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Revisada por: Lightyear 💫

Última Atualização: 14/05/2026




De todas as mulheres com quem já me relacionei nessa vida, nenhuma chegava aos pés daquela que descia as escadas. O vestido branco com listras pretas realçava a curva do seu quadril, a silhueta, deixando-a mais linda ainda. A verdadeira visão do paraíso. Nos pés, usava uma sandália escura, sem amarras, que completava o visual delicado, tão perfeito.
O sorriso em seu rosto era iluminado, cheio de doçura. Ao parar na minha frente, meus olhos capturaram os lábios carnudos, ainda levemente avermelhados. Tive de apertar a mandíbula, reprimindo o desejo de jogá-la no sofá da sala e deixar meu corpo conduzi-la ao êxtase.
A lembrança dela pedindo para mostrar as diversas maneiras de devorá-la acendia meu pau, que nem deveria se animar com isso. As bochechas rosadas, os lábios entreabertos e os olhos suplicando que a possuísse. Tão entregue a mim que foi difícil me segurar. Mas precisei controlar a vontade de fazê-la minha em cima daquele balcão.
era especial demais para mim, e por isso nossa primeira vez também deveria ser. Uma cama grande, a lua brilhava do lado de fora e os seus gemidos só para mim. O cenário perfeito.
Greta finalmente apareceu, vindo da garagem, onde permaneceu escondida até aquele momento. Segurei a porta para que saísse e, antes de segui-la, juntei o polegar e o indicador, fazendo um sinal de “OK” para a governanta, deixando claro que tudo tinha sido resolvido. Ela levantou as mãos aos céus, agradecida pelas preces atendidas.
Balancei a cabeça de um lado para o outro, também grato ao Todo-Poderoso por ter respondido às minhas súplicas. Agora, finalmente poderia beijar a minha coelhinha sem culpa ou medo de perdê-la. E estava doido para fazer isso de novo e de novo em todos os cantos daquela casa. Havia passado apenas alguns minutos e já sentia falta do seu calor.
Atravessei o jardim da entrada, destravando o carro. ocupou o banco do passageiro e esperou até que eu tomasse o meu lugar como motorista. Manobrei, ao mesmo tempo em que conectava o rádio para tocar uma música eletrônica, desaguando pelas ruas da cidade, fazendo o caminho já tão conhecido por nós.
No meio do caminho, fui obrigada a parar em frente ao supermercado e esperar até que descesse para comprar alguma coisa que pudesse acalmar o seu estômago revoltado, roncando feito um trator. Entreguei a ela o cartão de crédito, enquanto aproveitava o tempo para ligar para Aidan — torcendo para não ter de lidar com a sua abstinência.
Por sorte, Madisson atendeu o telefone, dizendo que nosso amigo estava apagado na cama da sala de descanso, após passar a madrugada inteira se entupindo de açúcar e infernizando os estagiários. Soltei uma risada divertida, notando que o dia parecia mais colorido que o comum. Ela me contou sobre os pacientes e também atualizou sobre o estado da Border Collie.
Um alívio dominou o meu peito ao escutar que mostrou interesse nos petiscos de carne. Pouco, mas era o grande começo da sua batalha.
Madisson finalizou, contando que havia enviado o meu número para os outros veterinários da região, a fim de tratar sobre assuntos burocráticos diretamente comigo. Agradeci a ela por segurar as pontas enquanto eu estivesse fora — pelo menos sabia que os animais estavam em ótimas mãos.
Guardei o aparelho e troquei a música, batucando os dedos conforme a batida. Um sorriso largo e inebriante dominou meu rosto assim que assisti à mulher de cabelos escuros atravessar a rua, carregando apenas uma sacola. Meu coração passou a bater mais rápido a cada passo dela. Era como se nunca a tivesse visto antes.
entrou no carro e devolveu o cartão, já buscando pelo cinto de segurança. E, graças à sua voz, parei de olhá-la igual a um maníaco. Retirou duas barras de proteína da sacola, junto de um copo transparente com rótulo de alguma coisa natural. O líquido rosa me chamou a atenção. Franziu o cenho assim que deu uma mordida generosa no cereal e soltou o “hummm” mais satisfeito que já tinha ouvido.

— Como você consegue comer isso? É tão sem graça — quis saber, dando a partida no veículo.
— Do mesmo jeito que você gosta de comer gordura saturada. — Deu de ombros, enfiando o canudo na tampa do copo.

Rolei os olhos e soltei um risinho no canto dos lábios.

, o cartão tem limite para comprar o supermercado inteiro e escolheu logo isso? Por que não pegou um lanche natural e um suco de laranja? — eu conseguiria viver com o fato dela gostar de comer alimentos saudáveis, feito um coelhinho. Mas isso já era demais.
— Porque não tinha lanche natural. E depois do suco de laranja azedo, fiquei traumatizada. — Tomou o que parecia ser um shake de proteína e soltou outro “hummm”. — Isso é maravilhoso, deveria experimentar. — Estendeu e neguei com a mão.
— O que é isso? — Olhei para os lados, esperando o momento certo para atravessar a avenida.
— É um smoothie proteico. — Deu outro gole e leu o rótulo: — Feito com leite de amêndoas, whey protein, banana e açaí. — ofereceu e, dessa vez, aceitei, bastante curioso para descobrir o sabor daquilo.

O plástico estava gelado, pequenas gotículas molhavam meus dedos. Hesitei por um segundo, o cheiro adocicado de banana possuía uma sutil nota terrosa do açaí invadindo as narinas. Balancei o copo, assistindo ao líquido rosa se misturar, uma cor vibrante e completamente diferente de tudo o que costumava engolir.
Pelo canto dos olhos, me encarava quase vibrando de ansiedade e, por isso, mordisquei o canudo, dando um gole cauteloso — temia que o gosto fosse pior do que estava imaginando. E, para a minha surpresa, a cremosidade era aveludada, uma massa macia, fria e satisfatória. O sabor inicial era do doce da banana, e o fundo levemente amendoado pelo leite.
O gosto do açaí foi a parte mais estranha, dando o toque sofisticado e equilibrando o doce. Saboreei cada gota, girando o volante com apenas uma mão. Bebi mais um pouco, notando que ficava melhor a cada segundo.
Olhei para a coelhinha, encontrando a expectativa e o sorriso sincero no rosto angelical.

— Sinto falta do leite condensado no açaí. — Devolvi o smoothie. — É estranhamente bom. Tem gosto de saudável e a textura parece com as fórmulas que damos para os filhotes na clínica.

riu e estapeou meu ombro. O som leve me atingiu como uma onda de calmaria e conforto.

— Viu, não é tão ruim assim. — Colocou a mecha teimosa atrás da orelha e se recostou no banco, aproveitando a bebida.

O sorriso divertido repuxou meu rosto e virei a cabeça para encará-la. Os olhos caíram, irresistivelmente, no canto sujo da sua boca. E, sem pensar, estendi o braço, limpando com a ponta do polegar. paralisou, acompanhando cada movimento. O contato breve a fez prender a respiração e suas bochechas coraram assim que levei o dedo aos lábios, saboreando o resquício doce.

— Tem razão, não é ruim. — Minha voz saiu rouca, e quis acrescentar que ficaria melhor ainda se tivesse de limpar o seu corpo inteiro, sujo com smoothie.

recobrou a consciência, disfarçando o rubor e o nervosismo ao se concentrar em beber o resto do shake. Por um instante, o silêncio nos rodeou, quebrado apenas pela batida animada da música, até o momento em que ela decidiu trocar de assunto.

— Como estão os animais resgatados? — Mordiscou a barra de proteína.
— Estão bem. — Troquei a marcha, desacelerando. — Conversei com os outros veterinários da cidade e estamos planejando fazer uma feira de adoção.
— O Dante me disse que vai ter um parque de diversões na próxima semana. Seria uma ótima oportunidade para fazer a feira.

Apertei as sobrancelhas, a mandíbula apertada com força. Os dentes rangeram a cada vez que minha mente repetiu aquele nome. Um calor estranho e agressivo se espalhou pelo meu peito, fechando a garganta.

— Quando viu o Dante? — fui direto, parando o carro no sinaleiro. Pouco me importei com a voz grave e quase cortante.
— Greta e eu fomos à feira perto de casa. Levamos a Mia para passear e a encontrei praticando exercícios. — Abaixou a cabeça por um instante. De relance, vi que mordeu o lábio inferior. — E... Ele me chamou para sair. — Ergueu o rosto, os olhos castanhos fixos nos meus.

Engoli em seco e segurei o volante com força; os nós dos dedos ficaram brancos contra o couro. As veias grossas saltaram dos antebraços como se fossem consumidos por uma raiva repentina que possuía cada célula do meu interior. A euforia retumbava com violência no peito, batendo igual a um tambor de guerra, as garras ameaçavam rasgar as costelas.

— E o que disse a ele? — as palavras saíram antes que pudesse evitar, e, no fundo, não sabia dizer se queria ouvir aquela resposta.
— Não falei nada ainda. — Mordeu o canudo, a testa levemente franzida.

Limpei a garganta, buscando a coragem do submundo. Fechei os dedos novamente em volta do volante, a força física me incentivando a perguntar antes que fosse corroído.

