Revisada: Lightyear 💫
Última Atualização: 11/02/2025Arrumei os cabelos com os dedos, optando por deixar os fios soltos e caídos sobre os ombros. Passei as mãos pelo vestido longo em frente ao espelho do guarda-roupa, apreciando os detalhes delicados em padrões florais e geométricos em preto. Ajeitei as alças finas sobre os ombros, o tecido branco tinha uma parte superior justa com detalhes franzidos na cintura.
Parecia uma indiana belíssima, mas isso não foi suficiente para afastar o sentimento pesado que se apossava do meu estômago. Encarei o reflexo, os olhos sobre o rosto coberto pela camada fina de maquiagem – uma tentativa de cobrir o vermelho da pele. Suspirei, o nariz empinado e levemente inchado. Tentei sorrir, treinando as feições para disfarçar que há alguns minutos desabava no chão do quarto.
E para ser sincera, torcia que Charlotte fosse uma boa pessoa e nem sequer olhasse para mim nas próximas horas. O seu foco era a pequena Mia e não minha péssima postura materna. Além disso, esperava que já tivesse descido e se comportado como um verdadeiro pai de família, ao contrário do homem solteiro e arrogante que gostava de passar suas noites em boates, cheias de testosterona e perfume barato.
Soltei o ar pela boca e esfreguei o rosto com as mãos, tomando cuidado para não borrar a maquiagem. Como o encararia depois do que houve no banheiro? E pior, como o convenceria a esquecer?
Maldita memória!
Ele tinha mesmo que se lembrar de tudo e ter a audácia de revelar isso ao universo? Poderia apenas ter ignorado e fingido que foi apenas uma noite complicada, mas não... Tinha que ter despertado o seu lado protetor — que eu nem sabia existir.
Ajustei os ombros, o espelho sendo uma testemunha silenciosa. Fechei os olhos e tomei uma respiração profunda, soltando-a conforme listava os deveres na mente. Seja gentil; conte a verdade; faça de Mia o seu foco; mostre que é uma boa mãe; e o mais importante: esqueça tudo o que houve no banheiro. As pálpebras pesadas ergueram-se, revelando os olhos castanhos que adotavam uma leve faísca intensa.
Por Noah e Lily, eu lutaria naquela batalha. Sua filha nunca ficaria desamparada se dependesse de mim. E acredito que também estava disposto a lutar por ela ao meu lado.
Quando saí do quarto e, em passos lentos, atravessei o corredor, senti o coração dar um solavanco tão brusco que poderia me causar um infarto. Meu estômago revirava e os pelos dos braços se arrepiavam a cada centímetro que avançava até a escada. Minha mente era um furacão de emoções; pensamentos pessimistas e otimistas duelavam para assumir o controle. E por mais que estivesse prestes a entrar em colapso — mais uma vez — sabia que, no fundo, tinha que me agarrar a Mia.
Porque é por ela que descia as escadas rumo à cozinha, com o medo e a insegurança fazendo um buraco negro na boca do estômago.
Cheguei aos últimos degraus e arqueei uma sobrancelha quando os risos invadiram os tímpanos. Um som divertido e ao mesmo tempo estridente. Franzi o cenho e me aproximei. Naquele momento, minha garganta secou porque nada me preparou para ver debruçado sobre a bancada da cozinha, os braços cruzados, enquanto a mulher ruiva tocava em seu bíceps, sentada no mesmo lugar e rindo como uma hiena. Ela jogava a cabeça para trás, parecendo à vontade demais.
Tensionei a mandíbula, um calor estranho crescendo pela base do pescoço. O sorriso atraente preenchia o rosto dele, reluzindo na escolha de roupas e os cabelos arrumados. Usava uma camiseta de linho cinza, bermuda e tênis brancos impecáveis. Suas vestimentas faziam jus à imagem de pai responsável, além disso, o semblante sereno contradizia qualquer sintoma de ressaca. O cretino soube esconder perfeitamente que voltou bêbado para casa na noite anterior.
Cruzei os braços em frente ao peito, assistindo à cena como se fosse um reality show. Avistei Greta do outro lado da cozinha, com Mia nos braços. Ela balançava o corpo em uma música imaginária que só existia na cabeça dela. A pequena sorria e gargalhava, se divertindo com as caretas que a mulher fazia. Não contive o sorriso ao observá-las.
— É muita gentileza sua, . — Charlotte pousou a xícara no balcão com um estalo seco e só então me notou. — Mas, se não se importa, gostaria de falar de negócios agora. — O seu humor mudou de maneira tão repentina quanto a de uma atriz.
Pressionei os lábios para segurar o riso sarcástico. A expressão de era de alguém que acabara de levar um fora educado e, ao mesmo tempo, frio. Ele realmente achou que o seu “charme” funcionaria? Apenas um ingênuo veria isso como um ótimo plano.o.
— E tem relação com a Mia, então... — a ruiva crispou as sobrancelhas, a pasta de documentos em mãos. — Acredito que o senhor esteja interessado nisso. — Levantou-se, o dando as costas.
Ela se moveu, o aroma do seu perfume de flores silvestres me envolveu quando parou na minha frente. Ergui a cabeça, encontrando os olhos esmeraldas, afiados e analíticos, me corroendo como ácido.
— , podemos conversar em um lugar mais reservado?
Assenti, dando um passo para o lado.
— Podemos usar a sala. — Indiquei o cômodo.
— Será perfeito. — Ela sorriu sem os dentes e saiu, não deixando de olhar ao redor a cada passo.
Curvei os lábios em um bico e empinei o nariz quando voltei a olhar para o homem ainda sentado, debruçado sobre o balcão. Ele dava um longo gole em sua xícara de café, passeando o dedo indicador pelo mármore escuro em círculos imaginários. Os ombros flexionados para frente denunciavam a tensão nos músculos. Massageei a testa e olhei rapidamente para a sala, antes de vencer a distância até , acertando o dedo contra suas costelas.
— Qual é o seu problema? — indaguei, roubando a xícara das suas mãos e bebendo o café amargo. — Esse é o seu plano? — Franzi o cenho, apoiando a mão na cintura.
Ele alargou um sorriso com o canto dos lábios.
— Ela é bonita. E pense pelo lado bom: — Gesticulou. — Se eu a convidar para sair, a guarda da Mia está garantida. — Sua boca curvada era convencida e inacreditável.
— A única garantia que vamos ter é de uma anotação sobre: “Futuro papai da Mia tentou dar em cima da assistente social em troca da sua guarda”. Esplêndido plano!
Apertei a ponte do nariz, controlando a vontade de estapear o rosto dele até que a pele ficasse vermelha e implorasse por piedade. Ele merecia cada tapa.
— Você sabe que ela está te testando, não sabe? — Somente um idiota ousaria fazer tamanha burrice. — Não é assim que vamos conseguir a guarda da Mia. O Noah e a Lily nunca aprovariam uma atrocidade dessas.
— Se depender da nossa reputação... — ele suspirou, passando a mão pelos cabelos. — Nunca provaremos que somos capazes de cuidar de uma criança. Então é um ótimo plano.
Mordi o lábio inferior.
— E você prefere provar isso fazendo sexo? — arquei uma sobrancelha. — Essa mulher está fingindo, é uma manipuladora, . Ela faria qualquer coisa para ver até onde iríamos chegar. Não percebeu o riso falso e a postura que mudou quando cheguei na cozinha?
— É uma alternativa bastante válida, estou preparado para o sacrifício. — ele ignorou tudo o que eu disse. Ótimo!
— Você não vai fazer isso! — bradei, a fúria subindo a cabeça.
Esfreguei as mãos no rosto e tive que apoiar as mãos na borda da bancada, já que a leve vertigem atingiu meu corpo.
Pânico.
Eu estava em absoluto estado de pânico.
Senti minhas forças se esvaindo como o vento, a cabeça girando em busca de uma solução racional. Passei os dedos pelos lábios – que deveriam estar ligeiramente brancos —, enquanto revirava a mente em busca de alguma solução que não fosse desaparecer com o corpo de Charlotte e ter como meu cúmplice no crime.
Além disso, Lily e Noah nunca iam nos perdoar, seja em qual dimensão celestial estivessem.
— É o último pedido deles. — respirei fundo, os pulmões implorando por ar. — Se quisermos fazer isso funcionar, precisamos fazer sem trapaças.
Enterrei as mãos nos cabelos, começando a andar de um lado para o outro, pressentindo que logo abriria um buraco no chão. Estava tão apavorada que só percebi que Greta se aproximou quando Mia soltou o riso alto em minha direção. Seus pequenos braços estendidos, almejavam pelo meu abraço. Não hesitei em pegá-la, depositando um beijo terno em sua testa.
— Então como iremos fazer isso? Tem alguma ideia? Um jeito mágico? — indagou, a voz baixa.
— Não existe “um jeito mágico”. — retruquei e olhei para Mia, que brincava com as mechas do meu cabelo. — Mas qualquer coisa é melhor do que seduzir a assistente social.
Ele rolou os olhos, claramente ofendido pela falta de apoio em seu plano mirabolante.
Comecei a roer a unha do dedo indicador, quando Greta – com sua sabedoria silenciosa de quem observava cada detalhe da vida ao redor – tocou suavemente em nossos ombros, conseguindo atrair a atenção de dois adultos desamparados. Seu olhar sereno se fixou em nós.
— Crianças, parem com essa bobagem. — sua voz suave, mas firme, cortou a tensão. — Não existe “um jeito certo” de passar por isso. — ela vagou os olhos por mim e depois para . — Nada é melhor do que a verdade.
Suspirei, o peso sobre os ombros sendo maior que uma tonelada.
— O que vocês têm em comum, é o amor por essa criança. Lily e Noah confiaram a filha aos dois, porque viram que, juntos, podem ser os melhores pais para ela. Eles os escolheram como uma dupla.
— Greta... Temo que não somos o suficiente. — A revelação de me pegou de surpresa.
E por um instante, sua imagem calma e centrada no banheiro passou pela minha mente. Ele se escondia atrás daquela armadura serena, quando, na verdade, estava mais inseguro do que eu.
— A força de vocês está em serem diferentes, e mesmo assim, estarem unidos por um propósito. — ela pegou a pequena do meu colo, que a encarava, fascinada com suas palavras. — Então, parem de pensar tanto, de tentar encenar. Esqueçam o teatro e mostrem quem realmente são. A sinceridade é o que a Charlotte precisa ver. Mostrem que, apesar dos tropeços, a prioridade de vocês é a Mia. O resto... É só detalhe.
A força em cada palavra reverberou em meu peito, e o nó na garganta se afrouxou lentamente. Greta estava certa. e eu nunca seríamos perfeitos, mas compartilhávamos o mesmo amor incondicional pela Mia. E esse sentimento já bastava para superar todos os obstáculos. Ainda era cedo demais para acertamos em tudo, e por mais que tentássemos, os erros insistiriam em nos ensinar o melhor caminho.
Olhei para , que me encarava com o semblante sério e pensativo. Seus olhos azuis pareciam denunciar um brilho de conclusão, provavelmente aceitando que por trás da estatura baixa de Greta se escondia uma mulher sábia e bastante convincente. Em menos de alguns segundos, aquela senhora de meia-idade, conseguiu nos fazer enxergar além do medo e a insegurança.
— Eu confio em vocês. — Greta murmurou. — E sei que Noah e Lily também confiam. — em seguida, nos entregou nossa maior força.
Senti o calor se espalhar pelo meu peito quando a pequena, mais uma vez, estendeu os braços em minha direção. Os olhos cristalinos brilhavam de felicidade, e assim que se aproximou, o sorriso dela se alargou ainda mais. Era incrível como sempre ficava animada perto dele. Ele beijou o topo da cabeça dela antes de erguer os olhos para mim, causando um arrepio na boca do meu estômago.
E ali, na cozinha, sob o olhar sereno de Greta, envolta pelo perfume amadeirado de , e com a Mia nos olhando de perto, foi que entendi que não importava o quão desafiadora a situação fosse, eu não a enfrentaria sozinha. Porque apesar do medo, lutaríamos juntos pela família que estávamos construindo.
Repulsa? Insegurança? Antipatia? Talvez, a palavra perfeita para definir o meu estado fosse medo.
Engoli em seco, sentindo o nó se apertar em minha garganta. Observava Charlotte à minha frente, os cabelos ruivos presos em um coque perfeitamente arrumado, denunciando sua postura controlada e profissional. Ela escrevia incansavelmente na prancheta, a caneta vermelha riscando o papel com uma frieza que me fez querer extingui-la da face da Terra.
O grunhido tedioso escapou por entre os lábios. , sentada ao meu lado no sofá, lançou-me o olhar de relance. Sua perna balançava freneticamente e os dedos, inquietos, tamborilavam sobre a coxa. O nervosismo dela era quase palpável e, para o meu espanto, conseguia estar mais apreensiva do que eu. Mia estava em seu colo, brincando com o ursinho de pelúcia que tanto adorava, alheia ao clima tenso que nos rodeava.
Por um momento, encarei a mão inquieta e fiquei tentado a cobri-la com a minha. Só que, depois do que aconteceu no banheiro, a melhor opção seria ficar longe de . Pelo menos até ela conseguir processar tudo com calma e passarmos por aquela avaliação minuciosa. Já havia sido intrometido demais, invadindo o mundo dos traumas contra sua vontade, porque pensei que contar a verdade era o certo a se fazer.
Uma péssima ideia, que poderia acabar com o pouco da confiança que ainda tínhamos.
Eu me lembrava de cada detalhe – não fiquei tão bêbado para ter esquecido de tudo. Ainda sentia o calor do seu rosto aquecendo a pele do meu pescoço quando se escondeu ali, buscando por mim na madrugada. O toque das suas mãos quando abraçou minhas costas, temendo que eu fosse fugir.
O som dos seus grunhidos e a testa franzida insistiam em assombrar a minha mente. E por mais que soubesse que o certo era esquecer o que aconteceu e respeitar o pedido dela, algo em meu íntimo – intrometido e protetor – queria fazer mais. Cada célula do meu corpo clamava para descobrir a verdade; que a ajudasse a enfrentar os demônios. Não conseguiria ficar parado, enquanto sabia que ela enfrentava tudo sozinha, mergulhada na completa escuridão.
E, quando olhei dentro dos seus olhos no banheiro, fui atingido pela lembrança de sua mão se fechando ao redor da minha. O grito de súplica reverberava em meu peito, tornando impossível de esquecer. Ela merecia conhecer a chuva como o fenômeno mais belo da natureza, ouvir o som calmo e ritmado da água.
Resvalei o polegar pela linha do queixo, olhando pelo canto dos olhos. Uma criatura belíssima. O rosto de traços delicados, os olhos tão intensos. Ela era um verdadeiro anjo na terra. Segurei o sorriso que quase brotou nos lábios, observando-a como a mais preciosa das mulheres. Meu peito retumbou, tomando a decisão de que nada me impediria de fazê-la ouvir a chuva de novo, sem dor e demônios a assombrando. Juntos, corríamos em direção à tempestade, nossas roupas ficariam encharcadas e ainda arrancaria os seus melhores sorrisos.
E essa era uma promessa que estava disposto a cumprir por ela.
merecia o mundo e eu lhe daria o mundo.
— Então, como estão lidando com o luto? Acredito que esta seja a parte mais difícil. — Ouvi a voz de Charlotte distante, enquanto ainda olhava para a coelhinha, que agora mordia o lábio inferior.
— Nós... Não tivemos tempo para lidar com o luto — respondeu, receosa.
Ela girou a cabeça e engoliu em seco, enquanto buscava amparo em meus olhos. Não foi preciso nenhuma palavra para que entendesse a sua súplica. As sobrancelhas arqueadas e as íris castanhas carregavam todo o peso daquela pergunta. Falar sobre Noah ainda era muito doloroso para ela, semelhante a cutucar uma ferida aberta que nem sabíamos se um dia cicatrizaria.
Anuí, deixando um sorriso cortês preencher a minha boca, assim que direcionei o olhar para Charlotte.
— Apesar do vazio que Noah e Lily fazem, estamos fazendo o possível para nos adaptar à nova rotina. — A ruiva cruzou as pernas e anotou algo na prancheta. — Ainda é cedo para falar como estamos nos saindo. Não tem nem um mês que os perdemos. — A pontada característica dominou o meu peito. Algo que sempre acontecia quando pensava na minha irmã.
Charlotte descansou a caneta e nos direcionou o olhar extensivo.
— Vejo que a Mia gosta muito da presença dos dois — comentou, assistindo à pequena pressionar o ursinho contra a minha bochecha. — Ela não parece ter sofrido tanto para se adaptar a vocês.
Beijei a bochecha dela com carinho, ajudando-a a engatinhar para o meu colo com a ajuda de .
— Os bebês são como os filhotes, não demoram muito para se adaptarem ao ambiente — deixei escapar, hipnotizado pelo brilho nos olhos de Mia.
cutucou minhas costelas em um aviso silencioso. Fui ingênuo em achar que o comentário passaria despercebido. Charlotte se curvou para frente, o sorriso pequeno e afiado brincando em seus lábios.
— É uma teoria bastante interessante, . — As palavras pingaram com sarcasmo e isso atraiu imediatamente a minha atenção.
Ela me analisava dos pés à cabeça, como um cão farejando por drogas.
— Então, acredita que o mesmo raciocínio que usamos para lidar com os cachorros se aplica a uma criança? — Eu não disse isso. — Acha que a mesma forma de cuidado serve para ambos? O senhor parece estar se concentrando na adaptação, mas e quanto ao desenvolvimento emocional da Mia?
Alfinetada foi direta — quase pessoal. Mirei sua expressão analítica, os olhos semicerrados me julgando com asco. Qual era o problema daquela mulher? Ela conseguiu distorcer completamente minha teoria entre filhotes e bebês.
— Em nenhum momento disse que o desenvolvimento da Mia se compara a um animal. — Não me preocupei em ser agradável. — No ramo veterinário, lido com filhotes órfãos todos os dias que precisam dos meus cuidados para sobreviver. Animais que foram abandonados à própria sorte. — Certa rispidez acompanhava minhas palavras. — O que eu quis dizer é que ambos demandam cuidado, carinho e muita atenção. São seres dependentes. Os bebês e os filhotes choram quando estão com fome, com sono ou algum desconforto. — A fuzilei, na esperança de que pegasse fogo e desaparecesse da minha frente.
— ... — A voz de soou como um sussurro suave e senti sua mão tocar o meu joelho.
O contato foi leve, mas se pareceu como uma âncora me puxando para a superfície. Sua pele irradiou a corrente elétrica, dispersando a raiva que começava a se acumular em mim. Desviei o olhar furioso de Charlotte e o fixei em . O rosto dela possuía uma mistura de preocupação e súplica, se tornando o meu porto seguro. Os olhos castanhos, tão intensos, me diziam sem palavras para me acalmar, para que voltasse para ela.
E bastou apenas aquele olhar para silenciar a tempestade e toda a euforia se dissipar. Suspirei, soltando o ar pela boca.
— Essa é a minha bagagem, Charlotte — murmurei, já sem a rispidez de antes. — Então, peço que, por favor, não distorça essa informação.
— Não quis distorcê-la, . — Ela sorriu sem os dentes. — Só quis entender a sua analogia. — E voltou a rabiscar a prancheta, provavelmente escrevendo sobre sua sigilosa falta de senso.
Mia riu em meu colo e me distraiu, segurando a pelúcia, arrancando gargalhadas da pequena. Para depois voltar a olhar para o meu anjo. Ela tinha um sorriso delicado nos lábios, se inclinando para beijar o topo da cabeça da criança. E, por um momento, deixei que o aroma de verbena e romã invadisse meus pulmões, preenchendo cada lacuna pelo caminho que precisava do seu amparo.
Era como uma droga viciante, e eu estava em abstinência.
Charlotte limpou a garganta, atraindo nossa atenção.
— Aproveitando que estamos falando sobre rotina. — Leu algo em suas anotações antes de prosseguir: — Como estão organizando as responsabilidades? Quem acorda nas madrugadas? Quem prepara as refeições? — A voz dela era monótona, fria, quase mecânica. Provavelmente eram as mesmas perguntas que fazia em todos os lares.
se ajeitou, sendo rápida em usar o reflexo para pegar a pelúcia antes que caísse no chão e Mia começasse a chorar.
— Fazemos uma espécie de... escala — disse, e notei um vacilo em sua voz. — Na maior parte das refeições, é Greta que nos ajuda. Ela é como nosso alicerce no meio de toda a bagunça. — Foi rápida em justificar.
— A cozinheira, certo? A mesma que estava na casa cuidando da Mia no momento do acidente. — Charlotte novamente moveu a caneta sobre a folha, por um instante quis saber o que ela tanto anotava, sem levantar a cabeça.
— Greta é uma governanta. Ela cuida da casa e presta serviços como babá — adicionou, para que não restassem dúvidas.
A assistente social assentiu.
— E o que acontece quando ela não está aqui para ajudar? Suponho que o senhor saiba mais sobre dieta para filhotes do que para bebês. — Suas palavras eram como um dardo envenenado.
Apertei as mãos em punhos e contive o desejo de responder com sarcasmo. apertou novamente meu joelho, ao notar o quase descontrole.
— Nós aprendemos. Juntos. — Foi a minha vez de falar, com a voz calma, porém forte.
O vislumbre da noite em que Mia chorava de fome e eu não tinha a menor ideia do que fazer passou brevemente pela minha mente. Lembrei-me do pânico e a última coisa que ela precisava saber era que, na prática, eu era tão inexperiente quanto um recém-nascido.
— E os horários? Como veterinário, imagino que tenha uma rotina bastante imprevisível. Plantões, emergências, cirurgias. — Ela me olhava intensamente, almejando por qualquer sinal de fraqueza.
— Tenho uma equipe que me apoia, e a tem os horários flexíveis. — respondi, tentando soar o mais profissional possível.
— Certo. E qual é a sua rotina de vida noturna, ? Você sai frequentemente? — A pergunta veio de forma suave, mas com uma malícia evidente.
Por que ela estava direcionando todas as perguntas a mim? Qual era seu objetivo?
De relance, notei que o rosto de empalideceu. Droga, ela poderia ao menos tentar disfarçar.
— Não entendi a relevância dessa pergunta, Charlotte — intervi, crispando as sobrancelhas.
— O meu trabalho é entender o ambiente em que a Mia está sendo criada. Crianças precisam de estabilidade, rotina, e a ausência de um dos pais durante a noite pode ser... desestabilizante. — O olhar dela recaiu sobre , que se encolheu levemente.
A coelhinha engoliu em seco, as mãos se remexendo freneticamente.
— Sou a responsável por ficar com ela quando se ausenta. — Maldito nervosismo... Ele tinha acabado de dar a informação que Charlotte tanto buscava.
Soltei o ar em um suspiro.
— Entendi. E em quantas noites na semana costuma se ausentar? — pressionou.
Mia se remexeu no colo, provavelmente sentindo o meu coração acelerar.
— Uma vez, no final de semana — murmurei, sentindo-me como uma criança apanhada no flagra.
— Mas também tem os dias em que ele passa a noite na clínica. — lembrou.
Girei a cabeça em sua direção, fuzilando-a com o olhar. De qual lado ela estava?
Charlotte silenciosamente assentiu e escreveu na prancheta.
— Como se veem daqui a 5 anos? — Depois daquela conversa, acreditava que estava morto, porque tinha certeza de que Lily me buscaria pessoalmente.
se ajeitou no sofá, tirando a minha atenção da assistente social.
— Eu me vejo sendo promovida no meu trabalho, ganhando o suficiente para bancar uma casa e ter meu próprio carro.
— E você trabalha com o quê? — A ruiva questionou, usando sua modéstia. — Todos nós sabemos que o é veterinário, e ele deixa isso bastante claro na maneira arrogante em que se comporta e fala do trabalho. — Gesticulou em minha direção com a caneta.
E tudo que pude fazer foi soltar um riso anasalado, porque se fizesse o que a minha mente mandava, provavelmente acabaria preso por homicídio e a arma do crime seria o tubo da caneta vermelha. Estava mais do que claro que Charlotte gostava de ser petulante.
— Não consigo definir uma profissão que se encaixe com o seu perfil.
embolou as mãos no tecido do vestido, possivelmente não imaginando que teria de revelar seu segredo para uma estranha.
— Trabalho prestando serviços online para plataformas como a Amazon. — Um jeito elegante de descrever.
— Ah! É escritora — concluiu, voltando-se para o papel.
— Ela escreve sobre romances eróticos — alfinetei, em completo tédio.
arregalou os olhos.
— Não são eróticos! É apenas romance! — bradou.
Mordi o lábio inferior, a raiva por ela ter entregado minhas ausências noturnas se acumulando em meu âmago.
— Depois do que li, tenho certeza de que não são só romances — disse em completo desdém.
cruzou os braços em frente ao peito, o bico se formando em seus lábios. As bochechas rosadas ficavam incrivelmente adoráveis nela.
