madrugada. Fechei os olhos e suspirei, olhando em seguida para o corpo feminino adormecido, o rosto retorcido e ainda vermelho pelo choro, os olhos inchados e os lábios carnudos entreabertos. era como um anjo, a pele clara e os cabelos pretos reluzindo com a imagem angelical, suas asas com certeza seriam sinônimo de perfeição, tornando-a a criatura mais magnífica do universo.
Como era possível um ser tão belo ser assombrado por tantos demônios?
Balancei a cabeça, massageando a nuca na intenção de que a dor latejante se apaziguasse, mesmo que fosse por apenas alguns minutos. Sai do quarto, calculando milimetricamente a intensidade dos passos para que não fizessem barulho. Empurrei a porta, deixando uma pequena fresta, pois o som da maçaneta poderia acordá-la. Passei rapidamente para olhar Mia, encontrando-a mergulhada em um sono profundo. Ajeitei a coberta sobre ela e deixei um beijo no topo de sua cabeça, ligando o abajur de ovelha, para que, caso acordasse, não se deparasse com a completa escuridão.
Voltei para o corredor, descendo as escadas enquanto olhava para a tela do celular, decorada por mensagens dos meus dois amigos. Não segurei o riso quando a foto deles apareceu. Eles saíram da boate completamente encharcados e ela com a maquiagem borrada, os olhos pretos como um urso panda. Arrastei para o lado e me deparei com um vídeo onde ambos brigavam e Madisson o estapeava, gritando que por culpa de Aidan foi obrigada a estragar o cabelo que demorou horas para alisar. Eles formavam uma bela dupla, apesar de na maioria das vezes parecerem duas crianças birrentas.
Fui para a cozinha ainda rindo, e enquanto digitava a mensagem, a mão buscou instintivamente a porta da geladeira. Precisava da caixa de água de coco que comprei no dia anterior, um investimento que sempre foi um aliado para aliviar os sintomas da ressaca. Abandonei o celular sobre o balcão e inclinei a cabeça, permitindo que o líquido gelado deslizasse pela garganta, causando o choque térmico quase imediato. Meus órgãos congelaram por um instante e fiz uma careta involuntária, os dentes cerrados em um pedido mudo por uma trégua daquela agressão.
Encarei a janela, os pingos insistentes batucando contra o vidro, clamando por atenção. As gotículas redondas reluziam a luz branca e fria fluorescente da cozinha, transformando a superfície em uma tela cintilante, uma paisagem linda e hipnotizante. Caminhei até a pia, levando a caixa comigo, desta vez, tomando goles pequenos e controlados, evitando que o choque repentino acontecesse novamente. O raio silencioso rasgou o horizonte quando ergui os olhos para o céu, vibrante e recheado de uma angústia que não pude evitar.
— Você sabia das crises, Noah? — Outro clarão se propagou, iluminando brevemente a escuridão.
Deixei a bebida de lado, apoiando as mãos na beirada fria do mármore. Fechei os olhos, um suspiro cansado escapou por entre os lábios, o ar se esvaziando dos pulmões de um jeito quase dolorido. Uma fisgada brutal atingiu o meu peito, o arrepio gélido percorreu pela espinha, a sensação lancinante me dominando, como se o meu coração estivesse sendo esmagado por uma força invisível somente por pensar nela.
— Eu não sei o que fazer para ajudá-la, cara... — murmurei sozinho, a voz rouca ecoando no silêncio, esperando que, de alguma forma, Noah pudesse me dar as respostas que tanto precisava. — O que você faria no meu lugar? — Mirei o céu escuro, as gotas caindo com intensidade melancólica.
No entanto, em resposta à minha súplica, tive a textura felpuda, macia e calorosa se esfregando contra os braços estendidos. Encarei a criaturinha preta, seus olhos amarelos brilhando em duas esferas cheias de brasas, enquanto se sentava à minha frente, a cabeça inclinada, analisando meu rosto com interesse. O focinho minúsculo e úmido se movia com uma calma infinita, e o ronronado profundo tinha o poder de absorver todos os meus medos. A angústia diminuiu, sendo roubada pelo felino.
— Como ela enfrentou tudo isso sozinha, Sky? — Acariciei sua cabeça, distribuindo o carinho lento atrás das orelhas pontudas.
Uma corda invisível apertou ao redor do meu pescoço, o nó no fundo da garganta me sufocando. Não conseguia pensar na possibilidade de ter escondido as crises até mesmo do seu irmão, passando por tudo sozinha, tendo como sua única companhia a solidão do quarto. E o que tanto a assombrava? O que aconteceu para um fenômeno tão belo como a chuva a assustar desse jeito?
Ela sempre foi uma mulher forte, mas não tinha que passar por isso sozinha.
O estrondo do trovão explodiu no lado de fora, arrancando-me dos devaneios. As gotas, agora, batendo com mais força contra a janela, a chuva aumentando mais uma vez. Olhei para o felino que ainda me estudava e alarguei um sorriso, o delinquente ansiava por um pacote de sachê, mas estava tarde demais para comer, além disso, o alimentava sempre que miava, deixando possivelmente sua taxa de sódio nas alturas.