— Você quer sair com ele? — Meu coração se apertou por alguns segundos que pareceram horas.

De repente, o pavor de ser rejeitado voltou com força, um soco gélido no estômago.
tocou minha perna por cima da calça jeans, os dedos apertando suavemente. Aproximou-se devagar, parecendo temer minha reação, os olhos presos nos meus, intensificando ainda mais os batimentos cardíacos que poderiam me levar ao infarto.

— Confesso que, depois de você me deixar sozinha no meu aniversário, pensei em sair com ele — sussurrou baixo. — Quis me vingar. — Sua boca sequer tremeu ao confessar. O tom honesto desarmou parte da aflição.
— Muito infantil, a propósito. Mas... O que a fez mudar de ideia?

Ela mordiscou o canto dos lábios, soltando um pequeno risinho que me arrepiou por inteiro. Minha pele vibrou, reagindo a ela.

— Eu não sinto nada quando estou perto dele, ao contrário, de quando estou com você.

Fui pego de surpresa e prendi a respiração.

— E o que sente quando está comigo? — Quis saber, a voz baixa e quase inaudível, aproximando mais nossos rostos.
— Sinto que o meu corpo vai entrar em combustão com apenas um único toque seu. Você acende partes minhas que sequer sabia serem possíveis.

Por um instante, minha única reação foi entrar em choque. Os sentidos estavam em guerra. Os pelos se eriçaram como se antecipassem o perigo iminente. A revelação me atingiu como o estalo seco de um trovão, a imagem dela consumindo toda a angústia que ainda sentia.
Encarei o exato momento em que entreabriu os lábios para falar alguma coisa, e fui interrompida pela minha mão puxando-me pela nuca. Minha boca tomou a dela com urgência. Sua mão livre segurou meu ombro e aprofundei o beijo, recheado de uma fusão ardente e descontrolada. Queria devorá‑la ali mesmo, no meio do trânsito. Mostrar que ela também me incendiava por inteiro.
O gosto do açaí nunca foi tão viciante e delicioso. Gemi contra a sua boca, sentindo a urgência da sua língua faminta, e isso me incentivou a puxá-la mais para mim. Enrosquei os dedos em seus cabelos macios, os olhos fechados, o mundo se resumindo apenas ao calor e ao toque dela.
Porra. prometeu me enlouquecer e estava cumprindo perfeitamente o seu papel.
E estava prestes a avançar sobre ela, quando o som estridente e furioso de uma buzina cortou a atmosfera eletrizante. Afastei-me bruscamente, batendo a cabeça no teto do carro, enquanto se encolheu no banco, completamente ofegante, os olhos arregalados de susto. Rapidamente olhei para trás e encontrei o motorista de uma SUV preta reclamando, a mão gesticulava com violência.

— Que merda! — xinguei, encarando o sinaleiro verde.

Recuperei a postura e troquei a marcha, com as mãos trêmulas. Acelerei, o rubor subindo levemente até as orelhas, mas isso não impediu que o sorriso divertido preenchesse meus lábios. Já começou a rir nervosamente, um tom de constrangimento que se manifestava com o rosto vermelho e a boca inchada.

— Acho que quase causamos um engarrafamento por causa de um... — Olhei para ela, notando ser incapaz de nomear o que tínhamos feito.
— Um momento de combustão? — completei, o sorriso malicioso se alargando mais e mais.

Ela balançou a cabeça, os ombros subindo e descendo.

— Tivemos sorte de não ser a polícia — ela murmurou, ainda rindo.

Os próximos minutos se resumiram a uma atmosfera calma e zombeteira, com criando cenários imaginários caso a autoridade tivesse aparecido e nos acusando de atentado ao pudor. A incentivei a deixar sua mente criativa fluir, deliciando-me com as risadas mais escandalosas e sinceras que já tinha ouvido.
E como era bom vê-la daquele jeito. Leve, relaxada, livre. O alívio penetrava pelos meus poros, o peso dos ombros desaparecendo. Finalmente, tendo a certeza de que poderia beijá-la, sem precisar temer a sua reação depois.
Viramos a esquina e finalmente chegamos à creche. Estacionei na frente, já varrendo o lugar com os olhos. Através das grades do portão, conseguia ver o pátio central, extenso e cheio de crianças brincando e correndo. As árvores de troncos finos decoravam o ambiente, tornando a área do parquinho mais fresca.
O edifício tinha o estilo arquitetônico simples e aconchegante, com dois andares. As cores primárias eram fortes. O vermelho vivo pintava as paredes da parte de baixo, enquanto o amarelo brilhante na de cima. Contraste perfeito com as portas coloridas das salas de aula.
Era um lugar que transpassava alegria e energia, ainda mais com o céu azul intenso ao fundo.
Desci do veículo e apressei-me em abrir a porta para . Ela agradeceu com um sorriso que remexeu algo dentro de mim. E, ao sair, enquanto arrumava o vestido, a brisa travessa soprou seus cabelos escuros e o aroma adocicado do perfume me atingiu em cheio. Fechei os olhos, inalando o ardor da romã e da verbena.
Uma explosão invisível desconcertou meus sentidos, consumindo-os. O coração não batia; ele tropeçava em um ritmo insano. Minha alma e toda célula do corpo regiam a presença dela.
Fixei os olhos sobre aquela mulher belíssima. Inclinei ligeiramente a cabeça, os lábios se repuxando em um sorriso pequeno, quase tímido — completamente hipnotizado por sua beleza. Ela tentava ajeitar os fios revoltos que caíam em seu rosto, uma cena simples, mas que me fascinava profundamente. Era como se o tempo parasse e existisse apenas ela.
Meu cérebro voltou à órbita quando passou a caminhar em direção ao portão, exalando toda sua feminilidade inebriante. Suspirei de desleite, seguindo cada passo de perto, ao ponto de nossos dedos se tocarem brevemente. Paralisei e engoli em seco ao sentir a corrente elétrica percorrer pelo meu braço, encarei a pele arrepiada e depois a procurei pelo pátio.
Ela pareceu não notar o incidente. Então, o que estava acontecendo comigo? Por que meu corpo inteiro queria entrar em curto-circuito somente de estar perto dela?

— Ah! Ainda bem que vocês chegaram. — A mulher baixinha levantou-se rapidamente do sofá, assim que chegamos ao hall de entrada.

acelerou os passos, correndo para perto da professora, que usava uma camiseta branca e calça preta; o avental temático de bichinhos era o símbolo da infância. Mia estava em seu colo, a cabeça tombada sobre o ombro dela, e mordiscava o próprio dedo. O rostinho vermelho e os olhos inchados fizeram o nó apertar na minha garganta.

— Aconteceu alguma coisa com a Mia? Ela está machucada? — A coelhinha disparou, a voz alta e carregada de preocupação.

Levei a mão para o meio de suas costas, oferecendo apoio, na tentativa de acalmá-la.

— Na verdade, ainda não. Mas creio que hoje será uma noite complicada para vocês. — Emma contou, arrumando os fios finos da cabeça de Mia. — Na hora do lanche, ela recusou até o suco e notamos que o rostinho estava um pouco inchado, especialmente nessa área. — apontou para a bochecha direita, onde havia uma leve protuberância. — Ela começou a chorar e não parava de chamar pelo pai.

Estremeci ao imaginar minha pequena com dor e imediatamente venci a distância entre nós, envolvendo-a nos braços. Seu corpo pequeno se aninhou contra meu peito, sua mão agarrou firmemente o tecido da minha camiseta, choramingo baixinho. Acariciei delicadamente seus cabelos loiros, depositando um beijo em sua testa.

— Do… dói… papa…
— Papai está aqui, meu amor, está tudo bem. — Resvalei os dedos pela bochecha e senti a pele mais quente do que o comum. — Ela está com começo de febre.
— Acho melhor levá-la ao pediatra. — sugeriu, agarrada em meu braço, os olhos fixos em Mia.

Assenti com a cabeça, tenso. Temia que fosse algo grave, não conseguia suportar vê-la sofrendo.
Antes de irmos, Emma nos orientou a monitorar a temperatura de hora em hora e a usar analgésicos sem medo, caso a médica receitasse. Ela desejou melhoras para Mia e boa sorte para nós, aproveitando o momento para dizer que o nascimento dos segundos molares costumava ser uma das fases mais sofridas das crianças.
Agradecemos por todo o cuidado e aceleramos os passos até o carro. Por sorte, Mia não reclamou quando a coloquei no colo de e assim pude me concentrar em dirigir o mais rápido possível até a clínica pediátrica. Durante o caminho, meu peito se apertou e me senti impotente ao ver as mulheres da minha vida, encolhidas no banco, sem poder fazer nada para ajudá-las.
Naquele instante, desejei incontrolavelmente que a dor das minhas duas coelhinhas desaparecesse.





Se antes me perguntasse qual era o pior sentimento do mundo, responderia ser a tristeza. Depois viria a raiva e, por fim, o medo. Mas agora, descobri aquele capaz de me fazer tremer e, ao mesmo tempo, sentir meu coração se dilacerar aos poucos, como se fosse arrancado lentamente, rasgado pela ponta da faca mais afiada do universo.
Impotência.
Segundo os estudiosos, era um sentimento profundo, que surge pela falta de controle, poder ou capacidade de agir diante de situações. Juntos sentimos medo, desespero e a frustração no nível mais superior. E era exatamente assim que me sentia naquele momento, sendo capaz apenas de segurar as lágrimas enquanto via minha pequena chorar em meu colo.

