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Revisada: Lightyear 💫

Última Atualização: 05/04/2026



Arrumei os cabelos com os dedos, optando por deixar os fios soltos e caídos sobre os ombros. Passei as mãos pelo vestido longo em frente ao espelho do guarda-roupa, apreciando os detalhes delicados em padrões florais e geométricos em preto. Ajeitei as alças finas sobre os ombros, o tecido branco tinha uma parte superior justa com detalhes franzidos na cintura.
Parecia uma indiana belíssima, mas isso não foi suficiente para afastar o sentimento pesado que se apossava do meu estômago. Encarei o reflexo, os olhos sobre o rosto coberto pela camada fina de maquiagem – uma tentativa de cobrir o vermelho da pele. Suspirei, o nariz empinado e levemente inchado. Tentei sorrir, treinando as feições para disfarçar que há alguns minutos desabava no chão do quarto.
E para ser sincera, torcia que Charlotte fosse uma boa pessoa e nem sequer olhasse para mim nas próximas horas. O seu foco era a pequena Mia e não minha péssima postura materna. Além disso, esperava que já tivesse descido e se comportado como um verdadeiro pai de família, ao contrário do homem solteiro e arrogante que gostava de passar suas noites em boates, cheias de testosterona e perfume barato.
Soltei o ar pela boca e esfreguei o rosto com as mãos, tomando cuidado para não borrar a maquiagem. Como o encararia depois do que houve no banheiro? E pior, como o convenceria a esquecer?
Maldita memória!
Ele tinha mesmo que se lembrar de tudo e ter a audácia de revelar isso ao universo? Poderia apenas ter ignorado e fingido que foi apenas uma noite complicada, mas não... Tinha que ter despertado o seu lado protetor — que eu nem sabia existir.
Ajustei os ombros, o espelho sendo uma testemunha silenciosa. Fechei os olhos e tomei uma respiração profunda, soltando-a conforme listava os deveres na mente. Seja gentil; conte a verdade; faça de Mia o seu foco; mostre que é uma boa mãe; e o mais importante: esqueça tudo o que houve no banheiro. As pálpebras pesadas ergueram-se, revelando os olhos castanhos que adotavam uma leve faísca intensa.
Por Noah e Lily, eu lutaria naquela batalha. Sua filha nunca ficaria desamparada se dependesse de mim. E acredito que também estava disposto a lutar por ela ao meu lado.
Quando saí do quarto e, em passos lentos, atravessei o corredor, senti o coração dar um solavanco tão brusco que poderia me causar um infarto. Meu estômago revirava e os pelos dos braços se arrepiavam a cada centímetro que avançava até a escada. Minha mente era um furacão de emoções; pensamentos pessimistas e otimistas duelavam para assumir o controle. E por mais que estivesse prestes a entrar em colapso — mais uma vez — sabia que, no fundo, tinha que me agarrar a Mia.
Porque é por ela que descia as escadas rumo à cozinha, com o medo e a insegurança fazendo um buraco negro na boca do estômago.
Cheguei aos últimos degraus e arqueei uma sobrancelha quando os risos invadiram os tímpanos. Um som divertido e ao mesmo tempo estridente. Franzi o cenho e me aproximei. Naquele momento, minha garganta secou porque nada me preparou para ver debruçado sobre a bancada da cozinha, os braços cruzados, enquanto a mulher ruiva tocava em seu bíceps, sentada no mesmo lugar e rindo como uma hiena. Ela jogava a cabeça para trás, parecendo à vontade demais.
Tensionei a mandíbula, um calor estranho crescendo pela base do pescoço. O sorriso atraente preenchia o rosto dele, reluzindo na escolha de roupas e os cabelos arrumados. Usava uma camiseta de linho cinza, bermuda e tênis brancos impecáveis. Suas vestimentas faziam jus à imagem de pai responsável, além disso, o semblante sereno contradizia qualquer sintoma de ressaca. O cretino soube esconder perfeitamente que voltou bêbado para casa na noite anterior.
Cruzei os braços em frente ao peito, assistindo à cena como se fosse um reality show. Avistei Greta do outro lado da cozinha, com Mia nos braços. Ela balançava o corpo em uma música imaginária que só existia na cabeça dela. A pequena sorria e gargalhava, se divertindo com as caretas que a mulher fazia. Não contive o sorriso ao observá-las.

— É muita gentileza sua, . — Charlotte pousou a xícara no balcão com um estalo seco e só então me notou. — Mas, se não se importa, gostaria de falar de negócios agora. — O seu humor mudou de maneira tão repentina quanto a de uma atriz.

Pressionei os lábios para segurar o riso sarcástico. A expressão de era de alguém que acabara de levar um fora educado e, ao mesmo tempo, frio. Ele realmente achou que o seu “charme” funcionaria? Apenas um ingênuo veria isso como um ótimo plano.o.

— E tem relação com a Mia, então... — a ruiva crispou as sobrancelhas, a pasta de documentos em mãos. — Acredito que o senhor esteja interessado nisso. — Levantou-se, o dando as costas.

Ela se moveu, o aroma do seu perfume de flores silvestres me envolveu quando parou na minha frente. Ergui a cabeça, encontrando os olhos esmeraldas, afiados e analíticos, me corroendo como ácido.

, podemos conversar em um lugar mais reservado?

Assenti, dando um passo para o lado.

— Podemos usar a sala. — Indiquei o cômodo.
— Será perfeito. — Ela sorriu sem os dentes e saiu, não deixando de olhar ao redor a cada passo.

Curvei os lábios em um bico e empinei o nariz quando voltei a olhar para o homem ainda sentado, debruçado sobre o balcão. Ele dava um longo gole em sua xícara de café, passeando o dedo indicador pelo mármore escuro em círculos imaginários. Os ombros flexionados para frente denunciavam a tensão nos músculos. Massageei a testa e olhei rapidamente para a sala, antes de vencer a distância até , acertando o dedo contra suas costelas.

— Qual é o seu problema? — indaguei, roubando a xícara das suas mãos e bebendo o café amargo. — Esse é o seu plano? — Franzi o cenho, apoiando a mão na cintura.

Ele alargou um sorriso com o canto dos lábios.

— Ela é bonita. E pense pelo lado bom: — Gesticulou. — Se eu a convidar para sair, a guarda da Mia está garantida. — Sua boca curvada era convencida e inacreditável.
— A única garantia que vamos ter é de uma anotação sobre: “Futuro papai da Mia tentou dar em cima da assistente social em troca da sua guarda”. Esplêndido plano!

Apertei a ponte do nariz, controlando a vontade de estapear o rosto dele até que a pele ficasse vermelha e implorasse por piedade. Ele merecia cada tapa.

— Você sabe que ela está te testando, não sabe? — Somente um idiota ousaria fazer tamanha burrice. — Não é assim que vamos conseguir a guarda da Mia. O Noah e a Lily nunca aprovariam uma atrocidade dessas.
— Se depender da nossa reputação... — ele suspirou, passando a mão pelos cabelos. — Nunca provaremos que somos capazes de cuidar de uma criança. Então é um ótimo plano.

Mordi o lábio inferior.

— E você prefere provar isso fazendo sexo? — arquei uma sobrancelha. — Essa mulher está fingindo, é uma manipuladora, . Ela faria qualquer coisa para ver até onde iríamos chegar. Não percebeu o riso falso e a postura que mudou quando cheguei na cozinha?
— É uma alternativa bastante válida, estou preparado para o sacrifício. — ele ignorou tudo o que eu disse. Ótimo!
— Você não vai fazer isso! — bradei, a fúria subindo a cabeça.

Esfreguei as mãos no rosto e tive que apoiar as mãos na borda da bancada, já que a leve vertigem atingiu meu corpo.
Pânico.
Eu estava em absoluto estado de pânico.
Senti minhas forças se esvaindo como o vento, a cabeça girando em busca de uma solução racional. Passei os dedos pelos lábios – que deveriam estar ligeiramente brancos —, enquanto revirava a mente em busca de alguma solução que não fosse desaparecer com o corpo de Charlotte e ter como meu cúmplice no crime.
Além disso, Lily e Noah nunca iam nos perdoar, seja em qual dimensão celestial estivessem.

— É o último pedido deles. — respirei fundo, os pulmões implorando por ar. — Se quisermos fazer isso funcionar, precisamos fazer sem trapaças.

Enterrei as mãos nos cabelos, começando a andar de um lado para o outro, pressentindo que logo abriria um buraco no chão. Estava tão apavorada que só percebi que Greta se aproximou quando Mia soltou o riso alto em minha direção. Seus pequenos braços estendidos, almejavam pelo meu abraço. Não hesitei em pegá-la, depositando um beijo terno em sua testa.

— Então como iremos fazer isso? Tem alguma ideia? Um jeito mágico? — indagou, a voz baixa.
— Não existe “um jeito mágico”. — retruquei e olhei para Mia, que brincava com as mechas do meu cabelo. — Mas qualquer coisa é melhor do que seduzir a assistente social.

Ele rolou os olhos, claramente ofendido pela falta de apoio em seu plano mirabolante.
Comecei a roer a unha do dedo indicador, quando Greta – com sua sabedoria silenciosa de quem observava cada detalhe da vida ao redor – tocou suavemente em nossos ombros, conseguindo atrair a atenção de dois adultos desamparados. Seu olhar sereno se fixou em nós.

— Crianças, parem com essa bobagem. — sua voz suave, mas firme, cortou a tensão. — Não existe “um jeito certo” de passar por isso. — ela vagou os olhos por mim e depois para . — Nada é melhor do que a verdade.

Suspirei, o peso sobre os ombros sendo maior que uma tonelada.

— O que vocês têm em comum, é o amor por essa criança. Lily e Noah confiaram a filha aos dois, porque viram que, juntos, podem ser os melhores pais para ela. Eles os escolheram como uma dupla.

— Greta... Temo que não somos o suficiente. — A revelação de me pegou de surpresa.

E por um instante, sua imagem calma e centrada no banheiro passou pela minha mente. Ele se escondia atrás daquela armadura serena, quando, na verdade, estava mais inseguro do que eu.

— A força de vocês está em serem diferentes, e mesmo assim, estarem unidos por um propósito. — ela pegou a pequena do meu colo, que a encarava, fascinada com suas palavras. — Então, parem de pensar tanto, de tentar encenar. Esqueçam o teatro e mostrem quem realmente são. A sinceridade é o que a Charlotte precisa ver. Mostrem que, apesar dos tropeços, a prioridade de vocês é a Mia. O resto... É só detalhe.

A força em cada palavra reverberou em meu peito, e o nó na garganta se afrouxou lentamente. Greta estava certa. e eu nunca seríamos perfeitos, mas compartilhávamos o mesmo amor incondicional pela Mia. E esse sentimento já bastava para superar todos os obstáculos. Ainda era cedo demais para acertamos em tudo, e por mais que tentássemos, os erros insistiriam em nos ensinar o melhor caminho.
Olhei para , que me encarava com o semblante sério e pensativo. Seus olhos azuis pareciam denunciar um brilho de conclusão, provavelmente aceitando que por trás da estatura baixa de Greta se escondia uma mulher sábia e bastante convincente. Em menos de alguns segundos, aquela senhora de meia-idade, conseguiu nos fazer enxergar além do medo e a insegurança.

— Eu confio em vocês. — Greta murmurou. — E sei que Noah e Lily também confiam. — em seguida, nos entregou nossa maior força.

Senti o calor se espalhar pelo meu peito quando a pequena, mais uma vez, estendeu os braços em minha direção. Os olhos cristalinos brilhavam de felicidade, e assim que se aproximou, o sorriso dela se alargou ainda mais. Era incrível como sempre ficava animada perto dele. Ele beijou o topo da cabeça dela antes de erguer os olhos para mim, causando um arrepio na boca do meu estômago.
E ali, na cozinha, sob o olhar sereno de Greta, envolta pelo perfume amadeirado de , e com a Mia nos olhando de perto, foi que entendi que não importava o quão desafiadora a situação fosse, eu não a enfrentaria sozinha. Porque apesar do medo, lutaríamos juntos pela família que estávamos construindo.

*****



Repulsa? Insegurança? Antipatia? Talvez, a palavra perfeita para definir o meu estado fosse medo.
Engoli em seco, sentindo o nó se apertar em minha garganta. Observava Charlotte à minha frente, os cabelos ruivos presos em um coque perfeitamente arrumado, denunciando sua postura controlada e profissional. Ela escrevia incansavelmente na prancheta, a caneta vermelha riscando o papel com uma frieza que me fez querer extingui-la da face da Terra.
O grunhido tedioso escapou por entre os lábios. , sentada ao meu lado no sofá, lançou-me o olhar de relance. Sua perna balançava freneticamente e os dedos, inquietos, tamborilavam sobre a coxa. O nervosismo dela era quase palpável e, para o meu espanto, conseguia estar mais apreensiva do que eu. Mia estava em seu colo, brincando com o ursinho de pelúcia que tanto adorava, alheia ao clima tenso que nos rodeava.
Por um momento, encarei a mão inquieta e fiquei tentado a cobri-la com a minha. Só que, depois do que aconteceu no banheiro, a melhor opção seria ficar longe de . Pelo menos até ela conseguir processar tudo com calma e passarmos por aquela avaliação minuciosa. Já havia sido intrometido demais, invadindo o mundo dos traumas contra sua vontade, porque pensei que contar a verdade era o certo a se fazer.
Uma péssima ideia, que poderia acabar com o pouco da confiança que ainda tínhamos.
Eu me lembrava de cada detalhe – não fiquei tão bêbado para ter esquecido de tudo. Ainda sentia o calor do seu rosto aquecendo a pele do meu pescoço quando se escondeu ali, buscando por mim na madrugada. O toque das suas mãos quando abraçou minhas costas, temendo que eu fosse fugir.
O som dos seus grunhidos e a testa franzida insistiam em assombrar a minha mente. E por mais que soubesse que o certo era esquecer o que aconteceu e respeitar o pedido dela, algo em meu íntimo – intrometido e protetor – queria fazer mais. Cada célula do meu corpo clamava para descobrir a verdade; que a ajudasse a enfrentar os demônios. Não conseguiria ficar parado, enquanto sabia que ela enfrentava tudo sozinha, mergulhada na completa escuridão.
E, quando olhei dentro dos seus olhos no banheiro, fui atingido pela lembrança de sua mão se fechando ao redor da minha. O grito de súplica reverberava em meu peito, tornando impossível de esquecer. Ela merecia conhecer a chuva como o fenômeno mais belo da natureza, ouvir o som calmo e ritmado da água.
Resvalei o polegar pela linha do queixo, olhando pelo canto dos olhos. Uma criatura belíssima. O rosto de traços delicados, os olhos tão intensos. Ela era um verdadeiro anjo na terra. Segurei o sorriso que quase brotou nos lábios, observando-a como a mais preciosa das mulheres. Meu peito retumbou, tomando a decisão de que nada me impediria de fazê-la ouvir a chuva de novo, sem dor e demônios a assombrando. Juntos, corríamos em direção à tempestade, nossas roupas ficariam encharcadas e ainda arrancaria os seus melhores sorrisos.
E essa era uma promessa que estava disposto a cumprir por ela.
merecia o mundo e eu lhe daria o mundo.

— Então, como estão lidando com o luto? Acredito que esta seja a parte mais difícil. — Ouvi a voz de Charlotte distante, enquanto ainda olhava para a coelhinha, que agora mordia o lábio inferior.
— Nós... Não tivemos tempo para lidar com o luto — respondeu, receosa.

Ela girou a cabeça e engoliu em seco, enquanto buscava amparo em meus olhos. Não foi preciso nenhuma palavra para que entendesse a sua súplica. As sobrancelhas arqueadas e as íris castanhas carregavam todo o peso daquela pergunta. Falar sobre Noah ainda era muito doloroso para ela, semelhante a cutucar uma ferida aberta que nem sabíamos se um dia cicatrizaria.
Anuí, deixando um sorriso cortês preencher a minha boca, assim que direcionei o olhar para Charlotte.

— Apesar do vazio que Noah e Lily fazem, estamos fazendo o possível para nos adaptar à nova rotina. — A ruiva cruzou as pernas e anotou algo na prancheta. — Ainda é cedo para falar como estamos nos saindo. Não tem nem um mês que os perdemos. — A pontada característica dominou o meu peito. Algo que sempre acontecia quando pensava na minha irmã.

Charlotte descansou a caneta e nos direcionou o olhar extensivo.

— Vejo que a Mia gosta muito da presença dos dois — comentou, assistindo à pequena pressionar o ursinho contra a minha bochecha. — Ela não parece ter sofrido tanto para se adaptar a vocês.

Beijei a bochecha dela com carinho, ajudando-a a engatinhar para o meu colo com a ajuda de .

— Os bebês são como os filhotes, não demoram muito para se adaptarem ao ambiente — deixei escapar, hipnotizado pelo brilho nos olhos de Mia.

cutucou minhas costelas em um aviso silencioso. Fui ingênuo em achar que o comentário passaria despercebido. Charlotte se curvou para frente, o sorriso pequeno e afiado brincando em seus lábios.

— É uma teoria bastante interessante, . — As palavras pingaram com sarcasmo e isso atraiu imediatamente a minha atenção.

Ela me analisava dos pés à cabeça, como um cão farejando por drogas.

— Então, acredita que o mesmo raciocínio que usamos para lidar com os cachorros se aplica a uma criança? — Eu não disse isso. — Acha que a mesma forma de cuidado serve para ambos? O senhor parece estar se concentrando na adaptação, mas e quanto ao desenvolvimento emocional da Mia?

Alfinetada foi direta — quase pessoal. Mirei sua expressão analítica, os olhos semicerrados me julgando com asco. Qual era o problema daquela mulher? Ela conseguiu distorcer completamente minha teoria entre filhotes e bebês.

— Em nenhum momento disse que o desenvolvimento da Mia se compara a um animal. — Não me preocupei em ser agradável. — No ramo veterinário, lido com filhotes órfãos todos os dias que precisam dos meus cuidados para sobreviver. Animais que foram abandonados à própria sorte. — Certa rispidez acompanhava minhas palavras. — O que eu quis dizer é que ambos demandam cuidado, carinho e muita atenção. São seres dependentes. Os bebês e os filhotes choram quando estão com fome, com sono ou algum desconforto. — A fuzilei, na esperança de que pegasse fogo e desaparecesse da minha frente.
... — A voz de soou como um sussurro suave e senti sua mão tocar o meu joelho.

O contato foi leve, mas se pareceu como uma âncora me puxando para a superfície. Sua pele irradiou a corrente elétrica, dispersando a raiva que começava a se acumular em mim. Desviei o olhar furioso de Charlotte e o fixei em . O rosto dela possuía uma mistura de preocupação e súplica, se tornando o meu porto seguro. Os olhos castanhos, tão intensos, me diziam sem palavras para me acalmar, para que voltasse para ela.
E bastou apenas aquele olhar para silenciar a tempestade e toda a euforia se dissipar. Suspirei, soltando o ar pela boca.

— Essa é a minha bagagem, Charlotte — murmurei, já sem a rispidez de antes. — Então, peço que, por favor, não distorça essa informação.
— Não quis distorcê-la, . — Ela sorriu sem os dentes. — Só quis entender a sua analogia. — E voltou a rabiscar a prancheta, provavelmente escrevendo sobre sua sigilosa falta de senso.

Mia riu em meu colo e me distraiu, segurando a pelúcia, arrancando gargalhadas da pequena. Para depois voltar a olhar para o meu anjo. Ela tinha um sorriso delicado nos lábios, se inclinando para beijar o topo da cabeça da criança. E, por um momento, deixei que o aroma de verbena e romã invadisse meus pulmões, preenchendo cada lacuna pelo caminho que precisava do seu amparo.
Era como uma droga viciante, e eu estava em abstinência.
Charlotte limpou a garganta, atraindo nossa atenção.

— Aproveitando que estamos falando sobre rotina. — Leu algo em suas anotações antes de prosseguir: — Como estão organizando as responsabilidades? Quem acorda nas madrugadas? Quem prepara as refeições? — A voz dela era monótona, fria, quase mecânica. Provavelmente eram as mesmas perguntas que fazia em todos os lares.

se ajeitou, sendo rápida em usar o reflexo para pegar a pelúcia antes que caísse no chão e Mia começasse a chorar.

— Fazemos uma espécie de... escala — disse, e notei um vacilo em sua voz. — Na maior parte das refeições, é Greta que nos ajuda. Ela é como nosso alicerce no meio de toda a bagunça. — Foi rápida em justificar.
— A cozinheira, certo? A mesma que estava na casa cuidando da Mia no momento do acidente. — Charlotte novamente moveu a caneta sobre a folha, por um instante quis saber o que ela tanto anotava, sem levantar a cabeça.
— Greta é uma governanta. Ela cuida da casa e presta serviços como babá — adicionou, para que não restassem dúvidas.

A assistente social assentiu.

— E o que acontece quando ela não está aqui para ajudar? Suponho que o senhor saiba mais sobre dieta para filhotes do que para bebês. — Suas palavras eram como um dardo envenenado.

Apertei as mãos em punhos e contive o desejo de responder com sarcasmo. apertou novamente meu joelho, ao notar o quase descontrole.

— Nós aprendemos. Juntos. — Foi a minha vez de falar, com a voz calma, porém forte.

O vislumbre da noite em que Mia chorava de fome e eu não tinha a menor ideia do que fazer passou brevemente pela minha mente. Lembrei-me do pânico e a última coisa que ela precisava saber era que, na prática, eu era tão inexperiente quanto um recém-nascido.

— E os horários? Como veterinário, imagino que tenha uma rotina bastante imprevisível. Plantões, emergências, cirurgias. — Ela me olhava intensamente, almejando por qualquer sinal de fraqueza.
— Tenho uma equipe que me apoia, e a tem os horários flexíveis. — respondi, tentando soar o mais profissional possível.
— Certo. E qual é a sua rotina de vida noturna, ? Você sai frequentemente? — A pergunta veio de forma suave, mas com uma malícia evidente.

Por que ela estava direcionando todas as perguntas a mim? Qual era seu objetivo?
De relance, notei que o rosto de empalideceu. Droga, ela poderia ao menos tentar disfarçar.

— Não entendi a relevância dessa pergunta, Charlotte — intervi, crispando as sobrancelhas.
— O meu trabalho é entender o ambiente em que a Mia está sendo criada. Crianças precisam de estabilidade, rotina, e a ausência de um dos pais durante a noite pode ser... desestabilizante. — O olhar dela recaiu sobre , que se encolheu levemente.

A coelhinha engoliu em seco, as mãos se remexendo freneticamente.

— Sou a responsável por ficar com ela quando se ausenta. — Maldito nervosismo... Ele tinha acabado de dar a informação que Charlotte tanto buscava.

Soltei o ar em um suspiro.

— Entendi. E em quantas noites na semana costuma se ausentar? — pressionou.

Mia se remexeu no colo, provavelmente sentindo o meu coração acelerar.

— Uma vez, no final de semana — murmurei, sentindo-me como uma criança apanhada no flagra.
— Mas também tem os dias em que ele passa a noite na clínica. — lembrou.
Girei a cabeça em sua direção, fuzilando-a com o olhar. De qual lado ela estava?

Charlotte silenciosamente assentiu e escreveu na prancheta.

— Como se veem daqui a 5 anos? — Depois daquela conversa, acreditava que estava morto, porque tinha certeza de que Lily me buscaria pessoalmente.

se ajeitou no sofá, tirando a minha atenção da assistente social.

— Eu me vejo sendo promovida no meu trabalho, ganhando o suficiente para bancar uma casa e ter meu próprio carro.
— E você trabalha com o quê? — A ruiva questionou, usando sua modéstia. — Todos nós sabemos que o é veterinário, e ele deixa isso bastante claro na maneira arrogante em que se comporta e fala do trabalho. — Gesticulou em minha direção com a caneta.

E tudo que pude fazer foi soltar um riso anasalado, porque se fizesse o que a minha mente mandava, provavelmente acabaria preso por homicídio e a arma do crime seria o tubo da caneta vermelha. Estava mais do que claro que Charlotte gostava de ser petulante.

— Não consigo definir uma profissão que se encaixe com o seu perfil.

embolou as mãos no tecido do vestido, possivelmente não imaginando que teria de revelar seu segredo para uma estranha.

— Trabalho prestando serviços online para plataformas como a Amazon. — Um jeito elegante de descrever.
— Ah! É escritora — concluiu, voltando-se para o papel.
— Ela escreve sobre romances eróticos — alfinetei, em completo tédio.

arregalou os olhos.

— Não são eróticos! É apenas romance! — bradou.

Mordi o lábio inferior, a raiva por ela ter entregado minhas ausências noturnas se acumulando em meu âmago.

— Depois do que li, tenho certeza de que não são só romances — disse em completo desdém.

cruzou os braços em frente ao peito, o bico se formando em seus lábios. As bochechas rosadas ficavam incrivelmente adoráveis nela.

— Ok! Vamos voltar para as perguntas. — Charlotte indicou a prancheta, o sorriso sem graça estampado no rosto. — E... Você, , como se vê daqui a 5 anos? Aposto que trabalhando na sua clínica, atendendo muitos cachorros e gatos. — Ela tentou soar agradável, talvez querendo amenizar o clima tenso que nos rodeava.
— É o que gosto de fazer — respondi, sem rodeios e ânimo.

Charlotte engoliu em seco, mudando para a próxima pergunta:

— Vocês possuem algum tipo de envolvimento amoroso?
— NÃO! — respondemos em um uníssono rápido demais e carregado de irritação.

Ela arregalou os olhos, realmente surpresa com nosso comportamento. Já Mia olhou de mim para e sorriu, pelo menos alguém estava se divertindo com a cena.

— Então não estão envolvidos? — Crispou as sobrancelhas.
— Eu preferiria perder tudo a me envolver com alguém tão insuportável. — apontou para mim e notei o quanto sua mão tremia.

E não sabia explicar, mas suas palavras causaram uma pontada aguda em meu peito. O coração deu um solavanco estranho, quase doloroso.

— E eu nunca me envolveria com alguém tão mimada — rebati, adotando uma postura indiferente que não passou despercebida pelas duas.

O silêncio pairou na sala e foi possível apenas sentir a euforia ao nosso redor. Até mesmo Charlotte parecia desconfortável com a situação, apesar de termos entregado a melhor performance de que não conseguimos nem ter uma conversa civilizada.

— Perfeito, já tenho o suficiente.

Ela estalou a língua e deixou a prancheta ao lado do corpo. E como se pressentisse que o clima nublou entre nós, Mia derrubou o ursinho e começou a chorar. Tentei acalmá-la, mas de nada adiantou. Seu choro reverberou pela sala, aumentando ainda mais a tensão.

— Eu preciso ser sincera. — Gesticulou, pegando a pelúcia e entregando-a para a pequena. — A Mia gosta muito de vocês, e isso é visível. Mas... infelizmente, não são as pessoas certas para o que ela precisa.

Eu e nos entreolhamos. E, apesar da surpresa, no fundo, sabíamos o que seria esperado depois da breve desavença.

— Eu sei que são pais de primeira viagem e que cuidar de um bebê órfão não estava no plano dos dois. Só que convenhamos. — Ela ergueu os ombros, buscando palavras para continuar. — Vocês não têm maturidade nem para lidar com uma situação estressante, então como pretendem cuidar de uma criança?

Minha respiração falhou e foi como ser atingido por uma rocha que não se importava em pesar no meu peito. O choque de realidade era muito pior do que esperava.

— E vamos falar a verdade — ela apontou de mim para —, vocês agem como duas crianças. Não tem nem uma hora que estamos conversando e se comportam como dois irmãos em uma briga de família. Disputando atenção, provocando o outro. São dois narcisistas, egoístas. — Suas palavras doíam, acertando precisamente a parte do cérebro que chamava de ego. — Não existe algo mais frustrante do que encontrar duas pessoas que pensam que sabem o que estão fazendo, quando, na verdade, não têm ideia de nada. Vocês precisam decidir o que são um do outro. São inimigos? Desconhecidos? Conhecidos de longa data que nunca se deram bem? Ou são apenas irmão e irmã da Lily e do Noah? Porque está mais do que claro que não existe amizade aqui e isso os torna um obstáculo.

Ela suspirou, abrindo um pequeno sorriso para Mia, que havia parado de chorar.

— Sabe... o Noah e a Lily, talvez, achassem que vocês seriam capazes de fazer isso, mas sinceramente... eu não tenho tanta certeza disso — disse, sendo uma dura e amarga revelação.
Greta veio a nosso encontro e pegou a pequena no colo quando ela voltou a chorar.

Enquanto isso, Charlotte recolheu a prancheta e se levantou do sofá. Passou as mãos pelas roupas como se limpasse a poeira invisível. Suas sobrancelhas estavam arqueadas de maneira melancólica, enquanto nos observava desolados e sem reação. ainda estava parada na mesma posição, em completo choque, e eu curvei o corpo para frente, cobrindo o rosto com as mãos. Meu peito mais dilacerado do que quando recebi a ligação do acidente.

— Eu preciso ser honesta, porque é melhor para os três. Não há nenhuma razão para aceitar que a Mia viva sob os cuidados dos dois. Mas ainda tenho duas avaliações para fazer e acredito que, pelo Noah e a Lily, vocês darão um jeito de fazer isso dar certo. — Ela se dirigiu para a saída, o barulho dos seus saltos retumbando pela casa. — Volto no mês que vem, desejo boa sorte aos dois — despediu-se e Greta abriu a porta para que saísse.

A madeira se fechou e foi como se o ar fosse sugado pela sala, transformando-se em um túmulo. O silêncio que se seguiu era mais alto que qualquer grito. Envolvi os cabelos com as mãos e me curvei. Não era capaz nem de abrir os olhos para enxergar a realidade jogada sobre nós em um balde de água fria, congelando a esperança que mal tínhamos tido tempo de aquecer.
E a única certeza que ainda me restava era a de que estávamos perdidos. Fodidos. Sendo a culpa amarga e pesada, completamente nossa.





A vida é um oceano onde muitas pessoas flutuam, recusando-se a aprender a nadar, temendo a pressão e as surpresas que o fundo reserva. Já outros se arriscam e nadam ao encontro do desconhecido, saindo da conformidade da brisa suave. Só que, muitas vezes, não estão prontos para enfrentar as ondas pesadas e a correnteza agressiva que os puxa para baixo.
Eles engolem a água salgada da verdade e, de repente, o ar da superfície se torna um luxo distante. O pânico bate no peito, o coração esmurra as costelas, o cérebro envia sinais para lutar. Uma corda invisível está presa ao redor do pescoço, sufocando e arrastando cada vez mais para o fundo. O corpo se debate, tenta gritar, mas seus pulmões ardem, sem forças, e tudo que o rodeia é o silêncio.
A luta é desesperadora, porque acreditamos que estamos no controle e isso nos faz afogar...
Levantei-me do sofá com a sensação de que o estofado possuía espinhos e garras que adorariam me machucar. Minha atenção foi tomada quando vi Greta, parada ainda perto da porta, com a pequena em seus braços. O rosto pequeno e redondo, vermelho pelas lágrimas recentes, ela segurava o ursinho e nos olhava, curiosa e inocente sobre o que estava acontecendo.
O choro ficou preso na minha garganta, e por um momento quis desabar sem me preocupar com o mundo ao redor. Mas eu estava nadando contra a correnteza que insistia em me arrastar para o abismo, contra as rochas pontiagudas que ansiavam por ferir cada centímetro da pele. E não sabia o que fazer para retornar à superfície e tomar o controle da situação. Tudo o que conseguia fazer era me debater até que os músculos doessem.

— Eu sinto muito, ... — Greta sussurrou e apenas consegui forçar um sorriso pequeno e melancólico. — Tem alguma coisa que posso fazer por vocês? — Ela girou a cabeça em direção ao sofá.

Segui o seu olhar e encontrei o homem em completo estado de deploração. não movera sequer um músculo depois que a assistente social foi embora. Seu corpo continuava curvado, as mãos puxavam os cabelos e os olhos fechados com tanta força que as veias em sua testa saltavam pelo esforço. Ele se crucificava e sofria, ainda assimilando as palavras duras que acabamos de ouvir. E eu não estava diferente. O choque corroía meu âmago, levando a informação que queimava como brasa.
Fechei os olhos e puxei o ar para preencher os pulmões que clamavam por ar. Adoraria que Greta pudesse nos ajudar com conselhos e conhecimentos sábios, mas ninguém deveria interferir na luta que era somente nossa. Tínhamos culpa, e juntos, precisávamos pensar em uma maneira de escapar do afogamento, se não, encontraríamos com o fundo do oceano e a pressão nos esmagaria.

... — comecei, a voz levemente trêmula. — Precisamos conversar.

Ele não reagiu, os ombros tensionados como rochas.

— Eu sei que não é o melhor momento para isso, mas temos que conversar. — Soltei o ar anasalado. — Estarei na cozinha... Quando quiser...

Depositei um beijo sobre a cabeça de Mia e agradeci a Greta por toda a ajuda, pedindo que ficasse com a pequena até resolvermos o impasse.
Não queria que ela presenciasse o que quer que estivesse nos esperando, e algo gritava em meu íntimo que aquela conversa reservava uma explosão de emoções — por mais certeira que fosse.
O ar da cozinha me chicoteou. O frio dos mármores parecia reluzir com o clima tenso e sufocante que estava prestes a presenciar. Soltei o ar pela boca, inflando as bochechas quando o pequeno grunhido chamou minha atenção. Ergui os olhos para o felino que se ajeitava sobre o balcão, penteando os belíssimos pelos escuros como se estivesse prestes a participar de um concurso de beleza. Sky tinha que estar impecável em qualquer situação.

— Oi... — sussurrei e ele esticou o pescoço. — Acho que estragamos tudo, Sky. — Cocei o topo da sua cabeça, o ronronar envolvendo meu coração. — Eu queria saber o que fazer... Você poderia me dar algum conselho? — Ele me encarou com as enormes bolas amarelas.

Alarguei um sorriso, acariciando atrás da orelha dele, para no instante seguinte, — como se tivesse entendido o que eu disse —, ir até o pote de ração. Ele degustou os pequenos grãos redondos, os pelos sedosos caíam ao redor do corpo com elegância. Segurei o riso, pensando se seriamente meus problemas não se resolveriam se abrisse um pacote de sachê de salmão.

— Talvez burritos me ajudariam melhor do que sachê. — Debrucei-me sobre o mármore, resvalando o dedo na pata dele. — Comer é um ótimo conselho. — Não contive o riso.
Realmente acha que a solução vai aparecer, assediando o Sky? — estremeci, a voz estapeando o meu ser.

Girei a cabeça e encontrei entrando na cozinha, com uma postura rígida e o semblante fechado. Tão carregado que engoli em seco, arrependendo-me de ter sugerido que conversássemos. As sobrancelhas grossas arqueadas pareciam prestes a saltar e enforcar a primeira pessoa que aparecesse na sua frente. O seu andar revelava mais do que palavras. E o modo como abriu a porta da geladeira me passou a impressão de que socaria o mundo se fosse possível.

— Você... Está bem? — arrisquei-me a perguntar.

Sky levantou a cabeça e olhou para o homem, julgando-o minuciosamente. E o fato do felino pular e correr para a sala em seguida deveria ter servido como um alerta.

— Ótimo — respondeu com ironia.

Cruzei os braços e suspirei, me preparando psicologicamente para adentrar o território proibido.

… Precisamos encontrar uma solução. Temos que mostrar que somos capazes. — Gesticulei com as mãos trêmulas. — Na próxima visita da Charlotte, precisamos ser... Sei lá! — busquei as palavras certas. — Talvez... Fingir por um tempo que somos um casal que se ama?

Ele disparou uma risada sarcástica, enquanto ocupava as mãos com a garrafa de água, usando a força maior que o comum.

— Esqueceu que disse a ela que preferia perder tudo a se envolver com alguém tão... Como você disse? — Fingiu pensar e estalou os dedos. — Ah, sim. Insuportável. — Cuspiu com fagulhas de ódio, desprezo e escárnio.

Meu coração parou por alguns segundos, alfinetado por diversas agulhas. O estômago revirou de modo que fiquei enjoada. Por que eu sentia que ele ficou ofendido com isso?

— Desculpa, se isso feriu o seu ego, mas você me chamou de mimada — retruquei.
— Porque você sempre quer fazer tudo do seu jeito. — Virou-se em minha direção, seu olhar me fuzilando. — Fingir ser um casal quando na frente da Charlotte não pensou o quanto poderia me prejudicar, dizendo que passo as noites fora? Casais se protegem, ! E não jogam o outro aos lobos.

Apertei os olhos com os dedos. Não era possível que ele estava dizendo isso. Tínhamos que encontrar uma solução, e não discutir sobre o que falamos para o pastor alemão.

— E o que você sabe sobre ser um casal, ? — Empinei o nariz, encurtando a distância entre nós.
— Mais do que os seus livros de romance dizem — alfinetou e senti a fúria transbordar nas minhas veias.

Rolei os olhos, segurando a vontade de acertar o soco no rosto dele.

— É impossível ter uma conversa com você. É deprimente! — Meu rosto se contraiu em uma careta.

virou a garrafa, dando um longo gole. E torci para que o choque térmico da água congelasse o seu cérebro.

— A Charlotte está certa, não consegue ver isso? — Arfou. — Não somos bons para a Mia. Juntos somos péssimos. Sinônimo de destruição.

Puxei o ar profundamente.

— Será que você pode melhorar o seu mau-humor para tentarmos ter uma conversa civilizada?
— Por que eu deveria fingir que estou bem, quando, na verdade, estou péssimo? — disse calmamente, causando-me repulsa. — Me deixa ficar péssimo, .
— Devo te lembrar que estamos aqui por uma escolha maior. — Tentei soar o mais calma possível. — A Mia precisa da gente. Ela não pode entrar para adoção.

Ele suspirou, parecendo cansado.

— Então quer falar sobre o quê? O quanto acabei com a minha vida; estou morando na casa da minha irmã e cuidando de uma criança, sem ter noção nenhuma do que estou fazendo... — Ele apertou a garrafa, derrubando o líquido. — Tudo isso para quê? Para ouvir da boca da assistente social que eu não sirvo para ser o pai dela?

Mordi o lábio inferior. Por um lado, entendia a sua fúria, ele largou tudo para cuidar da sobrinha e, de repente, uma desconhecida o decretou desqualificado para o cargo. Provavelmente, a memória de Lily martelava em sua cabeça — assim como Noah fazia com a minha.

— Eu sei que não sou nem metade do homem que o Noah foi, . — Suas palavras carregavam dores profundas. — E nunca vou ser como ele, não importa o quanto eu tente. — Vi o vislumbre de lágrimas se formar no canto dos seus olhos.

não deveria se cobrar tanto, isso o consumiria para sempre.

— Eu também tive que deixar a minha vida para trás. — Meu coração se apertou. — E sei que nunca serei como a Lily. Ela era uma mãe maravilhosa e uma mulher incrível.
— Acontece, , que a sua vida não mudou completamente em nada desde que se mudou para cá. — Ergueu os ombros em desdém. — Agora, eu não posso cumprir com os plantões porque isso prejudica a rotina da Mia!
— Eu tinha a minha privacidade; organizava meus horários. Tinha tempo livre! — berrei, rebatendo-o com maestria.
— Para fazer o quê? Ler mais livros estúpidos de romance? Ainda consegue fazer isso aqui. — Suas palavras amargas atingiram em cheio o meu âmago. Como ele ousava ser tão desprezível?
— E você deixou de fazer o quê? Acabar bêbado na cama de uma desconhecida noite após noite? — Arqueei as sobrancelhas, diminuindo ainda mais a distância entre nós. — Isso é nojento, !

Ele alargou um sorriso cínico no canto dos lábios, inclinando a cabeça para baixo para conseguir olhar para mim. E céus... Como meus olhos poderiam ser tão traiçoeiros para olhar a sua boca atrevida? O breve pensamento de calá-lo com os lábios passou como uma ideia ridícula, me causando arrepios. O que estava acontecendo? Eu deveria odiá-lo, e não o desejar ardentemente.

— Pertencemos a mundos diferentes, — disse com sarcasmo e uma leve calmaria. — Você não faz ideia de como era divertido.
— Então me diga como era — sussurrei, não conseguindo desviar a atenção dos seus lábios.

Portanto, para a minha salvação, ele deu um passo para trás. Sua atitude me fez sentir como um inseto pegajoso.

— Escolhi a medicina veterinária para não ter que lidar com as pessoas. Odeio como me olham, sempre esperando algo de mim que nunca terão. — Havia uma sinceridade diferente em seu tom, algo quase doloroso. — Dormia com uma mulher diferente todas as noites porque era só sexo e elas nunca esperavam nada de mim. E isso era ótimo! — ditou o final com ênfase.

Engoli em seco, recompondo minha postura. Um calor estranho se apossou da base do meu pescoço.

— É claro que era ótimo — retorqui. — Você só tinha que se importar consigo mesmo, sempre fugindo das responsabilidades. E mesmo assim, o Noah e a Lily deixaram a filha nas suas mãos! — Ele tinha que entender de uma vez por todas que a sua vida egoísta foi deixada para trás. — Porque eles sabiam que seria uma pessoa próxima para ela!

Ele riu com escárnio.

— Quer saber, , retiro o que disse. Você não é tão diferente de mim. — Ele se aproximou, sua presença quase me intimidando. — Fica atrás daquele notebook, se escondendo através da tela e dos livros de romance de que tanto gosta, porque, no fundo, odeia ter que lidar com pessoas tanto quanto eu. — Agora ele tinha ido longe demais com a petulância.
— Vai para o inferno, ! — xinguei com ódio, repulsa e todo sentimento desprezível.
— Vai você primeiro e nos encontramos lá.

E foi como me afogar de novo no vasto oceano, mas dessa vez, outra pessoa se debatia ao meu lado. Nossos olhos travavam uma dança eletrizante e cheia de desespero. Os glóbulos azuis estavam transparentes, revelando suas emoções mais profundas. tinha medo e, assim como eu, não sabia como retornar à superfície. Juntos, éramos arrastados para o fundo, sem a menor ideia de como sairíamos vivos.
Por um momento, pensei que o melhor seria se entregar ao oceano. Mas não era justo com nossos irmãos e nem com a pequena.
Suspirei, erguendo as mãos em rendição, e afastei-me dele. Seu perfume embriagava todos os meus sentidos, tornando impossível pensar com clareza.

— O Noah e a Lily nos escolheram por alguma razão. E por eles, precisamos pensar em um jeito de fazer isso dar certo. — Mirei-o e o encontrei cabisbaixo. A mandíbula travada, como se estivesse segurando o mundo nas costas. — Mesmo que para isso tenhamos que fingir nos suportar. É pela Mia — impus e o assisti negar com a cabeça.
— Eu não posso fazer isso, ... Não posso. — Levantou a cabeça e me encarou, seus olhos azuis geraram um vazio que me fez engolir em seco. — Perdi a minha irmã, e porra... Não pude nem me despedir dela direito! — A sua mão bateu contra o balcão, um som oco e pesado.

Ele cobriu o rosto em seguida e percebi que lutava para não deixar que as lágrimas saíssem. Era a primeira vez que deixava os sentimentos transbordarem assim. sempre foi tão reservado, tão forte, que se escondia da própria dor. Então vê-lo à beira do colapso, com as emoções saindo pelas pequenas fissuras da bolha que ele mesmo criou, era novo.
No fundo, eu sempre soube que estávamos destinados a compartilhar a mesma dor.

— Você não foi o único a perder alguém naquela noite... — a vontade abrupta de envolvê-lo em meus braços me consumiu, do mesmo jeito que ele fez comigo na delegacia. Era uma necessidade profunda de dividir o fardo. — O Noah era a minha única família... — sussurrei, e senti o baú das emoções se abrir. As palavras rasgavam minha garganta, queimando como fogo. — E agora, tudo o que eu tenho é a Mia. Então desculpa se estou sendo egoísta e fria ao ponto de parecer que não me importo com os sentimentos de ninguém, porque ainda estou tentando viver o meu próprio luto, sendo atropelada pela responsabilidade que é cuidar de uma criança. — as lágrimas que segurei por tanto tempo finalmente escorreram, quentes e libertadoras.
— Me desculpa, ... — disse para o nada, a voz rouca. — Não posso ficar aqui ouvindo isso. — foi ríspido, e em seguida, saiu da cozinha.

Funguei e o segui, a tempo de vê-lo pegando a chave do carro. Cruzei os braços, na tentativa de esconder a minha fraqueza.

— Você não deveria sair de carro estressado desse jeito... Eles morreram assim, ... — minha voz saiu baixa e embargada, mal conseguindo sustentá-la, mas sabia que ele tinha ouvido cada uma das palavras.
— NÓS NÃO SOMOS ELES, ! — seu gritou rasgou a sala, a tensão dominando cada fibra do seu ser.

E mesmo através da visão embaçada, eu o vi... A fachada de dureza se quebrou. As lágrimas rolavam livremente por seu rosto, traçando caminhos silenciosos pela destruição. A instabilidade dos seus olhos foi o suficiente para me fazer entender que o oceano — que havíamos tentado conter — finalmente nos engoliu.
E não havia mais nada a fazer a não ser afundar...
Notei quando ergueu o olhar para as escadas, e sua garganta pareceu apertar em um nó de culpa. Instintivamente, também olhei, e a cena me quebrou por completo: Greta estava parada a poucos degraus de distância, com Mia em seu colo. A cabeça da pequena tombada sobre o ombro da mulher, os olhos fechados em um sono profundo, alheia ao nosso mundo em colapso. Meu peito se contorceu em uma dor lancinante e tudo pareceu desabar.

— Nós não somos eles... — repetiu, a voz agora um sussurro quebrado, e a frase, que antes era uma negação, se transformou em uma dura e amarga confissão de impotência.

Foi como ser atingida pela onda mais violenta do universo.
Ouvi o som da porta batendo, e o baque me despertou da paralisia. Corri para a cozinha, buscando apoio na lateral do mármore da pia, onde me agarrei — de frente para o imenso vidro que dava visão para o vasto céu. Os raios solares ficavam alaranjados e se preparavam para o entardecer. E eu desabei em prantos, não conseguindo mais conter a dor que envolvia meu peito, esmagando-o sem piedade.
O ar me faltou e levei a mão sobre o peito em uma tentativa de me manter ainda respirando. Algo quase impossível.

— Me desculpa, Noah... Me perdoa, por favor... — supliquei entre soluços, a voz falhando e se perdendo no eco do vazio.

O mundo desabou de vez e fui engolida pelo medo. O oceano venceu a batalha, e meu corpo agora se encontrava inerte na água, as rochas afiadas colidindo contra a minha pele. E desta vez, não tinha mais forças para lutar, não me restando mais nada para me agarrar.
Estava completamente perdida à mercê do oceano de pânico, sem um bote salva-vidas ou uma ilha à vista.

*****



A solidão era tudo o que mais precisava. Um tempo para pensar sobre os sentimentos conflitantes que insistiam em assombrar o meu peito.
Arrumei os óculos escuros com o dedo indicador, enquanto caminhava lentamente pelos corredores vazios e melancólicos. A brisa leve enrijecia os pelos da nuca, conforme me aproximava do destino. O clima e a paisagem ao redor pareciam um reflexo do meu próprio espírito: o belo entardecer abriu caminho para nuvens escuras que formaram o céu nublado, cinza, completamente silencioso.
O único som era do solado dos meus tênis pressionando as minúsculas pedras a cada passo que dava no automático. E, por mais estranho que parecesse, a paz que rodeava o ambiente conseguia acalmar a minha alma. As fileiras de sepulturas, mausoléus e jazigos preenchiam cada canto, variando das mais simples às discretas, e nelas conseguia ler os nomes e datas que contavam a história dos entes queridos.
Parei em frente à lápide de granito e olhei demoradamente cada detalhe. Meu coração se apertou em um nó sufocante assim que vi ambas as fotografias intactas, do mesmo jeito que da última vez em que estive ali. Dois vasos de plantas ficavam ao lado do nome e da data, acomodando flores vivas e belíssimas. Os pequenos tons pastéis dos azulejos constavam com a lembrança deles, trazendo a memória e a dor da saudade.
Curvei o corpo, ficando com o peso sobre os joelhos dobrados. Lentamente, retirei as folhas intrometidas que caíram da grande árvore atrás do túmulo. Deslizei a mão pela superfície fria, delineando as letras do nome dela. O nó se formou em minha garganta e tive que segurar a vontade de desabar. Não tinha ido até ali para chorar, só queria passar um tempo com ela.

— Oi, irmãzinha... — murmurei em um tom carinhoso. — Eu trouxe lírios brancos, sei que são as suas favoritas. — Olhei para o arranjo e o coloquei ao lado do nome dela. — A mamãe nunca foi boa em saber qual era a sua flor preferida. — Curvei um sorriso, reparando nas rosas vermelhas que meus pais tinham colocado nos vasos no dia do funeral.

Suspirei, sentindo o peso do mundo sobre os ombros.

— Sinto a sua falta, Lily. — A voz falhou, sendo mais difícil do que imaginei. — Queria que estivesse aqui para me dizer o que fazer. — Acomodei o corpo no chão, cruzando as pernas. — Mas se estivesse, a Mia teria uma família de verdade; a , o irmão dela; e eu... Minha vida medíocre e sem compromissos. — O confronto da coelhinha ficaria para sempre cravado em meu cérebro.