O peguei no colo, acariciando sua cabeça, enquanto se aconchegava em meus braços. Seguimos para a sala, onde o deixei entre as almofadas e subi para o quarto, ouvindo o som da água correndo pelo telhado com agressividade. Eu estaria lá quando acordasse. Passaria a noite inteira ao seu lado se fosse preciso, sendo incapaz de me afastar, mesmo que isso me custasse a cabeça no dia seguinte. Seria o seu protetor naquela noite. Cuidaria dela enquanto estivesse chovendo.
Os primeiros raios solares começavam a decorar o horizonte. A claridade entrou pela janela, batendo em cheio no meu rosto. Obriguei os olhos a se apertarem, ao mesmo tempo, em que puxava o ar profundamente. Havia uma pequena ardência na ponta do nariz, resultado de mais uma noite de chuva e crise de pânico.
No entanto, dessa vez, tinha sonhado que braços fortes me envolviam. Os músculos criavam uma barreira contra os demônios de uma maneira que consegui dormir tranquila por longas horas. E até tentei ver o rosto do meu salvador, só que tudo o que encontrei foi um grande e reluzente círculo branco escondendo sua identidade.
Senti a estrutura firme e quente tocando suavemente a palma da minha mão. Tateei por cima do tecido, os músculos do peitoral sendo delineados pelos dedos. Sorri inconscientemente, aconchegando a cabeça no travesseiro macio, sendo abraçada pelos lençóis, quando o cheiro alcoólico forte se misturou com as notas de cedro e pimenta preta, estapeando meu rosto.
Fui puxada tão bruscamente para a realidade que o coração errou uma batida ao encontrar o rosto adormecido ao meu lado.
Arregalei os olhos, reconhecendo o perfume que tanto usava para os personagens nos livros. Mirei o homem completamente imerso em um sono profundo. O queixo sobre meus cabelos e os braços musculosos envolviam a minha cintura, do mesmo modo que eu o abraçava, parecendo com medo que fosse se afastar. Meu rosto se encontrava a centímetros de distância do seu peito, ansiando pelo toque quente da pele nua, se não fosse pela camiseta preta que usava.
Foi então que as peças se encaixaram. Pequenas lembranças distorcidas passaram como borrões em minha mente. As mãos imundas de Kaleb me tocando, quando de repente alguém aparecia no pesadelo e o empurrava, golpeando o homem com violência. Pisquei astuta, lembrando de ser envolvida pelos seus braços, com ele sussurrando palavras doces que me deixavam amparada, calma, relaxada.
Dei um salto, querendo distância, parecendo diante de uma cobra peçonhenta que se preparava para dar o bote. Cambaleei para fora da cama, quase me desequilibrando ao escorregar no azulejo. Engoli em seco, arrastando os pés para trás com destreza, a garganta seca igual ao deserto. Minha respiração estava acelerada, emparelhando com o coração que esmurrava contra as costelas. O órgão queria saltar e correr para qualquer lugar que fosse o mais longe daquele quarto e se esconder.
Balancei a cabeça quando o cérebro traiçoeiro uniu as peças e formou o rosto do desconhecido. As sobrancelhas grossas emolduravam os olhos azuis amendoados; os cabelos loiros escuros se perdiam entre as mechas avermelhadas, puxando para um tom cobre e dourado; a barba por fazer delineava o maxilar forte e marcado; e a boca era uma linha fina perfeita, sempre pronta para lançar um sorriso malicioso.
O desconhecido agora tinha nome e sobrenome. Que maravilha!
Obriguei as pernas a se moverem, tropeçando nos próprios pés e esbarrei contra a cômoda. O estrondo foi quase ensurdecedor. Milhares de pedacinhos de vidro voaram pelo quarto, nadando na água que escorria pelo azulejo e agora molhava minhas roupas. As belíssimas rosas encontraram o chão em um baque seco, as pétalas se soltando do receptáculo de maneira agressiva. Ergui os olhos arregalados para a cama e a garganta fechou ao ver o corpo do homem se espreguiçando.
Rapidamente agarrei o abajur em cima da cômoda e segurei como se fosse a arma mais letal do universo.
— O que, caralhos, significa isso? — gritei, a voz esganiçada.
apertou os olhos com os dedos, fazendo esforço para levantar o tronco e se sentar na cama. Os cabelos bagunçados davam um charme que me amaldiçoei por ter notado.
— Será que você pode, por favor... falar um pouco mais baixo? — seu pedido soou como um sussurro arrastado. — E as cortinas... — Espremeu os olhos, indicando a janela. — Se importaria de fechar? — suspirou, cobrindo o rosto com as mãos.
Franzi o cenho, atendendo ao seu lamento. Soltei o abajur ao notar que ele não seria ameaça nem para uma mosca naquele momento.
— Você se torna um lorde de ressaca. Incrível! — zombei, puxando as cortinas com precisão.
— E você precisaria tomar um barril de álcool para se tornar uma princesa. — resmungou e, em seguida, xingou quando puxei os tecidos. A luz do sol invadiu com brutalidade. — ! — berrou, o corpo curvado.
— Você virou um vampiro das trevas, ? — Pressionei os lábios, segurando o riso. — A luz do sol é vitamina pura.
— Eu estou com uma puta ressaca e com zero ânimo para discutir com você! — Jogou-se na cama, espremendo o travesseiro sobre o rosto.
— Só vou fechar, porque quero que me diga o que está fazendo na minha cama. — Tentei soar controlada, apesar da curiosidade estar me matando.