— Calma, meu amor... — pedi, acariciando seus cabelos e balançando os braços, ninando-a. — Eu sei que dói e me corta o coração te ver assim. — Minha voz fanhosa não ajudava em nada.
— Papa... Q-quelo o papa... — Essas eram as únicas palavras que ouvia há mais de vinte minutos.
— O papai já está vindo, pequena. Espere só mais um pouquinho. — Nem eu acreditava nisso, quem dirá ela.

Comecei a cantarolar uma música infantil baixinho, o coração apertado por vê-la naquele estado. Segurei sua mão minúscula, acariciando a palma suavemente. Minha mente rodava desenfreada atrás de uma solução, não querendo que Mia sofresse mais nenhum segundo pela gengiva inchada.
Listei todas as opções na cabeça, descartando as dicas que Dante havia dito no parque. Nem mesmo as melancias e os mordedores gelados estavam funcionando. E tudo o que me restava era uma imensidão vazia. Massageei a testa, soltando um suspiro de frustração. O choro aflito, os berros intensos, estavam dominando cada canto da sala.
Depois que saímos da creche, fomos direto para a clínica pediátrica. Por sorte, a médica nos atendeu assim que cruzamos a recepção — mesmo que fosse o final do seu expediente. Ela realizou todos os exames necessários e nos tranquilizou quanto à febre, que, por ser baixa, era considerada normal. Mas pediu que continuássemos a monitorar; caso aumentasse, significaria algo mais grave.
Também fomos orientados a administrar o analgésico que ajudaria a aliviar a dor intensa da gengiva. E recebemos dicas úteis para sua alimentação: frutas amassadas, picolés caseiros e até mesmo iogurtes ou pudim. A única exigência era que fossem gelados.
O problema era que nada funcionou e Mia estava ficando mais agitada que o comum.
Aflita, peguei o celular no meio das almofadas. Deslizei o dedo e fui rápida em digitar outra mensagem para . Talvez, na clínica, existisse um método especial para os filhotes. Balancei a cabeça, decidida a enviar a pergunta, porque nada poderia ser pior do que ficar ali parada, esperando. Era uma criança chorando compulsivamente contra uma mulher adulta desesperada, e o gato preguiçoso, que dormia confortavelmente ao nosso lado no sofá.
Encarei o horário na tela. Quase final da tarde e nem sinal de e Greta. Ambos haviam saído para buscarem os remédios receitados e depois passariam no mercado para abastecer a geladeira. Eu só não imaginei que fossem demorar tanto.
Cansada de ficar parada, olhando minha pequena desmoronando em lágrimas, pensei em ir para a cozinha pesquisar algo útil no notebook. Sky ergueu a cabeça assim que eu levantei. Espreguiçou-se e nos seguiu. Sentei-me na primeira banqueta em frente ao balcão, ainda balançando os braços. O felino se acomodou ao lado da máquina e começou a escovar os pelos sedosos com a língua.

— Tudo bem, Mia. Primeiro, vou colocar o seu desenho favorito. — Abri a tampa, deslizando o dedo pelo touchpad. — O dinossauro roxo. — Aumentei o som e deixei que o vídeo fosse transmitido no quadro minúsculo no canto inferior, apenas para ela assistir.
E, enquanto iniciava uma nova aba para as pesquisas, notei que o choro incessante foi parando gradativamente. Olhei para Mia e a encontrei mordiscando o próprio dedo, os olhos claros concentrados na tela. Deixei um sorriso se alargar, depositando um beijo no topo da sua cabeça. Finalmente poderia respirar com calma.
Pelo menos foi o que pensei até ouvir o estrondo e o pequeno grunhido, semelhante a um pombo. Fechei os olhos com força, o rosto se contorcendo em uma careta. Mia desviou a atenção do desenho, os berros retornando com vigor total. Lentamente afastei as pálpebras, mirando o felino insolente debruçado sobre o balcão, admirando o porta-talheres de inox girando no chão da cozinha.

— Você não tinha uma hora melhor para derrubar isso? — disparei entre os dentes, a voz grave e profunda.

Ele girou a cabeça e emitiu outro grunhido. Atrevido, a pata peluda passou a empurrar o frasco de vidro de uma das velas aromáticas — a única sobrevivente.

— Não ouse. Se está frustrado, a vela não tem culpa. — Apontei o dedo em riste e, em resposta, ele empurrou mais um pouco.

A tensão se acumulou nos ombros, enquanto apertava a borda do balcão. Estive prestes a levantar para enxotá-lo dali, quando a porta da sala se abriu e o felino teve sua atenção desviada. Sky saltou e correu para receber os visitantes, o rabo balançando como uma afronta. Balancei a cabeça, desacreditada com sua atitude malcriada.
Retornei às tentativas inúteis de acalmar a minha princesa. Xingava mentalmente o bichano a cada soluço, quando o aroma amadeirado preencheu a cozinha. Soltei o ar preso nos pulmões, meu peito se aquiescera. Fiquei aliviada por ter alguém com quem compartilhar o fardo. O peso nas costas desapareceu assim que ouvi os passos se aproximando, o barulho das sacolas sendo deixadas sobre o balcão, e a mão de Greta repousou sobre meu ombro.
Encostei a cabeça no braço da governanta, permitindo sentir o alívio momentâneo. Ela distribuiu um carinho terno nos meus cabelos. E, em seguida, se aproximou, seu corpo se inclinando com cautela. Mia arregalou os olhos inchados e vermelhos assim que o viu, já estendendo os braços em um apelo mudo. Franziu o cenho ao vê-lo pegar no colo, aconchegando-o contra seu peito, um gesto que parecia natural.
E então, o choro foi ficando cada vez mais baixo.
As lágrimas se acumularam no canto dos meus olhos e pisquei rapidamente. O soluço escapou por entre os lábios, assim que o pensamento mais óbvio me invadiu. Meu coração se apertou, ao mesmo tempo em que se aqueceu. Mia só queria o calor e a proteção dos braços daquele que sempre a mimou. A sua pessoa favorita desde que nasceu.

— Ela acha que você é o pai dela — comentei, a voz embargada.

levantou a cabeça, os olhos azuis arregalados e as sobrancelhas arqueadas. Talvez sua ficha finalmente caia, como a minha.

— Mas, eu não sou o pai dela. Quer dizer... Não o de verdade. — Abaixou a cabeça, visivelmente a mandíbula tencionada.

Ele voltou a olhar para a pequena, dessa vez com uma doçura dançando ao redor das pupilas. Em outra ocasião, poderia julgá-lo como rude, mas ali, entendia que era apenas o seu modo de lutar contra os próprios pensamentos.
Era um assunto delicado que nunca tivemos a chance de discutir abertamente.

— Você é a figura paterna dela agora. — Segurei a mão de Greta em meu ombro, direcionando-a um sorriso tímido. — A Lily sempre dizia que o Noah tinha um dom mágico para acalmar a Mia, não é?

Greta assentiu, os lábios se curvando como se estivesse tendo uma memória doce.

— E, agora, é você quem tem esse poder — ela revelou e vi engolir em seco. — Uma vez, li que as memórias dos bebês são como borrões. A Mia não se lembra exatamente do pai, mas, quando o vê, é como se uma parte do Noah ainda estivesse aqui.

apenas sorriu em silêncio, um movimento terno, carregado de profunda emoção. Deixou um beijo na lateral da cabeça de Mia, antes de puxar delicadamente a mãozinha dela e depositar outro na sua palma. Greta e eu apenas olhamos, completamente encantadas pela cena de carinho entre os dois.
Meu coração deu um solavanco. a olhava com tanta devoção que o momento se tornou mágico. E, ao mesmo tempo em que quis correr para os seus braços e beijá‑lo até o ar faltar, entendia que havíamos acabado de avançar mais um passo em nossa família, como se somente naquele instante estivéssemos assumindo nossos verdadeiros papéis de guardiões.

— Ela ainda está um pouco quente — ele murmurou, o tom de voz preocupado, tocando a testa de Mia.

A governanta estalou os dedos, finalmente voltando à órbita. Correu na direção das sacolas de compras.

— Trouxemos o remédio que a pediatra receitou. — Vasculhou as sacolas em busca da caixa pequena.

Girei a cabeça, as sobrancelhas arqueadas.

— Não é melhor ela comer primeiro? — Encarei , igual olharia para o gênio da lâmpada. — Tentei oferecer melancias, mas sem sucesso. — Pressionei os lábios em frustração, cruzando os braços sobre o peito.

suavemente remexeu os braços, oferecendo mais conforto para Mia. Seu rosto retorcido pareceu ter uma ideia.

— Na clínica, usamos compressas mornas para baixar a febre dos filhotes. Podemos tentar um banho morno, enquanto a Greta prepara a sopa que compramos no mercado — sugeriu.
— Acha que pode funcionar? Ela... Bem... Não é um cachorrinho. — Levantei os ombros e fiz uma careta cética.

Ele semicerrou os olhos, um brilho divertido no olhar.

