Capítulo 9
- Oh, meu Deus! – A voz de saiu do surto para algo fofo.
- Para de se mexer! – Daniel disse, tentando fazer a câmera focar.
- Não dá, ele é fofo demais! – abraçou o coala mais próximo ao corpo, dando um beijo na cabeça do animal.
- Eu vou tirar! – Danny disse. – Três, dois, um... – tentou dar um largo sorriso no meio de sua feição fofa. – Pronto.
- Posso levá-lo para casa? – disse para a cuidadora do zoológico, entregando o animal.
- Ele é fofo, não? – A mulher disse e fez um carinho na cabeça do animal.
- Eu volto para te pegar, lindinho! – disse.
- Vem logo, , tem gente na fila! – Daniel disse e se afastou rapidamente da mulher, pegando a câmera da mão de Danny.
- Vai! Vai! – Ela disse, se colocando na área de fotos.
- Agora me apressa, né?! – Ele disse, rindo e se aproximou da mulher. – Oi, não me morde! – Ele falou para o coala, fazendo rir.
- Só porque o canguru te mordeu, não quer dizer que todo animal vai te morder. – disse e a cuidadora do zoológico ajudou a colocar o coala sonolento no peito de Daniel.
- Não achava que o canguru fosse me morder. – Daniel resmungou.
- O cara falou para você fazer um punhadinho com a mão, você quis logo dar no dedo, é óbvio que ele ia te morder. – deu de ombros, fazendo as outras pessoas da fila rirem.
- Tira a foto logo! – O menino disse, emburrado e colocou o olho no buraco da câmera antes de tirar a foto. – Ah, ele fez cocô em mim!
- Quê? – olhou para ele, ouvindo a fila gargalhar.
- Ah, qual é! Hoje tá difícil! – Ele disse enquanto a cuidadora tirava o animal de seu colo e Daniel sacudia a mão.
- Eca! – disse, se afastando dele.
- Agora tem nojo, né?! – Ele correu atrás dela.
- Obrigada, moça! – gritou antes de descer correndo a rampa da área de coalas.
- Volta aqui, !
- Não! – Ela gritou, rindo, ouvindo os passos do garoto atrás dela.
- Vem cá!
- Se livra disso! – Ela gritou, rindo, girando por uma pilastra de madeira.
- Espera! Banheiro. – Ele disse, correndo para outro lado e a menina parou, rindo.
O garoto sumiu pelo corredor do banheiro e foi para a entrada da atração dos coalas para pegar a mochila preta dele e a roxa dela, colocando as suas nas costas antes de voltar para onde estava com Danny. Não demorou muito para ele aparecer com seus cabelos cacheados para cima.
- Tudo certo? – Ela perguntou e ele sacudiu a mão molhada perto dela. – Ai, para!
- Eu nunca mais venho no zoológico, sério! – Ele disse firme.
- Ah, qual é, Danny, não foi tão mal! – Ela estendeu a mochila para ele.
- O canguru me mordeu, o coala fez cocô em mim, pelo menos a girafa mordeu sua trança, não eu. – gargalhou enquanto ele colocava a mochila nas costas.
- Eles gostaram de você, poxa. – Ela deu de ombros. – Mas não é como se você tivesse muita escolha, a gente precisa entregar o trabalho sobre isso.
- Ah, que horas são? – Ele perguntou e a menina olhou em um relógio na parede.
- 14:53.
- A gente tem até as quatro para entregar isso, não é melhor...
- Claro! Vamos na praça de alimentação, a gente almoça e faz. – Ela disse.
- Lesgo-o-o-o! – Ele disse, animado e ambos saíram correndo pelas ruas do zoológico.
Quando eles se aproximaram da praça de alimentação, eles se sentaram em uma das diversas mesas de madeira ali e Danny pegou o dinheiro de ambos e foi até a lanchonete pegar comida para eles. Enquanto isso, pegou seu caderno de “Os 101 Dálmatas”, abrindo em uma folha vazia e escrevendo o título do trabalho e os nomes de ambos.
- Eu pedi picles no seu. – Danny voltou com uma bandeja, colocando no meio da mesa e nela continha dois cachorros-quentes com vários condimentos australianos, além de dois copos de refrigerante e dois sacos de batata chips.
- Obrigado. – Ela disse, pegando o copo do refrigerante e dando um gole nele. – O dinheiro deu?
- Sim, sobrou uns 18 dólares ainda. – Ele disse enquanto ela escrevia “Dia no Zoológico” além dos nomes e sobrenomes de ambos. – E você escreveu meu sobrenome errado de novo... – Danny cantarolou ao ver o papel.
- Ah, droga! – Ela disse, irritada, pegando a borracha e passando com força no papel.
- Não sei qual a dificuldade...
- A dificuldade é que seu nome possui dois “Cs” e um “I” no meio do caminho. Qual o sentido de ter essas duas letras se a gente não fala elas? – perguntou, irritada.
- Na Itália eles falam. – Ele deu de ombros, vendo-a escrever o “Ricciardo” corretamente agora. – Agora sim!
- Vou começar a te chamar de “Ritchiardo” agora. É assim, não?
- No italiano é, mas aqui ninguém fala assim. – Ele gargalhou. – Mas está tudo certo, já esqueci alguns “Ds” do seu nome também.
- No trabalho de inglês ainda. – Ela gargalhou, fazendo-o sorrir.
- Ninguém faz milagre. – Ele deu de ombros.
- Ah, “Ritchiardo”, “Ritchiardo”, de quem foi a ideia de falar “Ricardo”? – Ela o zoou, fazendo-o rir e entregou a folha para ele. – Você escreva, sua letra é mais bonita.
- “Como foi meu dia no zoológico? Um canguru me mordeu, o coala fez cocô na minha mão e a girafa tentou comer o cabelo da ... Fora isso, foi demais!” – Ele falou sarcasticamente, fazendo-a rir.
- Eu não poderia fazer melhor. – Ela deu de ombros, pegando o cachorro-quente e dando uma mordida.
- Quantas linhas precisa ter nisso? – Ele perguntou.
- 20. – Ela suspirou.
- Será que rola aumentar a letra? – Ele perguntou, rindo.
- Talvez... – Eles sorriram juntos e ele espirrou forte. – Saúde!
- Oh, caramba! – Ele disse e lhe esticou um guardanapo.
- Alergia? – Ela perguntou.
- Pólen*. – Ele suspirou, erguendo os olhos para cima.
- Achei que tinha passado.
- Não... – Ele disse passando o guardanapo nos olhos que lacrimejavam. – Tem muito aqui!
- Seu antialérgico está aí? – Ela perguntou.
- Não, nem trouxe, é forte demais, eu ia ficar largado. – Ela concordou com a cabeça antes de ele espirrar novamente. – Ah, caramba! – Ele suspirou.
- Quer que eu ligue para sua mãe? – perguntou.
- Não, é só rinite, está tudo bem. – Ele disse e ela assentiu com a cabeça.
- Se tiver algo que eu possa fazer para te ajudar...