Puxei as cortinas e certifiquei-me de que nenhum milímetro dos raios solares atrapalhasse nossa conversa. O cretino me devia respostas.
— Sua cama?
Ele jogou o travesseiro longe, encarando o teto por alguns segundos, antes de se levantar bruscamente, com a expressão de quem viu um fantasma, e olhar ao redor. Massageou a têmpora quando provavelmente foi atingido por uma pontada aguda na cabeça. Grunhiu, ainda analisando os detalhes do quarto.
Revirei os olhos, para no instante seguinte ser consumida por uma onda de euforia e surpresa ao olhar ao redor.
— Esse quarto... — murmurei. Pairei os olhos sobre os móveis perfeitamente arrumados.
A cama de casal imensa tinha os lençóis brancos que combinavam perfeitamente com a cabeceira cinza clara. Os travesseiros grandes eram reconfortantes e o edredom macio como uma pluma. Havia uma mesa de cabeceira onde estava o abajur que usei como arma, e era o lugar do vaso de rosas, junto com alguns livros — que provavelmente pertenciam a Noah. Depois, em frente à janela, havia um pequeno sofá retrátil com almofadas em tons claros.
Ao lado da porta ficava a cômoda com um espelho que servia para auxiliar na hora de arrumar os cabelos ou fazer uma impecável maquiagem. E o guarda-roupas ocupava o restante da parede ao lado da janela, luxuoso e imenso. Os espelhos nas portas quebravam completamente o ar de privacidade. E por fim, em frente à cama, havia uma televisão de 50 polegadas que deveria ficar incrível exibindo um filme romântico.
Lily e Noah não mediram esforços para criar o ambiente mais aconchegante da casa. Tudo cheirava a luxo e tranquilidade.
— É o quarto deles — constatou, o rosto incrédulo.
E foi com as expressões dele que a fúria começou a consumir meu âmbito aos poucos. O cérebro pareceu ter levado uma injeção de esquecimento, já que não conseguia nem formular imagens claras da noite anterior. Tudo o que me lembrava era de estar assistindo a Querido John com Mia e o resto se tornava borrões. Então, como acabei dormindo na mesma cama que aquele homem, no quarto dos nossos irmãos? Será que ficamos tão bêbados a ponto de esquecer os próprios nomes e sucumbimos a um desejo inexistente? Mas, então, por que só ele sofria com os efeitos da ressaca?
Balancei a cabeça, decidida a arrancar qualquer mínima informação da boca de , nem que para isso tivesse que fazer suas retinas fritarem com o sol.
— O que aconteceu ontem à noite? — perguntei, quebrando o silêncio.
— Quer mesmo perguntar isso a uma pessoa de ressaca? — Apertou os olhos com os dedos. O suspiro escapou dos seus lábios.
— Você é a minha única esperança sobre o que houve nesse quarto. — Apontei o dedo em riste.
— Sinto em te decepcionar, coelhinha. — Curvou a boca em um sorriso de canto. — Mas apenas me lembro das garotas gostosas da boate.
Era um pesadelo. E eu precisava acordar nos próximos minutos, senão ia enlouquecer.
— Você é nojento, — grunhi, enraivecida. — E não me chame desse jeito!
Ele riu irônico.
— Não se importou das outras vezes. — Passou as mãos pelos cabelos, desgrenhando mais os fios. — Por que está tão na defensiva?
— Não estou na defensiva, eu só quero saber o que houve entre a gente. — Engoli em seco, impedindo que começasse a imaginar qualquer coisa com ele.
— Não houve nada. — Levantou-se da cama, cambaleando. — Ah… Preciso de um banho. O seu perfume está me deixando enjoado. — Fez uma careta, massageando a nuca.
Rolei os olhos, os braços cruzados na frente do peito. estalou o pescoço, indo para o banheiro da suíte do quarto, se arrastando como se estivesse preso a uma pedra, mas antes que ele fechasse a porta, gritei:
— Aproveite e tire esse cheiro de álcool que está poluindo a casa! — Jurei que o ouvi me xingando, mas a batida brusca da porta ofuscou a sua voz.
Sentei-me na cama, o corpo exausto, cobrindo o rosto com as mãos. Esforcei o cérebro ao máximo para preencher o vazio que pairava sobre a noite anterior. Buscaria por respostas sozinha, já que o imbecil parecia mais desmemoriado do que eu. O som do chuveiro irrompeu, brevemente a concentração, e a imagem de sob a água invadiu minha mente de maneira anormal, pegajosa, recusando-se a sair.
Engoli em seco, fechando os olhos automaticamente. Minha imaginação perversa via os ombros largos e suas costas musculosas serem engolidos pela água. Seus dedos penetraram os cabelos úmidos, puxando-os para trás, e então o corpo dele se virou. E, porra, nada me preparou para o que minha mente projetou.
O peitoral definido e o abdômen torneado, agora molhados e brilhantes, pareciam uma obra de arte. Seus olhos, antes azuis amendoados, se tornaram um oceano de luxúria, me possuindo com o brilho animalesco no fundo das pupilas. Ele me devorava aos poucos, pegando cada pedacinho para si. A mandíbula relaxada, a boca levemente aberta, e o jato de água cumpria perfeitamente o seu trabalho, escorrendo por cada curva daquele corpo esculpido.