E, talvez, eu fosse mesmo alguém que só queria fingir que tinha o controle, quando, na verdade, tenho medo de encarar as responsabilidades.

— Não era para ser assim... — retirei os óculos e os coloquei na gola da camiseta, arrancando a grama que crescia entre os furos do concreto — Você não podia ter me deixado. E agora tem essa mulher... A assistente social me disse que eu não sou bom o suficiente para cuidar da sua filha. — Ergui o olhar para a árvore, o nó apertou na garganta. — Desculpa, Lily… Eu não sou como o Noah, e acho que nunca serei nem metade do homem que ele foi.

A brisa suave tocou a lateral do meu rosto. O balançar dos ganhos parecia um consolo da natureza à minha versão frágil e deprimente.

— Lembra de quando prometemos cuidar um do outro? — Abaixei a cabeça, voltando a atenção para a grama. — O papai e a mamãe quase nos mataram porque pegamos aquele temporal, e você estava lá com o seu sorriso doce e divertido. — Sorri, sendo confortado pela memória daquela tarde que logo se transformou em uma noite chuvosa e intensa.

A lembrança veio como uma avalanche, o filme que insistia em ser reprisado na minha mente. Voltei ao passado, no exato momento em que tínhamos 25 anos e estávamos de férias no 's Horse Haven, ajudando nossos pais com as obrigações diárias.

— Esse foi o último. — Ergui a cabeça da prancheta, assistindo ao cavalo sendo manuseado para dentro do estábulo.
— Ótimo, Lennie. — Caminhei, verificando as baias. — Coloque um pouco de aveia para ele. O empresário Payne virá buscá-lo amanhã, verifique que esteja tudo pronto para o embarque.
— Deixarei tudo pronto, chefe. — Ele bateu continência, guiando o garanhão de pelagem negra brilhante.

Desferi alguns tapinhas leves sobre o dorso do animal, voltando a atenção para a nova hóspede que recebemos mais cedo. Puxei a ficha da porteira da baía, analisando as informações do proprietário e do cavalo. Se tratava de uma égua, de pelagem branca e cinza, que praticava hipismo e havia sofrido uma lesão recentemente, por isso estava ali. O haras foi indicado para realizar a readaptação ao esporte, assim poderíamos acompanhar o seu desempenho e oferecer o treinamento adequado.
Devolvi a documentação e abri o trinco da porteira de madeira. Atena era calma, dócil e, quando me viu entrar, não hesitou em vir ao meu encontro em busca de carinho. Acariciei o chanfro, tirando uma pequena porção de petiscos secos feitos de frutas e vegetais do bolso da calça, onde sempre carregava um pacotinho. Ela devorou a oferta e deu um sopro em um sinal claro de aceitação.

— Boa garota. — Continuei com o carinho. — Vamos dar uma olhada nessa pata. — Fui deslizando a mão cuidadosamente pelo peito, até chegar à compressa da perna direita. Ela se remexeu assim que toquei a região. — Está tudo bem. — Desenrolei a faixa e olhei o local, notando que estava completamente desinchado.

Atena sofreu uma inflamação aguda do tendão, causada pelo esforço excessivo, já que há alguns meses participou de duas competições sem pausa. Desde o início, seu dono, o empresário Arnold Astor — proprietário de uma das maiores fazendas de reprodutores equinos da região — me procurou na clínica, pedindo pessoalmente que tratasse seu animal, sabendo dos meus conhecimentos com animais de grande porte. Foram longos dias de recuperação e tratamento com anti-inflamatórios para a dor.
Meu trabalho, agora, era colocá-la em um treinamento progressivo para fortalecer o tendão e os ligamentos. Atena logo voltaria a competir, se respondesse bem aos treinos, algo que acreditava acontecer mais rápido do que imaginava.

Irmão! — A voz fina preencheu todo o estábulo. — Não vai acreditar no que aconteceu... Cadê você? — Ela gritou com impaciência.
— Aqui, irmãzinha. — Ergui o corpo, esticando o pescoço sobre a porta da baía.
— Pare de me chamar desse jeito. — Lily cruzou os braços, o bico maior que o de um pássaro.

Ela parou e os olhos azuis me fuzilaram. Senti como se fosse pegar fogo a qualquer momento. Seus cabelos loiros escuros caíam sobre os ombros em ondas, algumas mechas vermelhas se perdiam, puxadas para o tom cobre e dourado — como os meus. O rosto pequeno e redondo sempre tinha uma camada fina de maquiagem, que combinava com as roupas elegantes e o salto.
Lily nunca se enquadrou no estilo do haras, naquele dia ela usava um vestido longo azul marinho e sandálias de salto alto que torneavam os pés pequenos. Ao contrário de mim, que sempre optava por algo mais simples, como uma camiseta de linho, calça jeans escura e botas Timberland. Ela era uma princesa e eu um capataz.

— O que aconteceu? — Debrucei o corpo sobre a madeira.
— Papai e mamãe brigaram de novo. — Ela começou a caminhar de um lado para o outro — ela disse que vai se divorciar se ele vender o haras. — Se tinha uma coisa que Lily temia, era a venda daquele lugar.

Suspirei.

— Vai abrir um buraco no chão — comentei, e Atena cutucou meu braço com a cabeça.
— Você não entende, ? Ele não pode vender! — bateu os pés no chão em fúria.

Acariciei o chanfro e a crina da égua, ouvindo minha irmã ditar sobre todos os motivos do porquê papai não deveria vender o haras. Ela sempre dizia que deveríamos assumir os negócios e que nossos filhos mereciam viver em um lugar como aquele. A natureza e os animais estavam na nossa família há séculos e assim deveriam permanecer.

— Irmã, vamos dar uma volta — sugeri, abrindo a porteira da baía. — Cavalgar vai te ajudar a se acalmar.
— Como você pode pensar em cavalgar quando o papai quer vender o haras? — Arqueou uma sobrancelha em indignação.

Curvei um sorriso, caminhando até o armário de acessórios. Escolhi entre as rédeas e as selas mais confortáveis para equipar um dos cavalos. Lily ficou em meu encalço.

— Porque esse haras só será vendido para uma pessoa. Eu. — Indiquei meu próprio peito.

Ela rolou os olhos.

— Não tem dinheiro para comprar.
— Não preciso de dinheiro, sou o herdeiro das terras. — Caminhei de volta para a baía. — E não se preocupe, deixo você cuidar da administração. — Sorri divertido.
— Você é tão presunçoso, . — Ela se aproximou, analisando enquanto colocava a sela em Atena. — Não pode montar essa égua, ela pertence ao Arnold Astor.

Dei de ombros, terminando de prender o cinto.

— Ela precisa exercitar a perna, então vamos fazer isso.
— Você faz tudo parecer tão fácil. — Ela soltou o ar pela boca, sentando-se em um caixote. — Sinto falta do Noah, ele também vê a vida desse jeito. Vocês dois são tão parecidos. — Notei sua voz fanhosa e isso acendeu um alerta sob a minha cabeça.
— Não falou mais com ele? — Quis saber, odiava vê-la triste.
— Acho que ele não quer mais falar comigo. — Seus ombros caíram.
— Foi por causa do que houve com a ?
— Não. — Ela respondeu de imediato e jogou a cabeça para trás. — A aranha falsa não chegou nem perto.

O alívio me dominou. Temia que um dia minha desavença com resultasse em qualquer problema no relacionamento de Lily e Noah.
Aquela garota sempre seria o meu tormento e, no mês passado, não consegui me controlar quando a vi rindo depois que deixei um dos cavalos escapar do centro de treinamento. A porteira ficou aberta e precisei ir atrás do animal até a fazenda vizinha. Quando voltei, não perdeu a oportunidade de zombar do meu descuido, passando a tarde pendurada na cerca, soltando suas piadas recheadas de provocações, enquanto exercitava os equinos.
E, como de costume, precisei dar o troco. Coloquei uma aranha falsa enorme no meio de um dos seus livros de romance, o que causou um grito tão alto no meio da madrugada que levar uma bronca da minha irmã como punição não chegou nem perto do gostinho delicioso da vingança. Meus pais tinham saído de viagem, o que deixou o caminho livre para fazer as travessuras com .

— Por que implica tanto com ela? — Lily questionou.
— Somos de mundos diferentes, é divertido — falei, dando de ombros.

Ela soltou um riso anasalado.

— O Noah me disse a mesma coisa quando sugeri que vocês fossem juntos para o evento de contabilidade. — Levantou-se do caixote. — Ele acha que podem ter algo em comum, apesar de serem tão diferentes.

Abri a porteira, guiando Atena para o corredor.

— A única coisa em comum é o nosso ódio latente e recíproco. — Caminhamos juntos. — Quando o assunto passou a ser sobre mim e a ? — ri e fiz sinal para Lennie, pedindo que selasse um cavalo para Lily.
— Eu só queria entender, vocês são sempre tão intensos. — Chutou uma pedra imaginária. — Talvez, um dia, irão se entender.
— Quando o inferno congelar, Lily — brinquei e rimos juntos. — O que houve entre você e o Noah?

Ela soltou um grunhido.

— Tem dois dias que ele não atende às minhas ligações. E quando responde às mensagens, parece meio... Distante. — ergueu os ombros. — O Noah tem agido um pouco estranho.

Fiz uma careta, agradecendo quando Lennie se aproximou e entregou as rédeas para Lily.

— O Noah não é assim — ela continuou —, acho que está escondendo alguma coisa. Ele nem quis vir para o haras nessas duas semanas.
— Talvez esteja planejando alguma coisa. — Arrisquei-me a dizer.
— Seja o que for, irei descobrir — disse, determinada. — Vou para a cidade amanhã, irei visitá-lo e conversar sobre isso. Agora, vamos cavalgar antes que escureça. — Ela subiu no cavalo e nem sequer se importou em me esperar para disparar pelo haras.

A poeira levantou e tudo que ficou foi o rastro da sua corrida. Não me preocupei em alcançá-la, já que Atena deveria executar exercícios leves. A saúde da minha paciente era o mais importante. Suas longas patas caminharam devagar, apesar de eu sentir a inquietação para forçar o tendão. Acelerei o ritmo lentamente quando atravessamos para o extenso pasto vazio de uma grama verde e brilhante. O terreno plano facilitaria os movimentos, a falta de inclinação e superfícies niveladas seriam propícias para ela.
Lily manuseou as rédeas e veio em minha direção, puxando os freios com delicadeza. Os cabelos lisos voavam conforme se movimentava. Ela emparelhou o cavalo ao meu lado e o sorriso iluminou sua face, era chocante o quanto se transformava em uma belíssima amazona quando queria.
Cavalgamos até a cachoeira que cruzava entre as terras dos e as fazendas vizinhas. Juntos, embarcamos em uma conversa sobre os cavalos que chegariam no dia seguinte. Segundo as informações que recebi, entre todos, hospedaríamos dois garanhões da raça Puro Sangue Inglês que passariam por treinamento de preparação para futuras corridas da região. Lembro-me também de Lily contar sobre o planejamento que seguiria quando estivesse na cidade, dizendo estar ansiosa para buscar o vestido que havia encomendado em uma alfaiataria.
Quando chegamos à clareira, deixamos os cavalos presos a uma árvore próxima à margem. A paisagem era um espetáculo de paz, com a cachoeira formando uma piscina natural cristalina, um convite à calmaria. As longas e lisas rochas serviam como assentos confortáveis, aquecidas pelo sol do fim da tarde. O som dos pássaros e da correnteza tinha a magia que aliviava qualquer estresse, tornando-se o meu lugar favorito.
Observei Lily retirar os saltos e correr para sentar sobre uma das pedras. Mergulhou os pés, balançando as pernas em movimentos suaves, enquanto observava a água em silêncio. Caminhei até ficar ao lado dela, admirando a forma como a luz filtrava pelas árvores, iluminando a queda da cachoeira.

— O que acha que vai acontecer com o haras? — A pergunta veio de repente. A voz baixa, quase inaudível.
— Nada. O papai e a mamãe vivem brigando, mas, no fundo, não têm coragem de vender esse lugar. — Sorri, sentindo a brisa suave que nos rodeava. — Mas, falo sério, se um dia eles surtarem, estarei pronto para dar um jeito de comprar a propriedade. E você poderá cuidar da administração. — Sabia que soava como uma brincadeira, mas, no fundo, faria qualquer coisa para salvar aquele lugar.
— Grande altruísmo, irmãozinho.

Lily me encarou por alguns segundos, os olhos azuis cheios de um brilho travesso — que deveria ter servido de alerta. Um sorriso se alargou em sua boca e, sem qualquer aviso, uniu todas as forças para dar o impulso contra o meu corpo, me empurrando no rio.
O choque térmico foi imediato.
Soltei o grunhido assim que emergi com os cabelos e as roupas encharcados. Tossi com força, quase cuspindo os pulmões, e puxei o ar, as vias aéreas clamaram de tanta ardência, tudo sob o som da delinquente gargalhando como uma hiena.

— Eu não acredito que fez isso! — gritei, a água escorrendo pelo rosto. — Eram botas novas.

Ela gargalhou mais alto, a mão segurando a barriga. Sua cabeça tombou para trás e a risada ecoou pela clareira. E eu daria tudo para ouvi-la rir todos os dias.

— Pare de reclamar. — Estendeu a mão em minha direção.

Encarei sua palma estendida e, por um momento, senti a súbita vontade de puxá-la, mas o som do trovão reverberando no horizonte acabou com a ideia. Mais cedo, havia verificado a meteorologia e uma forte chuva estava prevista para visitar o haras durante a noite toda. Então, o mais sábio era ir embora, antes que os dois ficassem ensopados.

— É melhor voltarmos antes que comece a chover. — Aceitei sua ajuda e encarei a escuridão das nuvens.

Lily soltou o ar pela boca, parecendo cansada. Ela agarrou minha mão assim que fiz menção de me virar para pegar os cavalos. Seus olhos contornaram o meu rosto e notei o brilho diferente ao redor das pupilas. As sobrancelhas arqueadas denunciavam seu estado de nervosismo.

— Irmão, me prometa uma coisa? — disparou, quebrando a tensão.
— O que você quiser.

De súbito, Lily me abraçou, seus braços apertaram o meu corpo como se a qualquer momento eu fosse desaparecer. Sua cabeça repousou sobre o ombro encharcado e soltou uma pequena lufada. Inclinei a cabeça, depositando um beijo carinhoso em seus cabelos, enquanto retribuía o abraço. Sentia que ela precisava do meu calor tanto quanto eu precisava do dela.
Nossa união sempre seria a mais forte e inexplicável do universo. Lily era parte da minha alma e, sem ela, minha essência ficaria rachada para sempre.

— Promete que sempre iremos cuidar um do outro? — ela sussurrou.
— Não precisamos prometer isso, Lily. — Afaguei os fios macios. — Nós já cuidamos um do outro. Sempre fomos nós contra o mundo, lembra? — citei a pequena frase de quando éramos crianças e eu a protegi quando acabou a energia no haras.

Seu corpo se apertou mais contra o meu e jurava que ela tinha lágrimas no canto dos olhos.

— Promete, — insistiu, com uma sinceridade rara. — Nunca sabemos o que o futuro nos reserva.

Lembro-me de um calafrio percorrer minha espinha. E por mais que naquele momento não compreendesse o porquê daquele pedido, sabia que um dia ele seria essencial para a minha alma continuar viva.

— Eu prometo, Lily. — Não hesitei. — Não importa o que aconteça, eu sempre vou cuidar de você. — Selei nossa promessa naquele dia, algo que ficaria talhado em mim para sempre...

O passado abriu caminho para o presente e voltei a mim com o ar faltando nos pulmões. Os olhos arregalaram abruptamente, o arrepio gelado se espalhando. Eu havia voltado para o cemitério, de frente para o túmulo frio e silencioso. Tudo não passou de uma lembrança. Um momento de ternura entre dois irmãos que agora estavam destinados a viver separados.
Encarei o retrato dela pregado na lápide e senti a lágrima escorrer do canto dos meus olhos, molhando a bochecha. Quente, minúscula e poderosa. A pressão contra o peito foi tão intensa que achei que fosse morrer ali mesmo. A garganta arranhou e desabei em um choro sôfrego. Os ombros balançaram com a força dos soluços.
Eu não aguentava mais sentir tanta dor...
Minha alma precisava se entregar à angústia. Tinha de sentir cada pedacinho se quebrando antes de colar os cacos que restassem. Lily odiaria me ver daquele jeito e faria de tudo para que eu abrisse mão de uma vez. Diria que estava na hora de aceitar e deixá-la ir. Usaria suas palavras doces e o riso travesso para convencer que o meu coração precisava ser lapidado. Suas mãos tocariam o meu rosto e sussurrariam que eu precisava soltá-la, que a dor um dia passaria porque a minha vida tinha de seguir sem ela.
Mas eu não conseguia... Não, sozinho...

— Eu não consigo, Lily... — confessei em voz alta, e as palavras arrancaram mais um pedaço da minha alma. — Eu preciso deixar você ir... Eu... — segurei a lateral do azulejo e deixei que as lágrimas falassem por mim.

Eu precisava disso.
Tinha que deixar a dor sair, sentir cada pedacinho se esvair entre meus dedos, até que a alma estivesse pronta para se curar e encarar a dura realidade.

— Eu prometo cuidar delas... — disse entre soluços. — Eu só não sei como...

Ergui a cabeça e novamente olhei para a fotografia. Eu sentiria falta da minha irmã até a eternidade. E quando achei que não fosse mais capaz de raciocinar, o tremor dominou cada célula do meu corpo em uma leve vertigem e então, a imagem dela preencheu a minha mente e me resgatou do poço profundo, cheio de amargor…
O rosto da coelhinha travessa, bicuda e dona da boca mais linda que só pensava em beijar. O sorriso dela. A risada estridente. As palavras suaves e, ao mesmo tempo, afiadas. O medo em seus olhos castanhos, a forma como se encolhia contra mim. O modo como o seu toque acalmava a minha tempestade. Ela sempre foi a âncora que me puxou do abismo. O porto seguro que me acolheu na escuridão.
Entreabri os lábios. Puxei o ar lentamente, o peito subindo e descendo com dificuldade. Minha cabeça latejou quando finalmente o meu coração entendeu o que estava acontecendo ali… A verdade sempre esteve estampada na minha frente, como uma sombra à espreita, e eu fui tolo o suficiente para não ver…
A ignorância me fez acreditar que a lealdade e a saudade que sentia de Lily foram o que mantiveram meu corpo respirando todo esse tempo, mas a realidade era mais absoluta… Sempre foi ela… A minha doce e infernal coelhinha que fazia o meu ar se tornar rarefeito. Foi por ela que aceitei abandonar tudo para cuidar de uma criança sem ter noção do que isso significava.
era a razão da minha existência e naquele momento, percebi que precisava dela para continuar respirando.
A promessa feita a Lily ganhou camadas que nunca pensei que fossem possíveis. Agora, entendia o porquê do universo me unir com a mulher mais teimosa do mundo… Eu era a ponta que faltava na base do triângulo. Minha alma completava a diferença das nossas vidas. E juntos tínhamos uma razão pequena e de olhos cristalinos que nos unia. Todas as constelações eram testemunhas de que eu faria de tudo para proteger as duas mulheres mais importantes da minha vida. Porque eu morreria para salvar a minha nova família.





Os dedos latejavam. As pontas vermelhas e sensíveis clamavam por descanso. Mas não conseguia parar. O atrito com o teclado contrastava com a dor insuportável no meio das costas, os músculos retesados pela posição desconfortável. Acomodei mais uma almofada entre o corpo e o braço do sofá, ajeitando a posição do notebook sobre as pernas dobradas.
A casa se fez em completo silêncio desde que desapareceu pela porta. Passei quase duas horas desabando na cozinha, até que ficasse desidratada e não restassem mais lágrimas para sair. Greta tentou me consolar, mas nem mesmo suas palavras doces foram o suficiente para arrancar a angústia de dentro do meu peito.
Por sorte, ela cuidou da Mia e a colocou para dormir. Agradeci aos deuses por terem colocado uma pessoa tão maravilhosa para ser a nossa governanta, porque se dependesse do meu estado, passaria dias sem comer e fazer absolutamente nada. As palavras de Charlotte ficariam rodando na minha mente até que minha alma tivesse forças para se levantar de novo.
No entanto, quando pensei que me fundiria ao chão da cozinha, tive a excelente ideia de descontar as frustrações e a raiva na escrita. A solidão se tornou um aliado e as teclas já imploravam por piedade, assim como meus dedos e os braços que começavam a ficar dormentes. Queria expressar todos os sentimentos em palavras, colocar tudo para fora sem que precisasse desabafar com alguém.
A página em branco ganhou forma tão rápido que nem percebi quando finalizei o capítulo e iniciei outro. E, por mais irônico que o universo fosse, escrevia uma cena difícil, dramática, que marcava a briga dos protagonistas. Elisa tinha desobedecido à ordem de Joshua e saiu com a amiga para uma festa, sem a proteção dele. Sua vida estava em jogo e, mesmo assim, se arriscou indo à boate.
Joshua descobriu seu plano exorbitante e chegou ao local antes de ela sofrer uma tentativa de assassinato. Por sorte, ele conseguiu contornar a situação e agora a mocinha estava a salvo, mais uma vez. No entanto, o guarda-costas brigava com ela, expondo todas as suas facetas e os medos de perdê-la.
Levei o dedo indicador até a boca, roendo a unha, quando, finalmente, minhas mãos pararam de digitar. Rolei o mouse, relendo os últimos parágrafos, para conferir se todos os sentimentos de angústia, raiva e medo foram expressos de forma clara. Deslizei a seta e abri o arquivo que usava de rascunhos para as cenas, assimilando as ideias para o próximo capítulo, onde Joshua e Elisa se reconciliariam antes de a casa dele ser invadida pelos criminosos.
Narrar meus personagens foi a forma que encontrei para esquecer as próprias dores e distrair a mente, por isso escrevia como um robô enlouquecido.
Prestes a retornar para a bolha da fantasia, ouvi o balançar do molho de chaves girando na fechadura da porta. Olhei por sobre o ombro, tempo o bastante para assistir e sua silhueta forte entrando na casa. Ele passou a mão pelos cabelos bagunçados, o semblante péssimo. Notei que, por cima da camiseta de linho, usava o jaleco da clínica, tirando qualquer dúvida sobre onde estava escondido todo esse tempo.
Tensionei a mandíbula quando seu olhar cruzou com o meu. O arrepio percorreu cada centímetro da espinha por ter sido flagrada. Engoli em seco, molhando a garganta seca que já aranhava. Desviei o contato e mordi o lábio inferior, decidida a retornar para a escrita. Mas o sexto sentido batucou contra as paredes do meu cérebro e, naquele momento, soube que olhava para o notebook aberto.
Fechei a tampa e procurei pelo controle da televisão, pausei o filme romântico que até então serviu como vozes de fundo para que não me sentisse tão sozinha. Meu estômago revirou assim que fui embriagada pelo perfume amadeirado, com suaves notas de lírios. Franzi o cenho, o calor se tornou profundo e não precisei de muito esforço para saber que ele estava parado ao lado do sofá.

— Podemos conversar? — Sua pergunta soou receosa.

Girei a cabeça para, enfim, encará-lo. colocou as mãos dentro do bolso do jaleco, provavelmente esperando que eu o enxotasse dali. Em contrapartida, apenas soltei o ar pela boca. Sem dizer nenhuma palavra, deixei o computador de lado e arrastei o corpo, ficando, finalmente, sentada da maneira correta, com espaço vago ao lado. Automaticamente, ajeitei as almofadas, enquanto ele retirava o jaleco e o deixava sobre a mesa de centro.

— Você está cheirando a cachorro molhado — comentei quando o aroma peculiar preencheu minhas narinas.
sorriu pelo canto dos lábios, tímido, e ocupou o lugar vago no sofá.

— Passei na clínica antes de vir. Não tive tempo de tomar um banho.

Sky, que até então tinha desaparecido, resolveu dar a graça da sua presença. Sua cauda balançava conforme se aproximava e rapidamente pulou no colo de , não perdendo tempo em começar a cheirar os odores característicos nas mãos e roupas do homem. Inspecionava cada pedacinho como um cão da polícia farejando por drogas.
Não segurei o riso quando o bichano fez a famosa careta de nojo que somente os gatos conseguiam fazer.

— O Sky concorda comigo. — Coloquei a mão na frente da boca para evitar que a risada saísse alta demais.
— Desde quando você e o meu gato estão tramando contra mim? — Ele fez beicinho na direção do felino, que em resposta aproximou o focinho do rosto, farejando minuciosamente.
— Não estamos tramando nada, só não gostamos do cheiro de cachorro. — Estendi a mão e distribuí carinho atrás da orelha de Sky.

O bichano ronronou e, em seguida, acomodou o pequeno corpo no espaço entre nós. Aconchegou-se em cima da almofada macia e felpuda. Não perdi a oportunidade de coçar delicadamente embaixo do pescoço peludo, o ronronar alto tendo o poder de acalmar qualquer clima tenso que existia na sala.

— Sky é um ótimo companheiro para leituras — comentei inocentemente.

Mordi a língua assim que notei ter falado alto demais.

— Gatos são os melhores companheiros para leitores. — Para a minha surpresa, a afirmação veio sem qualquer resquício de sarcasmo ou ironia.

Acompanhei quando esfregou as mãos no rosto e jogou o corpo para trás, afundando contra o encosto. Os olhos se fecharam e notei que travava uma luta interna consigo mesmo. E, quando o suspiro de cansaço escapou por entre seus lábios, tudo o que mais quis fazer é ajudá-lo na batalha que nem mesmo sabia quem era o inimigo.
Eu só queria arrancá-lo daquele tormento.

, me desculpa por tudo o que eu disse... — O sussurro baixo foi quase inaudível. — Livros de romance não são estúpidos. — Suas palavras pareciam retirar um peso enorme dos ombros.

Por um momento, fiquei sem reação. As palavras retumbaram dentro da minha mente e me senti como uma retardada por não entender o simples significado daquelas palavras. E tudo que fui capaz de fazer foi olhar para as próprias mãos, não contendo o pequeno sorriso que curvou nos lábios. Um calor aconchegante se apossou do meu peito e a onda orgulhosa me dominou, sendo impossível de evitar.
Nunca imaginei que um dia estaria viva para presenciar o arrogante e imponente se desculpando por alguma idiotice que saísse da sua boca. Na verdade, depois de todas as nossas desavenças, achei que ele nem fosse capaz de fazer isso.

— Aceito as suas desculpas. — Em um impulso, toquei sua mão.

Rapidamente tentei recuar, mas foi mais rápido e a capturou antes que tivesse tempo de me afastar. Ele ajeitou a postura até que estivesse sentado e entrelaçou nossos dedos, o pequeno gesto me causou um arrepio na espinha. O toque das nossas peles disparou a onda eletrizante por cada célula do meu corpo e fui consumida aos poucos. Era como estar diante do encaixe perfeito, a perfeição criada pelos deuses.
Ergui os olhos até encontrar os poços azuis, por onde pequenas fagulhas dançavam ao redor das pupilas. Fui hipnotizada pelo calor, a sua força, e foi como entrar em combustão, sentindo que pela primeira vez uma parte perdida da minha alma estava finalmente se encontrando. A sensação era de ser abraçada por uma áurea mágica até meu corpo se fundir ao dele e tudo ao redor se transformar em uma atmosfera paralela onde apenas nós existíssemos e o mundo se tornava colorido outra vez.
A escuridão se tornou apenas um borrão na vasta obra-prima.

— Por que gosta tanto de ler? — A pergunta veio com curiosidade.

O polegar deslizou contra a minha mão em um carinho terno e o calor abrangeu todo o meu ser.

— Os livros me fazem sair da órbita, sabe? Com eles, consigo fugir do mundo real. — Olhei para nossos dedos entrelaçados.
— Isso é impressionante, mas… A realidade é tão cruel assim para querer fugir? — ele inclinou a cabeça.

De repente, o arco-íris se desfez e o peso daquela pergunta me atingiu com força, mesmo que não tivesse sido a sua intenção. Ainda havia muitas lacunas sobre o meu passado que ele não conhecia.

… — Soltei o encaixe das nossas mãos e, por um instante, nada pareceu fazer sentido. — O Noah sempre mostrou ter uma boa vida. Era apaixonado por esta casa, pelo trabalho… — Olhei ao redor, querendo gravar cada detalhe da decoração na memória. — Ele acreditava nas pessoas. — Proferi e umedeci os lábios secos com a língua. — Só que o mundo é cruel e, por isso, gosto de fugir. Desligar por um tempo e fingir que os problemas não existem.

Por um breve momento, refleti sobre a confissão. Meu cérebro foi nocauteado pelas lembranças de todas as vezes em que meu irmão enfrentou as dificuldades sozinho. Ele, mesmo cansado, ainda persistia, somente para que eu não fosse afetada pelo mundo.

— O que aconteceu com você? — disparou.

A parede da memória se dissipou e sorri com o canto dos lábios. Noah sempre seria o meu maior exemplo de superação e nada tiraria esse título dele.
Puxei o ar com força e encarei o rosto de .

— Escolheu mesmo medicina veterinária, por que queria ficar longe das pessoas? — redargui.
— Escolhi porque lidar com animais é melhor do que com pessoas. — A resposta veio com naturalidade. — Quando estou na clínica e olho para os filhotes, os cachorros e gatos doentes, abandonados à própria sorte… Vejo que eles não esperam nada de mim, além de cuidado e compaixão. — Acariciou o lombo de Sky e sorriu quando o felino ronronou. — Os animais só querem ser amados. Eles não vão te machucar ou... Te obrigar a levantar e encarar uma multidão porque é isso que esperam de você... Porque precisam extrair cada pedacinho da sua força até não sobrar mais nada... — Suas palavras soaram tão profundas que notei estar se referindo a um episódio do passado.
— Dê o seu coração a um cachorro, e ele lhe dará o dele — recitei.
— Agora dê a um humano e veja o estrago que ele faz — disse, deprimente.

Mordi o lábio inferior, enquanto brincava com os próprios dedos.

— É por isso que acha que não consegue cuidar da Mia? Por que o seu coração está tão machucado que não pode ser lapidado?
— E o seu não está? — disparou e fui pega de surpresa.

Virei a cabeça em sua direção e estudei os traços dele com atenção. Notei que a pele estava levemente vermelha na região do nariz e as pálpebras inchadas, apesar de se esconderem atrás dos cílios longos. Era incrível como conseguia disfarçar perfeitamente as emoções, sendo preciso um olhar bastante analítico para notar os sinais das lágrimas recém-derramadas.

… Eu acho que somos duas almas condenadas a viver a mesma dor. Vagando pela superfície em busca de algo que nos faça voltar a ver o mundo colorido outra vez.

Ele anuiu, jogando o corpo novamente contra o estofado, ficando deitado com a barriga para cima. As mãos desgrenharam os fios loiros escuros.

— Eu a visitei hoje… — disparou e a revelação me atraiu.

Engatinhei pelo sofá, ficando com o corpo na mesma posição que o dele. Tive o cuidado para não incomodar a vossa majestade peluda que ainda dormia sobre a almofada. Olhei para o teto, esperando que continuasse.

— A última vez que fui ao túmulo deles foi no dia do enterro. E pensei que ir até lá pudesse encontrar as respostas que tanto procurava.
— E as encontrou?

girou o corpo até que estivesse deitado de lado com as mãos embaixo da cabeça.

— A Lily não apareceu de forma divina, me deu um tapa e depois disse o que eu tinha de fazer, se é isso que quer saber. — Sorriu divertido.
— Se ela tivesse feito isso, acredito que o Noah faria o mesmo comigo. — Virei o rosto e não contive o riso.

O som da nossa risada quebrou a tensão que nos rodeava. Acompanhamos quando Sky se espreguiçou. As delicadas patas começaram a amassar o tecido da almofada. Um mini padeiro peludo com uma gigantesca encomenda de croissants, faltava apenas o chapéu de cozinheiro.

— Talvez eu tenha finalmente entendido o porquê de eles nos escolherem para cuidar da Mia. — Ainda olhava para o felino quando ele murmurou.
— Por que somos os únicos parentes vivos, mais jovens, que poderiam assumir a guarda? — arrisquei-me a perguntar.

Fez uma careta engraçada e deitou-se com a barriga para cima novamente.

— É um ótimo palpite, mas não acho que seja por isso. O juiz poderia eleger os meus pais como tutores legais mesmo com a idade avançada. São os avós dela. — Pegou o controle da televisão e começou a analisar as bordas em uma forma de distração.

Neguei com a cabeça e massageei a testa.

Por que não deixamos...? — Virei a cabeça para encará-lo. — Seus pais seriam os guardiões perfeitos.

Não deixamos porque era o último pedido deles — relembrou.

Franzi o cenho.

— Então, qual o motivo que os levou a nos colocar juntos?
— Você disse que somos duas almas feridas em busca de um objetivo para viver. E a Mia é o nosso objetivo — explicou, como se fosse óbvio.

A confusão deveria estar evidente no meu rosto, já que o vi apertar a ponte do nariz, enquanto parecia vasculhar a mente em busca da melhor maneira de explicar a sua teoria.

— Seja mais claro sobre isso — pedi, com a voz baixa. A ruga queimou em minha testa em um sinal de concentração.

Ele soltou o ar pela boca, umedecendo os lábios com a língua.

— A Lily e o Noah eram as únicas pessoas que nos conheciam de verdade. Eles não eram apenas nossos irmãos, eram nossos melhores amigos, os únicos que sabiam sobre nossas falhas e segredos. — Girou o controle nas mãos, igual a um brinquedo antiestresse. — Quando escreveram aquela carta, sabiam que a perda deles resultaria no imenso vazio em nossos corações. Então, nos deixaram um motivo para viver. Uma missão.

Fiz um beicinho e ergui a mão automaticamente.

— Então... A Mia é a nossa oportunidade de curar o vazio que eles deixaram e assim conseguir ver o mundo colorido outra vez? — gesticulei, como se ligasse os pontos imaginários.
— Eles não nos escolheram porque somos os mais maduros ou os mais capazes. — Se fosse por isso, os avós maternos seriam a melhor opção.
— Está me dizendo que deixaram a filha nas nossas mãos porque sabiam que ela seria a solução para as nossas feridas e, no processo, nos tornaremos a família que ela tanto merece? — Crispei os lábios, ainda receosa sobre aquele raciocínio.
— A Mia é a junção perfeita da Lily e do Noah. Ela é tudo o que precisamos para nos curar.

O silêncio perdurou por alguns segundos, sendo quebrado apenas pelo miado furioso de Sky. , ainda deitado, cutucava a barriga do felino e era atacado pelas unhas afiadas que agarraram em seu braço, as patas traseiras chutando o antebraço com toda a força. Sorri, não conseguindo desviar os olhos daquela cena icônica. Notei o quanto eles se divertiam, apesar do bichano estar deixando diversos arranhões na pele clara do homem.
Enquanto os dois se entendiam entre unhas e caretas, aproveitei o tempo para compreender melhor sobre a teoria de . Era estranho pensar que não fomos escolhidos por nossas qualidades, mas sim pelas falhas. E, apesar de achar que o veterinário enlouqueceu de vez, no fundo, tinha de concordar com ele. O luto era como uma ferida aberta que se recusava a cicatrizar, e ter aquela bebê ao nosso lado nos forçava a olhar para o futuro.
Tínhamos um motivo para viver e não deveríamos desperdiçar essa chance presos na escuridão do passado.
Arregalei os olhos e o pequeno susto acelerou meu coração. Sky pulou sobre minhas pernas e correu para fora da sala. E, pelo peso dos seus passos, a urgência em desaparecer, estava completamente ofendido por ter sido perturbado.

, somos a âncora um do outro e não podemos deixar o conselho tutelar tirar a pequena de nós — , enfim, pronunciou. — Precisamos lutar juntos. E não podemos agir como dois narcisistas, egoístas. — Ao final da frase, imitou a voz irritante de Charlotte com perfeição.

Pressionei os lábios, impedindo que o riso saísse, sendo impossível de evitar quando fingiu ser a assistente social e isso só aumentou cada vez mais minha vontade de rir. Naquele instante, percebi que finalmente estávamos tendo uma conversa civilizada e tinha de admitir o quanto me divertia com suas zombarias.
Quando paramos de rir, foi como se a realidade estapeasse nossos rostos.

— Como posso ser o pai perfeito para a Mia? — ele murmurou para si mesmo.

encarou o teto, o olhar perdido e os dedos batucando em ritmo nervoso sobre o peito duro. A cobrança transpassava pelas íris azuladas de forma tão intensa que conseguia sentir de onde estava. Desviei o olhar e mordi o lábio inferior. Minha cabeça girou para encontrar a televisão com a imagem do filme romântico congelada. E, de repente, foi como estar em um desenho animado e uma lâmpada acendesse no alto da minha cabeça.
A possível solução para aquela cobrança estava bem ali.

— Acho que sei como te ajudar. — Minha voz ecoou pela quietude da sala.

Agarrei o controle remoto e deixei que meus dedos apertassem os botões como se minha vida dependesse disso. Vasculhei entre as diversas opções, tudo sob o olhar minucioso de . Abri a aba de conexões por via USB e a imagem do pequeno pen drive confirmou minha intuição. Esperei enquanto o televisor reconhecia o dispositivo, antes de exibir as diversas pastas com filmagens e fotografias de nossos irmãos com a filha.

— Há alguns dias, sem querer, encontrei esse pen drive conectado na TV. — revelei, buscando entre os diversos arquivos de vídeo. — Eles provavelmente esqueceram ali. E, como a boa curiosa que habita em mim, acabei olhando algumas filmagens.

Olhei para ele e deixei que um sorriso tímido, sem os dentes, curvasse meus lábios. se ajeitou no sofá, ficando sentado ao meu lado. Seu corpo parecia tenso, notei que os olhos tinham um brilho de curiosidade dançando ao redor das pupilas.

— Como acha que isso vai me ajudar? — Inclinou a cabeça e crispou as sobrancelhas em dúvida.
— Bom... Eu e o Noah não fomos criados em uma família convencional. Nossos pais morreram em um acidente de carro quando eu tinha 7 anos e ele 17. — A voz embargou, revivendo as lembranças do dia do acidente.

Fechei os olhos por alguns segundos e afastei qualquer pensamento antes que fosse consumida. Respirei fundo, sentindo a dor angustiante por pensar que meu irmão se foi do mesmo jeito que nossos pais. Abri os olhos e selecionei a primeira filmagem com o título: “Boas-vindas ao Bebê". A tela acendeu e meu coração deu um solavanco assim que a câmera capturou Noah segurando Mia, recém-nascida, tão pequena e delicada que até parecia uma boneca.

Eu estou fazendo certo? — meu irmão perguntou. A voz grossa, ansiosa e cheia de medos.

Ele tentava balançar os braços com cuidado, a expressão de pânico que consumiu sua face quando Mia mexeu os braços minúsculos, foi cômica. Sorri com a cena, era impressionante como sentia tanto a falta dele, de olhar para seu rosto, admirar os cabelos castanhos e olhos verdes que herdou da nossa mãe. Brevemente, o porte físico era bastante parecido com o de .

Relaxa mais os braços, amor. Ela não é de vidro — Lily disse suave, revelando quem se encarregava da filmagem.

A câmera se aproximou e, em seguida, o ângulo virou, filmando o momento em que ela depositou um beijo molhado na bochecha dele, e ambos olharam para a neném que remexia os braços e tinha os olhos curiosos, analisando cada canto do quarto.

Você será um ótimo, pai — ela sussurrou, o amor presente em cada palavra.

Uniram suas testas, roçando os narizes em um carinho terno, e sorriram um para o outro antes do vídeo terminar.
Encarei a tela escura, o silêncio profundo preenchendo a sala. A saudade era como uma doença que me corroía, obrigando-me a apertar os dedos até que os nós ficássemos brancos. Pressionei os lábios para segurar o choro que ficou enroscado na garganta, as lágrimas insistiam em acumular no canto dos olhos.

— Ele cuidou de mim... E não teve nem tempo de viver o luto, algo que não entendia na época... — Olhei para o chão e esfreguei o rosto com o dorso das mãos, capturando as gotas teimosas que escaparam.

Passei para o próximo vídeo e um sorriso frágil tremeu em meus lábios, quando a cena apareceu. Era possível escutar a risada baixa e delicada de Lily, enquanto caminhava pela sala e focava a câmera em Noah. Ele dormia no sofá-cama da sala e tinha Mia adormecida no peito. A representação perfeita para ilustrar o pai dedicado que se tornou,

— O Noah sofreu muito para ficar com a minha guarda. Fomos transferidos para um orfanato e ele lutou contra o sistema para que não fôssemos adotados separados. Mas nenhum dos casais que nos visitavam queria adotar uma criança junto com um adolescente. — Lembrava vagamente daquele lar temporário. — No ano seguinte, ele completou a maioridade e assumiu a minha guarda. — Funguei, cada músculo do meu corpo contraindo de saudade dele. — As pessoas diziam que ele não levava jeito; que um jovem desempregado não conseguia criar uma criança. — Puxei o ar com força, antes de prosseguir: — E então, conheceu a Lily. Conseguiu um emprego, cursou a faculdade e nunca me deixou sozinha. E uma coisa nele que sempre admirei é que tomava muito cuidado para que eu não soubesse das dificuldades e das humilhações que sofria no mundo afora.

O calor que aqueceu meu joelho me tirou a atenção do televisor. Virei o rosto e encontrei com a mão sobre a minha perna. Ele me encarava com ternura e fascínio, enquanto ouvia a história em completo silêncio, a postura mais relaxada. Parecia absorver cada palavra, processando todos os detalhes, e talvez, finalmente entendendo que a perfeição não existe.
Apertei o play no controle e um novo arquivo se iniciou – o mais importante. Desta vez, era Noah que cuidava da câmera. A imagem subiu do chão para uma Lily completamente irritada e cansada, sentada na poltrona no quarto da filha. As olheiras escuras sob os olhos denunciavam as noites mal dormidas, mas a voz doce cantarolava uma música infantil para a pequena em seu colo.

Amor, dê um sorriso. Fica tão linda quando está sorrindo — ele disse gentil e isso irritou Lily.

Ela se levantou, colocou a bebê no berço e se virou para o marido. O baque da sua mão contra a lente tornou tudo escuro, mas ainda conseguíamos ouvir a discussão de forma clara e real.

Não vem com essa de sorriso lindo, Noah! — ditou e seus passos ecoaram pelo corredor.

Ele manteve a filmadora abaixada, filmando o chão.

Não fica assim, meu amor — pediu, o arrependimento presente em sua voz.
Você sabia que eu estava cansada! Passei o dia inteiro trabalhando e só queria dormir um pouco. Era a sua vez de cuidar dela! — gritou e desceram as escadas.
Amor... Me perdoe, prometo que da próxima vez que ela chorar à noite, irei levantar. — E só então notei a falta de iluminação da casa; provavelmente era madrugada.
Como você quer que tenhamos uma vida de casados, se não quer me ajudar com as tarefas dessa casa? — A discussão ficou acalorada e a câmera foi desligada.

Desconectei o pen drive e mudei para um canal aberto antes que o próximo vídeo começasse.

— Ele não era perfeito. — Levantei o olhar para encarar o veterinário. — O que quero que entenda é que o Noah tinha todos os motivos para desistir. Ser um homem amargo e não acreditar mais nas pessoas, mas ele escolheu encontrar forças para perdoar e seguir em frente, buscando sempre ser melhor.
— Sinto muito, finalmente falou, apertando levemente a minha patela. — Não sabia que tinha perdido os seus pais tão cedo. A Lily nunca me disse nada.
— Não é um assunto de que gostávamos de falar. — Isso era algo que eu e meu irmão tínhamos em comum, esconder nossas dores e sentimentos das pessoas.

suspirou, olhando ao redor da sala.

— Você acha que conseguimos… Cuidar da Mia? — Mudou de assunto, sua voz quase hesitante.
— Nunca seremos eles. — Aproximei-me e toquei seu ombro. — Não podemos substituí-los. E acho que está na hora de pararmos de pensar que eles vão voltar — reprisei sua fala e nossos olhos se encontraram no mesmo instante.

Havia uma faísca de reconhecimento entre nós, um entendimento silencioso que ia além de qualquer palavra. Era como se finalmente assumíssemos que estávamos presos no mesmo barco, à deriva de um mar revolto que faria de tudo para nos fazer naufragar.
Pousei a cabeça sobre o seu ombro e senti quando ele se inclinou, deixando o queixo sobre meus cabelos. Nós nunca seríamos perfeitos, mas éramos tudo o que a Mia tinha. Naquele momento, as duas almas perdidas estavam se reconhecendo, um entendimento mútuo e puro. A tempestade ao redor diminuiu gradativamente e abriu caminho para a faísca que nos aquecia cada vez mais.

— Vamos prometer uma coisa, ? — disparei, sem reconhecer minha própria voz.
— Tenho medo de quando me pedem isso. — Ele riu e não me contive em fazer o mesmo.
— Quero que me prometa que iremos parar de nos cobrar tanto. — Envolvi sua mão com a minha e acariciei a palma com o polegar. — Eu nunca serei como a Lily. Ela era uma mãe maravilhosa, admirável. — Mordi o lábio inferior. — Mas lembro de tudo o que o Noah me ensinou, e se eu puder passar metade dos ensinamentos dele para a Mia... Será a minha maior realização.

Ergui os olhos e endireitei o corpo até que estivesse de frente para ele, sem soltar sua mão. O sorriso que se curvou em sua boca foi encantador, capaz de roubar toda a minha compostura. E céus... Como eu queria experimentar o gosto daqueles lábios.

— Eu prometo, — confidenciou e entrelaçou nossos dedos. — E se eu puder passar para a Mia tudo o que os meus pais me ensinaram, sei que um pedaço da Lily sempre estará com ela.

Nossos olhos não eram capazes de se desgrudar e foi o exato momento em que proclamamos a união de dois inimigos destinados a viver sob o mesmo teto para sempre. O arrepio dominou cada partícula do meu corpo, engoli em seco, sentindo que daquela vez tudo daria certo. Porque não importa o quanto escrevêssemos por linhas tortas, juntos daríamos um jeito de encontrar o caminho certo.

— E-eu sinto tanto a falta deles... — murmurei com o coração apertado.

Meu lábio inferior tremeu e tudo o que consegui fazer foi buscar refúgio nos braços de . Eu não queria mais chorar, por mais que admitir a saudade em voz alta fosse mais difícil do que pensava. Ele me envolveu, acolheu meu corpo pequeno, erguendo uma muralha ao meu redor. Quente, reconfortante e protetor.

— Eu também sinto... — confessou contra meus cabelos.
— Será que um dia essa dor vai passar? — Apoiei as mãos em seu peitoral duro, a cabeça repousada ali.
— Nunca irá passar, . Só iremos aprender a conviver com ela. — Ele afagou os fios escuros em um carinho terno. — Conhece o mito grego da caixa de Pandora?
— Eu sou escritora, . É claro que conheço. — Sorri tímida.
— Então sabe que existe uma dentro de cada um de nós. É onde iremos guardar essa dor pelo resto de nossas vidas. — Escutei o tom suave da sua voz como uma melodia. — Sabe, tentei manter essa caixa fechada tantas vezes nos últimos dias que, quando ela finalmente abriu, achei que não fosse suportar.

Ergui o olhar para encará-lo e ele evitou o contato visual.

— Por isso fui até o túmulo deles. Depois do que ouvi da Charlotte e da nossa briga, fiquei completamente perdido. Não sabia mais o que fazer. — A mandíbula afrouxou, era realmente difícil ele se abrir daquele jeito. — Eu chorei feito uma criança que caiu da bicicleta. Mas isso me fez ver que eu precisava deixá-la ir, porque quanto mais a segurasse, mais demoraria para alcançar a paz no meu coração. — direcionou os olhos gentis para o meu rosto e notei quando encarou meus lábios por um breve momento.

Engoli em seco, temendo que percebesse que fazia o mesmo.

— Você disse que foi em busca de respostas, mas não me disse como as encontrou. — Desviei os olhos para as próprias mãos, era mais seguro.
— Quando estava no fundo do poço, uma pessoa apareceu e me puxou de volta para a superfície.

Ele se aproximou. O perfume amadeirado inconfundível mexia com os meus sentidos.

— Quem apareceu? — quis saber com uma pontada de curiosidade.
— Você.

E naquele momento, descobri como uma palavra curta, simples e tão inocente conseguia desestabilizar até o ser mais controlado do universo. Minha garganta secou. Imediatamente levei os olhos para os dele, encontrando um brilho de gratidão e satisfação, ao mesmo tempo em que vi um misto de alívio e insegurança. Abri e fechei a boca com a intenção de dizer alguma coisa, mas era como se todas as palavras tivessem sido roubadas pelo ladrão mais experiente do mundo.

— Você apareceu e entendi que era hora de deixar a minha irmã ir, porque outra pessoa precisava de mim. — Foi a revelação mais chocante que alguém poderia ter feito.

E o mais surpreendente era ver aquelas palavras saindo da maldita boca do homem que estava me enlouquecendo apenas por estar perto demais.

, eu... — Não sabia o que dizer. Meu cérebro entrou em combustão e queimou o vasto vocabulário.

Um sorriso lento e enigmático curvou-se no rosto dele e os olhos faiscaram por algo que não soube identificar. Ele se inclinou, diminuindo a pequena distância entre nós e o aroma de cedro e pimenta se tornou uma arma perigosa. O hálito quente bateu contra meu rosto e suas palavras foram sussurradas contra minha orelha, causando o arrepio por todo o corpo.