— Meu celular está lotado de mensagens suas, perguntando se fazemos alguma coisa com os filhotes nessa fase. Não julgue minhas ideias agora — ditou firme, mas com um leve tom de zombaria.

Ergui as mãos em rendição e depois desliguei o notebook, já me preparando para subir as escadas.

— Então, como pretende fazer isso? Usamos a banheira dela? — levantei-me, indo em sua direção.
— Pensei em usar o chuveiro. Você poderia entrar com ela e dar o banho morno.
— Podemos tentar, e, enquanto isso, você ajuda a Greta.

assentiu e venceu a distância que nos separava. Moveu as mãos com leveza, tentando fazer com que Mia aceitasse ir para o meu colo. Ela se agarrou firme na camiseta de linho, emitiu um som enraivecido, ameaçando chorar caso continuasse a insistir. Sem sucesso, apenas a observei esconder-se e franzir o rosto em contragosto.

— Acho que ela fez a escolha dela. Será o papai. — Soltei um risinho divertido.

As pupilas de se dilataram, a respiração falhou e o tique nervoso na mandíbula denunciou o seu pânico. Imediatamente, levei a mão até seu ombro esquerdo e acariciei suavemente, sentindo a musculatura tensa sob meus dedos. Busquei pelos olhos claros e olhei dentro deles, transmitindo um claro sinal de apoio.

— Não se preocupe, eu vou te ajudar — garanti. Por dentro, bastante ansiosa para vê-lo, finalmente, assumir seu papel na paternidade.

A tensão pairou no ar e sabia que estava morrendo de medo de encarar aquela tarefa, por isso ficaria em seu encalço a todo momento. Mia se aninhou contra o seu pescoço, enquanto subíamos as escadas, e aproveitei a posição dela para fazer algumas caretas divertidas, a fim de lhe arrancar um sorriso. Como esperado, nada aconteceu e novamente fui atingida pela frustração.
Atravessamos o corredor, indo para o quarto dela, onde separei as peças de roupas e as levei para o quarto principal. se movia com cautela, cada passo parecendo um desafio. Ao chegar na suíte, preparei a banheira cor de rosa — optamos por usá-la, já que o chuveiro poderia assustá-la com os jatos agressivos.
No entanto, Mia se recusou a colaborar, então tivemos de improvisar. Pedi que ele ficasse com ela dentro do box, apenas a segurando, enquanto eu jogava a água morna da banheira com auxílio de um pote que encontrei no armário da pia. Nossas roupas ficaram encharcadas, um detalhe que não nos incomodou, já que estávamos preocupados demais com a saúde da pequena.
Após o banho, a enrolamos na toalha cor de salmão e seguimos para o quarto. Por sorte, a água morna pareceu relaxá-la e consegui tirá-la dos braços de sem a resistência de antes. E, enquanto ele se encarregou de arrumar o banheiro, minha missão foi vesti-la com o macacão de bichinho que a transformou numa raposinha; a touca com orelhas pontudas dava o charme fofo.
Sorri, depositando um beijo em sua testa. Mia remexeu os braços, os olhos claros, arregalados como se buscasse por algo. Entreguei a ela o mordedor em formato de mão e imediatamente foi levado até a boca. Aproveitei a calmaria para aferir sua temperatura, peguei o termômetro infravermelho e apontei à testa, esperando alguns segundos até que os números aparecessem no visor.
Soltei a lufada de alívio ao ver que a febre tinha cessado. Agradeci aos deuses por ter um veterinário competente ao meu lado, que pensou no banho morno; assim não teríamos que medicá-la com o remédio amargo — apesar de ainda termos que ficar atentos caso voltasse a ficar quente.
Rapidamente, troquei minhas roupas molhadas, optando por uma blusa branca larga e um short preto. Arrumei os cabelos em um coque frouxo, pronta para a missão mais importante: alimentar minha filha com a sopa de legumes, nutritiva e deliciosa, que Greta se encarregou de preparar.
surgiu do banheiro, a camiseta e a bermuda coladas ao corpo de tão molhadas. Sua testa carregava algumas gotículas de suor, os fios loiros escuros grudados ali e o semblante parecia carregado. Arquei a sobrancelha, analisando-o de cima a baixo. Mesmo com o estado deplorável, meu corpo traiçoeiro insistia em querer agarrá-lo, minhas mãos formigando para deslizar por toda musculatura forte.
Deixei o risinho escapar e tratei de cobrir a boca com a mão assim que seu olhar me fuzilou. Céus, ele era lindo demais.

— Parece que você foi atropelado por um caminhão — zombei, envolvendo Mia nos braços.
— Ser pai é complicado. — Deu de ombros, fechando a porta da suíte.

Mordi o lábio inferior, segurando a risada.

— Por que você está reclamando, se eu que fiz todo o trabalho? — fingi estar ofendida.

Ele caminhou em nossa direção e franziu o cenho ao ver o macacão de bichinho que coloquei em Mia. Seus olhos foram dela para mim. E, pela primeira vez, naquele dia, a pequena soltou um risinho, se divertindo com a careta de confusão no rosto dele.

— Por que a vestiu com isso? — quis saber, acariciando a bochecha da filha.
— Porque foi a primeira coisa que achei no guarda-roupas. — Dei de ombros, ajeitando a touca na cabeça dela. — Olha essas orelhinhas.

Minha boca se curvou em um sorriso divertido e só então reparei que me encarava com a expressão carrancuda, parecendo diante de uma mulher problemática. Os braços cruzados em frente ao corpo já denunciavam sua desaprovação.

— Qual é o problema? Ela ficou ótima de raposa. — Mia se remexeu em meu colo, aprovando a ideia.
— Isso é quente demais, . — Apontou para a roupa felpuda. — Você vai cozinhá-la viva.

Rolei os olhos. Ele não poderia estar falando sério.

— Não seja dramático. É um conjunto fino — justifiquei, obrigando-o a tocar o tecido. — Viu? Pare de procurar problema onde não tem. — Fui impulsiva, dando um peteleco em sua testa. — Tome um banho, enquanto levo essa princesa para comer a melhor sopa do mundo.
Sem hesitar, saí do quarto, rumo à cozinha. O delicioso aroma de comida me atingiu, de modo que, se fosse um desenho animado, sairia flutuando atrás da fumaça branca. Meu estômago roncou alto, faminto, ao ver a travessa cheia de carne de panela e batatas sobre a mesa. Ao lado havia a panela com arroz e uma bacia com salada de alface. Minha boca salivou, tornando‑se um oceano.
Mas, a fome ficaria para mais tarde.
Acomodei Mia na cadeirinha de alimentação. O prato de plástico em formato de urso já a esperava, cheio de caldo colorido. E assim que minha mão alcançou a cadeira ao lado, o toque gentil de Greta repousou sobre meu ombro. Ela se ofereceu para ajudar e até tentei argumentar, sendo inútil.

— Querida, você já fez o bastante. Agora, vá alimentar o dragão que vive no seu estômago — ordenou, feito um general.

Assenti mesmo a contragosto, obedecendo-a. Apressei-me em montar o prato com uma montanha de salada e a carne de panela assada com batatas. O cheiro delicioso me sufocava. No entanto, quando estava prestes a me deliciar com o sabor da comida, o garfo congelou no ar. Engoli em seco, quase engasgando com a visão que surgiu na entrada da cozinha.
invadiu o cômodo, completamente seco. O cabelo escuro ainda úmido, o semblante letalmente renovado. Vestia apenas uma calça de moletom cinza; o tronco nu, como uma estátua grega perfeitamente esculpida, ainda carregava pequenas gotículas de água. A cada passo lento, os músculos do abdômen se contraíam, brilhando perigosamente sob a luz branca da cozinha.
Porra.
Desviei o olhar, só então notando a bola peluda em seus braços. Os dedos longos coçavam atrás das orelhas pontudas, o ronronar do felino preenchendo o silêncio. E, por um instante, senti um gemido subir pela minha garganta ao ver aquele homem se virar de costas para a mesa, expondo a musculatura forte, enquanto enchia o pote de ração de Sky.
Ao fundo, Greta soltou um comentário que arrancou uma risada sincera de . Estava tão anestesiada, admirando a curva brutal dos ombros e o dorso definido, que não escutei nenhuma palavra. Tensionei a mandíbula, forçando meus olhos de volta para o prato.
Tentei recuperar a dignidade que havia feito as malas e me abandonado, quando meu celular vibrou em cima da mesa.
Agarrei o aparelho e, imediatamente, o corpo inteiro estremeceu ao ver a notificação da meteorologia. Fui atingida por um soco no estômago. Minha boca secou, a garganta arranhou. Na tela, a imagem fictícia das gotas caindo do céu escuro me afrontou. Rolei o dedo, o calafrio subindo pela espinha ao ler que, em menos de uma hora, Nova Jersey seria afogada por uma chuva estrondosa.
De repente, tudo ao redor desapareceu, a fome morreu e me encontrei caindo em um abismo escuro, sem fim. Meu coração começou a bater descontroladamente, esmurrando as costelas em completo desespero. Como se não bastasse a preocupação com Mia e a agonia dos hormônios por aquela criatura a poucos metros de mim, ainda teria que enfrentar uma tempestade que me abateria em poucos minutos.
Maldita hora para o universo brincar com o meu desespero.