Era a visão da verdadeira perdição. A linha em V do quadril atraía minha atenção de forma magnética, desejando que fosse mais ousada, que vencesse a distância e o tocasse… Mas fui mais forte do que isso, bloqueando o avanço da própria fantasia.
Levantei-me da cama como um raio. A garganta tão seca que quase me engasguei. O que estava acontecendo comigo? Como se não bastasse acordar na mesma cama que , agora tinha de lidar com os pensamentos intrometidos me desconcertando, e o pior de tudo: excitando. Meu corpo parecia ter vida própria, sendo puxada para ele. A corda invisível nos envolvia, prestes a nos jogar do abismo.
Minha mente se tornou um campo minado. Em um instante, revivia os toques imundos de Kaleb, a dor cortante e o desespero paralisante. Para no outro, fantasiar com , nu e molhado no chuveiro, um desejo que não queria admitir fervendo sob a pele. Como eu podia sentir o fogo tão intenso por um homem depois de ter sido quebrada por outro? Era uma hipocrisia cruel da minha própria biologia, um lembrete constante de que, apesar de todo o medo e repulsa, meu corpo ainda ansiava por algo, mesmo que fosse a mais pura perdição.
Soltei o ar pesadamente pela boca, decidida a fugir do quarto e ficar longe daquele homem. Tinha certeza de que eram apenas os hormônios da TPM conspirando para me enlouquecer, como sempre faziam todos os meses. Atravessei o corredor, esfreguei os olhos – provavelmente ainda inchados – durante o caminho, até chegar à escadaria. Os pés se moviam no automático, enquanto ouvia o estômago roncar como um buraco negro, doido para se entupir com açúcar ou qualquer outra coisa doce que Greta tivesse preparado.
A dieta que aprendesse a perdoar, porque tudo o que mais me irritava agora era um bolo de banana sem açúcar.
O cheiro do café preenchia cada canto da casa, inclusive minhas narinas, que se embriagavam com o aroma delicioso. Foi quando uma voz diferente atingiu meus tímpanos. Fina, aveludada, carregada de uma calma profissional. Arqueei a sobrancelha, aumentando o passo até a cozinha e me deparei com a mulher ruiva, os cabelos cacheados caindo sobre os ombros, sentada em um dos bancos da bancada. As pernas cruzadas elegantemente denunciavam a postura controlada e notável.
Estreitei os olhos, sentindo uma pontada aguda cutucar a parede interna do estômago, ao mesmo tempo, em que o calor esquentou a base do pescoço. Não era possível que tivesse a audácia de trazer uma das suas “amiguinhas” para a nossa casa e depois se refugiar na minha cama como um perfeito delinquente. Mordi a língua, evitando que o xingamento saísse, e optei por vestir a máscara do sorriso cínico, enquanto finalmente entrava na cozinha.
— Bom dia — declarei, atraindo a atenção de Greta que cozinhava algo cheiroso no fogão.
— , querida! — O sorriso dela se alargou.
E enquanto isso, sentia minha pele queimando sob o olhar da ruiva misteriosa. Ela esboçou apenas um aceno de cabeça, os olhos percorrendo cada cantinho da cozinha como um cão farejador.
Disfarcei o desconforto, sendo atraída pela risada e os resmungos de Mia, que brincava com a tigela cheia de salada de frutas, usando a colher como se fosse uma espada. Sorri quando ela levou o pedaço de mamão até a boca para depois jogá-lo no chão, rindo em seguida. Ela olhou para baixo e encontrou Sky conferindo o minúsculo quadrado laranja. Ele o abocanhou e correu para a sala, o rabo peludo balançando em uma vitória.
— E aqui está minha pequena vilã de mamão. — Venci o espaço até a cadeirinha de alimentação. — Transformando a salada de frutas em um campo de batalha, que coisa feia, Mia — brinquei, depositando um beijo em sua cabeça.
Mia gargalhou, levantando os braços, os dedos sujos de fruta. O sorriso dela era contagiante, uma bolha de inocência em meio ao caos, sendo capaz de me fazer esquecer por um breve momento que estava sendo observada. Limpei o rosto dela com o babador e puxei uma cadeira para o seu lado, tratando de pegar um pedaço de banana e imitar um avião no ar, com direito a barulho e tudo.
Ela amava quando fazia isso nas poucas vezes em que preparava o café da manhã, e desde então passei a plagiar sua técnica.
— A Mia gosta de ficar jogando comida para o gatinho. São como parceiros de crime — Greta comentou, enxugando as mãos com o guardanapo.
— Ela é uma graça. — A ruiva virou a cabeça, observando a cena, enquanto segurava a xícara de café. Sua expressão analítica parecia perfurar minha pele.
Respirei profundamente.
— Desculpe, acho que ainda não fomos apresentadas — levantei-me, indo em sua direção e estendendo a mão. — Sou a , é um prazer.
Ela encarou minha mão como se fosse uma bomba-relógio prestes a explodir. Seus olhos esquadrinharam meu rosto por alguns instantes antes de descer para as minhas roupas — uma camisola curta com babados de cor azul bebê —, se demorando ali por alguns minutos.
— Eu sei quem você é. — Foi clara e sem rodeios, o tom neutro, enquanto bebericava a bebida.