— Ok! Vamos voltar para as perguntas. — Charlotte indicou a prancheta, o sorriso sem graça estampado no rosto. — E... Você, , como se vê daqui a 5 anos? Aposto que trabalhando na sua clínica, atendendo muitos cachorros e gatos. — Ela tentou soar agradável, talvez querendo amenizar o clima tenso que nos rodeava.
— É o que gosto de fazer — respondi, sem rodeios e ânimo.
Charlotte engoliu em seco, mudando para a próxima pergunta:
— Vocês possuem algum tipo de envolvimento amoroso?
— NÃO! — respondemos em um uníssono rápido demais e carregado de irritação.
Ela arregalou os olhos, realmente surpresa com nosso comportamento. Já Mia olhou de mim para e sorriu, pelo menos alguém estava se divertindo com a cena.
— Então não estão envolvidos? — Crispou as sobrancelhas.
— Eu preferiria perder tudo a me envolver com alguém tão insuportável. — apontou para mim e notei o quanto sua mão tremia.
E não sabia explicar, mas suas palavras causaram uma pontada aguda em meu peito. O coração deu um solavanco estranho, quase doloroso.
— E eu nunca me envolveria com alguém tão mimada — rebati, adotando uma postura indiferente que não passou despercebida pelas duas.
O silêncio pairou na sala e foi possível apenas sentir a euforia ao nosso redor. Até mesmo Charlotte parecia desconfortável com a situação, apesar de termos entregado a melhor performance de que não conseguimos nem ter uma conversa civilizada.
— Perfeito, já tenho o suficiente.
Ela estalou a língua e deixou a prancheta ao lado do corpo. E como se pressentisse que o clima nublou entre nós, Mia derrubou o ursinho e começou a chorar. Tentei acalmá-la, mas de nada adiantou. Seu choro reverberou pela sala, aumentando ainda mais a tensão.
— Eu preciso ser sincera. — Gesticulou, pegando a pelúcia e entregando-a para a pequena. — A Mia gosta muito de vocês, e isso é visível. Mas... infelizmente, não são as pessoas certas para o que ela precisa.
Eu e nos entreolhamos. E, apesar da surpresa, no fundo, sabíamos o que seria esperado depois da breve desavença.
— Eu sei que são pais de primeira viagem e que cuidar de um bebê órfão não estava no plano dos dois. Só que convenhamos. — Ela ergueu os ombros, buscando palavras para continuar. — Vocês não têm maturidade nem para lidar com uma situação estressante, então como pretendem cuidar de uma criança?
Minha respiração falhou e foi como ser atingido por uma rocha que não se importava em pesar no meu peito. O choque de realidade era muito pior do que esperava.
— E vamos falar a verdade — ela apontou de mim para —, vocês agem como duas crianças. Não tem nem uma hora que estamos conversando e se comportam como dois irmãos em uma briga de família. Disputando atenção, provocando o outro. São dois narcisistas, egoístas. — Suas palavras doíam, acertando precisamente a parte do cérebro que chamava de ego. — Não existe algo mais frustrante do que encontrar duas pessoas que pensam que sabem o que estão fazendo, quando, na verdade, não têm ideia de nada. Vocês precisam decidir o que são um do outro. São inimigos? Desconhecidos? Conhecidos de longa data que nunca se deram bem? Ou são apenas irmão e irmã da Lily e do Noah? Porque está mais do que claro que não existe amizade aqui e isso os torna um obstáculo.
Ela suspirou, abrindo um pequeno sorriso para Mia, que havia parado de chorar.
— Sabe... o Noah e a Lily, talvez, achassem que vocês seriam capazes de fazer isso, mas sinceramente... eu não tenho tanta certeza disso — disse, sendo uma dura e amarga revelação.
Greta veio a nosso encontro e pegou a pequena no colo quando ela voltou a chorar.
Enquanto isso, Charlotte recolheu a prancheta e se levantou do sofá. Passou as mãos pelas roupas como se limpasse a poeira invisível. Suas sobrancelhas estavam arqueadas de maneira melancólica, enquanto nos observava desolados e sem reação. ainda estava parada na mesma posição, em completo choque, e eu curvei o corpo para frente, cobrindo o rosto com as mãos. Meu peito mais dilacerado do que quando recebi a ligação do acidente.
— Eu preciso ser honesta, porque é melhor para os três. Não há nenhuma razão para aceitar que a Mia viva sob os cuidados dos dois. Mas ainda tenho duas avaliações para fazer e acredito que, pelo Noah e a Lily, vocês darão um jeito de fazer isso dar certo. — Ela se dirigiu para a saída, o barulho dos seus saltos retumbando pela casa. — Volto no mês que vem, desejo boa sorte aos dois — despediu-se e Greta abriu a porta para que saísse.
A madeira se fechou e foi como se o ar fosse sugado pela sala, transformando-se em um túmulo. O silêncio que se seguiu era mais alto que qualquer grito. Envolvi os cabelos com as mãos e me curvei. Não era capaz nem de abrir os olhos para enxergar a realidade jogada sobre nós em um balde de água fria, congelando a esperança que mal tínhamos tido tempo de aquecer.
E a única certeza que ainda me restava era a de que estávamos perdidos. Fodidos. Sendo a culpa amarga e pesada, completamente nossa.
A vida é um oceano onde muitas pessoas flutuam, recusando-se a aprender a nadar, temendo a pressão e as surpresas que o fundo reserva. Já outros se arriscam e nadam ao encontro do desconhecido, saindo da conformidade da brisa suave. Só que, muitas vezes, não estão prontos para enfrentar as ondas pesadas e a correnteza agressiva que os puxa para baixo.
Eles engolem a água salgada da verdade e, de repente, o ar da superfície se torna um luxo distante. O pânico bate no peito, o coração esmurra as costelas, o cérebro envia sinais para lutar. Uma corda invisível está presa ao redor do pescoço, sufocando e arrastando cada vez mais para o fundo. O corpo se debate, tenta gritar, mas seus pulmões ardem, sem forças, e tudo que o rodeia é o silêncio.
A luta é desesperadora, porque acreditamos que estamos no controle e isso nos faz afogar...
Levantei-me do sofá com a sensação de que o estofado possuía espinhos e garras que adorariam me machucar. Minha atenção foi tomada quando vi Greta, parada ainda perto da porta, com a pequena em seus braços. O rosto pequeno e redondo, vermelho pelas lágrimas recentes, ela segurava o ursinho e nos olhava, curiosa e inocente sobre o que estava acontecendo.
O choro ficou preso na minha garganta, e por um momento quis desabar sem me preocupar com o mundo ao redor. Mas eu estava nadando contra a correnteza que insistia em me arrastar para o abismo, contra as rochas pontiagudas que ansiavam por ferir cada centímetro da pele. E não sabia o que fazer para retornar à superfície e tomar o controle da situação. Tudo o que conseguia fazer era me debater até que os músculos doessem.
— Eu sinto muito, ... — Greta sussurrou e apenas consegui forçar um sorriso pequeno e melancólico. — Tem alguma coisa que posso fazer por vocês? — Ela girou a cabeça em direção ao sofá.
Segui o seu olhar e encontrei o homem em completo estado de deploração. não movera sequer um músculo depois que a assistente social foi embora. Seu corpo continuava curvado, as mãos puxavam os cabelos e os olhos fechados com tanta força que as veias em sua testa saltavam pelo esforço. Ele se crucificava e sofria, ainda assimilando as palavras duras que acabamos de ouvir. E eu não estava diferente. O choque corroía meu âmago, levando a informação que queimava como brasa.
Fechei os olhos e puxei o ar para preencher os pulmões que clamavam por ar. Adoraria que Greta pudesse nos ajudar com conselhos e conhecimentos sábios, mas ninguém deveria interferir na luta que era somente nossa. Tínhamos culpa, e juntos, precisávamos pensar em uma maneira de escapar do afogamento, se não, encontraríamos com o fundo do oceano e a pressão nos esmagaria.
— ... — comecei, a voz levemente trêmula. — Precisamos conversar.
Ele não reagiu, os ombros tensionados como rochas.
— Eu sei que não é o melhor momento para isso, mas temos que conversar. — Soltei o ar anasalado. — Estarei na cozinha... Quando quiser...
Depositei um beijo sobre a cabeça de Mia e agradeci a Greta por toda a ajuda, pedindo que ficasse com a pequena até resolvermos o impasse.
Não queria que ela presenciasse o que quer que estivesse nos esperando, e algo gritava em meu íntimo que aquela conversa reservava uma explosão de emoções — por mais certeira que fosse.
O ar da cozinha me chicoteou. O frio dos mármores parecia reluzir com o clima tenso e sufocante que estava prestes a presenciar. Soltei o ar pela boca, inflando as bochechas quando o pequeno grunhido chamou minha atenção. Ergui os olhos para o felino que se ajeitava sobre o balcão, penteando os belíssimos pelos escuros como se estivesse prestes a participar de um concurso de beleza. Sky tinha que estar impecável em qualquer situação.
— Oi... — sussurrei e ele esticou o pescoço. — Acho que estragamos tudo, Sky. — Cocei o topo da sua cabeça, o ronronar envolvendo meu coração. — Eu queria saber o que fazer... Você poderia me dar algum conselho? — Ele me encarou com as enormes bolas amarelas.
Alarguei um sorriso, acariciando atrás da orelha dele, para no instante seguinte, — como se tivesse entendido o que eu disse —, ir até o pote de ração. Ele degustou os pequenos grãos redondos, os pelos sedosos caíam ao redor do corpo com elegância. Segurei o riso, pensando se seriamente meus problemas não se resolveriam se abrisse um pacote de sachê de salmão.
— Talvez burritos me ajudariam melhor do que sachê. — Debrucei-me sobre o mármore, resvalando o dedo na pata dele. — Comer é um ótimo conselho. — Não contive o riso.
— Realmente acha que a solução vai aparecer, assediando o Sky? — estremeci, a voz estapeando o meu ser.
Girei a cabeça e encontrei entrando na cozinha, com uma postura rígida e o semblante fechado. Tão carregado que engoli em seco, arrependendo-me de ter sugerido que conversássemos. As sobrancelhas grossas arqueadas pareciam prestes a saltar e enforcar a primeira pessoa que aparecesse na sua frente. O seu andar revelava mais do que palavras. E o modo como abriu a porta da geladeira me passou a impressão de que socaria o mundo se fosse possível.
— Você... Está bem? — arrisquei-me a perguntar.
Sky levantou a cabeça e olhou para o homem, julgando-o minuciosamente. E o fato do felino pular e correr para a sala em seguida deveria ter servido como um alerta.
— Ótimo — respondeu com ironia.
Cruzei os braços e suspirei, me preparando psicologicamente para adentrar o território proibido.
— … Precisamos encontrar uma solução. Temos que mostrar que somos capazes. — Gesticulei com as mãos trêmulas. — Na próxima visita da Charlotte, precisamos ser... Sei lá! — busquei as palavras certas. — Talvez... Fingir por um tempo que somos um casal que se ama?
Ele disparou uma risada sarcástica, enquanto ocupava as mãos com a garrafa de água, usando a força maior que o comum.
— Esqueceu que disse a ela que preferia perder tudo a se envolver com alguém tão... Como você disse? — Fingiu pensar e estalou os dedos. — Ah, sim. Insuportável. — Cuspiu com fagulhas de ódio, desprezo e escárnio.
Meu coração parou por alguns segundos, alfinetado por diversas agulhas. O estômago revirou de modo que fiquei enjoada. Por que eu sentia que ele ficou ofendido com isso?
— Desculpa, se isso feriu o seu ego, mas você me chamou de mimada — retruquei.
— Porque você sempre quer fazer tudo do seu jeito. — Virou-se em minha direção, seu olhar me fuzilando. — Fingir ser um casal quando na frente da Charlotte não pensou o quanto poderia me prejudicar, dizendo que passo as noites fora? Casais se protegem, ! E não jogam o outro aos lobos.
Apertei os olhos com os dedos. Não era possível que ele estava dizendo isso. Tínhamos que encontrar uma solução, e não discutir sobre o que falamos para o pastor alemão.
— E o que você sabe sobre ser um casal, ? — Empinei o nariz, encurtando a distância entre nós.
— Mais do que os seus livros de romance dizem — alfinetou e senti a fúria transbordar nas minhas veias.
Rolei os olhos, segurando a vontade de acertar o soco no rosto dele.
— É impossível ter uma conversa com você. É deprimente! — Meu rosto se contraiu em uma careta.
virou a garrafa, dando um longo gole. E torci para que o choque térmico da água congelasse o seu cérebro.
— A Charlotte está certa, não consegue ver isso? — Arfou. — Não somos bons para a Mia. Juntos somos péssimos. Sinônimo de destruição.
Puxei o ar profundamente.
— Será que você pode melhorar o seu mau-humor para tentarmos ter uma conversa civilizada?
— Por que eu deveria fingir que estou bem, quando, na verdade, estou péssimo? — disse calmamente, causando-me repulsa. — Me deixa ficar péssimo, .
— Devo te lembrar que estamos aqui por uma escolha maior. — Tentei soar o mais calma possível. — A Mia precisa da gente. Ela não pode entrar para adoção.
Ele suspirou, parecendo cansado.
— Então quer falar sobre o quê? O quanto acabei com a minha vida; estou morando na casa da minha irmã e cuidando de uma criança, sem ter noção nenhuma do que estou fazendo... — Ele apertou a garrafa, derrubando o líquido. — Tudo isso para quê? Para ouvir da boca da assistente social que eu não sirvo para ser o pai dela?
Mordi o lábio inferior. Por um lado, entendia a sua fúria, ele largou tudo para cuidar da sobrinha e, de repente, uma desconhecida o decretou desqualificado para o cargo. Provavelmente, a memória de Lily martelava em sua cabeça — assim como Noah fazia com a minha.
— Eu sei que não sou nem metade do homem que o Noah foi, . — Suas palavras carregavam dores profundas. — E nunca vou ser como ele, não importa o quanto eu tente. — Vi o vislumbre de lágrimas se formar no canto dos seus olhos.
não deveria se cobrar tanto, isso o consumiria para sempre.
— Eu também tive que deixar a minha vida para trás. — Meu coração se apertou. — E sei que nunca serei como a Lily. Ela era uma mãe maravilhosa e uma mulher incrível.
— Acontece, , que a sua vida não mudou completamente em nada desde que se mudou para cá. — Ergueu os ombros em desdém. — Agora, eu não posso cumprir com os plantões porque isso prejudica a rotina da Mia!
— Eu tinha a minha privacidade; organizava meus horários. Tinha tempo livre! — berrei, rebatendo-o com maestria.
— Para fazer o quê? Ler mais livros estúpidos de romance? Ainda consegue fazer isso aqui. — Suas palavras amargas atingiram em cheio o meu âmago. Como ele ousava ser tão desprezível?
— E você deixou de fazer o quê? Acabar bêbado na cama de uma desconhecida noite após noite? — Arqueei as sobrancelhas, diminuindo ainda mais a distância entre nós. — Isso é nojento, !
Ele alargou um sorriso cínico no canto dos lábios, inclinando a cabeça para baixo para conseguir olhar para mim. E céus... Como meus olhos poderiam ser tão traiçoeiros para olhar a sua boca atrevida? O breve pensamento de calá-lo com os lábios passou como uma ideia ridícula, me causando arrepios. O que estava acontecendo? Eu deveria odiá-lo, e não o desejar ardentemente.
— Pertencemos a mundos diferentes, — disse com sarcasmo e uma leve calmaria. — Você não faz ideia de como era divertido.
— Então me diga como era — sussurrei, não conseguindo desviar a atenção dos seus lábios.
Portanto, para a minha salvação, ele deu um passo para trás. Sua atitude me fez sentir como um inseto pegajoso.
— Escolhi a medicina veterinária para não ter que lidar com as pessoas. Odeio como me olham, sempre esperando algo de mim que nunca terão. — Havia uma sinceridade diferente em seu tom, algo quase doloroso. — Dormia com uma mulher diferente todas as noites porque era só sexo e elas nunca esperavam nada de mim. E isso era ótimo! — ditou o final com ênfase.
Engoli em seco, recompondo minha postura. Um calor estranho se apossou da base do meu pescoço.
— É claro que era ótimo — retorqui. — Você só tinha que se importar consigo mesmo, sempre fugindo das responsabilidades. E mesmo assim, o Noah e a Lily deixaram a filha nas suas mãos! — Ele tinha que entender de uma vez por todas que a sua vida egoísta foi deixada para trás. — Porque eles sabiam que seria uma pessoa próxima para ela!
Ele riu com escárnio.
— Quer saber, , retiro o que disse. Você não é tão diferente de mim. — Ele se aproximou, sua presença quase me intimidando. — Fica atrás daquele notebook, se escondendo através da tela e dos livros de romance de que tanto gosta, porque, no fundo, odeia ter que lidar com pessoas tanto quanto eu. — Agora ele tinha ido longe demais com a petulância.
— Vai para o inferno, ! — xinguei com ódio, repulsa e todo sentimento desprezível.
— Vai você primeiro e nos encontramos lá.
E foi como me afogar de novo no vasto oceano, mas dessa vez, outra pessoa se debatia ao meu lado. Nossos olhos travavam uma dança eletrizante e cheia de desespero. Os glóbulos azuis estavam transparentes, revelando suas emoções mais profundas. tinha medo e, assim como eu, não sabia como retornar à superfície. Juntos, éramos arrastados para o fundo, sem a menor ideia de como sairíamos vivos.
Por um momento, pensei que o melhor seria se entregar ao oceano. Mas não era justo com nossos irmãos e nem com a pequena.
Suspirei, erguendo as mãos em rendição, e afastei-me dele. Seu perfume embriagava todos os meus sentidos, tornando impossível pensar com clareza.
— O Noah e a Lily nos escolheram por alguma razão. E por eles, precisamos pensar em um jeito de fazer isso dar certo. — Mirei-o e o encontrei cabisbaixo. A mandíbula travada, como se estivesse segurando o mundo nas costas. — Mesmo que para isso tenhamos que fingir nos suportar. É pela Mia — impus e o assisti negar com a cabeça.
— Eu não posso fazer isso, ... Não posso. — Levantou a cabeça e me encarou, seus olhos azuis geraram um vazio que me fez engolir em seco. — Perdi a minha irmã, e porra... Não pude nem me despedir dela direito! — A sua mão bateu contra o balcão, um som oco e pesado.
Ele cobriu o rosto em seguida e percebi que lutava para não deixar que as lágrimas saíssem. Era a primeira vez que deixava os sentimentos transbordarem assim. sempre foi tão reservado, tão forte, que se escondia da própria dor. Então vê-lo à beira do colapso, com as emoções saindo pelas pequenas fissuras da bolha que ele mesmo criou, era novo.
No fundo, eu sempre soube que estávamos destinados a compartilhar a mesma dor.
— Você não foi o único a perder alguém naquela noite... — a vontade abrupta de envolvê-lo em meus braços me consumiu, do mesmo jeito que ele fez comigo na delegacia. Era uma necessidade profunda de dividir o fardo. — O Noah era a minha única família... — sussurrei, e senti o baú das emoções se abrir. As palavras rasgavam minha garganta, queimando como fogo. — E agora, tudo o que eu tenho é a Mia. Então desculpa se estou sendo egoísta e fria ao ponto de parecer que não me importo com os sentimentos de ninguém, porque ainda estou tentando viver o meu próprio luto, sendo atropelada pela responsabilidade que é cuidar de uma criança. — as lágrimas que segurei por tanto tempo finalmente escorreram, quentes e libertadoras.
— Me desculpa, ... — disse para o nada, a voz rouca. — Não posso ficar aqui ouvindo isso. — foi ríspido, e em seguida, saiu da cozinha.
Funguei e o segui, a tempo de vê-lo pegando a chave do carro. Cruzei os braços, na tentativa de esconder a minha fraqueza.
— Você não deveria sair de carro estressado desse jeito... Eles morreram assim, ... — minha voz saiu baixa e embargada, mal conseguindo sustentá-la, mas sabia que ele tinha ouvido cada uma das palavras.
— NÓS NÃO SOMOS ELES, ! — seu gritou rasgou a sala, a tensão dominando cada fibra do seu ser.
E mesmo através da visão embaçada, eu o vi... A fachada de dureza se quebrou. As lágrimas rolavam livremente por seu rosto, traçando caminhos silenciosos pela destruição. A instabilidade dos seus olhos foi o suficiente para me fazer entender que o oceano — que havíamos tentado conter — finalmente nos engoliu.
E não havia mais nada a fazer a não ser afundar...
Notei quando ergueu o olhar para as escadas, e sua garganta pareceu apertar em um nó de culpa. Instintivamente, também olhei, e a cena me quebrou por completo: Greta estava parada a poucos degraus de distância, com Mia em seu colo. A cabeça da pequena tombada sobre o ombro da mulher, os olhos fechados em um sono profundo, alheia ao nosso mundo em colapso. Meu peito se contorceu em uma dor lancinante e tudo pareceu desabar.
— Nós não somos eles... — repetiu, a voz agora um sussurro quebrado, e a frase, que antes era uma negação, se transformou em uma dura e amarga confissão de impotência.
Foi como ser atingida pela onda mais violenta do universo.
Ouvi o som da porta batendo, e o baque me despertou da paralisia. Corri para a cozinha, buscando apoio na lateral do mármore da pia, onde me agarrei — de frente para o imenso vidro que dava visão para o vasto céu. Os raios solares ficavam alaranjados e se preparavam para o entardecer. E eu desabei em prantos, não conseguindo mais conter a dor que envolvia meu peito, esmagando-o sem piedade.
O ar me faltou e levei a mão sobre o peito em uma tentativa de me manter ainda respirando. Algo quase impossível.
— Me desculpa, Noah... Me perdoa, por favor... — supliquei entre soluços, a voz falhando e se perdendo no eco do vazio.
O mundo desabou de vez e fui engolida pelo medo. O oceano venceu a batalha, e meu corpo agora se encontrava inerte na água, as rochas afiadas colidindo contra a minha pele. E desta vez, não tinha mais forças para lutar, não me restando mais nada para me agarrar.
Estava completamente perdida à mercê do oceano de pânico, sem um bote salva-vidas ou uma ilha à vista.
A solidão era tudo o que mais precisava. Um tempo para pensar sobre os sentimentos conflitantes que insistiam em assombrar o meu peito.
Arrumei os óculos escuros com o dedo indicador, enquanto caminhava lentamente pelos corredores vazios e melancólicos. A brisa leve enrijecia os pelos da nuca, conforme me aproximava do destino. O clima e a paisagem ao redor pareciam um reflexo do meu próprio espírito: o belo entardecer abriu caminho para nuvens escuras que formaram o céu nublado, cinza, completamente silencioso.
O único som era do solado dos meus tênis pressionando as minúsculas pedras a cada passo que dava no automático. E, por mais estranho que parecesse, a paz que rodeava o ambiente conseguia acalmar a minha alma. As fileiras de sepulturas, mausoléus e jazigos preenchiam cada canto, variando das mais simples às discretas, e nelas conseguia ler os nomes e datas que contavam a história dos entes queridos.
Parei em frente à lápide de granito e olhei demoradamente cada detalhe. Meu coração se apertou em um nó sufocante assim que vi ambas as fotografias intactas, do mesmo jeito que da última vez em que estive ali. Dois vasos de plantas ficavam ao lado do nome e da data, acomodando flores vivas e belíssimas. Os pequenos tons pastéis dos azulejos constavam com a lembrança deles, trazendo a memória e a dor da saudade.
Curvei o corpo, ficando com o peso sobre os joelhos dobrados. Lentamente, retirei as folhas intrometidas que caíram da grande árvore atrás do túmulo. Deslizei a mão pela superfície fria, delineando as letras do nome dela. O nó se formou em minha garganta e tive que segurar a vontade de desabar. Não tinha ido até ali para chorar, só queria passar um tempo com ela.
— Oi, irmãzinha... — murmurei em um tom carinhoso. — Eu trouxe lírios brancos, sei que são as suas favoritas. — Olhei para o arranjo e o coloquei ao lado do nome dela. — A mamãe nunca foi boa em saber qual era a sua flor preferida. — Curvei um sorriso, reparando nas rosas vermelhas que meus pais tinham colocado nos vasos no dia do funeral.
Suspirei, sentindo o peso do mundo sobre os ombros.
— Sinto a sua falta, Lily. — A voz falhou, sendo mais difícil do que imaginei. — Queria que estivesse aqui para me dizer o que fazer. — Acomodei o corpo no chão, cruzando as pernas. — Mas se estivesse, a Mia teria uma família de verdade; a , o irmão dela; e eu... Minha vida medíocre e sem compromissos. — O confronto da coelhinha ficaria para sempre cravado em meu cérebro.
E, talvez, eu fosse mesmo alguém que só queria fingir que tinha o controle, quando, na verdade, tenho medo de encarar as responsabilidades.
— Não era para ser assim... — retirei os óculos e os coloquei na gola da camiseta, arrancando a grama que crescia entre os furos do concreto — Você não podia ter me deixado. E agora tem essa mulher... A assistente social me disse que eu não sou bom o suficiente para cuidar da sua filha. — Ergui o olhar para a árvore, o nó apertou na garganta. — Desculpa, Lily… Eu não sou como o Noah, e acho que nunca serei nem metade do homem que ele foi.