A dor cortante arrepiou cada pelo do meu corpo. A fisgada subiu do dedo indicador e se alastrou como veneno, dominando cada célula pelo caminho. O ar dos pulmões faltou e mordisquei a pele na lateral do polegar. Depois passei a roer a unha já curta, com uma ferocidade desesperadora.
De um lado para o outro, as pernas se moviam em círculos. A mente, prestes a entrar em colapso, gritou para que me isolasse. E foi isso o que fiz, mergulhando nas profundezas do quarto, que seriam o meu consolo. Precisava estar bem para assumir as responsabilidades como mãe — algo que pensei ser impossível de fazer naquela noite.
Lembro-me de ter levantado tão rápido da cadeira que quase a deixei cair. Com a desculpa de que precisava tomar o remédio de alergia, subi as escadas às pressas. O peito retumbava, um tambor de guerra. O coração esmurrava os ossos com violência, querendo saltar para fora e correr em busca de um abrigo seguro. Invadi o quarto principal e fiquei ali, longos minutos, parada à mercê do pânico.
Os dedos da mão esquerda, trêmulos e suados, espremiam o celular com força. Ao sentir a vibração, encarei a tela. O grande aviso da meteorologia saltou, emitindo o alerta da possibilidade de granizo, ventos intensos e queda de energia na região. Além disso, a recomendação para se abrigar em locais seguros, longe de árvores e campos abertos, parecia uma sentença de morte.
Oh, céus... Só poderia ser um pesadelo.
Fechei os olhos com tanta força que a testa deu uma pontada. Puxei e soltei o ar devagar, contando mentalmente até o número três. Desejei que a notificação desaparecesse ou fosse falsa. Mas, quando tomei coragem para novamente encarar o aparelho; duas batidas controladas na porta me fizeram dar um salto no lugar.
O soluço escapou pela garganta. Controlei as lágrimas que ameaçaram rolar pelo susto. Virei-me assim que ouvi as dobradiças rangendo, a madeira se abrindo em uma pequena fresta. O rosto de Matteo surgiu, másculo, com uma ruga de preocupação na testa. Ele segurou a maçaneta, decidido a não avançar a linha do quarto.
Arqueou as sobrancelhas, os olhos azuis escrutavam meu rosto pálido, tentando decifrar cada traço carregado de pavor.

— Está tudo bem?

Seu corpo lentamente se moveu para dentro, e só então notei que havia vestido uma camiseta branca.

— Sim... — Tentei soar segura, a voz saindo por um fio.

Corri na direção da janela e puxei as cortinas. Os vidros finalmente desapareceram graças ao tecido grosso e escuro. Suspirei, os ombros caindo para a frente. Os dentes retornaram a roer as unhas até a carne. E meus pés foram incapazes de se mexer, por isso fiquei ali, parada feito uma estátua. Os olhos perdidos, sem brilhos, tomados pelo medo.
Estremeci ao sentir o toque quente, pesado e protetor sobre as laterais dos braços. Os dedos deslizaram em um carinho terno, suave e lento. O breve roçar desencadeou um formigamento elétrico, sendo uma faísca em meio ao caos. Fechei os olhos, o ar saindo dos pulmões em um suspiro longo. Não aguentava mais carregar aquele fardo sozinha, e a sua presença era um bálsamo forte o suficiente para me fazer desmoronar.
Os cantos dos meus olhos transbordaram, as gotas grossas rolaram pesadas pelas bochechas. A garganta embargou, tornando impossível respirar. Solucei feito uma criança abandonada; meu corpo inteiro balançava em desespero.

— Também recebi o alerta, Amy. Por isso precisava vê-la — revelou, continuando o carinho que me mantinha ancorada.

Arfei, virando-me para encará-lo. E, ao encontrar o oceano acolhedor dos seus olhos, foi como ser baleada por uma dose de morfina. O choro aumentou. O peito, misteriosamente, doendo menos a cada soluço.

— E-eu.... T-tenho medo d-da chuva — gaguejei.

Matteo me estudou com uma atenção quase científica. Delicadamente, limpou as lágrimas com os polegares. Envolveu meu rosto com as mãos, aproximando-se para sussurrar de modo que só eu conseguisse ouvir:

— Eu sei disso. Por isso, estou aqui. — E foi nesse exato momento que a energia falhou.

O grunhido assustado saiu por entre os lábios e, instintivamente, agarrei-me a ele com desespero. Meus braços envolveram seu corpo largo. Escondi o rosto contra o peitoral duro, as pernas bambas como gelatina. As luzes piscavam sem parar, criando uma agonia que antecedeu o som estrondoso que reverberou do lado de fora.
Foi como ser jogada de volta naquele asfalto imundo de Nova York. Sozinha, desesperada e com a pele pegajosa pelos toques imundos.
O trovão brutal chacoalhou as paredes, fazendo-me tremer mais e mais. Os soluços aumentaram, o ar faltou nos pulmões. Matteo me apertou com os braços, oferecendo proteção e um abrigo impenetrável. Ofegante, ergui a cabeça, apoiando-a sobre o seu ombro, de modo que o nariz roçasse contra o seu pescoço.
Inspirei lentamente, o perfume amadeirado inundando as vias aéreas, estranhamente acalmando os demônios que gritavam em minha mente. Repeti o movimento, até que finalmente conseguisse respirar sem dificuldade e o coração passou a bater mais devagar. O seu cheiro se assemelhava ao desejo que tive de ter-me acolhido naquela noite; era como se minha mente recriasse o passado e Matteo me encontrasse após o ataque.

— Eu estou aqui com você. — Suas mãos voltaram a segurar o meu rosto, obrigando-me a olhá-lo. — Está tudo bem. É só uma chuva. — Fechei os dedos ao redor dos pulsos grossos, querendo sentir o seu calor. — Ninguém vai te fazer mal, enquanto estiver comigo.

Funguei, os lábios trêmulos.

— P-promete?
— Sempre, coelhinha. — Beijou minha testa com uma ternura avassaladora, e tudo o que conseguia fazer foi apreciar o toque macio dos seus lábios.

Puxei o ar e voltei a abraçá-lo, aconchegando o rosto em seu peito. Matteo apoiou o queixo no topo da minha cabeça, os dedos deslizando pelo cabelo. Fechei os olhos, apreciando o carinho, ao mesmo tempo em que ouvia o tum-tum-tum do seu coração.
A calmaria brevemente nos rodeou, e bastou apenas ficarmos em silêncio para que os pensamentos pessimistas me afligissem. O nó se formou na garganta, e tudo o que consegui fazer foi suspirar.

— Como posso ser a mãe que a Mia tanto precisa, se na primeira chuva, entro em pânico? — Meus olhos se perderam no quarto, a angústia consumindo o peito. — Como posso ser o melhor exemplo para ela?
— Amy... Até as mães sentem medo. Somos seres imperfeitos; não se cobre tanto por isso.

Outro trovão explodiu no céu. Grunhi, encolhendo-me mais contra ele.

— Preciso colocar a Mia para dormir. — Fez menção de se afastar e, imediatamente, o segurei pela cintura.
— Não me deixa aqui sozinha, por favor — supliquei, a voz abafada e vulnerável.

Matteo levantou minha cabeça com sutileza. Nossos olhos se encontraram, uma conexão inexplicável que aquecia minha alma sem precisar dizer nenhuma palavra. A eletricidade e a segurança nítida em um só olhar.

— Nunca vou deixá-la sozinha — frisou, os polegares acariciando as bochechas úmidas. — Venha comigo, seja a minha sombra. — Sorriu galanteador, e apenas consegui assentir.

Ao finalmente se afastar, ele estendeu a mão na minha direção e esperou até que a envolvesse com os dedos. Em silêncio, atravessamos o corredor; a cada lampejo, meu corpo paralisava. Fechava os olhos com força; as lembranças do ataque me assolando, ao ponto de quase cair de joelhos no chão, mas, graças aos deuses, Matteo estava ali para ser a luz no final do túnel.
Ele cessou os passos e, pacientemente, abraçava-me, como um escudo que repelia todos os demônios. Eu me encolhia e ouvia o ritmo frenético do seu coração. O pulsar lento, calmo e poderoso. Cada batida soando como o badalar dos sinos, acalmando o pavor e o medo que insistiam em assombrar a minha alma.
O seu calor, a firmeza dos músculos e as palavras acolhedoras se tornaram meu alicerce inabalável. Em meio à escuridão, eu o procurava e era recebida por braços fortes que sempre estariam dispostos a me acolher.
Por sorte, nenhum raio rasgou o céu quando descemos as escadas. Lentamente, Matteo me guiou de volta para a cozinha. O cuidado em cada movimento aquecia meu peito de maneira inexplicável. Ele usava o próprio corpo como escudo, impedindo-me de ver o claro ofuscante dos relâmpagos pelas janelas. Além de sussurrar frases engraçadas e acolhedoras que serviam de distração.
Agarrei firme em seu pulso assim que chegamos à entrada do cômodo e um pequeno trovão ecoou ao longe. Logo, fomos acolhidos pela agitação de Greta, que batia palmas e fazia uma dança desajeitada. Varri cada móvel com atenção, até encontrar Mia na cadeirinha de alimentação, com a boca e o babador sujos com os ingredientes da sopa.