- Valeu, , está tudo bem. Logo passa. – Ele disse suspirando. – Só quero parar de chorar.
- Logo passa! – Ela o imitou, fazendo ambos rirem.
*Daniel tem rinite atacada por pólen, como mostrado em um vídeo da McLaren na corrida de Silverstone em 2021.
Fazia muitas horas que eu estava acordada, mas não tive coragem de sair da cama e nem do quarto depois do que teve no fim da tarde de ontem. Eu ouvi Danny se levantando, depois Michael e Blake, então alguém veio espiar se eu estava dormindo – o qual coloquei minhas aulas de atuação no ensino médio para jogo ao fingir que estava dormindo – e fazia pouco mais de uma hora que o quarto estava vazio novamente.
Acabei vindo para o hotel depois da crise ridícula de ciúmes de Danny. Que merda aconteceu? O que ele estava pensando? Não posso mais conversar com ninguém, não? Não me importa há quantos anos somos amigos, ele não tem direito de ficar tendo essas crises de ciúmes por algo que nem existe! Não é minha culpa se os colegas de trabalho dele são lindos, simpáticos e parecem gostar de mim.
Ele até veio atrás de mim quando chegou, mas também fingi que estava dormindo. Ele se sentou ao meu lado na cama, fez carinho em minha cabeça, pediu desculpas e saiu. Isso fez meu coração apertar de uma forma estranha e algumas lágrimas escaparam de meus olhos. Já brigamos antes, mas isso nunca tinha acontecido comigo. Tinha algo acontecendo e podia sentir isso pelos sinais de meu corpo.
Parece que eu estou mais perdida agora do que antes de vir com ele.
Fui criar coragem para me levantar da cama quase meio-dia, tinha medo de eles estarem quietos na antessala me esperando, então esperei que a coletiva pós-FP1 começasse para me levantar. Também estava com fome, os tangyuan haviam sido a última coisa que eu comi antes de me esconder aqui.
Pior que eu sei que tenho que ir no paddock, ainda sou contratada da Red Bull e ainda preciso comparecer ao meu “trabalho”. Talvez essa ideia de Danny tinha sido um tanto louca demais, mas ninguém esperava que ele fosse agir como um amigo ciumento e possessivo, né?!
Isso me faz pensar se eu tinha agido como a amiga ciumenta e possessiva nas duas vezes que ele namorou a Jemma. Mas acho que nunca fui ciumenta assim. Nunca gostei dela e ele bem sabia disso, por causa de uns problemas na escola. Talvez desse um pouco de tratamento de silêncio ou fingia que ela não estava lá, mas não fazia esse drama todo com algo que não existia. Nos afastamos da primeira vez por culpa dele, mas da segunda vez eu engoli o orgulho, apostando na felicidade do meu amigo, e foi isso. A vantagem do último ano é que eu o via menos, então passava pouco tempo com eles.
Agora... Parece que passar tanto tempo assim com Danny estavam bagunçando um pouco as coisas.
Consegui sair do hotel depois de tomar banho e me arrumar com o tradicional uniforme da Red Bull. O tempo em Xangai estava fechado com bastante nuvens, então coloquei a calça jeans junto da blusa e o casaco do Red Bull, além do All-Star de guerra. Como eles já tinham ido, peguei um táxi para o circuito, mas demorou quase uma hora para chegar devido à distância do Four Seasons até o circuito. Ainda bem que tinha alguns renminbi* na carteira.
Chegando ao circuito, o paddock estava vazio e, pelo barulho, imaginei que estivesse acontecendo o FP2, então segui em direção a garagem da RBR, respirando fundo antes de passar pela entrada traseira. O pessoal estava todo concentrado nas televisões distribuídas pela garagem. Pelo contador em regressiva, tinha menos de 15 minutos para o treino acabar.
- Alguém resolveu aparecer. – Virei para o lado, vendo Maria.
- Ei. – Falei, desviando o olhar para televisão.
- Tudo bem? – Ela perguntou e virei o rosto.
- Tudo ótimo. – Falei, cruzando os braços.
- Está tudo bem entre você e o Daniel? – Ela perguntou e suspirei.
- Se você precisa perguntar, imagino que saiba a resposta. – Virei para ela, dando um sorriso sarcástico.
- Ele não estava bem ontem e nem hoje pela manhã...
- Ao menos não fui a única. – Falei, rindo fracamente.
- Você não está entendendo as consequências que isso pode causar, não é?! – Ela falou e ergui a sobrancelha.
- Ele foi mal no treino hoje pela manhã? – Perguntei.
- Quarto melhor tempo e quinto agora. – Ri fracamente.
- Ele bateu? – Perguntei.
- Não...
- Então, por que você está fazendo esse tipo de pergunta para mim? – Virei para ela, encarando-a. – Quem fez merda foi ele. Ele que cuide de suas responsabilidades. – Desencostei da parede, andando em direção a Michael, me encostando na bancada de telemetria.
- Ei, Bela Adormecida. – Ele disse, me abraçando pelos ombros.
- Ei, Mike. – Suspirei.
- Como está? – Ele perguntou.
- Eu estou bem. – Suspirei.
- Posso perguntar sobre ontem? – Engoli em seco.
- Até pode, mas confesso que não tenho a mínima ideia do que aconteceu. – Neguei com a cabeça. – Ele nunca agiu assim.
- Ele também não entendeu o que houve. – Suspirei. – Talvez ele não esteja bem...
- Algo aconteceu? – Virei para Michael.
- Não que eu saiba. – Ele deu de ombros. – Ele não comentou nada. – Ele virou para mim. – De verdade! Vocês já tiveram brigas, mas nada assim... – Engoli em seco.
- Você acha que é caso de eu ir embora e...
- Pelo amor, . Também não é para tanto! – Ele revirou os olhos. – Deve ser só a proximidade que vocês não estão acostumados. Até eu e ele temos algumas brigas de vez em quando. – Ele disse.
- Mas a gente fica colado nas férias... – Minha voz sumiu com o barulho do carro e Michael aproximou o rosto de meu ouvido.
- Mas nunca 24 horas por dia, sete dias por semana, 30 dias no mês. – Suspirei, vendo-o se afastar e apertei os dedos na orelha quando um carro parou em frente à garagem e vi a equipe de Kvyat sair para trazer o carro para dentro. – Ele está chegando, e quer ver você. – Suspirei.
- Como ele ficou? – Mordi meu lábio inferior.
- Você sabe como ele fica quando te chateia. – Ele deu de ombros. – Acho que ele ficou no seu quarto umas duas horas de madrugada, não sei se dormiu lá ou se dormiu no geral... – Suspirei.
- Modo Daniel chateado ativado. – Falei antes de levar os dedos aos ouvidos, apertando-os quando o segundo carro da Red Bull apareceu na garagem e suspirei. É agora!
Os mecânicos trouxeram o carro para dentro de ré e pressionei os lábios ao ver Danny se livrar do volante, da parte de cima do carro, depois deslizar os ombros para fora do carro, e pular para fora dele. Ele se livrou do HANS, entregando para um dos engenheiros e se virou em minha direção.