Franzi o cenho, incomodada com sua atitude. Encarei Greta, que fez um gesto silencioso para o pequeno crachá pendurado no bolso da camiseta social da mulher. E, quando estava prestes a olhar mais de perto o que ela tentava me mostrar, não foi preciso muito esforço para descobrir de quem se tratava a visita à minha frente.
— Sou a Charlotte. A assistente social. — finalmente ofereceu um sorriso pequeno e voltou a me olhar, me analisando de cima a baixo com escrutínio.
Ela tinha o dom de me fazer sentir nua mesmo vestida.
— Não acha que é um pouco tarde para estar usando pijama? — A pergunta soou casual, mas o tom possuía uma crítica velada.
Molhei a garganta com a saliva. O sorriso sem jeito preencheu meus lábios. Gostava mais quando pensei que ela fosse apenas uma “amiga” de . Seria mais fácil de expulsá-la com a vassoura.
— A Mia não me deixou dormir essa noite... — Fui rápida, torcendo para que passasse despercebido por ela.
No entanto, Charlotte estreitou os olhos, parecendo buscar qualquer sinal de mentira em meus movimentos.
— Eu vou chamar o — desconversei, antes que pudesse dizer mais alguma coisa.
O suor frio começava a se acumular em minha testa, durante o caminho que percorri até as escadas. Os passos lentos e os braços estendidos ao lado do corpo tentavam passar uma postura controlada – algo que estava longe de conseguir. Olhei por cima dos ombros em direção à cozinha, apenas para me certificar se ainda era o alvo daquele pastor alemão de cabelos vermelhos. E ao notar que Greta iniciava uma conversa amigável sobre como conheceu Lily e Noah, não hesitei em disparar a corrida pelos degraus.
O alívio de escapar do olhar inquisidor de Charlotte foi temporário. Subi os degraus de dois em dois, o ar quase faltando nos pulmões. Atravessei o corredor, sem reconhecer minha própria pressa, ao entrar no antigo quarto do meu irmão e fechar a porta com urgência. Meu peito subia e descia em desespero, enquanto olhava para os lados, o cérebro trabalhando rapidamente para formular a melhor combinação de roupas. Apertei os olhos em frustração, contendo a vontade de me jogar pela janela. O ar invadiu os pulmões em um suspiro longo, concluindo que apenas precisava de privacidade ou de qualquer coisa que me afastasse daquela situação constrangedora.
O que Charlotte ia achar se soubesse que estava quase entrando em pânico? Com certeza, escreveria na sua ficha que eu seria uma péssima mãe para a Mia.
Antes que eu começasse a roer as unhas, avistei a porta do banheiro da suíte entreaberta. Ainda tinha uma pessoa que precisava estar a par da nossa situação. Não poderia correr o risco de deixá-lo descer as escadas, encontrar a assistente social e fazer mais uma cena ridícula como a minha. Soltei o ar pela boca, caminhando até meu destino, o som da água do chuveiro se tornou mais alto conforme eu empurrava a madeira.
Eu sabia que estava prestes a entrar em uma zona perigosa, mas minha mente já explodia em completo colapso, incapaz de processar o aviso.
Parei no limiar do banheiro, a respiração presa na garganta. O vapor quente embaçava o ar, aquecendo minha pele, conforme criava uma aura quase etérea ao redor do homem que se banhava. A porta do box aberta revelava mais do que eu esperava. Detalhes íntimos demais para meu cérebro suportar sem sofrer uma pane de sistema. Uma força invisível me impedia de desviar o olhar, atraída por ele.
O jato forte da água escorria pelas costas largas; a torrente atenuava a pele bronzeada, delineando cada músculo – um espetáculo de movimento e forma. Meus olhos seguiram da nuca forte, passeando pelos ombros imponentes e pela coluna, até chegar à linha da cintura. E, sem perceber, inclinei a cabeça, impressionada com a visão da bunda redonda.
jogou a cabeça para trás, a água mergulhando seus cabelos loiros escuros. Um suspiro de deleite escapou por entre seus lábios, e reagi quase automaticamente a um som que não me pertencia. O arrepio percorreu cada célula do meu corpo, o calor subindo pelas minhas bochechas, enquanto o formigamento percorreu cada fibra nervosa até o meio das coxas. E antes que fosse consumida pela perdição, cruzei os braços, cobrindo a marca dos seios na camisola fina que parecia uma provocação indecente de tão transparente.
Pigarrei e ele se virou ligeiramente, expondo seu peito esculpido. Minha mandíbula tensionou, não conseguindo desviar o olhar das gotículas que escorriam pelo abdômen definido. Fixei os olhos na linha úmida de pelos escuros que descia do seu umbigo, marcando a trilha perigosa que me convidava a seguir para baixo. Engoli em seco, mirando qualquer outra coisa que não fosse a escultura de carne e desejo à minha frente.
curvou um sorriso de canto dos lábios, lento e provocador. Encarei seu rosto e notei a faísca de surpresa junto com algo a mais – quase animalesco – acendendo em suas pupilas. E bastaram apenas alguns instantes para todo o encanto deslizar pelo ralo e abrir caminho para a raiva crescente em meu âmago.
— Perdeu alguma coisa, coelhinha? — A voz, ainda rouca pela ressaca, era um sussurro sedutor que reverberou em cada célula do meu corpo. — Sim, eu perdi. — Franzi o cenho, aproximando-me do box. — Perdi minha memória e acabei na cama com você. E ainda estou me perguntando como isso aconteceu.