— Consegui fazê-la comer! — a governanta comemorou e sacolejou o quadril em um ritmo engraçado.

Tentei sorrir, mas logo minhas pupilas dilataram ao encarar a janela em cima da pia. Através da vidraça, estava diante de um filme de terror. A imagem de Kaleb surgiu do lado de fora. Engoli em seco, ao ver o sorriso diabólico curvar-se em seu rosto, como se estivesse prestes a saltar e me devorar.
Meus pés recuaram, minha garganta secou e a mente traumatizada fez com que o homem erguesse a mão, exibindo a mesma faca ensanguentada daquela noite. O arrepio gélido subiu pela espinha. Meu corpo inteiro entrou em colapso, cada fibra vibrando de horror.
Fechei os olhos e balancei a cabeça, escondendo o rosto desesperadamente contra a omoplata de Matteo. Encolhi-me até que não visse nem o vislumbre da janela. Meus dedos se fecharam com força ao redor do seu pulso.
Funguei baixinho e senti quando a sua mão livre deslizou para trás, tocando minha cintura. Em um movimento calculado, fez com que meu corpo se colasse mais ao seu, como se fôssemos apenas um só contra a tempestade.

— Amy, querida. Você está bem? — Ouvi a voz de Greta. O tom preocupado me obrigou a encará-la.

E lá estava ele... Na janela, os olhos sanguinários me encarando feito um maníaco. Engoli em seco, concentrando a atenção no rosto da mulher.

— Sim... Eu só... — busquei pelas palavras certas, mas a atenção desviou para a vidraça e minha voz desapareceu. — E-eu...
— Ela está com um pouco de tontura, Greta — Matteo se intrometeu, enlaçando nossas mãos.

Acenei em concordância e a governanta agiu rapidamente. Puxou a cadeira mais próxima, correu até mim e me forçou a sentar. Antes que pudesse protestar, colocou o prato de comida à minha frente — o mesmo que havia abandonado mais cedo.

— Você precisa comer, menina. Sentir tontura é sinal de baixo nível de açúcar no sangue — repreendeu, enchendo o copo com suco. — E não se preocupe com a Mia, irei colocá-la na cama. — Pegou a pequena no colo e fez uma careta engraçada. — Já a mediquei com os remédios para dor e febre. Só por precaução.

Caminhou para a saída da cozinha e bateu levemente no ombro de Matteo. E, assim como fez comigo, deu uma bronca por também não ter comido nada no jantar. Antes de sair, apontou para os próprios olhos e depois os lançou na nossa direção, não precisando de muito para entendermos que estava de olho em nosso comportamento.
O veterinário riu, sentando-se ao meu lado. Já eu, remexi a folha de alface com o garfo, olhando de relance para a janela. Respirei aliviada por não encontrar o rosto que me assombrava em todas as noites chuvosas.
Tomei um pequeno susto ao sentir os dedos grossos tocarem minha coxa desnuda. A pele se arrepiou e virei a cabeça para encarar o responsável por me fazer saltar na cadeira.

— Está tudo bem. Coma um pouco. — Acariciou a região em círculos com o polegar. — Posso fazer uma salada de frutas com granola. — Ofereceu com gentileza e cuidado.
— Eu agradeço, Matteo. Mas não estou com fome. — Empurrei o prato para longe, segurando as bordas da mesa.

Ele fez um beicinho e inclinou a cabeça, aproximando-se como um cachorrinho abandonado.

— Você precisa comer, meu anjo. — Com a ponta do indicador, tocou-me no queixo, virando o rosto em sua direção. — Não quero que fique doente. E, depois de ter exagerado na bebida, precisa se alimentar direitinho.

Em seguida, encurtou a distância entre nós, beijando-me na testa carinhosamente. Um sorriso discreto curvou-se no canto dos meus lábios, sentindo-o esfregar nossos narizes em um beijo de esquimó.

— Quer que eu peça burritos? — Sua voz estava carregada de preocupação.

Balancei a cabeça em aceitação, sabendo que não desistiria tão fácil. Matteo se afastou, discou o número do meu restaurante favorito e encomendou a maior porção disponível no cardápio. Arregalei os olhos ao ouvir que havia pedido a opção com oito burritos variados e uma Coca-Cola grande.
Soltei um risinho de indignação, não acreditando no que tinha acabado de escutar.

— Você é maluco — comentei assim que encerrou a ligação.
— Faço de tudo para ver esse sorriso no seu rosto. — As palavras doces fizeram meus lábios se curvarem mais e mais. — E não vamos desperdiçar comida.

Ele puxou o meu prato e começou a se deliciar com cada garfada generosa. O silêncio confortável se instalou. Apoiei o cotovelo na mesa, a mão direita sustentando o peso da cabeça, enquanto assistia Matteo devorar a comida. Soltei o ar pela boca; uma profunda calmaria se apossou dos meus sentidos.
Gargalhei ao ver as caretas desagradáveis que ele fez assim que descobriu que Greta havia colocado azeite na salada. E foi nesse momento que notei o quanto a presença daquele homem era capaz de afastar todo o tremor e a angústia que sentia. Por um instante, a aproximação da tempestade passou a ser apenas uma lembrança distante.
Minha atenção foi tomada ao ouvir a buzina de um carro ecoando na frente da casa. Em segundos, Greta surgiu no arco da cozinha. Rapidamente atravessou o cômodo, buscando pela bolsa e algumas sacolas de compras que deixou mais cedo sobre o balcão. Ela vestiu o casaco de couro com um movimento rápido e arrumou os cabelos, antes de nos lançar um sorriso satisfeito.

— Estou lisonjeada por ver esse menino comendo toda a salada — brincou, aproximando-se para deixar um beijo carinhoso no topo da minha cabeça. — Meu marido está me esperando. A Mia está dormindo, então, por favor, não hesitem em me ligar caso aconteça alguma coisa — repetiu o gesto em Matteo e parou no batente. — Eu amo vocês. Fiquem bem, crianças.
— Também amamos você, Greta — dissemos em uníssono.

Ela se foi com pressa, jogando um beijo no ar.
Mas bastou apenas ouvir o som do carro se distanciando para as primeiras gotas pesadas de chuva atingirem o telhado. Estremeci, sentindo o ar esfriar de repente. A torrente aumentou, quase explodindo sobre a casa. A água deslizava pelos canos, um barulho alto, quase ensurdecedor.
Molhei a garganta com saliva. A sensação fria dos pelos arrepiados na espinha, subiu para a nuca. De costas para a janela, não precisei me virar para saber que estava sendo vigiada. Meu coração passou a bater descompassado, um tambor desesperado, esmurrando as costelas com tanta força que me deixava sem ar.

— É só uma chuvinha... Só uma chuvinha boba... — sussurrei, a voz fina, quase inaudível.

Olhei fixamente para um ponto qualquer sobre a mesa, tentando acalmar a mente tempestuosa que ousava criar cenários aterrorizantes. As primeiras lágrimas quentes escorreram pelo meu rosto, enquanto repetia as palavras, sentindo-me fora da órbita.

— Amy... — A voz grossa pareceu distante, ofuscada pela chuva. — Ei, olha para mim.

As mãos grandes e quentes tocaram meu rosto. E foi como tomar um choque elétrico. Meu corpo saltou para trás, a cadeira raspando contra o azulejo. Respirava pela boca, em golfadas curtas, o desespero puro me dominando.

— Calma, sou eu — Matteo murmurou firme. — Respira comigo. Ouça o meu coração. — Pegou minha mão e a pressionou contra seu peito, deixando-me sentir as batidas sobre a camiseta.

O calor do seu gesto não foi o suficiente para me trazer de volta, porque bastou olhar por cima do seu ombro para ver o homem sombrio parado na entrada da cozinha. Ele estalou o pescoço e girou a lâmina entre os dedos. Os olhos escuros, possuídos de ódio, e uma pequena faísca de alegria ao finalmente me encontrar.

— Não. Não. NÃO! — berrei, levantando-me com urgência.
— AMY! — Matteo gritou, não sendo o suficiente para me arrancar daquele pesadelo.

A cadeira tombou para o lado e meus pés se arrastaram até que as costas encontrassem o balcão gelado. Desabei em lágrimas, escorregando pelo mármore, deixando-me cair sentada no chão. Solucei em desespero, curvando a coluna para frente. Escondi o rosto nos braços sobre os joelhos dobrados, o choro agonizante saindo sem escrúpulos.
A música da boate. A risada maléfica dele. As palavras cruéis do que faria comigo.
Tudo voltou com força.

— Ei… Amy, olha para mim. — Ouvi quando o veterinário se ajoelhou à minha frente, tocando gentilmente meus joelhos.
— Ele está aqui, Matteo... Está aqui — revelei com a voz por um fio.
— Meu anjo, você precisa se acalmar. — Gentilmente levantou minha cabeça, arrumando os fios teimosos que grudavam na pele molhada. — Respire, por favor. Vamos, repita comigo. — Inspirou pelo nariz e espirou pela boca, incentivando que o imitasse.

Eu o fiz, não conseguindo desviar a atenção dos olhos azuis cheios de aflição e ternura.