Eu mal conseguia ver pela fresta da viseira, mas meu corpo travou pelos seus movimentos. Ele puxou o capacete da cabeça e logo depois a balaclava, fazendo seus cabelos suados deslizarem pela sua cabeça. Meus olhos foram diretos para seus lábios entreabertos e precisei pressionar meus lábios uns no outro, engolindo em seco. Ele puxou os fones das orelhas e deu um curto sorriso para mim antes de virar para seu engenheiro.
Meu corpo estava estranho, aquela sensação estranha na boca do estômago tinha voltado e eu me sentia perdida. Que diabos estava acontecendo comigo? Por que diabos eu estava olhando para boca de Danny e achando aquilo extremamente sexy? E essa sensação estranha na barriga? Essa vontade de vomitar misturada com um borbulhamento estranho? Deus!
- Eu vou esperar no paddock. – Cochichei para Michael, deslizando meu corpo para fora da garagem, sentindo a respiração sair mais forte.
*Renminbi é a moeda chinesa.
- Só seja legal com ela, por favor. – Blake disse.
- Não fala besteira. – Michael disse em seguida.
- Caras, eu sei o que fazer! – Falei firme. – Isso é entre mim e ela.
- Ok, mas acho que você deveria saber que ela mencionou sobre ir embora e... – Bufei para cima.
- Ela não vai embora! Está decidido já! – Falei firme.
- Talvez até seja melhor ela ir embora, se vocês dois continuarem de graça. – Virei para Maria, que olhava desanimada para mim.
- Meus problemas pessoais resolvo eu, Maria. Se um dia afetar meu desempenho, aí você pode falar algo. – Suspirei, passando as mãos nos cabelos. – Agora eu gostaria que vocês me deixassem resolver isso sozinho. – Virei para eles. – Posso? – Coloquei o boné em minha cabeça.
- À vontade! – Maria disse, erguendo os braços.
- A gente se encontra depois. – Michael deu dois tapinhas em minhas costas e ele e Blake seguiram para o outro lado.
Suspirei antes de sair pelo paddock, vendo-o um pouco mais cheio agora no final dos treinos de sexta-feira. Atravessei pelo mesmo até chegar no motorhome da RBR e entrei devagar, procurando por . Passei por algumas pessoas, dando rápidos cumprimentos, entrando na área do restaurante.
Sorri ao encontrá-la em uma mesa no canto da cantina e pressionei os lábios, andando rapidamente em sua direção. Ela ergueu o rosto quando me aproximei e parei em diagonal à mesa, vendo-a dar um curto sorriso com os lábios pressionados. Ela deixou os talheres em seu prato antes de se levantar.
- Me desculpe... – Falei e ela me abraçou fortemente, me fazendo suspirar e passei meus braços pela sua cintura, apoiando o queixo em seu ombro. – Me desculpe, eu fui um idiota.
- Xi... – Ela pediu, próximo a meu ouvido e fechei os olhos, aproveitando seu abraço.
- Eu preciso dizer... Eu não sei o que aconteceu, eu fui um completo idiota. – Ela afrouxou os braços, mantendo-os em meus ombros e pude olhar em seus olhos. – Eu passei dos limites.
- Um pouco... – Ela disse e suspirei, segurando seu rosto. – Não somos assim, Danny.
- Eu sei, não somos. – Suspirei, olhando em seus olhos. – Me desculpe, de verdade. Se você quiser namorar Nando ou qualquer outro piloto, eu deixo... – Senti um gosto ruim na boca com aquelas palavras, mas ela gargalhou, dando um tapinha em meu ombro.
- Eu não quero, Danny! – Ela negou com a cabeça. – É esse o problema. – Suspirei.
- Vamos sentar... – Falei, indicando a mesa e me sentei na cadeira à sua frente.
- Eu quero uma agitação na minha vida, mas não assim. – Ela suspirou, apoiando as mãos na mesa. – Se for para ter só uma noite divertida, não preciso afetar sua amizade com ninguém daqui de dentro. – Segurei sua mão na mesa. – Mas também não dá para eu fechar os olhos e fingir que não estou aqui...
- Eu sei, eu sei... – Suspirei. – Me desculpe! Eu sei que fiz merda. Não vou fazer isso de novo, prometo. – Ela assentiu com a cabeça.
- E a culpa é toda sua. – Arregalei os olhos.
- Minha?
- É! Você que fica falando de mim para os seus amigos, aí dá nisso. – Ri fracamente.
- Não é minha culpa que eu tenho uma amiga incrível. – Ela sorriu.
- Não mesmo. – Rimos juntos e entrelacei nossos dedos, engolindo em seco com a sensação estranha. – Eu só... Me desculpe, de verdade.
- Está tudo bem. – Ela disse e assenti com a cabeça, suspirando. – Acho que já passamos por coisas piores para nossa amizade acabar agora.
- Estamos juntos pelo resto da vida. – Ela sorriu.
- Espero que sim. – Ela suspirou. – Eu te amo, Danny, você não é... – A voz de sumiu com a batida mais forte em meu peito, meus olhos passaram dos seus para seu nariz, depois seus lábios se movendo e engoli em seco. Que mer... – Danny? – Ela estalou os dedos em minha frente.
- Desculpe. – Sacudi a cabeça. – Ouvindo zumbindo. – Ela assentiu com a cabeça pela desculpa plausível.
- Como foram os treinos? – Ela soltou minhas mãos, fazendo meu corpo murchar na cadeira.
- Foi ok. – Falei, vendo-a voltar a comer o macarrão. – Quarto melhor tempo de manhã, quinto melhor tempo de agora, vamos ver como vão ser as classificatórias amanhã. – Dei de ombros.
- E os outros? – Ela perguntou.
- Massa e Lewis rodaram, Rosbeg deixou o treino por causa da unidade de energia, Gutierrez teve problemas nos freios...
- Nossa, dia de azar, é?!
- Chuva! – Falei, suspirando. – E o Magnussen quebrou a suspenção e bateu.
- Ele está bem? – Ela perguntou rapidamente.
- Sim, está tudo bem. – Falei, usando as mãos para acalmá-la.
- Você tem mais algum compromisso? – Ela perguntou.
- Não, estou livre. Só falta me trocar. – Abri o botão do macacão. – Já fiz entrevista, reunião, estou livre. – Ela assentiu com a cabeça. – Podemos sair mais tarde, se você quiser...
- Acho que com esse tempo, prefiro ficar vendo nosso filme. – Sorri, assentindo com a cabeça.
- Vou poder cantar para você? – Brinquei e ela riu fracamente.
- Precisa mesmo? – Ela fez uma careta fofa e sorri com ela.
- Precisa. – Falei e ela riu fracamente. – Tudo para fazer você se sentir bem.
- Eu estou bem. Prometo! – Sorri com ela.
- Bom saber. – Suspirei. – Se eu for um idiota de novo, pode me bater, tá? Mas não me dá tratamento de silêncio.