A brisa suave tocou a lateral do meu rosto. O balançar dos ganhos parecia um consolo da natureza à minha versão frágil e deprimente.
— Lembra de quando prometemos cuidar um do outro? — Abaixei a cabeça, voltando a atenção para a grama. — O papai e a mamãe quase nos mataram porque pegamos aquele temporal, e você estava lá com o seu sorriso doce e divertido. — Sorri, sendo confortado pela memória daquela tarde que logo se transformou em uma noite chuvosa e intensa.
A lembrança veio como uma avalanche, o filme que insistia em ser reprisado na minha mente. Voltei ao passado, no exato momento em que tínhamos 25 anos e estávamos de férias no 's Horse Haven, ajudando nossos pais com as obrigações diárias.
— Esse foi o último. — Ergui a cabeça da prancheta, assistindo ao cavalo sendo manuseado para dentro do estábulo.
— Ótimo, Lennie. — Caminhei, verificando as baias. — Coloque um pouco de aveia para ele. O empresário Payne virá buscá-lo amanhã, verifique que esteja tudo pronto para o embarque.
— Deixarei tudo pronto, chefe. — Ele bateu continência, guiando o garanhão de pelagem negra brilhante.
Desferi alguns tapinhas leves sobre o dorso do animal, voltando a atenção para a nova hóspede que recebemos mais cedo. Puxei a ficha da porteira da baía, analisando as informações do proprietário e do cavalo. Se tratava de uma égua, de pelagem branca e cinza, que praticava hipismo e havia sofrido uma lesão recentemente, por isso estava ali. O haras foi indicado para realizar a readaptação ao esporte, assim poderíamos acompanhar o seu desempenho e oferecer o treinamento adequado.
Devolvi a documentação e abri o trinco da porteira de madeira. Atena era calma, dócil e, quando me viu entrar, não hesitou em vir ao meu encontro em busca de carinho. Acariciei o chanfro, tirando uma pequena porção de petiscos secos feitos de frutas e vegetais do bolso da calça, onde sempre carregava um pacotinho. Ela devorou a oferta e deu um sopro em um sinal claro de aceitação.
— Boa garota. — Continuei com o carinho. — Vamos dar uma olhada nessa pata. — Fui deslizando a mão cuidadosamente pelo peito, até chegar à compressa da perna direita. Ela se remexeu assim que toquei a região. — Está tudo bem. — Desenrolei a faixa e olhei o local, notando que estava completamente desinchado.
Atena sofreu uma inflamação aguda do tendão, causada pelo esforço excessivo, já que há alguns meses participou de duas competições sem pausa. Desde o início, seu dono, o empresário Arnold Astor — proprietário de uma das maiores fazendas de reprodutores equinos da região — me procurou na clínica, pedindo pessoalmente que tratasse seu animal, sabendo dos meus conhecimentos com animais de grande porte. Foram longos dias de recuperação e tratamento com anti-inflamatórios para a dor.
Meu trabalho, agora, era colocá-la em um treinamento progressivo para fortalecer o tendão e os ligamentos. Atena logo voltaria a competir, se respondesse bem aos treinos, algo que acreditava acontecer mais rápido do que imaginava.
— Irmão! — A voz fina preencheu todo o estábulo. — Não vai acreditar no que aconteceu... Cadê você? — Ela gritou com impaciência.
— Aqui, irmãzinha. — Ergui o corpo, esticando o pescoço sobre a porta da baía.
— Pare de me chamar desse jeito. — Lily cruzou os braços, o bico maior que o de um pássaro.
Ela parou e os olhos azuis me fuzilaram. Senti como se fosse pegar fogo a qualquer momento. Seus cabelos loiros escuros caíam sobre os ombros em ondas, algumas mechas vermelhas se perdiam, puxadas para o tom cobre e dourado — como os meus. O rosto pequeno e redondo sempre tinha uma camada fina de maquiagem, que combinava com as roupas elegantes e o salto.
Lily nunca se enquadrou no estilo do haras, naquele dia ela usava um vestido longo azul marinho e sandálias de salto alto que torneavam os pés pequenos. Ao contrário de mim, que sempre optava por algo mais simples, como uma camiseta de linho, calça jeans escura e botas Timberland. Ela era uma princesa e eu um capataz.
— O que aconteceu? — Debrucei o corpo sobre a madeira.
— Papai e mamãe brigaram de novo. — Ela começou a caminhar de um lado para o outro — ela disse que vai se divorciar se ele vender o haras. — Se tinha uma coisa que Lily temia, era a venda daquele lugar.
Suspirei.
— Vai abrir um buraco no chão — comentei, e Atena cutucou meu braço com a cabeça.
— Você não entende, ? Ele não pode vender! — bateu os pés no chão em fúria.
Acariciei o chanfro e a crina da égua, ouvindo minha irmã ditar sobre todos os motivos do porquê papai não deveria vender o haras. Ela sempre dizia que deveríamos assumir os negócios e que nossos filhos mereciam viver em um lugar como aquele. A natureza e os animais estavam na nossa família há séculos e assim deveriam permanecer.
— Irmã, vamos dar uma volta — sugeri, abrindo a porteira da baía. — Cavalgar vai te ajudar a se acalmar.
— Como você pode pensar em cavalgar quando o papai quer vender o haras? — Arqueou uma sobrancelha em indignação.
Curvei um sorriso, caminhando até o armário de acessórios. Escolhi entre as rédeas e as selas mais confortáveis para equipar um dos cavalos. Lily ficou em meu encalço.
— Porque esse haras só será vendido para uma pessoa. Eu. — Indiquei meu próprio peito.
Ela rolou os olhos.
— Não tem dinheiro para comprar.
— Não preciso de dinheiro, sou o herdeiro das terras. — Caminhei de volta para a baía. — E não se preocupe, deixo você cuidar da administração. — Sorri divertido.
— Você é tão presunçoso, . — Ela se aproximou, analisando enquanto colocava a sela em Atena. — Não pode montar essa égua, ela pertence ao Arnold Astor.
Dei de ombros, terminando de prender o cinto.
— Ela precisa exercitar a perna, então vamos fazer isso.
— Você faz tudo parecer tão fácil. — Ela soltou o ar pela boca, sentando-se em um caixote. — Sinto falta do Noah, ele também vê a vida desse jeito. Vocês dois são tão parecidos. — Notei sua voz fanhosa e isso acendeu um alerta sob a minha cabeça.
— Não falou mais com ele? — Quis saber, odiava vê-la triste.
— Acho que ele não quer mais falar comigo. — Seus ombros caíram.
— Foi por causa do que houve com a ?
— Não. — Ela respondeu de imediato e jogou a cabeça para trás. — A aranha falsa não chegou nem perto.
O alívio me dominou. Temia que um dia minha desavença com resultasse em qualquer problema no relacionamento de Lily e Noah.
Aquela garota sempre seria o meu tormento e, no mês passado, não consegui me controlar quando a vi rindo depois que deixei um dos cavalos escapar do centro de treinamento. A porteira ficou aberta e precisei ir atrás do animal até a fazenda vizinha. Quando voltei, não perdeu a oportunidade de zombar do meu descuido, passando a tarde pendurada na cerca, soltando suas piadas recheadas de provocações, enquanto exercitava os equinos.
E, como de costume, precisei dar o troco. Coloquei uma aranha falsa enorme no meio de um dos seus livros de romance, o que causou um grito tão alto no meio da madrugada que levar uma bronca da minha irmã como punição não chegou nem perto do gostinho delicioso da vingança. Meus pais tinham saído de viagem, o que deixou o caminho livre para fazer as travessuras com .
— Por que implica tanto com ela? — Lily questionou.
— Somos de mundos diferentes, é divertido — falei, dando de ombros.
Ela soltou um riso anasalado.
— O Noah me disse a mesma coisa quando sugeri que vocês fossem juntos para o evento de contabilidade. — Levantou-se do caixote. — Ele acha que podem ter algo em comum, apesar de serem tão diferentes.
Abri a porteira, guiando Atena para o corredor.
— A única coisa em comum é o nosso ódio latente e recíproco. — Caminhamos juntos. — Quando o assunto passou a ser sobre mim e a ? — ri e fiz sinal para Lennie, pedindo que selasse um cavalo para Lily.
— Eu só queria entender, vocês são sempre tão intensos. — Chutou uma pedra imaginária. — Talvez, um dia, irão se entender.
— Quando o inferno congelar, Lily — brinquei e rimos juntos. — O que houve entre você e o Noah?
Ela soltou um grunhido.
— Tem dois dias que ele não atende às minhas ligações. E quando responde às mensagens, parece meio... Distante. — ergueu os ombros. — O Noah tem agido um pouco estranho.
Fiz uma careta, agradecendo quando Lennie se aproximou e entregou as rédeas para Lily.
— O Noah não é assim — ela continuou —, acho que está escondendo alguma coisa. Ele nem quis vir para o haras nessas duas semanas.
— Talvez esteja planejando alguma coisa. — Arrisquei-me a dizer.
— Seja o que for, irei descobrir — disse, determinada. — Vou para a cidade amanhã, irei visitá-lo e conversar sobre isso. Agora, vamos cavalgar antes que escureça. — Ela subiu no cavalo e nem sequer se importou em me esperar para disparar pelo haras.
A poeira levantou e tudo que ficou foi o rastro da sua corrida. Não me preocupei em alcançá-la, já que Atena deveria executar exercícios leves. A saúde da minha paciente era o mais importante. Suas longas patas caminharam devagar, apesar de eu sentir a inquietação para forçar o tendão. Acelerei o ritmo lentamente quando atravessamos para o extenso pasto vazio de uma grama verde e brilhante. O terreno plano facilitaria os movimentos, a falta de inclinação e superfícies niveladas seriam propícias para ela.
Lily manuseou as rédeas e veio em minha direção, puxando os freios com delicadeza. Os cabelos lisos voavam conforme se movimentava. Ela emparelhou o cavalo ao meu lado e o sorriso iluminou sua face, era chocante o quanto se transformava em uma belíssima amazona quando queria.
Cavalgamos até a cachoeira que cruzava entre as terras dos e as fazendas vizinhas. Juntos, embarcamos em uma conversa sobre os cavalos que chegariam no dia seguinte. Segundo as informações que recebi, entre todos, hospedaríamos dois garanhões da raça Puro Sangue Inglês que passariam por treinamento de preparação para futuras corridas da região. Lembro-me também de Lily contar sobre o planejamento que seguiria quando estivesse na cidade, dizendo estar ansiosa para buscar o vestido que havia encomendado em uma alfaiataria.
Quando chegamos à clareira, deixamos os cavalos presos a uma árvore próxima à margem. A paisagem era um espetáculo de paz, com a cachoeira formando uma piscina natural cristalina, um convite à calmaria. As longas e lisas rochas serviam como assentos confortáveis, aquecidas pelo sol do fim da tarde. O som dos pássaros e da correnteza tinha a magia que aliviava qualquer estresse, tornando-se o meu lugar favorito.
Observei Lily retirar os saltos e correr para sentar sobre uma das pedras. Mergulhou os pés, balançando as pernas em movimentos suaves, enquanto observava a água em silêncio. Caminhei até ficar ao lado dela, admirando a forma como a luz filtrava pelas árvores, iluminando a queda da cachoeira.
— O que acha que vai acontecer com o haras? — A pergunta veio de repente. A voz baixa, quase inaudível.
— Nada. O papai e a mamãe vivem brigando, mas, no fundo, não têm coragem de vender esse lugar. — Sorri, sentindo a brisa suave que nos rodeava. — Mas, falo sério, se um dia eles surtarem, estarei pronto para dar um jeito de comprar a propriedade. E você poderá cuidar da administração. — Sabia que soava como uma brincadeira, mas, no fundo, faria qualquer coisa para salvar aquele lugar.
— Grande altruísmo, irmãozinho.
Lily me encarou por alguns segundos, os olhos azuis cheios de um brilho travesso — que deveria ter servido de alerta. Um sorriso se alargou em sua boca e, sem qualquer aviso, uniu todas as forças para dar o impulso contra o meu corpo, me empurrando no rio.
O choque térmico foi imediato.
Soltei o grunhido assim que emergi com os cabelos e as roupas encharcados. Tossi com força, quase cuspindo os pulmões, e puxei o ar, as vias aéreas clamaram de tanta ardência, tudo sob o som da delinquente gargalhando como uma hiena.
— Eu não acredito que fez isso! — gritei, a água escorrendo pelo rosto. — Eram botas novas.
Ela gargalhou mais alto, a mão segurando a barriga. Sua cabeça tombou para trás e a risada ecoou pela clareira. E eu daria tudo para ouvi-la rir todos os dias.
— Pare de reclamar. — Estendeu a mão em minha direção.
Encarei sua palma estendida e, por um momento, senti a súbita vontade de puxá-la, mas o som do trovão reverberando no horizonte acabou com a ideia. Mais cedo, havia verificado a meteorologia e uma forte chuva estava prevista para visitar o haras durante a noite toda. Então, o mais sábio era ir embora, antes que os dois ficassem ensopados.
— É melhor voltarmos antes que comece a chover. — Aceitei sua ajuda e encarei a escuridão das nuvens.
Lily soltou o ar pela boca, parecendo cansada. Ela agarrou minha mão assim que fiz menção de me virar para pegar os cavalos. Seus olhos contornaram o meu rosto e notei o brilho diferente ao redor das pupilas. As sobrancelhas arqueadas denunciavam seu estado de nervosismo.
— Irmão, me prometa uma coisa? — disparou, quebrando a tensão.
— O que você quiser.
De súbito, Lily me abraçou, seus braços apertaram o meu corpo como se a qualquer momento eu fosse desaparecer. Sua cabeça repousou sobre o ombro encharcado e soltou uma pequena lufada. Inclinei a cabeça, depositando um beijo carinhoso em seus cabelos, enquanto retribuía o abraço. Sentia que ela precisava do meu calor tanto quanto eu precisava do dela.
Nossa união sempre seria a mais forte e inexplicável do universo. Lily era parte da minha alma e, sem ela, minha essência ficaria rachada para sempre.
— Promete que sempre iremos cuidar um do outro? — ela sussurrou.
— Não precisamos prometer isso, Lily. — Afaguei os fios macios. — Nós já cuidamos um do outro. Sempre fomos nós contra o mundo, lembra? — citei a pequena frase de quando éramos crianças e eu a protegi quando acabou a energia no haras.
Seu corpo se apertou mais contra o meu e jurava que ela tinha lágrimas no canto dos olhos.
— Promete, — insistiu, com uma sinceridade rara. — Nunca sabemos o que o futuro nos reserva.
Lembro-me de um calafrio percorrer minha espinha. E por mais que naquele momento não compreendesse o porquê daquele pedido, sabia que um dia ele seria essencial para a minha alma continuar viva.
— Eu prometo, Lily. — Não hesitei. — Não importa o que aconteça, eu sempre vou cuidar de você. — Selei nossa promessa naquele dia, algo que ficaria talhado em mim para sempre...
O passado abriu caminho para o presente e voltei a mim com o ar faltando nos pulmões. Os olhos arregalaram abruptamente, o arrepio gelado se espalhando. Eu havia voltado para o cemitério, de frente para o túmulo frio e silencioso. Tudo não passou de uma lembrança. Um momento de ternura entre dois irmãos que agora estavam destinados a viver separados.
Encarei o retrato dela pregado na lápide e senti a lágrima escorrer do canto dos meus olhos, molhando a bochecha. Quente, minúscula e poderosa. A pressão contra o peito foi tão intensa que achei que fosse morrer ali mesmo. A garganta arranhou e desabei em um choro sôfrego. Os ombros balançaram com a força dos soluços.
Eu não aguentava mais sentir tanta dor...
Minha alma precisava se entregar à angústia. Tinha de sentir cada pedacinho se quebrando antes de colar os cacos que restassem. Lily odiaria me ver daquele jeito e faria de tudo para que eu abrisse mão de uma vez. Diria que estava na hora de aceitar e deixá-la ir. Usaria suas palavras doces e o riso travesso para convencer que o meu coração precisava ser lapidado. Suas mãos tocariam o meu rosto e sussurrariam que eu precisava soltá-la, que a dor um dia passaria porque a minha vida tinha de seguir sem ela.
Mas eu não conseguia... Não, sozinho...
— Eu não consigo, Lily... — confessei em voz alta, e as palavras arrancaram mais um pedaço da minha alma. — Eu preciso deixar você ir... Eu... — segurei a lateral do azulejo e deixei que as lágrimas falassem por mim.
Eu precisava disso.
Tinha que deixar a dor sair, sentir cada pedacinho se esvair entre meus dedos, até que a alma estivesse pronta para se curar e encarar a dura realidade.
— Eu prometo cuidar delas... — disse entre soluços. — Eu só não sei como...
Ergui a cabeça e novamente olhei para a fotografia. Eu sentiria falta da minha irmã até a eternidade. E quando achei que não fosse mais capaz de raciocinar, o tremor dominou cada célula do meu corpo em uma leve vertigem e então, a imagem dela preencheu a minha mente e me resgatou do poço profundo, cheio de amargor…
O rosto da coelhinha travessa, bicuda e dona da boca mais linda que só pensava em beijar. O sorriso dela. A risada estridente. As palavras suaves e, ao mesmo tempo, afiadas. O medo em seus olhos castanhos, a forma como se encolhia contra mim. O modo como o seu toque acalmava a minha tempestade. Ela sempre foi a âncora que me puxou do abismo. O porto seguro que me acolheu na escuridão.
Entreabri os lábios. Puxei o ar lentamente, o peito subindo e descendo com dificuldade. Minha cabeça latejou quando finalmente o meu coração entendeu o que estava acontecendo ali… A verdade sempre esteve estampada na minha frente, como uma sombra à espreita, e eu fui tolo o suficiente para não ver…
A ignorância me fez acreditar que a lealdade e a saudade que sentia de Lily foram o que mantiveram meu corpo respirando todo esse tempo, mas a realidade era mais absoluta… Sempre foi ela… A minha doce e infernal coelhinha que fazia o meu ar se tornar rarefeito. Foi por ela que aceitei abandonar tudo para cuidar de uma criança sem ter noção do que isso significava.
era a razão da minha existência e naquele momento, percebi que precisava dela para continuar respirando.
A promessa feita a Lily ganhou camadas que nunca pensei que fossem possíveis. Agora, entendia o porquê do universo me unir com a mulher mais teimosa do mundo… Eu era a ponta que faltava na base do triângulo. Minha alma completava a diferença das nossas vidas. E juntos tínhamos uma razão pequena e de olhos cristalinos que nos unia. Todas as constelações eram testemunhas de que eu faria de tudo para proteger as duas mulheres mais importantes da minha vida. Porque eu morreria para salvar a minha nova família.
Os dedos latejavam. As pontas vermelhas e sensíveis clamavam por descanso. Mas não conseguia parar. O atrito com o teclado contrastava com a dor insuportável no meio das costas, os músculos retesados pela posição desconfortável. Acomodei mais uma almofada entre o corpo e o braço do sofá, ajeitando a posição do notebook sobre as pernas dobradas.
A casa se fez em completo silêncio desde que desapareceu pela porta. Passei quase duas horas desabando na cozinha, até que ficasse desidratada e não restassem mais lágrimas para sair. Greta tentou me consolar, mas nem mesmo suas palavras doces foram o suficiente para arrancar a angústia de dentro do meu peito.
Por sorte, ela cuidou da Mia e a colocou para dormir. Agradeci aos deuses por terem colocado uma pessoa tão maravilhosa para ser a nossa governanta, porque se dependesse do meu estado, passaria dias sem comer e fazer absolutamente nada. As palavras de Charlotte ficariam rodando na minha mente até que minha alma tivesse forças para se levantar de novo.
No entanto, quando pensei que me fundiria ao chão da cozinha, tive a excelente ideia de descontar as frustrações e a raiva na escrita. A solidão se tornou um aliado e as teclas já imploravam por piedade, assim como meus dedos e os braços que começavam a ficar dormentes. Queria expressar todos os sentimentos em palavras, colocar tudo para fora sem que precisasse desabafar com alguém.
A página em branco ganhou forma tão rápido que nem percebi quando finalizei o capítulo e iniciei outro. E, por mais irônico que o universo fosse, escrevia uma cena difícil, dramática, que marcava a briga dos protagonistas. Elisa tinha desobedecido à ordem de Joshua e saiu com a amiga para uma festa, sem a proteção dele. Sua vida estava em jogo e, mesmo assim, se arriscou indo à boate.
Joshua descobriu seu plano exorbitante e chegou ao local antes de ela sofrer uma tentativa de assassinato. Por sorte, ele conseguiu contornar a situação e agora a mocinha estava a salvo, mais uma vez. No entanto, o guarda-costas brigava com ela, expondo todas as suas facetas e os medos de perdê-la.
Levei o dedo indicador até a boca, roendo a unha, quando, finalmente, minhas mãos pararam de digitar. Rolei o mouse, relendo os últimos parágrafos, para conferir se todos os sentimentos de angústia, raiva e medo foram expressos de forma clara. Deslizei a seta e abri o arquivo que usava de rascunhos para as cenas, assimilando as ideias para o próximo capítulo, onde Joshua e Elisa se reconciliariam antes de a casa dele ser invadida pelos criminosos.
Narrar meus personagens foi a forma que encontrei para esquecer as próprias dores e distrair a mente, por isso escrevia como um robô enlouquecido.
Prestes a retornar para a bolha da fantasia, ouvi o balançar do molho de chaves girando na fechadura da porta. Olhei por sobre o ombro, tempo o bastante para assistir e sua silhueta forte entrando na casa. Ele passou a mão pelos cabelos bagunçados, o semblante péssimo. Notei que, por cima da camiseta de linho, usava o jaleco da clínica, tirando qualquer dúvida sobre onde estava escondido todo esse tempo.
Tensionei a mandíbula quando seu olhar cruzou com o meu. O arrepio percorreu cada centímetro da espinha por ter sido flagrada. Engoli em seco, molhando a garganta seca que já aranhava. Desviei o contato e mordi o lábio inferior, decidida a retornar para a escrita. Mas o sexto sentido batucou contra as paredes do meu cérebro e, naquele momento, soube que olhava para o notebook aberto.
Fechei a tampa e procurei pelo controle da televisão, pausei o filme romântico que até então serviu como vozes de fundo para que não me sentisse tão sozinha. Meu estômago revirou assim que fui embriagada pelo perfume amadeirado, com suaves notas de lírios. Franzi o cenho, o calor se tornou profundo e não precisei de muito esforço para saber que ele estava parado ao lado do sofá.
— Podemos conversar? — Sua pergunta soou receosa.
Girei a cabeça para, enfim, encará-lo. colocou as mãos dentro do bolso do jaleco, provavelmente esperando que eu o enxotasse dali. Em contrapartida, apenas soltei o ar pela boca. Sem dizer nenhuma palavra, deixei o computador de lado e arrastei o corpo, ficando, finalmente, sentada da maneira correta, com espaço vago ao lado. Automaticamente, ajeitei as almofadas, enquanto ele retirava o jaleco e o deixava sobre a mesa de centro.
— Você está cheirando a cachorro molhado — comentei quando o aroma peculiar preencheu minhas narinas.
sorriu pelo canto dos lábios, tímido, e ocupou o lugar vago no sofá.
— Passei na clínica antes de vir. Não tive tempo de tomar um banho.
Sky, que até então tinha desaparecido, resolveu dar a graça da sua presença. Sua cauda balançava conforme se aproximava e rapidamente pulou no colo de , não perdendo tempo em começar a cheirar os odores característicos nas mãos e roupas do homem. Inspecionava cada pedacinho como um cão da polícia farejando por drogas.
Não segurei o riso quando o bichano fez a famosa careta de nojo que somente os gatos conseguiam fazer.
— O Sky concorda comigo. — Coloquei a mão na frente da boca para evitar que a risada saísse alta demais.
— Desde quando você e o meu gato estão tramando contra mim? — Ele fez beicinho na direção do felino, que em resposta aproximou o focinho do rosto, farejando minuciosamente.
— Não estamos tramando nada, só não gostamos do cheiro de cachorro. — Estendi a mão e distribuí carinho atrás da orelha de Sky.
O bichano ronronou e, em seguida, acomodou o pequeno corpo no espaço entre nós. Aconchegou-se em cima da almofada macia e felpuda. Não perdi a oportunidade de coçar delicadamente embaixo do pescoço peludo, o ronronar alto tendo o poder de acalmar qualquer clima tenso que existia na sala.
— Sky é um ótimo companheiro para leituras — comentei inocentemente.
Mordi a língua assim que notei ter falado alto demais.
— Gatos são os melhores companheiros para leitores. — Para a minha surpresa, a afirmação veio sem qualquer resquício de sarcasmo ou ironia.