— Isso. Vamos, de novo — repetiu os movimentos, gesticulando com a mão.

O acompanhei, os pulmões agradecendo por finalmente receberem ar puro.

— E-ele está aqui... — consegui sussurrar em meio aos soluços.
— Não há ninguém aqui além de nós. — Colocou a mecha de cabelo atrás da minha orelha. — Por favor, respire. Preciso que me diga o que está vendo.

Funguei, as vias aéreas queimando feito brasa. Ergui a cabeça e busquei pela silhueta de Kaleb, mas tudo o que encontrei foi o vazio. Meu coração se apertou, um nó gigantesco, temendo que seu rosto sombrio aparecesse para me assombrar.
Outro estouro grotesco sacolejou as paredes. O som se assemelhava a vidros estilhaçando, muros e concreto se partindo. Soltei um grito apavorado, encolhendo-me contra o balcão frio.
Mais gotas salgadas rolaram, o medo e a angústia me sufocando aos poucos.

— Calma. Está tudo bem. — Matteo sentou-se ao meu lado e puxou o corpo frágil para seu colo.

Agarrei sua camiseta e escondi o rosto em seu tórax. Fechei os olhos, sentindo as lágrimas molharem as fibras do tecido. A respiração ruidosa se tornou o único som entre nós, além da chuva agressiva. Matteo delicadamente segurou minhas mãos trêmulas e, com uma firmeza gentil, as levou até os lábios, distribuindo beijos castos, reconfortantes.

— E-ele estava aqui, Matteo. — Tomei coragem para falar, sabendo que ele merecia uma resposta.
— Era o Kaleb? — gentilmente, resvalou o polegar pela bochecha, capturando as lágrimas.

Assenti, os olhos varrendo a cozinha em busca de alguma sombra.

— Eu o vi na janela da pia... E depois e-ele estava atrás de você, na entrada da cozinha. — Molhei a garganta com a saliva, o mero movimento arranhando a faringe.

Matteo soltou um suspiro resignado, os dedos enroscando-se em meus cabelos em um carinho lento, acolhedor.

— Coelhinha, você acredita em mim? — disparou e anuí em resposta. — Então, acredita quando digo que não tinha ninguém aqui, além de nós?
— Mas... Eu o vi, ele estava bem ali! — Apontei, a voz esganiçada. — Ele tinha uma faca e um sorriso diabólico no rosto. — Meus dedos cravaram-se em seus antebraços, temendo que não acreditasse em mim.

Matteo não recuou e nem me abraçou. Dessa vez, sua postura mudou. Segurou meus pulsos com delicadeza, acariciando a pele em círculos. Os olhos, tomados pelo imenso oceano azul, capturaram os meus, criando aquela conexão tão profunda e intensa que só tive o prazer de experimentar com ele.

— Você confia em mim? — quis saber, a testa enrugada.
— Confio — respondi sem hesitar, porque era a verdade. — Mas o Kaleb ainda pode estar aqui. Ele pode nos matar. — desviei o olhar para a saída, ainda buscando pela sombra demoníaca.
— Vem, vamos levantar. — lentamente me puxou para cima, minhas pernas pesando toneladas.

E assim que nossos corpos ficaram eretos, uma brisa gelada, quase sombria, nos abraçou. Mas permaneci firme, esperando que Matteo me guiasse, já que sozinha não seria capaz de fazê-lo.

— Agora, quero que olhe para a janela junto comigo. Pode fazer isso? — sussurrou com a naturalidade de quem pedia um copo d'água.

Arregalei os olhos em espanto. Meu coração voltou a bater feito um tambor desenfreado. Estremeci dos pés à cabeça, como se estivesse diante de uma aberração. Eu quis gritar, xingá-lo de louco, mas a voz desapareceu como fumaça. E, antes que ousasse fugir, senti o aperto firme das suas mãos nas minhas.
Eu sabia que Matteo só queria me ajudar, mas o que estava me pedindo era um absurdo.

— Por favor, não me peça para fazer isso. Eu não consigo.
— Só confie em mim. Feche os olhos, se quiser. — aproximou-se, estudando minhas reações com atenção. — Estarei aqui com você; vamos olhar para ele, juntos.

Minha boca secou, um deserto árido. Mesmo com o corpo tremendo, deixei que cada fibra do meu ser fosse entregue a ele. E, ao sentir as mãos de Matteo tocarem meus cotovelos, foi como ouvir a voz sábia do novo psicólogo, sussurrar: “Amy, o medo só irá morrer quando você tiver a coragem para encará-lo de frente”.
Suas palavras também me disseram que, se eu, um dia, quisisse voltar a viver, precisaria atravessar o fogo que Kaleb acendia em minha mente. E era exatamente isso que tentaria fazer.
As pálpebras se fecharam por vontade própria, enquanto deixava Matteo me guiar. Os braços se fecharam ao redor da minha cintura, formando um cinto de segurança. Senti o peso da sua cabeça repousar sobre meu ombro, podendo ouvir o som da sua respiração calma, lenta. Em seguida, passou a me empurrar com cuidado e soube que me levava em direção à janela.

— Vamos fazer isso devagar.

Seu corpo se colou nas minhas costas e senti o pulsar do coração martelando em um ritmo constante, diferente do meu, que parecia uma ave moribunda.

— Me diga tudo o que está sentindo — pediu e pegou minha mão trêmula, colocando-a contra a superfície dura.

Tateei, as pontas dos dedos, tomando um pequeno choque térmico ao deslizar pela estrutura.

— É gelado, e parece ter desenhos de ondas. — Delineei os relevos com cuidado.
— É apenas o vidro canelado da janela — sussurrou contra meu ouvido e me afastou. — Vamos dificultar um pouquinho.

Matteo se afastou por alguns segundos. Um chiado metálico, semelhante a trilhos, alcançou meus tímpanos. O corpo se arrepiou ao ser atingido pela brisa fria da noite. Por um instante soube exatamente o que ele tinha feito, mas a ruga de curiosidade me impediu de recuar.

— Tudo bem. — Guiou novamente minha mão. — E agora, o que está sentindo?

Estiquei o braço, além do limite, e, por um instante, arqueei a sobrancelha, por não encontrar mais o vidro. Avancei mais alguns centímetros e, de súbito, o ar frio foi substituído por um minúsculo estalo na ponta do indicador, seguido de mais um e mais um. Tomei coragem e abri a mão, sentindo as batidas rítmicas massagearem a pele, inundando a palma.
Entre os dedos, pude sentir o líquido escorrer, algo vivo, macio e indolor.

— Também é gelado. — De repente, minha boca se curvou em um sorriso tímido. — Parecem microagulhas líquidas e muito gentis.
— É a chuva, meu amor. — Matteo segurou em meus ombros e poderia jurar que estava sorrindo. — Sente como ela é leve? Como é molhada?

Minha mão ficou encharcada. As lágrimas se formaram em meus olhos, porque, pela primeira vez, aquelas gotas possuíam uma força diferente de tudo o que conhecia.

— Agora, quando se sentir pronta, quero que abra os olhos. — Retornou a repousar a cabeça sobre o ombro e os braços ao redor da minha cintura. — Não precisa ter pressa, temos todo o tempo do mundo. — Deixou um beijo cálido contra meu pescoço e estremeci.

Suspirei profundamente. As pálpebras se abriram e, através dos cílios, pude ver o exato momento em que a imagem de Kaleb oscilou, como um holograma falho. Pisquei algumas vezes, afastando as lágrimas para admirar cada detalhe da mão ensopada, brilhando como se reluzisse toda a angústia dos últimos anos.
Onde antes via o rosto aterrorizante, agora, era apenas uma janela aberta, com fortes gotas da chuva caindo do céu. Ao longe, era possível ver um vislumbre da casa do vizinho, o balançar das árvores e os arbustos de hortênsias sendo acoitados pelo vento.

— Viu? Não tem ninguém lá fora. — Matteo me abraçou por trás. — O único monstro está apenas dentro da sua cabeça. É uma forma do subconsciente te manter em alerta, tentando protegê-la de uma dor que já passou. — Roçou o nariz contra minha têmpora e fechei os olhos, apreciando o carinho. — A sua mente precisa entender que não precisa mais dessa proteção. Você não está mais em Nova York. Agora, está aqui comigo.
— É só uma chuva — constatei, as palavras soando diferentes, mais leves.
— Isso, anjo. O Kaleb nunca mais vai te machucar — Matteo prometeu, virando-me de frente para si. — Mas se ele voltar a assombrar os seus pensamentos, eu sempre estarei aqui para expulsá-lo todas as vezes. — Envolveu meu rosto com as mãos. — Você é mais forte do que pensa, Amy. E nunca deixe ninguém dizer o contrário sobre isso.