— Acontece que essa pessoa é uma escritora que odeia lidar com o mundo real e acha que vamos sobreviver sem nos matar antes — zombou e gargalhou em seguida. — Diga, coelhinha. Algum dos seus livros românticos conta como dois inimigos podem se juntar para cuidar de uma criança? — Afastou-se e me encarou em busca de uma resposta.

Arqueei a sobrancelha e neguei com a cabeça, surpresa pela completa mudança de humor tão repentina.

— Não. Nenhum deles.
— Considere como tema do seu próximo livro. — Ele uniu os dedos e deu um peteleco na minha testa. — E não esqueça de adicionar um veterinário gostoso como o protagonista.
— Espere deitado em uma cama muito macia, veterinário. — retruquei. — Porque o inferno terá de congelar primeiro, para que eu escreva um personagem inspirado em você. — Ele não precisava saber que as chamas do submundo estavam congeladas há muito tempo.
— Teria muitas leitoras suspirando por ele. Pense como um investimento. — Deu uma piscadela e rolei os olhos.

E, com a alfinetada ardendo na ponta da língua, fui interrompida pelo som alto e prolongado da minha barriga roncando feito um terremoto. O barulho constrangedor fez minhas bochechas corarem.

— Estou morrendo de fome. Será que ainda dá tempo de pedir burritos? — Vasculhei o sofá em busca do celular.

Joguei as almofadas, igual a uma desesperada em busca do aparelho que parecia ter sido engolido pelo estofado.

— Com toda certeza que não, já devem ter fechado. — se levantou. — Vamos, senhorita escritora. Precisamos alimentar essa sua alma ferida antes que entre em colapso de fome. — Estendeu a mão em minha direção.
— Você vai cozinhar? — Arqueei a sobrancelha em desconfiança.
— Vou, aprendi a fazer uma pizza de liquidificador muito prática.
— E qual o veneno escolhido para a ocasião? — Estreitei os olhos e acompanhei quando ele alargou um sorriso travesso.

Os olhos azuis se acenderam com uma malícia divertida. Ele esfregou as mãos, parecendo um mafioso prestes a colocar seu plano mais maligno em ação.

— Se não levantar daí agora, vou colocar muito bacon e você será obrigada a comer.

Arregalei os olhos e estremeci, já imaginando o quanto a gordura do bacon abraçaria todos os outros ingredientes em um campo oleoso de batalha. Meu coração sofreu um pequeno infarto só de pensar na massa ensopada e brilhante de tanta gordura. Por isso, em segundos, minhas pernas me obrigaram a sair do sofá e correr para a cozinha, como se a minha vida dependesse disso — e dependia.
O riso dele me seguiu, um som que, por mais estranho que fosse, parecia fazer parte do lugar há anos. Comecei a gargalhar quando abriu a geladeira e comemorou por encontrar uma embalagem fechada de bacon que Greta havia comprado naquela semana. Eu o amaldiçoei se ousasse colocar aquilo na pizza e juntos, fizemos o caos se instaurar naquela cozinha.
Eu sabia que nunca seria como a Lily, e nem ele como o Noah, mas pela primeira vez senti que mesmo assim estava tudo bem. Porque, em meio ao caos de nossas almas quebradas, encontraríamos uma nova definição de lar. Não era perfeita, mas real. E isso é tudo o que precisávamos para conseguir seguir em frente.






Inspirei devagar. O ar entrou pelos pulmões profundamente de maneira tão sutil que há muito tempo não sentia. Deixei a boca curvar-se em um sorriso pequeno, enquanto lutava para abrir os olhos que se incomodaram com a breve luz do sol que entrava pela janela da sala. Instintivamente, o rosto esfregou contra a almofada macia e só então percebi estar abraçado com o quadrado felpudo.
Espreguicei-me. Sem querer, a mão esbarrou contra a estrutura quente e rechonchuda. As pequenas unhas arranharam levemente a pele, o ronronar chegando aos meus ouvidos. Virei a cabeça apenas para confirmar que Sky estava ali, a barriga escura virada para cima e as patas esticadas em total conforto. Ele dormia no canto do sofá, como era de costume, todas as noites.
Acariciei a barriga redonda. Ri assim que as patas peludas agarraram meu braço e cravaram os dentes na região do pulso, causando apenas uma pressão pequena, já que nunca usava força o suficiente para machucar. Continuei com a perturbação até que realmente fosse mordido e tivesse que intervir antes que virasse um petisco de salmão. Puxei o felino e o abracei como se fosse um bichinho de pelúcia, arrancando o grunhido do fundo da sua garganta.
Como veterinário, sabia que os gatos não eram tão adeptos de contato físico igual aos cães, mas desde que resgatei Sky, tudo mudou. Esperei pacientemente até que a infecção cedesse, cuidei de cada machucado e, no final, o adotei porque o laço entre nós se tornou forte demais para deixá-lo ir. Então, sempre que o apertava nos braços, ele grunhia de puro charme.
O bichano pulou do enlaço, passando a amassar o tecido das almofadas. Resvalei o dedo sobre a cabeça minúscula, desviando sempre que tentava me morder. Sorri de modo tão espontâneo que senti cada célula do meu corpo mais leve. Tinha acabado de acordar de um dos sonos mais revigorantes da vida.
A angústia e o peso que dominavam meu espírito abriram caminho para a leveza e o sentimento de propósito. E era incrível pensar que tudo mudou depois de uma noite desastrosa que terminou com sorvete e pizza de liquidificador. Ainda lembrava da pequena coelhinha insistindo que deveríamos colocar brócolis no recheio em vez de bacon. Um insulto ao meu paladar.
E, pela primeira vez, fomos maduros o suficiente para lidar com o problema. Tiramos no cara ou coroa, quem ganhasse escolhia os ingredientes. Mas quando jogamos a moeda, ameaçou arrancar minhas bolas quando o rosto do homem caiu para cima. Isso causou uma discussão breve, onde corri o risco de ser castrado e nocauteado por uma panela. No fim, decidimos fazer dois sabores e tínhamos uma massa de metade, frango com bacon e mussarela com brócolis.
Agora, o cheiro do café sendo preparado e das panquecas no fogo tornavam o ambiente aconchegante igual a um lar. E querer estar ali não soava mais como uma obrigação, e sim, como um privilégio. A sorte pairava sobre mim, sentia as energias carregadas, pronto para explorar a casa sem medo e inseguranças, me detendo.
Aquelas paredes se tornaram o abrigo da minha alma.
Levantei-me e subi para o banheiro principal. Arrumai os cabelos desgrenhados em frente ao espelho assim que terminei de escovar os dentes. Minha mente ainda vagava pelas lembranças da noite anterior, ouvindo rindo, o corpo pequeno sentado no balcão da cozinha. Balançava as pernas freneticamente, a colher cheia de sorvete – a nossa sobremesa.
Apoiei as mãos na pia e o sorriso que curvei nos lábios foi tão largo que me sentia como um adolescente na flor da idade. Meu coração acelerava só de pensar no momento em que ela roubou o pote de sorvete de baunilha das minhas mãos e correu ao redor da ilha da cozinha. A segurei com os braços, suas costas bateram contra meu tronco e a risada estridente que soltou foi o som mais maravilhoso que já tinha ouvido.

— Eu preciso disso, estou na TPM! — ela justificou e jogou a cabeça para trás, apoiada sobre meu ombro.
— Você ameaçou me castrar por causa do bacon. Agora vai se entupir com açúcar sozinha e não quer nem dividir comigo? — Puxei o pote, mas ela foi mais rápida.

me acertou com a colher cheia e se soltou. Entreabri os lábios, surpreso com sua atitude, mesmo possuído pela gargalhada estridente.

— Essa é a sua parte do sorvete. — Riu.

Ela deixou o pote no balcão e abocanhou mais uma porção generosa.

— Isso foi muito infantil, coelhinha! — Tentei soar bravo.

Rapidamente enfiei a mão na massa gelada e mostrei o melhor sorriso travesso em sua direção.

— Não ouse, . — Apontou a colher como uma arma.
— Vou ser bonzinho e darei dois segundos de vantagem. — Comecei a contagem e ela correu para o outro lado da cozinha.

Logo a alcancei e pressionei a mão cuidadosamente no seu nariz e boca. A delinquente lambeu os lábios, atraindo minha atenção, e me senti um felino faminto. Não conseguia desviar os olhos dos movimentos, sendo tempo o suficiente para ela revidar. Capturou o resto do sorvete em minha palma e, sem hesitar, esfregou no meu rosto e barba.
Ela caiu na gargalhada. Em poucos minutos, a cozinha se tornou uma guerra de sorvete de baunilha, misturado com risos e xingamentos. Naquele momento, deixamos nossas máscaras caírem por terra e fomos nós mesmos depois de tanto tempo. E quando finalmente terminamos o duelo, tivemos de nos unir para limpar tudo, caso contrário, Greta nos pegaria pela orelha e exigiria que cada canto ficasse brilhando.
E agora, encarava o reflexo no espelho, sentindo-me o desgraçado mais sortudo do mundo por finalmente ter encontrado o meu lugar. Durante muito tempo, pensei que não conseguiria viver o luto pela minha irmã, mas agora que finalmente a deixei ir, era como viver o que ela mais queria de mim.
Recomeço.
Minha vida tinha sofrido um reset, e construiria uma vida sem a Lily, mas com as memórias dela sempre me acompanhando pelo caminho.
O caminho até a cozinha foi como mergulhar nos primeiros passos da minha jornada. O clima ameno me envolvia com sutileza. Fiquei parado com o ombro encostado contra o batente, sendo acolhido pela cena da pequena sentada na cadeirinha de alimentação, o rosto todo sujo de frutas. Greta revezava entre ajeitar a mesa e ajudá-la com a colher, o sorriso caloroso estampado no rosto.
Observei Mia por alguns minutos, não deixando de notar os traços finos e delicados como os da mãe. A forma como os pequenos dedos tentavam segurar o talher era idêntica ao jeito da minha irmã. A risada gostosa e tão primorosa; os olhos de um azul cristalino; a boca pequena e fina, dona de um sorriso encantador. Todos os detalhes me remetiam a lembranças que guardaria para sempre em um cantinho especial no meu coração.

— Garoto, nem ouse dizer “bom dia” — Greta proclamou, sem nem me dirigir o olhar. — Eu não sei o que aconteceu aqui ontem, mas por culpa de vocês, vou ter que comprar muitos venenos para formiga.
Apertei os lábios, segurando o riso assim que vi a seringa amarela em cima do balcão com uma foto gigantesca do inseto no rótulo. Acho que nossa tentativa de limpeza acabou atraindo novas moradoras para a casa.

— Irei me encarregar disso, Greta. — Passei a mão na nuca.
— O que aconteceu aqui? — Finalmente se virou para me encarar, os braços abertos em indignação.

Estava prestes a responder quando estendeu a mão aberta em minha direção em sinal de “pare”. Por um instante, agradeci por ela não possuir autorização para portar uma arma, senão, eu seria um alvo fácil.

— Quer saber, ? Eu não quero mesmo saber. — Balançou a palma em desdém.

Os cantos da minha boca se curvaram em um sorriso torto, antes de ser atraído pelo barulho de passos apressados na escada. apontou no corredor e correu pelos degraus, pulando de dois em dois como se competisse em uma maratona. Ela rapidamente me alcançou e acompanhei quando seus olhos se arregalaram.
Os próximos segundos ficaram em câmera lenta.
Sua perna vacilou. O pé traiçoeiro escorregou no azulejo liso e tive de acionar todos os reflexos para conseguir agarrar a cintura fina, antes que encontrasse o chão. Teria sido uma queda grotesca e hilária. Mas por que ela estava correndo feito uma maluca?
Agarrou o meu braço com força e, em seguida, seus glóbulos castanhos encontraram os meus. Franzi o cenho ao encontrar uma atmosfera anuviada ao redor das pupilas dilatadas, quase transformando as íris claras em um tom escuro. O rosto pálido, os lábios levemente trêmulos e a respiração acelerada.

— Como vou manter essa família viva, com você querendo se matar desse jeito? — provoquei e deixei que usasse meu corpo de apoio para levantar.

mostrou a língua e empurrou meu ombro, entrando na cozinha como se nada tivesse acontecido — atitude bastante madura.

— Tem uma aranha do tamanho dessa casa no meu quarto — exclamou, enquanto arrumava os cabelos bagunçados.
— Se uma aranha fosse do tamanho dessa casa, ela com certeza não passaria pela porta do seu quarto — zombei e cruzei os braços, ficando recostado no batente.

Estreitou os olhos na minha direção. O rosto enrubesceu, finalmente ganhando um pouco de cor.

— Eu sei o que eu vi, . — Cuspiu com fúria.

Soltei uma gargalhada.

— Quer dizer que você quase se matou por causa de uma aranha? — Crispei as sobrancelhas em provocação.
— Eu queria ver como reagiria se um dinossauro invadisse o seu ambiente pessoal! — Ela pegou uma maçã na fruteira em cima do balcão e mordeu com força.
— É só uma aranha, . Não estamos no Jurassic Park. — Cruzei os braços e sorri atrevido.

Mia gargalhou e, sem querer, derrubou a colher no chão ao balançar os braços. Fui imediatamente atraído, não resistindo a tanta fofura. Aproximei-me da cadeirinha de alimentação e depositei um beijo na cabeça dela. Os pequenos dedos agarraram o colar de prata que pulou pela gola da camiseta — um acessório que voltei a usar somente depois da noite passada.

, tira esse negócio da mão dela. A Mia ainda é muito pequena para segurar isso — advertiu.

Cuidadosamente, retirei o pingente em formato de cruz da mãozinha minúscula antes que levasse à boca. A corrente simples e antiga havia sido um presente de Lily. Segundo ela, sempre que o usasse, meu espírito estaria sendo protegido por Deus. Nunca fui uma pessoa religiosa e, quando aconteceu o acidente, tudo que mais queria era desaparecer com aquele objeto.
Mas depois de ontem, soube que não deveria culpar a Deus pelo que aconteceu com minha irmã e por isso o tinha colocado de novo. Além disso, somente de ver o acessório adornando o pescoço sentia uma onda reconfortante me conectar de volta com o antigo .
Escondi a corrente dentro da roupa. Como distração, peguei a colher limpa na gaveta e abaixei o corpo até que ficasse da altura certa para ajudar a pequena a terminar de comer as frutas junto do mingau de cereais.

, onde viu a aranha no seu quarto? Irei fazer uma faxina hoje à tarde, posso tirá-la — Greta questionou, terminando de arrumar a mesa.
— Perto das caixas de livros. — E, em seguida, fez questão de detalhar como era o pequeno inseto.

Grande, cabeluda e cheia de olhos enormes. E um detalhe importante: tinha gosto por carne humana.

— Nossa, era a aranha do Harry Potter? — zombei. — Talvez ela tenha confundido o seu quarto com a Floresta Proibida. — Mordi os lábios e segurei a gargalhada.

semicerrou os olhos e fez um beicinho que a deixou linda demais. Incrível como ficava gostosa mesmo com raiva.

— Eu vou bater nele, Greta. — Apontou o dedo em riste. — E juro que vou usar a panela de pressão elétrica!
— Parem vocês dois! — A senhora massageou as têmporas.
— Greta, a pode ter encontrado uma espécie de aranha falante, podemos ficar ricos. — continuei com a provocação.

E, como esperado, o impacto foi certeiro. lançou a primeira coisa que viu pela frente: a mamadeira de Mia, cheia de água morna. Minha testa latejou e tive que massagear a região, sob a gargalhada da bebê que claramente se divertia com a bagunça.
Greta cobriu a boca com o guardanapo, escondendo o riso.

— É bom saber que finalmente fizeram as pazes — confessou, a voz beirava ao alívio.
— Nunca achei que um dia apanharia com uma mamadeira de plástico. — Fiz uma careta, como aquele pequeno objeto poderia causar tanta dor?
— Deveria ter pensado nisso antes de dizer que o Aragog está morando no meu quarto. — Ela mordeu lentamente a maçã, com aqueles olhos lindos me fuzilando.

Por um momento, esqueci de que estava ajudando a pequena e passei a observar o adorno dos lábios da coelhinha. Carnudos, delicados, com aparência de deliciosos. limpou o canto da boca com o polegar, o pequeno gesto despertando a sensação que achei que nunca sentiria por ela. Minha mente se perdeu na imaginação de serem os meus dedos a tocando, resvalando a pele tão macia, enquanto a prendia contra o balcão da cozinha.

— Sabe, ... Enquanto a tarântula estiver dormindo na minha cama, nada mais justo do que eu fazer uma maratona de filmes românticos — ela provocou.

Só então notei que eu prendia o ar.

— Greta, por favor, cace o bicho — murmurei, enquanto tentava recuperar o fôlego que a coelhinha havia roubado.
— Sabe, enquanto vou em busca da aranha, vocês deveriam pensar em redecorar a casa — a governanta disparou, colocando a tigela com frutas e o pote de geleia de morango sobre a mesa.

O calor subiu pela base do meu pescoço, um sinal que sabia ser perigoso, mas mesmo assim não escutei a razão que foi para o inferno. Sem conseguir evitar, voltei a encarar a coelhinha. E quando cruzou os braços, o movimento, por mais sutil que fosse, se tornou uma cena arrebatadora. Os seios fartos se tornaram evidentes, chamativos, um pecado naquela camisola fina. Engoli em seco, sentindo o nó na garganta, e cerrei o maxilar, me forçando a desviar os olhos para o chão.
Céus! Precisava sufocar essa atração antes que me consumisse por completo...

— Devem deixar do jeito de vocês, afinal, essa casa agora é dos dois. — Greta continuou, sua voz doce e gentil.
— É uma ótima ideia, Greta! — exclamou, a voz tremia de excitação. — Podemos começar pela sala, confesso que aqueles quadros abstratos são assustadores. — Notei o quanto estava se esforçando.

Depositei um beijo na cabeça de Mia. Observei enquanto levava a colher cheia até a boca, sozinha. Meu peito se encheu de orgulho ao ver que ela repetiu o movimento, mesmo que o mingau caísse quase todo para fora do talher. Tão independente, minha pequena.

— Já que não vou conseguir me livrar dessas duas mulheres, acho que deveríamos deixar a casa com a nossa cara — comentei, o fio da consciência voltando lentamente.
— Mas, e o quarto deles? — Ouvi a voz de questionar.

O brilho de insegurança brincava ao redor das pupilas dos olhos castanhos. O medo sibilava pelo seu corpo, querendo a todo custo fazê-la recuar. Ela esfregava os braços em uma tentativa de afastar o frio que nem mesmo existia. O peito subia e descia, a respiração irregular.
O pânico estava brutalmente estampado nela e soube que precisava agir antes que o barco afundasse. Prometemos que seguiríamos em frente, então é isso que vamos fazer.

— Pensei que você poderia sair do quarto de hóspedes e se mudar para lá — sugeri de imediato. — Podemos mudar a decoração, as roupas de cama, os móveis.

Ela ponderou por um momento, antes de apontar o dedo na minha direção.

— Consegue colocar uma prateleira de livros na parede? — perguntou com receio.
— Se eu não conseguir, chamamos um profissional — prometi, e um sorriso sincero iluminou o seu rosto.

Foi como segurar a sua mão no meio da tempestade. Uma pontada de determinação se acendeu no meu peito assim que avançamos juntos, superando o obstáculo. A mudança, por mais assustadora que pareça, é necessária. Doía ter de reviver todas as lembranças dos nossos irmãos, mudar cada detalhe que deixaram, mas se pretendíamos viver nessa casa, deveríamos nos ver dentro dela, como uma família de verdade.
Greta pigarreou e limpou as mãos no avental que amarrou ao redor da cintura. Olhava para a mesa cheia de comida com admiração e orgulho.

— O café da manhã está pronto, podem comer e, enquanto isso, vou fazer a lista de compras do mercado. — Ela puxou o bloco de papel em cima do balcão que sempre usava nessas ocasiões.
— Posso levá-la até o mercado. Assim consigo passar mais tempo com essa neném. — Fiz cócegas na barriga de Mia, ouvindo sua gargalhada contagiar o ambiente.
— Tudo bem, mas eu dirijo! — anunciou, a curta frase com o poder de transformar os próximos minutos em uma zona de guerra.

E não fosse o meu carro no meio daquele campo minado, Greta não precisaria ter gritado quando viu dois adultos – que mais pareciam crianças — correndo até a sala como se apostassem uma corrida pela vida.
Levantei-me de uma maneira tão rápida que até mesmo duvidei das minhas capacidades. Quase escorreguei ao tentar alcançar a mulher que invadia a sala e já vasculhava todo o cômodo em busca das chaves do veículo. Estreitei os olhos em sua direção, analisando-a minuciosamente. Virei a cabeça, mirando o molho metálico em cima da mesa de centro, escondido debaixo do jaleco da clínica que tirei na noite anterior.
No entanto, quando estava prestes a pegar o que era meu por direito, pareceu relembrar os acontecimentos passados. Seu corpo pequeno e ardiloso girou, os olhos redondos cravados sobre a mesinha, a expressão idêntica à de um predador encarando a próxima presa. A descarada me varreu de relance. Meu estômago revirou e precisei agir antes que o precioso Hyundai Creta tivesse o destino traçado.
Lancei o corpo para frente e fez o mesmo. Era possível sentir a agitação entre nós, os corações batendo pela competição. Para qualquer espectador, parecíamos disputar pelo último grão de arroz do mundo. Arregalei os olhos ao vê-la estender o braço em minha direção, a mão pequena colidiu com força contra meu peito e isso me fez perder brevemente o equilíbrio.
Soube que havia perdido a disputa assim que ela começou a saltitar, balançando o molho de chaves no ar. Soltei um suspiro resignado e deixei o corpo cair contra o sofá, derrotado.

— Como disse: eu vou dirigir hoje. — Fez questão de relembrar.

Rolei os olhos, apoiando-me nos cotovelos.

— Você não tem carteira de motorista.

Ela fez beicinho, enquanto pescava uma das chaves. A maior e dona da ignição do SUV imponente estacionado na frente da casa.

— Na verdade, tirei a licença para os dois veículos. Mas não dirijo um carro há mais de 5 anos. — O sorriso travesso cobriu o canto dos seus lábios.

Minhas pupilas dilataram de modo que o coração quase mergulhasse em completo colapso. Os batimentos cardíacos ecoavam pela sala, esmurrando o peito com tanta força que pareciam garras, rasgando por dentro em desespero. Meus olhos esbugalhados estavam prestes a saltarem e resgatar o molho metálico daquelas mãos tão delicadas, que seriam capazes de fazer um estrago, se não fizesse alguma coisa.
O ar me faltou só de imaginar as diversas atrocidades que poderia acontecer com o meu precioso carro.

— Eu nunca vou deixar você chegar perto daquele volante. Nem se a cabeça do Sky nascesse chifres, ! — Passei a língua pelos dentes, o furor dominando a voz.
— Você bebeu ontem à noite, cientificamente seus reflexos estão mais lentos. — Ela sorriu endiabrada.

era a personificação das trevas mais linda que já vi.

— Foi só uma garrafa pequena de cerveja, não conta! — Passei as mãos pelos cabelos.

Ela lambeu os lábios e torceu os lábios, antes de balançar as chaves. O seu olhar descrevia que tinha acabado de ter a melhor ideia do planeta.

— Vamos deixar a Mia decidir quem irá dirigir. — Atravessou a sala a passos largos.

Adiantei-me em segui-la, ficando em seu encalço.

— Minha pequena é inteligente e sensata, irá concordar comigo. — Entramos na cozinha.

Greta tinha a mão na frente do rosto, o riso escapando por entre os dedos.

— Pare de ser tão medroso, . Eu não vou bater o seu carro — protestou, agachando-se ao lado da cadeirinha de alimentação. — Oi, princesa. — depositou um beijo no topo da cabeça de Mia e recebeu uma risada em resposta.

tinha um sorriso divertido tomando sua boca. O canto direito levemente mais arqueado que o esquerdo. A ponta da língua estava presa entre os dentes. Uma coelhinha muito travessa.
Eu, por outro lado, cruzei os braços e soltei o suspiro resignado. Remexendo os ombros em busca de uma posição confortável contra o batente da entrada, sendo também uma tentativa de afastar aquele magnetismo que só me fazia querer beijá-la até que a falta de ar nos consumisse e nossos lábios ficassem inchados.

— Meu amor, nos ajude a decidir quem irá nos levar para o mercado.
— Ela é muito pequena, . Quase nem consegue segurar a colher sozinha — Greta disse, docemente. — Ficaremos nesse impasse o dia inteiro. — terminou as anotações no papel e segurou a folha dobrada.
— Coelhinha, você nem sabe onde fica o freio de mão — comentei, gesticulando com a mão.

ergueu a cabeça e endireitou o corpo. Seu corpo cheio de curvas veio em minha direção, a travessura estampada em seus olhos. O que ela ia fazer agora?

— É aquela parte onde pegamos assim? — Ela ergueu o braço e fechou a mão em punho, deixando uma pequena abertura no meio. — É o mesmo movimento que usamos para dar prazer a vocês. — sussurrou de maneira que apenas eu pudesse ouvir.

Engoli em seco. Nossos olhos se conectaram e as chamas quase nos queimavam. O oceano se mesclava com o fogo, desbravando uma luta intensa, cheia de nuances que ainda não conhecíamos.
desviou a atenção para a minha boca, curvando um sorriso depravado, que me fez arfar. Por um instante, deixei que a imaginação criasse a cena perfeita das suas mãos, provocando-me de maneiras inestimáveis. Os dedos ao redor do meu pau, excetuando movimentos leves e quentes em um vai e vem enlouquecedor, enquanto me lançava aquele olhar faminto e cheio de desejo.
Oh, céus.
Nunca mais ia tirar aquela imagem da cabeça...
Portanto, a distração surtiu o seu efeito e usei disso para agarrar a chave da sua mão. Em provocação, escorreguei o chaveiro no dedo e balancei na frente do rosto dela, em sinal de vitória.

— Vou garantir que chegaremos inteiros no mercado. — Sorri sarcástico, ignorando o calor que insistia em se apossar do meu pescoço.

Ela rolou os olhos e bufou em frustração. A ausência da sua presença e do aroma de romã com verbena fez meu peito se remexer em protesto. Cerrei a mandíbula, acompanhando quando sentou-se em uma das cadeiras e serviu o prato com algumas das diversas opções de comida.

— Você venceu — declarou e enfiou a torrada na boca.
— Agora, que já resolvemos quem será o piloto, aproveitem o café da manhã. — A governanta aproximou-se de Mia e a tirou da cadeirinha. — Enquanto isso, vamos colocar uma roupa bem bonita? — disse para a bebê, esfregando o nariz contra o dela.

Assenti e me juntei a , mesmo que algo sussurrasse no pé do ouvido o quanto era uma péssima ideia ficar sozinho com ela. Ocupei a cadeira à sua frente e escolhi minha comida.

— Sairemos em alguns minutos. — E então, Greta desapareceu com Mia, cantarolando uma música infantil.

rompeu o silêncio assim que as duas saíram. Continuamos nossa breve discussão afiada, onde tagarelava sobre minha sigilosa falta de confiança na sua direção. O embate de olhares foi perturbador e, a cada palavra que saía daquela boca carnuda, minha imaginação fluía para outro lugar. O desejo ardente de descobrir a habilidade dela com o freio de mão me consumia, mesmo sabendo ser uma grande loucura.
Apoiei os cotovelos na mesa e concordei com a cabeça a cada reclamação. Encarei seus lábios, a linha do maxilar, a base do pescoço, toda a extensão de pele exposta. Arfava só com a ideia de ter o seu corpo dançando com o meu; de explorar cada centímetro dela; de sentir o seu cheiro e o sabor dos seus lábios.
Porra, estava rendido por ela.
Sempre soube que essa mulher iria me enlouquecer, mas nunca imaginei o quanto queria me perder nos seus encantos, com a promessa de nunca mais conseguir voltar.





Ergui as mãos, balançando a cenoura e a beterraba. Mia continuou impassível, ocupada demais com o mordedor em formato de mãozinha rosa. Nem mesmo os olhos claros expressavam qual era a melhor direção. Suspirei, devolvendo tudo para a prateleira, e estudei as próximas opções, em busca de algo que agradasse o paladar infantil.

Greta havia dito que deveríamos introduzir comida mais sólida para a pequena, como pequenos vegetais e até mesmo carboidratos que pudessem ser preparados com baixo teor de sódio. E ali estava eu, um homem que não entendia quase nada sobre alimentação saudável, preso a um bebê no carrinho que parecia alheio ao mundo.
Até pesquisei algumas receitas na internet, mas foi contra todas as minhas escolhas, dizendo que nada do que encontrei era saudável e, com isso, comecei a suspeitar sobre o seu desejo de transformar Mia na próxima coelhinha.

— Vamos, pequena. — Peguei duas opções de raízes e mostrei a ela. — Quais das duas? Você escolhe, e prometo que irei pensar em uma forma de preparar para que não fique tão sem graça. — Porque se dependesse da e da Greta, essa criança cresceria traumatizada com comida sem sabor.

A minúscula mão esticou e tocou a batata doce. Um sorriso genuíno, vitorioso, brotou em meus lábios. Por um momento, desconfiei que a cor vibrante tinha sido a razão de tê-la atraído, mas pouco importava. Era bem mais fácil inventar uma receita com aquilo de que já estava acostumado, do que com um nabo que nem sequer sabia definir o gosto.

— Ótima escolha. Sei fazer um escondidinho de batata doce com frango que fica uma delícia. — Essa era uma das receitas que os anos de academia me ensinaram.

Embalei boa quantidade da raiz, assumindo uma postura orgulhosa. Havia sido apenas a escolha de um tubérculo, mas para mim era o equivalente a resolver uma equação de física quântica. Meticulosamente, organizei as compras dentro do carrinho quando Mia riu, balançando as perninhas na cadeirinha. Ajeitei a franja dos cabelos loiros escuros e senti o peito ser possuído pelo sentimento genuíno e invencível de um super-herói que acabou de vencer a luta contra os legumes.
Incrível como um pequeno gesto mexia com todas as células do meu corpo.
Continuamos o percurso pelo grande hortifrúti. Parei em frente à seção de bananas e maçãs. Minha mão hesitante se preparou para escolher entre as opções mais perfeitas e brilhantes. Porque a coelhinha não merecia menos que isso. adorava comer frutas no café da manhã e à tarde, então era obrigatório que a casa estivesse repleta das suas favoritas. A ideia de abastecer o carrinho com as que ela mais gostava trazia uma paz estranha.
A lembrança de quando preparei mirtilos para ela me invadiu. Havia sido a primeira vez que escutei uma das suas crises noturnas, quando nem nos conhecíamos direito. Mas, apesar de ainda não saber o verdadeiro motivo do seu pânico, era grato por não ter me afastado. Queria ajudá-la com os traumas, por mais enraizados que estivessem em seu coração. Ela merecia ver toda a beleza da chuva, e eu faria de tudo para que isso se tornasse real.
Além disso, também lembrava da conversa cheia de revelações que tivemos. Um dos poucos momentos em que deixei as dores do passado falarem mais alto. Ainda doía pensar na ironia que era Romeu e Julieta, quando estive disposto a beber o veneno por alguém e acabei sendo apunhalado pela faca mais afiada do mundo. Aquela imagem grotesca nunca saiu da minha cabeça, sendo o motivo principal de ter deixado o haras para trás, me dedicando à clínica e prometendo só retornar para aquele lugar pelos meus pais e nunca mais por ela.
Somente Aidan e Madisson conheciam a minha trágica história de amor, e se fosse preciso contá-la para que se abrisse comigo, faria isso quantas vezes fosse necessário. No fundo, torcia que ela nunca soubesse sobre Nora, entretanto, estava disposto a novamente fazer de tudo por uma mulher. E esse sentimento era assustador demais depois de tantos anos que passei recluso na dor.
Ah, coelhinha... Você ainda vai ser a minha ruína.
Os burburinhos puxaram minha alma das lembranças mórbidas. Mia se remexia no carrinho, olhando na direção da moça de cabelos castanhos que acenou para ela, enquanto passava. A desconhecida parou a poucos metros de distância, na seção de hortaliças frescas. O seu olhar pairou sobre nós, o sorriso sutil brincando em seus lábios, ao mesmo tempo que escolhia a alface. Ela piscou e desviou o olhar rapidamente, antes de desaparecer pelas prateleiras.
Concentrei-me em Mia, ajeitando o mordedor que quase caía das suas mãos. Empurrei o carrinho em direção à seção de laticínios, focado em procurar a fórmula infantil que Greta pediu. E foi preciso apenas parar para notar mais olhares. Dessa vez, de uma senhora mais velha que sorria encantada; ao lado, duas mulheres riam em uma conversa animada, ao mesmo tempo em que lançavam olhares ternos para nós; e até mesmo uma funcionária de mercado que passava por ali perguntou se Mia era minha filha e, quando afirmei, ela soltou um suspiro deleitoso antes de seguir o seu caminho.
Franzi o cenho. Todas me observavam e me senti em um palco de exibições. Um pedaço de carne exótica. Algumas curiosas, outras com um brilho de admiração no olhar. O pequeno desconforto brotou momentaneamente em meu âmago, de maneira que não soube explicar. Era só estranho. Por toda a minha vida, a atenção feminina sempre foi algo natural, mas agora era diferente. Parecia um erro ser o centro das atenções.
Mas que porra estava acontecendo comigo? Em outras circunstâncias, não perderia a chance de desfilar com Mia pelos corredores só para ter as mulheres me devorando com os olhos, mas agora, nem me reconhecia.
O aroma adocicado dominou meus sentidos, servindo como válvula de escape. Romã e verbena. Girei a cabeça e encontrei se aproximando no corredor. Ela estava distraída com algo no celular, os cabelos escuros caíam sobre os ombros, contrastando com a camiseta branca, apertada, que realçava as curvas perfeitas. Tinha escolhido um short jeans verde militar e tênis brancos de aparência muito confortáveis.
Céus, ela era linda demais.
Levantou os olhos castanhos do aparelho e sorriu em minha direção, os lábios curvando de maneira tão encantadora que meu peito deu um solavanco. Pouco me importei em como sua presença serviu como um filtro, afastando todas as mulheres ao redor. Meu coração retumbava, a sensação de estar completo pairando no ar. era a única mulher que queria com os olhos cravados em mim, por mais assustador que esse sentimento parecesse.

— Não acredito que escolheu batata doce! — ela exclamou, com um tom de repreensão, enquanto olhava para o carrinho. — Esse é o único vegetal que você conhece, ? — Cruzou os braços em frente ao peito.

Tive que lutar contra o instinto de olhar para os seios fartos que ficaram empinados e sufocados com aquele movimento.

— Foi a Mia que escolheu. Ela é uma mulher de bom gosto, ao contrário de certos coelhinhos que preferem colocar a horta inteira na comida — rebati, o sorriso travesso surgindo nos lábios.

revirou os olhos, mas não escondeu quando a boca se curvou. Inclinou-se em direção ao carrinho e deixou um beijo na bochecha de Mia.

— Seria mais divertido, princesa. Teria superpoderes e a saúde mais forte do que um touro de rodeio. — Fez cócegas na pequena e não deixei de admirar as duas.

Era errado me sentir tão extasiado com aquela cena?

, o que aconteceu no meio do caminho? — ela arqueou a sobrancelha, as mãos segurando a cintura. — A Greta dividiu a lista em três partes. Ela cuidaria do açougue; eu dos produtos de limpeza e você da parte do hortifrúti. — pontuou e vasculhou o carrinho. — Então... Cadê os legumes e as verduras? Aqui só tem frutas e batata doce.

Mas é muita ingratidão dessa infeliz. Fiz questão de pegar as melhores frutas, só porque ela gostava e é assim que sou retribuído.

— A Mia não gostou de nada do que mostrei a ela — defendi.

apertou a ponte do nariz, antes de tomar o carrinho das minhas mãos.

— Ela só tem 2 anos, ainda não sabe o que é comer de verdade.
— Ah, comida sem graça e sem sal, agora, ganharam um nome chique? — ironizei, seguindo-a pelo corredor.

Ela suspirou e mesmo sem conseguir olhá-la, sabia que revirou os olhos.

— Deixa que eu pego a sua parte da lista — afirmou, enquanto entrávamos de volta no hortifrúti.

Deixamos o carrinho estacionado perto da seção de legumes. Peguei Mia no colo, sendo nocauteado pelo corpinho agitado, o dedo indicador apontava para as abóboras enrugadas, enquanto balbuciava sons desconexos. Abaixei-me e os pés minúsculos tocaram o chão, as pernas trêmulas desfilaram. Seus olhos curiosos exploravam cada cor e textura ao redor. Endireitei o corpo, supervisionando cada passo como uma águia à espreita. Era o meu dever mantê-la sob o meu campo de visão, mesmo que estivéssemos praticamente sozinhos.
Minha pequena correu para tocar a melancia que ficava na prateleira mais baixa das frutas. Meu rosto se iluminou com o brilho de curiosidade nos olhos dela. Aquela sensação de pertencimento me preencheu mais uma vez. E mesmo que não soubesse como descrever tudo isso, era como se a escuridão que tanto me engoliu ganhasse uma nova cor. Senti cada célula do corpo gritando o quanto era sortudo, o peito se enchendo de presunção.
Eu finalmente havia encontrado o meu lugar.

— Cenoura, tomate, couve-flor e batata. — pontuou ao meu lado, separando as embalagens no carrinho. — O que mais a Greta pediu?

Sem desviar os olhos, retirei o papel dobrado do bolso da calça e entreguei a ela, sem conferir se era realmente a lista de compras que mais parecia um código militar escrito à mão.
Olhei de relance para e a encontrei com um beicinho fofo torcido nos lábios, ao mesmo tempo em que pegava uma abobrinha na prateleira. Ela encarou o vegetal igual a um detetive estudando uma pista, a seriedade em seu rosto me fez ter de apertar os lábios para não rir. Além disso, minha mente traiçoeira já tomava um rumo inesperado, imaginando-a segurando outra coisa que não fosse aquele negócio verde e sem graça.
Balancei a cabeça, espantando os pensamentos depravados, para me concentrar em pegar todas as embalagens que ela entregava com tanta naturalidade. Eu só me perguntava em quantos coelhos iríamos alimentar com o carrinho tão cheio de vegetais e legumes -– sem contar as hortaliças que faltavam na lista.
Senti algo cutucar minha perna, puxando o tecido da calça jeans com sutileza. Não foi preciso muito esforço para identificar que era Mia, cansada da exploração. Ela estendeu os braços em minha direção e não resisti em pegá-la. Meu rosto e cabelos foram amassados pelas mãozinhas, que me agarraram em busca de apoio. Minha pequena delinquente queria ficar no colo, mas se recusava a sentar.
Assoprei contra a barriga, emitindo o som engraçado e arrancando gargalhadas estridentes do fundo da sua garganta. Não resisti em também alargar o sorriso, enquanto continuava com os sopros altos e mais risadas ecoaram pelo mercado. Notei que algumas pessoas nos encaravam com olhares curiosos, o que pouco importava. Será que nunca tinham visto pai e filha tão unidos e brincalhões?
Um pontapé atingiu a boca do meu estômago. Pai. Uma palavra tão nova no vocabulário, e ao mesmo tão antiga, como se sempre tivesse feito parte da minha alma.

— Ei, vocês, dois. — chamou nossa atenção. — Hoje teremos brócolis no jantar! — disse com tanto entusiasmo que pareceu ter descoberto uma mina de ouro.

Encarei aquele negócio verde e estranho que parecia ter vindo de outro planeta. O formato lembrava a uma pequena árvore com o caule grosso e copas de flores em miniatura. Ergui a cabeça e fiz uma careta para Mia, que gargalhou em resposta.

— Quem em sã consciência come isso e gosta? — franzi o cenho, nunca me imaginando comendo algo como aquilo. — Parece um buquê de flores colhido antes da hora.

Arrastei os pés para trás, em busca de ficar longe daquela coisa que mais parecia um alienígena verde. riu.

— Se já está fugindo desse jeito, imagina quando descobrir que os veganos comem girassol assado na churrasqueira — comentou, enfiando o vegetal em um saco transparente.
— Como uma pessoa sobrevive só de plantas de pura e espontânea vontade? Olha isso. — Peguei a couve-flor e fiz outra careta. — Não dá para comer esses vegetais sem sabor. — Joguei de volta no carrinho. — Se um dia, eu disser que isso é gostoso, tenha a certeza de que estou com uma arma apontada para a minha cabeça. Ou internado no manicômio.
— Não seja tão dramático. Já ouviu falar de temperos? Causa animal? — resmungou e se aproximou da banca ao lado, onde eu havia pegado a batata doce.

Ajeitei Mia sobre meus ombros, segurando em suas pernas pelo caminho, antes que fosse chutado. Olhei para as mãos da coelhinha e encontrei o formato cilíndrico e alongado, semelhantes às cenouras gigantes e brancas. Nabos. O que diabos ela pretendia fazer com aquilo? Aliás, por que alguém comeria isso? Eles tinham a aparência tão pálida que só de olhar me dava gastura, e imagino que o gosto seja horrível.

— Por que não aproveitou e pegou os nabos, sendo que ficam do lado da batata doce? — Incrédula, ela cruzou os braços em minha direção.
— A Mia disse que não gostava.

Estreitou os olhos e me senti como uma praga, prestes a ser exterminada do jardim.

— A Mia que não gosta, ou você que não gosta?
— E o que esperava que eu fizesse? Realmente não consigo imaginar nada gostoso que vá isso aqui. — Gesticulei para as cenouras anêmicas.

Ela suspirou.

— Não consegue imaginar uma sopa de legumes com nabos? — Arqueou a sobrancelha, as palavras saindo como se fosse óbvio.
— A única coisa que imagino quando olho para isso é algo que não posso fazer com ele, porque já tenho outra coisa maior no lugar. — Aproximei-me, os pensamentos mais sujos e proibidos se aflorando.

arregalou os olhos em surpresa.

— Então, coelhinha, o que espera que eu faça com os nabos? — Levantei uma sobrancelha em desafio.

As bochechas coraram, e por um instante, um sorriso travesso desenhou-se em sua boca. Em seguida, estendeu o saco plástico cheio do vegetal e esmurrou-o contra meu peito.

— Pegue e coloque dentro do carrinho, antes que eu bata em você com eles — ameaçou, sua voz soou risonha e tímida. Obedeci como um ótimo servo.

Os próximos minutos se resumiram em conferir os itens do carrinho com a lista de compras. Soltei um suspiro de alívio quando declarou que a parte do hortifrúti e dos produtos de limpeza tinha acabado. Agradeci aos deuses por não ter mais de ouvir qual a diferença dos pimentões amarelo, verde e vermelho. A coelhinha empenhou-se em contar como cada um era usado dentro da culinária, depois de eu ter tido a infeliz ideia de dizer serem todos iguais.
Desci a pequena dos ombros ao ouvir o bocejo e a aconcheguei nos braços, velando o sono que a abraçava aos poucos. Estava quase na hora da soneca da tarde. Beijei o topo da sua cabeça, acariciei o rostinho angelical com o polegar. Os olhos redondos se fecharam. Balancei o corpo com cuidado, ninando, enquanto ainda conferia a lista, em busca de alguma coisa que deixamos passar.

! — O grito agudo e feminino fez com que levantássemos a cabeça juntos.

A mulher jogou os cabelos longos e volumosos, os fios em tons loiros claros caíram em ondas soltas por cima dos ombros. O corpo pequeno tinha as curvas desenhadas em formato de ampulheta, de modo que a escolha de roupas casuais o moldasse. Seu andar era elegante, o quadril balançava, igual a uma modelo na passarela. Mas os detalhes que mais me chamaram a atenção foram os olhos expressivos e o sorriso contagiante se destacando no rosto fino, natural e espontâneo.
Ela puxou para um abraço tão apertado que precisei conter o riso quando a coelhinha me encarou, o canto dos olhos espremidos em um pedido de ajuda.

— É muita coincidência encontrá-los aqui. — Segurou pelos ombros. — Oi. — Virou-se na minha direção. — Não tivemos tempo de nos apresentar formalmente no outro dia. Sou a Bethany, vizinha de vocês. — estendeu a mão e o sorriso estampou o rosto.

Meu cérebro parou e levou alguns segundos para processar a informação. Estudei as feições delicadas, tive de piscar duas vezes quando as engrenagens giraram, finalmente a reconhecendo como a mesma mulher que vi com na varanda, naquele dia em que havia perdido um paciente.

, é um prazer. — Envolvi sua palma, quase a engolindo com minha mão.

Os olhos azuis faiscaram ao me analisar de cima a baixo. Ela absorveu cada detalhe físico do meu corpo em uma análise minuciosa e demorada. Engoli a seco, endireitando a postura no automático. As fagulhas dançando nos olhos claros foram claros sinais de que gostou do que viu.
Mas era normal sentir um leve incômodo por isso?
Nossas mãos se soltaram e logo ela foi atraída para a bebê adormecida em meus braços. Algo que duraria pouco depois do gritinho de empolgação que explodiu pelo lugar.

— E essa deve ser a Mia. — Aproximou-se, tocando a mãozinha delicada. — Ela é tão linda! — elogiou. O sorriso luminoso fez parecer estar diante de uma obra de arte famosa.

Inclinei a cabeça ligeiramente para o lado. Aquela mulher carregava algo intrigante. Nunca tinha visto uma criatura com a aura tão leve. A alegria irradiava naturalmente através dos traços finos, como se o próprio sol a venerasse, uma raridade.

— A Jessy também veio comigo hoje. Vocês precisam conhecê-la! — disse com entusiasmo e esticou o pescoço em busca de algo. — O meu irmão está com ela, daqui a pouco devem aparecer por aqui. — Riu suavemente, antes de sussurrar em tom conspiratório: — Ele odeia ficar sozinho na seção de cuidados femininos.

Curvou o sorriso simpático e divertido. O corpo inquieto, ainda procurando o homem pelos corredores. Bastaram apenas alguns segundos para desistir da busca e mudar a postura de maneira espontânea.

— Então, quando vamos fazer aquele jantar? As meninas precisam se conhecer melhor. Elas vão adorar quando virem o Woody, o nosso husky siberiano. Ah! E também... — Bethany continuou listando os diversos benefícios que Mia e Jessy teriam ao conviverem juntas e, posteriormente, enfrentarem a adolescência.

Levantei as sobrancelhas, questionando-me mentalmente como uma criatura tão pequena conseguia ser tão tagarela. Olhei para de relance, que, ao contrário de mim, parecia encarar a situação com naturalidade.

— O que vocês acham? — Quis saber, a empolgação presente na voz.

Eu e nos entreolhamos, nosso silêncio sendo capaz de dizer mais do que palavras conseguiriam expressar. Já tínhamos passado por tantas coisas, a dor do luto quase nos engoliu e a pequena passou todos os dias vivenciando o ar pesado entre nós. Não fomos justos com ela, mas também não tivemos como evitar.
A essa altura do campeonato, Mia já deveria estar formulando pequenas frases. Marcamos uma consulta com a pediatra na semana que vem e só de pensar que, talvez, nossa carga emocional tivesse sido pesada demais para ela, cortava meu coração em milhões de pedaços. Então, se havia a possibilidade de uma amiguinha ajudá-la, aceitaria com o melhor sorriso no rosto.
O bem-estar dela era a minha prioridade.

, como estão seus horários na clínica? — tocou gentilmente em meu braço.
— Estou livre aos finais de semana, Aidan vai me cobrir nos plantões noturnos. — Ele ainda não sabia disso, mas tenho certeza de que aceitaria as condições sem reclamar.

Bethany deu um pulo, com dificuldade em ficar parada.

— Será ótimo! Vocês não têm problema com cachorros, né? O Woody gosta de ficar pulando nas pessoas atrás de atenção. — Suas bochechas coraram. — Se for um problema podemos deixá-lo preso no quarto.
— Não, sem problemas — respondemos em uníssono.

Bethany mordeu o lábio inferior antes de tocar a mão de e encher o ambiente de animação. Suas palavras rápidas pulavam da boca de tanta ansiedade. As mãos não paravam quietas nem por um segundo e notei que as feições se contorciam em risos frequentes, denunciando uma empolgação quase exagerada.
Prestei atenção nas duas mulheres, absorvendo a cena tão cheia de entusiasmo. A loira tagarelava sobre ter aprendido uma nova receita de risoto com camarão, enquanto comentava sobre os melhores vinhos que combinariam de acompanhamento. O brilho hipnotizante dançava ao redor das pupilas, denunciando a paixão comum pela culinária. Meu peito se aqueceu e desci os olhos para a bebê adormecida, sentindo que algo novo estava prestes a surgir.
Eu só queria que e Mia fossem felizes, mesmo que para isso tivessem de socializar com estranhos. Elas me tinham na palma da mão, essa era a verdade. Faria de tudo para vê-las sorrindo e protegidas do mundo.

Vejo que minha irmã finalmente encontrou alguém mais interessada em culinária do que ela. — A voz firme e de timbre grave surgiu ao meu lado.

Virei a cabeça e, em seguida, a mão pesada tocou o ombro direito, os dedos apertando em um cumprimento silencioso.

— Finalmente vocês chegaram! — Bethany brincou e foi ao encontro do carrinho que ele trouxera.
— Bethany, eu não sei a diferença do óleo de cabelo para a máscara capilar. Não deveria ter me deixado sozinho. — Fingiu um tom ofendido que fez a loira rir. — Elas nunca vão entender que nós não entendemos dessas coisas? — direcionou a pergunta para mim e apenas curvei um sorriso simpático.