Acompanhei quando esfregou as mãos no rosto e jogou o corpo para trás, afundando contra o encosto. Os olhos se fecharam e notei que travava uma luta interna consigo mesmo. E, quando o suspiro de cansaço escapou por entre seus lábios, tudo o que mais quis fazer é ajudá-lo na batalha que nem mesmo sabia quem era o inimigo.
Eu só queria arrancá-lo daquele tormento.
— , me desculpa por tudo o que eu disse... — O sussurro baixo foi quase inaudível. — Livros de romance não são estúpidos. — Suas palavras pareciam retirar um peso enorme dos ombros.
Por um momento, fiquei sem reação. As palavras retumbaram dentro da minha mente e me senti como uma retardada por não entender o simples significado daquelas palavras. E tudo que fui capaz de fazer foi olhar para as próprias mãos, não contendo o pequeno sorriso que curvou nos lábios. Um calor aconchegante se apossou do meu peito e a onda orgulhosa me dominou, sendo impossível de evitar.
Nunca imaginei que um dia estaria viva para presenciar o arrogante e imponente se desculpando por alguma idiotice que saísse da sua boca. Na verdade, depois de todas as nossas desavenças, achei que ele nem fosse capaz de fazer isso.
— Aceito as suas desculpas. — Em um impulso, toquei sua mão.
Rapidamente tentei recuar, mas foi mais rápido e a capturou antes que tivesse tempo de me afastar. Ele ajeitou a postura até que estivesse sentado e entrelaçou nossos dedos, o pequeno gesto me causou um arrepio na espinha. O toque das nossas peles disparou a onda eletrizante por cada célula do meu corpo e fui consumida aos poucos. Era como estar diante do encaixe perfeito, a perfeição criada pelos deuses.
Ergui os olhos até encontrar os poços azuis, por onde pequenas fagulhas dançavam ao redor das pupilas. Fui hipnotizada pelo calor, a sua força, e foi como entrar em combustão, sentindo que pela primeira vez uma parte perdida da minha alma estava finalmente se encontrando. A sensação era de ser abraçada por uma áurea mágica até meu corpo se fundir ao dele e tudo ao redor se transformar em uma atmosfera paralela onde apenas nós existíssemos e o mundo se tornava colorido outra vez.
A escuridão se tornou apenas um borrão na vasta obra-prima.
— Por que gosta tanto de ler? — A pergunta veio com curiosidade.
O polegar deslizou contra a minha mão em um carinho terno e o calor abrangeu todo o meu ser.
— Os livros me fazem sair da órbita, sabe? Com eles, consigo fugir do mundo real. — Olhei para nossos dedos entrelaçados.
— Isso é impressionante, mas… A realidade é tão cruel assim para querer fugir? — ele inclinou a cabeça.
De repente, o arco-íris se desfez e o peso daquela pergunta me atingiu com força, mesmo que não tivesse sido a sua intenção. Ainda havia muitas lacunas sobre o meu passado que ele não conhecia.
— … — Soltei o encaixe das nossas mãos e, por um instante, nada pareceu fazer sentido. — O Noah sempre mostrou ter uma boa vida. Era apaixonado por esta casa, pelo trabalho… — Olhei ao redor, querendo gravar cada detalhe da decoração na memória. — Ele acreditava nas pessoas. — Proferi e umedeci os lábios secos com a língua. — Só que o mundo é cruel e, por isso, gosto de fugir. Desligar por um tempo e fingir que os problemas não existem.
Por um breve momento, refleti sobre a confissão. Meu cérebro foi nocauteado pelas lembranças de todas as vezes em que meu irmão enfrentou as dificuldades sozinho. Ele, mesmo cansado, ainda persistia, somente para que eu não fosse afetada pelo mundo.
— O que aconteceu com você? — disparou.
A parede da memória se dissipou e sorri com o canto dos lábios. Noah sempre seria o meu maior exemplo de superação e nada tiraria esse título dele.
Puxei o ar com força e encarei o rosto de .
— Escolheu mesmo medicina veterinária, por que queria ficar longe das pessoas? — redargui.
— Escolhi porque lidar com animais é melhor do que com pessoas. — A resposta veio com naturalidade. — Quando estou na clínica e olho para os filhotes, os cachorros e gatos doentes, abandonados à própria sorte… Vejo que eles não esperam nada de mim, além de cuidado e compaixão. — Acariciou o lombo de Sky e sorriu quando o felino ronronou. — Os animais só querem ser amados. Eles não vão te machucar ou... Te obrigar a levantar e encarar uma multidão porque é isso que esperam de você... Porque precisam extrair cada pedacinho da sua força até não sobrar mais nada... — Suas palavras soaram tão profundas que notei estar se referindo a um episódio do passado.
— Dê o seu coração a um cachorro, e ele lhe dará o dele — recitei.
— Agora dê a um humano e veja o estrago que ele faz — disse, deprimente.
Mordi o lábio inferior, enquanto brincava com os próprios dedos.
— É por isso que acha que não consegue cuidar da Mia? Por que o seu coração está tão machucado que não pode ser lapidado?
— E o seu não está? — disparou e fui pega de surpresa.
Virei a cabeça em sua direção e estudei os traços dele com atenção. Notei que a pele estava levemente vermelha na região do nariz e as pálpebras inchadas, apesar de se esconderem atrás dos cílios longos. Era incrível como conseguia disfarçar perfeitamente as emoções, sendo preciso um olhar bastante analítico para notar os sinais das lágrimas recém-derramadas.
— … Eu acho que somos duas almas condenadas a viver a mesma dor. Vagando pela superfície em busca de algo que nos faça voltar a ver o mundo colorido outra vez.
Ele anuiu, jogando o corpo novamente contra o estofado, ficando deitado com a barriga para cima. As mãos desgrenharam os fios loiros escuros.
— Eu a visitei hoje… — disparou e a revelação me atraiu.
Engatinhei pelo sofá, ficando com o corpo na mesma posição que o dele. Tive o cuidado para não incomodar a vossa majestade peluda que ainda dormia sobre a almofada. Olhei para o teto, esperando que continuasse.
— A última vez que fui ao túmulo deles foi no dia do enterro. E pensei que ir até lá pudesse encontrar as respostas que tanto procurava.
— E as encontrou?
girou o corpo até que estivesse deitado de lado com as mãos embaixo da cabeça.
— A Lily não apareceu de forma divina, me deu um tapa e depois disse o que eu tinha de fazer, se é isso que quer saber. — Sorriu divertido.
— Se ela tivesse feito isso, acredito que o Noah faria o mesmo comigo. — Virei o rosto e não contive o riso.
O som da nossa risada quebrou a tensão que nos rodeava. Acompanhamos quando Sky se espreguiçou. As delicadas patas começaram a amassar o tecido da almofada. Um mini padeiro peludo com uma gigantesca encomenda de croissants, faltava apenas o chapéu de cozinheiro.
— Talvez eu tenha finalmente entendido o porquê de eles nos escolherem para cuidar da Mia. — Ainda olhava para o felino quando ele murmurou.
— Por que somos os únicos parentes vivos, mais jovens, que poderiam assumir a guarda? — arrisquei-me a perguntar.
Fez uma careta engraçada e deitou-se com a barriga para cima novamente.
— É um ótimo palpite, mas não acho que seja por isso. O juiz poderia eleger os meus pais como tutores legais mesmo com a idade avançada. São os avós dela. — Pegou o controle da televisão e começou a analisar as bordas em uma forma de distração.
Neguei com a cabeça e massageei a testa.
Por que não deixamos...? — Virei a cabeça para encará-lo. — Seus pais seriam os guardiões perfeitos.
Não deixamos porque era o último pedido deles — relembrou.
Franzi o cenho.
— Então, qual o motivo que os levou a nos colocar juntos?
— Você disse que somos duas almas feridas em busca de um objetivo para viver. E a Mia é o nosso objetivo — explicou, como se fosse óbvio.
A confusão deveria estar evidente no meu rosto, já que o vi apertar a ponte do nariz, enquanto parecia vasculhar a mente em busca da melhor maneira de explicar a sua teoria.
— Seja mais claro sobre isso — pedi, com a voz baixa. A ruga queimou em minha testa em um sinal de concentração.
Ele soltou o ar pela boca, umedecendo os lábios com a língua.
— A Lily e o Noah eram as únicas pessoas que nos conheciam de verdade. Eles não eram apenas nossos irmãos, eram nossos melhores amigos, os únicos que sabiam sobre nossas falhas e segredos. — Girou o controle nas mãos, igual a um brinquedo antiestresse. — Quando escreveram aquela carta, sabiam que a perda deles resultaria no imenso vazio em nossos corações. Então, nos deixaram um motivo para viver. Uma missão.
Fiz um beicinho e ergui a mão automaticamente.
— Então... A Mia é a nossa oportunidade de curar o vazio que eles deixaram e assim conseguir ver o mundo colorido outra vez? — gesticulei, como se ligasse os pontos imaginários.
— Eles não nos escolheram porque somos os mais maduros ou os mais capazes. — Se fosse por isso, os avós maternos seriam a melhor opção.
— Está me dizendo que deixaram a filha nas nossas mãos porque sabiam que ela seria a solução para as nossas feridas e, no processo, nos tornaremos a família que ela tanto merece? — Crispei os lábios, ainda receosa sobre aquele raciocínio.
— A Mia é a junção perfeita da Lily e do Noah. Ela é tudo o que precisamos para nos curar.
O silêncio perdurou por alguns segundos, sendo quebrado apenas pelo miado furioso de Sky. , ainda deitado, cutucava a barriga do felino e era atacado pelas unhas afiadas que agarraram em seu braço, as patas traseiras chutando o antebraço com toda a força. Sorri, não conseguindo desviar os olhos daquela cena icônica. Notei o quanto eles se divertiam, apesar do bichano estar deixando diversos arranhões na pele clara do homem.
Enquanto os dois se entendiam entre unhas e caretas, aproveitei o tempo para compreender melhor sobre a teoria de . Era estranho pensar que não fomos escolhidos por nossas qualidades, mas sim pelas falhas. E, apesar de achar que o veterinário enlouqueceu de vez, no fundo, tinha de concordar com ele. O luto era como uma ferida aberta que se recusava a cicatrizar, e ter aquela bebê ao nosso lado nos forçava a olhar para o futuro.
Tínhamos um motivo para viver e não deveríamos desperdiçar essa chance presos na escuridão do passado.
Arregalei os olhos e o pequeno susto acelerou meu coração. Sky pulou sobre minhas pernas e correu para fora da sala. E, pelo peso dos seus passos, a urgência em desaparecer, estava completamente ofendido por ter sido perturbado.
— , somos a âncora um do outro e não podemos deixar o conselho tutelar tirar a pequena de nós — , enfim, pronunciou. — Precisamos lutar juntos. E não podemos agir como dois narcisistas, egoístas. — Ao final da frase, imitou a voz irritante de Charlotte com perfeição.
Pressionei os lábios, impedindo que o riso saísse, sendo impossível de evitar quando fingiu ser a assistente social e isso só aumentou cada vez mais minha vontade de rir. Naquele instante, percebi que finalmente estávamos tendo uma conversa civilizada e tinha de admitir o quanto me divertia com suas zombarias.
Quando paramos de rir, foi como se a realidade estapeasse nossos rostos.
— Como posso ser o pai perfeito para a Mia? — ele murmurou para si mesmo.
encarou o teto, o olhar perdido e os dedos batucando em ritmo nervoso sobre o peito duro. A cobrança transpassava pelas íris azuladas de forma tão intensa que conseguia sentir de onde estava. Desviei o olhar e mordi o lábio inferior. Minha cabeça girou para encontrar a televisão com a imagem do filme romântico congelada. E, de repente, foi como estar em um desenho animado e uma lâmpada acendesse no alto da minha cabeça.
A possível solução para aquela cobrança estava bem ali.
— Acho que sei como te ajudar. — Minha voz ecoou pela quietude da sala.
Agarrei o controle remoto e deixei que meus dedos apertassem os botões como se minha vida dependesse disso. Vasculhei entre as diversas opções, tudo sob o olhar minucioso de . Abri a aba de conexões por via USB e a imagem do pequeno pen drive confirmou minha intuição. Esperei enquanto o televisor reconhecia o dispositivo, antes de exibir as diversas pastas com filmagens e fotografias de nossos irmãos com a filha.
— Há alguns dias, sem querer, encontrei esse pen drive conectado na TV. — revelei, buscando entre os diversos arquivos de vídeo. — Eles provavelmente esqueceram ali. E, como a boa curiosa que habita em mim, acabei olhando algumas filmagens.
Olhei para ele e deixei que um sorriso tímido, sem os dentes, curvasse meus lábios. se ajeitou no sofá, ficando sentado ao meu lado. Seu corpo parecia tenso, notei que os olhos tinham um brilho de curiosidade dançando ao redor das pupilas.
— Como acha que isso vai me ajudar? — Inclinou a cabeça e crispou as sobrancelhas em dúvida.
— Bom... Eu e o Noah não fomos criados em uma família convencional. Nossos pais morreram em um acidente de carro quando eu tinha 7 anos e ele 17. — A voz embargou, revivendo as lembranças do dia do acidente.
Fechei os olhos por alguns segundos e afastei qualquer pensamento antes que fosse consumida. Respirei fundo, sentindo a dor angustiante por pensar que meu irmão se foi do mesmo jeito que nossos pais. Abri os olhos e selecionei a primeira filmagem com o título: “Boas-vindas ao Bebê". A tela acendeu e meu coração deu um solavanco assim que a câmera capturou Noah segurando Mia, recém-nascida, tão pequena e delicada que até parecia uma boneca.
—Eu estou fazendo certo? — meu irmão perguntou. A voz grossa, ansiosa e cheia de medos.
Ele tentava balançar os braços com cuidado, a expressão de pânico que consumiu sua face quando Mia mexeu os braços minúsculos, foi cômica. Sorri com a cena, era impressionante como sentia tanto a falta dele, de olhar para seu rosto, admirar os cabelos castanhos e olhos verdes que herdou da nossa mãe. Brevemente, o porte físico era bastante parecido com o de .
— Relaxa mais os braços, amor. Ela não é de vidro — Lily disse suave, revelando quem se encarregava da filmagem.
A câmera se aproximou e, em seguida, o ângulo virou, filmando o momento em que ela depositou um beijo molhado na bochecha dele, e ambos olharam para a neném que remexia os braços e tinha os olhos curiosos, analisando cada canto do quarto.
— Você será um ótimo, pai — ela sussurrou, o amor presente em cada palavra.
Uniram suas testas, roçando os narizes em um carinho terno, e sorriram um para o outro antes do vídeo terminar.
Encarei a tela escura, o silêncio profundo preenchendo a sala. A saudade era como uma doença que me corroía, obrigando-me a apertar os dedos até que os nós ficássemos brancos. Pressionei os lábios para segurar o choro que ficou enroscado na garganta, as lágrimas insistiam em acumular no canto dos olhos.
— Ele cuidou de mim... E não teve nem tempo de viver o luto, algo que não entendia na época... — Olhei para o chão e esfreguei o rosto com o dorso das mãos, capturando as gotas teimosas que escaparam.
Passei para o próximo vídeo e um sorriso frágil tremeu em meus lábios, quando a cena apareceu. Era possível escutar a risada baixa e delicada de Lily, enquanto caminhava pela sala e focava a câmera em Noah. Ele dormia no sofá-cama da sala e tinha Mia adormecida no peito. A representação perfeita para ilustrar o pai dedicado que se tornou,
— O Noah sofreu muito para ficar com a minha guarda. Fomos transferidos para um orfanato e ele lutou contra o sistema para que não fôssemos adotados separados. Mas nenhum dos casais que nos visitavam queria adotar uma criança junto com um adolescente. — Lembrava vagamente daquele lar temporário. — No ano seguinte, ele completou a maioridade e assumiu a minha guarda. — Funguei, cada músculo do meu corpo contraindo de saudade dele. — As pessoas diziam que ele não levava jeito; que um jovem desempregado não conseguia criar uma criança. — Puxei o ar com força, antes de prosseguir: — E então, conheceu a Lily. Conseguiu um emprego, cursou a faculdade e nunca me deixou sozinha. E uma coisa nele que sempre admirei é que tomava muito cuidado para que eu não soubesse das dificuldades e das humilhações que sofria no mundo afora.
O calor que aqueceu meu joelho me tirou a atenção do televisor. Virei o rosto e encontrei com a mão sobre a minha perna. Ele me encarava com ternura e fascínio, enquanto ouvia a história em completo silêncio, a postura mais relaxada. Parecia absorver cada palavra, processando todos os detalhes, e talvez, finalmente entendendo que a perfeição não existe.
Apertei o play no controle e um novo arquivo se iniciou – o mais importante. Desta vez, era Noah que cuidava da câmera. A imagem subiu do chão para uma Lily completamente irritada e cansada, sentada na poltrona no quarto da filha. As olheiras escuras sob os olhos denunciavam as noites mal dormidas, mas a voz doce cantarolava uma música infantil para a pequena em seu colo.
— Amor, dê um sorriso. Fica tão linda quando está sorrindo — ele disse gentil e isso irritou Lily.
Ela se levantou, colocou a bebê no berço e se virou para o marido. O baque da sua mão contra a lente tornou tudo escuro, mas ainda conseguíamos ouvir a discussão de forma clara e real.
— Não vem com essa de sorriso lindo, Noah! — ditou e seus passos ecoaram pelo corredor.
Ele manteve a filmadora abaixada, filmando o chão.
— Não fica assim, meu amor — pediu, o arrependimento presente em sua voz.
— Você sabia que eu estava cansada! Passei o dia inteiro trabalhando e só queria dormir um pouco. Era a sua vez de cuidar dela! — gritou e desceram as escadas.
— Amor... Me perdoe, prometo que da próxima vez que ela chorar à noite, irei levantar. — E só então notei a falta de iluminação da casa; provavelmente era madrugada.
— Como você quer que tenhamos uma vida de casados, se não quer me ajudar com as tarefas dessa casa? — A discussão ficou acalorada e a câmera foi desligada.
Desconectei o pen drive e mudei para um canal aberto antes que o próximo vídeo começasse.
— Ele não era perfeito. — Levantei o olhar para encarar o veterinário. — O que quero que entenda é que o Noah tinha todos os motivos para desistir. Ser um homem amargo e não acreditar mais nas pessoas, mas ele escolheu encontrar forças para perdoar e seguir em frente, buscando sempre ser melhor.
— Sinto muito, — finalmente falou, apertando levemente a minha patela. — Não sabia que tinha perdido os seus pais tão cedo. A Lily nunca me disse nada.
— Não é um assunto de que gostávamos de falar. — Isso era algo que eu e meu irmão tínhamos em comum, esconder nossas dores e sentimentos das pessoas.
suspirou, olhando ao redor da sala.
— Você acha que conseguimos… Cuidar da Mia? — Mudou de assunto, sua voz quase hesitante.
— Nunca seremos eles. — Aproximei-me e toquei seu ombro. — Não podemos substituí-los. E acho que está na hora de pararmos de pensar que eles vão voltar — reprisei sua fala e nossos olhos se encontraram no mesmo instante.
Havia uma faísca de reconhecimento entre nós, um entendimento silencioso que ia além de qualquer palavra. Era como se finalmente assumíssemos que estávamos presos no mesmo barco, à deriva de um mar revolto que faria de tudo para nos fazer naufragar.
Pousei a cabeça sobre o seu ombro e senti quando ele se inclinou, deixando o queixo sobre meus cabelos. Nós nunca seríamos perfeitos, mas éramos tudo o que a Mia tinha. Naquele momento, as duas almas perdidas estavam se reconhecendo, um entendimento mútuo e puro. A tempestade ao redor diminuiu gradativamente e abriu caminho para a faísca que nos aquecia cada vez mais.
— Vamos prometer uma coisa, ? — disparei, sem reconhecer minha própria voz.
— Tenho medo de quando me pedem isso. — Ele riu e não me contive em fazer o mesmo.
— Quero que me prometa que iremos parar de nos cobrar tanto. — Envolvi sua mão com a minha e acariciei a palma com o polegar. — Eu nunca serei como a Lily. Ela era uma mãe maravilhosa, admirável. — Mordi o lábio inferior. — Mas lembro de tudo o que o Noah me ensinou, e se eu puder passar metade dos ensinamentos dele para a Mia... Será a minha maior realização.
Ergui os olhos e endireitei o corpo até que estivesse de frente para ele, sem soltar sua mão. O sorriso que se curvou em sua boca foi encantador, capaz de roubar toda a minha compostura. E céus... Como eu queria experimentar o gosto daqueles lábios.
— Eu prometo, — confidenciou e entrelaçou nossos dedos. — E se eu puder passar para a Mia tudo o que os meus pais me ensinaram, sei que um pedaço da Lily sempre estará com ela.
Nossos olhos não eram capazes de se desgrudar e foi o exato momento em que proclamamos a união de dois inimigos destinados a viver sob o mesmo teto para sempre. O arrepio dominou cada partícula do meu corpo, engoli em seco, sentindo que daquela vez tudo daria certo. Porque não importa o quanto escrevêssemos por linhas tortas, juntos daríamos um jeito de encontrar o caminho certo.
— E-eu sinto tanto a falta deles... — murmurei com o coração apertado.
Meu lábio inferior tremeu e tudo o que consegui fazer foi buscar refúgio nos braços de . Eu não queria mais chorar, por mais que admitir a saudade em voz alta fosse mais difícil do que pensava. Ele me envolveu, acolheu meu corpo pequeno, erguendo uma muralha ao meu redor. Quente, reconfortante e protetor.
— Eu também sinto... — confessou contra meus cabelos.
— Será que um dia essa dor vai passar? — Apoiei as mãos em seu peitoral duro, a cabeça repousada ali.
— Nunca irá passar, . Só iremos aprender a conviver com ela. — Ele afagou os fios escuros em um carinho terno. — Conhece o mito grego da caixa de Pandora?
— Eu sou escritora, . É claro que conheço. — Sorri tímida.
— Então sabe que existe uma dentro de cada um de nós. É onde iremos guardar essa dor pelo resto de nossas vidas. — Escutei o tom suave da sua voz como uma melodia. — Sabe, tentei manter essa caixa fechada tantas vezes nos últimos dias que, quando ela finalmente abriu, achei que não fosse suportar.
Ergui o olhar para encará-lo e ele evitou o contato visual.
— Por isso fui até o túmulo deles. Depois do que ouvi da Charlotte e da nossa briga, fiquei completamente perdido. Não sabia mais o que fazer. — A mandíbula afrouxou, era realmente difícil ele se abrir daquele jeito. — Eu chorei feito uma criança que caiu da bicicleta. Mas isso me fez ver que eu precisava deixá-la ir, porque quanto mais a segurasse, mais demoraria para alcançar a paz no meu coração. — direcionou os olhos gentis para o meu rosto e notei quando encarou meus lábios por um breve momento.
Engoli em seco, temendo que percebesse que fazia o mesmo.
— Você disse que foi em busca de respostas, mas não me disse como as encontrou. — Desviei os olhos para as próprias mãos, era mais seguro.
— Quando estava no fundo do poço, uma pessoa apareceu e me puxou de volta para a superfície.
Ele se aproximou. O perfume amadeirado inconfundível mexia com os meus sentidos.
— Quem apareceu? — quis saber com uma pontada de curiosidade.
— Você.
E naquele momento, descobri como uma palavra curta, simples e tão inocente conseguia desestabilizar até o ser mais controlado do universo. Minha garganta secou. Imediatamente levei os olhos para os dele, encontrando um brilho de gratidão e satisfação, ao mesmo tempo em que vi um misto de alívio e insegurança. Abri e fechei a boca com a intenção de dizer alguma coisa, mas era como se todas as palavras tivessem sido roubadas pelo ladrão mais experiente do mundo.
— Você apareceu e entendi que era hora de deixar a minha irmã ir, porque outra pessoa precisava de mim. — Foi a revelação mais chocante que alguém poderia ter feito.
E o mais surpreendente era ver aquelas palavras saindo da maldita boca do homem que estava me enlouquecendo apenas por estar perto demais.
— , eu... — Não sabia o que dizer. Meu cérebro entrou em combustão e queimou o vasto vocabulário.
Um sorriso lento e enigmático curvou-se no rosto dele e os olhos faiscaram por algo que não soube identificar. Ele se inclinou, diminuindo a pequena distância entre nós e o aroma de cedro e pimenta se tornou uma arma perigosa. O hálito quente bateu contra meu rosto e suas palavras foram sussurradas contra minha orelha, causando o arrepio por todo o corpo.
— Acontece que essa pessoa é uma escritora que odeia lidar com o mundo real e acha que vamos sobreviver sem nos matar antes — zombou e gargalhou em seguida. — Diga, coelhinha. Algum dos seus livros românticos conta como dois inimigos podem se juntar para cuidar de uma criança? — Afastou-se e me encarou em busca de uma resposta.
Arqueei a sobrancelha e neguei com a cabeça, surpresa pela completa mudança de humor tão repentina.
— Não. Nenhum deles.
— Considere como tema do seu próximo livro. — Ele uniu os dedos e deu um peteleco na minha testa. — E não esqueça de adicionar um veterinário gostoso como o protagonista.