— Procure um psicólogo e pague para ele te hipnotizar. — Deu de ombros, segurando o vidro da porta.
Rolei os olhos, o bico se formando em meus lábios. Por um instante, mirei os olhos azuis e cada traço masculino, pensando nos diversos benefícios que ganharia se acertasse um soco naquele rosto privilegiado pelos deuses. Uma ótima maneira de aliviar o estresse e acabar com sua impertinência — ao mesmo tempo em que seria considerado um pecado.
Vozes surgiram no corredor, vindas das escadas. Olhei para a porta e rapidamente fui arrancada do transe, lembrada do porquê estava ali. Corri para fechá-la assim que ouvi o som de passos se aproximando. Greta deveria estar mostrando a casa para Charlotte, como uma forma de ganhar tempo até que nós estivéssemos prontos para descer e encarar o pastor alemão com olhos treinados, doido para encontrar qualquer falha.
Encostei-me na madeira levemente úmida pelo vapor do chuveiro. Joguei a cabeça para trás, soltando um suspiro longo e sôfrego. Os braços permaneceram estendidos ao lado do corpo. Esfreguei o rosto com as mãos e, a julgar pela sobrancelha arqueada no rosto de , eu deveria estar parecendo uma maluca que acabou de ver um fantasma ou estava me escondendo de um.
— Você parece prestes a entrar em colapso — o cretino comentou.
Limpei o suor que se acumulava na testa, vencendo a distância até ele.
— Eu estou em colapso! — esbravejei. — Acordei na cama dos nossos irmãos; você estava do meu lado; não me lembro de nada e agora a assistente social está lá embaixo esperando pela gente. — Eram muitos acontecimentos catastróficos para se iniciar o dia.
— Não está muito cedo para a assistente social estar aqui? — Retornou para o banho, dando as costas para mim.
— Já são mais de 10h00 da manhã. — E eu ainda estava de pijama.
— Hoje é sábado. Ninguém acorda cedo no sábado. — Deslizou os dedos pelos cabelos úmidos, retirando o excesso de água.
— Seja lá o que você pense sobre isso, , aquela mulher está esperando por nós, analisando cada passo nosso. — Gesticulava em aflição. — Então faça o possível para tirar esse cheiro de ressaca do corpo. — Comecei a andar de um lado para o outro. — Se ela souber que você saiu ontem à noite, ao invés de ficar em casa com a sua filha... Ela vai nos matar e perderemos a guarda na primeira visita.
— , está se preocupando demais. Somos bons para a Mia. — tentou comentar com naturalidade, mas as palavras soaram como se tentasse convencer a si mesmo disso.
Para a assistente social, podemos não ser, e mesmo que pense desse jeito, está na hora de começar a agir como um pai responsável. — Sentei-me na tampa do vaso sanitário, cobrindo o rosto com as mãos.
— Não deixe sua ansiedade te confundir desse jeito.
Era fácil falar quando não se tinha visto o pastor alemão sentado na cozinha e com quem estávamos prestes a lidar. Charlotte rapidamente puxaria o lençol que nos encobria e descobriria cada falha que tivemos com a Mia. Desde o dia em que a busquei atrasada na creche, até a noite em que não sabia o que as crianças comiam.
Juntos somos péssimos pais e não era preciso ser um especialista para ver isso.
— Nos tornamos pais por acaso, . — Levantei-me, roendo a unha do indicador.
Ele desligou o chuveiro, o silêncio pairando entre nós. Puxou a toalha do gancho de metal na parede e a enrolou em volta da cintura, não se importando em secar as gotículas que se acumulavam em seu corpo.
— Escuta, ... — Ele se aproximou e pegou meus pulsos gentilmente. — A Lily e o Noah confiaram a guarda da Mia a nós. — Olhei em seus olhos, encontrando o apoio que nunca imaginei precisar. — E eu… Não sei exatamente o que passou pela cabeça deles quando tomaram essa decisão, mas isso não muda o fato de que confiaram em nós de alguma forma. — Seus polegares acariciaram as costas das minhas mãos. — Juntos, vamos dar um jeito. Vai ficar tudo bem.
Fechei os olhos por alguns segundos e suspirei profundamente, voltando a encará-lo com o semblante cansado.
— E se perdermos a guarda? E se não formos suficientes para ela? — sussurrei, o receio presente em cada palavra.
— Temos que pensar que já somos o suficiente — frisou, capturando meu olhar.
Foi dentro dos glóbulos azuis que me agarrei ao fio da esperança. O nó na garganta se dissipou aos poucos, a ansiedade ainda presente em meu íntimo. estava tão firme e surpreendentemente calmo, que parecia alheio ao caos que estávamos prestes a enfrentar — os sintomas da ressaca desapareceram como o vento. E nunca pensei que seria no calor do seu toque que encontraria um alicerce para me agarrar.
— Ela não parece o tipo de pessoa que vai se contentar com pouco — observei, engolindo em seco.
soltou minhas mãos e bagunçou os fios úmidos. Levou as mãos à cintura e encarou o chão; parecia pensar em uma solução.
— Eu cuido dela — disparou de repente. — Não quero que se preocupe com isso; apenas se concentre em convencê-la.
Ali, parada na sua frente, estudei suas feições e a simples ideia de “cuidando” de Charlotte me trouxe uma mistura estranha de alívio e incerteza. Mas, como veterinário, com toda a certeza saberia lidar melhor com um pastor alemão do que eu.