Bethany iniciou a aula gratuita sobre os produtos de cabelo feminino, sendo incapaz de ficar calada sobre o assunto. Usei o tempo para analisar o homem que ainda tinha a mão segurando o meu ombro. Um certo incômodo atingiu a minha espinha quando observei que ele tinha os olhos sobre . Um misto de curiosidade e surpresa dançava em seu olhar. Ela pareceu alheia à observação, concentrada demais na amiga e sua explicação exagerada, com direito a exemplos na internet.
A primeira característica marcante foi a altura semelhante à minha e os ombros largos que o tornavam maior e mais robusto, quase uma muralha. Sua postura relaxada demonstrava desinteresse no assunto da irmã. Tinha os cabelos loiros cortados em um estilo curto, ligeiramente mais escuro, algo que denunciava os laços sanguíneos. O rosto era angular, com a mandíbula marcada, combinando com o porte físico.

— Eu odeio quando ela faz isso — comentou baixo, passando a mão pela barba por fazer. — Bethany, lidar com os pesos da academia é melhor do que ter de ouvir essa palestra. — Gesticulou.

A loira assumiu uma postura ofendida, a boca transformando-se em um bico gigantesco, enquanto retirava a bebê do carrinho.

— É fácil falar de academia quando se vive em uma.

Ele riu com escárnio, cruzando os braços. Os olhos ainda em cima da minha coelhinha.
Droga.
Por que incomodava tanto?

— Essa é a Jessy, diz “oi”, meu amor — Bethany apresentou. Segurava a pequena em um dos braços, enquanto manuseava a mãozinha dela em um aceno.

A menina emitiu uma risada curta e cheia de leveza. Os cabelos claros, como os da mãe, se encontravam trançados, tornando-a mais delicada. Os olhos castanhos possuíam luz própria, típica de alguém curioso com tudo ao seu redor, provavelmente herdando isso do pai. Os braços e pernas balançavam em animação.

— É o jeito dela de dizer “oi” — o homem comentou, o sorriso orgulhoso no rosto.

Bethany beijou o topo da cabeça da filha, antes de suspirar e apontar para a muralha ao meu lado.

— E esse brutamonte que ainda chamo de irmão é o Dante.
— Também gosto de você, maninha. — Ele fez uma reverência e subiu os olhos pela coelhinha. — — sussurrou, os olhos assumindo uma energia de reconhecimento.

Um arrepio gelado percorreu minha espinha ao ouvir o nome.

— Dante. — Ela sorriu, a voz carregada de emoção, algo que beirava a ternura.

Tensionei a mandíbula quando vi avançar e jogar o corpo contra o do homem. Ele retribuiu no mesmo instante, envolvendo-a com os braços fortes. Enfiou o rosto na curva do pescoço macio, os olhos fechados, apreciando o momento. Tive de reprimir a vontade agressiva de interromper aquele momento e empurrá-lo para longe dela.
Bethany fez um beicinho, perguntando antes que eu tivesse a chance:

— Vocês já se conhecem?

o soltou e o brilho em seus olhos já denunciava mais do que palavras. O sorriso genuíno revirou meu estômago. Desci os olhos e fuzilei a mão masculina sobre a cintura fina, algo que foi rapidamente retirado por ela. Engoli em seco, a garganta arranhando e um dos punhos se cerrou, mesmo com Mia em meu colo. Nunca quis tanto que alguém pegasse fogo como naquele momento.

— Eu e o Dante nos conhecemos em Nova York — explicou, com as mãos gesticulando. — Estudamos na mesma universidade; eu fazia direito e ele educação física. Chegamos a dividir o apartamento por alguns meses.

A onda de euforia dominou cada célula do meu corpo ao imaginar os dois compartilhando um espaço minúsculo na época da faculdade, dividindo o mesmo ar e, talvez, o quarto.

— Depois de um tempo, ela me abandonou e se mudou para Boston. Nunca mais tive notícias. — Riu e lançou outro olhar para ela. — A é um espírito livre. — Suas palavras carregavam traços de devoção e admiração.

Trinquei os dentes, por pouco não rosnando para ele. Mas que porra estava acontecendo comigo?

— Muita coisa aconteceu naquela época. — Ela mordiscou os lábios, assumindo uma distância segura dele.

O desconforto assumiu suas feições, as mãos esfregavam as laterais dos braços. A mera menção de Nova York parecia remeter a lembranças que a perfuravam por dentro. Uma sombra de medo atravessou as pupilas e não consegui ficar parado apenas olhando. Aproximei-me e o ar da minha presença pareceu acalmá-la.
Ela me encarou antes de começar a gaguejar.

— Dante, esse é o . Ele é o...
— O pai da Mia — cortei e senti um alívio no peito por isso.

Minha mente gritava que precisava reagir de alguma maneira, mostrar que não estava sozinha.

— É um prazer.

Dante estendeu a mão e a estudei minuciosamente. A tensão ao redor se formou em um embate sufocante, conforme os segundos se passavam e eu não aceitava o aperto. Porque, na verdade, queria enxotá-lo dali, para longe da minha família. E se ele tivesse algo a ver com os pesadelos da minha coelhinha, queimaria o mundo para acabar com a sua vida.
Bastou apenas cruzar os olhos com os de , com sinais de preocupação, para recobrar a consciência e perceber que estava agindo de forma hostil. Minha boca forçou-se a transformar-se em um sorriso amarelo e apertei a mão dele com um pouco mais de força do que o necessário. Ignorei a vontade ardente de esmagar os seus ossos, soltando sua mão antes do esperado.

— Dante, estávamos pensando em fazer um jantar na nossa casa. — Bethany se intrometeu, talvez percebendo o clima tenso. — Assim, as crianças podem brincar e podemos nos conhecer melhor.
— Será perfeito — concordou, lançando o olhar interesseiro para cima de . — Aconteceram tantas coisas desde que foi embora, quero que me conte tudo sobre a sua vida.

Ela abriu um sorriso autêntico, os olhos denunciavam certa empolgação para isso, as bochechas ganharam um leve rubor sob o olhar lascivo. Senti o gosto amargo da bile na boca, tomando o golpe mais profundo no estômago. nunca sorriu assim para mim. E a vozinha irritante insistia em sussurrar no meu ouvido que, apesar de nos conhecermos há mais tempo, eu nunca seria o homem suficiente para ela.

— Podemos fazer hoje à noite, o que acham? — Bethany perguntou, passeando os olhos por todos os presentes.
— O que acha, ? — quis saber e estreitei os olhos.

O que eu achava? Que tinha sido uma péssima ideia concordar em ir naquele jantar.

— Ótimo — respondi com a voz baixa e áspera.
— Então está combinado! — a loira disse com entusiasmo, colocando a filha no carrinho. — Dante, precisamos comprar camarão e vinho. Será o jantar perfeito!

Bethany despediu-se de todos e correu a caminho do açougue em busca do crustáceo. Já Dante envolveu a mão de e depositou um beijo casto no dorso, antes de também desaparecer. A coelhinha novamente abriu aquele sorriso lindo e cheio de luz, causando-me uma estranha pontada no peito.
Soltei o suspiro exasperado, dando as costas para ela, evitando que notasse o tamanho do meu desconforto. Coloquei a pequena no assento do carrinho e acariciei a bochecha redonda como uma forma de me distrair daquele mundo. Meu coração se contorceu ao pensar em e Dante juntos em um apartamento minúsculo, fazendo tudo o que a minha mente fantasiou nas últimas horas. A cena grotesca me enjoava e precisava arrumar um jeito de esquecer isso antes que vomitasse no meio do hortifrúti.
Encontramos Greta perdida na seção de frios e fomos embora depois de enfrentar as filas enormes nos caixas. Durante o trajeto para casa, meus dedos apertaram o volante com força sempre que mencionava sobre o jantar e o quanto estava ansiosa para rever Dante. Também descobri que se tornaram amigos logo que ela começou a morar em Nova York, se conheceram na academia de bairro em Manhattan, tornando-se inseparáveis demais para a minha sanidade aguentar ouvir.
Minha mandíbula ficou travada o percurso inteiro, os dentes rangiam, implorando por alívio. O peito queimou de tanta raiva que tive de me segurar para não socar o carro. Pela visão periférica, percebeu o meu estado, mudando de assunto assim que ouviu as respostas monossilábicas grosseiras. Não conseguia evitar, cada partícula do meu corpo se corroía feito ácido, a mera lembrança daquele abraço e o sorriso acabando comigo aos poucos.
Eu sabia que não tinha o direito de sentir ciúmes dela, então, por que parecia prestes a cair em um abismo? E, no fundo, desejando ser empurrado de uma vez, só para me livrar desse tormento?





Ele passou as próximas horas estranho.
Distante.
Depois que chegamos do mercado e guardamos as compras, ficou o resto da tarde deitado no sofá da sala, os fones de ouvido o isolando do mundo, enquanto assistia ao filme de terror de uma freira assassina. Nenhuma provocação saiu por aquela boca atrevida, nem mesmo quando a Greta fingiu convocar um exército imaginário para caçar a aranha no meu quarto.
Ele estava tão diferente, calado demais, e isso começou a incomodar.
O silêncio sempre foi o meu melhor amigo, à espreita, pronto para me consolar nos dias bons e ruins. Mas depois da noite de ontem, pensei que tivéssemos dado um grande passo na nossa relação. Passei horas remoendo cada segundo do nosso dia, tentando entender o que tinha acontecido para deixá-lo daquele jeito. Meu cérebro processou cada momento com cuidado. Será que fiz alguma coisa de errado? Será que disse algo que o magoou?
Mas nada justificava aquela distância tão repentina.
Na hora do almoço, pensei que tudo voltaria ao normal, até o ver comer calado, sendo apenas um corpo ocupando a cadeira. Foi a pior refeição que já tive nos últimos anos, a tensão nos rodeava, esperando o momento perfeito para saltar e nos sufocar.
Queria muito entender o que estava acontecendo.
começou o dia disposto a me tirar do sério e cuidar da Mia como um verdadeiro pai faria, e simplesmente do nada, resolveu virar outro homem, completamente diferente do que conhecíamos. A cena dele e da pequena gargalhando no hortifrúti ficaria para sempre gravada a ferro e fogo na minha memória, sendo impossível de esquecer aquele momento de tanta doçura.
Agora, ele se encontrava na cozinha, preparando o leite da neném. Os lábios em uma linha fina feito tecidos costurados. Os ombros pareciam tensos, os movimentos mais cuidadosos como se esperasse um ataque iminente. Estava tão concentrado na tarefa que nem percebeu que eu o espiava por cima do livro, o corpo escondido atrás do encosto do sofá. Meus olhos percorriam cada centímetro dele em busca de algum sinal de alerta, antes que ousasse me aproximar.
Encontrei o felino sentado no balcão habitual – onde sempre fazia suas refeições. A língua escovando os belíssimos pelos negros com uma calma redundante. E, a julgar pelo momento em que se aproximou e coçou atrás da orelha de Sky, percebi que o único perigo estava apenas dentro da minha mente. Seus movimentos lentos e cuidadosos não mostravam nenhum sinal de tensão, pelo menos quando se tratava do bichano.
Arqueei a sobrancelha. parecia estar em completo estado de paz. Ousei pensar que tudo não passava de uma má impressão, até ser assolada pelas respostas curtas, secas, quando voltávamos do mercado e depois de como me ignorou no almoço. Era o cúmulo não soltar nenhuma piada. Então não, tinha realmente algo acontecendo e precisava descobrir.
Levantei-me, forçando cada engrenagem do cérebro a girar em busca da melhor forma de começar. Embolava as mãos pelo caminho, incapaz de ficar quieta. A camada fina de suor se formou na testa e, junto, o estômago revirou em completo desconforto. Deslizei os dedos pela nuca, o pulsar cardíaco aumentando gradativamente conforme vencia a distância entre nós. Pelos deuses, parecia uma porca indo direto para o abate.
Eu só queria conversar, ser madura e descobrir a causa do problema para que juntos pudéssemos resolver. Era para ser tão difícil assim? Em outro momento, nem estaria perdendo meu tempo pensando sobre isso. Só que algo me dizia que deveria tentar, mesmo que acabasse sendo enxotada como um cachorro abandonado.
O som do micro-ondas sendo aberto quebrou o silêncio pesado da casa, meu corpo enrijeceu brevemente, não esperando pelo barulho. Encarei as costas largas, os dedos longos digitaram o cronômetro no painel digital, alheio à minha presença. Meus pés pareciam pregados ao chão, cada passo sendo arrastado, feito uma mula no meio do caminho, guiada pela força invisível que insistia em me empurrar para ele.
Encarei a ilha que nos separava, o mármore escuro refletiu o meu rosto em sinal de encorajamento. Segurei as laterais, usando de apoio para as pernas trêmulas. Umedeci os lábios ressecados, erguendo a cabeça para só então cair em um estado deplorável de advertência quando percebi estar sob a mira do meu caçador – e o pior, era não saber em que momento me tornei a sua presa. Arregalei os olhos, engolindo em seco com dificuldade. O corpo paralisou por inteiro, nem mesmo o ar dos pulmões ousava sair.
Naquele momento, um felino teria se arrepiado menos do que eu.
Os poços azuis, mais escuros que o habitual, me encaravam como duas esferas cheias de uma fagulha perigosa. As sobrancelhas arqueadas e a boca fechada em uma linha dura, constatavam com as chamas que serpenteavam ao redor das pupilas. Desci os olhos para o tronco rígido, os braços estendidos e as mãos espalmadas sobre o balcão pareciam uma afronta à minha postura frouxa e acuada. As veias saltadas marcavam a pele dos antebraços, traçando o caminho de volta para o rosto sério e cheio de uma intensidade controlada.
Porra!
Eu sabia que deveria fugir, mas o perigo nunca foi tão sedutor ao ponto de me fazer refém daquele fogo que sempre me queimava quando estava perto dele.

— Po-podemos conversar? — Quebrei o silêncio, a voz frágil como folha de papel.

Ele me analisou, percorrendo cada centímetro do meu rosto. Algo animalesco queimou através daqueles olhos azuis que não soube explicar. Se pudesse compará-lo, seria um leão forte e grande em cima da sua vítima, não hesitando em mostrar o seu poder com os dentes ameaçadores e as patas gigantescas cheias de unhas afiadas.
Oh, céu...
Tentei molhar a garganta que arranhava como um disco velho, ansiando por uma resposta antes que entrasse em colapso.

— Não tenho nada para falar. — Foi ríspido

O micro-ondas apitou de modo a arrancar aqueles poços flamejantes de cima de mim. Dedicou-se à mamadeira e ao copo de plástico com o leite morno. Meus pulmões agradeceram pela interrupção, porque assim passei a soltar o ar que havia prendido, além de receber uma visão privilegiada das costas largas.

— Então... — Os lábios tremeram com receio. — Posso te fazer uma pergunta?

Sua mandíbula tiqueou e, por um instante, o vi vacilar. Os ombros adotaram uma postura rígida, carregados de tensão.

— Se eu negar, promete que irá me deixar em paz? — Qual era o seu problema?
Franzi o cenho e tomada de uma coragem que não me pertencia, contornei a ilha. Deixei que nossos corpos ficassem próximos demais. Empinei o nariz, a cabeça levemente inclinada para cima, enquanto encarava aqueles olhos claros, que agora me fuzilavam, ofendidos pela afronta.

— O que aconteceu? — Juntei todas as forças para que a voz não tremulasse. — Por que está me evitando? Eu fiz alguma coisa de errado?
— Você disse que só faria uma pergunta. — Levantou uma sobrancelha em provocação e se virou para tomar distância, fingindo interesse na mamadeira e no leite.
— Achei que tivéssemos feito progresso ontem — murmurei, os punhos cerrados ao lado do corpo.

O silêncio perdurou entre nós por alguns segundos que pareceram uma eternidade. A mandíbula travou e os olhos se levantaram dos objetos em suas mãos, perdendo-se na janela em frente à pia. Parecia lutar contra os próprios pensamentos. Ele soltou o ar, os ombros caindo como se carregassem o peso do mundo. O peito subia e descia em um ritmo irregular. Merda, cadê aquele homem que nunca poupou esforços para me irritar? O mesmo que fez da minha vida o verdadeiro inferno quando eu era adolescente?

— Eu não estou evitando você, — respondeu após um longo suspiro. — Só... Preciso de um tempo sozinho.
— Por quê? Foi alguma coisa que eu disse? Aconteceu algo no mercado? — As palavras saíram antes que pudesse evitar.

Ele mordeu o lábio inferior. Suas mãos abandonaram os utensílios e passaram a apertar a borda do balcão, controlando algo intenso e quase selvagem dentro de si.

— Acho melhor, eu não ir ao jantar de hoje — sussurrou e quase não o ouvi.

Cruzei os braços, trocando o peso de uma perna para a outra.

— Eu estou preocupada com você — revelei em um fio de voz, aproximando-me devagar. — Tem alguma coisa que posso fazer para ajudá-lo?

Toquei seu ombro, os dedos se fecharam em um carinho terno e, em resposta, soltou um grunhido que pareceu preso na garganta todo esse tempo. O perfume amadeirado invadiu minhas narinas, puxando meu corpo como um ímã. Eu queria chegar mais perto, cheirar a curva do seu pescoço e me deixar embriagar nele. O seu cheiro tinha um dom único de acalmar toda e qualquer agitação que ousasse me assombrar.
Ele se tornou o bálsamo perfeito para a minha alma.

— Não há nada que possa fazer para me ajudar, ... — Seu timbre baixo, rouco, foi capaz de mexer com partes do meu corpo que até então pensei estarem adormecidas.
— Posso cancelar o jantar e ficar com você — sugeri, meu corpo quase roçando em seu braço estendido.

Ele curvou o sorriso sarcástico com o canto dos lábios.

— Você quer ir nesse jantar mais do que qualquer coisa. — Seu tronco se ergueu e virou para me encarar. — Não posso privá-la disso.

A muralha de músculos conseguia facilmente me esconder de qualquer um que entrasse na cozinha. Os ombros largos tencionaram e pude vê-los mesmo escondidos pela camiseta azul marinho. Ele deu um passo na minha direção, o corpo imponente me prendendo contra o balcão. Ofeguei assim que as costas sentiram o toque gelado da bancada, meu peito subiu e desceu, acompanhando o ritmo acelerado do coração.
Minhas pernas tremeram. Devo ter ficado trêmula da cabeça aos pés quando se inclinou e apoiou as duas mãos no balcão, uma de cada lado do meu corpo. O cheiro de cedro e pimenta me envolveu naquela dança hipnotizante, levando-me a erguer o rosto e deixar que nossos olhos se encontrassem, o choque elétrico enrijecendo cada pelinho do meu corpo. Uma onda de calor me transpassou, o arrepio subindo pela minha coluna com urgência.
A sua presença ardente e vibrante despertava algo novo dentro de mim. Uma ânsia pelo desconhecido, por algo proibido.

— Eu vi como olhou para ele no mercado. — O hálito quente bateu contra a pele do meu rosto. — Sei que está ansiosa para revê-lo. — A testa franziu e um calafrio dominou as paredes do meu estômago.

Entreabri os lábios, sem saber o que dizer quando o vi mover os olhos para minha boca e algo crepitar nas íris azuladas. Uma áurea obscura, primitiva, tomava conta daquele olhar tão penetrante, um reflexo do quanto ele tentava controlar o que estava o consumindo por inteiro. Sua mão envolveu a lateral do meu rosto, o polegar resvalando delicadamente pelos lábios, contornando ao mesmo tempo em que um rosnado baixo e rouco escapou da sua garganta.
O seu toque era quente, suave, protetor.
Outro arrepio subiu pela minha coluna e foi como ser atingida por um raio quando sua palma desceu para o pescoço. Afastou os cabelos, inclinando-se lentamente até os lábios tocarem a pele exposta com tanta devoção e cuidado que nada me impediu de fechar os olhos e contrair as pernas involuntariamente. Uma tempestade insana me consumiu, os relâmpagos se propagando em meu interior, reverberando cada célula do meu ser.

— Eu não posso contar o que está acontecendo, pequena... — disse contra meu ouvido, a respiração batendo contra o lóbulo de maneira sedutora. — Porque não quero que fuja de mim.
— E por que eu fugiria? — perguntei com a voz falha, possuída pelo seu perfume.
— Porque não imagina as coisas que quero fazer com você. — sussurrou, os lábios se fechando ao redor do meu maxilar em um beijo casto, quente. — Vê-la sorrindo para o Dante foi demais para mim...

Mordi o lábio inferior. Meu estômago se revirou, o peito retumbando como labaredas na fogueira. As palavras tão reveladoras batucaram dentro da minha mente, unindo finalmente as peças do quebra-cabeça tenso. A pontada de compreensão acendeu e empurrei suavemente pelos ombros, de modo que pudesse olhar dentro dos seus olhos, queria confirmar cada fagulha daquele sentimento que parecia consumi-lo.

— Está com ciúmes, ? — disparei, o calor tingindo as bochechas.

As íris azuis adotaram uma coloração mais intensa, crua, quase primitiva. Ele focou os olhos em mim, intensos e impenetráveis feitos uma rocha. Sua mão envolveu o meu rosto, o polegar acariciando a mandíbula. A vulnerabilidade do carinho me desarmou, não precisando de mais nada para concretizar a dúvida. Deslizou o dorso da mão pela bochecha e aproximou nossos rostos, seus lábios tocaram suavemente a testa, deixando um beijo carregado de todos os sentimentos que não conseguia expressar em palavras.
Ele ficou com ciúmes de mim...
E de um jeito estranho, isso remexeu algo dentro do meu peito.
Ao senti-lo se afastar, ergui a cabeça e levei as mãos à barra da sua camiseta. Enrolei o tecido, segurando-o, aproximando-me mais do seu corpo rijo.
Nossos olhos não eram capazes de se desgrudarem, sincronizados à atração que explodia naquela cozinha. Ele se inclinou, sua respiração bateu quente contra meu rosto. Seus dedos roçaram em minha pele, traçando um caminho delicioso até a nuca. Espremi os lábios e segurei o gemido que ameaçou escapar ao sentir meu corpo inteiro estremecer, ansiando por mais do seu toque.
Meu coração batia tão forte que pensei que pularia para fora do peito a qualquer momento. Desci os olhos para a boca entreaberta, convidando-o a colar ainda mais nossos corpos. Queria beijá-lo; sentir o gosto daqueles lábios atrevidos; finalmente entender como era estar em seus braços; me render ao seu perfume me empurrando para dentro do redemoinho de tensão e desejo latejante.
Ele me enfeitiçou, parte do medo se dissipando como fumaça e o resto não importava.
Oh, céus. Eu o queria tanto que doía.
roçou o nariz no meu. O toque me fez estremecer. Fechei os olhos automaticamente, esperando que sua boca me tocasse com força e possessividade, arrancando de vez a minha sanidade. Sua mão escorregou pelo meu queixo, o polegar delineando meu lábio inferior tão lentamente que pareceu querer gravar os traços a ferro e fogo.
Ofeguei quando nossos lábios quase se tocaram, meu coração esmurrou as costelas com expectativa. A proximidade se tornou um fardo insuportável. Eu só não esperava que, no instante seguinte, seus dedos escorregassem e se fechassem com força ao redor do meu pescoço.
Arregalei os olhos. O rosto tão próximo transformou-se no meu pior pesadelo. Os olhos azuis foram substituídos por esferas obscuras, maléficas, cheias de um desejo cruel, acompanhadas das sobrancelhas grossas com uma falha na direita. Meu corpo entrou em desespero, o pânico e o medo correndo pelas veias, quando ele curvou o sorriso diabólico cheio de dentes, carregado pela áurea negra que sempre esteve ao seu redor.
Estava diante do próprio demônio na Terra
Kaleb Ledger.
Mergulhei no passado, sendo assombrada pelas lembranças grotescas das vezes em que sua mão se fechou com mais força, sufocando-me. Tentava gritar por ajuda, só que a voz não veio, entalada na garganta. Sua boca se forçava contra a minha, a língua violenta exigindo passagem com brutalidade. Meu cérebro tentava ficar acordado, a falta de ar pesando as pálpebras, pronta para apagar.
O medo me impedia de desmaiar. Se ele era capaz de me estrangular enquanto estava acordada, temia o que faria se estivesse inconsciente.
Tentava me mover, socá-lo, empurrá-lo, mas ele sempre seria mais forte do que eu.

Você é só minha, . E ninguém tem o direito de chegar perto do que é meu — rosnou, a outra mão erguia meu queixo, obrigando que olhasse para ele.

E então eu via.
O rosto do demônio que me aterrorizaria até nas profundezas do inferno.

— Por favor, não... — implorei, a voz por um fio. — NÃO ME TOCA, POR FAVOR! — consegui gritar, os soluços rasgando a garganta

Minha cabeça girou, a visão turva prestes a escurecer. Grunhi em desespero, os dedos apertando mais e mais. Quanto mais tentava me soltar, mais ele me segurava. Eu tinha conseguido gritar, agora só faltava achar um jeito de escapar das suas mãos.

... , eu sou! — gritou e tentou tocar em meus braços, mas fui rápida em golpeá-lo, empurrando-o para longe.
— Você não é real... — Segurei a cabeça, puxando os cabelos com força. — Você não é real... — continuei repetindo, as lágrimas escorrendo desenfreadas.
— Sou eu... — a voz dele era um sussurro distante em meio ao meu pânico. — Fica comigo, pequena. Ouça minha voz. — Senti o calor do seu corpo se aproximar, ignorando o fato de que eu poderia machucá-lo. — Olha, escuta o meu coração, . — Ele pegou uma das minhas mãos e colocou-a aberta sobre o seu peito.

Meu corpo todo tremeu com o seu toque quente. Tentei puxar o braço, querendo me encolher.

— Escute os batimentos — pediu, segurando minha mão com força para que não pudesse fugir.

Solucei e tentei me concentrar. Em poucos segundos, senti o tum-tum-tum acelerado bater contra minha palma. Puxei o ar, a realidade me golpeando com força.
Eu conseguia respirar, não estava sendo enforcada. E Kaleb... Ele não existia

— Está sentindo? Eu sou real — sussurrou.

Ergui os olhos para encará-lo e o encontrei ofegante, a boca aberta em completa preocupação. Ele suava frio, a testa inundada pelas gotas grossas. Sua pele estava pálida, as mãos geladas e parecia incapaz de se mover, talvez, temendo que eu fosse fugir assustada.

— Continue escutando e respire devagar. — O polegar acariciou meu pulso, o toque suave nem se comparava às mãos nojentas que um dia deixei que me tocassem. — Está tudo bem... Eu estou aqui. — Depositou um beijo casto sobre o dorso e se aproximou devagar.
, você... Pode me abraçar? — Minha voz embargou e em seguida meu rosto se contorceu, os soluços atingindo o ápice.

Joguei o corpo sem esperar por uma resposta. O puxei com força, urgência, querendo sentir seus braços ao meu redor. Soltei o ar aliviada, quando me abraçou de volta, pousando minha cabeça sobre seu peito de maneira gentil e carinhosa. Os dedos afundaram em meus cabelos, acariciando em círculos, enquanto deixava que as lágrimas molhassem sua camiseta. Meus ombros subiam e desciam como um trem desgovernado, o coração parecia prestes a explodir no peito.

— Ele nunca me deixava respirar... — confessei e segurei seu antebraço, precisava de algo para me agarrar. — Quando me beijava... Ele m-me...
— Shhh... — soprou contra meus cabelos. — Não precisa dizer nada, ... Está tudo bem.

Engoli em seco e funguei, seus braços me apertaram com força.

— Me perdoa... Eu tenho tanto medo...
— Medo do quê, pequena? — Afastou os fios teimosos do meu rosto.
— Medo de nunca conseguir seguir em frente. De sempre ser machucada por ele.

deixou um beijo terno sobre minha cabeça.

— Você vai conseguir. Sabe por quê? — Delicadamente segurou a lateral do meu rosto e fez com que eu olhasse profundamente em seus olhos. — Porque é uma guerreira. É a mulher mais corajosa e sensata que já conheci. Você não é machucada, minha linda, só precisa se libertar desse trauma.

Segurei firme em suas mãos, sentindo o quanto os dedos gelados eram reais. Fechei os olhos e funguei, deixando meu coração se afogar nas lágrimas. Cada gota carregava o peso da minha angústia, da dor que sentia sempre que aquele rosto aparecia para me assombrar. E, por mais que nunca tivesse dito em voz alta, era verdade: eu tinha medo de nunca conseguir me curar e escapar desse tormento.





Deslizei as mãos pelo tecido da camiseta preta, retirando os minúsculos pelos brancos que insistiam em decorá-la. Levei os dedos até o colarinho e abotoei os últimos dois botões, optando por deixar o primeiro aberto. Desci os olhos pelo antebraço em busca de qualquer coisa que pudesse prender a minha atenção, antes que minha mente desviasse o rumo e me levasse de volta para reviver tudo o que aconteceu naquela cozinha.
Com o indicador e o polegar, girei ao redor do pulso esquerdo. Soltei o ar pesado pela boca, buscando o acessório pelo quarto. Abri a gaveta da cômoda e encontrei o relógio que serviria de distração por alguns segundos. E enquanto lutava para prender a pulseira com apenas uma mão, sentia que algo profundo se remexia em meu íntimo. Algo que não conseguiria ignorar por muito tempo.
Eu sabia que a qualquer momento teria de me render e parar de lutar contra as vozes irritantes que insistiam em lembrar que há muito tempo perdi aquela batalha. E por mais que tentasse me convencer de que os problemas da não eram da minha conta, já estava envolvido demais para simplesmente ignorar.
Porra!
Por que a cada segundo que passava era como se o ar me faltasse e fosse levado de volta àquela cozinha? Por que doía tanto relembrar a forma como ela se debateu e tentou me empurrar? E por que me sentia culpado por despertar aquele pesadelo tão sombrio?
Eu só queria beijá-la, sentir o calor dos seus lábios contra os meus. Acalmar a selvageria e toda a possessividade que clamava dentro de mim, implorando que a marcasse como minha. Mas bastou minha mão deslizar pelo pescoço fino, pronto para puxá-la de uma vez pela nuca que todo o meu mundo desmoronou. Ainda conseguia sentir o impacto dos socos e das mãos me empurrando com urgência. Os olhos castanhos tão lindos se transformaram em duas esferas escuras e assustadas.
Sentei-me na cama, sabendo que a qualquer momento poderia perder o equilíbrio. Esfreguei o rosto e afundei os dedos nos fios perfeitamente arrumados, bagunçando-os, talvez pela décima vez naquele dia. Desde que subi as escadas e decidi me arrumar para o jantar, o cronômetro começou a rodar, marcando as piores horas da minha vida. Durante o banho tive de lutar contra a vontade absurda de vê-la a cada cinco minutos. Não conseguia parar de pensar nela.
Era como ser consumido por uma angústia maior que o universo. Queria saber como ela estava; se precisava de alguma coisa. Porque, mesmo que estivéssemos há apenas alguns segundos de distância, queria estar por perto para ajudá-la, por menor que seja o problema.
E tudo isso estava começando a me assustar.
Suspirei pesado e deixei que o corpo afundasse na cama macia do quarto principal. Cobri a cabeça com o travesseiro, pressionando o tecido com força, como se isso pudesse ajudar a esquecer a conversa que tivemos quando finalmente consegui levá-la para a sala e aconchegá-la em meus braços. No entanto, a escuridão e o silêncio apenas serviram para me afogar na vasta lembrança, remoendo cada palavra.
Confesso que nunca fiquei tão apreensivo. Perdi as contas de quantas vezes prendi a respiração enquanto esperava que ela contasse sobre o seu passado traumático e cruel.
Lembro-me das costas se acomodarem perfeitamente contra o encosto do sofá, de modo que as pernas ficassem esticadas e minha coelhinha se enroscasse ali. Meus dedos se perderam no meio dos fios escuros, afagando em um carinho lento e acolhedor. Ouvi sua respiração se acalmando devagar. A cabeça, levemente tombada contra meu peito, depositava toda a sua confiança. A mão agarrada ao tecido da camiseta dava a ela o ar de um filhotinho assustado.
Os ombros subiam e desciam, sendo ali que me concentrei pelos próximos minutos, porque qualquer mudança que seu corpo demonstrasse, um mísero desconforto, precisava estar pronto para agir.
Deslizei o polegar pela bochecha rosada, colocando a mecha teimosa atrás da sua orelha. Inclinei-me e depositei um beijo casto sobre sua cabeça, fazendo-a se encolher mais contra mim, como se quisesse garantir que tudo realmente era real. Desci a mão e delicadamente soltei seu agarre do tecido. Entrelacei nossos dedos, apertando firmemente. Queria que ela se sentisse segura, que visse que eu não sairia do seu lado nem mesmo se alguém entrasse armado naquela casa.
Ela fixou os olhos naquele gesto simples, seu semblante apreensivo.

— Está tudo bem, coelhinha. Eu não vou a lugar algum. — Sondei cada uma das suas reações e, em resposta, senti quando devolveu o aperto. — Podemos ficar aqui o tempo que precisar. — Devagar, inclinei a cabeça e repousei sobre os cabelos macios, esfregando a bochecha delicadamente em círculos. — Não precisamos falar nada, se não quiser.

Um certo desconforto me atingiu. No fundo, eu não queria escutar a verdadeira história por trás dos seus traumas. A mera possibilidade de terem feito algo de ruim contra ela já era o suficiente para a raiva borbulhar dentro do meu peito.

— Eu sinto muito... — disse em um fio de voz e soltou o ar, igual a um fardo pesado.
— Não sinta. Está tudo bem, anjo. — Fechei os olhos e repeti o carinho com a cabeça, não deixando de acariciar sua bochecha com o polegar. — Não precisa se desculpar por algo que não foi sua culpa. Muitas vezes, nossos corpos reagem por impulso quando nos sentimos ameaçados.

se remexeu e deixei que se acomodasse da maneira mais confortável. Deitou-se de lado no sofá, sua cabeça agora repousava em cima da minha coxa, tomando cuidado para não soltar nossas mãos.

— Diariamente, sou mordido por animais que sentiram medo de mim. Principalmente os que foram resgatados de maus-tratos. E está tudo bem. — Com a mão livre continuei o carinho em seus cabelos. — Não é culpa deles, só estavam se defendendo daquilo que os machucou.

Ela delicadamente girou meu pulso, possivelmente em busca de alguma marca. Percebi quando seus olhos se fixaram sobre a pequena cicatriz fina, levemente robusta, que se estendia pelo dorso até o meio do antebraço. A coloração pálida e a textura flácida da pele sempre a denunciaria. Uma marca antiga, cheia de lembranças dolorosas, mas que terminaram com final feliz.

— O Sky foi o responsável por essa obra de arte — revelei, assistindo-a contornar com o polegar. — Quando o resgatei, não poupou esforços para se defender. Ele foi abandonado ainda filhote e os traumas estavam lá.
— Ele só estava assustado — comentou baixo, quase um sussurro.
— É normal sentir medo, ainda mais quando se foi descartado como lixo em uma noite chuvosa e fria.

Acariciei a lateral do braço dela, sentindo aquela pontada característica sempre que lembrava do pequeno gatinho buscando abrigo entre as caixas de papelão encharcadas.
Pobre Sky. Era só um filhote indefeso e desnutrido que me fez correr por dois quarteirões para pegá-lo. Ele não tinha ideia de que o levaria para o calor do meu apartamento, cheio de petiscos de salmão e uma cama quentinha onde passaria a dormir pelo resto da vida, longe dos perigos da rua.

— Aconteceu algo com você, não foi? — A pergunta saiu antes que pudesse evitar.

Ela assentiu e se encolheu.

— Notei que, quando desci a mão para o seu pescoço e me aproximei para beijá-la, você entrou em pânico. Vi o medo estampado dentro dos seus olhos e não foi preciso muito para perceber que entrou em pânico.
— Não foi você, ... E-eu... — balbuciou, apertando com força a minha mão.
— Eu sei que não... — Mordi os lábios, não sabendo se deveria continuar com aquela pergunta. — , foi o Dante? — Meu coração deu um solavanco e pensei que fosse infartar antes de receber a resposta.

Ela fungou e pareceu ponderar antes das palavras saírem pela sua boca.

— Não. O Dante me ajudou quando tudo aconteceu... — Ela desenhou círculos imaginários pela minha panturrilha. — Foi ele que comprou minha passagem para Boston e garantiu que... — Sua voz hesitou e senti algumas gotas quentes molharem o tecido da calça.
— Não precisa falar sobre isso, anjo. — Inclinei-me e capturei as lágrimas com o polegar. — O que acha de assistirmos a um daqueles filmes românticos que você tanto gosta? — A onda de culpa me atingiu em cheio, de modo que nem mesmo conseguia respirar.

la negou com a cabeça e puxou o ar com força, como se buscasse coragem para continuar a falar.

— O Dante garantiu que cuidaria de tudo. Prometeu que ele nunca mais ia me machucar. — continuou entre soluços.
— Ele tocou em você? A forçou...? — Engoli em seco, quase não tendo forças para continuar respirando. Não conseguia nem pensar na hipótese de alguém tê-la ferido dessa maneira.
— Ele tentava... — confessou, a voz trêmula somente de pensar naquele demônio. — Mas não do jeito que você me toca. E-eu gosto do seu toque.

Ouvir aquelas palavras foi como cair no abismo e ser puxado de volta, antes de atingir o chão. As garras afiadas rasgavam meu peito, enlouquecidas para saírem e acabar com a raça daquele infeliz. Tencionei a mandíbula e mordi a ponta da língua, contendo a raiva que queria se apossar dos meus sentidos.
soluçou mais alto. Os ombros subiam e desciam com desespero. Sua mão se soltou da minha, se encolhendo como um filhotinho amedrontado. Em um movimento cauteloso, afastei nossos corpos o suficiente para que pudesse me deitar no sofá e puxá-la para perto. Ela afundou o rosto na curva do meu pescoço, as lágrimas saíram pesadas. Cada gota salgada carregava a carga pesada da sua dor.

— Nunca contei isso para ninguém... — sussurrou contra minha pele. — Tive tanto medo, que nem mesmo o meu irmão sabia disso.
— Me conte o que quiser, coelhinha. — Beijei sua têmpora e a abracei com força. — Se não se sentir pronta, tudo bem. Podemos ir devagar.
— Tentei procurar ajuda, , mas... Eu não consigo falar sobre isso com ninguém.
— Está segura comigo, pequena. Nunca deixarei nenhum homem chegar perto de você. E aqueles que ousarem tocá-la terão as mãos arrancadas antes que consigam. — Até o submundo teria medo do que eu seria capaz de fazer para protegê-la. — Pode confiar em mim. — Peguei em seu rosto, olhando dentro daqueles olhos perfeitos. — Me conte tudo o que quiser.

soltou o ar pela boca e fechou as pálpebras pesadas. Aproximei-me lentamente, depositando um beijo quente e acolhedor em sua testa. Eu queimaria o mundo por ela, e todos seriam testemunhas da minha devoção.

— Decidi que queria cursar direito em Nova York, todas aquelas leis me fascinavam. E sempre desejei conhecer a cidade. — disse, após um tempo, a voz baixa e cheia de ressentimento. — Tinha acabado de publicar o meu primeiro livro. Juntei todas as economias e aluguei um apartamento em Manhattan. Vivi um sonho por alguns meses. — abriu os olhos e segurou em minhas mãos, as lágrimas já se formavam no canto dos olhos.

Engoli em seco. Porra, ela era só uma garota inocente atrás dos seus sonhos, nenhum demônio tinha o direito de transformar isso em uma memória traumática.

— Conheci o Kaleb quando comecei a trabalhar em uma livraria para pagar as contas. — Então esse era o nome do desgraçado. — Ele passou a ir na loja todos os finais de semana e sempre me presenteava com buquês de rosas.

Incrível como grande parte dos babacas se escondiam por trás da imagem de príncipe encantado.

— No começo, ele era gentil, romântico, mas depois de um tempo passou a querer me controlar. Sempre julgava as roupas que eu usava, dizia que pareciam de prostitutas. Escolhia até os meus amigos, que, segundo ele, não eram boas companhias. — Ela ofegou e voltou a esconder o rosto no meu pescoço. — Conheci o Dante na academia do bairro. Ele foi o único que o Kaleb não conseguiu afastar, porque fazia parte do seu círculo de amizades. Por isso, não disse nada quando fomos morar juntos, mas o seu silêncio não durou muito tempo.

O nó se formou na minha garganta e tive de morder a língua para não enlouquecer com aquela revelação.

— O Dante não sabia que ele era assim, e eu também nunca contei. — encolheu-se mais em meus braços. — Até o dia em que Kaleb tentou me forçar pela primeira vez... — Sua voz ficou trêmula e a abracei. — Acabei dormindo no sofá e quando acordei... E-ele estava em cima de mim e falava que, se eu não me entregasse, era porque não o amava... — A cada soluço que escapava da sua boca, meu coração se quebrava mais e mais. — O Dante chegou a tempo de impedi-lo, e todo o inferno começou...
— Maldito, desgraçado. — Ah, como eu queria poder acabar com aquele infeliz. — Por favor, me diga que depois disso, ele nunca mais chegou perto de você.
— Não quando o Dante estava por perto para me proteger.

Por um momento, me senti imensamente culpado por ter olhado para aquele homem com outros olhos.

— Mas ter o Dante por perto nunca foi o suficiente. O Kaleb me perseguia, parecia querer me devorar a qualquer momento. — Soltou o ar e senti o quanto era difícil para ela mergulhar no passado. — Todos os dias tinha medo de sair de casa. Na livraria, meu corpo gelava só de ouvir a porta sendo aberta. E na hora de ir embora, pedia para o taxista me deixar na academia que Dante estagiava e esperava até que pudéssemos ir embora juntos. Ao lado dele, sentia que nada poderia acontecer.
— Coelhinha, se eu pudesse voltar no passado acabaria com a raça desse filho da puta. O faria se arrepender de ter encostado os dedos em você. — Acariciei o seu braço, deixando outro beijo em sua testa.
— Deve estar me achando uma idiota por ter tido aquele ataque. — Cobriu o rosto com as mãos. — Estou com tanta vergonha. Você é o primeiro homem que aceito que me toque. O primeiro com quem me sinto segura para querer algo a mais... É irônico, pensar que depois de tudo o que passamos, você é o único que não me assusta.
— Ei... — Puxei suas mãos delicadamente e beijei o dorso. — Estou aqui para o que você precisar. E não me importo de esperar até que esteja pronta para seguir em frente. Já esperei por você todos esses anos, não pretendo desistir agora.
Soldei o seu rosto e vi quando os belíssimos olhos castanhos ganharam luminosidade. Isso bastou para reacender o desejo de tomar seus lábios com os meus. Sentir o gosto da sua boca e deixar que possuísse cada pedacinho da minha sanidade.

Ansiava que ela fosse minha, que me deixasse curar suas feridas, a libertasse desses pesadelos. Mas a linha entre nós estava ali para me lembrar de que não deveria cruzar o limite. A confiança dela era tudo o que eu tinha. E se fosse preciso passar anos reprimindo o desejo, ficaria preso até o dia em que me permitisse mostrar o mundo de outra vista.

— Você disse que procurou ajuda, mas não consegue falar sobre isso — comentei.

suspirou profundamente entre soluços, antes de acomodar a cabeça sobre meu peito.

— Faço acompanhamento com a psicóloga desde que fui embora de Nova York. Achei que com a ajuda de um profissional conseguiria superar esse trauma, mas eu...
— Não consegue se abrir com ela — concordou em um aceno de cabeça. — Já pensou em experimentar outra profissional? Talvez, uma nova abordagem possa ajudá-la.
— Nunca vou superar, — revelou, a voz por um fio. — Estou destinada a viver com a dor. Primeiro os meus pais, depois o Kaleb, agora o Noah...
— Ninguém é destinado a viver com dor, pequena — sussurrei contra seus cabelos, o aroma delicioso de argan invadiu meus pulmões como calmante. — Nós aprendemos a conviver com ela. Mas no seu caso a está impedindo de viver.

Encolheu-se mais um pouco.

— A Yelena pode ajudar. — Lembrei da secretária que sempre dava um jeito de fazer terapia gratuita na clínica veterinária. — Ela estuda psicologia, tenho certeza de que conhece um profissional capacitado que vai ajudá-la a superar esse pesadelo.
— Como tem tanta certeza de que mudar de profissional irá me ajudar?
— Porque dessa vez não enfrentará isso sozinha. Estarei do seu lado, mesmo que meus neurônio queimem por ouvir suas histórias de romance — brinquei, tentando descontrair o clima tenso.
— Desde que não me mate de colesterol, acho que será uma troca bastante justa. — Ela sorriu e a pequena risada aqueceu meu peito de maneira inexplicável.

Voltei a afundar os dedos em seus cabelos e, em movimentos sinuosos, enchê-la com carinho e cuidado. remexeu a cabeça, aconchegando-se em meus braços, apreciando cada minuto do silêncio que compartilhamos juntos naquela sala.
Não demorou muito para escutarmos um choro baixo e quase doloroso vindo do andar de cima. Olhei para a mulher, encontrando os olhos fechados e o semblante tão relaxado que nem parecia a mesma que teve um pequeno surto de pânico. Depositei um beijo casto em sua testa e tentei sair do sofá, sendo impedido pelo seu braço fino que agarrou firme em minha cintura.
Por sorte, Greta apontou na sala vindo da lavanderia da casa e se ofereceu para socorrer Mia da fome. Enquanto eu fiquei ali, apreciando cada detalhe da coelhinha adormecida, completamente enfeitiçado por ela, sendo naquele momento que percebi ter tomado uma decisão.
E por isso, agora, estava deitado nessa cama de casal, relembrando nossa conversa, enquanto lutava em uma guerra que já havia perdido dentro de mim. Eu queria por inteiro. Queria todas as suas dores, os seus medos, traumas, até mesmo as histórias românticas açucaradas... Desejava ter o pacote completo daquele furacão que prometeu virar minha vida do avesso.
Aquela coelhinha remexeu com todos os meus sentidos, me fez cair de joelhos e por mais assustador que fosse, aceitaria o meu destino.

— Por favor, me diga que não desistiu de ir ao jantar? — A voz dela invadiu o quarto e cada pelo do meu corpo enrijeceu. — Se desistiu, prometo que o levarei amarrado.

Retirei o travesseiro do rosto e girei a cabeça para encontrá-la parada na porta. Tive de engolir seco, diante da verdadeira imagem da perdição.
Os braços cruzados em frente ao peito empinavam os seios tão apertados, tornando impossível desviar o olhar. A leve camada de maquiagem destacava as maçãs do rosto, mas não escondia o semblante fechado. O bico adornando a boca carnuda apenas aumentou o desejo primitivo de jogá-la contra a parede. Desci os olhos pelo simples vestido preto que destacava cada curva do corpo pequeno que tanto assombrava meus pensamentos – e fazendo com que uma certa rigidez se formasse naquele lugar em específico.
Porra, maravilhosa demais.

— Você está linda. — Levantei-me em um salto. — Para a segurança do Dante, é melhor que nem coloque os olhos em você. Caso contrário, seria obrigado a deixá-lo cego.

Ela sorriu com o canto dos lábios e colocou uma mecha atrás da orelha.

— Não seja ciumento, não há motivos para isso. — Empinou o nariz, e não me contive, segurando sua cintura.

Meus dedos apertaram levemente por cima do tecido e senti quando ela subiu as mãos pelo meu tronco, delineando cada músculo pelo caminho. O seu toque era como a brisa suave do mar, quente e sutil. Trinquei o maxilar e segurei o grunhido gutural que ameaçou escapar quando ela subiu para meu pescoço, deixando o rastro ardente pelo caminho.
Oh, senhor... Isso era muito gostoso.

— Se continuar, vai acabar me enlouquecendo... — sussurrei em um aviso.
— Desculpe, achei que gostasse disso. — A desgraçada mordeu o lábio inferior e continuou com o carinho, de fato decidida a me enlouquecer.

Puxei seu corpo contra o meu, fazendo-a soltar um gritinho assustado. Ela riu e jogou os braços ao redor do meu pescoço. Sua pele macia me envolveu em um abraço, e tive de controlar o anseio, apenas me contentando em inspirar o perfume adocicado próximo da sua orelha. Os pelinhos da nuca se arrepiaram, causando-me uma excitação quase dolorosa só de imaginar ser o primeiro a fazê-la sentir todas essas reações.
Depositei um beijo casto na lateral do pescoço, incapaz de controlar o instinto que insistia em querer reivindicá-la.

— Gosto quando me beija assim— sussurrou para que apenas eu pudesse ouvir.

Suas palavras baixas e íntimas, junto dos dedos que se enroscaram em meus cabelos, soaram como sinos badalando. Uma validação que vibrou em cada célula do meu ser. E, incapaz de resistir, meus lábios se fecharam em torno da pele com certa urgência. Suguei suavemente, aprofundando o beijo molhado e arrancando de o incentivo que precisava para continuar.
Ela gemeu rouca e tão delicioso, me intimando a repetir o movimento, junto da língua que lambeu da base até alcançar o lóbulo da orelha, o rastro quente e úmido em completa veneração. Deixei uma pequena mordida ali e ofeguei, a respiração quente causou mais uma onda de arrepios. Em resposta, puxou os fios do meu cabelo, um suspiro deleitoso escapou por entre seus lábios.
Não contive o sorriso de satisfação. Saber que todos os seus gemidos eram só meus, fazia uma onda de possessividade me afligir com êxito.