— Espere deitado em uma cama muito macia, veterinário. — retruquei. — Porque o inferno terá de congelar primeiro, para que eu escreva um personagem inspirado em você. — Ele não precisava saber que as chamas do submundo estavam congeladas há muito tempo.
— Teria muitas leitoras suspirando por ele. Pense como um investimento. — Deu uma piscadela e rolei os olhos.
E, com a alfinetada ardendo na ponta da língua, fui interrompida pelo som alto e prolongado da minha barriga roncando feito um terremoto. O barulho constrangedor fez minhas bochechas corarem.
— Estou morrendo de fome. Será que ainda dá tempo de pedir burritos? — Vasculhei o sofá em busca do celular.
Joguei as almofadas, igual a uma desesperada em busca do aparelho que parecia ter sido engolido pelo estofado.
— Com toda certeza que não, já devem ter fechado. — se levantou. — Vamos, senhorita escritora. Precisamos alimentar essa sua alma ferida antes que entre em colapso de fome. — Estendeu a mão em minha direção.
— Você vai cozinhar? — Arqueei a sobrancelha em desconfiança.
— Vou, aprendi a fazer uma pizza de liquidificador muito prática.
— E qual o veneno escolhido para a ocasião? — Estreitei os olhos e acompanhei quando ele alargou um sorriso travesso.
Os olhos azuis se acenderam com uma malícia divertida. Ele esfregou as mãos, parecendo um mafioso prestes a colocar seu plano mais maligno em ação.
— Se não levantar daí agora, vou colocar muito bacon e você será obrigada a comer.
Arregalei os olhos e estremeci, já imaginando o quanto a gordura do bacon abraçaria todos os outros ingredientes em um campo oleoso de batalha. Meu coração sofreu um pequeno infarto só de pensar na massa ensopada e brilhante de tanta gordura. Por isso, em segundos, minhas pernas me obrigaram a sair do sofá e correr para a cozinha, como se a minha vida dependesse disso — e dependia.
O riso dele me seguiu, um som que, por mais estranho que fosse, parecia fazer parte do lugar há anos. Comecei a gargalhar quando abriu a geladeira e comemorou por encontrar uma embalagem fechada de bacon que Greta havia comprado naquela semana. Eu o amaldiçoei se ousasse colocar aquilo na pizza e juntos, fizemos o caos se instaurar naquela cozinha.
Eu sabia que nunca seria como a Lily, e nem ele como o Noah, mas pela primeira vez senti que mesmo assim estava tudo bem. Porque, em meio ao caos de nossas almas quebradas, encontraríamos uma nova definição de lar. Não era perfeita, mas real. E isso é tudo o que precisávamos para conseguir seguir em frente.
Inspirei devagar. O ar entrou pelos pulmões profundamente de maneira tão sutil que há muito tempo não sentia. Deixei a boca curvar-se em um sorriso pequeno, enquanto lutava para abrir os olhos que se incomodaram com a breve luz do sol que entrava pela janela da sala. Instintivamente, o rosto esfregou contra a almofada macia e só então percebi estar abraçado com o quadrado felpudo.
Espreguicei-me. Sem querer, a mão esbarrou contra a estrutura quente e rechonchuda. As pequenas unhas arranharam levemente a pele, o ronronar chegando aos meus ouvidos. Virei a cabeça apenas para confirmar que Sky estava ali, a barriga escura virada para cima e as patas esticadas em total conforto. Ele dormia no canto do sofá, como era de costume, todas as noites.
Acariciei a barriga redonda. Ri assim que as patas peludas agarraram meu braço e cravaram os dentes na região do pulso, causando apenas uma pressão pequena, já que nunca usava força o suficiente para machucar. Continuei com a perturbação até que realmente fosse mordido e tivesse que intervir antes que virasse um petisco de salmão. Puxei o felino e o abracei como se fosse um bichinho de pelúcia, arrancando o grunhido do fundo da sua garganta.
Como veterinário, sabia que os gatos não eram tão adeptos de contato físico igual aos cães, mas desde que resgatei Sky, tudo mudou. Esperei pacientemente até que a infecção cedesse, cuidei de cada machucado e, no final, o adotei porque o laço entre nós se tornou forte demais para deixá-lo ir. Então, sempre que o apertava nos braços, ele grunhia de puro charme.
O bichano pulou do enlaço, passando a amassar o tecido das almofadas. Resvalei o dedo sobre a cabeça minúscula, desviando sempre que tentava me morder. Sorri de modo tão espontâneo que senti cada célula do meu corpo mais leve. Tinha acabado de acordar de um dos sonos mais revigorantes da vida.
A angústia e o peso que dominavam meu espírito abriram caminho para a leveza e o sentimento de propósito. E era incrível pensar que tudo mudou depois de uma noite desastrosa que terminou com sorvete e pizza de liquidificador. Ainda lembrava da pequena coelhinha insistindo que deveríamos colocar brócolis no recheio em vez de bacon. Um insulto ao meu paladar.
E, pela primeira vez, fomos maduros o suficiente para lidar com o problema. Tiramos no cara ou coroa, quem ganhasse escolhia os ingredientes. Mas quando jogamos a moeda, ameaçou arrancar minhas bolas quando o rosto do homem caiu para cima. Isso causou uma discussão breve, onde corri o risco de ser castrado e nocauteado por uma panela. No fim, decidimos fazer dois sabores e tínhamos uma massa de metade, frango com bacon e mussarela com brócolis.
Agora, o cheiro do café sendo preparado e das panquecas no fogo tornavam o ambiente aconchegante igual a um lar. E querer estar ali não soava mais como uma obrigação, e sim, como um privilégio. A sorte pairava sobre mim, sentia as energias carregadas, pronto para explorar a casa sem medo e inseguranças, me detendo.
Aquelas paredes se tornaram o abrigo da minha alma.
Levantei-me e subi para o banheiro principal. Arrumai os cabelos desgrenhados em frente ao espelho assim que terminei de escovar os dentes. Minha mente ainda vagava pelas lembranças da noite anterior, ouvindo rindo, o corpo pequeno sentado no balcão da cozinha. Balançava as pernas freneticamente, a colher cheia de sorvete – a nossa sobremesa.
Apoiei as mãos na pia e o sorriso que curvei nos lábios foi tão largo que me sentia como um adolescente na flor da idade. Meu coração acelerava só de pensar no momento em que ela roubou o pote de sorvete de baunilha das minhas mãos e correu ao redor da ilha da cozinha. A segurei com os braços, suas costas bateram contra meu tronco e a risada estridente que soltou foi o som mais maravilhoso que já tinha ouvido.
— Eu preciso disso, estou na TPM! — ela justificou e jogou a cabeça para trás, apoiada sobre meu ombro.
— Você ameaçou me castrar por causa do bacon. Agora vai se entupir com açúcar sozinha e não quer nem dividir comigo? — Puxei o pote, mas ela foi mais rápida.
me acertou com a colher cheia e se soltou. Entreabri os lábios, surpreso com sua atitude, mesmo possuído pela gargalhada estridente.
— Essa é a sua parte do sorvete. — Riu.
Ela deixou o pote no balcão e abocanhou mais uma porção generosa.
— Isso foi muito infantil, coelhinha! — Tentei soar bravo.
Rapidamente enfiei a mão na massa gelada e mostrei o melhor sorriso travesso em sua direção.
— Não ouse, . — Apontou a colher como uma arma.
— Vou ser bonzinho e darei dois segundos de vantagem. — Comecei a contagem e ela correu para o outro lado da cozinha.
Logo a alcancei e pressionei a mão cuidadosamente no seu nariz e boca. A delinquente lambeu os lábios, atraindo minha atenção, e me senti um felino faminto. Não conseguia desviar os olhos dos movimentos, sendo tempo o suficiente para ela revidar. Capturou o resto do sorvete em minha palma e, sem hesitar, esfregou no meu rosto e barba.
Ela caiu na gargalhada. Em poucos minutos, a cozinha se tornou uma guerra de sorvete de baunilha, misturado com risos e xingamentos. Naquele momento, deixamos nossas máscaras caírem por terra e fomos nós mesmos depois de tanto tempo. E quando finalmente terminamos o duelo, tivemos de nos unir para limpar tudo, caso contrário, Greta nos pegaria pela orelha e exigiria que cada canto ficasse brilhando.
E agora, encarava o reflexo no espelho, sentindo-me o desgraçado mais sortudo do mundo por finalmente ter encontrado o meu lugar. Durante muito tempo, pensei que não conseguiria viver o luto pela minha irmã, mas agora que finalmente a deixei ir, era como viver o que ela mais queria de mim.
Recomeço.
Minha vida tinha sofrido um reset, e construiria uma vida sem a Lily, mas com as memórias dela sempre me acompanhando pelo caminho.
O caminho até a cozinha foi como mergulhar nos primeiros passos da minha jornada. O clima ameno me envolvia com sutileza. Fiquei parado com o ombro encostado contra o batente, sendo acolhido pela cena da pequena sentada na cadeirinha de alimentação, o rosto todo sujo de frutas. Greta revezava entre ajeitar a mesa e ajudá-la com a colher, o sorriso caloroso estampado no rosto.
Observei Mia por alguns minutos, não deixando de notar os traços finos e delicados como os da mãe. A forma como os pequenos dedos tentavam segurar o talher era idêntica ao jeito da minha irmã. A risada gostosa e tão primorosa; os olhos de um azul cristalino; a boca pequena e fina, dona de um sorriso encantador. Todos os detalhes me remetiam a lembranças que guardaria para sempre em um cantinho especial no meu coração.
— Garoto, nem ouse dizer “bom dia” — Greta proclamou, sem nem me dirigir o olhar. — Eu não sei o que aconteceu aqui ontem, mas por culpa de vocês, vou ter que comprar muitos venenos para formiga.
Apertei os lábios, segurando o riso assim que vi a seringa amarela em cima do balcão com uma foto gigantesca do inseto no rótulo. Acho que nossa tentativa de limpeza acabou atraindo novas moradoras para a casa.
— Irei me encarregar disso, Greta. — Passei a mão na nuca.
— O que aconteceu aqui? — Finalmente se virou para me encarar, os braços abertos em indignação.
Estava prestes a responder quando estendeu a mão aberta em minha direção em sinal de “pare”. Por um instante, agradeci por ela não possuir autorização para portar uma arma, senão, eu seria um alvo fácil.
— Quer saber, ? Eu não quero mesmo saber. — Balançou a palma em desdém.
Os cantos da minha boca se curvaram em um sorriso torto, antes de ser atraído pelo barulho de passos apressados na escada. apontou no corredor e correu pelos degraus, pulando de dois em dois como se competisse em uma maratona. Ela rapidamente me alcançou e acompanhei quando seus olhos se arregalaram.
Os próximos segundos ficaram em câmera lenta.
Sua perna vacilou. O pé traiçoeiro escorregou no azulejo liso e tive de acionar todos os reflexos para conseguir agarrar a cintura fina, antes que encontrasse o chão. Teria sido uma queda grotesca e hilária. Mas por que ela estava correndo feito uma maluca?
Agarrou o meu braço com força e, em seguida, seus glóbulos castanhos encontraram os meus. Franzi o cenho ao encontrar uma atmosfera anuviada ao redor das pupilas dilatadas, quase transformando as íris claras em um tom escuro. O rosto pálido, os lábios levemente trêmulos e a respiração acelerada.
— Como vou manter essa família viva, com você querendo se matar desse jeito? — provoquei e deixei que usasse meu corpo de apoio para levantar.
mostrou a língua e empurrou meu ombro, entrando na cozinha como se nada tivesse acontecido — atitude bastante madura.
— Tem uma aranha do tamanho dessa casa no meu quarto — exclamou, enquanto arrumava os cabelos bagunçados.
— Se uma aranha fosse do tamanho dessa casa, ela com certeza não passaria pela porta do seu quarto — zombei e cruzei os braços, ficando recostado no batente.
Estreitou os olhos na minha direção. O rosto enrubesceu, finalmente ganhando um pouco de cor.
— Eu sei o que eu vi, . — Cuspiu com fúria.
Soltei uma gargalhada.
— Quer dizer que você quase se matou por causa de uma aranha? — Crispei as sobrancelhas em provocação.
— Eu queria ver como reagiria se um dinossauro invadisse o seu ambiente pessoal! — Ela pegou uma maçã na fruteira em cima do balcão e mordeu com força.
— É só uma aranha, . Não estamos no Jurassic Park. — Cruzei os braços e sorri atrevido.
Mia gargalhou e, sem querer, derrubou a colher no chão ao balançar os braços. Fui imediatamente atraído, não resistindo a tanta fofura. Aproximei-me da cadeirinha de alimentação e depositei um beijo na cabeça dela. Os pequenos dedos agarraram o colar de prata que pulou pela gola da camiseta — um acessório que voltei a usar somente depois da noite passada.
— , tira esse negócio da mão dela. A Mia ainda é muito pequena para segurar isso — advertiu.
Cuidadosamente, retirei o pingente em formato de cruz da mãozinha minúscula antes que levasse à boca. A corrente simples e antiga havia sido um presente de Lily. Segundo ela, sempre que o usasse, meu espírito estaria sendo protegido por Deus. Nunca fui uma pessoa religiosa e, quando aconteceu o acidente, tudo que mais queria era desaparecer com aquele objeto.
Mas depois de ontem, soube que não deveria culpar a Deus pelo que aconteceu com minha irmã e por isso o tinha colocado de novo. Além disso, somente de ver o acessório adornando o pescoço sentia uma onda reconfortante me conectar de volta com o antigo .
Escondi a corrente dentro da roupa. Como distração, peguei a colher limpa na gaveta e abaixei o corpo até que ficasse da altura certa para ajudar a pequena a terminar de comer as frutas junto do mingau de cereais.
— , onde viu a aranha no seu quarto? Irei fazer uma faxina hoje à tarde, posso tirá-la — Greta questionou, terminando de arrumar a mesa.
— Perto das caixas de livros. — E, em seguida, fez questão de detalhar como era o pequeno inseto.
Grande, cabeluda e cheia de olhos enormes. E um detalhe importante: tinha gosto por carne humana.
— Nossa, era a aranha do Harry Potter? — zombei. — Talvez ela tenha confundido o seu quarto com a Floresta Proibida. — Mordi os lábios e segurei a gargalhada.
semicerrou os olhos e fez um beicinho que a deixou linda demais. Incrível como ficava gostosa mesmo com raiva.
— Eu vou bater nele, Greta. — Apontou o dedo em riste. — E juro que vou usar a panela de pressão elétrica!
— Parem vocês dois! — A senhora massageou as têmporas.
— Greta, a pode ter encontrado uma espécie de aranha falante, podemos ficar ricos. — continuei com a provocação.
E, como esperado, o impacto foi certeiro. lançou a primeira coisa que viu pela frente: a mamadeira de Mia, cheia de água morna. Minha testa latejou e tive que massagear a região, sob a gargalhada da bebê que claramente se divertia com a bagunça.
Greta cobriu a boca com o guardanapo, escondendo o riso.
— É bom saber que finalmente fizeram as pazes — confessou, a voz beirava ao alívio.
— Nunca achei que um dia apanharia com uma mamadeira de plástico. — Fiz uma careta, como aquele pequeno objeto poderia causar tanta dor?
— Deveria ter pensado nisso antes de dizer que o Aragog está morando no meu quarto. — Ela mordeu lentamente a maçã, com aqueles olhos lindos me fuzilando.
Por um momento, esqueci de que estava ajudando a pequena e passei a observar o adorno dos lábios da coelhinha. Carnudos, delicados, com aparência de deliciosos. limpou o canto da boca com o polegar, o pequeno gesto despertando a sensação que achei que nunca sentiria por ela. Minha mente se perdeu na imaginação de serem os meus dedos a tocando, resvalando a pele tão macia, enquanto a prendia contra o balcão da cozinha.
— Sabe, ... Enquanto a tarântula estiver dormindo na minha cama, nada mais justo do que eu fazer uma maratona de filmes românticos — ela provocou.
Só então notei que eu prendia o ar.
— Greta, por favor, cace o bicho — murmurei, enquanto tentava recuperar o fôlego que a coelhinha havia roubado.
— Sabe, enquanto vou em busca da aranha, vocês deveriam pensar em redecorar a casa — a governanta disparou, colocando a tigela com frutas e o pote de geleia de morango sobre a mesa.
O calor subiu pela base do meu pescoço, um sinal que sabia ser perigoso, mas mesmo assim não escutei a razão que foi para o inferno. Sem conseguir evitar, voltei a encarar a coelhinha. E quando cruzou os braços, o movimento, por mais sutil que fosse, se tornou uma cena arrebatadora. Os seios fartos se tornaram evidentes, chamativos, um pecado naquela camisola fina. Engoli em seco, sentindo o nó na garganta, e cerrei o maxilar, me forçando a desviar os olhos para o chão.
Céus! Precisava sufocar essa atração antes que me consumisse por completo...
— Devem deixar do jeito de vocês, afinal, essa casa agora é dos dois. — Greta continuou, sua voz doce e gentil.
— É uma ótima ideia, Greta! — exclamou, a voz tremia de excitação. — Podemos começar pela sala, confesso que aqueles quadros abstratos são assustadores. — Notei o quanto estava se esforçando.
Depositei um beijo na cabeça de Mia. Observei enquanto levava a colher cheia até a boca, sozinha. Meu peito se encheu de orgulho ao ver que ela repetiu o movimento, mesmo que o mingau caísse quase todo para fora do talher. Tão independente, minha pequena.
— Já que não vou conseguir me livrar dessas duas mulheres, acho que deveríamos deixar a casa com a nossa cara — comentei, o fio da consciência voltando lentamente.
— Mas, e o quarto deles? — Ouvi a voz de questionar.
O brilho de insegurança brincava ao redor das pupilas dos olhos castanhos. O medo sibilava pelo seu corpo, querendo a todo custo fazê-la recuar. Ela esfregava os braços em uma tentativa de afastar o frio que nem mesmo existia. O peito subia e descia, a respiração irregular.
O pânico estava brutalmente estampado nela e soube que precisava agir antes que o barco afundasse. Prometemos que seguiríamos em frente, então é isso que vamos fazer.
— Pensei que você poderia sair do quarto de hóspedes e se mudar para lá — sugeri de imediato. — Podemos mudar a decoração, as roupas de cama, os móveis.
Ela ponderou por um momento, antes de apontar o dedo na minha direção.
— Consegue colocar uma prateleira de livros na parede? — perguntou com receio.
— Se eu não conseguir, chamamos um profissional — prometi, e um sorriso sincero iluminou o seu rosto.
Foi como segurar a sua mão no meio da tempestade. Uma pontada de determinação se acendeu no meu peito assim que avançamos juntos, superando o obstáculo. A mudança, por mais assustadora que pareça, é necessária. Doía ter de reviver todas as lembranças dos nossos irmãos, mudar cada detalhe que deixaram, mas se pretendíamos viver nessa casa, deveríamos nos ver dentro dela, como uma família de verdade.
Greta pigarreou e limpou as mãos no avental que amarrou ao redor da cintura. Olhava para a mesa cheia de comida com admiração e orgulho.
— O café da manhã está pronto, podem comer e, enquanto isso, vou fazer a lista de compras do mercado. — Ela puxou o bloco de papel em cima do balcão que sempre usava nessas ocasiões.
— Posso levá-la até o mercado. Assim consigo passar mais tempo com essa neném. — Fiz cócegas na barriga de Mia, ouvindo sua gargalhada contagiar o ambiente.
— Tudo bem, mas eu dirijo! — anunciou, a curta frase com o poder de transformar os próximos minutos em uma zona de guerra.
E não fosse o meu carro no meio daquele campo minado, Greta não precisaria ter gritado quando viu dois adultos – que mais pareciam crianças — correndo até a sala como se apostassem uma corrida pela vida.
Levantei-me de uma maneira tão rápida que até mesmo duvidei das minhas capacidades. Quase escorreguei ao tentar alcançar a mulher que invadia a sala e já vasculhava todo o cômodo em busca das chaves do veículo. Estreitei os olhos em sua direção, analisando-a minuciosamente. Virei a cabeça, mirando o molho metálico em cima da mesa de centro, escondido debaixo do jaleco da clínica que tirei na noite anterior.
No entanto, quando estava prestes a pegar o que era meu por direito, pareceu relembrar os acontecimentos passados. Seu corpo pequeno e ardiloso girou, os olhos redondos cravados sobre a mesinha, a expressão idêntica à de um predador encarando a próxima presa. A descarada me varreu de relance. Meu estômago revirou e precisei agir antes que o precioso Hyundai Creta tivesse o destino traçado.
Lancei o corpo para frente e fez o mesmo. Era possível sentir a agitação entre nós, os corações batendo pela competição. Para qualquer espectador, parecíamos disputar pelo último grão de arroz do mundo. Arregalei os olhos ao vê-la estender o braço em minha direção, a mão pequena colidiu com força contra meu peito e isso me fez perder brevemente o equilíbrio.
Soube que havia perdido a disputa assim que ela começou a saltitar, balançando o molho de chaves no ar. Soltei um suspiro resignado e deixei o corpo cair contra o sofá, derrotado.
— Como disse: eu vou dirigir hoje. — Fez questão de relembrar.
Rolei os olhos, apoiando-me nos cotovelos.
— Você não tem carteira de motorista.
Ela fez beicinho, enquanto pescava uma das chaves. A maior e dona da ignição do SUV imponente estacionado na frente da casa.
— Na verdade, tirei a licença para os dois veículos. Mas não dirijo um carro há mais de 5 anos. — O sorriso travesso cobriu o canto dos seus lábios.
Minhas pupilas dilataram de modo que o coração quase mergulhasse em completo colapso. Os batimentos cardíacos ecoavam pela sala, esmurrando o peito com tanta força que pareciam garras, rasgando por dentro em desespero. Meus olhos esbugalhados estavam prestes a saltarem e resgatar o molho metálico daquelas mãos tão delicadas, que seriam capazes de fazer um estrago, se não fizesse alguma coisa.
O ar me faltou só de imaginar as diversas atrocidades que poderia acontecer com o meu precioso carro.
— Eu nunca vou deixar você chegar perto daquele volante. Nem se a cabeça do Sky nascesse chifres, ! — Passei a língua pelos dentes, o furor dominando a voz.
— Você bebeu ontem à noite, cientificamente seus reflexos estão mais lentos. — Ela sorriu endiabrada.
era a personificação das trevas mais linda que já vi.
— Foi só uma garrafa pequena de cerveja, não conta! — Passei as mãos pelos cabelos.
Ela lambeu os lábios e torceu os lábios, antes de balançar as chaves. O seu olhar descrevia que tinha acabado de ter a melhor ideia do planeta.
— Vamos deixar a Mia decidir quem irá dirigir. — Atravessou a sala a passos largos.
Adiantei-me em segui-la, ficando em seu encalço.
— Minha pequena é inteligente e sensata, irá concordar comigo. — Entramos na cozinha.
Greta tinha a mão na frente do rosto, o riso escapando por entre os dedos.
— Pare de ser tão medroso, . Eu não vou bater o seu carro — protestou, agachando-se ao lado da cadeirinha de alimentação. — Oi, princesa. — depositou um beijo no topo da cabeça de Mia e recebeu uma risada em resposta.
tinha um sorriso divertido tomando sua boca. O canto direito levemente mais arqueado que o esquerdo. A ponta da língua estava presa entre os dentes. Uma coelhinha muito travessa.
Eu, por outro lado, cruzei os braços e soltei o suspiro resignado. Remexendo os ombros em busca de uma posição confortável contra o batente da entrada, sendo também uma tentativa de afastar aquele magnetismo que só me fazia querer beijá-la até que a falta de ar nos consumisse e nossos lábios ficassem inchados.
— Meu amor, nos ajude a decidir quem irá nos levar para o mercado.
— Ela é muito pequena, . Quase nem consegue segurar a colher sozinha — Greta disse, docemente. — Ficaremos nesse impasse o dia inteiro. — terminou as anotações no papel e segurou a folha dobrada.
— Coelhinha, você nem sabe onde fica o freio de mão — comentei, gesticulando com a mão.
ergueu a cabeça e endireitou o corpo. Seu corpo cheio de curvas veio em minha direção, a travessura estampada em seus olhos. O que ela ia fazer agora?
— É aquela parte onde pegamos assim? — Ela ergueu o braço e fechou a mão em punho, deixando uma pequena abertura no meio. — É o mesmo movimento que usamos para dar prazer a vocês. — sussurrou de maneira que apenas eu pudesse ouvir.
Engoli em seco. Nossos olhos se conectaram e as chamas quase nos queimavam. O oceano se mesclava com o fogo, desbravando uma luta intensa, cheia de nuances que ainda não conhecíamos.
desviou a atenção para a minha boca, curvando um sorriso depravado, que me fez arfar. Por um instante, deixei que a imaginação criasse a cena perfeita das suas mãos, provocando-me de maneiras inestimáveis. Os dedos ao redor do meu pau, excetuando movimentos leves e quentes em um vai e vem enlouquecedor, enquanto me lançava aquele olhar faminto e cheio de desejo.