- Oh, agora eu gostei! – Ela abriu um largo sorriso. – Você prefere um soco de mão fechada no rosto ou um chute lá embaixo? – Fiz uma careta.
- Ah, cara! Também não precisa abusar, né?! – Falei, fazendo-a gargalhar. – Eu preciso dos dois para conquistar as mulheres. – Sua risada ficou mais alta.
- Não sabia que precisava do seu pênis para conquistar alguém, mas, ei, eu não namoro há anos, vai ver as coisas atualizaram e eu não estou sabendo. – Gargalhamos juntos e ela sorriu em seguida. – Vamos esperar que eu não precise escolher, pode ser?
- Sim. – Sorri. – Combinado. – Sorri, vendo-a desviar para seu prato novamente.
- Começou! – Ouvi a voz de Simon.
- Daniel! A contagem começou. – Falei, batendo algumas vezes na porta do banheiro antes de ele abrir novamente.
- Desculpe! Emergência. – Ele disse, puxando o zíper central do macacão e levei minhas mãos para o velcro no topo e ele ergueu o rosto para eu fechar.
- Agora vai! – Empurrei-o pelo ombro.
- Não ganho um abraço? – Ele disse, rindo.
- Ah, um abraço! – Abracei-o rapidamente, ouvindo-o rir. – Agora vai! – Empurrei-o pelo corredor e ele foi a passos rápidos para a garagem. – E boa sorte. – Suspirei a última parte.
- Bandeira vermelha! – Ouvi e franzi a testa, seguindo rapidamente até a garagem, me juntando aos meninos.
- O que aconteceu? – Perguntei.
- Wehrlein perdeu o controle. – Blake disse e pressionei os lábios. Pista molhada. O tempo estava igual ontem, uma chuva fina, mas frequente, que caía desde cedo. Outros deslizes e derrapadas aconteceram no treino. Esperava que desse tudo certo para Danny.
Olhei para ele, vendo-o trocar duas palavras com seu engenheiro antes de seguir para dentro do cockpit. Mordi meu lábio inferior ao observar seu corpo com o macacão de classificação da Red Bull, em um azul escuro sem os desenhos mais claros e Danny sumiu dentro do carro. Lhe foi passado a balaclava, protetor bucal, capacete e luvas antes de ele encaixar o volante. Brad o ajudou com o cinto e Danny estava pronto.
O relógio estava parado em 14:38. Tinha passado menos de dois minutos da Q1 até isso acontecer. Ao menos o piloto não se machucou, só relou na lateral e o carro deu problema, provavelmente na unidade de energia. Tive minha experiência com Danny há alguns anos, mas nunca estive envolvida nas reuniões e afins, agora era bom ter esse conhecimento.
Durante a bandeira vermelha, Danny e os engenheiros aproveitaram para fazer os últimos ajustes no carro. Ele precisa estar perfeito. Fazia muito tempo do último pódio dele, um segundo lugar em Singapura, talvez isso o motivasse. Ao menos eles alteraram a forma de classificatória e os carros não seriam mais eliminados durante a classificatória, todos fariam dois tempos e os piores tempos seriam eliminados.
Demorou mais de 15 minutos para que terminassem de limpar o vazamento de óleo da pista, mas quando liberaram novamente, Gutierrez foi o primeiro a sair da garagem, depois Button e Alonso.
Danny foi sair da garagem faltando seis minutos para a Q1 terminar, junto de Raikkonen. E ele só conseguiu computar seu primeiro tempo dois minutos depois, mantendo o padrão do FP1 com o quarto melhor tempo de 1:37:672. Kvyat pegou o terceiro com 1:37:719. Danny voltou para os boxes depois disso para esperar os últimos segundos da Q1 acabar. Com isso, ele acabou caindo para sexto na classificatória. Haryanto, Palmer, Gutierrez e Magnussen, além de Hamilton e Wehrlein que não conseguiram computar tempos, foram eliminados na primeira fase.
Para a Q2, Danny saiu faltando uns oito minutos para acabar e conseguiu o segundo melhor tempo de cara com 1:36:815, me fazendo comemorar com aplausos junto do pessoal dentro da garagem. Danny acabou voltando para a garagem nos minutos finais, caindo para quarto lugar da segunda classificação.
Faltando pouco mais de um minuto e meio para finalizar, Hulkenberg acabou perdendo sua roda dianteira esquerda e tivemos outra bandeira vermelha. Confesso que essa era a parte que mais me irritava no esporte. É importante para a segurança deles, mas era só uma roda, não precisa de bandeira vermelha. Por faltar pouco mais de um minuto, eles encerraram a Q2 mais cedo, então Nasr, Ericsson, Grosjean, Button, Alonso e Massa, ficaram de fora da Q3.
Rosberg, Bottas e Perez foram os primeiros a serem liberados para a Q3, Danny foi logo atrás, já começando a fazer sua volta, ficando em segundo lugar de cara, logo atrás de Rosberg, com 1:36:423. Pena que logo Raikkonen veio e pegou o primeiro lugar de Rosberg, colocando Danny em terceiro.
Os minutos finais começaram a ficar apertados. Bottas conseguiu passar o tempo de Danny, depois Rosberg pegou o de Raikkonen, mas Danny conseguiu melhorar seu tempo também, jogando-o para segundo lugar.
- ISSO! – Gritei, animada, aplaudindo junto de sua equipe.
- Segundo! – Ouvi a voz animada de Danny. – Eu tenho muita carta na manga, galera! – Sorri com suas palavras, acompanhando o carro dele seguir para a parte dos melhores classificados até a garagem da FIA no começo do pit lane.
É um bom começo para uma corrida sensacional amanhã! Que Deus me ouça e que Danny esteja empolgado.
Os repórteres foram atrás de Christian no pit wall e comentaram sobre o corte de cabelo de Danny. Na verdade, estavam comentando sobre esse cabelo desde que ele chegou aqui. Christian comentou que falou para Danny que, se ele ganhar, vai ter que manter esse cabelo pelo resto do ano e que Grace o mataria por isso. Por que todo mundo estava odiando o cabelo? Estava ruim antes, agora ele está gato para caralho!
Fui eu quem disse isso?
É, foi... Eu estou ferrada!
Os mecânicos arrumaram a área do Kvyat e dei um aceno para ele quando ele passou enquanto esperava as informações da coletiva em umas das televisões. Não sabia se podia ir lá, mas como nenhum mecânico foi, nem Michael, eu fiquei aqui esperando, como se eu realmente fosse uma trabalhadora da Red Bull.
- Daniel, você teve que se esforçar no final, sua segunda vez na primeira fila aqui na China, de onde isso veio? – Sorri com a pergunta do repórter.
- Não tenho certeza. – Danny disse, rindo. – Para ser honesto, não acho que começamos na melhor posição hoje, com o balanceamento do carro, não parecia que seria uma boa corrida, mas na Q3 acabamos encontrando mais velocidade. Os pneus super macios são difíceis de controlar, ele fica macio demais conforme a volta vai acontecendo, mas comigo repassando para os engenheiros e eles fazendo as melhorias na pressão e na asa dianteira... É muito incrível, não esperávamos isso hoje.