... Vamos perder o jantar. — Com o polegar acariciei em círculos a cintura fina. — E não vou conseguir me controlar por muito tempo. — Mordisquei o seu maxilar.

As mãos pequenas e macias envolveram meu rosto. Por um breve momento ela encarou minha boca com tanta luxúria dançando em suas íris, que quase a puxei contra minha ereção endurecida, dolorosa... Eu estava louco para sentir o calor dela se misturando ao meu; o cheiro de romã e verbena me levando à perdição.

— Temos de ir — ela murmurou.

Aanuí e retirei as mãos do meu rosto com dificuldade, recuando os passos. Estava ciente de que se não me afastasse agora, não conseguiria mais responder por mim. Inspirei profundamente, arrumando a camiseta amarrotada e a ereção dolorida que marcava a calça jeans. De relance, engoliu em seco, enquanto admirava o volume.
Um sorriso lento e vulpino se curvou nos meus lábios, cheio de promessas. Ela desviou o olhar rapidamente.
Ah, coelhinha... Na próxima vez que eu te tocar, não vai ter nada nesse mundo que vai me impedir de parar.






tocou a campainha da casa e se virou com as mãos unidas em frente ao corpo; o sorriso genuíno decorava sua boca perfeita enquanto nos olhava. Eu esperava pacientemente que Mia arrancasse as minúsculas flores brancas no vasto gramado que decorava a entrada da residência, tornando o ar ameno, com um leve cheiro de terra molhada.
A pequena apoiou as duas mãozinhas no chão e se levantou. Caminhou em minha direção, estendendo a flor. Agachei-me e ela gargalhou em êxtase, esfregando o micro buquê contra meu nariz. Não contive o sorriso, puxando-a para mim e depositando um beijo em sua bochecha. Ela tentou se desvencilhar do meu agarre, sem sucesso.
Peguei a florzinha que caiu no chão, ajeitando-a entre os fios loiros escuros dela, presos em tranças delicadas. Mia soltou um gritinho de felicidade e correu desajeitada até , tratando de estender o ramo como um presente. A mulher o aceitou e colocou no próprio cabelo, antes que a porta se abrisse, anunciando a ilustre presença da loira.
Endireitei o corpo, a tempo de ver Mia presenteando Bethany. Ela abriu um daqueles sorrisos cheios de luminosidade que pareciam acompanhá-la a todo momento.

— Obrigada, princesa. Agora vou ficar igual a vocês! — exclamou, também usando a planta como um acessório. — Estamos lindas! — Bateu palmas empolgada.

Aproximei-me e o cheiro adocicado que tanto me desconcertava invadiu minhas narinas. No automático, minha mão escorregou para a cintura de . Eu a senti estremecer sob meu toque, antes de descer os olhos para a palma. Dei-me conta do que havia feito e estava prestes a me afastar, temendo assustá-la, quando fui interrompido. Ela segurou minha mão, mantendo-a firme no lugar.
Um pequeno sorriso discreto surgiu em seus lábios ao me encarar, as bochechas ficaram tingidas por um leve tom rosado.
Encantadora.

— O jantar está quase pronto. Vou apenas finalizar o risoto — Bethany disse, abrindo caminho para que pudéssemos entrar. — Vou pedir que só tomem cuidado com o Woody. Aquele pestinha deve estar escondido, pronto para atacar — brincou e olhou embaixo da mesa de centro da sala.

Peguei Mia no colo e juntos olhamos ao redor, aproveitando que Bethany e iniciavam uma conversa animada sobre o risoto. A pequena apontou para a estante modular acoplada ao móvel de TV branco, com nichos abertos que exibiam pequenos objetos decorativos, mas os que chamaram sua atenção foram os vasos minimalistas que habitavam cactos.
Aproximei-me para olhar mais de perto, tomando cuidado para que ela não tocasse nos espinhos. Observei que em frente ao televisor ficava um sofá retrátil de três lugares de cor cinza clara com almofadas bege acinzentadas, que se encontravam bagunçadas. Uma delas rasgada, espalhando espuma por todo o estofado.
Com certeza, obra do husky siberiano.
Havia também uma mesa de centro retangular feita de madeira, decorada por minúsculos vasos com mais cactos. Percebi que os cantos estavam mastigados e arranhados, e como se não fosse o suficiente, notei a semelhança das mordidas com as marcas no pé do móvel de TV e na porta. Arqueei a sobrancelha, que tipo de fera a Bethany criava nessa casa?

— Quantas vezes vou ter de dizer que você não pode comer os meus tênis? — A voz cheia de repreensão surgiu no topo da escada.

A cena era hilária.
Dante descia degrau por degrau com uma calma controlada. Os braços fortes seguravam o gigantesco cachorro que se debatia e uivava — a palavra certa seria: gritava — para que todo o quarteirão ouvisse. Fiz uma careta, o grito agudo e alto ecoando pela sala quase nos deixando surdos. Típico da raça, são escandalosos, dramáticos e muito bagunceiros.
Bethany cobriu a boca, evitando que a gargalhada saísse, enquanto eu e não conseguimos conter o riso.

— Quem teve a ideia de ter esse cachorro? — Dante gritou por cima da melodia.
— Você teve. Disse que precisávamos de um animal de estimação — a irmã respondeu, deixando que a gargalhada saísse.
— Isso não é um animal de estimação, é uma máquina de destruição.
, diga ao meu irmão que o Woody é só um filhote de quatro meses e por isso ele destrói tudo o que vê — pediu, apontando para o cachorro que se balançava feito um maluco.

Dante finalmente soltou a criatura que fez questão de sentar-se no meio de todos e uivar até que nossos tímpanos implorassem por socorro. Mia ficou eufórica, remexeu no meu colo, praticamente se jogando em direção ao animal e, se não fosse pelo meu reflexo, tinha encontrado o chão em poucos segundos.

— É só uma fase — comentei, entregando a bebê para . — Huskies siberianos possuem muita energia, principalmente nessa idade. — Avistei uma bolinha verde perto do sofá e tive a péssima ideia de pegá-la.

Os próximos segundos foram resumidos em verdadeiro caos. Nem tive tempo de pensar quando fui atacado.
As patas grandes e pesadas se lançaram contra mim, o golpe certeiro logo no tórax causou um formigamento no estômago. Minhas costas atingiram o estofado macio com violência, enquanto Woody atacava, escalava e pulava sobre mim, determinada a pegar a bolinha a todo custo, feito um furacão de pelos e garras. Os olhos cristalinos, vidrados no brinquedo, possuíam um brilho intenso, completamente possuídos.
Pelos deuses, essa coisa era tudo, menos um cachorro.

— Se até um veterinário sofre com o Woody, quem somos nós para falar alguma coisa? — Bethany disparou zombeteira.

Joguei a bolinha para cima. A ferinha se equilibrou nas duas patas traseiras, caminhou para trás com agilidade e, sem tirar os olhos do brinquedo, bocanhou-o. Rapidamente fugiu para a cozinha, esbarrando em alguma coisa pelo caminho que estourou no chão. Pelo barulho, os estilhaços voaram para todos os lados.
Dante apertou o canto dos olhos e soltou um suspiro exasperado.

— Às vezes, eu acho que, além de atrapalhado, ele ainda é cego — comentou e correu para a cozinha.
— Coloque-o no quintal, antes que faça mais alguma besteira — Bethany gritou, ainda com o sorriso brincando em seus lábios.

Em seguida, mais um estrondo estourou e, com toda certeza, mais cacos de vidro se espalharam. Ela fez uma careta, apontando para o cômodo após Dante gritar o nome do cachorro, de modo que os vizinhos logo bateriam na porta perguntando sobre o que estava acontecendo ali.

— Eu vou ajudá-lo com a bagunça. O Woody deve ter esbarrado na cristaleira de novo. — E, em seguida, se moveu como um raio, mas antes parou no batente. — , pode dar uma olhadinha no risoto, enquanto isso?
— Claro.
— Pode deixar a Mia junto com a Jessy no cercadinho, ela está lá no jardim — disse e desapareceu.

e eu nos entreolhamos. Os risos saíram de forma tão espontânea que parecemos conectados de outros mundos. Levantei-me em um salto e fui em sua direção, a tempo de salvá‑la do ataque de Mia, que enroscava os dedos entre os fios negros, puxando‑os como se fosse a melhor diversão do mundo.

— Deixa ela comigo, você tem que salvar o jantar — brinquei, envolvendo o corpo da pequena.
— Se o Woody deixar, vamos ter o melhor risoto. Aprendi essa receita com o Noah, ele adorava. — O sorriso dela se iluminou em completa afeição.

Foi a primeira vez que a vi falar do irmão sem a tristeza e a dor dominando aqueles olhos tão magníficos.

— Tenho certeza de que será o melhor risoto da minha vida. — Sorri abobalhado, hipnotizado pelas bochechas ruborizadas à minha frente.
— E você faça amizade com a pequena Jessy. — Aproximou-se e esfregou o nariz no da princesa.

Depositou o beijo na testa de Mia. Depois saiu com a missão de salvar o risoto antes que ele queimasse e nosso jantar acabasse em pizza. Ao fundo, as vozes de Bethany e Dante ganhavam a cena, tentando controlar o lobo indomável. Não hesitei em seguir pelo mesmo caminho e atravessar a cozinha, indo até a porta aberta que dava vista para um extenso jardim verde e bem cuidado.
Woody latiu quando um frisbee — ou pelo menos o que restou dele — voou e o fez correr feito um trem desgovernado, as patas arrancando grama conforme se moviam. O objeto bateu contra a cerca branca e o cachorro desengonçado não conseguiu evitar que o corpo fosse de encontro com a madeira. Ele logo se recuperou e pegou o brinquedo, como se nada tivesse acontecido.
Balancei a cabeça em negação, concluindo que aquele cachorro precisava passar alguns dias com um adestrador. Porque se continuasse daquele jeito, ia acabar se matando sozinho. Ele possuía uma energia que aquele corpo peludo não suportava. E, apesar dos huskies serem uma raça que adorava brincar, Woody ultrapassava o limite.
Ao fundo, ouvi Bethany brigar com Dante. Ela falava sobre o fato do irmão insistir em jogar um frisbee para um cachorro que não possuía coordenação motora e que, por isso era melhor usar outro brinquedo antes que acontecesse um acidente. A loira batucou o dedo indicador contra o peito do homem, ameaçando arrancar as bolas dele, caso Woody se machucasse.
Em seguida, marchou de volta para a cozinha com a vassoura e uma caixa de papelão, provavelmente para limpar os cacos de vidro. Assisti quando Dante se sentou no banco de madeira que combinava com a mesa, próximo à casa. O husky foi em sua direção e largou o brinquedo aos seus pés. Vi quando ele sorriu e conversou com o cachorro, distribuindo carinho na cabeça cheia de pelos pretos e brancos.
Woody apoiou a cabeça sobre os joelhos do dono e as mãos do homem afagaram as orelhas pontudas, enquanto balbuciava palavras que não fiz questão de entender. De uma coisa tinha certeza, poderia ser o cachorro mais atrapalhado e bagunceiro do universo, mas se havia algo que reconheci naquela cena foi todo o amor e carinho que Dante compartilhava com ele. Assim como eu fazia com Sky.
Aproximei-me e, ao lado da mesa, encontrei o cercadinho onde Jessy brincava com bonecas e bichinhos de pelúcia. Por um momento, arrependi-me de não ter deixado Mia levar o ursinho favorito.

— Deveria levá-lo a um adestrador — comentei, colocando a princesa no cercadinho.

Endireitei o corpo e cruzei os braços, enquanto Dante continuava a acariciar o canino.

— Todos acham que ele é um cachorro problemático. — Soltou o ar em um desabafo.
— O Woody, nesse momento, é só uma bomba de energia que precisa ser canalizada, por isso está agindo desse jeito. — expliquei, observando alguns buracos cavados no jardim. — O tédio o faz querer destruir tudo. Essa raça foi feita para trabalho e, por isso, exige muito exercício físico e mental.
— O levo para correr todos os dias, achei que fosse o suficiente.
— Eles foram criados para percorrer longas distâncias. Nossos treinos de aeróbicos não chegam nem perto do que foram feitos para fazerem.

Inclinei-me para pegar a bolinha verde. O simples ato bastou para o cachorro entrar em estado de pânico. Ele abandonou o carinho e veio na minha direção, disparando pulos e mais pulos a fim de pegar o brinquedo, completamente descontrolado. Os gritos ensurdecedores começaram em desespero, e tive de buscar apoio na mesa quando saltou com mais força e determinação, quase me derrubando.

— Um adestrador vai ajudá-lo a controlar os impulsos e ensiná-lo a ter consciência do seu tamanho — berrei e joguei a bolinha, antes que acontecesse um acidente.

Woody correu como se sua vida dependesse disso, enquanto precisei massagear a barriga assim que a dor atingiu meus músculos. Aquela coisa possuía uma força fora do comum. Segurei o grunhido que ameaçou escapar.

— Posso indicar alguns adestradores acessíveis e que terão paciência com ele. — Arfei, tentando recuperar a postura.
— Tem certeza de que isso vai ajudar? — A dúvida pairou em seu rosto.
— Absoluta. — Afastei-me e iniciei a luta para tirar a bolinha da boca de Woody. — Ele deveria soltar, e não agir desse jeito. — Meu braço foi chacoalhado como se não fosse nada. — Senhor, o que você come, amigo? Não é normal ter tanta força. — Franzi o cenho para o animal e finalmente peguei o brinquedo.

Arremessei antes que fosse atacado.
Em seguida, Bethany gritou para que o irmão a ajudasse a levar os utensílios para arrumar a mesa do lado de fora, assim poderíamos jantar em paz, sem o risco de Woody atrapalhar. Dante, antes de obedecer, disse que falaria mais sobre o adestrador comigo, já que possuía algumas dúvidas. Apenas concordei com a cabeça e, enfim, fiquei sozinho com o furacão peludo, destruidor de móveis.
Agarrei a bolinha e repeti o lançamento por mais algumas vezes, concentrando-me em gastar um pouco da energia do canino. Enquanto observava procurar pelo brinquedo, que sem querer caiu entre os gigantescos vasos de girassóis e rosas vermelhas, aproveitei para olhar ao redor. O quintal possuía uma árvore grande perto da mesa; preso ao galho havia um balanço infantil. A grama tinha a coloração tão verde que se assemelhava às sintéticas e, claro, se abria em alguns buracos cavados por Woody.
Lancei o olhar rapidamente para as bebês e, perto do cercadinho, vi o frisbee que Dante havia jogado para o cachorro mais cedo. Arqueei a sobrancelha, fui até o disco e o peguei. Um pedaço havia sido quebrado ou, talvez, mastigado. Encarei o brinquedo e levantei a cabeça, encontrando o husky ainda vasculhando entre as flores. Seria uma ótima ideia tentar ensiná‑lo a brincar com aquilo.
Pressionei os lábios, soltando um assobio alto que o atraiu. Balancei o objeto e, feito um raio, o peludo correu na minha direção. Consegui fazer com que sentasse e não me atacasse depois de várias tentativas. Passei a tentar explicar as regras da brincadeira, mesmo sabendo que sequer seria compreendido. Woody tinha os olhos vidrados no disco, acompanhando qualquer mero movimento que eu fazia com as mãos.

— Vamos tentar não acertar a cerca — disse e lancei o frisbee sem usar muita força em um voo rasante.

Woody rapidamente abocanhou o plástico, fácil demais.

— Bom garoto. Agora, traz até aqui — chamei com as mãos e, para a minha surpresa, ele obedeceu. — Isso, garoto! — Puxei o disco, distribuindo carinho em sua cabeça. — Vamos de novo.

Ficamos ali pelos próximos minutos, repetindo a brincadeira e tomávamos cuidado para que não chegasse perto da cerca ou de qualquer outro objeto que pudesse causar um acidente. Nossos movimentos se assemelhavam a um treinamento militar. O cheiro de terra molhada se misturava ao cheiro do meu suor e ao aroma canino que exalava de Woody, tornando o momento leve e descontraído.
Algumas vezes, corri junto com o cão, a fim de incentivá‑lo a se concentrar no disco voador. Meus músculos queimaram com o exercício, mas o sorriso, sempre que o via pegar o brinquedo do ar, não abandonava a minha boca. Sempre tirava um tempo para brincar com os cachorros que se hospedavam na clínica, mas nenhum chegava perto do pico de energia de um husky siberiano.
Parei e apoiei as mãos sobre os joelhos, puxando o ar com urgência. Woody saltitava, as patas dianteiras batendo no chão em desespero. O uivo saiu do fundo da sua garganta e lancei o frisbee mais uma vez, assistindo-o disparar de um canhão.
Endireitei o corpo quando dois vultos surgiram na soleira da porta. Minha visão ofuscada localizou um borrão preto e outro branco. Pisquei algumas vezes, a tempo de ver Dante se aproximar da mesa e estender a toalha. Foi então que surgiu, carregando pratos e talheres, enquanto conversavam sobre algo animadamente. Estreitei os olhos assim que ouvi a risada tão familiar e, novamente, ver aquele sorriso estampado nos lábios dela me causou o sentimento de repulsa.
A lâmina afiada remexeu cada fibra do meu ser, me rasgando por inteiro.
Cerrei os punhos, os nós dos dedos ficando brancos de tanta força. Até tentei me concentrar na brincadeira com Woody, jogando o frisbee de qualquer jeito, mas bastou assistir e Dante se abraçando para que todo o meu mundo parasse. Foi como ser atingido por uma descarga elétrica. Meu corpo enrijecido e o ar esvaziou dos pulmões. Tensionei a mandíbula, podendo jurar que meus olhos foram inundados por uma possessividade que facilmente me deixava cego.
O monstro dentro de mim gritou para que os separasse; para que mostrasse a Dante onde era o seu lugar. O sangue subia pelas minhas veias como brasa, espalhando a euforia primitiva por cada célula do meu ser. Apertei mais as mãos em punho até os ossos estalarem. Porra, eu precisava acalmar a fera que insistia em querer marcá-la como minha.
era uma mulher livre e eu nunca deveria tomar essa decisão por ela.
E ciente da tremenda asneira que poderia fazer, o universo escolheu justo aquele momento para que Woody pulasse contra minhas costas e me arremessasse de encontro com o chão, acabando de vez com o pequeno surto. Balancei a cabeça e meu maxilar tremeu de dor, concentrando-se no queixo onde com certeza tinha um belíssimo ralado.
Fechei os olhos, apoiando as mãos no chão em uma tentativa falha de me levantar. Grunhi com o movimento, meu corpo inteiro reclamando. E, como se não bastasse tamanha humilhação, tive de conter as lambidas invasivas de Woody. Ele parecia querer se certificar de que estava tudo bem e, ao mesmo tempo, pedir desculpas pelo acidente.
Céus, isso era para eu aprender a parar de agir como um maníaco.
Escutei a risada zombeteira ao fundo. Levantei a cabeça, ainda lutando com o husky.

— Você está bem? — Dante apareceu no meu campo de visão, um misto de curiosidade e preocupação dominava o seu olhar.

Ignorei a raiva que borbulhou no meu peito. A minha vontade era enxotá-lo dali com a mesma violência que o seu cachorro usou para me derrubar. Mas as lembranças da promessa que fiz a piscou dentro do meu cérebro, fazendo com que o ciúme fosse deixado de lado.
Dante estendeu a mão e aceitei a ajuda, mesmo a contragosto. Passei as mãos pelo queixo ferido, os dedos ficaram levemente manchados de sangue. Em seguida, bati as mãos nas roupas, limpando a poeira e os vestígios de terra e grama. Aproveitei para engolir o desejo de agarrar aquele homem pelo colarinho e mostrar a quem pertencia.
O silêncio se instalou, quebrado apenas pela respiração ofegante de Woody, que estava sentado entre nós. O clima ficou tenso e me concentrei em ganhar tempo, fingindo interesse na grande mancha marrom na minha calça, resultado do gramado levemente úmido.
Dante pigarreou.

— Então... — Colocou as mãos na cintura. — Você e a ...?

Paralisei por um instante diante da pergunta, não sabendo como respondê‑la. O que ele queria saber? A verdade ou toda a raiva que queimava meu âmago sempre que os via juntos? Eu poderia mentir e dizer que estava em um relacionamento com , mas o senso me fez morder a língua. Afinal, eu realmente não sabia definir o que éramos um do outro.

— É complicado — respondi e evitei contato visual, continuando a limpar a poeira das roupas. — Ela me disse que vocês se conheceram na academia de bairro em Nova York — desconversei, a cólera subindo pela garganta.
— Isso foi há muito tempo. — Ele olhou para a grama, o olhar parecendo perdido. — Ela é uma daquelas mulheres de quem você não entende o porquê de querer protegê-la de tudo. — Suas palavras soaram como uma confissão.

Sua mão alcançou o meu ombro e deixou alguns tapinhas ali.

— A propósito, ela talvez tenha me conhecido na academia de bairro, mas não foi lá que eu a conheci. — Ele finalmente me encarou, os olhos azuis se estreitando levemente.
Ei, vocês dois! — Bethany gritou, atraindo nossa atenção. — O jantar está pronto! — anunciou com entusiasmo. — , soube que o Woody te derrubou; se precisar de curativos, pode pegar no armário do banheiro.

Assenti em agradecimento. Soltei o ar em alívio pela interrupção, enquanto lançava um último olhar para Dante, que apenas me devolveu um sorriso enigmático, sem os dentes, antes de seguir para a casa. Arqueei a sobrancelha. Por que eu sentia que havia alguma coisa estranha acontecendo ali? Como foi que ele a conheceu? seria capaz de mentir para mim?

*****


Grunhi, limpando o ferimento com o auxílio do espelho. A dor não era nada comparada ao sentimento de euforia que contaminava cada fibra do meu corpo. Desinfectei a região e depois li o rótulo da pomada que Bethany havia oferecido. Por sorte, havia sido apenas um machucado superficial, então não precisaria de mais do que alguns dias para estar completamente curado.
Encarei o meu reflexo, espalhando o produto até que não restasse mais nada. Enquanto isso, impedi que os pensamentos saíssem do controle e comecei a refletir sobre as palavras de Dante. Guardei o kit de primeiros socorros no armário embaixo da pia do banheiro, tomando a decisão de não pensar na possibilidade de ter mentido sobre o seu passado.
Eu confiava nela e isso era tudo o que importava.
Balancei a cabeça, afastando qualquer asneira, e decidi sair do banheiro. Bethany já havia batido na porta duas vezes, preocupada com meu estado e pedindo mil desculpas pelo comportamento de Woody, então para ela aparecer de novo não custava muito. Atravessei o corredor e entrei na cozinha, já ouvindo o som de risadas e a voz de ao longe. O timbre risonho e cheio de harmonia fez meus lábios se curvarem em um sorriso.
Adorava vê-la rir e sorrir, mesmo que, no fundo, sinta o incômodo doloroso por saber que todas as suas expressões eram direcionadas a outro homem.

— Aquele dia vai ficar para a história. O seu irmão me convenceu a pular o muro da faculdade para podermos assistir a um show de pop — contou animadamente, o clima íntimo rodeando a mesa.
— Era o show do Imagine Dragons e ela passou o semestre inteiro falando sobre isso — Dante complementou com um sorriso, tomando um gole do suco.
— Eu só não sabia que ele seria capaz de me convencer a matar aula. — Ela riu, levando a colher cheia de risoto até a boca.
— Meu irmão sabe ser muito persistente quando quer — Bethany comentou, concentrada em alimentar a filha sentada em seu colo.

Observei o sorriso cúmplice que Dante lançava na direção de , enquanto contava mais uma de suas aventuras de faculdade ao lado dela. Cerrei os punhos, sentindo aquele formigamento na boca do estômago. O gosto desagradável da bile subia pela garganta em uma gigantesca carga de ciúmes. Engoli em seco e, sem querer ser invasivo, silenciosamente, caminhei para o lugar vago na ponta da mesa. Por ironia do destino, ficava entre os dois, sentados um de frente para o outro. Notei a troca de olhares por cima da mesa, percebendo que ficaria enjoado antes do final da noite.
Girei a cabeça e encontrei Mia ainda dentro do cercadinho, brincando com as bonecas. Estufei o peito e assumi meu papel de pai. Fui até ela e a peguei nos braços, recebendo certa relutância em troca. Ela se remexeu, soltando sons desconexos de insatisfação, a testa franzida lhe deixou com uma fofura que me fez querer apertar as bochechas gordinhas.
Por um breve momento, pensei em deixá‑la ali, mas seria considerado um pai desnaturado se o fizesse; além disso, seriam apenas alguns minutos, o suficiente para que fosse alimentada.

— Como você está? — perguntou baixo.

Acomodei-me na cadeira, ajeitando a pequena no colo.

— Foi só um arranhão — tranquilizei, sem lhe dirigir o olhar.

Sentada ao lado do irmão, Bethany se levantou, segurando a filha em um dos braços, enquanto com a mão livre, pegou o prato infantil e o estendeu para mim.

, para as meninas preparei arroz com legumes e carne. — Peguei o objeto das suas mãos e encarei a gororoba nada convidativa. Tive de segurar a careta de nojo que quis torcer em meu rosto. — Eu sei... A cara está horrível, mas prometo que o gosto está melhor.
— Isso está parecendo um purê alienígena — Dante zombou.

Ofendida, a loira disparou diversos tapas no ombro dele, o que fez Jessy se agitar rindo animadamente. Batia as mãos como se estivesse assistindo a uma peça de teatro. Percebi o quanto adorou ver a sessão de violência gratuita, o que me fez refletir que, pelo temperamento da sua mãe, isso deveria ser uma prática bastante comum naquela família.
Meu peito se estufou e não pude deixar de me sentir satisfeito por vê-la fazendo o que eu não poderia sem correr o risco de perder a compostura.

— Não seja tão cruel, pelo menos ela tentou — repreendeu, oferecendo uma colherada cheia para Mia.

Minha princesa fez uma careta a princípio, mas logo aceitou a oferenda. Mastigou e pude ver o exato momento em que seus olhos ganharam um brilho cheio de satisfação. E pela súbita reação de agarrar o prato com as mãozinhas, tive a certeza de que a loira tinha razão. O gosto deveria estar maravilhoso. Mia nunca ficou tão entusiasmada com uma comida antes, como via agora.

— Os legumes passaram um pouco do ponto. Mas isso não teria acontecido, se eu não tivesse que limpar a bagunça que o seu cachorro causou. — Bethany alfinetou, cutucando o ombro do irmão com o indicador.
— Coitado do Woody. — Dante bebericou o suco, dando de ombros. — Ele não tem culpa de ser desastrado como você — provocou entre risos.

O rosto da loira se contorceu em fúria, a testa enrugou, as sobrancelhas arqueadas e os olhos pareciam labaredas crispando faíscas para todos os lados. Pude jurar que, se não fosse pela minha presença e a da , ela o agarraria pelo pescoço ali mesmo.

— Pelo menos ele não come os meus tênis de corrida. — Depositou um beijo contra a bochecha da filha.
— Não, mas… Come seus girassóis e as roseiras. — Ele apontou para os vasos onde o husky cavava a terra e puxava as folhas das plantas, esfregando a cabeça em diversão.
— Woody! Eu vou matar você! — Bethany entregou a bebê para o irmão e saiu em disparada até o cachorro, gritando histericamente, enquanto tentava salvar os girassóis das garras do lobo siberiano.

Revirei os olhos pela bagunça, completamente entediado. E enquanto gargalhava, Dante deixou a sobrinha no cercado para socorrer os dois monstrinhos que se sujavam de terra e foram capazes de quebrar um dos vasos. Os gritos escandalosos de Bethany, brigando com o cachorro e o irmão ao mesmo tempo, iriam acordar o bairro inteiro e logo seríamos considerados a família do barulho.
Concentrei-me em terminar de alimentar minha princesa, antes de ouvir suspirar e murmurar algo muito baixinho. Os cotovelos contra a mesa deixavam que as mãos apoiassem o seu queixo. Ela inclinou levemente a cabeça e o sorriso mais deslumbrante curvou em seus lábios lentamente. Seus olhos estavam cheios de um brilho característico, mesmo que a cena à sua frente fosse caótica.
Minha mandíbula tiqueou, hipnotizada pela sua beleza.
Um anjo belíssimo que caiu nessa terra. Cada traço desenhado à mão com delicadeza e perfeição.
Meu Deus, ela era linda demais.
Prestei atenção em cada detalhe do seu rosto, passando a ignorar todos os ruídos ao redor. Aprumei os ouvidos para ser capaz de entender o que dizia, sem deixar de admirar o sorriso radiante e o riso genuíno que acompanhava as palavras baixas, mas que pareciam carregadas de sentimentos.

— (…) Eu adoraria ganhar girassóis um dia. São tão lindos.

O meu corpo enrijeceu. Girei a cabeça para olhar a planta de caule grosso, robusto e ereto que ainda ocupava um dos vasos intactos. As folhas grandes e ovais pareciam ásperas ao toque, eram como os defeitos de um ser. As pétalas amarelas roubavam a cena, revelando toda a beleza, assim como eu via naquela mulher. O miolo delicado, composto por milhares de minúsculas flores, era o responsável por dar origem aos frutos, ressoando como o perfume dela que tanto me enlouquecia.
Um mero sorriso surgiu no canto dos meus lábios. Por um instante, tive de conter o impulso de me levantar e pegar o girassol para ela, porque, caso o fizesse, acabaria me juntando a Dante e Woody, que apanhavam a pequena criatura loira totalmente descabelada. Por isso, adicionei uma nota mental para me lembrar de ir à floricultura perto da clínica e escolher o buquê de girassóis mais bonito e cheio que encontrasse.
Se a coelhinha nunca tivesse ganhado flores, eu seria capaz de fazer um jardim só para ela.

— Você nem tocou no risoto. — Senti o seu olhar antes mesmo de virar a cabeça para encará-la.

Meus lábios se repuxaram em um sorriso sarcástico com o canto dos lábios, enquanto voltava o olhar para ela.

— Estou curioso para saber qual foi o veneno que escolheu para a ocasião. Ninguém ainda caiu duro — zombei e fui estapeado.

Ela abriu e fechou a boca, prestes a soltar um palavrão, mas se repreendeu. Negou com a cabeça, o rosto retorcido em uma careta que deveria tê-la feito parecer brava, mas foi a mais encantadora que já tinha visto. E os lábios em formato de bico só atraíram ainda mais a minha atenção.
era linda até mesmo quando tentava ficar furiosa.

— Acredito que o único veneno é a enorme variedade de temperos que a Bethany colocou. Alguns muitos duvidosos — brincou, enchendo meu copo com o refrigerante. — Sei que não gosta muito de suco e não sabia se gostava de vinho, então pedi para ela comprar Coca-Cola.

Meu peito se aqueceu. Ela havia pensado em mim e isso só aumentava aquela vontade de beijá-la. Maravilhosa demais.
O riso tímido dominou seu semblante e olhou para baixo, tentando esconder o rubor que surgiu nas bochechas. Uma mecha teimosa do cabelo se desprendeu do coque frouxo e quis esconder a beleza do seu rosto. Rapidamente estendi o braço, colocando-o atrás da sua orelha, e depois descendo o indicador pela linha do seu maxilar, pairando na ponta do queixo. Os olhos castanhos acompanharam cada movimento, os lábios entreabertos como se tentassem respirar.

— Não sabe o quanto fico grato por pensar em mim, coelhinha — sussurrei e assisti ao sorriso tímido dançar na sua boca carnuda.

Esfreguei o polegar pela linha do seu queixo, fazendo‑a fechar os olhos em apreciamento. A corrente elétrica transpassou entre nós, enrijecendo os pelos de nossos corpos e, no meu caso, balançando algo no peito. Quente, delicioso e vibrante. Ela roubava minha sanidade apenas com um simples gesto, vê‑la entregue ao meu toque — depois de tudo o que me contou — era uma das sensações mais gratificantes do universo.
Ela era minha e eu estava pronto para ser totalmente seu.
Fomos interrompidos quando Mia emitiu um som desconexo e agarrou meu braço estendido, puxando-o para ela em um abraço apertado. Não contive o riso ao vê-la e depositei um beijo sobre o topo da sua cabeça. Quando ergui o olhar, se recuperava do nosso pequeno transe e, ao cruzar com meus olhos, não hesitou em se levantar, o peito subindo e descendo com a respiração ofegante.

— Está tudo bem? — Quis saber, a preocupação se acumulando em meu âmago.
— Sim... — respondeu rápido demais, tirando a poeira invisível das roupas. — Vou colocar a Mia junto com a Jessy... Elas se deram muito bem.

Assenti, sem dizer nenhuma palavra em protesto por sua tão repentina reação. Eu sabia que cada mero avanço meu poderia soar como um gatilho para o seu trauma. E, mesmo sabendo dos riscos, era incapaz de me controlar perto dela. Era como se uma corda invisível me puxasse em sua direção e eu não pudesse respirar se não a tocasse.
envolveu Mia nos braços e se afastou da mesa a passos largos, conversando sobre alguma coisa que não fiz questão de ouvir. Suspirei, ajeitando o corpo na cadeira e finalmente me rendendo ao estômago que roncava em busca de comida. O prato à minha frente parecia delicioso.
Cutuquei o risoto com a colher, notando a cremosidade brilhante e suculenta. O tom dourado do açafrão que Bethany deve ter usado realçava o rosado do camarão. E os minúsculos pedaços de salsinha davam o toque final, mas foi o cheiro amanteigado e doce do queijo que tornava a visão instigante e muito deliciosa.
Sem enrolação, levei a primeira colherada à boca e foi como sentir a explosão na boca. Apoiei o punho fechado contra a testa, soltando um suspiro de desleite. Céus, isso era bom demais. A textura dos grãos de arroz era macia, possuindo a firmeza no ponto certo. No meio da cremosidade, o sabor do queijo e da manteiga dançava perfeitamente com o leve adocicado do camarão. Fechei os olhos, saboreando a combinação tão refinada e divina.
Se um dia e Bethany resolvessem abrir um restaurante, ganhariam uma Estrela Michelin com muita facilidade. Juntas, poderiam cozinhar qualquer coisa que ficaria incrível.
Terminei a degustação e não esperei para encher o prato com mais risoto, querendo apreciar cada colherada daquele prato saboroso. E, enquanto me entregava à explosão de sabores, sendo levado para dentro do mundo gastronômico, permiti-me observar ao redor. estava agachada ao lado do cercadinho, envolvida em uma brincadeira junto com as meninas. Bethany e Dante continuavam a lutar contra o husky siberiano, tentando evitar que ele destruísse mais plantas.
Nem sequer percebi que eu sorria, uma onda de calor me aquecia como o sol de verão.
Finalizei o segundo prato e notei quando Dante e Bethany finalmente conseguiram distrair a fera siberiana, deixando-o brincar com um dos aspersores de irrigação que começou a jogar água por toda a grama. O canino tentava abocanhar os jatos, pulando e se molhando inteiro pelo caminho. Fiz uma careta, repreendendo a atitude deles, pois já era tarde para Woody ficar ensopado. Os pelos úmidos poderiam desencadear fungos, prejudicando a saúde dele, além de correr o risco de ficar resfriado.

— Não se preocupe, , depois vamos secá-lo com o secador. — Bethany se adiantou, parecendo ler meus pensamentos. — É o único jeito de fazê-lo esquecer das plantas. — Soltou o ar, esfregou o dorso da mão na bochecha e retirou um pouco de lama. — Urgh! Vou ter de me lavar se quero tirar toda essa terra.

Em passos rápidos, dirigiu-se para dentro, mas antes segurou o batente da porta, pendendo a cabeça para fora.

— Eu e a já cozinhamos, agora é a hora dos dois lavarem a louça. — Com o indicador, apontou de mim para o irmão.

Antes de desaparecer, indicou os próprios olhos com dois dedos e os lançou na nossa direção, em um claro sinal de que estava nos vigiando caso fugíssemos da tarefa.

— Você a ouviu, . — Dante bateu contra meu ombro e sua mão pareceu pegar fogo. — Vou levar o cercadinho para a sala. — Afastou-se e agradeci por isso.

Mordi o interior da bochecha em descontentamento e levantei-me, começando a juntar os pratos e talheres sujos. Ajeitei as cadeiras, organizando a bagunça em silêncio enquanto ouvia e Dante conversando ao fundo. A cada risada, tive de engolir a onda de ciúmes que se apossava dos meus sentidos.
Dante se adiantou e moveu o cercado. Os sons das rodinhas se arrastando e da voz brincalhona dele se misturavam aos murmúrios satisfeitos das meninas que se divertiam batendo palmas. E só quando passaram pela porta que soltei o ar – que até então não percebi ter prendido. Toda vez que ele se aproximava da minha coelhinha, era quase impossível controlar a vontade de arrancar a sua cabeça.
Concentrei-me na tarefa de empilhar os pratos sujos, tomando cuidado para não derrubá-los e causar um estrago. Juntei os talheres espalhados, colocando-os na panela vazia do risoto. E, quando estava prestes a começar a carregar as louças para a cozinha, o aroma adocicado da romã e da verbena me envolveu. O coração deu um solavanco ao sentir a mão delicada deslizar pelo meu ombro.
Ela se inclinou, finalmente entrando no meu campo de visão.

— Deixa que eu levo os copos e os talheres. — Colocou a mecha do cabelo atrás da orelha, sendo rápida em separar os objetos. — Você fica com os pratos, são mais pesados. — Curvou um sorriso refreado.

caminhou em silêncio e fui logo atrás, equilibrando os pratos pesados. Cuidadosamente levei para a pia, o som da louça contra o inox preencheu o silêncio entre nós. Ela retornou para a mesa, terminando de juntar o restante da bagunça. Enquanto isso, fui abrindo a torneira, iniciando os trabalhos.
Não demorou muito para ela voltar com mais alguns copos e se retirar, dizendo que estaria na sala com as meninas. Dante apareceu logo depois e pegou o guardanapo limpo na gaveta, começando a secar os pratos que já havia empilhado no escorredor. Por um momento, trabalhamos em um silêncio sincronizado, o único som era da água e das porcelanas se chocando na pia.
Ouvimos Bethany retornar do banho, trazendo uma caixa cheia de álbuns de fotos para a sala. Ela fez questão de mostrar as fotos de Jessy recém‑nascida, assim como fotos de quando o irmão era criança, arrancando gargalhadas de ao mostrar o momento em que ele caiu da bicicleta. A loira contou que cansou de ensiná‑lo a se equilibrar em cima do brinquedo, mas ele sempre arrumava um jeito de cair.
De repente, Woody entrou correndo pela cozinha, as patas ensopadas, cheias de lama, sujando todo o piso branco. Bethany e passaram correndo em direção aos fundos, correndo atrás do canino que, sem querer, abocanhou um dos álbuns de fotos e fugiu para o jardim. O silêncio foi interrompido pelos gritos das duas enquanto eu e Dante assistíamos à cena icônica por cima da pia.
Rimos juntos, descontraindo brevemente o clima tenso que nos rodeava.

— A me contou o que aconteceu em Nova York — comentei, a fim de retomar a conversa que tivemos mais cedo. — Foi muito altruísta da sua parte protegê-la. — Tinha de reconhecer a sua coragem.

Dante deu de ombros, jogando o guardanapo sobre o ombro e guardando os pratos dentro do armário.

— Faria o mesmo no meu lugar. — Soltou o ar pela boca, cruzando os braços em frente ao peito. — Então… ela te contou. — Sua boca se curvou em um sorriso no canto dos lábios. — Ela realmente confia em você. Nunca falou sobre isso com ninguém.
— Não foi fácil. — Parei de lavar os talheres e coloquei no escorredor.
— Quero que saiba que não tenho nenhuma intenção de fazê-la reviver esse passado. — Deixou claro, suas palavras soando com sinceridade.
— Isso nem passou pela minha cabeça. — Dante poderia ter todos os defeitos do mundo, mas ser sádico não era um deles.

Ele soltou um suspiro resignado, como se carregasse o mundo nas costas.

— Eu era apaixonado por ela antes do Kaleb colocar os olhos imundos em cima dela. — Jogou as palavras e fui completamente pego de surpresa, apesar de já desconfiar disso. — E depois que ele passou a persegui-la, eu sabia que precisava fazer alguma coisa. — Seus olhos encaravam o chão, parecendo remoer o passado conforme contava.

E então a ficha caiu... Dante conhecia antes mesmo dela saber da sua existência.
Arqueei a sobrancelha. Desliguei a torneira, decidindo que não era hora para distrações. Eu queria saber mais sobre a coelhinha.

— Ela me contou que você não sabia sobre as intenções do Kaleb.

Um riso anasalado escapou dele.

, acha mesmo que eu não sabia da índole do meu melhor amigo? Foi justamente por isso que arrisquei tudo para morar com ela. Eu queria ficar perto dela, protegê-la dele. E, por mais que tenha tentado, não fui o bastante para separá-los.
— Ela só acreditou quando ele a forçou pela primeira vez. — Não precisava de muito para entender.

Dante mordeu o lábio inferior e balançou a cabeça em negação. Os cantos dos seus olhos foram inundados por pequenas lágrimas que ameaçaram sair.

— Eu tentei de tudo para impedi-lo, até morei com ela... — murmurou baixo num tom de culpa. — Quando vi aquele filho da puta em cima dela, eu sabia que precisava tomar uma atitude ainda maior. Passei a ser a sombra dela, e mesmo assim não adiantou. Ele continuava ali, à espreita, esperando o momento para atacar. — Esfregou o rosto com as mãos. — Ela contou sobre o medo da chuva?

Neguei com a cabeça, tinha sido um momento tão cheio de revelações e sentimentos que havia me esquecido de perguntar.

— Não cabe a mim contar a você, mas quando ela contar, você entenderá o porquê de ter ido embora de Nova York. O porquê de ela ter apagado todas as redes sociais e se esconder atrás de um pseudônimo em seus livros.

Merda, o trauma era muito mais profundo do que imaginava.
Dante passou a língua pelos lábios antes de curvar um sorriso irônico.

— Ela sabe?
— Desculpe. Sabe sobre o quê? — Franzi o cenho.
— Sobre o que você sente por ela.

Engoli em seco, não esperando ser confrontado dessa forma.

— N-não... — Abaixei a cabeça, buscando as palavras que pareceram desaparecer da minha cabeça. — Quer dizer, eu não sei. Ela é maravilhosa, incrível. — Curvei um sorriso de devoção. — Eu só não quero assustá-la.
— A é uma mulher extraordinária, . — elogiou, seus olhos azuis possuídos pela mesma admiração de quando eu olhava para ela. — Ela é muito especial para mim, mas não irei virar para você e dizer: “que vença o melhor”. Ela não é um prêmio a ser disputado, então, se me disser que a fará feliz, deixarei o caminho livre para você. — revelou e, no fundo, minhas teorias foram confirmadas, ele ainda sentia algo por ela.
— Agradeço a oferta, Dante. Mas não cabe a mim dizer se a farei feliz. — Girei a cabeça para olhar através da janela, sorrindo ao ver e Bethany ainda tentando recuperar o álbum. — Ela já passou por muitas coisas, deixe-a decidir sozinha.
— Ela é uma mulher forte, vai saber qual de nós é o melhor. — De relance, pude ver a sinceridade em seu olhar.

Meu coração se apertou no peito, uma onda de insegurança o sufocando. Dante era um oponente muito mais forte e, além de tudo, sabia mais sobre do que eu. As chances dela o escolher eram quase irrefutáveis.

— Sou grato por tê-la ajudado em Nova York. Eu não tinha ideia do que aconteceu.
— Eu faria qualquer coisa para protegê-la, .
— Eu também. — Na verdade, quis dizer que seria capaz de queimar o mundo e o reconstruir só para ela.
Ei, vocês, dois! Venham agora nos ajudar! — Bethany nos tirou daquele pequeno momento de ascensão.

Em instantes, estávamos todos correndo atrás do husky, escorregando na lama feita pelos aspersores de irrigação e rindo disso, enquanto o cachorro via tudo como a mais pura diversão. Uma verdadeira luta, para que no final conseguíssemos recuperar o álbum ensopado e sujo de terra.
Ainda caído no chão, ergui a cabeça e passei a olhar para o céu escuro, vasto e cheio de estrelas minúsculas, cintilantes, que pareciam me observar. A imagem de Lily inundou meus pensamentos quando encarei o astro mais brilhante. E, apesar da dor ainda me atingir ao pensar nela, naquele momento foi diferente. Uma profunda gratidão se instalou por ter me concedido a oportunidade de contemplar a vida com outros olhos. Porque ali, mesmo rodeado pelo mais glorioso caos, era como se todas as peças se encaixassem, e eu finalmente estivesse completo.





A mudança nem sempre espera o momento certo para acontecer, ela só se faz necessária. É dolorosa, profunda, algo que mexe com toda a nossa alma. A mente se recusa a aceitar o que o coração já sabe há muito tempo. Não tem um jeito fácil de passar por esse processo, apenas enfrentá-lo de cabeça erguida para conseguir alcançar os caminhos que nos levarão para novos lugares.
A casa ganhou um novo visual. Aconchegante, arrumado, com aspectos de modernismo. Eu e passamos os últimos dias mudando a mobília, organizando para as cores brancas criarem o contraste com o preto — nossas favoritas. Vendemos os móveis velhos para uma senhora simpática que os venderia numa feira no bairro do Brooklyn e alguns doamos para a caridade.
Em um acordo mútuo, decidimos que o único cômodo que deixaríamos intacto seria o quarto da Mia. Lembrávamos-nos de como eles o decoraram com todo o carinho, cada detalhe escolhido a dedo com amor. Noah me enviou as fotos de todos os móveis que compraram, a tinta, as cortinas, então era quase um crime mexer em algo que dedicaram tanta devoção.
Os quadros artísticos foram removidos das paredes e substituídos por algumas prateleiras de livros românticos e de medicina veterinária. se encarregou dessa parte com a ajuda do amigo Aidan, o que ocasionou quase uma briga porque furaram o lugar errado. Madisson também nos acompanhou, encarregada junto comigo e Greta de selecionar as melhores fotos para espalhar pela sala. Foi quase uma luta encontrar molduras que combinassem com a decoração, mas fiquei aliviada quando entramos em uma loja de produtos importados onde achamos tudo o que precisávamos.
E com a mesa da cozinha recheada de quadros e fotos, optamos por guardar as antigas para caso Mia quisesse conhecer mais sobre seus pais biológicos quando fosse mais velha. Com cautela, escolhemos as novas, cada uma selecionada a dedo com carinho: uma de e Lily em sua formatura; uma minha e do Noah na cafeteria; outra dos quatro juntos com a pequena, tirada no aniversário de 1 ano dela; e, por último, Madisson sugeriu que fizéssemos um quadro grande que ficaria na parede em cima da televisão, ao lado das outras. Nesta, eu e segurávamos Mia na mesma festa e sorrimos em sua direção, encantados por sua delicadeza.
Tudo ficou perfeito, dando início à nova fase de nossas vidas.
Aos poucos, as lembranças de Noah e Lily foram desaparecendo. A cada mudança, minha garganta embargava, o peito se contorcia. E nem mesmo a presença divertida de Aidan e Madisson foi capaz de impedir as lágrimas de serem derramadas. Era doloroso olhar os detalhes e finalmente entender o peso que isso significava… Eles seriam apenas lembranças, eternizadas em nossos corações.
Os próximos dias nunca mais seriam os mesmos e, apesar da saudade insistir em permanecer conosco, dessa vez tive a certeza de que tudo seria diferente. Aquela casa se tornou o nosso lar e, agora, somos uma família.
Eu e também aproveitamos para conversar sobre como seriam as divisões de tarefas. Depois do que ouvimos da assistente social, não queríamos mais falhar com a Mia e nem mesmo sermos repreendidos na próxima visita. Então decidimos comprar um quadro branco para colocar na cozinha, onde anotamos todas as responsabilidades e passamos a organizar nossa agenda.
Durante a manhã, Mia estava na creche, deixando nossos horários livres. Eu resolvia meus compromissos e trabalharia na clínica. Ele buscaria a pequena, revezando comigo quando surgisse alguma emergência. À tarde, eu aproveitaria para ajudar Greta na organização e ficar com a bebê, até o veterinário chegar do seu turno — os plantões noturnos estavam proibidos até segunda ordem. Além disso, iremos priorizar o horário do almoço e jantar com toda a família reunida.
Na primeira semana, foi difícil seguir o cronograma, mas aos poucos fomos nos acostumando com a nova rotina.
Verifiquei o horário no celular e passei a dobrar as roupas com mais rapidez, colocando-as dentro das caixas de papelão que trouxemos da garagem. Eram exatamente 19h15min do domingo e tínhamos a missão de organizar o guarda-roupas do antigo quarto de Noah e Lily. Greta já havia sugerido que colocasse suas roupas ali, mas esqueceu de mencionar que a outra parte do armário ainda estava cheia dos pertences de nossos irmãos.
A ideia era que dividíssemos o espaço, já que era grande o suficiente para os dois, nos poupando de gastar com um novo para o quarto de hóspedes. Mas esse nem era o problema. Naquele momento, tudo que mais queria era enforcar a criatura ao meu lado até que implorasse para soltá-lo. O cretino havia convidado Aidan e Madisson para uma noite de jogos às 20h00, sabendo que tínhamos de lutar com o guarda-roupa. Uma grande irresponsabilidade.