Oh, céus.
Nunca mais ia tirar aquela imagem da cabeça...
Portanto, a distração surtiu o seu efeito e usei disso para agarrar a chave da sua mão. Em provocação, escorreguei o chaveiro no dedo e balancei na frente do rosto dela, em sinal de vitória.
— Vou garantir que chegaremos inteiros no mercado. — Sorri sarcástico, ignorando o calor que insistia em se apossar do meu pescoço.
Ela rolou os olhos e bufou em frustração. A ausência da sua presença e do aroma de romã com verbena fez meu peito se remexer em protesto. Cerrei a mandíbula, acompanhando quando sentou-se em uma das cadeiras e serviu o prato com algumas das diversas opções de comida.
— Você venceu — declarou e enfiou a torrada na boca.
— Agora, que já resolvemos quem será o piloto, aproveitem o café da manhã. — A governanta aproximou-se de Mia e a tirou da cadeirinha. — Enquanto isso, vamos colocar uma roupa bem bonita? — disse para a bebê, esfregando o nariz contra o dela.
Assenti e me juntei a , mesmo que algo sussurrasse no pé do ouvido o quanto era uma péssima ideia ficar sozinho com ela. Ocupei a cadeira à sua frente e escolhi minha comida.
— Sairemos em alguns minutos. — E então, Greta desapareceu com Mia, cantarolando uma música infantil.
rompeu o silêncio assim que as duas saíram. Continuamos nossa breve discussão afiada, onde tagarelava sobre minha sigilosa falta de confiança na sua direção. O embate de olhares foi perturbador e, a cada palavra que saía daquela boca carnuda, minha imaginação fluía para outro lugar. O desejo ardente de descobrir a habilidade dela com o freio de mão me consumia, mesmo sabendo ser uma grande loucura.
Apoiei os cotovelos na mesa e concordei com a cabeça a cada reclamação. Encarei seus lábios, a linha do maxilar, a base do pescoço, toda a extensão de pele exposta. Arfava só com a ideia de ter o seu corpo dançando com o meu; de explorar cada centímetro dela; de sentir o seu cheiro e o sabor dos seus lábios.
Porra, estava rendido por ela.
Sempre soube que essa mulher iria me enlouquecer, mas nunca imaginei o quanto queria me perder nos seus encantos, com a promessa de nunca mais conseguir voltar.
Ergui as mãos, balançando a cenoura e a beterraba. Mia continuou impassível, ocupada demais com o mordedor em formato de mãozinha rosa. Nem mesmo os olhos claros expressavam qual era a melhor direção. Suspirei, devolvendo tudo para a prateleira, e estudei as próximas opções, em busca de algo que agradasse o paladar infantil.
Greta havia dito que deveríamos introduzir comida mais sólida para a pequena, como pequenos vegetais e até mesmo carboidratos que pudessem ser preparados com baixo teor de sódio. E ali estava eu, um homem que não entendia quase nada sobre alimentação saudável, preso a um bebê no carrinho que parecia alheio ao mundo.
Até pesquisei algumas receitas na internet, mas foi contra todas as minhas escolhas, dizendo que nada do que encontrei era saudável e, com isso, comecei a suspeitar sobre o seu desejo de transformar Mia na próxima coelhinha.
— Vamos, pequena. — Peguei duas opções de raízes e mostrei a ela. — Quais das duas? Você escolhe, e prometo que irei pensar em uma forma de preparar para que não fique tão sem graça. — Porque se dependesse da e da Greta, essa criança cresceria traumatizada com comida sem sabor.
A minúscula mão esticou e tocou a batata doce. Um sorriso genuíno, vitorioso, brotou em meus lábios. Por um momento, desconfiei que a cor vibrante tinha sido a razão de tê-la atraído, mas pouco importava. Era bem mais fácil inventar uma receita com aquilo de que já estava acostumado, do que com um nabo que nem sequer sabia definir o gosto.
— Ótima escolha. Sei fazer um escondidinho de batata doce com frango que fica uma delícia. — Essa era uma das receitas que os anos de academia me ensinaram.
Embalei boa quantidade da raiz, assumindo uma postura orgulhosa. Havia sido apenas a escolha de um tubérculo, mas para mim era o equivalente a resolver uma equação de física quântica. Meticulosamente, organizei as compras dentro do carrinho quando Mia riu, balançando as perninhas na cadeirinha. Ajeitei a franja dos cabelos loiros escuros e senti o peito ser possuído pelo sentimento genuíno e invencível de um super-herói que acabou de vencer a luta contra os legumes.
Incrível como um pequeno gesto mexia com todas as células do meu corpo.
Continuamos o percurso pelo grande hortifrúti. Parei em frente à seção de bananas e maçãs. Minha mão hesitante se preparou para escolher entre as opções mais perfeitas e brilhantes. Porque a coelhinha não merecia menos que isso. adorava comer frutas no café da manhã e à tarde, então era obrigatório que a casa estivesse repleta das suas favoritas. A ideia de abastecer o carrinho com as que ela mais gostava trazia uma paz estranha.
A lembrança de quando preparei mirtilos para ela me invadiu. Havia sido a primeira vez que escutei uma das suas crises noturnas, quando nem nos conhecíamos direito. Mas, apesar de ainda não saber o verdadeiro motivo do seu pânico, era grato por não ter me afastado. Queria ajudá-la com os traumas, por mais enraizados que estivessem em seu coração. Ela merecia ver toda a beleza da chuva, e eu faria de tudo para que isso se tornasse real.
Além disso, também lembrava da conversa cheia de revelações que tivemos. Um dos poucos momentos em que deixei as dores do passado falarem mais alto. Ainda doía pensar na ironia que era Romeu e Julieta, quando estive disposto a beber o veneno por alguém e acabei sendo apunhalado pela faca mais afiada do mundo. Aquela imagem grotesca nunca saiu da minha cabeça, sendo o motivo principal de ter deixado o haras para trás, me dedicando à clínica e prometendo só retornar para aquele lugar pelos meus pais e nunca mais por ela.
Somente Aidan e Madisson conheciam a minha trágica história de amor, e se fosse preciso contá-la para que se abrisse comigo, faria isso quantas vezes fosse necessário. No fundo, torcia que ela nunca soubesse sobre Nora, entretanto, estava disposto a novamente fazer de tudo por uma mulher. E esse sentimento era assustador demais depois de tantos anos que passei recluso na dor.
Ah, coelhinha... Você ainda vai ser a minha ruína.
Os burburinhos puxaram minha alma das lembranças mórbidas. Mia se remexia no carrinho, olhando na direção da moça de cabelos castanhos que acenou para ela, enquanto passava. A desconhecida parou a poucos metros de distância, na seção de hortaliças frescas. O seu olhar pairou sobre nós, o sorriso sutil brincando em seus lábios, ao mesmo tempo que escolhia a alface. Ela piscou e desviou o olhar rapidamente, antes de desaparecer pelas prateleiras.
Concentrei-me em Mia, ajeitando o mordedor que quase caía das suas mãos. Empurrei o carrinho em direção à seção de laticínios, focado em procurar a fórmula infantil que Greta pediu. E foi preciso apenas parar para notar mais olhares. Dessa vez, de uma senhora mais velha que sorria encantada; ao lado, duas mulheres riam em uma conversa animada, ao mesmo tempo em que lançavam olhares ternos para nós; e até mesmo uma funcionária de mercado que passava por ali perguntou se Mia era minha filha e, quando afirmei, ela soltou um suspiro deleitoso antes de seguir o seu caminho.
Franzi o cenho. Todas me observavam e me senti em um palco de exibições. Um pedaço de carne exótica. Algumas curiosas, outras com um brilho de admiração no olhar. O pequeno desconforto brotou momentaneamente em meu âmago, de maneira que não soube explicar. Era só estranho. Por toda a minha vida, a atenção feminina sempre foi algo natural, mas agora era diferente. Parecia um erro ser o centro das atenções.
Mas que porra estava acontecendo comigo? Em outras circunstâncias, não perderia a chance de desfilar com Mia pelos corredores só para ter as mulheres me devorando com os olhos, mas agora, nem me reconhecia.
O aroma adocicado dominou meus sentidos, servindo como válvula de escape. Romã e verbena. Girei a cabeça e encontrei se aproximando no corredor. Ela estava distraída com algo no celular, os cabelos escuros caíam sobre os ombros, contrastando com a camiseta branca, apertada, que realçava as curvas perfeitas. Tinha escolhido um short jeans verde militar e tênis brancos de aparência muito confortáveis.
Céus, ela era linda demais.
Levantou os olhos castanhos do aparelho e sorriu em minha direção, os lábios curvando de maneira tão encantadora que meu peito deu um solavanco. Pouco me importei em como sua presença serviu como um filtro, afastando todas as mulheres ao redor. Meu coração retumbava, a sensação de estar completo pairando no ar. era a única mulher que queria com os olhos cravados em mim, por mais assustador que esse sentimento parecesse.
— Não acredito que escolheu batata doce! — ela exclamou, com um tom de repreensão, enquanto olhava para o carrinho. — Esse é o único vegetal que você conhece, ? — Cruzou os braços em frente ao peito.
Tive que lutar contra o instinto de olhar para os seios fartos que ficaram empinados e sufocados com aquele movimento.
— Foi a Mia que escolheu. Ela é uma mulher de bom gosto, ao contrário de certos coelhinhos que preferem colocar a horta inteira na comida — rebati, o sorriso travesso surgindo nos lábios.
revirou os olhos, mas não escondeu quando a boca se curvou. Inclinou-se em direção ao carrinho e deixou um beijo na bochecha de Mia.
— Seria mais divertido, princesa. Teria superpoderes e a saúde mais forte do que um touro de rodeio. — Fez cócegas na pequena e não deixei de admirar as duas.
Era errado me sentir tão extasiado com aquela cena?
— , o que aconteceu no meio do caminho? — ela arqueou a sobrancelha, as mãos segurando a cintura. — A Greta dividiu a lista em três partes. Ela cuidaria do açougue; eu dos produtos de limpeza e você da parte do hortifrúti. — pontuou e vasculhou o carrinho. — Então... Cadê os legumes e as verduras? Aqui só tem frutas e batata doce.
Mas é muita ingratidão dessa infeliz. Fiz questão de pegar as melhores frutas, só porque ela gostava e é assim que sou retribuído.
— A Mia não gostou de nada do que mostrei a ela — defendi.
apertou a ponte do nariz, antes de tomar o carrinho das minhas mãos.
— Ela só tem 2 anos, ainda não sabe o que é comer de verdade.
— Ah, comida sem graça e sem sal, agora, ganharam um nome chique? — ironizei, seguindo-a pelo corredor.
Ela suspirou e mesmo sem conseguir olhá-la, sabia que revirou os olhos.
— Deixa que eu pego a sua parte da lista — afirmou, enquanto entrávamos de volta no hortifrúti.
Deixamos o carrinho estacionado perto da seção de legumes. Peguei Mia no colo, sendo nocauteado pelo corpinho agitado, o dedo indicador apontava para as abóboras enrugadas, enquanto balbuciava sons desconexos. Abaixei-me e os pés minúsculos tocaram o chão, as pernas trêmulas desfilaram. Seus olhos curiosos exploravam cada cor e textura ao redor. Endireitei o corpo, supervisionando cada passo como uma águia à espreita. Era o meu dever mantê-la sob o meu campo de visão, mesmo que estivéssemos praticamente sozinhos.
Minha pequena correu para tocar a melancia que ficava na prateleira mais baixa das frutas. Meu rosto se iluminou com o brilho de curiosidade nos olhos dela. Aquela sensação de pertencimento me preencheu mais uma vez. E mesmo que não soubesse como descrever tudo isso, era como se a escuridão que tanto me engoliu ganhasse uma nova cor. Senti cada célula do corpo gritando o quanto era sortudo, o peito se enchendo de presunção.
Eu finalmente havia encontrado o meu lugar.
— Cenoura, tomate, couve-flor e batata. — pontuou ao meu lado, separando as embalagens no carrinho. — O que mais a Greta pediu?
Sem desviar os olhos, retirei o papel dobrado do bolso da calça e entreguei a ela, sem conferir se era realmente a lista de compras que mais parecia um código militar escrito à mão.
Olhei de relance para e a encontrei com um beicinho fofo torcido nos lábios, ao mesmo tempo em que pegava uma abobrinha na prateleira. Ela encarou o vegetal igual a um detetive estudando uma pista, a seriedade em seu rosto me fez ter de apertar os lábios para não rir. Além disso, minha mente traiçoeira já tomava um rumo inesperado, imaginando-a segurando outra coisa que não fosse aquele negócio verde e sem graça.
Balancei a cabeça, espantando os pensamentos depravados, para me concentrar em pegar todas as embalagens que ela entregava com tanta naturalidade. Eu só me perguntava em quantos coelhos iríamos alimentar com o carrinho tão cheio de vegetais e legumes -– sem contar as hortaliças que faltavam na lista.
Senti algo cutucar minha perna, puxando o tecido da calça jeans com sutileza. Não foi preciso muito esforço para identificar que era Mia, cansada da exploração. Ela estendeu os braços em minha direção e não resisti em pegá-la. Meu rosto e cabelos foram amassados pelas mãozinhas, que me agarraram em busca de apoio. Minha pequena delinquente queria ficar no colo, mas se recusava a sentar.
Assoprei contra a barriga, emitindo o som engraçado e arrancando gargalhadas estridentes do fundo da sua garganta. Não resisti em também alargar o sorriso, enquanto continuava com os sopros altos e mais risadas ecoaram pelo mercado. Notei que algumas pessoas nos encaravam com olhares curiosos, o que pouco importava. Será que nunca tinham visto pai e filha tão unidos e brincalhões?
Um pontapé atingiu a boca do meu estômago. Pai. Uma palavra tão nova no vocabulário, e ao mesmo tão antiga, como se sempre tivesse feito parte da minha alma.
— Ei, vocês, dois. — chamou nossa atenção. — Hoje teremos brócolis no jantar! — disse com tanto entusiasmo que pareceu ter descoberto uma mina de ouro.
Encarei aquele negócio verde e estranho que parecia ter vindo de outro planeta. O formato lembrava a uma pequena árvore com o caule grosso e copas de flores em miniatura. Ergui a cabeça e fiz uma careta para Mia, que gargalhou em resposta.
— Quem em sã consciência come isso e gosta? — franzi o cenho, nunca me imaginando comendo algo como aquilo. — Parece um buquê de flores colhido antes da hora.
Arrastei os pés para trás, em busca de ficar longe daquela coisa que mais parecia um alienígena verde. riu.
— Se já está fugindo desse jeito, imagina quando descobrir que os veganos comem girassol assado na churrasqueira — comentou, enfiando o vegetal em um saco transparente.
— Como uma pessoa sobrevive só de plantas de pura e espontânea vontade? Olha isso. — Peguei a couve-flor e fiz outra careta. — Não dá para comer esses vegetais sem sabor. — Joguei de volta no carrinho. — Se um dia, eu disser que isso é gostoso, tenha a certeza de que estou com uma arma apontada para a minha cabeça. Ou internado no manicômio.
— Não seja tão dramático. Já ouviu falar de temperos? Causa animal? — resmungou e se aproximou da banca ao lado, onde eu havia pegado a batata doce.
Ajeitei Mia sobre meus ombros, segurando em suas pernas pelo caminho, antes que fosse chutado. Olhei para as mãos da coelhinha e encontrei o formato cilíndrico e alongado, semelhantes às cenouras gigantes e brancas. Nabos. O que diabos ela pretendia fazer com aquilo? Aliás, por que alguém comeria isso? Eles tinham a aparência tão pálida que só de olhar me dava gastura, e imagino que o gosto seja horrível.
— Por que não aproveitou e pegou os nabos, sendo que ficam do lado da batata doce? — Incrédula, ela cruzou os braços em minha direção.
— A Mia disse que não gostava.
Estreitou os olhos e me senti como uma praga, prestes a ser exterminada do jardim.
— A Mia que não gosta, ou você que não gosta?
— E o que esperava que eu fizesse? Realmente não consigo imaginar nada gostoso que vá isso aqui. — Gesticulei para as cenouras anêmicas.
Ela suspirou.
— Não consegue imaginar uma sopa de legumes com nabos? — Arqueou a sobrancelha, as palavras saindo como se fosse óbvio.
— A única coisa que imagino quando olho para isso é algo que não posso fazer com ele, porque já tenho outra coisa maior no lugar. — Aproximei-me, os pensamentos mais sujos e proibidos se aflorando.
arregalou os olhos em surpresa.
— Então, coelhinha, o que espera que eu faça com os nabos? — Levantei uma sobrancelha em desafio.
As bochechas coraram, e por um instante, um sorriso travesso desenhou-se em sua boca. Em seguida, estendeu o saco plástico cheio do vegetal e esmurrou-o contra meu peito.
— Pegue e coloque dentro do carrinho, antes que eu bata em você com eles — ameaçou, sua voz soou risonha e tímida. Obedeci como um ótimo servo.
Os próximos minutos se resumiram em conferir os itens do carrinho com a lista de compras. Soltei um suspiro de alívio quando declarou que a parte do hortifrúti e dos produtos de limpeza tinha acabado. Agradeci aos deuses por não ter mais de ouvir qual a diferença dos pimentões amarelo, verde e vermelho. A coelhinha empenhou-se em contar como cada um era usado dentro da culinária, depois de eu ter tido a infeliz ideia de dizer serem todos iguais.
Desci a pequena dos ombros ao ouvir o bocejo e a aconcheguei nos braços, velando o sono que a abraçava aos poucos. Estava quase na hora da soneca da tarde. Beijei o topo da sua cabeça, acariciei o rostinho angelical com o polegar. Os olhos redondos se fecharam. Balancei o corpo com cuidado, ninando, enquanto ainda conferia a lista, em busca de alguma coisa que deixamos passar.
— ! — O grito agudo e feminino fez com que levantássemos a cabeça juntos.
A mulher jogou os cabelos longos e volumosos, os fios em tons loiros claros caíram em ondas soltas por cima dos ombros. O corpo pequeno tinha as curvas desenhadas em formato de ampulheta, de modo que a escolha de roupas casuais o moldasse. Seu andar era elegante, o quadril balançava, igual a uma modelo na passarela. Mas os detalhes que mais me chamaram a atenção foram os olhos expressivos e o sorriso contagiante se destacando no rosto fino, natural e espontâneo.
Ela puxou para um abraço tão apertado que precisei conter o riso quando a coelhinha me encarou, o canto dos olhos espremidos em um pedido de ajuda.
— É muita coincidência encontrá-los aqui. — Segurou pelos ombros. — Oi. — Virou-se na minha direção. — Não tivemos tempo de nos apresentar formalmente no outro dia. Sou a Bethany, vizinha de vocês. — estendeu a mão e o sorriso estampou o rosto.
Meu cérebro parou e levou alguns segundos para processar a informação. Estudei as feições delicadas, tive de piscar duas vezes quando as engrenagens giraram, finalmente a reconhecendo como a mesma mulher que vi com na varanda, naquele dia em que havia perdido um paciente.
— , é um prazer. — Envolvi sua palma, quase a engolindo com minha mão.
Os olhos azuis faiscaram ao me analisar de cima a baixo. Ela absorveu cada detalhe físico do meu corpo em uma análise minuciosa e demorada. Engoli a seco, endireitando a postura no automático. As fagulhas dançando nos olhos claros foram claros sinais de que gostou do que viu.
Mas era normal sentir um leve incômodo por isso?
Nossas mãos se soltaram e logo ela foi atraída para a bebê adormecida em meus braços. Algo que duraria pouco depois do gritinho de empolgação que explodiu pelo lugar.
— E essa deve ser a Mia. — Aproximou-se, tocando a mãozinha delicada. — Ela é tão linda! — elogiou. O sorriso luminoso fez parecer estar diante de uma obra de arte famosa.
Inclinei a cabeça ligeiramente para o lado. Aquela mulher carregava algo intrigante. Nunca tinha visto uma criatura com a aura tão leve. A alegria irradiava naturalmente através dos traços finos, como se o próprio sol a venerasse, uma raridade.
— A Jessy também veio comigo hoje. Vocês precisam conhecê-la! — disse com entusiasmo e esticou o pescoço em busca de algo. — O meu irmão está com ela, daqui a pouco devem aparecer por aqui. — Riu suavemente, antes de sussurrar em tom conspiratório: — Ele odeia ficar sozinho na seção de cuidados femininos.
Curvou o sorriso simpático e divertido. O corpo inquieto, ainda procurando o homem pelos corredores. Bastaram apenas alguns segundos para desistir da busca e mudar a postura de maneira espontânea.
— Então, quando vamos fazer aquele jantar? As meninas precisam se conhecer melhor. Elas vão adorar quando virem o Woody, o nosso husky siberiano. Ah! E também... — Bethany continuou listando os diversos benefícios que Mia e Jessy teriam ao conviverem juntas e, posteriormente, enfrentarem a adolescência.
Levantei as sobrancelhas, questionando-me mentalmente como uma criatura tão pequena conseguia ser tão tagarela. Olhei para de relance, que, ao contrário de mim, parecia encarar a situação com naturalidade.
— O que vocês acham? — Quis saber, a empolgação presente na voz.
Eu e nos entreolhamos, nosso silêncio sendo capaz de dizer mais do que palavras conseguiriam expressar. Já tínhamos passado por tantas coisas, a dor do luto quase nos engoliu e a pequena passou todos os dias vivenciando o ar pesado entre nós. Não fomos justos com ela, mas também não tivemos como evitar.
A essa altura do campeonato, Mia já deveria estar formulando pequenas frases. Marcamos uma consulta com a pediatra na semana que vem e só de pensar que, talvez, nossa carga emocional tivesse sido pesada demais para ela, cortava meu coração em milhões de pedaços. Então, se havia a possibilidade de uma amiguinha ajudá-la, aceitaria com o melhor sorriso no rosto.
O bem-estar dela era a minha prioridade.
— , como estão seus horários na clínica? — tocou gentilmente em meu braço.
— Estou livre aos finais de semana, Aidan vai me cobrir nos plantões noturnos. — Ele ainda não sabia disso, mas tenho certeza de que aceitaria as condições sem reclamar.
Bethany deu um pulo, com dificuldade em ficar parada.
— Será ótimo! Vocês não têm problema com cachorros, né? O Woody gosta de ficar pulando nas pessoas atrás de atenção. — Suas bochechas coraram. — Se for um problema podemos deixá-lo preso no quarto.
— Não, sem problemas — respondemos em uníssono.
Bethany mordeu o lábio inferior antes de tocar a mão de e encher o ambiente de animação. Suas palavras rápidas pulavam da boca de tanta ansiedade. As mãos não paravam quietas nem por um segundo e notei que as feições se contorciam em risos frequentes, denunciando uma empolgação quase exagerada.
Prestei atenção nas duas mulheres, absorvendo a cena tão cheia de entusiasmo. A loira tagarelava sobre ter aprendido uma nova receita de risoto com camarão, enquanto comentava sobre os melhores vinhos que combinariam de acompanhamento. O brilho hipnotizante dançava ao redor das pupilas, denunciando a paixão comum pela culinária. Meu peito se aqueceu e desci os olhos para a bebê adormecida, sentindo que algo novo estava prestes a surgir.
Eu só queria que e Mia fossem felizes, mesmo que para isso tivessem de socializar com estranhos. Elas me tinham na palma da mão, essa era a verdade. Faria de tudo para vê-las sorrindo e protegidas do mundo.
Vejo que minha irmã finalmente encontrou alguém mais interessada em culinária do que ela. — A voz firme e de timbre grave surgiu ao meu lado.
Virei a cabeça e, em seguida, a mão pesada tocou o ombro direito, os dedos apertando em um cumprimento silencioso.
— Finalmente vocês chegaram! — Bethany brincou e foi ao encontro do carrinho que ele trouxera.
— Bethany, eu não sei a diferença do óleo de cabelo para a máscara capilar. Não deveria ter me deixado sozinho. — Fingiu um tom ofendido que fez a loira rir. — Elas nunca vão entender que nós não entendemos dessas coisas? — direcionou a pergunta para mim e apenas curvei um sorriso simpático.
Bethany iniciou a aula gratuita sobre os produtos de cabelo feminino, sendo incapaz de ficar calada sobre o assunto. Usei o tempo para analisar o homem que ainda tinha a mão segurando o meu ombro. Um certo incômodo atingiu a minha espinha quando observei que ele tinha os olhos sobre . Um misto de curiosidade e surpresa dançava em seu olhar. Ela pareceu alheia à observação, concentrada demais na amiga e sua explicação exagerada, com direito a exemplos na internet.
A primeira característica marcante foi a altura semelhante à minha e os ombros largos que o tornavam maior e mais robusto, quase uma muralha. Sua postura relaxada demonstrava desinteresse no assunto da irmã. Tinha os cabelos loiros cortados em um estilo curto, ligeiramente mais escuro, algo que denunciava os laços sanguíneos. O rosto era angular, com a mandíbula marcada, combinando com o porte físico.