Sorri com Danny na imagem, me fazendo suspirar. Cara, ele está gato! Danny está muito gato. QUE MERDA ESTÁ ACONTECENDO COMIGO? Eu não podia estar com uma queda em Danny? Podia? Isso já aconteceu antes, há uns 13 anos, mas tinha toda questão do nosso primeiro beijo e afins, e ele nem era tão bonito quanto antes, mas...
- O que está acontecendo comigo? – Minha voz saiu baixa.
- O quê? – Virei para Michael. – Está tudo bem? Parece que viu um fantasma.
- Acho que eu vi. – Suspirei. – Eu vou dar uma lavada no rosto, já volto.
- Ok, vai... – Sua voz ficou perdida quando saí correndo pelos corredores da garagem.
Daniel
Ouvi meu despertador tocar e inclinei meu corpo para desligar. Fazia alguns minutos que eu estava acordado, acabamos não dormindo muito tarde. tinha que terminar algumas revisões e se trancou no quarto. Eu não podia beber e nem comer muito por causa da corrida hoje, então acabei perdendo algum tempo vendo alguma coisa no Netflix antes de dormir com a televisão ligada.
Saí da cama e fui para o banheiro com a preguiça de sempre, mas um banho gelado me acordou com mais rapidez. Saí do box com a toalha enrolada na cintura e me encarei no espelho, bagunçando os cabelos, vendo algumas gotas pararem no espelho e ri fracamente. Todo mundo estava falando do cabelo, minha mãe já tinha me xingado para caramba, o pessoal da equipe fazia apostas se me daria sorte ou não, mas parece que tinha gostado, então talvez eu deixasse assim até crescer mais um pouco.
Escovei os dentes, sequei o corpo e os cabelos antes de voltar para o quarto. Passei desodorante, depois meu La Baie 19*, coloquei uma boxer, uma bermuda de tactel e uma camiseta larga. Pendurei a toalha de volta no banheiro e calcei os chinelos pelo meio do caminho antes de sair do quarto, vendo que tudo estava quieto ainda.
Suspirei, dando uma olhada pelas frestas das portas e vi luz saindo pela de , então abri a porta devagar e pressionei os lábios quando vi que era só a cortina que estava aberta. Entrei devagar, encostando a porta devagar e me aproximei da cama, vendo a luz bater em seu rosto e puxei a cortina, observando o dia ensolarado lá embaixo e sabia que seria uma bagunça pela estratégia de ontem. Teríamos que mudar tudo.
Voltei para perto da cama e me sentei na beirada. Ela estava virada para mim, com uma mão embaixo do travesseiro e a outra ao lado do corpo. Meus olhos passaram pelo seu corpo, pela camiseta larga preta e o moletom vermelho, levei a mão até seu rosto, acariciando devagar sua bochecha com as costas do indicador.
Não era a primeira vez que eu vinha aqui logo que acordava ou que ficava observando-a dormir, isso me dava uma calma estranha. Era uma sensação gostosa, mas eu me sentia verdadeiramente perdido com tudo. É . Por que meu coração está querendo sair do peito quando ela sorri ou ri? O que está acontecendo comigo? Eu não conheço esse caminho que eu estou entrando, ele é escuro, cheio de buracos e eu provavelmente estou com um conjunto de pneus ferrados.
Eu não posso estar apai...
Eu não posso...
Eu...
Merda!
Puxei a respiração fortemente, sentindo aquele tradicional cheiro de baunilha* e dei um curto sorriso. Baunilha sempre foi um dos meus cheiros favoritos, depois do cheiro de gasolina e pneu queimado, e sabia que isso vinha do perfume de . Ela o usava desde o ensino médio e, por termos passado alguns anos afastados na escola, acabou se tornando o meu cheiro favorito, além de tudo o que passamos juntos. Mas estar sentindo o que é que eu estou sentindo por ela, parece fazer esse cheio ser o melhor do mundo.
Me assustei com o barulho de seu despertador e pulei da cama, vendo se mexer e olhei um tanto desesperado em volta sem saber para onde ir e minha cabeça funcionou bem mais devagar enquanto ela se girava na cama e tateava a mesa de cabeceira até desligar o barulho. Eu teria que ser o idiota de sempre.
Eu estou ferrado.
- VAMOS LEVANTAR! – Gritei, pulando ao seu lado.
- Ah, merda! Danny! – Ela se assustou, puxando a coberta para cima.
- VAMOS ACORDAR! É DIA DE CORRIDA!
- AH, DANNY! – Ela falou mais alto, puxando a coberta até a cabeça.
- VAMOS LEVANTAR! – Comecei a fazer cócegas em seu corpo.
- DANNY! – Ela gritou no meio das risadas, tentando brigar contra minhas mãos e as mexia com pressa em sua barriga. – DANIEL! PARA! – Ela pulava na cama, puxando minhas mãos e procurava outro lugar para fazer cócegas. – DANIEL! – Suas risadas ficaram mais como gritos e parei antes que ela começasse a soluçar.
- Ok, parei! Dramática. – Falei, relaxando meu corpo na cama. – Quando eu... – Parei minha frase no meio do caminho. Por algum motivo eu não consegui fazer a piada de mulheres gritando pelo meu nome e, por outro motivo, eu queria ouvi-la gritando meu nome de outra forma.
Que merda está acontecendo, Daniel? MERDA!
- Ah, Danny, o que está fazendo aqui? – disse com a voz sonolenta, virando para meu lado, cobrindo o rosto com a coberta. – Não se acorda ninguém assim.
- Achei que você poderia se empolgar um pouco, está ensolarado lá fora. – Falei aleatório, sentindo minha cabeça ferver com o pensamento que passou pela cabeça agora.
- Ah, que legal! – Ela disse, sonolenta, apoiando a cabeça em minha coxa e meu corpo travou. – Me dá mais uns minutos.
- Por quê? Você não colocou o despertador, não? – Minha voz saiu mais rápida que o normal.
- Coloquei, mas acho que foi cedo demais. – Ela disse baixo e engoli em seco. – Você já treinou?
- Ainda não. – Falei, sentindo minha mão descer para sua cabeça.
- Michael quer que eu faça alguma coisa, mas é domingo... – Ela suspirou. – Eu mereço um descanso. – Sorri.
- É... Você merece. – Passei a mão entre seus cabelos, tirando as mechas de seu rosto. – Eu fico mais um pouquinho contigo, tá?
- Uhum... – Ela resmungou e suspirei.
- Eu estou ferrado. – Sussurrei.
*Perfume que Daniel disse que leva em viagens, ele disso nisso em um vídeo da GQ Sports.
*Daniel disse em dos "Red Bull on the Sofa" que um de seus cheiros favoritos é baunilha.
- Tenta abusar do lado direito. – Falei, sentindo Danny colocar o boné em minha cabeça.