— Ao invés de jogarmos, vou colocar aqueles dois para nos ajudar — comentei, fechando mais uma caixa com o rolo de fita.
— O Aidan está esperando por essa noite há meses. Ele vai enfiar a cabeça dentro do forno e abrir o gás, se não conseguir a sua revanche — zombou, organizando a gaveta que usaria para guardar as meias.
— Eu não sei o que vocês veem nesse jogo de cartas, é tão... confuso. — Fiz uma careta.
— Aconselho que não fale isso perto dele, o Aidan irá falar até convencê-la de que blackjack não é só um jogo de cartas.

Rolei os olhos, cruzando os braços em frente ao peito. Girei a cabeça para o lado e um sorriso curvou-se em meus lábios ao encontrar Mia deitada no tapete felpudo, brincando com os blocos de construção coloridos. Sky estava ao seu lado, a pata curiosa empurrava as peças e, às vezes, dava um pequeno pulo por se assustar quando ela empurrava o brinquedo na sua direção.

— Acha que vai demorar muito para ela começar a falar? — Mordisquei o indicador, preocupada. — Tenho medo de nunca conseguir... — Meu coração se apertava só de pensar.

retirou o cabide com a peça de roupa ainda embalada no plástico, e pela etiqueta pendurada nunca foi usada.

— A Mia passou por muitas coisas, a pediatra disse que é normal esse atraso na fala — relembrou.

Puxei a pele no canto do dedo, tentando acalmar a ansiedade que sempre me consumia quando o assunto era a nossa pequena.
Na semana passada, a levamos para uma consulta com a pediatra, já que estávamos preocupados com o seu desenvolvimento, e, segundo a médica, o atraso na fala pode ser resultado da mudança repentina do seu ambiente. A perda dos pais, a adaptação com os novos tutores, a rotina diferente. Tudo poderia ter influenciado, e mesmo que tivéssemos sido tranquilizados de que logo Mia estaria formulando frases, eu não conseguia parar de me preocupar.
Não conseguia parar de pensar que nossa carga emocional pudesse tê-la prejudicado. Nunca me perdoaria por isso.

, acho que encontrei um vestido novo para você. — Sua voz rouca me atraiu, tirando-me todas as aflições.

Girei o corpo e arregalei os olhos ao ver o que ele segurava. O plástico havia sido retirado, revelando o vestido vinho bordô profundo, cheio de sofisticação e sensualidade.

— Também tem um smoking ali dentro, acho que nunca foram usados. — Apontou com a cabeça e me adiantei em pegar a peça pesada, também envolta no plástico.
— Por que eles compraram essas roupas? — Analisei a etiqueta pendurada no cabide. — Isso é caro. Muito caro. — Fiz uma careta, os quatro dígitos e a logo do ateliê não deixavam dúvidas.

As duas peças eram sinônimos de luxo. A alta costura, o brilho, os bordados, a renda fina, as lapelas de cetim. Cada detalhe escolhido a dedo para esbanjar elegância.

— Pensei que pudéssemos vesti-los. — sugeriu de repente.

Ergui a cabeça e franzi o cenho.

— Não podemos.
— É só por um momento, sabe... fingir que somos eles — sugeriu, dando de ombros.

Encarei as roupas em nossas mãos, Entreguei o smoking a ele e peguei a peça belíssima. Não resisti em passar a mão pelo tecido, sentindo a textura macia do cetim sobre os dedos. Soltei um longo suspiro, conseguindo perfeitamente enxergar minha cunhada escolhendo aquele vestido.
Ela sempre gostou de se vestir como uma princesa.
Analisei os detalhes minuciosos, intrigada com a ideia de vestir algo tão luxuoso. No entanto, a vozinha irritante insistia em lembrar que há poucos dias, tentávamos agir como eles, ser como eles. O arrepio gélido subiu pela espinha e voltei a encarar o homem, ainda aguardando por uma resposta que estava entalada na minha garganta. Quando nossos olhos se encontraram, senti o choque elétrico com o verdadeiro desejo explícito em suas íris. Eu soube que não se tratava de substituir nossos irmãos, mas de fingir sermos o casal perfeito — algo que, talvez, nunca seríamos.
Então, que mal faria fugir da realidade por um momento?
Anuí, não conseguindo conter o sorriso de ansiedade. Entrei no banheiro da suíte e retirei as roupas com certa urgência. Subi o vestido lentamente, notando o ajuste perfeitamente ao meu corpo. Sempre achei que Lily fosse mais magra do que eu, mas agora descobri que vestíamos a mesma numeração. Puxei os cabelos para o lado, ajeitando as alças finas nos ombros, e desci as mãos pelo comprimento, terminando de ajustar o caimento.
Saí do banheiro e, a cada passo que dava, tive que tomar cuidado para não tropeçar na barra. Com certeza, aquele vestido foi feito para usar com um salto alto que realçasse os calcanhares e tornasse o visual mais elegante. Parei em frente ao guarda-roupas e soltei o ar pela boca, tomando coragem para puxar a porta que revelaria o gigantesco espelho. Mordi os lábios, finalmente encarando o meu reflexo, antes que o nervosismo me desencorajasse.
Engoli em seco, meu coração deu um solavanco com a imagem refletida no espelho. Boquiaberta, desci os olhos por todos os detalhes, impressionada com o tecido de cetim que conferia um brilho sutil e um caimento fluido. A barra se dobrava no chão, fazendo-me sentir minúscula. O decote drapeado delineava a linha dos seios, o corpete modelava a silhueta, mas o que chamava a atenção era a fenda lateral alta que se estendia pela coxa, deixando a pele exposta e muito sensual.
Fiquei tão deslumbrada que meu corpo deu um salto quando as mãos grandes e firmes tocaram minha cintura. O toque quente era delicioso, capaz de arrepiar lugares que nem mesmo imaginava. Lentamente, girei os quadris até que estivesse de frente para ele, e vê-lo diante de mim foi capaz de me causar um pequeno ataque cardíaco. Minha garganta secou igual aos rios do deserto, arranhou de um jeito que até esqueci como se falava.
Pisquei algumas vezes, completamente hipnotizada.
Apenas uma palavra seria capaz de definir naquele momento.
Lindo.
O smoking, apesar de ser um conjunto clássico, era um traje de gala impecável. O paletó preto bem ajustado realçava os ombros e o peito largo. Possuía lapelas de cetim escuro que combinavam com a camisa branca de colarinho formal e tecido pregado de estilo tradicional. Os botões eram discretos, assim como o lenço de bolso dobrado de forma simples. Para completar o traje, a calça de corte social caía perfeitamente alinhada no corpo dele.
Minha boca transformou-se em um sorriso divertido e deixei que as mãos pescassem as pontas da faixa de cetim abandonada ao redor do seu pescoço.

— Faltou a gravata borboleta — murmurei, movendo os dedos em uma dança lenta, formando o laço que daria o toque mais sofisticado e estiloso.

Ao finalizar, minhas palmas escorregaram pelo peito dele e, como uma afronta do destino, pararam ao sentir a pulsação acelerada que batia contra as costelas e atravessava o tecido do smoking. Senti as bochechas queimarem e pressionei os lábios, evitando que um sorriso tímido surgisse. Meu estômago revirava, cheio de borboletas apenas por sentir o tum-tum-tum forte contra a minha pele. Por que era tão bom saber o quanto eu o afetava?
O ar no quarto se tornou rarefeito, pesado pela mistura do aroma da romã e do cedro.
delineou meu queixo com os dedos, obrigando-me a erguer a cabeça para encará-lo. Entreabri os lábios ao notar os olhos azuis fixos em minha boca. Labaredas nos rodearam. Ele se inclinou, o hálito quente batendo contra minha pele e, em resposta, minhas mãos agarraram as laterais do paletó, com medo de que fugisse.
E quando estávamos prestes a nos render ao desejo que tanto reprimíamos, o universo teve a brilhante ideia de intervir, fazendo o inevitável acontecer…

Ma-mau. — O som infantil simplesmente saiu, irrompendo pelo quarto.

Rapidamente fomos arrancados abruptamente do universo paralelo. No mesmo instante, nossas cabeças giraram em sincronia e fixamos os olhos sobre Mia, ainda deitada no tapete ao lado de Sky. A mãozinha minúscula puxou a orelha pontuda do felino, fazendo-o emitir um miado alto do fundo da garganta em protesto.

Ma-mau, ma-mau — a pequena repetiu e riu em seguida.

Meus olhos se encheram de lágrimas, ao mesmo tempo em que o rosto se enrugou com o tamanho do sorriso largo que curvei nos lábios. A sua voz era a melodia mais doce que já tinha ouvido. Uma onda de euforia explodiu dentro do peito, aquecendo cada partícula pelo caminho. Cobri a boca com as mãos, tentando abafar o soluço de alegria, enquanto corria para perto do tapete. Ajoelhei-me e peguei Mia nos braços, apertando-a contra mim com uma força inesperada, enchi seu rostinho de beijos molhados. Ela gargalhou alto, sentindo cócegas.

— Ela falou, ! Ela falou! — gritei em êxtase, incapaz de controlar as gotas salgadas que rolavam quentes pelas bochechas.

se aproximou. O seu semblante iluminado pareceu estar mais surpreso do que eu. Pegou a bebê dos meus braços e a ergueu acima da cabeça, girando-a no ar, enchendo o ambiente com a mais pura felicidade. Limpei o rosto com o dorso das mãos, admirando-o quando ele a abraçou, distribuindo uma avalanche de beijos no topo da sua cabeça.
Seu olhar emocionado se encontrou com o meu e tudo que consegui fazer foi sorrir extasiada.
Instintivamente, peguei o felino que já esfregava o corpo contra as minhas pernas e beijei a sua cabeça peluda, pouco me importava em encher a boca de pelos. Contive a vontade de apertá-lo, apesar da enorme gratidão transbordar dentro do meu peito, esmurrando as costelas, quase à beira de um infarto. Em toda a minha existência, não imaginei que, graças à bola peluda, Mia finalmente nos presentearia com sua primeira palavra.

— Precisamos eternizar esse momento! — Minha voz explodiu, empolgada.

Sem hesitar, pegou o celular em cima da cama e deslizou o dedo pela tela, abrindo o aplicativo da câmera. Rapidamente esticou o braço, ajustando o enquadramento para que capturasse a foto perfeita. Ajeitei o felino nos braços e estralei os dedos, apontando o aparelho. Como se entendesse o que estávamos fazendo, Sky olhou para a tela, apesar de permanecer com a famosa cara de desprezo.
O momento foi registrado, e nossos sorrisos permaneceram no rosto mesmo depois da fotografia, recusando-se a sair. Juntos, beijamos a cabeça da pequena, completamente arrebatados pelo oceano de emoções.
Ali, naquele quarto, a história da nossa família acabava de ganhar mais um capítulo cheio de amor e doçura.

*****


Soltei o ar preso nos pulmões e olhei pela última vez na direção do berço de madeira branca, conferindo o sono profundo da pequena. Meus lábios se repuxaram em um sorriso satisfeito, doce, aliviada por conseguir fazê-la dormir, antes do andar de baixo ficar recheado de adultos bêbados, discutindo por uma partida de blackjack — fez questão de que eu memorizasse o nome, enquanto tentava me explicar as regras. Um esforço inútil, já que continuava leiga no assunto.
Girei a maçaneta, fechando a porta cautelosamente. O click suave da tranca foi o único som que ecoou pelo corredor, junto da minha respiração calma. Alcancei as escadas e não demorou para ver os três meliantes entrando pela porta da sala, entretidos em zombarias e muitas caixas de cerveja. Cruzei os braços e franzi o cenho, parada no último degrau. O que iríamos fazer com tanta bebida? Embebedar o bairro inteiro?

! — Madisson gritou.

Seus braços finos me envolveram em um abraço apertado e, pelo sutil cheiro de álcool que emanou dela, diria que começou a diversão em alguma conveniência, na companhia de Aidan.

— Eu estava muito ansiosa por essa noite de jogos! — Soltou-se e fez uma dança estranha em comemoração.
— E dessa vez vou provar que os dois trapacearam da última vez — Aidan se intrometeu, abrindo o baralho em uma das mãos.

soltou uma risada irônica, batendo sobre o ombro do amigo.

— Nós não trapaceamos — ressaltou, e pelo seu tom parecia cansado de repetir isso.
— Aidan... — A ruiva se colocou ao lado do homem, erguendo o queixo dele com o indicador. — Não temos culpa de que você não tem sorte no amor e nem no jogo — zombou e gargalhou em seguida.
— Quem disse que não tenho sorte no amor? — retrucou, começando a primeira tropa de farpas da noite.

Não contive a risada ao escutar Madisson relembrar os diversos romances fracassados do amigo, incluindo o com uma morena com olhos de cigana e corpo de sereia que quase o fez ir preso, após aparecer com um filho de dois anos e garantir com todas as forças ser dele. Aidan até tentou refutar, mas seus argumentos eram completamente inúteis naquele momento.
Estreitei os olhos, passando a prestar atenção em cada detalhe da história. O risinho remexeu os músculos da minha face e, instintivamente, mordi o canto do indicador. Meu coração batia acelerado, a ansiedade me corroendo por querer saber o desfecho da história. E quando Madisson começou a contar sobre o processo judicial, senti uma parte do meu cérebro batucar, enviando sinais de que estava sendo observada.
Inexplicavelmente, virei a cabeça e engoli em seco ao encontrar os poços azuis penetrantes fixos no dedo preso entre meus lábios. arqueou as sobrancelhas, seu semblante tornou-se sério, quase predatório. Endireitou a postura ao subir a atenção para meus olhos, causando-me aquela reviravolta intensa no peito. As pupilas dilatadas devoravam cada pedacinho do meu corpo, feito um felino à espreita. E o pequeno movimento de erguer o queixo em ar de superioridade foi capaz de aquecer o meu centro.
Esfreguei as coxas sutilmente, as bochechas corando pelo gesto inocente. Tive a ideia ousada de olhá-lo de cima a baixo e mordiscar o canto da boca ao encará-lo fixamente. Ele tencionou a mandíbula e correspondeu a dança ardente dos nossos olhos, me devorando em silêncio. Cada pelo do meu corpo se arrepiou, a corrente elétrica deslizando pela pele como se as mãos dele me tocassem, acendendo o fogo que nos consumia a cada instante.
Oh, céus… isso tinha que parar.
A risada alta de Madisson quebrou o feitiço que nos prendia. Desviei o olhar para a ruiva que tinha os braços cruzados, contando o desfecho da história.

— E você ainda teve de fazer um exame de DNA porque realmente acreditou que o filho fosse seu. Esse é o problema de não usar proteção. — Secou a lágrima solitária que rolou pelo rosto, puxando o ar quase sem fôlego.

Aidan soltou um suspiro exasperado, lançando o olhar fuzilando sobre ela.

— Bruxinha, ao invés de ficar lembrando do meu passado mórbido, que tal começarmos logo essa partida? — Aidan arregalou e revirou os olhos em desdém irônico.
— Só se estiver pronto para perder.

Ele a ignorou e se aproximou de , empurrando-o pelo ombro. Ouvi o veterinário protestar e murmurar algo baixo para apenas Aidan ouvir. Já eu, tive de mordiscar os lábios, reprimindo a vontade de encarar o rosto que era capaz de mexer com todos os meus sentidos apenas com o olhar.

— Cara, vamos guardar as cervejas na geladeira, antes que eu enlouqueça. — Eles saíram e foi como se uma pedra pesada se alojasse no meio do meu peito.

Droga.
Por que o simples fato dele se afastar desencadeava essa angústia tão repentina? Era como se um pedaço do meu coração tivesse sido arrancado com a ponta da faca.
Balancei a cabeça, não querendo pensar sobre esse sentimento assustador. Curvei um pequeno sorriso na direção da ruiva e juntas caminhamos para o sofá. Ajeitamos as almofadas e a mesa de centro para que pudessem comportar a eufórica noite de jogos. Acomodei-me contra o estofado macio, segurando o gemido que ameaçou escapar ao ter as costas abraçadas pela estrutura macia.
Cruzei as pernas e coloquei a almofada no colo. Madisson continuou a contar sobre o processo de Aidan e o quanto a mulher quase acabou com a sua vida. Ao prestar atenção, percebi que seu rosto se contorcia em caretas engraçadas, as palavras que deveriam soar com indiferença carregavam certa repulsa. Arqueei a sobrancelha, minha alma de escritora girando as engrenagens dentro do cérebro. Havia uma atmosfera diferente no ar, quase palpável.
Em um livro romântico, Madisson e Aidan seriam os protagonistas perfeitos. Fariam parte do mundo onde amigos se tornariam amantes, daqueles que vivem se provocando porque não sabem lidar com a carga dos seus sentimentos.

— No final, descobrimos que ela só queria que Aidan assumisse o filho dela, porque não sabia quem era o pai.

Uma sombra fugaz passou rápido pela minha visão periférica. Não precisando de muito esforço para identificá-lo.

— Ainda falando sobre a minha vida, bruxinha? — Aidan surgiu com em seu encalço. — Tenho certeza de que a não quer ouvir sobre os meus problemas no tribunal.

Madisson balançou a cabeça, expressou um sorriso sem graça e fez o beicinho mais grande da história.

— Você é tão babaca. — Em seguida, indicou a mesa de centro. — Vamos jogar? Estou doida para vê-lo perder. — Estreitou as pálpebras em um desafio.

Aidan apontou os próprios olhos e jogou os dedos na direção da mulher, insinuando que estaria atento a qualquer sinal de trapaça. Sentou-se no chão, misturando as cartas habilidosamente. Dividiu em dois montes e os embaralhou mais uma vez, cantarolando uma música aleatória. Ele parecia um mágico prestes a tirar o coelho da cartola, concentrado em não errar a atração.
Madisson suspirou e esfregou o rosto com as mãos. O grito exaltado que explodiu da sua garganta fez todos darem um salto de susto. Aidan deixou algumas cartas caírem do baralho, as recolheu e disparou palavras ameaçadoras em direção à ruiva. Os dois se assemelhavam a irmãos birrentos, que adoravam se provocar a cada segundo. E era incrível saber que trabalhavam na mesma clínica veterinária.
Pressionei os lábios enquanto a ouvia grunhir, dizendo que se não começasse a distribuir as cartas em cinco segundos, ia arrancar as bolas dele. Abaixei a cabeça e deixei a risada sair. Acompanhei quando Aidan revidou e uma almofada voou, acertando-o em cheio no rosto. Os cantos da minha boca se curvaram mais a cada provocação que ouvia.
Mas quando ergui a cabeça, meus olhos pairaram sobre o veterinário charmoso e de glóbulos azuis penetrantes, fixos em mim. Ele parecia diante da última maravilha do mundo. E, por mais estranho que fosse, estava gostando de ser o centro da sua atenção. Era como se meu peito se enchesse, o orgulho subindo às alturas.
me venerava com apenas um simples olhar.
Fiquei curiosa para saber como me trataria se estivesse embaixo do seu corpo, as bochechas rosadas e os lábios entreabertos, chamando-o pelo nome.
Graças aos deuses, Madisson me cutucou, entregando uma garrafa de cerveja — nem tinha percebido que havia saído da sala. Virei a cabeça e aceitei a bebida, mesmo que não tivesse a intenção de ficar bêbada. Algo me dizia que deveria estar sóbria nas próximas horas. Um sentimento sublime se apossava dos meus sentidos, causando um frio esquisito na barriga. Eu não sabia como, mas sentia que minha vida estava prestes a mudar.
Aidan fez um brinde com a garrafa de antes de dar um longo gole. Começou a distribuir as cartas, ao mesmo tempo, explicando como funcionavam as regras e o objetivo do jogo. Prestei atenção e entendi que precisávamos chegar o mais próximo do número 21 sem excedê-lo. O jogador que o ultrapassasse perderia.
Franzi o cenho ao ouvi-lo falar sobre os valores de cada carta e me perdi no caminho, não conseguindo decorar tanta informação de uma vez. Ao mesmo tempo em que era um jogo simples, se igualava a um enigma para uma pessoa inexperiente como eu.

— A-acho melhor ficar fora dessa rodada. — Engoli em seco, devolvendo as cartas para o baralho. — Posso observar e depois participar.
— Não é tão difícil, . — Madisson se inclinou, mostrando as figuras da dama, do rei e do valete. — Cada carta representa um número. Essas valem 10. — Passou para outra, que possuía a letra A. — Essa pode valer 1 ou 11 pontos, dependendo do jogo. Gostamos de jogar com ela valendo 11. — As ajeitou sobre a mesa para que pudesse observar melhor.

pigarreou.

— Joga comigo. Vou te ensinar. — Arrastou o corpo e se acomodou, ainda no chão.

Endireitou a coluna, encostando contra o estofado de modo que ficasse entre as minhas pernas. Discretamente, inclinou a cabeça e a apoiou contra meu joelho descoberto por causa do short de algodão que usava. A sua pele quente causou um choque elétrico que percorreu todo o meu corpo, o arrepio subiu pela espinha. Impulsivamente, minha mão deslizou, os dedos penetraram os fios lisos do seu cabelo e massagearam em um carinho terno.
Tentei recuar assim que notei a tamanha besteira que havia feito. No entanto, foi mais rápido, agarrando o meu pulso. Puxou com delicadeza e os próximos segundos me pegaram completamente de surpresa. Sua boca depositou um beijo no dorso. O toque macio dos lábios fez as chamas em meu ventre se acenderem, a mente traiçoeira imaginando como seria tê-lo beijando partes mais quentes do meu corpo.
Merda… Eu estava completamente louca por ele.

— Hora das apostas — Aidan anunciou, distribuindo as cartas novamente. — Aposto 100 dólares, porque sei que vou vencer. — Balançou a nota e a beijou antes de colocar sobre a mesa.

Madisson balançou a cabeça.

— Como tem tanta certeza de que irá vencer?
— Porque não poderá usar seus métodos de trapaças aqui, bruxinha — alfinetou.
Ela rolou os olhos, mostrando o dedo para ele.
Em contrapartida, se remexeu. Retirou a carteira do bolso, quase me fez ter um infarto ao ver as cédulas que retirou de dentro.

— Aposto 200 dólares, triplicando o prêmio. — Jogou as notas na mesa.

Aidan soltou um assobio.

— O que aconteceu com o que odeia jogos de apostas? — O amigo arqueou as sobrancelhas e olhou fixamente para ele.
— Precisa comprar um buquê de girassóis. — Deuu um gole na bebida e seus dedos roçaram em minha mão no seu ombro. Um toque inofensivo que não passou despercebido pelos dois.

Estremeci, a garganta seca pela revelação. As palavras me atingiram, cheias de um comprometimento que nunca havia recebido. Ele tinha ouvido e, mesmo depois de tanto tempo, ainda se lembrava. O ar circulou desenfreado nos pulmões; o coração batia agitado, feito um tambor. Era como estar sonhando. O sorriso tímido brincou nos lábios. Meus olhos marejaram, as lágrimas carregadas de doçura por saber que se importava comigo, ao ponto de notar até os pequenos detalhes.
Jamais imaginei que se preocuparia com algo tão sutil.
Balancei a cabeça, deixando de ficar extasiada para me concentrar no jogo. Aidan bebeu a cerveja como se fosse o elixir da vida. Pegou uma carta do baralho e passou a vez. Notei que seus olhos estreitos varriam os amigos com tamanha atenção, sempre atentos aos movimentos de Madisson. Provavelmente buscando por qualquer sinal de trapaça.
A ruiva fez a sua jogada em silêncio, o rosto inexpressivo. Segurou as cartas em mãos contra o peito e esperou até que fizesse a sua jogada. Levei o dedo indicador à boca, roendo a unha em nervosismo. Encarei os símbolos e meu cérebro entrou em curto, não conseguindo lembrar o que eles significavam. O coração começou a esmurrar as costelas em ansiedade.

— 21! — Ele sorriu largo e expôs seu jogo sobre a mesa.

Aidan xingou e Madisson riu da sua expressão de indignação. Já eu, franzi a testa, não entendendo o que havia acabado de acontecer.

— Os 300 dólares são meus, Aidan. — Estendeu a mão.
— Eu odeio você! — Aidan entregou o prêmio e continuou a murmurar sozinho. — Não tem como ganhar de primeira, você roubou.
— Você distribuiu as cartas, eu só tive sorte de pegar um Ás e um Valete. — deu de ombros, guardando o dinheiro na carteira.

O outro revirou os olhos e cruzou os braços igual a uma criança birrenta. Madisson juntou as cartas e começou a embaralhar, rindo do bico gigantesco do amigo. Enquanto isso, me explicou que as duas cartas juntas totalizavam 21 pontos, sendo assim, fez um Blackjack, ganhando automaticamente.
Assenti, fingindo entender. Logo, Aidan e Madisson fizeram uma nova aposta. , animado e sentindo-se com a sorte do seu lado, arriscou com oitenta dólares e assim uma nova partida se iniciou. Optei por novamente ficar de fora, inclinando-me sempre que o veterinário chamava com os dedos. Ele sussurrava de maneira tão rouca e sensual em meu ouvido que era incapaz de controlar o arrepio na espinha.
Um ronronar escapava do meu peito e pouco me importei com o jogo, só ficava cada vez mais ansiosa para a próxima explicação. Se queria me enlouquecer, estava funcionando, pois só conseguia pensar na sua voz repetindo as falas dos meus personagens, enquanto fodia loucamente suas parceiras.
Ele se encaixava tão perfeitamente que seria impossível escrever as próximas cenas sem imaginá-lo ali, presente em cada palavra.
O grito explodiu pela sala. Madisson levantou do sofá e fez a dancinha da vitória. Seu corpo balançou, dando pequenos saltos. A mão erguia a garrafa antes de dar um longo gole. Em contrapartida, Aidan encenou sua reação melodramática, digna de novela mexicana. Deitou-se no chão e pressionou a almofada no rosto com força. Grunhiu abafado de frustrações. A veia saltada na lateral do pescoço denunciava a tensão que o corroía, estrangulando-o por dentro.
e eu rimos.
Madisson aproximou-se do corpo inerte. Curvou-se, acertando um tapa no braço dele. Exigiu que afastasse milimetricamente a almofada para que olhasse para ela.

— Aceite, Aidan. Somos o rei e a rainha do blackjack.

Lançou o quadrado felpudo para longe e apontou o dedo em riste.

— Vocês roubam. É impossível terem tanta sorte! — Endireitou a coluna, esfregando o rosto com as mãos. — Estou morrendo de fome, quando podemos ir buscar as pizzas? — Mudou de assunto rapidamente.
O estômago roncou alto. Esfreguei a barriga, a boca salivando só de imaginar o cheiro gorduroso do queijo derretido e do orégano. Com toda a loucura em organizar o guarda-roupas e as obrigações com Mia, minha última refeição havia sido há cinco horas — um mísero pão com ovo e algumas frutas com granola. Não era surpresa que meu corpo reagisse à mera menção daquela bomba de carboidratos.
Madisson pegou o celular sobre o sofá. Digitou em silêncio, o som das teclas ecoando pela sala.

— Você deveria ter pedido para entregarem — comentou, bebericando a cerveja.
— E pagar dez dólares, sendo que a pizzaria fica a quinze minutos daqui? — Aidan se levantou, espreguiçando-se. — Valorizo muito o meu dinheiro suado, obrigado.

Ela revirou os olhos.

— Você não vai ficar mais rico. — Deu de ombros, ainda encarava o aparelho.
— O país pode sofrer uma crise econômica a qualquer momento. Temos que estar preparados. — Pressionou o próprio peito com a mão, dramático.

balançou a cabeça em negação, os olhos fechados em uma súplica silenciosa ao universo. Um sorriso zombeteiro despontou em seus lábios.

— Certo, gênio. Você vai guardar dez dólares para comprar uma fazenda de proteção antiapocalipse? — Sua voz era cheia de sarcasmo. — Porque certamente o destino da economia do país depende de você ter economizado na entrega da pizza.
— Isso faz com que ele durma melhor à noite, pensando que salvou o mundo — Madisson disse.

Balancei a cabeça e pressionei os lábios, incapaz de segurar o riso mudo.

— Por que da próxima vez você não vem andando, Aidan? Só para garantir a segurança financeira do mundo. — continuou a zombar.

O moreno ajeitou os cachos escuros que caíram sobre a testa, antes de cruzar os braços em frente ao peito.

— Sabe as infinidades de coisas que podemos fazer com dez dólares, cara?
— Tenho a certeza de que salvar o país de uma crise econômica não é uma delas. — O outro deu de ombros, dando o último gole na cerveja.

Um embate geopolítico se iniciou entre os dois. Aidan continuou a defender sua ideia de economia, afirmando que faria toda a diferença. Enquanto parecia não se importar, soltando palavras monossilábicas e defendendo a ideia de que veterinários não poderiam fazer muito em meio a uma crise, já que haveria diversos animais abandonados para se preocupar.
Por sorte, a discussão não se estendeu por muito tempo. Madisson bateu palmas e os ameaçou — caso não calassem a boca, iria prendê-los em um quarto minúsculo, sozinhos, sem água e comida. E só os soltaria quando realmente tivessem uma recessão de verdade para se preocuparem.

— Vamos buscar as pizzas. Antes que comecem a fazer planos para o futuro de um colapso que só existe na cabeça de vocês. — Ela vasculhou a bolsa atrás da carteira.

Em alguns instantes, saiu e Aidan foi em seu encalço. Mas, apesar da porta ter se fechado, ainda era possível ouvir as provocações e as ameaças inconfundíveis do lado de fora. A troca de farpas que se tornou tão familiar.
Ri em silêncio e limpei as lágrimas que desciam pela bochecha, resultado da discussão maluca sobre geopolítica e veterinária. Inclinei-me para frente, a boca ainda torcida em um sorriso genuíno, os ombros relaxados. Nos últimos dias, a casa se infestou de alegria. Madisson e Aidan eram um caos adorável e cheio de diversão. E era impossível não ser arrastada para a bagunça deles, ainda mais quando pareciam dentro de um tribunal, defendendo suas ideias mirabolantes.

— Se divertindo? — quis saber.

Virei a cabeça e o encontrei voltando da cozinha. Abriu as duas novas garrafas que possuíam uma leve camada de água ao redor, recém‑tiradas do freezer. E não pude deixar de notar o movimento das veias no antebraço, que saltava apenas pelo simples movimento de girar as tampas metálicas.

— Eles são um caos saudável. — Estendeu a bebida e a aceitei.

Endireitei o corpo e acompanhei quando se sentou no chão, na mesma posição, entre minhas pernas. Recostou-se contra a lateral do sofá e deu um longo gole. A careta que torceu o rosto másculo em seguida foi resultado do líquido ter congelado o seu cérebro. Repeti seu movimento, sendo mais cautelosa.

— Estou me divertindo muito, mas tudo ficaria melhor se tivesse burritos.

Ele sorriu com o canto dos lábios, dando mais um gole.
Estiquei o braço, deixando a garrafa sobre a mesa, mas ao retornar à posição inicial, tive a ideia de segurar nos ombros dele. A tensão controlada em seus músculos foi sentida ao suave toque das minhas palmas. Movi os dedos delicadamente, querendo aliviá-lo, e o ouvi emitir um suspiro baixo, quase inaudível.

— Pedi para o Aidan buscar — revelou com a naturalidade de quem pedia um copo de água. — Até deixei pago, sabia que ia gostar mais deles do que da pizza.

O ar fugiu, e por um instante, a única coisa que ecoava dentro da minha mente eram aquelas palavras inesperadas. Meu peito retumbou, o coração bombeava sangue e implorava por oxigênio. Um arrepio lento percorreu toda a coluna. E sabia que não tinha nada a ver com o frio da cerveja.
Ele tinha pensado em mim.
Esqueci de como era respirar e deixei que as mãos deslizassem pelo peitoral duro. Curvei-me, o rosto apoiou-se sobre o ombro largo, que me acomodou em um encaixe perfeito. Meus músculos, minha alma e até mesmo o consciente pareceram entrar em curto, extasiado, sentindo aquela sensação tão deliciosa, quente, que só encontrava em seus braços.
E ali, no silêncio aconchegante da sala, eu só queria que o momento durasse para sempre. Com ele, queria aproveitar cada segundo para me sentir a pessoa mais importante da sua vida. Mas foi então que o pensamento me ocorreu, a pontada da incerteza correndo pelas minhas veias, e precisei perguntar:

— Falou sério sobre os girassóis? — Minha voz era um sussurro baixo, mas soube que ele ouviria.

virou o rosto. Seus olhos encontraram os meus com tanta intensidade que era demais para a minha sanidade aguentar. Seus lábios tão próximos me fizeram engolir em seco, ansiosa, desesperada por ele. Nossas respirações descompassadas misturaram-se ao ar rarefeito.
Droga. Ele tinha o cheiro tão bom. Os olhos tão lindos. A boca tão perfeita.
não hesitou em responder:

— Por que não falaria? Se pudesse, eu plantaria um jardim só de girassóis para você. — Sua voz era apenas um sussurro rouco, apenas para mim.

Lentamente, encostou nossas testas. Fechamos os olhos, completamente entregues ao momento. A aproximação se assemelhava a ímãs que não conseguiam se repelir, a cada segundo cada vez mais perto de consumir o desejo que esteve preso em nossos corpos há tanto tempo. O silêncio nos rodeou, a plateia perfeita. Não era preciso palavras depois de tudo o que passamos e dessa vez, também não havia nada para nos impedir.
Os calafrios subiram pela coluna e se espalharam por todo o corpo. O estômago revirou de um jeito gostoso. Fui atingida por uma descarga elétrica, uma força invisível que me prendia a ele. E por mais que a razão gritasse para se afastar, tudo o que conseguia pensar era no desejo voraz que me fazia sentir. Era assustador, mas irresistivelmente doce, delicioso. Então não havia passado ou medo que me fizesse recuar naquele momento.
Eu estava cansada de fugir.
Monstros me assombraram por muito tempo, e agora tudo o que queria era me sentir viva, livre, desejada.

… como é ser beijada de verdade? Por alguém que se gosta?

Mesmo com os olhos fechados, soube que o canto da sua boca se repuxou.

— É diferente, coelhinha.
— É como nos livros? Nosso corpo realmente entra em êxtase?
— É melhor do que isso. — Nossos narizes se tocaram e outro arrepio me atingiu.

Umedeci os lábios, tentando buscar pela minha voz que aos poucos queria desaparecer.

— V-você pode me mostrar? Eu quero ser beijada por você, ser tocada pelas suas mãos… — sussurrei cada palavra, deslizando meus dedos pela lateral dos braços dele.

prendeu a respiração e se levantou. Pensei que fosse se afastar, até vê-lo crescer por cima de mim e correspondi automaticamente. Segurei o tecido da sua camiseta, lentamente me deitando no sofá, levando-o junto. Por um momento, pensei que entraria em pânico, mas minha mente atingiu uma calmaria que nunca senti antes.

, estamos bêbados. — Ele se ergueu o suficiente para não me esmagar.

Segurei os ombros rígidos no exato momento em que seus olhos se encontraram com os meus e nas pupilas pude ver toda a sua resistência se partindo aos poucos. Ele me queria tanto quanto eu.

— Chega de fugir, … Vamos deixar que nossos corpos bêbados se entreguem, já que sóbrios não conseguimos. — Forcei o tronco para frente, levando a boca até o pé do seu ouvido. — Será o nosso segredo.

Ouvi o seu grunhido e vi os pelos da sua nuca se arrepiarem. Se ele sentia a mesma chama que eu, então por que não conseguia se entregar de uma vez? Qual era o problema?

— Eu não posso fazer isso. Não é para ser assim. — Sua mão envolveu a lateral do meu rosto. O polegar acariciou a bochecha. — Devemos lembrar disso no outro dia…

Minha boca se curvou em um sorriso automático.

— O novo psicólogo me disse que preciso enfrentar os meus medos — contei, sentindo as bochechas esquentarem. — E o primeiro medo que quero enfrentar é o de beijar você.

paralisou. O toque quente do polegar cessou. Seus olhos azuis tornaram-se duas fendas escuras e profundas que pareciam enlouquecidas para me devorar. A respiração se tornou descompassada, as narinas infladas. A tensão entre nossos corpos se tornou insuportável, um clamando pelo outro em uma dança sensual e deliciosa.

— Eu quero você...

E isso bastou para fazê-lo avançar como um felino sobre mim.
não me beijou. Ele me tomou, me possuiu, me reivindicou.
Sua boca se fechou na minha com uma urgência voraz, incendiando cada pedacinho do meu ser. Seu corpo se apoiou sobre os antebraços e as mãos grandes envolveram meu rosto, aprofundando o beijo nada gentil. Seus lábios firmes e quentes eram possessivos, tomando cada centímetro sem pedir permissão para avançar.
Nossas línguas se tocavam como explosões, entregando-se ao desejo que tanto reprimimos. Gemi em sua boca, deixando os dedos deslizarem pela nuca firme, enroscando nos cabelos macios. Eu puxei com necessidade, sendo deixada levar pelo impulso, e pouco me importava para isso; só queria que continuasse a me devorar sem pudor nem gentileza. Colei mais nossos corpos, desejando quebrar as leis da física, nos fundir em um único espaço.
Delicioso, quente, poderoso e enlouquecedor.
Sua mão escorregou para meu pescoço e seguiu até a minha cintura, explorando lentamente. Os dedos afastaram a barra da camiseta, apertando a carne com vontade e necessidade, e em um movimento brusco, chocou meu quadril contra o seu, querendo que sentisse a ereção protuberante pulsar contra a minha virilha.
Oh, céus, de todos os beijos que tive na vida, nenhum se comparava à intensidade, ao desejo e à urgência deste.
Não restavam dúvidas. Poderia beber todas as garrafas de cerveja que trouxeram, eu jamais o esqueceria. Sempre que fechasse os olhos, lembraria de cada segundo do seu toque, da língua possessiva, do cheiro de cedro e pimenta. ficaria marcado em minha boca eternamente.
Ao ficarmos ofegantes, ele se afastou com as labaredas queimando em suas íris. Entreabri a boca e arfei com sua mão na minha mandíbula. Segurou com força, distribuindo beijos molhados por todo o maxilar. Fechei os olhos, mordi os lábios e joguei a cabeça para trás, apreciando cada segundo. Ele desceu para o pescoço, dando uma leve mordida antes de passar a língua por toda a extensão.
O gemido prazeroso, sem vergonha, tão entregue, ecoou pela sala. A risada travessa bateu contra minha orelha. mordiscou o lóbulo, os dentes deslizando com delicadeza, de maneira tão sensual que o meio das minhas pernas se contraiu.
Continuou a segurar meu rosto, enquanto com a outra mão fechou em torno de um dos mamilos. Agarrou com cuidado e afastou o sutiã, mesmo com a camiseta, resvalando o polegar pelo bico intumescido. Pelos deuses, foi como ser eletrocutada diversas vezes e esperar ansiosa pela próxima descarga. O gemido escapou. Finalmente aceitei que não tinha mais o controle do próprio corpo, que respondia automaticamente a todos os estímulos dele.

— Gostosa demais. — Puxou a barra do tecido e deixou beijos famintos pela barriga, fazendo caminho até o busto.

Em um impulso, minhas mãos agarraram sua blusa, puxando‑a com urgência. Ele me ajudou, se livrou dela num piscar de olhos e a jogou em qualquer lugar do sofá. Mordisquei o lábio inferior, percorrendo o tronco nu, bronzeado e definido. tomou minha boca, encaixando nossos corpos de forma perfeita. Minhas mãos deslizaram das costas largas para o abdômen definido, os dedos contornando cada músculo, ansiando para cravar as unhas ali, marcando‑o como meu.
Estava prestes a entrar em um frenesi insano, quando o ronco do motor reverberou do lado de fora.
estremeceu. Ergueu a cabeça, encarando a porta como se quisesse confirmar o que ouvira. Em questão de segundos, sua expressão mudou, soltou um grunhido baixinho. Os olhos, ainda tomados pela luxúria, encontram os meus, o pânico invadindo as pupilas. Engoli em seco, paralisada, frustrada pela realidade, nos faça enxergar o que estávamos fazendo.
Seu corpo afastou-se bruscamente. Minha pele suplicou, sentindo falta do calor no mesmo instante. Rapidamente pegou a camiseta entre as almofadas, enfiou a cabeça, cobrindo o peitoral esculpido que nem tive tempo de apreciar. Levou as mãos para os cabelos, desarrumando ainda mais os fios, os olhos perdidos e o semblante abatido. Mordi a língua, o coração dando um solavanco. Eu conhecia muito bem essa expressão.
Merda.
Ele se arrependeu? Havia correspondido com tanto ardor que pensei ter gostado. Eu sabia que era inexperiente na arte de satisfazer um homem, só não imaginei que os anos lendo livros românticos com cenas hots seriam tanto desperdício. Será que não gostou do beijo? Mas como, se foi ele que me beijou?
Os questionamentos vieram, o canto dos meus olhos encheu de água e tudo o que mais quis foi correr para o quarto, esconder-me sob as cobertas, fingir que nada disso aconteceu. Só havia um pequeno problema… Eu ainda ardia por ele. Eu havia amado cada sensação. Então seria impossível conviver sob o mesmo teto, fingir demência, quando ansiava por mais do seu toque, sentir o gosto e a firmeza dos seus lábios. Porra. Eu estava fodida.
O click da porta sendo aberta soou pela sala. Madisson entrou, segurava a embalagem dos burritos. Aidan veio logo atrás, com as caixas de pizza empilhadas sobre os braços fortes. Eles balbuciaram algo e os acompanhou até a cozinha. E assim fui deixada sozinha apenas com as brasas incandescentes, o cheiro de cedro e pimenta nas roupas.
Girei a cabeça, ouvindo apenas as vozes animadas ao fundo. Decidida, levantei-me em silêncio e subi as escadas. Precisava de um tempo sozinha. Queria conseguir respirar novamente, pensar no que aconteceu. Ao alcançar o andar de cima, corri para o quarto. Tranquei a porta, o corpo ficou encostado na madeira. Levei os dedos até os lábios inchados, relembrando cada segundo da boca dele na minha.
Balancei a cabeça, indo para a cama. Cobri o corpo, abracei o travesseiro, mas ao tentar fechar os olhos tudo voltava com força. A pegada forte, o corpo largo que se encaixava perfeitamente ao meu, a possessividade e o cuidado em cada movimento, a boca quente, cheia de desejo. Virei de barriga para cima, encarei o teto, a respiração ofegante apenas pelas lembranças.
Uma verdade era inegável.
Porra.
conseguiu foder com cada pedacinho do meu cérebro. E me deixei ser fodida por ele.





A noite nunca passou tão devagar. O colchão parecia cheio de espinhos que impediam o meu corpo de relaxar. O lençol se assemelhava a palha, pinicando toda a pele. Suspirei, frustrada, resolvendo tomar um banho mesmo que tivesse o feito mais cedo — algo que também ajudaria na minha farsa. Fui para o banheiro da suíte, retirei as roupas que ainda tinham o cheiro dele e mergulhei no jato de água quente que já saía do chuveiro.
Depois que subi para o quarto, Madisson veio trazer os burritos e perguntou se estava tudo bem. Tive de mentir, inventei que, por não estar acostumada com o álcool, minha cabeça explodia como se ratos estivessem fazendo a festa, junto de uma banda de rock. Por sorte, ela não insistiu, deixando-me sozinha com a mente atordoada. Às vezes, ouvia risadas vindo do andar de baixo, significando que não iriam embora tão cedo.
A verdade era que não queria vê-lo depois do que aconteceu. Sentia vergonha e medo de como reagiria. Quando se levantou do sofá pareceu que uma flecha invisível o atingiu. O rosto tomado de volúpia se transformou em um misto de arrependimento que beirava ao remorso. Ele nem mesmo tentou disfarçar.
O meu coração se apertou, querendo quebrar em milhões de pedaços. Lutei contra os pensamentos intrusivos que diziam que só quis se aproveitar da minha vulnerabilidade, como todos os idiotas fizeram, mas me recusei a acreditar. Eu o conhecia desde a adolescência, e apesar de ter tido a sua época de galanteador, algo em meu íntimo gritava que nunca faria isso comigo.
No começo, poderia ter reagido mal à nossa convivência forçada. Mas agora, depois de tudo o que passamos, seria impossível que fosse tão baixo a esse ponto. sempre respeitou o meu espaço. Se mostrou atencioso quando fui assombrada pelo trauma. E se lembrou que eu gostava de girassóis e burritos.
Esfreguei as mãos no rosto, retirando o excesso da água. Será que seria tão cretino para brincar com os meus sentimentos desse jeito?
Fechei o chuveiro antes que começasse a alucinar. Enrolei-me na toalha fofinha e voltei para o quarto. Vesti a primeira camisola que encontrei no guarda-roupas, não me preocupando em usar uma calcinha. Ninguém entraria ali. Seria somente eu e minha mente problemática que pensava demais.
Apaguei todas as luzes, afastei o edredom e me joguei na cama, abraçando o travesseiro. Passei alguns minutos encarando a noite pela janela aberta, antes de fechar os olhos. Deitei-me de bruços e finalmente pude relaxar, deixar a tensão de lado.
Respirei profundamente, quase adormecendo quando senti a vibração suave no pé da cama. Em seguida, algo incrivelmente pesado afundou o colchão em um baque surdo. O movimento abrupto me fez prender a respiração. Dedos ágeis subiram pela minha coxa, causando-me arrepios na espinha. A mão grande tomou posse da cintura e me puxou em direção à parede de músculos quentes. Arfei, ao sentir o lóbulo da orelha ser mordiscado de maneira que somente ele conseguia fazer.
Enquanto a mão continuava a venerar todo o meu corpo, a outra afastou os cabelos do ombro e a boca passou a beijar de forma lasciva. Mordi o lábio inferior com força, meu quadril ganhando vida própria, roçando contra a ereção endurecida na minha bunda.
Senhor, o tamanho desse homem era surreal.

— Vou fazê-la gritar meu nome a noite inteira. — Usou o tom rouco que tanto me enlouquecia. — Vai gozar tanto no meu pau que nunca mais se esquecerá do homem que te fode tão gostoso.

Joguei a cabeça para trás, minhas pernas ficando bambas. Ele poderia fazer o que quisesse comigo, não teria como escapar — e ansiava por cada segundo dessa tortura.
Cada partícula do meu corpo se arrepiou. Disposto a me enlouquecer, subiu a barra da camisola, o suficiente para acariciar o quadril. O toque quente, delicioso e firme. Escuto-o grunhir baixinho e gemi quando sua mão alcançou os grandes lábios, fechando-se ali com possessão.

— Porra, me esperando sem calcinha, ... — sussurrou rouco e senti seu pau pulsar ainda mais em minhas nádegas.
Os dedos alcançaram o clitóris e começaram a massagear em círculos, obrigando-me a arquear as costas até estar completamente grudado ao seu peito nu. Uma súbita onda de prazer me atingiu quando introduziu dois dedos na minha entrada, torturando em um vai e vem lento, sem pressa.

— Tão molhada... — Chupou meu pescoço com precisão e precisei agarrar o lençol, temendo entrar em combustão. — Goza para mim. Goza para o seu homem. — Aumentou as estocadas, o polegar circulando o clitóris sensível.

O gemido que escapou da minha garganta se transformou em um grito de prazer. Um som que reverberou pelo quarto, puxando a realidade em um golpe seco e bruto...
E então, em um salto, acordei.
Ofegante, suada e completamente excitada.
Sentei-me na cama, esfregando o rosto com as mãos. O quarto encontrava-se silencioso, o único ruído sendo da minha respiração pesada e dos batimentos do coração contra as costelas. Olhei ao redor, a mente se recusando a acreditar que foi apenas um sonho, uma criação abominável do subconsciente.
Limpei o suor frio que se acumulava na testa. Toquei a barra da camisola, sentindo o tecido úmido colando ao corpo. Desci a mão para a coxa onde tocou, a pele ainda parecia em chamas. Subi para o pescoço, exatamente onde deveria ter deixado a mordida e o simples roçar dos dedos foi capaz de arrepiar a nuca inteira.
Fechei os olhos e suspirei. Foi muito real.
Era como se conseguisse sentir o cheiro do seu perfume impregnado no quarto. Ainda escutava a voz rouca vibrar contra meu ouvido. O toque possessivo me tomou com ânsia. O fogo queimando em meu ventre...

— Eu não vou deixar você me assombrar, — murmurei, notando que não conseguia nem sequer dizer o seu nome sem sentir o estômago revirar.