— Eu odeio quando ela faz isso — comentou baixo, passando a mão pela barba por fazer. — Bethany, lidar com os pesos da academia é melhor do que ter de ouvir essa palestra. — Gesticulou.
A loira assumiu uma postura ofendida, a boca transformando-se em um bico gigantesco, enquanto retirava a bebê do carrinho.
— É fácil falar de academia quando se vive em uma.
Ele riu com escárnio, cruzando os braços. Os olhos ainda em cima da minha coelhinha.
Droga.
Por que incomodava tanto?
— Essa é a Jessy, diz “oi”, meu amor — Bethany apresentou. Segurava a pequena em um dos braços, enquanto manuseava a mãozinha dela em um aceno.
A menina emitiu uma risada curta e cheia de leveza. Os cabelos claros, como os da mãe, se encontravam trançados, tornando-a mais delicada. Os olhos castanhos possuíam luz própria, típica de alguém curioso com tudo ao seu redor, provavelmente herdando isso do pai. Os braços e pernas balançavam em animação.
— É o jeito dela de dizer “oi” — o homem comentou, o sorriso orgulhoso no rosto.
Bethany beijou o topo da cabeça da filha, antes de suspirar e apontar para a muralha ao meu lado.
— E esse brutamonte que ainda chamo de irmão é o Dante.
— Também gosto de você, maninha. — Ele fez uma reverência e subiu os olhos pela coelhinha. — — sussurrou, os olhos assumindo uma energia de reconhecimento.
Um arrepio gelado percorreu minha espinha ao ouvir o nome.
— Dante. — Ela sorriu, a voz carregada de emoção, algo que beirava a ternura.
Tensionei a mandíbula quando vi avançar e jogar o corpo contra o do homem. Ele retribuiu no mesmo instante, envolvendo-a com os braços fortes. Enfiou o rosto na curva do pescoço macio, os olhos fechados, apreciando o momento. Tive de reprimir a vontade agressiva de interromper aquele momento e empurrá-lo para longe dela.
Bethany fez um beicinho, perguntando antes que eu tivesse a chance:
— Vocês já se conhecem?
o soltou e o brilho em seus olhos já denunciava mais do que palavras. O sorriso genuíno revirou meu estômago. Desci os olhos e fuzilei a mão masculina sobre a cintura fina, algo que foi rapidamente retirado por ela. Engoli em seco, a garganta arranhando e um dos punhos se cerrou, mesmo com Mia em meu colo. Nunca quis tanto que alguém pegasse fogo como naquele momento.
— Eu e o Dante nos conhecemos em Nova York — explicou, com as mãos gesticulando. — Estudamos na mesma universidade; eu fazia direito e ele educação física. Chegamos a dividir o apartamento por alguns meses.
A onda de euforia dominou cada célula do meu corpo ao imaginar os dois compartilhando um espaço minúsculo na época da faculdade, dividindo o mesmo ar e, talvez, o quarto.
— Depois de um tempo, ela me abandonou e se mudou para Boston. Nunca mais tive notícias. — Riu e lançou outro olhar para ela. — A é um espírito livre. — Suas palavras carregavam traços de devoção e admiração.
Trinquei os dentes, por pouco não rosnando para ele. Mas que porra estava acontecendo comigo?
— Muita coisa aconteceu naquela época. — Ela mordiscou os lábios, assumindo uma distância segura dele.
O desconforto assumiu suas feições, as mãos esfregavam as laterais dos braços. A mera menção de Nova York parecia remeter a lembranças que a perfuravam por dentro. Uma sombra de medo atravessou as pupilas e não consegui ficar parado apenas olhando. Aproximei-me e o ar da minha presença pareceu acalmá-la.
Ela me encarou antes de começar a gaguejar.
— Dante, esse é o . Ele é o...
— O pai da Mia — cortei e senti um alívio no peito por isso.
Minha mente gritava que precisava reagir de alguma maneira, mostrar que não estava sozinha.
— É um prazer.
Dante estendeu a mão e a estudei minuciosamente. A tensão ao redor se formou em um embate sufocante, conforme os segundos se passavam e eu não aceitava o aperto. Porque, na verdade, queria enxotá-lo dali, para longe da minha família. E se ele tivesse algo a ver com os pesadelos da minha coelhinha, queimaria o mundo para acabar com a sua vida.
Bastou apenas cruzar os olhos com os de , com sinais de preocupação, para recobrar a consciência e perceber que estava agindo de forma hostil. Minha boca forçou-se a transformar-se em um sorriso amarelo e apertei a mão dele com um pouco mais de força do que o necessário. Ignorei a vontade ardente de esmagar os seus ossos, soltando sua mão antes do esperado.
— Dante, estávamos pensando em fazer um jantar na nossa casa. — Bethany se intrometeu, talvez percebendo o clima tenso. — Assim, as crianças podem brincar e podemos nos conhecer melhor.
— Será perfeito — concordou, lançando o olhar interesseiro para cima de . — Aconteceram tantas coisas desde que foi embora, quero que me conte tudo sobre a sua vida.
Ela abriu um sorriso autêntico, os olhos denunciavam certa empolgação para isso, as bochechas ganharam um leve rubor sob o olhar lascivo. Senti o gosto amargo da bile na boca, tomando o golpe mais profundo no estômago. nunca sorriu assim para mim. E a vozinha irritante insistia em sussurrar no meu ouvido que, apesar de nos conhecermos há mais tempo, eu nunca seria o homem suficiente para ela.
— Podemos fazer hoje à noite, o que acham? — Bethany perguntou, passeando os olhos por todos os presentes.
— O que acha, ? — quis saber e estreitei os olhos.
O que eu achava? Que tinha sido uma péssima ideia concordar em ir naquele jantar.
— Ótimo — respondi com a voz baixa e áspera.
— Então está combinado! — a loira disse com entusiasmo, colocando a filha no carrinho. — Dante, precisamos comprar camarão e vinho. Será o jantar perfeito!
Bethany despediu-se de todos e correu a caminho do açougue em busca do crustáceo. Já Dante envolveu a mão de e depositou um beijo casto no dorso, antes de também desaparecer. A coelhinha novamente abriu aquele sorriso lindo e cheio de luz, causando-me uma estranha pontada no peito.
Soltei o suspiro exasperado, dando as costas para ela, evitando que notasse o tamanho do meu desconforto. Coloquei a pequena no assento do carrinho e acariciei a bochecha redonda como uma forma de me distrair daquele mundo. Meu coração se contorceu ao pensar em e Dante juntos em um apartamento minúsculo, fazendo tudo o que a minha mente fantasiou nas últimas horas. A cena grotesca me enjoava e precisava arrumar um jeito de esquecer isso antes que vomitasse no meio do hortifrúti.
Encontramos Greta perdida na seção de frios e fomos embora depois de enfrentar as filas enormes nos caixas. Durante o trajeto para casa, meus dedos apertaram o volante com força sempre que mencionava sobre o jantar e o quanto estava ansiosa para rever Dante. Também descobri que se tornaram amigos logo que ela começou a morar em Nova York, se conheceram na academia de bairro em Manhattan, tornando-se inseparáveis demais para a minha sanidade aguentar ouvir.
Minha mandíbula ficou travada o percurso inteiro, os dentes rangiam, implorando por alívio. O peito queimou de tanta raiva que tive de me segurar para não socar o carro. Pela visão periférica, percebeu o meu estado, mudando de assunto assim que ouviu as respostas monossilábicas grosseiras. Não conseguia evitar, cada partícula do meu corpo se corroía feito ácido, a mera lembrança daquele abraço e o sorriso acabando comigo aos poucos.
Eu sabia que não tinha o direito de sentir ciúmes dela, então, por que parecia prestes a cair em um abismo? E, no fundo, desejando ser empurrado de uma vez, só para me livrar desse tormento?
Ele passou as próximas horas estranho.
Distante.
Depois que chegamos do mercado e guardamos as compras, ficou o resto da tarde deitado no sofá da sala, os fones de ouvido o isolando do mundo, enquanto assistia ao filme de terror de uma freira assassina. Nenhuma provocação saiu por aquela boca atrevida, nem mesmo quando a Greta fingiu convocar um exército imaginário para caçar a aranha no meu quarto.
Ele estava tão diferente, calado demais, e isso começou a incomodar.
O silêncio sempre foi o meu melhor amigo, à espreita, pronto para me consolar nos dias bons e ruins. Mas depois da noite de ontem, pensei que tivéssemos dado um grande passo na nossa relação. Passei horas remoendo cada segundo do nosso dia, tentando entender o que tinha acontecido para deixá-lo daquele jeito. Meu cérebro processou cada momento com cuidado. Será que fiz alguma coisa de errado? Será que disse algo que o magoou?
Mas nada justificava aquela distância tão repentina.
Na hora do almoço, pensei que tudo voltaria ao normal, até o ver comer calado, sendo apenas um corpo ocupando a cadeira. Foi a pior refeição que já tive nos últimos anos, a tensão nos rodeava, esperando o momento perfeito para saltar e nos sufocar.
Queria muito entender o que estava acontecendo.
começou o dia disposto a me tirar do sério e cuidar da Mia como um verdadeiro pai faria, e simplesmente do nada, resolveu virar outro homem, completamente diferente do que conhecíamos. A cena dele e da pequena gargalhando no hortifrúti ficaria para sempre gravada a ferro e fogo na minha memória, sendo impossível de esquecer aquele momento de tanta doçura.
Agora, ele se encontrava na cozinha, preparando o leite da neném. Os lábios em uma linha fina feito tecidos costurados. Os ombros pareciam tensos, os movimentos mais cuidadosos como se esperasse um ataque iminente. Estava tão concentrado na tarefa que nem percebeu que eu o espiava por cima do livro, o corpo escondido atrás do encosto do sofá. Meus olhos percorriam cada centímetro dele em busca de algum sinal de alerta, antes que ousasse me aproximar.
Encontrei o felino sentado no balcão habitual – onde sempre fazia suas refeições. A língua escovando os belíssimos pelos negros com uma calma redundante. E, a julgar pelo momento em que se aproximou e coçou atrás da orelha de Sky, percebi que o único perigo estava apenas dentro da minha mente. Seus movimentos lentos e cuidadosos não mostravam nenhum sinal de tensão, pelo menos quando se tratava do bichano.
Arqueei a sobrancelha. parecia estar em completo estado de paz. Ousei pensar que tudo não passava de uma má impressão, até ser assolada pelas respostas curtas, secas, quando voltávamos do mercado e depois de como me ignorou no almoço. Era o cúmulo não soltar nenhuma piada. Então não, tinha realmente algo acontecendo e precisava descobrir.
Levantei-me, forçando cada engrenagem do cérebro a girar em busca da melhor forma de começar. Embolava as mãos pelo caminho, incapaz de ficar quieta. A camada fina de suor se formou na testa e, junto, o estômago revirou em completo desconforto. Deslizei os dedos pela nuca, o pulsar cardíaco aumentando gradativamente conforme vencia a distância entre nós. Pelos deuses, parecia uma porca indo direto para o abate.
Eu só queria conversar, ser madura e descobrir a causa do problema para que juntos pudéssemos resolver. Era para ser tão difícil assim? Em outro momento, nem estaria perdendo meu tempo pensando sobre isso. Só que algo me dizia que deveria tentar, mesmo que acabasse sendo enxotada como um cachorro abandonado.
O som do micro-ondas sendo aberto quebrou o silêncio pesado da casa, meu corpo enrijeceu brevemente, não esperando pelo barulho. Encarei as costas largas, os dedos longos digitaram o cronômetro no painel digital, alheio à minha presença. Meus pés pareciam pregados ao chão, cada passo sendo arrastado, feito uma mula no meio do caminho, guiada pela força invisível que insistia em me empurrar para ele.
Encarei a ilha que nos separava, o mármore escuro refletiu o meu rosto em sinal de encorajamento. Segurei as laterais, usando de apoio para as pernas trêmulas. Umedeci os lábios ressecados, erguendo a cabeça para só então cair em um estado deplorável de advertência quando percebi estar sob a mira do meu caçador – e o pior, era não saber em que momento me tornei a sua presa. Arregalei os olhos, engolindo em seco com dificuldade. O corpo paralisou por inteiro, nem mesmo o ar dos pulmões ousava sair.
Naquele momento, um felino teria se arrepiado menos do que eu.
Os poços azuis, mais escuros que o habitual, me encaravam como duas esferas cheias de uma fagulha perigosa. As sobrancelhas arqueadas e a boca fechada em uma linha dura, constatavam com as chamas que serpenteavam ao redor das pupilas. Desci os olhos para o tronco rígido, os braços estendidos e as mãos espalmadas sobre o balcão pareciam uma afronta à minha postura frouxa e acuada. As veias saltadas marcavam a pele dos antebraços, traçando o caminho de volta para o rosto sério e cheio de uma intensidade controlada.
Porra!
Eu sabia que deveria fugir, mas o perigo nunca foi tão sedutor ao ponto de me fazer refém daquele fogo que sempre me queimava quando estava perto dele.
— Po-podemos conversar? — Quebrei o silêncio, a voz frágil como folha de papel.
Ele me analisou, percorrendo cada centímetro do meu rosto. Algo animalesco queimou através daqueles olhos azuis que não soube explicar. Se pudesse compará-lo, seria um leão forte e grande em cima da sua vítima, não hesitando em mostrar o seu poder com os dentes ameaçadores e as patas gigantescas cheias de unhas afiadas.
Oh, céu...
Tentei molhar a garganta que arranhava como um disco velho, ansiando por uma resposta antes que entrasse em colapso.
— Não tenho nada para falar. — Foi ríspido
O micro-ondas apitou de modo a arrancar aqueles poços flamejantes de cima de mim. Dedicou-se à mamadeira e ao copo de plástico com o leite morno. Meus pulmões agradeceram pela interrupção, porque assim passei a soltar o ar que havia prendido, além de receber uma visão privilegiada das costas largas.
— Então... — Os lábios tremeram com receio. — Posso te fazer uma pergunta?
Sua mandíbula tiqueou e, por um instante, o vi vacilar. Os ombros adotaram uma postura rígida, carregados de tensão.
— Se eu negar, promete que irá me deixar em paz? — Qual era o seu problema?
Franzi o cenho e tomada de uma coragem que não me pertencia, contornei a ilha. Deixei que nossos corpos ficassem próximos demais. Empinei o nariz, a cabeça levemente inclinada para cima, enquanto encarava aqueles olhos claros, que agora me fuzilavam, ofendidos pela afronta.
— O que aconteceu? — Juntei todas as forças para que a voz não tremulasse. — Por que está me evitando? Eu fiz alguma coisa de errado?
— Você disse que só faria uma pergunta. — Levantou uma sobrancelha em provocação e se virou para tomar distância, fingindo interesse na mamadeira e no leite.
— Achei que tivéssemos feito progresso ontem — murmurei, os punhos cerrados ao lado do corpo.
O silêncio perdurou entre nós por alguns segundos que pareceram uma eternidade. A mandíbula travou e os olhos se levantaram dos objetos em suas mãos, perdendo-se na janela em frente à pia. Parecia lutar contra os próprios pensamentos. Ele soltou o ar, os ombros caindo como se carregassem o peso do mundo. O peito subia e descia em um ritmo irregular. Merda, cadê aquele homem que nunca poupou esforços para me irritar? O mesmo que fez da minha vida o verdadeiro inferno quando eu era adolescente?
— Eu não estou evitando você, — respondeu após um longo suspiro. — Só... Preciso de um tempo sozinho.
— Por quê? Foi alguma coisa que eu disse? Aconteceu algo no mercado? — As palavras saíram antes que pudesse evitar.
Ele mordeu o lábio inferior. Suas mãos abandonaram os utensílios e passaram a apertar a borda do balcão, controlando algo intenso e quase selvagem dentro de si.
— Acho melhor, eu não ir ao jantar de hoje — sussurrou e quase não o ouvi.
Cruzei os braços, trocando o peso de uma perna para a outra.
— Eu estou preocupada com você — revelei em um fio de voz, aproximando-me devagar. — Tem alguma coisa que posso fazer para ajudá-lo?
Toquei seu ombro, os dedos se fecharam em um carinho terno e, em resposta, soltou um grunhido que pareceu preso na garganta todo esse tempo. O perfume amadeirado invadiu minhas narinas, puxando meu corpo como um ímã. Eu queria chegar mais perto, cheirar a curva do seu pescoço e me deixar embriagar nele. O seu cheiro tinha um dom único de acalmar toda e qualquer agitação que ousasse me assombrar.
Ele se tornou o bálsamo perfeito para a minha alma.
— Não há nada que possa fazer para me ajudar, ... — Seu timbre baixo, rouco, foi capaz de mexer com partes do meu corpo que até então pensei estarem adormecidas.
— Posso cancelar o jantar e ficar com você — sugeri, meu corpo quase roçando em seu braço estendido.
Ele curvou o sorriso sarcástico com o canto dos lábios.
— Você quer ir nesse jantar mais do que qualquer coisa. — Seu tronco se ergueu e virou para me encarar. — Não posso privá-la disso.
A muralha de músculos conseguia facilmente me esconder de qualquer um que entrasse na cozinha. Os ombros largos tencionaram e pude vê-los mesmo escondidos pela camiseta azul marinho. Ele deu um passo na minha direção, o corpo imponente me prendendo contra o balcão. Ofeguei assim que as costas sentiram o toque gelado da bancada, meu peito subiu e desceu, acompanhando o ritmo acelerado do coração.
Minhas pernas tremeram. Devo ter ficado trêmula da cabeça aos pés quando se inclinou e apoiou as duas mãos no balcão, uma de cada lado do meu corpo. O cheiro de cedro e pimenta me envolveu naquela dança hipnotizante, levando-me a erguer o rosto e deixar que nossos olhos se encontrassem, o choque elétrico enrijecendo cada pelinho do meu corpo. Uma onda de calor me transpassou, o arrepio subindo pela minha coluna com urgência.
A sua presença ardente e vibrante despertava algo novo dentro de mim. Uma ânsia pelo desconhecido, por algo proibido.
— Eu vi como olhou para ele no mercado. — O hálito quente bateu contra a pele do meu rosto. — Sei que está ansiosa para revê-lo. — A testa franziu e um calafrio dominou as paredes do meu estômago.
Entreabri os lábios, sem saber o que dizer quando o vi mover os olhos para minha boca e algo crepitar nas íris azuladas. Uma áurea obscura, primitiva, tomava conta daquele olhar tão penetrante, um reflexo do quanto ele tentava controlar o que estava o consumindo por inteiro. Sua mão envolveu a lateral do meu rosto, o polegar resvalando delicadamente pelos lábios, contornando ao mesmo tempo em que um rosnado baixo e rouco escapou da sua garganta.
O seu toque era quente, suave, protetor.
Outro arrepio subiu pela minha coluna e foi como ser atingida por um raio quando sua palma desceu para o pescoço. Afastou os cabelos, inclinando-se lentamente até os lábios tocarem a pele exposta com tanta devoção e cuidado que nada me impediu de fechar os olhos e contrair as pernas involuntariamente. Uma tempestade insana me consumiu, os relâmpagos se propagando em meu interior, reverberando cada célula do meu ser.
— Eu não posso contar o que está acontecendo, pequena... — disse contra meu ouvido, a respiração batendo contra o lóbulo de maneira sedutora. — Porque não quero que fuja de mim.
— E por que eu fugiria? — perguntei com a voz falha, possuída pelo seu perfume.
— Porque não imagina as coisas que quero fazer com você. — sussurrou, os lábios se fechando ao redor do meu maxilar em um beijo casto, quente. — Vê-la sorrindo para o Dante foi demais para mim...
Mordi o lábio inferior. Meu estômago se revirou, o peito retumbando como labaredas na fogueira. As palavras tão reveladoras batucaram dentro da minha mente, unindo finalmente as peças do quebra-cabeça tenso. A pontada de compreensão acendeu e empurrei suavemente pelos ombros, de modo que pudesse olhar dentro dos seus olhos, queria confirmar cada fagulha daquele sentimento que parecia consumi-lo.
— Está com ciúmes, ? — disparei, o calor tingindo as bochechas.
As íris azuis adotaram uma coloração mais intensa, crua, quase primitiva. Ele focou os olhos em mim, intensos e impenetráveis feitos uma rocha. Sua mão envolveu o meu rosto, o polegar acariciando a mandíbula. A vulnerabilidade do carinho me desarmou, não precisando de mais nada para concretizar a dúvida. Deslizou o dorso da mão pela bochecha e aproximou nossos rostos, seus lábios tocaram suavemente a testa, deixando um beijo carregado de todos os sentimentos que não conseguia expressar em palavras.
Ele ficou com ciúmes de mim...
E de um jeito estranho, isso remexeu algo dentro do meu peito.
Ao senti-lo se afastar, ergui a cabeça e levei as mãos à barra da sua camiseta. Enrolei o tecido, segurando-o, aproximando-me mais do seu corpo rijo.
Nossos olhos não eram capazes de se desgrudarem, sincronizados à atração que explodia naquela cozinha. Ele se inclinou, sua respiração bateu quente contra meu rosto. Seus dedos roçaram em minha pele, traçando um caminho delicioso até a nuca. Espremi os lábios e segurei o gemido que ameaçou escapar ao sentir meu corpo inteiro estremecer, ansiando por mais do seu toque.
Meu coração batia tão forte que pensei que pularia para fora do peito a qualquer momento. Desci os olhos para a boca entreaberta, convidando-o a colar ainda mais nossos corpos. Queria beijá-lo; sentir o gosto daqueles lábios atrevidos; finalmente entender como era estar em seus braços; me render ao seu perfume me empurrando para dentro do redemoinho de tensão e desejo latejante.
Ele me enfeitiçou, parte do medo se dissipando como fumaça e o resto não importava.
Oh, céus. Eu o queria tanto que doía.
roçou o nariz no meu. O toque me fez estremecer. Fechei os olhos automaticamente, esperando que sua boca me tocasse com força e possessividade, arrancando de vez a minha sanidade. Sua mão escorregou pelo meu queixo, o polegar delineando meu lábio inferior tão lentamente que pareceu querer gravar os traços a ferro e fogo.
Ofeguei quando nossos lábios quase se tocaram, meu coração esmurrou as costelas com expectativa. A proximidade se tornou um fardo insuportável. Eu só não esperava que, no instante seguinte, seus dedos escorregassem e se fechassem com força ao redor do meu pescoço.
Arregalei os olhos. O rosto tão próximo transformou-se no meu pior pesadelo. Os olhos azuis foram substituídos por esferas obscuras, maléficas, cheias de um desejo cruel, acompanhadas das sobrancelhas grossas com uma falha na direita. Meu corpo entrou em desespero, o pânico e o medo correndo pelas veias, quando ele curvou o sorriso diabólico cheio de dentes, carregado pela áurea negra que sempre esteve ao seu redor.
Estava diante do próprio demônio na Terra
Kaleb Ledger.
Mergulhei no passado, sendo assombrada pelas lembranças grotescas das vezes em que sua mão se fechou com mais força, sufocando-me. Tentava gritar por ajuda, só que a voz não veio, entalada na garganta. Sua boca se forçava contra a minha, a língua violenta exigindo passagem com brutalidade. Meu cérebro tentava ficar acordado, a falta de ar pesando as pálpebras, pronta para apagar.
O medo me impedia de desmaiar. Se ele era capaz de me estrangular enquanto estava acordada, temia o que faria se estivesse inconsciente.
Tentava me mover, socá-lo, empurrá-lo, mas ele sempre seria mais forte do que eu.
— Você é só minha, . E ninguém tem o direito de chegar perto do que é meu — rosnou, a outra mão erguia meu queixo, obrigando que olhasse para ele.
E então eu via.
O rosto do demônio que me aterrorizaria até nas profundezas do inferno.
— Por favor, não... — implorei, a voz por um fio. — NÃO ME TOCA, POR FAVOR! — consegui gritar, os soluços rasgando a garganta
Minha cabeça girou, a visão turva prestes a escurecer. Grunhi em desespero, os dedos apertando mais e mais. Quanto mais tentava me soltar, mais ele me segurava. Eu tinha conseguido gritar, agora só faltava achar um jeito de escapar das suas mãos.
— ... , eu sou! — gritou e tentou tocar em meus braços, mas fui rápida em golpeá-lo, empurrando-o para longe.
— Você não é real... — Segurei a cabeça, puxando os cabelos com força. — Você não é real... — continuei repetindo, as lágrimas escorrendo desenfreadas.
— Sou eu... — a voz dele era um sussurro distante em meio ao meu pânico. — Fica comigo, pequena. Ouça minha voz. — Senti o calor do seu corpo se aproximar, ignorando o fato de que eu poderia machucá-lo. — Olha, escuta o meu coração, . — Ele pegou uma das minhas mãos e colocou-a aberta sobre o seu peito.
Meu corpo todo tremeu com o seu toque quente. Tentei puxar o braço, querendo me encolher.