Então só me restava concentrar na minha parte do plano: pensar nas diversas maneiras diferentes de provar que era uma ótima mãe. Noah confiou sua filha a mim e tudo que poderia fazer em troca era lutar por ela. Esse é o meu dever e, por mais que o medo e a insegurança insistissem em me assombrar, faria o possível para convencer o mundo de que a promessa a meu irmão seria cumprida.
— O que acha que vai convencê-la? — A pergunta saiu antes que eu pudesse evitar, superando meu nervosismo.
agarrou outra toalha no armário da bancada da pia, usando-a para secar o corpo.
— Tente ser persuasiva — aconselhou, esfregando o tecido contra os cabelos. — Mostre que cuidamos da Mia com todo o amor e dedicação. A assistente social tem que ver que a Mia é a nossa prioridade número um, e estamos fazendo o nosso melhor para nos adaptarmos à nova realidade. — Seu discurso parecia ensaiado, quase perfeito, como se tivesse lido sobre isso em algum artigo de “Como ser um bom pai em 7 dias”.
Mordi o lábio inferior enquanto ouvia as batidas aceleradas do meu coração. O tum-tum-tum era o único som a quebrar o silêncio que dominava o banheiro. E, enquanto assistia arrumar os cabelos — de maneira desajeitada — com os próprios dedos em frente ao espelho, notei que uma onda de euforia me consumia. Meus olhos traiçoeiros desceram para o seu peito esculpido, onde algumas gotas ainda deslizavam; a toalha em sua cintura revelava mais do que deveria.
A visão do seu corpo molhado, os músculos delineados pela água, fez um calor estranho e proibido tomar conta de mim. E por um momento, o medo e a insegurança desceram pelo ralo, existindo apenas ele, tomando toda a minha atenção para si. Senti as bochechas esquentarem quando desviei o olhar e percebi que segurava a respiração. Engoli em seco, deixando um grunhido escapar; minha garganta estava mais seca que os rios do deserto.
pareceu notar o pequeno deslize, já que percorreu os olhos pela minha postura. O cenho franzido, enquanto borrifava o perfume na pele bronzeada. O aroma fresco e amadeirado encheu meus pulmões, misturando-se com as notas de cedro e pimenta tão familiares. O universo realmente zombava de mim e se deliciava com todo o meu desconforto.
— Você está bem? — perguntou, a voz baixa, quase um sussurro. A preocupação em seu tom me surpreendeu.
Balancei a cabeça, recuperando a compostura.
— Sim... Estou só um pouco nervosa. — Levei a mão para a nuca, olhava para qualquer ponto que não fosse ele e seus olhos pragmáticos.
— Com a assistente social? — aproximou-se e o espaço do banheiro pareceu diminuir.
— Na verdade, estou pensando na melhor combinação de roupas para descer. — Deslizei pela lateral do banheiro como uma lagartixa e ele fosse o meu predador.
— Não é só isso, é? — Sua voz possuía uma estranha doçura. — Você ainda está agitada por causa de ontem à noite — disparou, sem se mover.
Meu estômago revirou e a garganta secou, arranhando a parede interna. Tudo o que mais queria era fugir daquele pequeno cubículo e ficar longe dele, só não imaginei que ele citasse nossa suposta noite juntos. E mesmo que não estivesse em condições de ficar ali — com os hormônios aflorados — o assunto me interessava. Qualquer informação útil que saísse daquela boca me ajudaria a montar o quebra-cabeça que se formou no meu cérebro.
Ele estava parado, de costas para mim, dando o privilégio de admirar os músculos torneados. Engoli em seco. Não estava em nenhuma condição — e sanidade — de falar com ele naquele estado, sendo um crime ter apenas a toalha ao redor da cintura.
— ... — chamou por sobre o ombro. — Eu me lembro. De tudo — revelou, jogando a bomba no meu colo.
E foi como se o ar se tornasse rarefeito.
O coração disparou. As batidas erráticas me sufocavam, os murros agressivos contra as costelas como um trovão reverberando em meu peito. Algo sussurrava para me afastar. Como se o submundo avisasse que aquela conversa nos faria cruzar uma linha da qual jamais poderíamos voltar.
Mas a curiosidade era mais forte. Do que ele se lembrava? Da minha suposta crise de pânico ou de como acabei na mesma cama que a dele?
— Não é só medo da chuva — constatou, sem que eu precisasse confirmar nada.
Mordi o lábio inferior e cruzei os braços em frente ao peito. A cabeça baixa encarava o chão, escondendo o rubor em meu rosto. Então ele soube, e nem foi preciso palavras para revelar o óbvio. Por um instante, pensei que correr fosse a melhor opção para aquela afirmação, mas isso apenas confirmaria meu constrangimento e a verdade por trás das suas palavras.
virou em minha direção e se aproximou um passo, e senti o calor da sua presença sem precisar levantar o rosto. O silêncio que pairou sobre nós era profundo, carregado de uma expectativa que fazia meu coração sacudir no peito. A intensidade dos seus olhos pairava sobre mim, devorando cada detalhe da minha postura encolhida.