Fechei os olhos assim que Matteo encostou nossas testas. O silêncio reconfortante caiu sobre nós. O som das nossas respirações ritmadas se misturava ao bater da chuva no telhado. Por um instante, o resto do mundo desapareceu e, pela primeira vez, me sentia reluzente.
A minha alma tinha acabado de ser despida. Uma parte lapidada. Matteo conheceu o meu pior pesadelo, viu de perto o mundo colapsar e, ainda assim, permaneceu ali. Segurou minha mãe com firmeza, guiando-me em direção da cura.
Ele se tornou o cúmplice que não imaginei que precisava.
Levantei a cabeça lentamente. Ansiei para ver os olhos claros que diziam mais do que palavras. Admirei cada traço do seu rosto, completamente fascinada por cada pedacinho dele. O maxilar quadrado e forte; a barba por fazer que tanto adorava; os cabelos que sempre pareciam desgrenhados; e as íris intensas em conjunto com as sobrancelhas grossas me deixavam sem ar.
Minhas mãos subiram para seu pescoço, atraídas por um magnetismo incontrolável. Aproximei nossos rostos, o calor emanando ao redor. Vi o exato momento em que Matteo fechou os olhos e se inclinou para selar nossos lábios. Eu precisava disso, senti-lo mais perto, talhado em minha alma.
Nossas línguas se encontraram, e o que antes era calmo e terno, se transformou em uma dança faminta. Enrosquei os dedos nos fios macios, puxando-o com urgência para mim. Matteo arfou em minha boca e desceu as mãos para a minha cintura, empurrando-me até que as costas batessem contra o mármore da pia.
Eu me perdi no gosto dos seus lábios, na força dos seus braços e no perfume amadeirado. Gemi completamente entregue. O mundo poderia desabar do lado de fora, os trovões poderiam rugir, e nada mais nos alcançaria. Nenhum fenômeno era capaz de apagar o fogo que nos consumia. E a cada segundo, queria me fundir mais e mais a Matteo, deixar que seu corpo me possuísse por inteira.
Mas o som agudo da campainha escolheu o momento errado para invadir a cozinha. Soltei um grunhido de frustração ao vê-lo se afastar. Ele soltou uma risada curta, passando a mão pelos cabelos. E tudo o que consegui fazer foi observá-lo em silêncio, hipnotizada por cada movimento.

— Seus burritos chegaram, meu anjo — ele murmurou, a boca se curvando naquele sorriso descarado que fazia o meio das minhas pernas se contorcer. — É incrível como as pessoas adoram arruinar os melhores momentos da minha vida.

Ele segurou meu queixo e roubou um selinho rápido antes de se afastar para atender o entregador. Observei suas costas, sentindo meu coração finalmente calmo, os batimentos encontrando a paz. Olhei para a janela aberta; a chuva ainda caía com força, mas sabia que, enquanto estivesse com Matteo, o som da torrente seria apenas um ruído de fundo.
Mordi os lábios e dei um passo na intenção de segui-lo, quando o universo decidiu brincar comigo mais uma vez.
O clarão branco e ofuscante rasgou o céu, iluminando a casa inteira. O estrondo ensurdecedor — mais alto que os anteriores — sacudiu as paredes como se fossem feitas de gelatina. O chão tremeu, as luzes piscaram por alguns segundos, até se apagarem por completo.
Paralisei no lugar. A escuridão absoluta se tornou sufocante. O pânico que havia acabado de prender no baú a sete chaves saltou com força total. A mão invisível apertou meu pescoço, o ar desaparecendo dos pulmões. E a penumbra se transformou na silhueta masculina, o claro dos raios fazendo-me vê-lo por completo.
Minhas mãos tatearam o nada e, por sorte, encontraram o metal frio do meu notebook em cima do balcão. Agarrei-o com as unhas, os dedos latejando de tanta força que fazia. Olhei para os lados em busca de ajuda, mesmo sabendo ser inútil. Segurei o aparelho, pensando que o usaria como escudo, caso Kaleb tentasse me alcançar.
Foi então que eu ouvi.
A gargalhada cortou as paredes da cozinha. A vibração arranhando os cantos da minha mente, zombando de mim como sempre fazia.

Achou mesmo que aquele playboy ia te proteger? — a voz grossa pareceu soprar em minha nuca, misturada ao cheiro do meu medo.

O calafrio subiu pela minha espinha e rapidamente desferi o golpe. Girei o corpo e lancei o notebook, querendo acertar o rosto do desgraçado, mas tudo o que consegui fazer foi derrubar os utensílios. Cerrei os dentes, a raiva abrindo caminho entre o medo e o pânico.
Era hora de encarar o meu pior pesadelo.
Outra risada sacudiu as sombras da cozinha e eu me concentrei no som, querendo expulsá‑lo de uma vez do subconsciente. Fechei os olhos, ouvindo o som de passos pesados atingindo meus tímpanos. Segurei o aparelho com firmeza, pronta para dilacerá‑lo — porque era isso que eu precisava fazer, então o faria.
O chão rangia, e bastou apenas sentir suas mãos imundas me segurarem pelos ombros para o instinto falar mais alto; então apenas reagi. Virei com toda a força que não sabia que possuía, levantei o notebook e o impacto foi certeiro. O som do metal encontrando os ossos e a carne ecoou pela cozinha silenciosa, sendo gratificante de ouvir.
Mas foi o grunhido de dor bastante real que me fez voltar para a realidade.

— Puta merda, Amy!

Um feixe de luz cortou o breu, encontrando o meu rosto. Os olhos arderam, contraí a testa assim que a pontada incomodou. Pisquei algumas vezes, até me acostumar com a claridade. E então, meu coração errou a batida.
O celular com a lanterna acesa foi deixado em cima da mesa, ao lado da caixa de burritos. Matteo se inclinou sobre o móvel, a mão pressionando a cabeça. Os olhos fechados, a respiração ruidosa e a expressão de dor em seu rosto quase me fizeram derrubar o notebook no chão.
Rapidamente, a culpa me corroeu. Larguei o objeto de qualquer jeito sobre o mármore, correndo em sua direção. Toquei suavemente o maxilar forte, girando sua cabeça até que conseguisse vê-lo por completo. Fui tomada pelo choque ao ver o sangue brotar perto do supercílio, escuro e muito real.

— Matteo, me desculpe, eu não vi você. — Peguei o guardanapo, pressionando o ferimento. — E-eu pensei que era... Meu Deus, me perdoa. — As lágrimas se formaram no canto dos olhos e comecei a temer sua reação.
— Tudo bem, coelhinha. — Afastou o pano de prato e soltou um grunhido. — Foi superficial. Fique calma. — Tentou me tranquilizar, mas a mancha vermelha ainda me deixava em choque.
— Como posso ficar calma? Você está sangrando! — Quase berrei, algumas gotas salgadas rolando pelas bochechas em desespero.
— Ei, calma. — Ele venceu a distância entre nós e me embalou em seus braços. — Lembre-se de que recebo mordidas e arranhões todos os dias. E acredite, doem muito mais do que isso. — Sorriu, disfarçando o gemido de dor. — Então... Você o viu? Por isso que quase me matou?

Deslizei as mãos para as costas largas. Aconcheguei a cabeça sobre seu peito, deixando que um sorriso discreto se formasse nos lábios.
— Fui tola em achar que o trauma se curaria tão rápido.
— Dê tempo ao tempo, meu anjo. — Beijou minha têmpora. — Vai chegar o dia em que nada mais vai te assustar.
— Alguém me ensinou a como enfrentar os medos, e foi isso que tentei fazer. Só não pensei que quase fosse arrancar sua cabeça — zombei, soltando um risinho.
— Da próxima vez, irei usar uma armadura. — estapeei seu peito e meu estômago escolheu aquele momento para se intrometer.

Escondi o rosto. O ronco alto fez minhas bochechas corarem.
— Acho que alguém está com fome — ele comentou e se afastou, pegando a caixa de burritos. — Vamos para o quarto. Depois de comer, podemos assistir a um filme de romance.
— Você odeia esse tipo de filme. — arqueei a sobrancelha, os olhos semicerrados.
— Faço de tudo para que se sinta segura esta noite. Mesmo que tenha de queimar alguns neurônios. — Suas palavras soaram como a declaração mais sincera que já tinha ouvido.

Matteo pegou a embalagem com uma mão e, com a outra, segurou o celular para iluminar o caminho. Fiquei em seu encalço, levando o notebook para ser a nossa tela de cinema. E, enquanto subíamos os degraus da escada, a chuva aumentou com uma força aterrorizante. Os trovões continuavam a cortar o céu, o clarão brilhando através das janelas.
Antes de irmos para o quarto, passamos para ver se Mia estava bem. Medimos sua temperatura, certificando-nos de que a febre foi embora. Ficamos aliviados ao vê-la finalmente relaxada, sem dores. Ajeitei a coberta sobre o corpo pequeno, notando que a protuberância na bochecha havia quase desaparecido por completo.
Cautelosos, voltamos para o corredor escuro. Caminhamos em silêncio, a torrente sendo o único som entre nós. A cada relâmpago, sentia um arrepio na espinha. A energia não voltaria tão cedo, então tudo indicava que seria uma longa noite.
E eu sabia que o passado voltaria a qualquer momento para me assombrar. Era apenas o começo, ainda teria muitas recaídas e vitórias. Levaria meses até finalmente estar curada. Mas pelo menos saber que Matteo estaria comigo em cada passo, me confortava.
Ele mataria todos os fantasmas que ousassem se aproximar, porque, daquele dia em diante, sempre garantiria que eu conseguisse dormir em paz.


Continua...


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Nota da autora: Sem nota.

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