Merda.
Levantei-me, as pernas iguais a gelatinas. Abracei o próprio corpo ao ser atingida pelo ar gelado da noite que vinha da janela aberta. Caminhei até o parapeito, debruçando-me para olhar as ruas desertas da madrugada. O vento soprou contra os cabelos bagunçados, e só então notei que o carro de Aidan tinha desaparecido.
Engoli em seco. Qual seria a probabilidade de descer e dar de cara com o causador dos meus desejos mais impuros, parado no meio da sala?
As bochechas coraram ao ser dominada pela ideia de terminarmos o que começamos naquele sofá. Por Deus, eu só poderia estar enlouquecendo. Fechei o vidro, puxando as cortinas como se isso fosse minimizar a vergonha do sonho e da intensidade do meu desejo.
Desde o que aconteceu em Nova York, pensei que nunca mais sentiria isso por um homem. E apesar de todo o turbilhão estar me assustando, no fundo, me sentia extasiada. Por muito tempo, acreditei que viveria presa na bolha do trauma e agora era libertador saber que Kaleb não me assombraria mais.
Fiquei apreensiva quando visitei o novo psicólogo. Imaginei que fosse um desperdício de tempo e dinheiro. Mas estava errada. Em menos de duas semanas fizemos mais progresso do que anos com a antiga terapeuta. Yelena havia falado muito bem sobre ele, era o seu professor na universidade. Ele se aprofundou em ajudar casos como o meu, por isso foi tão certeiro.
Segundo os seus conselhos, eu tinha me fechado para o mundo, com medo de viver. Minha mente canalizou o trauma e o transformou em um obstáculo. Temia tanto encontrar Kaleb que me esqueci de que foi detido pela polícia por abuso sexual e porte de drogas, e se encontrava preso no presídio de segurança máxima. Além disso, assegurou que as pessoas ao meu redor sempre estariam dispostas a me proteger.
E, apesar de ficar receosa sobre isso, não precisei pensar muito para saber que e Dante colocariam fogo no mundo por minha causa.
Dante foi o único que teve coragem de enfrentar Kaleb quando todos apenas observavam e riam. Ele me protegeu, me ajudou na noite chuvosa e comprou as passagens para que eu me mudasse para Boston. Sempre esteve ali quando precisei, mesmo que não fosse sua obrigação. E agora se encontrava morando há poucos metros da minha casa.
E ... Bom, esse teria coragem de montar uma fortaleza só para que eu ficasse segura. Mesmo que não fôssemos um casal, éramos uma família. E desde novo sempre se mostrou disposto a fazer tudo pelas pessoas que ama. No dia que contei sobre Kaleb, senti seus músculos tensos a cada palavra que pronunciava, a veia saltada no pescoço e os punhos cerrados. Então, eu sabia que faria de tudo por mim e nem era porque tinha uma promessa com Noah.
No entanto, não imaginei que me sentiria assim depois de beijá‑lo. Eu confiava nele, mas temia que a intensidade do meu desejo o fizesse fugir.
Soltei o ar pela boca, o peito apertando com a mera possibilidade. Eu não queria perdê‑lo por algo tão estúpido, e sabia que o único jeito de acabar com isso era conversando, só que era tarde demais e ele acordaria cedo para trabalhar. Minha única esperança seria esperar até o momento certo, quando estivéssemos mais calmos, de preferência sozinhos.
Mas o que fazer enquanto isso? Eu precisava canalizar essa energia e, depois do sonho erótico, dormir estava fora de questão. Seria assombrada pela insônia.
Liguei o abajur ao lado da cama e meus olhos caíram sobre a única coisa que poderia drenar toda a euforia. Caminhei até a escrivaninha e alcancei o notebook. As palavras seriam o refúgio perfeito. Sentei-me na poltrona macia, começando a digitar, rápida e furiosa. Por ironia do destino, escreveria uma cena quente entre Elisa e Joshua, então usaria cada detalhe do sonho como combustível.
Os dedos voaram sobre as teclas, as palavras fluindo com tanta intensidade que, em alguns momentos, fiquei corada. E ali, em frente ao computador, sabia que a única forma de lidar com os problemas era confrontar‑os de frente. E seria exatamente isso que faria com .
Não me esconderia como uma garotinha assustada; tínhamos um assunto pendente para resolver. Eu só esperava que ele pensasse o mesmo.
Cutuquei as ervilhas com o garfo, arranhei a porcelana branca com as pontas. Suspirei, encarando o prato cheio de arroz de forno, que havia feito naquela manhã para o almoço. Meu estômago parecia cheio, mesmo que não tivesse comido nada. A fome desapareceu como fumaça nos últimos dias. As poucas refeições que fiz foram por insistência de Greta, que ficou preocupada, temendo que eu adoecesse.
Ergui os olhos para o relógio, os ponteiros zombando de mim. Larguei o talher e fechei os olhos, a cabeça pendendo para baixo, decepcionada. Já se passaram dois dias e duas noites que não o via. Foram longas 48 horas com a angústia e a insegurança batucando as paredes da minha mente. Não que estivesse contando, mas com o painel marcando 14h30, completava quase 60 horas.
O miado baixo, manhoso, atingiu meus tímpanos. Levantei a cabeça, o gato preto sentado à minha frente. Os olhos amarelos me encaravam com atenção. Cocei atrás da sua orelha, ouvindo-o ronronar. As patas peludas se ergueram e passaram a se esfregar contra o braço estendido, enquanto acariciava suas costas.
— Será que se amarrar um bilhete na sua coleira, ele vai me responder? — Soltei um risinho com a brincadeira, apesar de ser uma ótima ideia usá-lo como mensageiro. — Eu fiz alguma coisa de errado, Sky? — Apoiei o queixo na mão livre e continuei com o carinho.
Eu só queria vê-lo. Perguntar se estava tudo bem, talvez, até pedir desculpas por deixar o álcool falar mais alto e ter quase implorado por um beijo.
Na manhã seguinte, após a noite de jogo, até cheguei a ver a sua sombra no café da manhã. Ele estava impecável com a camiseta de linho lilás que sempre usava nas segundas, a calça jeans escura e sapatos pretos. Os cabelos penteados para trás deixavam-no mais bonito. O relógio no pulso completava o visual. E o perfume amadeirado tinha o poder de me fazer relembrar cada momento do beijo caloroso no sofá.
Lembro-me de ter engolido em seco e as pontas dos dedos ficarem geladas de nervosismo. Tinha passado a noite inteira acordada, me preparando para aquele momento e quando finalmente chegou foi como se tivesse sofrido uma lavagem cerebral. Tomei coragem e decidi enfrentá-lo, mas o celular tornou‑se meu obstáculo — a ligação parecia nunca ter fim.
Mal coloquei o café da manhã no prato e ele já havia desaparecido, dizendo que voltaria para o almoço. E assim as horas seguiram, nem sinal dele. Fiquei feito uma tola, esperando para almoçar. Por sorte Mia não tinha creche por três dias, então passamos a tarde juntas assistindo a desenhos animados e um breve passeio no parque.
Quando a noite caiu, Greta e eu fizemos um jantar delicioso. Carne assada com purê de batatas e legumes. Esperamos por e, até enviei uma mensagem perguntando se apareceria, fui ignorada. A governanta me acompanhou para que não ficasse sozinha, já que a pequena tomou uma grande mamadeira de leite e adormeceu — ela não estava com muito apetite.
Passei a madrugada acordada, escrevendo e só parei ao sentir os dedos reclamarem, os olhos implorando por descanso. Deitei-me por volta das duas da manhã e mesmo assim não consegui fechar os olhos, só os fiz ao escutar a porta da frente se abrindo, os barulhos na cozinha e do momento em que conversou com Sky. Sua voz arrastada era como se tivesse acabado de ser atropelado por um caminhão.
Por isso, adiei a conversa para o dia seguinte. No entanto, ao despertar, ele já havia partido. Na porta da geladeira, deixou um bilhete. A caligrafia pedia desculpas por não ter aparecido e avisou para não esperá-lo, pois chegaria tarde. Soltei um suspiro resignado, tendo a ligeira impressão de que as desculpas eram mais direcionadas a Mia do que a mim.
E agora encontrava-me novamente sentada à mesa. Esperava que dessa vez aparecesse, já que não tinha nenhum papel na geladeira avisando sobre a sua ausência quando acordei.

— Ele não vai aparecer, não é? — Direcionei ao gato, as sobrancelhas franzidas.

Em resposta, o felino se espreguiçou e esfregou a cabeça contra a minha mão em um consolo mudo.
A porta da frente se abriu e um pingo de esperança se acendeu no peito. Eu e Sky nos concentramos no som. E quando estava prestes a correr para a sala, a cabeça de uma Greta sorridente apontou na cozinha. Toda a expectativa se apagou, minha mente voltando a mergulhar no mar de frustração e angústia.

— Oh, querida. Você ainda está esperando. — Aproximou-se, depositando um beijo casto sobre minha cabeça.
— Pensei que ele fosse aparecer — murmurei, tocando o focinho de Sky com o indicador.
— Nem tocou na comida, . — Deixou as compras sobre a bancada e vasculhou as sacolas em busca de algo. — Quer que eu faça uma sopa quentinha? Pode ajudar a abrir o seu apetite.
— Não será necessário, Greta. — A partir daquele momento meu coração deu um solavanco. — Vou parar de esperar. Acho que o tem preocupações maiores do que eu e a Mia. — Peguei o garfo e levei uma porção generosa para a boca, a contragosto.
— Não diga isso, meu bem. Deve ter acontecido alguma coisa. — Começou a guardar as compras no armário.
— Não achei que ele fosse tão covarde — sussurrei baixinho, na esperança de somente o gato ouvir, mas fui descuidada.
— Aconteceu alguma coisa entre vocês? — Quando vi, Greta tinha largado tudo e se sentado a minha frente na mesa.

Engoli em seco, hesitante. A pequena garfada de comida ficou entalada na garganta. Comecei a suar frio sem conseguir desviar os olhos dela que esperava por uma resposta. Eu não sabia o que dizer. A mera ideia de Greta saber de tudo me espantou. Seria errado contar sobre algo tão insignificante que acabasse fazendo-a criar falsas esperanças.

— N-nós... Bem... — gaguejei, buscando pelas palavras certas. — Depois da noite de jogos, tivemos um desentendimento. E ainda não conversamos sobre isso. — Abaixei a cabeça, fingindo interesse nos pontos coloridos do arroz de forno. — Tem algum conselho sábio para me dar?

As mãos pequenas e enrugadas me fizeram soltar o talher. Os dedos finos entrelaçaram aos meus, obrigando-me a levantar a cabeça para encará-la. Os olhos castanhos cheios de sabedoria me sondavam, como se conseguissem ler a minha alma atormentada.

— Não se preocupe muito, querida. Dentro de uma família o que mais terá são momentos de discussão, nem sempre vocês irão concordar em tudo. — Sorriu pequeno, acariciando meus dorsos com o polegar. — Conheço o desde criança e posso afirmar que ele não está fugindo. Só aconteceu alguma coisa na clínica e por isso anda sumido.
— Mas e se não conseguirmos nos entender? Isso afetará a Mia. — Um relacionamento estável era tudo o que a assistente social precisava para tirar a guarda de uma vez, por isso que o beijo nem deveria ter acontecido.
— Dê tempo ao tempo. Pare de se martirizar — anuiu. — Você já foi atrás. Mandou mensagem na segunda; esperou que ele aparecesse. E tudo o que recebeu foi um bilhete frio colado na geladeira. Deixe-o tentar também.

Suspirei, cansada.

— Eu não sei o que aconteceu, e, de verdade, não vou me intrometer no assunto dos dois. Mas saiba que, se é importante, então ele vai aparecer. — Deu uma risadinha. — Afinal, o não vive sem essa bola peluda. — Acariciou a cabeça do gato que miou manhoso.

Ela se levantou e voltou a atenção para as compras. Enquanto eu, passei a refletir sobre as palavras sábias. Greta tinha razão, se o beijo significou alguma coisa para ele, uma hora iria aparecer para conversar. Estávamos unidos para sempre no compromisso de criar a pequena e não ousaria fugir disso. Então minha única solução seria parar de esperar, deixá-lo agir e quando acontecesse estar pronta para encarar a situação como adulta.
O nó de ansiedade finalmente se dissolveu na minha garganta. Uma dose de orgulho sendo injetada no peito. E pela primeira vez nos últimos dias, o estômago roncou, golpeou os músculos do abdômen. Peguei o garfo e devorei a comida, o apetite retornando com força.

, querida. Feliz aniversário! — Afastou-se do balcão, em mãos carregando algo que não esperava.

Arregalei os olhos, o semblante dominado pela surpresa. Ofeguei, brevemente prendendo o ar. Acompanhei quando deslizou a embalagem com cautela e retirou a tampa, revelando o bolo redondo de tamanho médio e alto, envolto de uma camada de cobertura branca, cremosa, aplicada de maneira rústica como se tivesse sido feita às pressas. O topo foi generosamente decorado com morangos frescos, minha fruta preferida.

— É um bolinho simples, mas juro que fiz de coração — comentou genuinamente, levando a mão sobre o peito.
— É perfeito, Greta! — Saltei da cadeira e a abracei com força, sentindo seus braços me envolverem.

Por um instante, os cantos dos olhos ficaram lacrimejados. O coração disparou brevemente, sendo esmagado ao lembrar que era o primeiro aniversário que passaria sem o meu irmão. Evitei pensar na data só para prolongar a saudade, mas agora diante daquele bolo seria impossível ignorar a pontada que atingiu um peito.
Mas apesar da dor, o sorriso se curvou nos meus lábios. Os cantos elevaram de alegria por ter sido lembrada, mesmo que não tivesse falado para ninguém.

— Espero que goste do recheio de leite ninho — comentou e nos soltamos para nos servir.

Greta pegou as taças de sobremesa e as colheres minúsculas. Cortamos o bolo e salivei ao ver o recheio escorrendo entre as camadas de massa branca, cheio de morangos. O sabor explodiu na boca, o buttercream suave lembrava os bolos de padaria que Noah adorava comprar, e naquele momento até desconfiei que pedia para a governanta fazê-los todas as vezes.

— Hummm... está delicioso. — Quase ronronei, levando outra colher a boca.
— Que bom que gostou, querida. — Devorou o seu pedaço, apreciando o doce assim como eu.

Ficamos ali por mais algumas horas, conversando sobre assuntos aleatórios. Ajudei a guardar as compras e depois fomos limpar a cozinha. Lavei a louça, enquanto ela organizava a geladeira, colocando o resto do arroz de forno em um recipiente de vidro que pudesse ir ao micro‑ondas — facilitando no caso de chegar morrendo de fome na madrugada.
Ao terminar decidimos levar a pequena para um passeio no parque. Ela não tinha acordado muito bem naquela manhã. Não quis comer as frutas no café da manhã e nem tomar o leite quente que sempre fazia. O lado esquerdo do seu rosto encontrava-se levemente inchado; desconfiei que mais um dente estava prestes a nascer.
Caminhei pela calçada de concreto e aproximei-me do lago, mostrando os patos e gansos que nadavam serenamente. Mia escondeu o rosto no meu pescoço, a mãozinha agarrando firme o tecido da minha blusa. Meu coração deu um solavanco, imaginando a dor que ela sentiria se realmente fossem os dentes nascendo. Então era essa a sensação de impotência de uma mãe?

— Está tudo bem, meu amor. — Beijei sua bochecha. — Olha os patinhos, estão comendo pão. — Tentei mais uma vez.

Mia sequer mostrou interesse nas aves mergulhando atrás da oferenda. Ficou com a cabeça sobre meu ombro, os dedos brincando com as fibras do tecido. Decidi não insistir, voltando com a caminhada pela praça. Passamos por um grupo de garotas que aprendiam a andar de patins, depois por dois homens que corriam com cachorros e, por último, uma família levando os filhos para o parquinho.

— O que acha de um sorvetinho, princesa? — sugeri, e ela balançou a cabeça. — Não? Podemos ver se ainda tem o de unicórnio, igual ao de ontem. — Continuou a negar. — Tudo bem. Então... Vamos procurar a tia Greta para irmos embora? — Dessa vez concordou.

Segurei o suspiro de impotência. Sentia-me incapaz de ajudá-la, queria poder fazer alguma coisa, mas não tinha nem ideia de por onde começar. Poderia mandar uma mensagem para e perguntar o que faziam quando os filhotes chegavam nessa fase, se não tivesse prometido a mim mesma parar de rastejar por atenção.
Mia grunhiu baixinho e remexeu-se no colo, meu coração se apertou mais e mais. Os músculos da minha mandíbula tensionaram. Fui assolada por uma súbita vontade de chorar em posição fetal. Era como assistir a um incêndio sem ter o extintor para apagar.
Peguei o celular, abri a conversa com e digitei a mensagem. Naquele momento, não se tratava mais do meu orgulho, era o bem‑estar da nossa filha. E ele, como pai, poderia ser de grande ajuda. Estava prestes a apertar o botão para enviar quando a voz no horizonte gritou pelo meu nome. Ergui a cabeça e o homem acenou, aproximando‑se em passos largos. Por um instante, senti um pequeno alívio. Dante também cuidava de uma menina e, com certeza, sabia o que fazer em situações como essas.

— É a primeira vez que a vejo aqui. — Cessou os passos, a respiração ofegante.
— Precisei sair um pouco de casa, a Mia não está se sentindo bem e pensei que poderia ajudar. — Fui sincera, ajeitando o cabelo atrás da orelha.
— O que aconteceu? — colocou as mãos na cintura, ainda respirando pela boca.

Evitei que meus olhos caíssem sobre seu corpo musculoso e suado. Usava uma camiseta preta slim fit que colava ao físico, a bermuda de mesma cor era folgada de tecido leve e nos pés, calcava tênis de corrida de solado branco que parecia muito confortável. Notei que no pulso tinha um relógio que monitorava seus batimentos cardíacos e a intensidade do treino.
Era normal sentir aquela pontada de culpa, a sensação de traição só por olhar para ele?

— Acho que um dos molares está nascendo. — Acariciei os cabelos loiras da pequena, ela se encolheu. — Algum conselho?

Dante pressionou os lábios, a testa franziu e a cabeça balançou.

— Aplique compressas úmidas e frias, ajudam na coceira. — Indicou a própria boca. — Bethany e eu também compramos mordedores. Coloque na geladeira por alguns minutos e ofereça a ela. — Era tão sábio, enquanto eu me sentia uma foca burra. — Melancias também ajudam, principalmente se estiverem geladas.

Sorri em gratidão.

— Obrigada pelas dicas, assim que chegar em casa irei colocar todas em práticas. — Resvalei o polegar contra a bochecha de Mia. — Odeio vê-la desse jeito e não saber o que fazer.
— É normal. Bethany e eu sofremos muito com noites mal dormidas até descobrirmos que sorvete e mordedores são ótimos aliados. — rRu divertido.
— Me sinto tão inútil — confessei e começamos a caminhar lado a lado.

Dante chutou uma pedra invisível. Vi que as mulheres passavam por nós, sem tirar os olhos dele. Elas pareciam querer devorá-lo. Também percebi que algumas torciam o nariz ao me notarem. Idiotas.

— É mãe de primeira viagem, . — Sorriu simpático. — Nem tudo está no nosso alcance. Há determinadas coisas que apenas precisamos nos sentar e esperar.
— A maternidade é tão cruel. — Beijei a testa de Mia, ajeitando os fios teimosos que caiam em sua testa.

Caminhamos em silêncio até a pequena feira de hortifruti que acontecia na rua ao lado. Avistei Greta entretida em uma barraca de beterrabas, o comerciante explicava quais os benefícios da raiz tuberosa. Ao seu lado estava um amontoado de sacolas cheias de compras que teríamos que carregar até em casa, por sorte, morávamos há apenas alguns quarteirões dali.
Mia se remexeu e soltou outro grunhido sôfrego.

— É hora de ir — proclamei e paramos na entrada da feira. — Novamente agradeço pelos conselhos, Dante. — Grata, levantei o queixo para encará-lo.
— Não precisa agradecer. — Ele coçou a nuca. — Então... O que acha de fazer alguma coisa na sexta? Poderíamos sair, relembrar os momentos bons de Nova York. — Franziu o rosto. — Quer dizer... Se você e o não estiverem...

Minha boca ficou seca, a garanta arranhou.

— Eu e o é complicado. — Ainda mais depois do beijo e do sonho erótico, a mera menção do seu nome já me causava calafrios.
— Mas estão juntos? — A pergunta soou ousada.

Eu queria dizer que “juntos” era uma palavra muito forte para rotular a relação estranha que tínhamos. Não sabia ao certo como explicar, minha cabeça estava uma bagunça, e a ideia de sair com Dante começou a me parecer errada.
Balancei a cabeça em resposta da sua pergunta e olhei para Greta em busca de refúgio.

— Dante, podemos falar sobre isso depois? — desconversei, não sabendo ao certo o que dizer para não magoá-lo. — É que aconteceu tanta coisa desde o jantar que não sei se tenho cabeça para sair agora.

Ele pressionou os lábios e anuiu, enfiando as mãos no bolso.

— Tudo bem. — Desviou o olhar, focando em um ponto qualquer pela praça. — Caso mudar de ideia, tem um parque de diversões chegando na semana que vem. As meninas iam adorar.

Assenti.

— A Bethany me passou o seu número. Eu... Hmm... Te ligo. — Forcei um sorriso amarelo.

Sua boca se curvou em uma risadinha sem graça, provavelmente notando meu claro desconforto.

— Esperarei pela ligação. — Em seguida, enlaçou minha mão e depositou um beijo casto antes de se despedir, voltando para a corrida.

Encarei a palma, girando em busca de algo. Franzi a testa, ainda analisando as linhas e os nós dos dedos. Meu cérebro martelou em curto‑circuito. Por que, para o toque de Dante, minha pele não suplicava a falta de calor? Por que meu corpo não se arrepiava na sua presença? E aquele revirar no estômago, onde estava?
Arfei, confusa.
O que possuía que incendiava todo o meu sistema nervoso apenas por pensar nas suas mãos me tocando? O que ele tinha que nem mesmo a imaginação de Dante com o corpo quente e a respiração na minha nuca nem sequer conseguia acender uma faísca? Qual era o problema?

— Pronta para ir, querida? — Greta surgiu e me arrancou dos desvaneios. — Está tudo bem? Deixou cair alguma coisa? — Procurou ao redor.

E só então percebi que meu rosto ainda se encontrava retorcido, a testa enrugada. Droga. Eu deveria parar de parecer uma lunática.

— Tudo bem, Greta. Só... Pensando alto demais. — Sorri, sem os dentes, e peguei duas sacolas.

A senhora carregou as outras e caminhamos para casa. Durante o caminho, contou que um dos feirantes tentou enganá‑la, dizendo que a batata inglesa era o mesmo que batata doce. E depois, outro ficou tão encantado com sua beleza que deu os pés de alface de graça. Rimos como se não houvesse o amanhã.
Foi o único momento do dia em que minha mente permaneceu calada, ignorando todos os pensamentos conflituosos.
Ao cair da noite, a casa ficou em completo silêncio. Greta já tinha ido embora. A pequena dormia tranquila depois de conseguir comer alguns pedaços de melancia gelada. E eu, tive a brilhante ideia de cozinhar para acalmar a euforia no peito – apesar de que poderia devorar o bolo de morango sozinha.
Mais cedo, antes de saímos da feira, comprei algumas velas aromáticas na barraca de produtos artesanais. Agora os pequenos potes de vidro localizavam-se em cima do balcão da cozinha, sendo a única iluminação do ambiente. O queimar suave das chamas exalava o aroma de baunilha, tornando o ar sereno, que me ajudava a relaxar.
Girei a colher dentro da panela, os movimentos delicados para que a receita saísse impecável. Com a mão livre, pesquei uma pequena porção e levei até a boca para sentir a textura do arroz. Ao dente, sendo hora de entrar com o vinho. Apaguei o fogo e fui até as sacolas de compras.
E enquanto buscava a garrafa, meu celular acendeu a tela sobre o mármore. Somente após encontrar a bebida e abrir a tampa, peguei o aparelho. Voltei para o fogão, desbloqueando a tela pelo caminho. Meu coração deu um solavanco; tive de prender a respiração e segurar na lateral do balcão para não cair.
A galeria notificou a lembrança de um ano atrás. Uma foto minha e de Noah, segurando o bolo de aniversário junto dos pratos de risoto de filé mignon que ele tanto adorava. Meu irmão sorria radiante. O canto da boca sujo de chantilly depois de enfiar o dedo no doce antes da hora.
Nós éramos assim. Simples, espontâneos, cheios de uma felicidade que não cabia em nossos corações.
Por um instante, me esqueci da receita e deslizei o dedo pela tela, em cima do rosto dele. A garganta embargou, a saudade transbordando no peito. Dolorosa, invasiva. Tentei sorrir para evitar o soluço de sair, mas foi inútil. Senti as lágrimas rolarem no rosto, carregando a dor que não desapareceria tão cedo, apesar de achar estar imune dela.
Eu sentia tanta falta dele que doía.
Ainda com a garrafa na mão, tomei um grande gole. Meu rosto se contorceu em uma careta. Balancei a cabeça, o álcool descendo quente e forte pela garganta. Virei de novo e de novo. Minha visão ficou turva pelas lágrimas e me deixei chorar, dando continuidade ao risoto, nossa tradição mais antiga.
Eu queria ser forte, deixar que a dor e a saudade não me afetassem. Mas ao tomar mais um pouco do vinho tinto e depois virá-lo na panela, constatei que ali, sozinha, tinha liberdade para ser frágil.
E era exatamente isso que faria, porque o amanhã seria um dia melhor.






Encarei o relógio em cima da porta. O esforço fez a ardência aumentar, as lágrimas escorreram desenfreadas, sem permissão. Soltei o peso na cadeira, o estofado envolvendo as costas em um abraço acalentador. Fechei os olhos, apertando os cantos com os dedos. Um suspiro profundo escapou pelos lábios em sinal de todo o cansaço dos últimos dias.
Exausto era a palavra perfeita para definir o meu estado. Competente para minhas ações. E covarde para os meus sentimentos.
Eu deveria estar realizado, honrado por estar com a clínica cheia de animais resgatados, mas era como se tivesse sido atropelado por um caminhão. Na madrugada de domingo, fomos chamados pela polícia para invadir dois canis clandestinos que encontramos nos bairros medíocres de Nova Jersey. Nem tive tempo de avisar a sobre isso, precisei sair às pressas com Madisson e Aidan — que por sorte não estavam tão bêbados.
A invasão foi exaustiva. Os agentes derrubaram as entradas e prenderam os responsáveis em flagrante. E só depois de vasculharem o perímetro, eu e minha equipe conseguimos entrar. O lugar era um motel abandonado que nunca levantou suspeitas. Os quartos abrigavam animais em completo estado de calamidade.
Todas as cadelas prenhas estavam desnutridas, debilitadas demais para darem à luz. Os machos maltratados, presos juntos em um único cômodo sem água e comida. E os filhotes que encontramos fizeram meu coração bater em fúria. Fiquei louco para acabar com a vida dos desgraçados que comercializavam seres tão inocentes como mercadoria barata.
Levamos todos para a Institute of Veterinary Medicine e ordenei que os estagiários entrassem com o tratamento adequado para cada caso. Pedi que Madisson ficar encarregada dos filhotes e Aidan das fêmeas que precisavam de medicamentos e soro imediatamente. Enquanto eu, lidava com a burocracia, ligando para as clínicas locais em busca de apoio e ajuda financeira.
Por sorte, muitos veterinários se voluntariaram, tocados pela causa. E mesmo com todo o esforço, infelizmente perdemos muitas vidas. Nem sempre podemos salvar a todos.
Esfreguei o rosto com as mãos, curvando-me para frente até que os cotovelos apoie sobre a mesa. Minha cabeça latejava, quase entrando em colapso. Dormir se tornou uma tarefa difícil, porque por mais que o corpo implorasse por descanso, não conseguia parar de pensar no toque suave dos lábios da contra os meus.
Cada segundo na cama era uma tortura. Meu instinto me mandava ir para o quarto dela. Deitar-se ao seu lado, me embriagar com o cheiro do seu perfume. Queria tanto sentir a maciez da sua pele sobre minhas mãos de novo que doía ter de me segurar. Os gemidos dela ficaram gravados a ferro e fogo na minha mente, e bastava fechar os olhos para ouvi-los. Lembrar-me do seu corpo pequeno reagindo ao meu como se tivesse sido feito para mim.
E agora, estava preso naquela clínica mais uma noite...
deveria estar me achando um babaca por ter desaparecido sem dar notícias. A última vez que a vi foi no café da manhã na segunda, quando passei rapidamente em casa para tomar um banho e trocar de roupas. Nem tivemos tempo de conversar. Queria dizer que, mesmo ela me surpreendendo, não me arrependia de nada.
Pelo contrário, estava tão ansioso para repetir que só de pensar nisso cada fibra do meu corpo vibrava.
Endireitei a postura e batuquei os dedos na mesa. Encarei a papelada e tentei pensar no que fazer. Eu queria sair, ir para casa e esclarecer tudo. Ela merecia saber que eu não era um canalha que se aproveitou do seu momento de vulnerabilidade. Além disso, também tinha de levar os presentes que encomendei exclusivamente para ela.
Depois do jantar na casa de Bethany, descobri, através de Greta, que o aniversário de estava chegando. Então pesquisei todas as floriculturas que topariam fazer o arranjo de girassóis mais lindo e delicado, digno da minha coelhinha. Ansiava presenteá‑la com o melhor e, por isso, também comprei um colar estilo gravatinha de ouro com pingente de pérola que ficaria perfeito nela.
Minha boca se curvou em um sorriso, no mesmo instante que tomei a decisão mais importante da minha vida. Fechei a tampa do notebook, empilhei os documentos e peguei o celular — ou pelo menos o que restou dele. Levantei-me e atravessei a sala como um raio, conferindo se desliguei tudo antes de sair. Fechar a porta nunca foi tão gratificante.
No corredor, encontrei os estagiários que corriam de um lado para o outro. Alguns pararam para contar sobre seus pacientes, enquanto outros apenas acenaram com a cabeça em um cumprimento silencioso. Aproveitei o momento para passar na sala de internações, talvez procurar por Aidan ou Madisson e dizer que deveriam cuidar da clínica naquela noite. Também queria visitar uma cadela que foi diagnosticada com problemas hepáticos – também resgatada do canil.
Ao atravessar a porta, analisei as baias, a maioria com suportes de soro pendurados ao lado. Suspirei de cansaço, o coração se apertando ao conferir os relatórios de cada caso e relembrar a noite da invasão. Agradecia aos deuses por ter uma equipe bastante competente que me deixou tranquilo nos últimos dias apenas para focar na burocracia, apesar de gostar de conferir cada passo das internações com os próprios olhos.
Parei em frente ao cubículo de número 15 e abri a tranca, sendo recebido por um par de olhos caramelos inexpressivos, atentos a qualquer movimento. As pupilas dilatadas e o focinho tão seco denunciavam o estado crítico de saúde. Soltei outra lufada de ar, ignorando os pensamentos intrometidos que relembraram o momento que a encontrei.
Sozinha, frágil e abandonada a própria sorte no armário de vassouras minúsculo, sem água e comida.

— Oi, garota — murmurei baixo temendo assustá-la. — Como você está hoje? Se sente melhor? — sentei-me no chão, cruzando as pernas.

Alarguei um sorriso sem os dentes e levei a mão até o topo da cabeça peluda. Ela reagiu bruscamente, encolhendo-se com tanta força contra o fundo da baia que parecia querer se fundir ao azulejo. Tremia de medo, os pelos eriçados e os olhos arregalados, esperando pelo golpe que não veio.

— Eu não vou te machucar, está segura agora. — Aproximei-me com cautela. — Os dias de pesadelos acabaram. — Deslizei os dedos atrás das orelhas pontudas e a senti estremecer. — Tudo bem... Podemos ir com calma. — Afastei-me e retirei o sachê do bolso do jaleco, que sempre carregava comigo.
Puxei o pote de ração e percebi que ela sequer tocou nos grãos. Meu peito se retorceu, odiando estar naquela situação. A parte mais difícil da medicina veterinária era a espera. Ficar à espreita, torcendo para que os animais aceitassem a comida, antes de ficarem debilitados, hepáticos. E muitas vezes, não acabava em final feliz.
Despejei o conteúdo, misturando com o dedo, a fim de fazê-la comer um pouco. Não sabia ao certo por quanto tempo ficou presa naquele armário, mas pelos resultados dos exames diria que alguns dias. Os números só confirmaram a minha suspeita o resultado difícil de aceitar.
Ela precisava ser forte e se agarrar à vida. E inexplicavelmente, desejava isso com todas as forças. Desde que a peguei nos braços, o corpo debilitado, trêmulo e magro demais para um Border Collie, prometi a mim mesmo que a salvaria. Mostraria um mundo diferente, longe da maldade humana, assim como fiz com Sky.

— É o melhor sachê de carne que posso oferecer. Se não gostar, posso trazer o de cordeiro. — Empurrei o pote para perto dela, no fundo torcendo para que pelo menos mostrasse interesse. — O que acha de fazermos uma troca? Você come um pouco e prometo encontrar um lar cheio de amor — tentei, a esperança viva em cada célula do meu ser.

No entanto, ela apenas inclinou a cabeça e cheirou a comida talvez verificando se realmente era real. Em seguida, se afastou, voltando a olhar para mim com desconfiança e atenção — e é nesses momentos que gostaria que eles pudessem falar comigo e me contar como se sentiam, assim poderia ajudá-los com palavras de acolhimento
Tencionei a mandíbula, os olhos se fecharam em frustração. Tamborilei os dedos no joelho, buscando dentro da mente alguma solução para aquele impasse. Mordisquei o lábio inferior. A ideia que me cometeu foi de forçá-la a comer, como fazíamos em situações como essa. Mas isso a faria sentir mais medo de mim e não era o que queria. Tinha de conquistar a sua confiança, então tudo o que restava era esperar e receitar mais uma bolsa de soro.

— Vamos tentar amanhã de novo, garota. — Arrumei o cobertor, tomando cuidado para não a assustar. — Não vou desistir de você. — Fechei a porta e me levantei.

Analisei os outros pacientes e senti alívio ao ver que a grande maioria respondia perfeitamente ao tratamento. Desliguei as luzes e saí, indo rumo à recepção onde sabia que encontraria os dois responsáveis pelos plantões noturnos.
Durante o caminho, peguei o celular no bolso da calça e tentei ligar mais uma vez, apenas para me certificar de que a tela não acenderia. Em meio a todo o caos do resgate, deixei o aparelho em cima do teto da caminhonete da clínica, enquanto ajeitava as gaiolas na caçamba. E com a cabeça tão cheia, esqueci-me de pegá-lo antes de dar partida no veículo, agora o que tinha nas mãos era só o resto que sobrou depois de tê-lo atropelado.
Rolei os olhos, sentindo-me um idiota por ainda insistir em algo que claramente se foi deste mundo. Era só olhar a tela trincada e a carcaça amassada que pouparia a esperança. Adicionei uma nota mental para lembrar de contar isso a , se, caso, tivesse enviado mensagem, não a ignorei por ser um babaca de merda.

— Cara, desiste. Não vai conseguir nada com esse lixo. — A voz de Aidan atraiu minha atenção.

Só então, reparei que estava parado no meio do corredor encarando os destroços.

— Sabe o que as pessoas fazem nesses casos? Elas compram um novo. — O delinquente envolveu meus ombros e gargalhou.

Empurrei-o pelas costelas e ele fez uma cena dramática, fingindo ter sido jogado contra a parede.

— Achei que era só colocar embaixo do travesseiro e esperar a fada do dente aparecer — fui irônico, seguindo meu caminho com sua sombra em meu encalço.
— Olha, eu tentaria. Ouvi dizer que, se roubar a magia da fada, você pode se tornar um mago. — Soltou outra risada.

Balancei a cabeça, o sorriso divertido desenhado nos lábios. Somente aquele infeliz para me fazer rir em meio a tanto cansaço.
Chegamos à recepção moderna, sendo recebidos pela iluminação de LED embutida no teto que tornava o ambiente mais receptivo. A brisa gelada devido ao ar-condicionado conseguia acalmar meus nervos à flor da pele. Observei as poltronas de espera vazias, exceto pela mulher sentada em uma delas, perto do balcão de atendimentos.

— Não acredito que o Aidan já está te perturbando, . — Madisson levantou a atenção do documento e nos encarou.
— É o que ele sabe fazer de melhor. — Dei de ombros, indo para trás do balcão vazio e retirando o jaleco.

Aidan sentou-se ao lado da mulher e passou a apontar defeitos em seu relatório. A ruiva o estapeou com a prancheta, começando a provocação tão habitual. Às vezes desconfiava que ele sentia algo tão forte por ela que não conseguia controlar e por isso a perturbava tanto.

— Espero que esteja com paciência hoje, Madisson. O plantão noturno é todo de vocês — disse na lata.

Ela negou com a cabeça e jogou a cabeça para trás. Uma careta de desgosto torceu em seu rosto.

, se quer mesmo me matar, deveria me mergulhar em uma banheira de ácido.
— Não seja dramática, bruxinha. Formamos uma bela dupla juntos — Aidan zombou e se recostou na poltrona, mastigando furiosamente o pacote de amendoim que retirou do bolso.

Sorri com o canto dos lábios, ao mesmo tempo em que digitava no computado, ´precisava imprimir o receituário da cachorrinha para que os estagiários a medicassem durante a madrugada. Uma bolsa de soro ali a vinte minutos e outra perto do amanhecer. A impressora cuspiu a folha, no topo, colei uma nota em vermelho para que oferecessem petiscos de carne a cada hora, na intenção de estimular o seu apetite.
De relance, vi como Aidan estava inquieto. Os dedos sujos tamborilavam na coxa. A perna tremia tanto que seria capaz de gerar energia própria. E quando um dos estagiários apontou no corredor, tive minhas suspeitas confirmadas. Ele correu junto do aluno, os passos batiam bruscamente contra o piso, como se estivesse correndo uma maratona. A voz estridente era capaz de ser ouvida pela clínica inteira, o tom acelerado demais para uma pessoa normal. E tinha os malditos amendoins que mastigava feito um maníaco.

— Aidan parou de fumar de novo? — quis saber, assinando a prescrição.
— Urgh. Você também notou?
— Ele já começou com as bolachas recheadas? — Levantei-me, soltando um riso anasalado.
— Por Deus, espero que não. — Apertou a ponte do nariz. — Da última vez, ele comeu três pacotes de bolacha em menos de 20 minutos.
— Se entupiu tanto de açúcar que ficou pior do que uma criança — relembrei. — Qual o propósito dessa vez? — venci a distância entre nós e entreguei a receita.
— Ele disse que conheceu uma mulher conservadora que odeia cheiro de cigarro. — Ela deu de ombros, fingindo interesse na caneta entre os dedos.

Fiz uma careta e cruzei os braços.

— Aposto cem dólares que não vai durar uma semana — comecei os lances e Madisson ergueu a cabeça.
— Aceito a aposta. — Riu e estendeu a mão.

Selamos o acordo. Uma brincadeira já bastante comum entre nós, usada para qualquer situação que nos acontecesse. Sempre tomando cuidado para que ficasse restrita aos três, sem envolver outras pessoas. E na maioria das vezes, o foco era apostar por quanto tempo Aidan conseguiria resistir sem seu fiel companheiro: a nicotina.
Despedir-me de Madisson, saindo no exato momento em que foi chamada pelos estagiários para ajudar a mobilizar um cachorro. Ao fundo, consegui ouvir que não sabiam se deveriam sedar o animal ou um Aidan agitado que se entupia de amendoins salgados. Fiz o caminho para o estacionamento rindo sozinho.
Ao entrar no veículo, o primeiro movimento foi verificar o arranjo de girassóis no passageiro. Arrumei as pétalas amarelas que ficaram levemente amassadas. Por sorte, a floricultura os colocou em um vaso que facilitaria o transporte, sem correr o risco de acontecer um acidente. Peguei a mochila no banco de trás, revirando os bolsos em busca da caixa do colar e a deixei junto ao buquê para não esquecer.
Manobrei, fazendo o caminho já tão habitual. O som do motor retumbava, não sendo suficiente para abafar a turbulência dentro do meu peito. Era como se já conseguisse sentir o aroma de romã e verbena só por pensar nela. O estômago revirou. A ansiedade e a insegurança me atingiam de maneira inexplicável.
Será que ela gostaria dos presentes? Como reagiria ao ver as flores que tanto amava? E o mais importante: repetiríamos aquele beijo? Ou me rejeitaria por ter desaparecido nos últimos dias? E se perdêssemos nossa recente dinâmica familiar? Como criaríamos a Mia?
Droga. Eu poderia ter estragado tudo o que demoramos tanto tempo para construir...
A pontada aguda cutucou meu coração. Passei a apertar o volante com força ao imaginá-la rejeitando o buquê e me chamando de covarde. Eu sabia que de certo modo merecia isso, deveria ter agido como um homem no dia seguinte. Preparado um café da manhã na cama para ela, ter sido gentil, deixado claro que não me arrependia de cada segundo. Enfrentado os medos.
Merda.
Se era tão fácil assim, então por que me sentia como um adolescente inexperiente?
Já estive com muitas mulheres, mas nenhuma me fez suar frio com a ideia de ser descartado feito lixo. O que estava acontecendo? O que havia de tão especial em que me causava calafrios? Eu sabia que as outras foram apenas prazeres momentâneos, mas com ela... Era como se estivesse prestes a perder tudo: minha sanidade, minha filha e o futuro da minha família.
Estacionei no automático, o barulho das chaves arrancando-me do transe. Soltei os dedos lentamente do volante e tentei acalmar o tremor. Engoli em seco tão nervoso que o suor já escorria pela testa. Abri e fechei as palmas, os olhos fechados para que o cérebro iniciasse uma contagem silenciosa. Inspirava e expirava, os batimentos diminuindo aos poucos.
E se ela me rejeitasse? O que faria para que nossa convivência não mudasse?
Oh, céu...
Balancei a cabeça, afastando os questionamentos como se fosse fumaça. Não era hora de deixar a insegurança e o medo tomarem conta; eu já tinha ficado tempo demais longe dela para simplesmente fugir agora. É só a — ma mulher de 1,66m de altura e não um monstro com sete cabeças que se multiplicavam a cada segundo. Ah... Se minha irmã estivesse me vendo agora, com certeza estaria rindo do meu desespero.
Suspirei, finalmente empurrando a porta do carro. Segurei o buquê de girassóis e a caixinha do colar, guiando os passos até a porta. Tentei conseguir tempo antes de finalmente entrar. Lentamente travei o veículo e remexi o molho de chaves em busca da certa, e a coloquei na fechadura. Girei, os dedos trêmulos. Era a hora da verdade.
Eu estava prestes a empurrar a madeira quando o som de vidro se estilhaçando penetrou em meus ouvidos. Os sentidos ficaram aguçados e parei por um instante, tentando ouvir qualquer sinal de ameaça. Percorri a rua deserta e pensei que, dependendo do que me esperava atrás daquela porta, minha primeira escolha seria correr até que meus pulmões implorassem por ar. Era novo demais para morrer.
Mas um novo estalo seco, seguido de um gemido prolongado e um miado estrondoso de pavor, me fez jogar o corpo para dentro. A ansiedade e o medo deram lugar à adrenalina fria.
Fui recebido por uma atmosfera densa e incrivelmente deliciosa. O aroma de baunilha se espalhava por cada canto da casa, um detalhe estranhamente peculiar já que só usávamos desinfetante de lavanda. Arqueei as sobrancelhas ao notar que o único cômodo de acesso era a cozinha. Aproximei-me do sofá, deixando os presentes ali, decidido a verificar o que estava acontecendo.
Tomei um pequeno susto ao sentir o corpo minúsculo de Sky se esfregar contra minhas pernas. Afaguei atrás das orelhas pontudas, pensando que pelo menos meu gato está a salvo. Mas se não foi o felino que fez aquele barulho, então quem seria?
O deixei na sala e tomei coragem para enfrentar, seja lá o que estivesse na cozinha, mas nada me preparou para encontrar o balcão em U com pequenos potes de velas aromáticas — as causadoras de espalhar a baunilha por todo canto. Varri o chão com atenção, encontrando o frasco quebrado; a cera líquida se espalhava ainda quente, o pavio, por sorte, já apagado. No entanto, foi o objeto pontiagudo ao lado dos destroços que me chamou a atenção.
Não era para aquela faca estar ali. Mas que porra...

Feliz aniversário, ! O ano que vem será melhor! — A criatura emergiu de trás do balcão, uma garrafa de vinho pela metade na mão.

Ela fez um brinde imaginário; algumas gotas saíram pelo gargalo ao movimento brusco. Em seguida, bebeu um grande gole e soltou uma gargalhada excêntrica, completamente embriagada. Admito que teria rido se meu coração não tivesse dado um solavanco, os pensamentos me consumindo. Sabia que deveria ter vindo antes; agora tinha uma coelhinha muito bêbada no meio da minha cozinha.
Os cabelos negros encontravam-se bagunçados. fechou as mãos, segurando um punhado de fios desordenados, enquanto remexia o corpo em uma dança estranha, ao som da música que só existia na cabeça dela. A camisola branca fina moldava as suas curvas, deixando os movimentos perfeitamente sensuais e provocantes – algo que ela parecia não se importar.
Engoli em seco, imaginando qualquer outro cenário que não fosse esse. Gostava mais da ideia de ser recebido por uma frigideira cheia de óleo quente encontrando a minha cabeça. Meus olhos se arregalaram, percorrendo cada centímetro do cômodo em caos, como se tivesse sofrido um arrastão. Panelas se encontravam no chão no meio de legumes, arroz, utensílios cortantes e o que mais me chamou a atenção: outra garrafa de vinho tinto estilhaçada, embebedada na poça de álcool.

! — Ela se virou entre cambaleadas, finalmente notando minha presença. — Você veio para o meu aniversário! — berrou, erguendo os braços realmente feliz.

Arqueei as sobrancelhas e cruzei os braços, controlando os olhos para não cair sobre o tecido úmido, quase transparente, que revelava mais do que era capaz de suportar.

— Eu sei que será uma pergunta inútil, mas... O que aconteceu aqui? — Olhei ao redor. — Por que tem arroz, alho e queijo espalhados pela cozinha inteira?

jogou a cabeça para trás e gargalhou estridente.

— É para o prato especial. — E de maneira desajeitada começou a mexer na panela.

Só então notei que o fogão estava ligado. Estremeci, a boca do estômago se retorcendo.
Por Deus, agradeci por ter saído mais cedo da clínica, porque com toda certeza, se tivesse feito na madrugada, não encontraria mais uma casa para voltar, e sim um amontoado de cinzas, bombeiros e a polícia exigindo depoimento. E eu, como principal suspeito.
Cocei a testa com dois dedos, os olhos indignados com a falta de responsabilidade daquela mulher. Será que ela ao menos lembrou que existe uma criança naquela casa antes de encher a cara?
com os lábios torcidos em um riso torto, esticou o braço para pegar algo fora do meu campo de visão e, sem querer, bateu a mão em uma das panelas. O estrondo do inox, junto de outra gargalhada, fizeram minha cabeça latejar — péssima hora para estar de ressaca do sono. Apertei a ponte do nariz e respirei profundamente, tentando manter o resto de calmaria que ainda restava.

— Está ouvindo essa música? — Ela largou a colher e afastou-se, balançando os quadris.

No impulso, joguei o corpo para frente, debruçando-me sobre o mármore. Alcancei o fogão e desliguei o fogo, conseguindo segurar o cabo da panela antes que essa também chocasse contra o azulejo. Soltei o ar, colocando-a em um lugar seguro. Encarei a faca em cima da tábua de corte, passando a imaginar todas as atrocidades que poderia ter acontecido ali.
Endireitei o corpo, para no instante seguinte ser surpreendido.

— Dança comigo, ! — Ela me puxou pelo braço.
, está na hora de descansar — murmurei e com cautela tentei tirar a garrafa de vinho da sua mão.
— Eu não quero descansar, quero dançar! — Desviou e se virou de costas, seu corpo se embaraçando contra o meu. — Ouça essa música! — gritou perto do meu ouvido e soube que se tivesse de passar a noite inteira assim, ficaria surdo pelos próximos anos.
— Não tem nenhuma música tocando — Tentei me afastar, mas ela me segurou pela nuca.
Heeeeyyyy brother. There's an endless road to rediscover.

Fechei os olhos, a mandíbula travada com força. O que eu tinha feito para que o universo me castigue desse jeito? Muitas coisas, isso tinha certeza.

Heeeeyyyy brother. Do you still believe in one another? Heeeeyyyy sister. Do you still believe in love? I wonderrrrrr. — Porra, ela cantava muito mal e com a voz embargada era como se a melodia explodisse meus tímpanos.

A música ficou mais intensa. bebericou a bebida e a usou como microfone em seu show de horrores, enquanto os dedos permaneciam agarrados à minha nuca. Novamente tentei me soltar antes que a alma saísse por contra própria do corpo, ou a insanidade começasse a falar mais alto. Além disso, se não parasse logo teríamos uma explosão de vidro naquela casa, digna de um filme de terror.
Foi então que cérebro foi pisoteado por uma manada, e uma parte traiçoeira do meu corpo passou a se agitar. Ela inclinou o quadril, a bunda rebolou contra minha virilha, e isso despertou o desejo insano que passou por todos aqueles dias loucos por ela. Mordi os lábios, segurei sua cintura, tentando mantê-la longe, mas quanto mais a afastava, mais ela se esfregava deliciosamente contra meu pau.
Meus dedos se fecharam, apertando a carne macia por baixo da camisola. E nem o próximo “Heeeeyyyy” foi capaz de fazer a ereção se aquietar. Sua cantoria nem incomodava mais, só queria que ela ficasse longe antes que a situação saísse do controle. E graças aos deuses o universo resolveu jogar do meu lado, tirando-me daquela situação embaraçosa que não conseguiria sair sozinho.
afastou-se bruscamente e senti falta do seu calor, do rebolar do quadril. Ela correu, finalmente se lembrando da panela no fogão. Despejou um pouco de vinho e acrescentou alguns ingredientes que conseguiria ter identificado se não fosse o meu estado de vergonha.

— O que vai fazer agora? — disparei, arrumando a ereção dolorida.