- Eu vou. – Ele disse e me entregou seu iPod. – A pista está um pouco molhada ainda, mas logo seca.
- Está muito quente. – Falei, colocando seu iPod no bolso de trás da calça. – Boa sorte, ok?!
- Como se fala? – Ele brincou e ri fracamente.
- Arrasa, tigrão. – Falei, sentindo minhas bochechas esquentarem por isso, mas ele sorriu.
- Eu vou... – Ele me abraçou fortemente e suspirei, deixando minhas mãos descerem pelas suas costas. – Te vejo na linha de chegada.
- Espero mesmo. – Falei, me afastando dele devagar. – Agora vai! – Empurrei-o de leve, me afastando para o gramado.
Danny foi para dentro do cockpit, começando a colocar o fone do rádio e o protetor bucal, depois seguiu para a tradicional balaclava, capacete e luvas. Me afastei alguns passos para não atrapalhar seus engenheiros e os carros foram sendo ligados um a um, deixando minhas orelhas zumbindo por alguns segundos.
- Checagem de rádio. – Ouvi Simon.
- Sim, tudo ok. Parece um belo dia para correr, não acham? – Ri fracamente.
- Vamos lá, garoto! – Simon disse e suspirei.
As luzes da volta de apresentação se apagaram e segui rapidamente com os engenheiros de volta para a garagem, vendo o restante dos mecânicos empurrarem as coisas para dentro. Me aproximei de Michael e Blake, arranjando um canto perto do bar e dei um toquinho de punho em Michael e outro em Blake.
- Pronto? – Michael perguntou.
- Sim, vamos lá! – Suspirei, cruzando os braços, olhando para a televisão mais próxima, vendo os carros se alinharem no grid e as luzes já se acendiam uma a uma. Aproveitei os segundos para fazer um sinal da cruz.
Quando as luzes se apagaram e os carros largaram, uma gritaria gigante começou na garagem, porque Danny conseguiu sair à frente de Rosberg e pegar a liderança de cara, mas uma batida entre as duas Ferrari fez os gritos se tornarem apreensão, mas os carros seguiram para a segunda e terceira curva e, pelo jeito, os carros estavam bem, pois nenhuma bandeira foi sinalizada. A empolgação da equipe era maior ao perceber que Kvyat estava em terceiro lugar.
- Vamos, garotos! – Suspirei, apertando minha mão.
Kimi, Hamilton e Grosjean precisaram voltar para os pits para trocar a asa dianteira devido à bagunça, não sabia que Lewis e Romain estavam no meio da bagunça, mas todos estavam de volta à pista.
Depois de três voltas, Danny continuava liderando, mas tinha um pequeno problema sobre liderar uma corrida, você só conseguia mudar de posição se fosse ficar para trás, e Rosberg parecia vir com pressa, ficando a meio segundo atrás de Danny. Era muito apertado.
Como se alguém realmente ouvisse meus pensamentos, Rosberg aproveitou o DRS habilitado e ultrapassou Danny pela direita com muita facilidade. E antes de alguém falar algo no rádio, vi o pneu de Danny literalmente sair voando pelos ares.
- Merda! – Suspirei, apertando a mão de Michael ao meu lado.
- Gente... – Danny falou no rádio enquanto Kvyat o passava. – Perdi um pneu.
- Box agora, Daniel! Box! – Suspirei.
- Que merda! – Sussurrei, acompanhando Danny em direção aos boxes.
Eles fizeram a troca e Danny saiu com pressa do pit stop. Quando ele voltou para a pista, ele estava em décimo oitavo. Que merda! Para piorar tudo, o safety car foi liberado segundos depois, então vários carros voltaram para os boxes para fazer a troca de pneus. Danny agora voltava com pneus macios.
Enquanto o safety car estava na pista, os replays foram passados na televisão e mostraram a batida de Vettel em Kimi, depois Nasr em Hamilton. Nada como um começo tumultuado de corrida para esquentar minha cabeça. Danny conseguiu uma posição pela ida aos boxes de vários carros, mas o clima dentro da garagem não era do mais amigável.
Minha cabeça seguiu para hoje de manhã quando eu acordei e me vi deitada na coxa de Danny. De início fiquei confusa de onde eu estava, mas reconheci a tatuagem do barco com a frase “no regrets, only memories” e levantei correndo da cama em susto. Ele também tinha adormecido de novo depois da crise de cócegas logo cedo.
Isso já aconteceu antes, mas, por algum motivo, eu me senti incomodada, como se fosse algo proibido. Como se fosse algo com um significado diferente. Como se eu quisesse que tivesse um significado diferente. Minha cabeça estava fervendo muito. Eu não podia gostar de Danny. Isso não podia acontecer com a gente. Com uma amizade tão longa quanto a nossa, não tem futuro um relacionamento.
Relacionamento? Oh, meu Deus! Eu já estou pensando em ficar com Danny, namorar e... MEU DEUS! Cala a boca, ! Fica quieta, pensamento da ! Por favor! Não dificulta as coisas mais do que já estão.
Eu só não entendia por que isso nunca tinha acontecido antes, somos amigos há tantos anos e mesmo com todos os altos e baixos, todas as investidas de nossos familiares de fazer isso acontecer, nunca aconteceu. E VAI ACONTECER JUSTO AGORA? Não, não, não!
O safety car saiu da pista somente na décima volta, mas Danny conseguiu ultrapassar Magnussen e Ericssen em literalmente dois segundos. Depois ele passou Hulkemberg e Palmer, ficando em décimo terceiro lugar.
Merda! Danny é talentoso para caramba.
Na décima terceira volta, ele passou Hamilton, Gutierrez e ficou com o décimo primeiro lugar. Enquanto Danny tentava cortar todos os pilotos e tentar recuperar o primeiro lugar, Kvyat havia passado Massa e ocupava o segundo lugar agora. Ao menos alguém estava tendo um bom dia.
Danny subiu para décimo na décima quinta volta, agora ele já estava dentro da zona de pontuação, mas ele merecia o pódio, especialmente depois daquele começo incrível. Na décima sétima volta, ele ultrapassou Hamilton – novamente – e Alonso foi para os pits, abrindo espaço para Danny chegar em oitavo. Vettel foi para o pit stop e ele chegou em sétimo. Perez saiu e ele foi para sexto, mantendo a briga contra Hamilton pela posição.
Na vigésima volta, Danny veio para o pit stop para troca de pneus e saiu em décimo sexto lugar. Caralho! Agora é correr para recuperar o tempo perdido, mas tinha dois terços de corrida ainda para finalizar. Duas voltas depois, ele já brigava pelo décimo lugar contra Sainz, Alonso e Kimi, deixando-os para trás.
Depois de algumas passagens, ele estava em oitavo, logo atrás de Bottas, mantendo posição. Na vigésima sétima volta, ele passou Button pela direita e caiu para sétimo. Na vigésima nona volta, com auxílio do DRS, ele passou Perez. Com a mudança de câmera nas televisões, lá pela trigésima segunda volta, ele já estava em quinto.