— Escute os batimentos — pediu, segurando minha mão com força para que não pudesse fugir.
Solucei e tentei me concentrar. Em poucos segundos, senti o tum-tum-tum acelerado bater contra minha palma. Puxei o ar, a realidade me golpeando com força.
Eu conseguia respirar, não estava sendo enforcada. E Kaleb... Ele não existia
— Está sentindo? Eu sou real — sussurrou.
Ergui os olhos para encará-lo e o encontrei ofegante, a boca aberta em completa preocupação. Ele suava frio, a testa inundada pelas gotas grossas. Sua pele estava pálida, as mãos geladas e parecia incapaz de se mover, talvez, temendo que eu fosse fugir assustada.
— Continue escutando e respire devagar. — O polegar acariciou meu pulso, o toque suave nem se comparava às mãos nojentas que um dia deixei que me tocassem. — Está tudo bem... Eu estou aqui. — Depositou um beijo casto sobre o dorso e se aproximou devagar.
— , você... Pode me abraçar? — Minha voz embargou e em seguida meu rosto se contorceu, os soluços atingindo o ápice.
Joguei o corpo sem esperar por uma resposta. O puxei com força, urgência, querendo sentir seus braços ao meu redor. Soltei o ar aliviada, quando me abraçou de volta, pousando minha cabeça sobre seu peito de maneira gentil e carinhosa. Os dedos afundaram em meus cabelos, acariciando em círculos, enquanto deixava que as lágrimas molhassem sua camiseta. Meus ombros subiam e desciam como um trem desgovernado, o coração parecia prestes a explodir no peito.
— Ele nunca me deixava respirar... — confessei e segurei seu antebraço, precisava de algo para me agarrar. — Quando me beijava... Ele m-me...
— Shhh... — soprou contra meus cabelos. — Não precisa dizer nada, ... Está tudo bem.
Engoli em seco e funguei, seus braços me apertaram com força.
— Me perdoa... Eu tenho tanto medo...
— Medo do quê, pequena? — Afastou os fios teimosos do meu rosto.
— Medo de nunca conseguir seguir em frente. De sempre ser machucada por ele.
deixou um beijo terno sobre minha cabeça.
— Você vai conseguir. Sabe por quê? — Delicadamente segurou a lateral do meu rosto e fez com que eu olhasse profundamente em seus olhos. — Porque é uma guerreira. É a mulher mais corajosa e sensata que já conheci. Você não é machucada, minha linda, só precisa se libertar desse trauma.
Segurei firme em suas mãos, sentindo o quanto os dedos gelados eram reais. Fechei os olhos e funguei, deixando meu coração se afogar nas lágrimas. Cada gota carregava o peso da minha angústia, da dor que sentia sempre que aquele rosto aparecia para me assombrar. E, por mais que nunca tivesse dito em voz alta, era verdade: eu tinha medo de nunca conseguir me curar e escapar desse tormento.
Deslizei as mãos pelo tecido da camiseta preta, retirando os minúsculos pelos brancos que insistiam em decorá-la. Levei os dedos até o colarinho e abotoei os últimos dois botões, optando por deixar o primeiro aberto. Desci os olhos pelo antebraço em busca de qualquer coisa que pudesse prender a minha atenção, antes que minha mente desviasse o rumo e me levasse de volta para reviver tudo o que aconteceu naquela cozinha.
Com o indicador e o polegar, girei ao redor do pulso esquerdo. Soltei o ar pesado pela boca, buscando o acessório pelo quarto. Abri a gaveta da cômoda e encontrei o relógio que serviria de distração por alguns segundos. E enquanto lutava para prender a pulseira com apenas uma mão, sentia que algo profundo se remexia em meu íntimo. Algo que não conseguiria ignorar por muito tempo.
Eu sabia que a qualquer momento teria de me render e parar de lutar contra as vozes irritantes que insistiam em lembrar que há muito tempo perdi aquela batalha. E por mais que tentasse me convencer de que os problemas da não eram da minha conta, já estava envolvido demais para simplesmente ignorar.
Porra!
Por que a cada segundo que passava era como se o ar me faltasse e fosse levado de volta àquela cozinha? Por que doía tanto relembrar a forma como ela se debateu e tentou me empurrar? E por que me sentia culpado por despertar aquele pesadelo tão sombrio?
Eu só queria beijá-la, sentir o calor dos seus lábios contra os meus. Acalmar a selvageria e toda a possessividade que clamava dentro de mim, implorando que a marcasse como minha. Mas bastou minha mão deslizar pelo pescoço fino, pronto para puxá-la de uma vez pela nuca que todo o meu mundo desmoronou. Ainda conseguia sentir o impacto dos socos e das mãos me empurrando com urgência. Os olhos castanhos tão lindos se transformaram em duas esferas escuras e assustadas.
Sentei-me na cama, sabendo que a qualquer momento poderia perder o equilíbrio. Esfreguei o rosto e afundei os dedos nos fios perfeitamente arrumados, bagunçando-os, talvez pela décima vez naquele dia. Desde que subi as escadas e decidi me arrumar para o jantar, o cronômetro começou a rodar, marcando as piores horas da minha vida. Durante o banho tive de lutar contra a vontade absurda de vê-la a cada cinco minutos. Não conseguia parar de pensar nela.
Era como ser consumido por uma angústia maior que o universo. Queria saber como ela estava; se precisava de alguma coisa. Porque, mesmo que estivéssemos há apenas alguns segundos de distância, queria estar por perto para ajudá-la, por menor que seja o problema.
E tudo isso estava começando a me assustar.
Suspirei pesado e deixei que o corpo afundasse na cama macia do quarto principal. Cobri a cabeça com o travesseiro, pressionando o tecido com força, como se isso pudesse ajudar a esquecer a conversa que tivemos quando finalmente consegui levá-la para a sala e aconchegá-la em meus braços. No entanto, a escuridão e o silêncio apenas serviram para me afogar na vasta lembrança, remoendo cada palavra.
Confesso que nunca fiquei tão apreensivo. Perdi as contas de quantas vezes prendi a respiração enquanto esperava que ela contasse sobre o seu passado traumático e cruel.
Lembro-me das costas se acomodarem perfeitamente contra o encosto do sofá, de modo que as pernas ficassem esticadas e minha coelhinha se enroscasse ali. Meus dedos se perderam no meio dos fios escuros, afagando em um carinho lento e acolhedor. Ouvi sua respiração se acalmando devagar. A cabeça, levemente tombada contra meu peito, depositava toda a sua confiança. A mão agarrada ao tecido da camiseta dava a ela o ar de um filhotinho assustado.
Os ombros subiam e desciam, sendo ali que me concentrei pelos próximos minutos, porque qualquer mudança que seu corpo demonstrasse, um mísero desconforto, precisava estar pronto para agir.
Deslizei o polegar pela bochecha rosada, colocando a mecha teimosa atrás da sua orelha. Inclinei-me e depositei um beijo casto sobre sua cabeça, fazendo-a se encolher mais contra mim, como se quisesse garantir que tudo realmente era real. Desci a mão e delicadamente soltei seu agarre do tecido. Entrelacei nossos dedos, apertando firmemente. Queria que ela se sentisse segura, que visse que eu não sairia do seu lado nem mesmo se alguém entrasse armado naquela casa.
Ela fixou os olhos naquele gesto simples, seu semblante apreensivo.
— Está tudo bem, coelhinha. Eu não vou a lugar algum. — Sondei cada uma das suas reações e, em resposta, senti quando devolveu o aperto. — Podemos ficar aqui o tempo que precisar. — Devagar, inclinei a cabeça e repousei sobre os cabelos macios, esfregando a bochecha delicadamente em círculos. — Não precisamos falar nada, se não quiser.
Um certo desconforto me atingiu. No fundo, eu não queria escutar a verdadeira história por trás dos seus traumas. A mera possibilidade de terem feito algo de ruim contra ela já era o suficiente para a raiva borbulhar dentro do meu peito.
— Eu sinto muito... — disse em um fio de voz e soltou o ar, igual a um fardo pesado.
— Não sinta. Está tudo bem, anjo. — Fechei os olhos e repeti o carinho com a cabeça, não deixando de acariciar sua bochecha com o polegar. — Não precisa se desculpar por algo que não foi sua culpa. Muitas vezes, nossos corpos reagem por impulso quando nos sentimos ameaçados.
se remexeu e deixei que se acomodasse da maneira mais confortável. Deitou-se de lado no sofá, sua cabeça agora repousava em cima da minha coxa, tomando cuidado para não soltar nossas mãos.
— Diariamente, sou mordido por animais que sentiram medo de mim. Principalmente os que foram resgatados de maus-tratos. E está tudo bem. — Com a mão livre continuei o carinho em seus cabelos. — Não é culpa deles, só estavam se defendendo daquilo que os machucou.
Ela delicadamente girou meu pulso, possivelmente em busca de alguma marca. Percebi quando seus olhos se fixaram sobre a pequena cicatriz fina, levemente robusta, que se estendia pelo dorso até o meio do antebraço. A coloração pálida e a textura flácida da pele sempre a denunciaria. Uma marca antiga, cheia de lembranças dolorosas, mas que terminaram com final feliz.
— O Sky foi o responsável por essa obra de arte — revelei, assistindo-a contornar com o polegar. — Quando o resgatei, não poupou esforços para se defender. Ele foi abandonado ainda filhote e os traumas estavam lá.
— Ele só estava assustado — comentou baixo, quase um sussurro.
— É normal sentir medo, ainda mais quando se foi descartado como lixo em uma noite chuvosa e fria.
Acariciei a lateral do braço dela, sentindo aquela pontada característica sempre que lembrava do pequeno gatinho buscando abrigo entre as caixas de papelão encharcadas.
Pobre Sky. Era só um filhote indefeso e desnutrido que me fez correr por dois quarteirões para pegá-lo. Ele não tinha ideia de que o levaria para o calor do meu apartamento, cheio de petiscos de salmão e uma cama quentinha onde passaria a dormir pelo resto da vida, longe dos perigos da rua.
— Aconteceu algo com você, não foi? — A pergunta saiu antes que pudesse evitar.
Ela assentiu e se encolheu.
— Notei que, quando desci a mão para o seu pescoço e me aproximei para beijá-la, você entrou em pânico. Vi o medo estampado dentro dos seus olhos e não foi preciso muito para perceber que entrou em pânico.
— Não foi você, ... E-eu... — balbuciou, apertando com força a minha mão.
— Eu sei que não... — Mordi os lábios, não sabendo se deveria continuar com aquela pergunta. — , foi o Dante? — Meu coração deu um solavanco e pensei que fosse infartar antes de receber a resposta.
Ela fungou e pareceu ponderar antes das palavras saírem pela sua boca.
— Não. O Dante me ajudou quando tudo aconteceu... — Ela desenhou círculos imaginários pela minha panturrilha. — Foi ele que comprou minha passagem para Boston e garantiu que... — Sua voz hesitou e senti algumas gotas quentes molharem o tecido da calça.
— Não precisa falar sobre isso, anjo. — Inclinei-me e capturei as lágrimas com o polegar. — O que acha de assistirmos a um daqueles filmes românticos que você tanto gosta? — A onda de culpa me atingiu em cheio, de modo que nem mesmo conseguia respirar.
la negou com a cabeça e puxou o ar com força, como se buscasse coragem para continuar a falar.
— O Dante garantiu que cuidaria de tudo. Prometeu que ele nunca mais ia me machucar. — continuou entre soluços.
— Ele tocou em você? A forçou...? — Engoli em seco, quase não tendo forças para continuar respirando. Não conseguia nem pensar na hipótese de alguém tê-la ferido dessa maneira.
— Ele tentava... — confessou, a voz trêmula somente de pensar naquele demônio. — Mas não do jeito que você me toca. E-eu gosto do seu toque.
Ouvir aquelas palavras foi como cair no abismo e ser puxado de volta, antes de atingir o chão. As garras afiadas rasgavam meu peito, enlouquecidas para saírem e acabar com a raça daquele infeliz. Tencionei a mandíbula e mordi a ponta da língua, contendo a raiva que queria se apossar dos meus sentidos.
soluçou mais alto. Os ombros subiam e desciam com desespero. Sua mão se soltou da minha, se encolhendo como um filhotinho amedrontado. Em um movimento cauteloso, afastei nossos corpos o suficiente para que pudesse me deitar no sofá e puxá-la para perto. Ela afundou o rosto na curva do meu pescoço, as lágrimas saíram pesadas. Cada gota salgada carregava a carga pesada da sua dor.
— Nunca contei isso para ninguém... — sussurrou contra minha pele. — Tive tanto medo, que nem mesmo o meu irmão sabia disso.
— Me conte o que quiser, coelhinha. — Beijei sua têmpora e a abracei com força. — Se não se sentir pronta, tudo bem. Podemos ir devagar.
— Tentei procurar ajuda, , mas... Eu não consigo falar sobre isso com ninguém.
— Está segura comigo, pequena. Nunca deixarei nenhum homem chegar perto de você. E aqueles que ousarem tocá-la terão as mãos arrancadas antes que consigam. — Até o submundo teria medo do que eu seria capaz de fazer para protegê-la. — Pode confiar em mim. — Peguei em seu rosto, olhando dentro daqueles olhos perfeitos. — Me conte tudo o que quiser.
soltou o ar pela boca e fechou as pálpebras pesadas. Aproximei-me lentamente, depositando um beijo quente e acolhedor em sua testa. Eu queimaria o mundo por ela, e todos seriam testemunhas da minha devoção.
— Decidi que queria cursar direito em Nova York, todas aquelas leis me fascinavam. E sempre desejei conhecer a cidade. — disse, após um tempo, a voz baixa e cheia de ressentimento. — Tinha acabado de publicar o meu primeiro livro. Juntei todas as economias e aluguei um apartamento em Manhattan. Vivi um sonho por alguns meses. — abriu os olhos e segurou em minhas mãos, as lágrimas já se formavam no canto dos olhos.
Engoli em seco. Porra, ela era só uma garota inocente atrás dos seus sonhos, nenhum demônio tinha o direito de transformar isso em uma memória traumática.
— Conheci o Kaleb quando comecei a trabalhar em uma livraria para pagar as contas. — Então esse era o nome do desgraçado. — Ele passou a ir na loja todos os finais de semana e sempre me presenteava com buquês de rosas.
Incrível como grande parte dos babacas se escondiam por trás da imagem de príncipe encantado.
— No começo, ele era gentil, romântico, mas depois de um tempo passou a querer me controlar. Sempre julgava as roupas que eu usava, dizia que pareciam de prostitutas. Escolhia até os meus amigos, que, segundo ele, não eram boas companhias. — Ela ofegou e voltou a esconder o rosto no meu pescoço. — Conheci o Dante na academia do bairro. Ele foi o único que o Kaleb não conseguiu afastar, porque fazia parte do seu círculo de amizades. Por isso, não disse nada quando fomos morar juntos, mas o seu silêncio não durou muito tempo.
O nó se formou na minha garganta e tive de morder a língua para não enlouquecer com aquela revelação.
— O Dante não sabia que ele era assim, e eu também nunca contei. — encolheu-se mais em meus braços. — Até o dia em que Kaleb tentou me forçar pela primeira vez... — Sua voz ficou trêmula e a abracei. — Acabei dormindo no sofá e quando acordei... E-ele estava em cima de mim e falava que, se eu não me entregasse, era porque não o amava... — A cada soluço que escapava da sua boca, meu coração se quebrava mais e mais. — O Dante chegou a tempo de impedi-lo, e todo o inferno começou...
— Maldito, desgraçado. — Ah, como eu queria poder acabar com aquele infeliz. — Por favor, me diga que depois disso, ele nunca mais chegou perto de você.
— Não quando o Dante estava por perto para me proteger.
Por um momento, me senti imensamente culpado por ter olhado para aquele homem com outros olhos.
— Mas ter o Dante por perto nunca foi o suficiente. O Kaleb me perseguia, parecia querer me devorar a qualquer momento. — Soltou o ar e senti o quanto era difícil para ela mergulhar no passado. — Todos os dias tinha medo de sair de casa. Na livraria, meu corpo gelava só de ouvir a porta sendo aberta. E na hora de ir embora, pedia para o taxista me deixar na academia que Dante estagiava e esperava até que pudéssemos ir embora juntos. Ao lado dele, sentia que nada poderia acontecer.
— Coelhinha, se eu pudesse voltar no passado acabaria com a raça desse filho da puta. O faria se arrepender de ter encostado os dedos em você. — Acariciei o seu braço, deixando outro beijo em sua testa.
— Deve estar me achando uma idiota por ter tido aquele ataque. — Cobriu o rosto com as mãos. — Estou com tanta vergonha. Você é o primeiro homem que aceito que me toque. O primeiro com quem me sinto segura para querer algo a mais... É irônico, pensar que depois de tudo o que passamos, você é o único que não me assusta.
— Ei... — Puxei suas mãos delicadamente e beijei o dorso. — Estou aqui para o que você precisar. E não me importo de esperar até que esteja pronta para seguir em frente. Já esperei por você todos esses anos, não pretendo desistir agora.
Soldei o seu rosto e vi quando os belíssimos olhos castanhos ganharam luminosidade. Isso bastou para reacender o desejo de tomar seus lábios com os meus. Sentir o gosto da sua boca e deixar que possuísse cada pedacinho da minha sanidade.
Ansiava que ela fosse minha, que me deixasse curar suas feridas, a libertasse desses pesadelos. Mas a linha entre nós estava ali para me lembrar de que não deveria cruzar o limite. A confiança dela era tudo o que eu tinha. E se fosse preciso passar anos reprimindo o desejo, ficaria preso até o dia em que me permitisse mostrar o mundo de outra vista.
— Você disse que procurou ajuda, mas não consegue falar sobre isso — comentei.
suspirou profundamente entre soluços, antes de acomodar a cabeça sobre meu peito.
— Faço acompanhamento com a psicóloga desde que fui embora de Nova York. Achei que com a ajuda de um profissional conseguiria superar esse trauma, mas eu...
— Não consegue se abrir com ela — concordou em um aceno de cabeça. — Já pensou em experimentar outra profissional? Talvez, uma nova abordagem possa ajudá-la.
— Nunca vou superar, — revelou, a voz por um fio. — Estou destinada a viver com a dor. Primeiro os meus pais, depois o Kaleb, agora o Noah...
— Ninguém é destinado a viver com dor, pequena — sussurrei contra seus cabelos, o aroma delicioso de argan invadiu meus pulmões como calmante. — Nós aprendemos a conviver com ela. Mas no seu caso a está impedindo de viver.
Encolheu-se mais um pouco.
— A Yelena pode ajudar. — Lembrei da secretária que sempre dava um jeito de fazer terapia gratuita na clínica veterinária. — Ela estuda psicologia, tenho certeza de que conhece um profissional capacitado que vai ajudá-la a superar esse pesadelo.
— Como tem tanta certeza de que mudar de profissional irá me ajudar?
— Porque dessa vez não enfrentará isso sozinha. Estarei do seu lado, mesmo que meus neurônio queimem por ouvir suas histórias de romance — brinquei, tentando descontrair o clima tenso.
— Desde que não me mate de colesterol, acho que será uma troca bastante justa. — Ela sorriu e a pequena risada aqueceu meu peito de maneira inexplicável.
Voltei a afundar os dedos em seus cabelos e, em movimentos sinuosos, enchê-la com carinho e cuidado. remexeu a cabeça, aconchegando-se em meus braços, apreciando cada minuto do silêncio que compartilhamos juntos naquela sala.
Não demorou muito para escutarmos um choro baixo e quase doloroso vindo do andar de cima. Olhei para a mulher, encontrando os olhos fechados e o semblante tão relaxado que nem parecia a mesma que teve um pequeno surto de pânico. Depositei um beijo casto em sua testa e tentei sair do sofá, sendo impedido pelo seu braço fino que agarrou firme em minha cintura.
Por sorte, Greta apontou na sala vindo da lavanderia da casa e se ofereceu para socorrer Mia da fome. Enquanto eu fiquei ali, apreciando cada detalhe da coelhinha adormecida, completamente enfeitiçado por ela, sendo naquele momento que percebi ter tomado uma decisão.
E por isso, agora, estava deitado nessa cama de casal, relembrando nossa conversa, enquanto lutava em uma guerra que já havia perdido dentro de mim. Eu queria por inteiro. Queria todas as suas dores, os seus medos, traumas, até mesmo as histórias românticas açucaradas... Desejava ter o pacote completo daquele furacão que prometeu virar minha vida do avesso.
Aquela coelhinha remexeu com todos os meus sentidos, me fez cair de joelhos e por mais assustador que fosse, aceitaria o meu destino.
— Por favor, me diga que não desistiu de ir ao jantar? — A voz dela invadiu o quarto e cada pelo do meu corpo enrijeceu. — Se desistiu, prometo que o levarei amarrado.
Retirei o travesseiro do rosto e girei a cabeça para encontrá-la parada na porta. Tive de engolir seco, diante da verdadeira imagem da perdição.
Os braços cruzados em frente ao peito empinavam os seios tão apertados, tornando impossível desviar o olhar. A leve camada de maquiagem destacava as maçãs do rosto, mas não escondia o semblante fechado. O bico adornando a boca carnuda apenas aumentou o desejo primitivo de jogá-la contra a parede. Desci os olhos pelo simples vestido preto que destacava cada curva do corpo pequeno que tanto assombrava meus pensamentos – e fazendo com que uma certa rigidez se formasse naquele lugar em específico.
Porra, maravilhosa demais.
— Você está linda. — Levantei-me em um salto. — Para a segurança do Dante, é melhor que nem coloque os olhos em você. Caso contrário, seria obrigado a deixá-lo cego.
Ela sorriu com o canto dos lábios e colocou uma mecha atrás da orelha.
— Não seja ciumento, não há motivos para isso. — Empinou o nariz, e não me contive, segurando sua cintura.
Meus dedos apertaram levemente por cima do tecido e senti quando ela subiu as mãos pelo meu tronco, delineando cada músculo pelo caminho. O seu toque era como a brisa suave do mar, quente e sutil. Trinquei o maxilar e segurei o grunhido gutural que ameaçou escapar quando ela subiu para meu pescoço, deixando o rastro ardente pelo caminho.
Oh, senhor... Isso era muito gostoso.
— Se continuar, vai acabar me enlouquecendo... — sussurrei em um aviso.
— Desculpe, achei que gostasse disso. — A desgraçada mordeu o lábio inferior e continuou com o carinho, de fato decidida a me enlouquecer.
Puxei seu corpo contra o meu, fazendo-a soltar um gritinho assustado. Ela riu e jogou os braços ao redor do meu pescoço. Sua pele macia me envolveu em um abraço, e tive de controlar o anseio, apenas me contentando em inspirar o perfume adocicado próximo da sua orelha. Os pelinhos da nuca se arrepiaram, causando-me uma excitação quase dolorosa só de imaginar ser o primeiro a fazê-la sentir todas essas reações.
Depositei um beijo casto na lateral do pescoço, incapaz de controlar o instinto que insistia em querer reivindicá-la.
— Gosto quando me beija assim— sussurrou para que apenas eu pudesse ouvir.
Suas palavras baixas e íntimas, junto dos dedos que se enroscaram em meus cabelos, soaram como sinos badalando. Uma validação que vibrou em cada célula do meu ser. E, incapaz de resistir, meus lábios se fecharam em torno da pele com certa urgência. Suguei suavemente, aprofundando o beijo molhado e arrancando de o incentivo que precisava para continuar.
Ela gemeu rouca e tão delicioso, me intimando a repetir o movimento, junto da língua que lambeu da base até alcançar o lóbulo da orelha, o rastro quente e úmido em completa veneração. Deixei uma pequena mordida ali e ofeguei, a respiração quente causou mais uma onda de arrepios. Em resposta, puxou os fios do meu cabelo, um suspiro deleitoso escapou por entre seus lábios.
Não contive o sorriso de satisfação. Saber que todos os seus gemidos eram só meus, fazia uma onda de possessividade me afligir com êxito.
— ... Vamos perder o jantar. — Com o polegar acariciei em círculos a cintura fina. — E não vou conseguir me controlar por muito tempo. — Mordisquei o seu maxilar.
As mãos pequenas e macias envolveram meu rosto. Por um breve momento ela encarou minha boca com tanta luxúria dançando em suas íris, que quase a puxei contra minha ereção endurecida, dolorosa... Eu estava louco para sentir o calor dela se misturando ao meu; o cheiro de romã e verbena me levando à perdição.
— Temos de ir — ela murmurou.
Aanuí e retirei as mãos do meu rosto com dificuldade, recuando os passos. Estava ciente de que se não me afastasse agora, não conseguiria mais responder por mim. Inspirei profundamente, arrumando a camiseta amarrotada e a ereção dolorida que marcava a calça jeans. De relance, engoliu em seco, enquanto admirava o volume.
Um sorriso lento e vulpino se curvou nos meus lábios, cheio de promessas. Ela desviou o olhar rapidamente.
Ah, coelhinha... Na próxima vez que eu te tocar, não vai ter nada nesse mundo que vai me impedir de parar.