Naquele momento, desejei que um buraco se abrisse no chão e me engolisse. Só para conseguir voltar no tempo e correr, antes que ele percebesse a fissura na minha armadura — que há anos mantive escondida. Mas era tarde, tínhamos atravessado a linha e agora, tinha certeza de que não desistiria até que eu revelasse toda a verdade.
— E-eu não sei do que você está falando... — gaguejei, tentando fugir do inevitável.
— Sabe sim. — Aproximou-se mais, sua postura ereta e analítica como um felino. — Você estava em crise, .
Levantei os olhos para encontrar os dele e o oceano azul profundo, cheio de uma compaixão que nenhum homem sequer demonstrou por mim — exceto meu irmão — me engoliu. Meu peito se apertou por não saber se deveria contar sobre os demônios. O arrepio percorreu meu corpo, o medo de como ele reagiria gelava cada célula; a insegurança de pensar em como me trataria depois de saber que seres tão imundos eram capazes de me assombrar em todos os dias chuvosos.
— ... — chamou, levando as mãos para a lateral dos meus braços.
Seu toque aqueceu minha pele e, por um momento, senti repulsa, uma vontade imensa de empurrá-lo. Queria correr, me esconder no primeiro buraco que encontrasse. Mas os pés não obedeciam, presos ao chão e à intensidade de , sem conseguir fugir dele... Porque, na verdade, acho que não queria me afastar dos seus braços. Ele foi o único que conseguiu me tirar daquele pesadelo e me amparar sem que eu precisasse pedir.
O único homem que se aproximava sem que eu sentisse medo. Ele nunca me machucaria e eu conseguia ver essa verdade em seus olhos tão evidentes. A proteção mesclada nos glóbulos azuis parecia pronta para me envolver em um abraço forte, disposta a qualquer coisa para que eu estivesse segura e longe de qualquer demônio que ousasse se aproximar.
Por um instante, meus joelhos ameaçaram ceder e quis contar toda a verdade, ser protegida por ele. Despejar todo o trauma que me corroía por tanto tempo. Mas o medo da sua rejeição era maior que qualquer obstáculo. Senti as lágrimas arderem no canto dos meus olhos, quando finalmente confessei a mim mesma que não suportaria a ideia de perdê-lo por algo tão sombrio.
— Não é apenas um pesadelo ou uma crise de pânico. — Suas mãos envolveram meu rosto e, por um mísero segundo, não desabei. — O que aconteceu com você? — Percorreu meu semblante, como se a resposta fosse aparecer escrita na minha testa.
Engoli em seco, segurando as lágrimas. não merecia pagar o preço alto por esse fardo.
— Você parecia com dor. — As palavras saíram como agulhas.
Segurei seus pulsos e uma lágrima solitária escapou, escorrendo pela bochecha. Ele a capturou com o polegar. Doía reviver o passado e não poder contar a ele. Eu queria, mas tinha tanto medo; nunca contei a ninguém.
Ele tentou sorrir, querendo me confortar.
— Está tudo bem, coelhinha. — Usou o apelido de maneira tão carinhosa que meu coração deu um solavanco. — Pode confiar em mim.
Eu queria confiar, mas a barreira invisível me impedia de fazê-lo.
— E-eu não me lembro de nada, — apressei-me em dizer. — Só sei que você estava lá e... agradeço por ter me... ajudado. — E deixei que a mentira escapasse sem que percebesse.
— Você se lembra de mim, pequena. Isso já é suficiente. — Ele deu um passo em minha direção, encurtando a distância entre nós.
Como resposta, recuei em direção à porta. percebeu minha hesitação, já que não se moveu e continuou com os olhos fixos nos meus. Uma tentativa silenciosa de me segurar. Suavemente, acariciei os punhos fortes e afastei as mãos do meu rosto, sentindo o protesto ardentemente na pele com a falta de calor. E embora ansiasse por me refugiar em seus braços, sabia que precisava afastá-lo e fazer o certo: ele não deveria se envolver desse jeito.
Forcei um sorriso pequeno, sem os dentes.
— Não importa, ... — sussurrei. — Já passou e vamos só... Esquecer tudo isso... — Mas eu sabia que nunca seria capaz de esquecer.
Então, antes que ele pudesse esboçar qualquer reação ou protesto, afastei-me e corri para fora do banheiro, atravessando o corredor como um raio. Ignorei tudo ao redor e abri caminho para as lágrimas surgirem em uma avalanche desenfreada. Minhas pernas me guiaram direto para o quarto de hóspedes, onde, assim que atravessei pela porta, não hesitei em trancá-la.
Joguei as costas contra a madeira fria e o corpo deslizou até o chão. Os joelhos dobrados contra o peito serviram de apoio para os braços, antes de afundar o rosto ali e deixar que os soluços abafados saíssem. O medo e a vergonha me consumiam, a incapacidade de me abrir com pesava como uma âncora no meu peito.
Eu o queria por perto, ao mesmo tempo em que sabia que era errado. A barreira entre nós era densa demais para cogitar atravessar. E ali, no escuro do meu refúgio pessoal, as lágrimas de frustração e angústia escorriam livremente como um rio de tudo o que eu não podia dizer. Mas, no fundo, sabia que o peso daquela verdade que tanto guardava agora parecia mais pesado do que nunca.
E, conhecendo , ele nunca mais me deixaria em paz até descobrir o que tanto me assombrava. CLICA AQUI PARA LER OS PRÓXIMOS CAPITULOS.