Após um deslize de Vettel, Danny estava de volta em segundo lugar, mas foi bem na mesma volta que ele fez seu terceiro pit stop, voltando para corrida em nono. Faltava pouco menos de 20 voltas e muita coisa podia acontecer aqui em Xangai. Talvez agora ele aguentasse até o fim da corrida sem parar.
Na quadragésima primeira volta, ele apareceu em sétimo, competindo contra Bottas pelo sexto lugar, aumentando a distância após passar. Talvez o pódio estivesse em aberto ainda e tenha esperança para ele conseguir o pódio que tínhamos esperança por ele largar em segundo lugar.
Na batalha pelo quarto lugar, estava Danny, Hamilton e Massa. Danny conseguiu fazer um movimento para ultrapassar Hamilton e ficou a meio segundo de Massa, enquanto Lewis continuava a meio segundo dele. Com sorte, a ultrapassagem dele em cima de Massa foi mais rápida do que Lewis nele.
- ISSO! – O pessoal comemorou, animado.
Estávamos em quarto com 12 voltas restantes. À frente dele, só Kvyat, Vettel e Rosberg. Apesar de tentar reduzir a distância dele para Kvyat, Danny não conseguiu e acabou finalizando uma corrida que tinha tudo para ser perfeito, em quarto lugar novamente. O quase foi qua-a-ase de novo. Mas dessa vez não era um quase legal, se não fosse o pneu furado na terceira volta, aposto que o final seria totalmente diferente.
Enquanto os mecânicos da Red Bull saíram correndo em direção ao pit wall para comemorar com Kvyat e depois em direção ao pódio em cima do box da FIA, abaixei o fone em minha orelha e segui por trás da garagem, saindo pela rua do paddock e fui correndo na direção do box da FIA. Era a terceira corrida e terceira vez que Danny batia na trave. Ele deveria estar muito bravo, especialmente pela estratégia errada usada no começo da corrida.
Ele foi o primeiro a sair do box da FIA abraçado ao capacete e cabisbaixo. Suspirei, sentindo meu peito apertar e desviei de algumas pessoas, acelerando o passo, vendo-o erguer o rosto com o barulho dos meus pés no chão e dei um curto sorriso antes de pular em seus ombros, abraçando-o apertado.
- ... – Ele suspirou, apertando meu corpo com os braços e seu capacete apertou em minha bunda. – Eu estou bem... Eu estou...
- Você não precisa ficar bem. – Apoiei minha cabeça na dele, ficando levemente na ponta dos pés. – Só saiba que estou aqui, ok?!
- É muito bom ter você aqui. – Ele sussurrou, apoiando a cabeça em meu ombro.
- Você fez algo incrível em terminar em quarto, Danny, de verdade. – Suspirei.
- Mas podia ter terminado em primeiro. – Ele se afastou devagar e passei as mãos em seu rosto, limpando um pouco do suor. – Seria minha melhor corrida em muito tempo... – Assenti com a cabeça.
- Podemos sempre tentar na próxima vez. – Dei um curto sorriso e ele assentiu com a cabeça, me abraçando pelo ombro e colando os lábios em minha testa, me fazendo suspirar. – Eu estou aqui, ok?!
- Eu sei! Até quando não estava. – Acariciei seu rosto, vendo seus olhos mais baixos.
- Me dá um sorriso. – Ele riu fracamente, dando um sorriso. – Assim que eu gosto. – Ele riu, me apertando mais perto de si.
- Daniel... – Virei o rosto, vendo Massa se aproximar. – Desculpe, cara! – Danny me soltou quando eles se cumprimentaram. – Vai dar certo na próxima vez.
- Obrigado, cara! – Danny falou e suspirei.
- Bom te ver, . – Sorri.
- Bom te ver também. – Trocamos dois rápidos beijos.
- A gente se vê! – Ele disse, dando dois tapinhas nos ombros de Daniel.
- Até mais! – Ele disse.
- Eu tenho que fazer entrevistas... – Danny disse.
- Ei, cara! – Virei para o lado, tentando parecer calma ao lado de Lewis Hamilton. – Desculpe pelo que houve! – Eles se abraçaram.
- Obrigado. Está ok! – Danny disse, recebendo dois tapinhas nas costas. – Esta é .
- Prazer te conhecer de verdade. – Ele me abraçou de lado e trocamos dois rápidos beijos.
- O prazer é meu. – Sorri e ele assentiu antes de sair. – Oh, meu Deus! – Falei, rindo.
- Você vai explodir. – Danny disse.
- Me desculpe, já conversamos sobre isso, mas é...
- É, eu sei, é o Hamilton. – Ele abanou a mão, me abraçando pelos ombros. – Agora vamos lá, eu preciso fazer umas entrevistas. – Ele suspirou. – Ao menos Kvyat pegou um pódio.
- É, o pessoal está feliz. – Suspirei.
- Acho que o último dele foi junto do meu na Hungria.
- Bom, agora ele conseguiu o dele de novo, falta o seu. – Falei e ele suspirou.
- Aqui vamos nós. – Ele disse e vi Maria no meio do paddock, me fazendo tirar o braço da cintura de Danny.
- Ele me chamou de torpedo! – Gargalhei.
- Como assim? – Tombei a cabeça para trás.
- No incidente no começo da corrida, ele chegou “você veio como se fosse um torpedo”. – Gargalhamos juntos.
- E o que você respondeu? – Perguntei.
- Que era corrida, ele queria que eu fosse devagar? – Rimos juntos. – Pena que você teve o acidente.
- Podia ser pior, cara. Real! – Balancei a cabeça.
- Eu sinto muito...
- Não, cara. – Falei para Dani. – Consegui recuperar, podia ser pior. Eu estou feliz por você, de verdade.
- Obrigado, cara! – Ele disse. – Precisamos fazer mais pelo campeonato de construtores.
- Nem fala! – Suspirei, passando as mãos molhadas no rosto. – Mas sempre tropeçamos no começo, a gente recupera logo.
- Esperamos! – Ele disse. – Ao menos você ainda está em terceiro lugar no campeonato, é legal...
- Sim! É! Tropeçando, mas estamos indo. – Rimos juntos.
- Daniil, precisamos de você. – O assessor dele apareceu na porta.
- Ok, estou indo. – Dani assentiu. – A gente se fala depois.
- É, claro! – Falei e demos um rápido toque antes de ele se levantar da banheira e sair.
Suspirei, tombando a cabeça para trás e abaixei o rosto na água, sentindo-o esquentar por alguns segundos antes de subir para a superfície novamente. Apoiei a cabeça na quina da banheira e fechei os olhos. Não demorou muito tempo até eu ouvir a porta se abrir e virei o rosto para o lado, vendo sair, abraçada ao casaco.
- Hora de sair! – Ela disse, me esticando uma toalha.
- Já? – Perguntei.
- Está muito frio, você vai se resfriar! – Ela disse e ri fracamente.