A consciência voltou com força, estapeou meu juízo de modo a me lembrar do que estava em risco ali. Não era hora de ficar excitando e pensar em jogar o corpo dela sobre a mesa da cozinha, foder loucamente sua bucetinha até que ficasse rouca de tanto gritar e gemer para mim. Eu precisava ter foco, porque apenas uma mente encontrava-se sã naquele momento – ou pelo menos era o que gostava de pensar.
soltou uma risada alta, que ao mesmo tempo parecia carregada com notas de angústia.

— Estou fazendo... Ah, estou fazendo o risoto mais sofisticado que você já provou! — contou, um pouco atrapalhada. — É com cogumelos porcini e... E um toque de... De... Ah, o que era mesmo? — Franziu a testa e olhou a bancada bagunçada.

Enquanto isso, aproveitei para me aproximar, assim seria mais fácil impedir que fizesse uma burrada, como por exemplo acender a boca do fogão e cozinhar naquele estado. Ela ainda buscava pelas palavras certas, quando pairei a atenção sobre a tábua de corte com alguns pedaços vermelhos, cortados perfeitamente em cubos.

— Carne? — completei e me deu um aceno com a mão.
— Não importa. O importante é que tem vinho! Muiiitooo vinho! — Fez um brinde imaginário.
— Percebi. — Peguei a panela e a coloquei na pia, torcendo para que se esquecesse dela. — E você usou bastante no preparo, não foi? — Virei-me em sua direção, os olhos pairando na bebida abaixo da metade da garrafa.

Ela assentiu vigorosamente.

— Sim! O chef disse que o segredo é... É beber o vinho, enquanto você cozinha. É para a alma da comida, né? Porque hoje... Hoje é um dia especial! — cuspiu com exaltação, não parando para tomar fôlego.

Acompanhei quando ela parou, o sorriso largo desaparecendo aos poucos. Meu peito se contorceu ao notar que olhava para um ponto além de mim, no vazio.

— O Noah adorava risoto. Ele sempre pedia quando... Quando a gente comemorava alguma coisa. — Sua voz se tornou um sussurro quase inaudível.

Os olhos castanhos lacrimejaram, o brilho de antes se apagando. As gotas grossas escorreram pelas bochechas levemente ruborizadas pelo álcool. Aproximei-me e só então ela me encarou, as íris percorrendo cada centímetro do meu rosto. As sobrancelhas franzidas, a boca entreaberta, a ponta do nariz vermelha e a letra da música... Todos os sinais diziam mais do que palavras.
O vinho nunca foi para a alma da comida. Era para a dela, para afogar todas as dores.

... Talvez seja melhor parar de beber — sussurrei gentilmente, estendendo a mão na direção da garrafa.

Ela recuou, segurando o objeto com força contra o peito.

— NÃO! — berrou e me lançou um olhar mortal. — Eu preciso... É o único jeito de... De sentir ele aqui, sabe? — Soluçou, a ponta dos dedos acariciando o vidro. — Todos me machucaram, mas ele... Ele sempre me fazia rir, mesmo quando tudo estava uma bagunça. — Os ombros balançaram, o choro sôfrego escapando sem mais vergonha de se revelar.
— Eu sei, ... Sei como dói. — Dei mais um passo.
— Não, você não sabe… — Outro soluço, a voz embargada. — Eu só queria que ele estivesse aqui. Para me zoar por queimar o alho de novo, e para... P-para me dizer o que fazer com o seu beijo. — Mais lágrimas desceram e tomei o maior soco da existência na boca do estômago.

Porra!
Eu sabia que possuía uma parcela de culpa na sua dor, mas ouvir de sua boca era ainda mais doloroso, me dilacerava por inteiro. Queria poder abraçá-la, só que temia sua reação, então tentei a melhor escolha de palavras possíveis:

— Ele estaria orgulhoso de você. E acredite em mim quando digo que o Noah não gostaria de te ver assim.

E para a minha surpresa, limpou as bochechas úmidas e gargalhou ruidosamente, o tom de zombaria. Uma nova centelha de animação — graças ao álcool — acendeu em seus olhos. Eu havia me esquecido de como as pessoas naquele estado conseguiam ser tão bipolares.
— Ele não gostaria. Diria para chutar a bunda da tristeza e viver. — Fungou, um sorriso pequeno e torto aparecendo. — É muito difícil, . Mas você está aqui e isso é bom, não é? É o meu salvador de risotos queimados! — Abriu os braços e em seguida, teve um pico de epinefrina.
Correu da minha direção, pronta a se jogar nos meus braços quando tropeçou nos próprios pés. Foi questão de segundos para me mover e ir ao seu encontro. Fechei as mãos firmes ao redor da sua cintura, segurando o corpo pequeno, de pele macia e perfume adocicado hipnotizante. riu histérica e levantou a garrafa como um prêmio.

— Consegui salvar o vinho!

Rolei os olhos, ainda a segurando contra o tronco. Ela levou a mão até a testa e soltou um grunhido dolorido, provavelmente sentindo uma pontada aguda cutucar a sua cabeça.

— Uau! O chão está dançando... Você viu isso, ? — Firmei o aperto ao sentir ela amolecer levemente.
— Sim, , eu vi — respondi, tentando manter a calmaria. — Que tal se sentar um pouco? Você já dançou bastante por hoje. — Em um movimento rápido tentei retirar a garrafa da sua mão.
— Nããão. Eu tenho que terminar o risoto! Ele está me chamando, não está ouvindo? — pegou de volta e levou a mão em formato de concha até o ouvido. — , por favor, me termineee.

Soltei um risinho pela voz engraçada que ela fez ao fingir que imitava o prato.

— E depois... Depois podemos comer e... e rir! — Ergueu a cabeça, segurou minha mandíbula, obrigando-me a olhar para ela.

A mera ideia de comer o conteúdo daquela panela fez meu estômago revirar em protesto. Só o cheiro forte de queimado era o suficiente para sentir enjoo. E o líquido que despejou para dar o sabor sofisticado só serviu para tornar a pasta pegajosa e ainda mais escura. Arriscava-me dizer que ela quis criar o próprio Venom, ao invés de fazer um risoto.

— Sinto muito, , mas não vou comer algo que vai me transformar no próximo Eddie Brock da Marvel. — Por mais que mereça por tê-la feito sofrer.

Ela fez um beicinho fofo, segurando em meu queixo.

— Então, talvez, você possa me contar sobre os bichinhos da clínica. Eles são fofos? — Piscou diversas vezes. — Você salvou os bichinhos, não salvou?
— Sim, salvei alguns. — Não tinha ideia do quanto fiz isso nas últimas horas. — E conto sobre todos, se me entregar o vinho. — Sugeri, implorando para que aceitasse. — Você já fez o suficiente por hoje. — Aproveitei seu momento de distração e rapidamente puxei a garrafa de novo.

Um resmungo infantil escapou da sua boca.

— É a minha companheira de cozinha. Como vou terminar o risoto agora? — Tentou pular assim que levantei o objeto acima da sua cabeça.
— Simples: você não vai. — Contornei o balcão e deixei que todo o conteúdo caísse na pia.
— Não pode fazer isso, é o meu aniversário! — Jogou-se na minha direção, tentando salvar a bebida.
— Exatamente por ser seu aniversário que precisa estar bem. E você não está bem, . Você está bêbada — declarei com convicção.
— Não estou bêbada, eu estou... Estou cheia do espírito de aniversário... Ah, e do Merlot que você jogou na pia. — Rodopiou no lugar.

Soltei um suspiro resignado, tinha me esquecido de como era inútil conversar com alcoólatras.

— Dança comigo, Doutor ! — Tropeçou ao tentar pegar minha mão e novamente tive de segurá-la.
— Pelo amor de Deus, , vai acabar se matando desse jeito — repreendi com as sobrancelhas franzidas.

gargalhou e depois tocou a ponta do meu nariz. Os olhos cheios de travessura feito uma criança endiabrada.

— Você fica tão lindo quando está bravo. Mas eu ainda quero dançar!

Travei a mandíbula e antes que ela pudesse correr para longe, envolvi os braços ao redor da sua cintura e a peguei no colo. soltou um gritinho de surpresa, segurando-me pelos ombros, no exato momento em que o calor dela atravessou minha camiseta, causando-me um arrepio na espinha.

— Podemos dançar no quarto — sugeri.
— No quarto? Mas e o risoto?

Tive uma péssima ideia de encará-la. Encontrei a cabeça levemente inclinada, as bochechas rosadas e o bico torcido nos lábios, ainda esperando pela resposta que não veio. Engoli em seco, sentindo o desejo me consumir. Merda. Só os deuses sabiam a imensa vontade que estava para beijar aquela boca atrevida.

— O risoto pode esperar, você não — declarei e curvei-me para apagar as velas em único sopro.

gargalhou e bateu palmas ritmadas, acompanhando a fumaça que subia dos pavios. Os olhos castanhos brilhavam, extasiados por um gesto tão simples. Foi naquele instante que entendi o porquê diziam que bêbados eram mais felizes que os sóbrios: eles encontravam a mais pura diversão em qualquer coisa, do minúsculo grão de areia a toda vastidão do universo.
Comecei a subir degrau por degrau, tomando cuidado a cada movimento súbito que ela fazia. Tagarelava como uma maritaca, contando as atrocidades que fez ao lado do seu irmão quando eram mais novos — e por mais incrível que parecesse, as palavras não a afetavam em nada, era como se estivesse anestesiada. Ria, um som tão gostoso que fazia meu peito se agitar ao pensar no momento em que ela acordaria e se depararia com a dura realidade.
Tive de cessar os passos no topo da escada assim que ela teve a belíssima ideia de segurar o meu rosto com as mãos, obrigando‑a a olhar, enquanto contava animadamente uma descoberta.

— Você sabia que o cristal é um líquido? — As íris reluziam iguais às joias.
— Um líquido? — Arqueei a sobrancelha. — Onde ouviu uma atrocidade dessas?
— Acho que vi em um livro ou filme, não importa. — A voz arrastada começava a indicar pequenos sinais de cansaço.

De repente, jogou a cabeça para trás e esticou os braços, balançando o corpo animadamente. Tive de apoiar no corrimão para que não causasse um acidente.

— Eu adoro esse quadro, toda a família reunida. — Apontou para o moldurado casamento de Lily e Noah, onde estávamos todos juntos e fizemos questão de pendurar no corredor.

Encarei a fotografia, meu peito se apertando ao olhar para nossos irmãos e ter a breve impressão de que nos observavam. O que pensariam se realmente pudessem nos ver? Será que riram ou nos repreenderiam como se fossem duas crianças irresponsáveis?
Balancei a cabeça, temendo que outra crise de angústia a afligisse, mas a sua próxima fala mostrou completamente o contrário.

— Uma pena que não podemos mais nos reunir e tirar mais fotos. Eu bebi demais e o casamento vai demorar para acabar. — Ótimo, agora estava alucinando.

Apressadamente, afastei-me, voltando para nosso caminho, antes que começasse a vomitar mais atrocidades verbais. Por um instante, amaldiçoei o arquiteto daquela casa por ter colocado o quarto quase no final do corredor. E a mera ideia de ficar preso em um ambiente fechado fazia a tensão aumentar em meus músculos. Se tinha uma única certeza era que, quanto mais longe ficasse de naquele estado, mais seguro seria para nós dois.
Ela estava perigosamente fora de controle, não sabia ao certo quando se lembraria do nosso beijo, e assim querer me acertar com uma cadeira.

, é verdade que os gatos podem ver espíritos? Acho que o Sky pode estar planejando uma invasão sobrenatural. — Endireitou a postura e passou um braço ao redor do meu pescoço.
— O que você anda lendo ultimamente? — Quis saber, realmente curioso.
— Existe uma série de dois irmãos que caçam... Humm... Demônios. Acho que deveríamos chamá-los para confirmar essa teoria. — explicou, a voz vacilante.
— Sam e Dean Winchester não existem, . — Finalmente chegamos no quarto e pude me livrar das suas ideias mirabolantes.

No entanto, bastou atravessarmos para dentro do cômodo e minha garganta secou, arranhando como um disco velho. O arrepio subiu por todo corpo, o toque suave percorrendo o ombro até o antebraço. delineou os músculos dos bíceps e tríceps, apertando-os levemente, apreciando o tamanho e a dureza. A intensidade dos seus olhos me pegou de surpresa.

— Você é tão forte... E tão... Seguro. — Deslizou até o pescoço, os dedos roçando na pele, causando um choque elétrico. — Eu gosto disso em você. — Ela mordicou os lábios e meu coração deu um solavanco.

Soltei o ar pela boca, tentando acalmar cada canto da mente que insistia em me lembrar de que havia sido um imbecil com ela. Se tivesse a procurado e agido como homem, não estaríamos passando por essa situação.

, você está bêbada, não sabe o que está dizendo. — Liguei o interruptor com o cotovelo. — Precisa descansar, amanhã temos que conversar. — Chega de fugir do inevitável, a incerteza estava me dilacerando mais do que tudo.

Delicadamente, repousei seu corpo sobre a cama de casal. Ajeitei os travesseiros embaixo da sua cabeça e a cobri com o edredom macio. Queria que se sentisse confortável, e por sorte, ela não protestou, aconchegando-se no colchão feito uma gata manhosa. O problema aconteceu quando ameacei me afastar e meu pulso foi agarrado com força, urgência.

— Não quero ficar sozinha — murmurou, os dedos me puxando para perto. — Quero ficar com você.

Engoli a saliva, molhando a garganta. Analisei a cama minuciosamente, pensando no que responder. Na verdade, nem sabia o que dizer. Encarei os poços castanhos que suplicavam, fazendo o nó se formar no meu estômago. O lado racional sussurrava para me afastar, mas o protetor falava mais alto.

Posso ficar até você dormir — sussurrei e ela abriu um sorriso adorável.
— E você vai me beijar? — Oh, céu. Tudo menos isso.

Balancei a cabeça antes de responder:

— Não vou, pequena.
— E por que não? — A ruga da dúvida pairou em sua testa.
— Porque já a machuquei demais. — Meu peito se apertou.

sentou-se abruptamente.

— Mas eu sou uma super-heroína e os super-heróis nunca se machucam! — gritou, a voz esganiçada.

Sorri com o canto dos lábios.

... Você é... É um veterinário arrogante e muiiito forte. E eu acho... Que você tem medo de se envolver porque tem medo de sentir. — por um instante desconfiei da sua embriaguez.
— Incrível como bêbados se tornam tão filosóficos.

Ela gargalhou estridente e se jogou de costas na cama, remexendo os braços e pernas como se fizesse um boneco de neve.

— Você pode até fugir das mulheres, mas você não pode... Você não tem como fugir da sua mente. — Embolou as palavras e riu em seguida.
— O uso excessivo de “você” na mesma frase não combina com a sua mente de escritora.

Ela apontou para mim e disparou, um pouco risonha:

— Você é um covarde que fugiu de mim nesses três dias, tudo por um beijo idiota!

Tensionei a mandíbula, o corpo inteiro enrijecendo. Perdi a noção do tempo, sendo estapeado pela verdade que aquelas palavras carregavam. A acusação me atingiu com a força de um raio. O calor subiu pelo meu peito, a vergonha queimando por dentro e a pontada aguda perfurando o estômago. As mãos se fecharam em punhos apertados cheios de frustração comigo mesmo.
estava certa, eu fugi como um rato covarde.
Encarei o rosto angelical, levemente avermelhado. O bolo se formando na garganta, nem sequer tinha uma justificativa plausível para o meu comportamento. E não adianta pensar, já me sentia exposto, paralisado, um ser desprezível.
O som do bocejo suave e inocente foi o que me tirou do transe. se deitou de lado no colchão e nem sequer reparei nos seus movimentos. Ela já tinha os olhos fechados, o corpo mole e pesado. O álcool e a exaustão a vencendo.

— Se você não pode me dar um beijo... então... então eu queria passar o meu aniversário com o meu irmão. Só uma última vez — balbuciou.

Suspirei, cautelosamente ajustando o corpo pequeno no colchão. Notei a respiração dela se tornando mais lenta e profunda. Sentei-me no chão e apoiei a cabeça na beirada da cama, acariciando a bochecha rosada e colocando uma mecha de cabelo teimosa atrás da sua orelha. Ela era tão delicada, não merecia sentir tanta dor.

— Feliz aniversário, coelhinha... — sussurrei e depositei um beijo em sua testa. — Sinto muito por não poder te dar o que mais precisa. — Observei cada traço do seu rosto, os dedos enfiados nos cabelos escuros em um carinho terno.

Respirei profundamente, aliviado por finalmente vê-la descansar. Fiquei por longos minutos naquela posição, apenas admirando o anjo que era Petrova e me amaldiçoando por tê-la machucado. Meu coração se apertava só de pensar nisso. Eu sabia que precisava reparar o meu erro, era o certo a fazer e não teria ninguém que me impedisse de fazê-lo no dia seguinte.
Aidan e Madisson que me perdoassem, mas eu tinha alguém que merecia mais a minha atenção do que o meu trabalho.





O gemido arranhou minha garganta, antes que os olhos conseguissem se abrir. O pulsar brutal atingiu a têmpora como um sino badalando. Virei-me de costas para a janela e o som dos carros circulando pelas ruas da cidade vibraram dentro da minha cabeça. Soltei o ar pela boca, as pálpebras se arrastaram lentamente, passando a identificar o ambiente.
A visão de lençóis macios, brancos foi tudo o que consegui enxergar antes da luz forçar-me a grunhir de dor e outra pontada me atingir. Franzi o cenho, observando ao redor do quarto e tentando entender como havia parado ali, sendo que apenas lembrava de estar preparando o risoto de filé mignon.
Engoli em seco, o gosto amargo presente na boca e o hálito quase causando náusea. O estômago dançava em ritmo violento. Fechei os olhos, tentando afastar qualquer distração que ficasse no caminho. Minha mente parecia um borrão vazio e, por isso, precisava me lembrar, mesmo que algo no meu âmago gritasse que me arrependeria disso.
Forçei o cérebro e, primeiro, vieram os olhos amendoados, azuis com pequenos pigmentos esverdeados que faziam minha pele se arrepiar. Depois, a garrafa de vinho tinto. E então, o roçar da minha bunda contra a virilha dele. Uma dança horrenda que pensei ser sexy. A última lembrança foi do rosto de , sério, com olheiras abaixo dos olhos, dizendo que não me beijaria, enquanto eu retrucava chamando-o de covarde.
Puxei o travesseiro e escondi o rosto, sentindo a vergonha de me atingir com força. Respirei profundamente, antes de ouvir o roncar alto do estômago, implorando por comida – não conseguia me lembrar qual tinha sido a última refeição. Forcei o corpo a se sentar na cama, apertando os olhos até que se acostumasse com a luz do dia.
Esfreguei o rosto, soltando um gemido doloroso ao sentir outra cutucada. Massageei a testa, girando a cabeça em busca do meu celular, mas o que encontrei em cima da mesa de cabeceira me deixou boquiaberta. Meu coração acelerou e precisei piscar algumas vezes para acreditar no que estava vendo.
O vaso de vidro abrigava um buquê cheio, vibrante e alegre. As pétalas amarelas brilhantes e os centros escuros formavam os magníficos girassóis, que tanto era apaixonada. Arregalei os olhos, ignorando a cefaleia e toquei as flores, completamente encantada. Ao lado, havia uma caixinha quadrada de coloração branca, revelando o logotipo da joalheira muito cara.
Arqueei a sobrancelha, não hesitando em abrir o presente e me surpreender ao encontrar o colar de estilo gravatinha. A corrente fina era de prata minimalista. Como pingente, havia uma pérola única e pequena, perfeitamente redonda de cor creme suave. Resvalei o dedo pela joia, temendo que um simples toque pudesse quebrá-la de tão delicada.
Minha boca curvou-se em um sorriso largo, os olhos adotando uma atmosfera iluminada.Encarei o arranjo novamente, sentindo o calor aquecer o coração. E, apesar do cérebro ser uma massa cinzenta completamente vazia naquele momento, eu sabia que apenas uma pessoa conhecia o meu desejo de ganhar girassóis.
Não precisei de muito esforço para encontrar o pequeno pedaço de papel, que se destacava atrás do vaso transparente. Lentamente, peguei o bilhete e desfiz a dobradura, com os dedos trêmulos. Mal conseguia respirar de tão nervosa. A caligrafia forte e decidida, que reconheceria em qualquer lugar. O nó apertou a boca do meu estômago ao lembrar da última vez que li o seu recado. Frio, distante.

Coelhinha, a sua cabeça deve estar querendo explodir nesse momento, então saí para comprar aspirinas.

Volto assim que sair da farmácia.

Fiquei no quarto até ter certeza de que você dormiu.

Não se preocupe a cozinha está limpa, a Greta não vai querer te matar.

Ah, não poderia esquecer: Feliz aniversário!

Espero que tenha gostado dos girassóis e do colar, comprei pensando em você.
Estarei aqui quando acordar,
Matteo.

Os lábios se curvaram a cada palavra que lia. Um sorrisinho discreto que foi capaz de mexer com as engrenagens do meu sistema nervoso. Balancei a cabeça e voltei a olhar para as flores que pareciam brilhar através da luz do dia. Ele havia cumprido a sua promessa e ainda gastou uma fortuna naquele colar.
Dessa vez, tive uma única certeza: ele não fugiu no dia seguinte. Pelo contrário, continuou cuidando de mim a noite inteira, mesmo que eu o tenha ofendido.
As bochechas ruborizaram, só ao pensar que o encontraria assim que descer as escadas. Sóbria, com uma maldita ressaca. Não teria como escapar, conversaríamos sobre o beijo e eu pediria desculpas pelo jeito inconsequente que me comportei – mesmo que ele tivesse uma parcela de culpa na bebedeira.
Levantei-me e o chão girou a movimento brusco. Segurei a borda da mesa de cabeceira até que tudo parasse de dançar. Apertei o canto dos olhos com força e engoli em seco, prometendo que nunca mais ia beber; as consequências ao amanhecer eram humilhantes demais.
Arrastei os pés até a suíte, molhando o rosto e escovando os dentes antes de vomitar pelo hálito amargo. Encarei o reflexo completamente assustador e tratei de dar um jeito no rosto pálido, olhos inchados e cabelos bagunçados — um pouco de maquiagem resolveria o problema. Ao terminar, sequei a pele e suspirei profundamente, segurando as bordas da pia.
O coração batia desenfreado como um trem desgovernado. Algo em meu íntimo sussurrava que as próximas horas seriam difíceis. Mas pelo menos agora sabia de uma coisa: estava do outro lado, pronto para enfrentar os medos comigo. Não estava mais sozinha.
Entre cambaleadas, sai do quarto rumo ao meu destino. Segurei o corrimão da escada e parei ao ouvir risadas, tons de zombarias vindo da cozinha. Arqueei as sobrancelhas, reconhecendo as vozes tão familiares. Greta ria animadamente de alguma coisa que comentou sobre o seu celular, algo que não consegui escutar com clareza.
Fechei os punhos e soltei o ar dos pulmões, buscando a coragem para finalmente entrar na cozinha. Terminei de descer os degraus, sentindo o delicioso aroma de carne cozida. Meu estômago roncou como um trator, a fome me fazendo finalmente vencer o medo que estava de encarar aquele homem.
Só que nada me preparou para vê-lo no meu estado mais sóbrio. Foi como ser atingida por um raio.
Nossos olhos se encontraram no exato momento em que cruzei a linha da cozinha. Paralisei no lugar, a boca seca, a respiração descompassada. E de repente meu corpo inteiro se arrepiou, sendo arremessado de volta para aquele sofá.
O cheiro do cedro e pimenta me embriagando. Os seus lábios tomando os meus com possessão. O calor do seu corpo sobre o meu. O toque quente e firme na minha pele. Os gemidos tão entregues...
Engoli em seco. Meu cérebro, novamente, era uma massa derretida e inútil, e não só me esqueci de como se falava, mas também de como respirava. Entrei em colapso, a única coisa que conseguia fazer era devorá‑lo em silêncio. A camiseta preta realçava a largura impressionante dos ombros e o volume dos músculos dos bíceps; a calça jeans e o tênis pareciam desenhados com perfeição, deixando‑o mais gostoso.
Era incrível como conseguia mexer com a minha sanidade sem dizer nenhuma palavra.
Esfreguei os olhos, as bochechas corando ao ser assombrada pela lembrança de rebolar descaradamente contra a virilha dele. Afundei os dedos nos cabelos, puxando os fios com força, desejando estrangular a própria mente que insistia em reviver aquela humilhação.
Por Deus, eu precisava ter foco.

, querida, está tudo bem? — Greta perguntou, já parada a minha frente.
— É só uma dor de cabeça. — Balancei a mão e ela me escoltou até a mesa.
— Sente-se um pouco, querida. — Acariciou minhas costas.

Obedeci e em seguida suspirei, cobrindo o rosto para que não vissem meu rosto mais vermelho que uma pimenta.

— Eu cuido dela, Greta. — Estremeci ao ouvir a voz máscula, baixa e profunda.
A governanta depositou um beijo no topo da minha cabeça e se afastou. Murmurou algo sobre buscar as sacolas de compras do almoço dentro do carro, deixando-nos sozinhos.
Massageei as têmporas, a pontada aguda cutucando o crânio. Grunhi e fechei os olhos por alguns segundos, sentindo o toque quente e pesado sobre meus ombros. Os dedos grossos delinearam a pele nua — graças às alças finas da camisola. Apertaram e deslizaram suavemente os músculos do trapézio, espalhando o movimento firme pela área das escápulas.
Segurei o gemido prazeroso, a tensão diminuindo a cada pressão que fazia. Mordiquei o lábio inferior, arqueando a coluna e jogando a cabeça para trás até que ficasse encostada contra o tronco rígido. O ritmo lento e forte da sua respiração bateu contra os fios do meu cabelo.

— Melhor? — A vibração da sua voz era quase um carinho. Assenti e ele continuou. — Você está com muitos pontos de tensão. — ah, ele não tinha nem ideia.
A pressão em um nó específico na região da nuca me fez arfar discretamente. A pequena dor se alastrou quando comecei a massagear em círculos. O desconforto logo se transformou em uma explosão de alívio e prazer. A tensão muscular se dissipou, abrindo caminho para a minha mente traiçoeira imaginar como seria sentir aquela pressão em outros lugares do corpo.

— Tome o remédio para a dor de cabeça. Vai ajudar com a ressaca — sugeriu e deslizou as pontas dos dedos para as laterais da minha testa.

Desenhou círculos com firmeza e tive de segurar o gemido de deleite. Uma corrente elétrica percorreu por todo meu corpo assim que o polegar roçou levemente no lóbulo da orelha esquerda. O seu calor enrijeceu cada pelo no caminho, vibrando docemente pela minha pele.
se afastou depois de um tempo e quase implorei para que voltasse a me mimar com as mãos tão habilidosas. Finalmente abri os olhos, no mesmo instante em que colocou o copo com suco de laranja à minha frente, a mão estendida com o comprimido branco, mediano e nada convidativo.

— Não adianta fazer careta, coelhinha. Se não tomar vou fazê-la engolir à força. — ameaçou, o tom de zombaria.
— Quem fez o suco? — Tentei conseguir tempo, os ombros ainda moles pela massagem.

Ele sorriu com o canto dos lábios. Enxerguei em suas íris um brilho divertido, uma faísca de desafio.

— Fiz questão de escolher cada laranja a dedo, espremer com toda delicadeza do mundo e fazer o seu precioso suco. — Foi irônico.
— E qual o veneno da ocasião? — Passei o indicador pela borda do copo.
— Vai descobrir quando sentir os sinais da desidratação. — Indicou o remédio com o queixo. — Quanto mais cedo você tomar, mais cedo vai se sentir melhor. Não seja teimosa.

Ignorei o quanto o rosto quis se contorcer, afinal meu crânio estava explodindo. Peguei o comprimido e engoli, tomando um grande gole do suco. E foi inevitável, a mandíbula reclamou, se retorcendo ao ácido da fruta. Grunhi de insatisfação. A cabeça balançou ao tentar dissipar o azedo. Se ele queria me matar, era só dizer que aceitaria de bom grado.

— Qual o seu problema com o açúcar? — Abri e fechei os olhos com força, estremecendo.
— Nenhum, é o seu paladar que está mais sensível. — Deu de ombros. — Em algumas pessoas, o álcool pode diminuir a percepção do doce e assim fazer com que o suco pareça mais azedo do que o normal.

Franzi o cenho, lançando um olhar desconfiado para ele. Eu esperava qualquer coisa, menos isso.
riu, antes de cruzar os braços em frente ao peito. Os músculos dos bíceps se tensionaram sob a camiseta, atraindo meus olhos inevitavelmente.

— Não olhe para mim desse jeito, está no google. É só pesquisar. — Arqueou as sobrancelhas. — Talvez, prefira água de coco — comentou, indo em direção a geladeira.
— Por que quer me entupir de bebidas logo cedo? — Senti uma nova onda dolorosa na testa.

retirou a garrafa transparente com etiqueta verde, decorada com cocos e coqueiros. Gesticulou, o sorrisinho sarcástico se curvando, junto à testa franzida.
— Porque após uma noite de bebedeira, o recomendado é se hidrata — falou o óbvio.

RolEei os olhos. Cruzei os braços sobre a mesa, escondendo o rosto ali. Apesar da noite de sono meu corpo estava exausto, desejando voltar para a cama confortável. Mas, em contrapartida, levantou disposto a me obrigar a engolir uma caixa d’água só para que meus rins não explodisse de tanto eliminar eletrólitos e líquidos.
O móvel vibrou quando ele bateu o copo de vidro e encheu com o isotônico natural. Logo em seguida, ouvi o pequeno ronronar vindo do canto da cozinha. Inclinei a cabeça, à tempo de ver a bola peluda pular no balcão e miar insistentemente. Curvei um pequeno sorriso, assistindo encher o pote de ração, o felino saboreou cada grão como se fosse a última maravilha do mundo..
No entanto, o momento calmo durou pouco. Voltei a esconder o rosto assim que meus olhos caíram sobre o homem, que acariciava o dorso do bichano. O bolo se formou na minha garganta e por um instante, me esqueci de como se respirava. As novas lembranças apunhalaram meu peito com força. E dessa vez era algo pior do que a dança grotesca.
O peso das palavras caiu sobre os ombros. Fui torturada por brasa ao lembrar da grosseria desmedida com qual o acusei e profanei uma análise psicológica ridícula. Chamá-lo de covarde foi só a ponta do iceberg, porque ainda tive a capacidade de afundar o Titanic, destilando ainda mais a minha mágoa.

, eu... — murmurei, a voz embargada e fina. — Eu queria pedir desculpas pelo que aconteceu ontem. — endireitei a postura para encará-lo.

Ele ficou imóvel, talvez, percebendo que entraríamos em uma área delicada. Após alguns segundos, abandonou o felino e virou-se na minha direção. As costas permaneceram contra o balcão, os braços fortes cruzaram-se sobre o peito e adotou uma postura atenta. O azul dos seus olhos carregava uma fagulha de paciência que não achei que merecia.

— Não aconteceu nada, . Está tudo bem. — Sua voz terna fez meu coração dar um solavanco.

Empinei o queixo e senti o arrepio subir pela nuca assim que notei não conseguir sustentar o seu olhar. Desviei o contato, decidida a observar ao redor da cozinha. Primeiro, vi Sky saltar do balcão e correr para a sala. Depois, eu não esperava que a minha boca se abrisse em um perfeito O, ao ver o brilho dos móveis. Por Deus, ele deixou tudo impecável.

— Eu deixei essa casa uma bagunça, como pode dizer que nada aconteceu? — protestei, ele continuou impassível. Suspirei antes de prosseguir: — A minha mente parece um campo minado. Lembro-me de algumas coisas, mas não de tudo. E... Lembro de ter me esfregado em você feito uma prostituta barata e ainda o chamei de covarde.

Por um instante, esperei pela repreensão que claramente merecia. No entanto, apenas sorriu com o canto dos lábios, e venceu a distância até a mesa. Inclinou‑se sobre o móvel, apoiando os antebraços musculosos de modo a ficar com os olhos fixos nos meus.

— Você estava sofrendo. Era o seu aniversário e sentiu falta do seu irmão. É normal. — Como ele conseguia dizer isso com tanta calmaria? — E fique tranquila, não é a primeira vez que me chamam de covarde. — Desviou o olhar, mirando um ponto qualquer.

Franzi o cenho, confusa, a curiosidade ansiando para que perguntasse mais sobre isso — mesmo sentindo que parecia um território delicado. E antes que pudesse questioná-lo, sua voz quebrou o silêncio.

— Você está sóbria agora, e está pagando pelas escolhas erradas com dor de cabeça. E eu estou aqui, com aspirinas, água de coco e suco de laranja na mesa. — Apertou levemente minha mão.

Observei o entrelaçar dos nossos dedos. Seu polegar acariciava meu dorso delicadamente, em um consolo silencioso.

— V-você não está bravo por tê-lo chamado de covarde? — Mal conseguia falar.

Uma lufada de cansaço escapou da sua boca.

, o álcool nos humilha e nos obriga a fazer coisas que nunca faríamos se tivéssemos sóbrios.

O arrepio subiu pela coluna ao perceber que não se referia à noite passada, e desejei que estivesse errada sobre isso. Engoli em seco, entendendo que o momento finalmente havia chegado. Era hora de encarar a verdade e, por sorte, a confusão e a cefaleia diminuíram, assim conseguia pensar com clareza.

— Você se arrependeu, não foi? — questionei, ignorando o pavor da resposta.

me encarou. Os olhos percorriam cada traço do meu rosto demoradamente. O silêncio era pesado, quebrado apenas pelo som de nossas respirações. Sustentei o contato visual, a boca seca e os batimentos cardíacos nas alturas. E a cada segundo que passava, meu estômago se revirava de ansiedade.

— Não.

Minhas costelas foram esmurradas pela força do meu coração. O soco bruto e quase mortal. Entreabri os lábios, buscando pelas palavras, que escolheram aquele exato momento para desaparecerem. Puxei o ar com dificuldade, os pulmões clamando por oxigênio. Eu não estava preparada para ouvir aquilo.
Uma palavra tão simples. Apenas três letras. E um único significado.
O sorriso desenhou a minha boca e tive de olhar para qualquer outro ponto, temendo entrar em combustão. Mas a fuga foi em vão. Estremeci ao sentir segurar meu queixo com delicadeza guiando-me para que estivesse olhando para ele. Nossos olhos se encontraram, os deles percorrendo novamente cada traço sem pressa, querendo esboçá‑los na mente.

— Eu nunca me arrependeria de algo que desejei por tanto tempo — ciciou. — Desde que a vi na delegacia, você nunca mais saiu da minha cabeça. E tudo o que mais queria era beijar a sua boca, calar os demônios que me fizeram desejá-la quando sabia que era errado. Mas agora... — Delineou meus lábios com o polegar, o toque deixando-os quente e formigando. — É inútil querer passar por tudo isso e fingir que nada aconteceu. Você inunda os meus pensamentos. E tudo o que mais penso é em quando vou te beijar outra vez.
— E... Por que não faz isso agora? — Aproximei nossos rostos, as palavras saindo antes que pudesse impedir.

Ele soltou um suspiro resignado. Seus olhos se fecharam por um instante, como se estivesse lutando contra si mesmo.

— Porque não sei se sou capaz de parar.
— Tente — desafiei, inclinando-me em direção a atração. — A sua única preocupação será se a Greta aparecer.

riu, sua mão deslizando para a base do meu pescoço. Fechei os olhos, entregando-me ao toque quente, delicioso.

— Alguém disse a ela que brigamos. Quando você desceu, acho que tirar as compras do carro pareceu a desculpa mais plausível para nos fazer conversar. Ela quis nos dar privacidade.
— Então, nunca existiu uma compra? — Quis saber, ainda extasiada.

Abri os olhos a tempo de vê-lo negar com a cabeça. O canto da minha boca se curvou em um sorriso diabólico. A coragem do submundo dominou, e aproveitei nossa aproximação para levar os lábios até o pé do seu ouvido. O seu perfume me embriagou, o estômago revirou de nervosismo e quis puxá-lo de uma vez para mim, acabar com aquele tormento.

— Eu adoraria ver a sua falta de controle — sussurrei, o risinho travesso arrepiando os pelos da sua nuca.
— Não sabe o que está me pedindo, coelhinha. — Sua voz se tornou rouca e urgente.

apertou a base da minha nuca, o calor da sua mão me fazendo ofegar. Inclinei a cabeça e fiz um beicinho, sustentando ainda mais o nosso olhar cheio de uma volúpia quente, quase aterrorizante.

— Você me disse que era o lobo faminto, então... Pegue o seu coelhinho.

O desafio silencioso pairou no ar. Denso, sedutor, lascivo. A mandíbula dele tiquejou, seu semblante sério quase duro. E o seu olhar, antes tão sereno, ganhava fagulhas que cresciam a cada segundo. As chamas escarlates possuíam as íris claras, sendo hipnotizante assistir ao exato momento em que sua fachada caiu por terra, abrindo caminho para algo primitivo, carnal, cru.
O brilho se intensificou, as pupilas dilataram, as narinas inflaram, transformando a calmaria do oceano em uma tempestade possessiva. E talvez eu ainda estivesse sobre o efeito da ressaca, porque achei sua nova persona incrivelmente sexy e excitante.

— Você não tem noção do perigo em que está se metendo, coelhinha — murmurou, a voz profunda e atraente demais.

Minha garganta secou; as mãos inquietas sobre a mesa. não esperou por uma resposta, seu corpo se moveu com a velocidade de um felino. Endireitou a postura, ainda me olhando com seu olhar de predador.

— Levanta. Agora.

Estremeci, porque não foi um pedido. Foi uma ordem, carregada de uma autoridade que nunca ouvi vinda dele. Sem protestar, obedeci, a cozinha girava levemente sob os pés, a adrenalina percorrendo cada centímetro do meu corpo.
E nem sequer tive tempo de me endireitar para ele avançar sobre mim. A mão grande agarrou a base da minha coxa, e em um único movimento poderoso, me levantou do chão. Arfei surpresa, tratando de agarrar os ombros largos, nossos rostos ficando a centímetros de distância. Os narizes se resvalaram e entrei em combustão, a eletricidade queimando os neurônios responsáveis por me fazerem pensar.
Subi os dedos pela nuca forte, enroscando nos cabelos loiros e puxando levemente, enquanto caminhou comigo no colo. Apenas um braço sustentava o meu peso, como se não pesasse nada. Sem hesitar, me colocou-me sentada sobre o balcão de mármore frio, o tecido fino da camisola deslizando contra o material liso.

— O que você está fazendo? A Greta pode chegar e... — tentei questionar, mas foi interrompida pelo toque surpresa.
— Shhh. — Tampou minha boca com a mão. — Eu só estou pegando o que é meu. — sibilou, admirando o meu corpo, explorando cada centímetro com a mão livre. — Você é uma obra prima, . — aproximou-se, a boca mordicando o lóbulo da orelha. — E vai precisar ficar quietinha, se não quiser que a Greta veja o que estamos fazendo aqui.

O corpo dele pressionou meu contra o balcão, aprisionando-me. Ergueu a cabeça, inclinando para admirar o momento que afastou a mão e desceu para meu pescoço, os dedos se fechando sem muita sutileza. Mordiquei os lábios, magnetizada pelo rosto masculino que assombrava meus sonhos mais insanos.

— Você é só minha. — Olhou-me nos olhos, proclamando o seu controle.

A do passado sentiria medo e tremeria inteira, mas agora estava pronta para ser dominada por um sedento que poderia fazer o que quisesse comigo. Eu queria que ele me devorasse como o lobo faminto das histórias de romance. Adoraria cada segundo, porque nossa atração era uma força da natureza e não tinha como lutar contra isso.
A mão que antes estava na garganta subiu. Os dedos enroscaram nos cabelos, puxando minha cabeça para trás. investiu, segurando meu queixo com firmeza, sua boca quase encostando na minha. Meu corpo arqueou em antecipação, o balcão de mármore gelado contrastava com o calor ao nosso redor.

— É isso o que acontece quando você me desafia, meu amor. — Seus lábios finalmente dominaram os meus com a urgência de um homem faminto.

Minhas mãos subiram para sua nuca, puxando-o para mais perto. A boca dele me tomou com exigência e eu o recebi como se estivesse morrendo de sede. O gosto amargo do suco de laranja foi imediatamente substituído pelo sabor viciante, doce e fresco de menta e café – uma combinação que só ele possuía.
gemeu, o som grave e profundo, aprovando a minha atitude. Sentia cada parte sua correspondendo ao meu, dessa vez completamente entregue e sem amarras. E isso era surreal, delicioso demais. Saber que ele estava ali de corpo e alma era como ir para o céu e voltar. O seu calor era viciante, o seu gosto eletrizante e o seu toque enlouquecedor.
Oh, céus, eu estava completamente rendida por esse homem.
A sua língua invadiu sem permissão, provando cada centímetro, explorando cada canto como se confessasse o desejo que reprimiu todo esse tempo. Gemi, quando sua mão novamente apertou o meu pescoço, o som abafado, mas que aumentou a pressão do seu corpo, quase se fundindo em um único espaço.
Puxei os fios loiros escuros e nos separamos assim que o ar nos faltou. Nossas testas ficaram coladas, os peitos subindo e descendo rapidamente.

— Deveria ser tão delicioso ser devorada pelo lobo? — disparei ainda ofegante.

Ele sorriu diabólico e, mais uma vez, enfiou os dedos no meu cabelo já emaranhado, fazendo-me jogar a cabeça para trás. Soltei um gemidinho ao senti-lo mordiscar a lateral da minha mandíbula. Ao mesmo tempo, seu polegar deslizou por baixo da camisola fina, alcançando a pele macia da minha coxa.
Contorci-me, o arrepiou, dominando minha coluna e vibrando no meio das minhas pernas. Meu Deus, eu estava louca para saber como era ter seus dedos ali, me provocando como no sonho.

— Não tem ideia das diversas maneiras em que o seu lobo pode te devorar. — Deu uma mordida mais forte no meu queixo.
— E por que não me mostra? — Agarrei o tecido da sua camiseta, puxando-o mais e mais.
— Porque não posso fazer isso aqui. Você merece ser venerada em um lugar melhor do que na cozinha. — Segurou as laterais do meu rosto, tomando minha boca mais uma vez.

O beijo foi mais lento, exploratório, sem a urgência que nos dominava como dois animais. Sua boca comandava a minha, incendiando minha mente já vazia, livre da culpa e da ressaca. Havia apenas eu e , e nada mais importava. O fogo queimava em nossos corpos, não exista luto ou trauma, apenas a eletricidade prazerosa entre nós.
Infelizmente, o momento foi brutalmente quebrado pelo som agudo e insistente do celular de tocando. Ele gemeu em frustração, separando nossas bocas. Segurei a barra da sua camiseta, depositando beijos molhados na mandíbula forte. Por um instante, ele aproveitou as carícias com os olhos fechados, levando a mão demoradamente até o bolso da calça.

— Não atende — murmurei baixo.

Mas bastou ele encarar a tela do aparelho para se afastar abruptamente, a respiração ficando pesada e a expressão de luxúria desaparecendo em segundos.

— É da creche da Mia — revelou com a voz rouca, erguendo a cabeça para me encarar, a testa franzida.

Engoli em seco, meu coração deu um salto dentro do peito. De repente, todo o calor que me consumia evaporou, substituído por um arrepio gélido de pavor. Meu corpo que antes vibrava pelo beijo, agora tensionava, a intuição me dizendo que havia acontecido alguma coisa.

— Por que ainda está me olhando desse jeito? Atende logo! — ordenei, descendo do balcão e ajeitando a camisola.
— Mas, você disse...
— Esquece o que eu disse e atende essa porcaria, — praticamente berrei, conseguindo respirar direto apenas quando levou o celular ao ouvido.

O silêncio nos rodeou; a pessoa do outro lado da linha despejando palavras que não conseguia escutar. Comecei a roer as unhas de apreensão, enquanto vi os olhos azuis escurecendo de preocupação, me procurando como um apoio emocional. Por Deus, o que aconteceu?
Esfreguei o rosto, a testa já com pequenas gotas de suor. Mal conseguia respirar, o coração batendo tão forte que senti a pontada de novo na cabeça. Merda, aquele celular parecia um alarme de incêndio, prestes a anunciar que deveria correr para fora da casa antes que morrêssemos queimados.

— Mas ela está bem? — questionou, a voz tensa, e assentiu com alívio. — Tudo bem, estamos indo agora mesmo. — E então desligou.
— O que aconteceu? Minha filha está bem? — disparei de uma vez.
— Ela está bem, — tranquilizou, guardado o aparelho e segurando minhas mãos. — A creche ligou para buscá-la mais cedo, só isso. Fique tranquila.
— E o que estamos esperando? Vamos agora. — Corri para a sala, esperando que ele me acompanhasse.

Mas quando vi que não o fez, coloquei as mãos na cintura, fuzilando-o com o olhar. permaneceu parado na cozinha, olhando-me de cima a baixo com um fogo perigoso dançando em suas íris.

— Você não vem?

Ele balançou a cabeça, a risada baixa saindo com espontaneidade.

— Você não vai de camisola — disse simplesmente, cruzando os braços em frente ao peito.
— E por que não? É uma emergência! — lembrei, a voz alterada.

Aproximou-se a passos lentos, os olhos fixos em mim, percorrendo o tecido fino. Estremeci, o cheiro do seu perfume me atingindo feito a onda do oceano, quase deixando minhas pernas bambas.

— Irá acontecer uma emergência muito trágica se outro homem olhar para você. E, talvez, terá que me buscar na delegacia. — Puxou-me pela cintura, meu corpo batendo contra seu peitoral duro. — Não suporto dividir o que é meu com ninguém. — Seu olhar era de pura posse.

Sorri com o canto dos lábios, não conseguindo acreditar no que tinha acabado de ouvir. Era ridículo e inebriante, mas no fundo gostei disso.

— É sério que você está preocupado com isso? — Arqueei as sobrancelhas, as mãos espalmando seu troco.
— Essa camisola é tão curta que toda a Nova Jersey vai ver a sua bunda. — Sua mão desceu para minha nádega e apertou sem pudor.

Em contrapartida, segurei seu maxilar o sorriso cínico nos lábios.

— Não se preocupe, querido. Todos podem vê-la, mas apenas você irá tocá-la. — Rapidamente fiquei na ponta dos pés e deixei um selinho em sua boca.
— Não me provoque, — avisou e tudo o que consegui fazer foi rir, antes de me desvencilhar dos seus braços, subindo as escadas.

No entanto, parei no meio do caminho e segurei o corrimão. Virei-me, apontando para ele com o indicador, desenhando contas imaginárias no ar — tentando ligar as pontas soltas. E, por isso, precisava perguntar apenas mais uma coisa antes de subir — não era possível que estivesse ficando louca.

— Você trocou de celular? — perguntei, lembrando-me do aparelho anterior ser diferente, menor e muito mais velho.

riu.

— Troquei, coelhinha. O antigo foi atropelado no resgate de domingo — explicou, com tom brincalhão, com uma suave culpa. — Deveria ter contado mais cedo, mas você resolveu atacar a minha boca antes que tivesse a chance.

O rubor se espalhou pelo meu rosto. Umedeci os olhos e gesticulei, lembrando de tê-lo visto em uma ligação no dia seguinte à noite de jogos. As sobrancelhas se juntaram, a dúvida ainda presente.

— Então... De quem era o aparelho que usou, quando me ignorou no café da manhã?

Ele enfiou as mãos no bolso, pressionando os lábios e segurando o sorriso antes de responder:

— Era da Greta — revelou. — Eu precisava ligar para encomendar o colar e o arranjo de girassóis para o seu aniversário. — deu um passo em direção à escada. — Desculpe-me por ter desaparecido. Recebemos o chamado para resgatar os animais em um canil clandestino. Precisei buscar apoio financeiro e fazer reuniões com outras clínicas para organizarmos uma feira de adoção.

A respiração falhou, o ar preso nos pulmões. De repente, a angústia e todas as dúvidas dos últimos três dias desapareceram como fumaça. não tinha fugido, apenas ficou preso no trabalho, salvando vidas inocentes que dependiam dele para viver.

— Eu vou me vestir., temos uma filha para buscar — anunciei, desaparecendo no corredor.
Parei em frente à porta do quarto, deixando o corpo contra a madeira. Fechei os olhos e toquei os lábios ainda inchados, formigando pela urgência de . Sorri, relembrando de tudo o que fizemos naquela cozinha. Não foi apenas um beijo, foi uma explosão de sentimentos que finalmente estávamos sóbrios para apreciar.
Seus lábios firmes contra os meus me fizeram sentir um calor que nenhum homem sequer conseguiu. Com , me sentia vista, desejada e segura para sentir. Abaixei a mão, tocando a pele do pescoço, exatamente onde ele havia segurado. O que antes era assustador, tornou-se uma eletricidade inconfundível.
O meu corpo, o meu coração e a minha alma estavam completamente entregues a ele. E pedia aos deuses para que nunca ousasse me machucar.

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Continua...


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Nota da autora: Oiie, leitores!! Espero que estejam gostando de nossos protagonistas, da baby e do gatinho preguiçoso. Estou amando escrever essa fic de tão gostosinha que ela é, e ansiosa para mostrar como será o desenrolar da nossa coelhinha e do veterinário, só posso dizer que teremos muitas emoções com esses dois!!
Me diga do que mais estão gostando e deixe aquele comentário que irei amar ler! ❤️
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