- Valeu aí, mamãe! – Disse e ela riu. – Me dá só mais uns minutos. – Suspirei.
- É sério, Danny! Vai ficar mais frio e pior para você sair dessa água quente. – Ela sacudiu a toalha.
- Ok, ok, eu vou. – Suspirei, soltando a respiração antes de me levantar da banheira.
- Eu não preciso ver isso. – Ela disse, se virando de costas e ri fracamente.
- Eu estou de cueca! – Falei, sentindo o vento frio que ela falou.
- E eu não preciso ver isso. – Ela esticou a toalha para trás e peguei de sua mão. – Limites, lembra?
- É, claro, eu deveria acrescentar o seu pijama curto nos limites? – Falei, secando o rosto e esperei pela sua resposta.
- É diferente... – Ela disse rapidamente e gargalhei. – Eu te espero lá dentro.
Ri fracamente quando ela seguiu para dentro do prédio e saí da banheira, terminando de me secar do lado de fora. Enrolei a toalha na cintura antes de calçar os chinelos e empurrei a porta para dentro, entrando no segundo andar do motorhome da RBR. Empurrei a porta do meu vestiário, encontrando , Michael e Blake ali.
- É, limites! – disse, tombando a cabeça para trás e colocando uma almofada em seu rosto.
- Você tem o prazer de ver o cara mais bonito do mundo e... – As risadas de Michael e Blake ficaram mais altas e dei um sorriso.
- Eu prefiro ficar quieta. – Ela disse e peguei minha roupa na mesa antes de seguir para o banheiro.
Terminei de me secar direito e coloquei uma cueca limpa antes de trocar por jeans e camiseta. Deixei a toalha pendurada ali e dei uma rápida olhada no espelho, ajeitando os cabelos, antes de sair e encontrar os três da mesma forma.
- Você tem mais o que fazer? – Michael perguntou.
- Não, é isso. – Fui até minha mochila.
- Eu vou descer com as coisas. – Michael disse.
- Eu te ajudo. – Blake disse e peguei meu celular, abrindo as mensagens rapidamente.
- Eu vou ficar aqui. – disse com a almofada no rosto e dei um toquinho em seu pé, vendo-a abaixar os pés e me sentei no espaço vazio e ela ergueu os pés novamente em meu colo.
Entrei nas mensagens, vendo algumas mensagens de meus pais, minha irmã, alguns colegas de profissão, observações de Maria e Christian e vi um link na mensagem de Massa. Abri e estava escrito “mensagem para você. Aceita?”. Entrei no Instagram e era um vídeo de seu filho andando de crazy kart na sacada da casa dele, e aquilo me fez sorrir.
- Ei, Ricciardo, eu desafio você a correr, estou esperando! – Ri fracamente, sorrindo e se levantou ao meu lado, olhando meu celular.
- Esse é o filho do Massa? – Ela perguntou.
- Sim, somos quase vizinhos, eu amo esse garoto. – Ela riu fracamente.
- Ele é fofo! – Ela disse e subi para o escrito na legenda “Ei, @danielricciardo, alguém está te desafiando para a corrida de Crazy Kart dele. Vai aceitar essa, cara? #FelipinhoVSRicciardo”
- Ah, cara, isso é demais. – Sorri. – Você fala um pouco de brasileiro, não? – Virei para .
- É português, mas sim, um pouco... – Ela tombou com a cabeça para o lado.
- Como eu falo que aceito o desafio? – Ela sorriu.
- Você pode começar com “ei, Felipinho”.
- Ino?
- Inho! – Ela disse firme. – É NH.
- Felipino...
- Inho.
- Felipinho. – Falei devagar.
- Isso. – Ela sorriu. – Você pode falar “aceito o seu desafio”. – Ela dizia com naturalidade.
- Aceito o seu desafio... – Falei devagar.
- Fala para fora, parece que está engolindo as palavras.
- Aceito o teu desafio. – Falei.
- E é isso. Você falou “Hey, Felipinho, I accept your challenge”. – Ela voltou para inglês.
- E como eu digo que amanhã estou lá?
- Pode ser “amanhã estou aí”. – Ela disse devagar.
- Amanhã tô aí.
- Estou...
- Amanhã estô aí. – Ela fez uma careta.
- Não está perfeito, mas saiu. – Ela deu de ombros.
- Ok, espera um pouco. – Abri a câmera, vendo-a se afastar para outro lado e coloquei na câmera frontal, respirando fundo. – Não ri. – Pedi.
- Vai logo! – Ela disse, rindo e suspirei, apertando o botão de começar a gravar.
- Ei, Felipinho... – Falei devagar. – Aceito o seu desafio... Amanhã tô aí. – Falei sério e ergui o braço, contraindo-o antes de abrir um sorriso e parei de gravar.
Abri a conversa do Massa novamente e anexei o vídeo antes de escrever: “manda para ele: ‘estou cansado de levar bullying do filho do Massa, a quantidade de besteiras que ele fala já saiu do controle. Eu aceito seu desafio e vou levar toda força que eu tiver”, anexei um fogo no final e enviei.
- Vocês brincam bastante? – perguntou.
- A gente divide a garagem, então toda vez eu entro e tem adesivos no meu carro, aí eu colo no deles, ele bate na porta de casa e sai correndo... Coisa boba. – Ela sorriu.
- É fofo. Você sempre teve jeito com criança. – Ela deu de ombros.
- Eu tenho a mesma mentalidade que eles. – Ela gargalhou, tombando a cabeça em meu ombro e vi Massa responder.
“Aceita mesmo? Vou para casa na folga, marcamos um almoço e fazemos uma criança feliz”. – Sorri.
- Ei, , que tal irmos para Mônaco no fim dessa semana? Eu tenho uma folga... – Virei para ela.
- Mesmo? – Ela ergueu o rosto com pressa.
- É... Podemos aproveitar um pouco da cidade antes da correria do GP. – Falei.
- De verdade? – Ela se levantou, animada. – Eu posso entrar em Mônaco? – Rimos juntos.
- Acho que ser revisora da Michelin já te torna metida o suficiente, então tá liberado. – Gargalhamos juntos.
- Eu topo de olhos fechados. – Ela disse, sorridente. – Você só provavelmente vai ter que pagar tudo, mas quem se importa? Amigos são para essas coisas, não? – Gargalhei com ela, jogando uma almofada nela, fazendo-a rir.
- Eu vou combinar com Felipe. – Falei, desviando o rosto para o celular de novo.
“Sim, para valer. Pode ser sexta? Devo ir para Londres para fazer trabalho no SIM*.”
“Perfeito, vou mostrar o vídeo para ele” – Massa respondeu e sorri, erguendo o rosto para .
- Eu vou para Mônaco! Eu vou para Mônaco! – Ela começou a dançar no meio do vestiário, me fazendo abrir um largo sorriso, e algo que me dizia que não é pela dança ridícula, tinha algo a mais.
*SIM: simulador. Os pilotos passam muito tempo nele quando estão em pré-temporada ou fora das pistas.