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━Autora Independente do Cosmos.
Atualizada em: 01.08.2025

Quando você estava prestes a morder a sua língua e ir fazer uma das coisas que mais despreza, seus pés costumam virar chumbo e te transformam numa lesma ambulante.
Pesquisar sobre fantasmas, mediunidade e qualquer coisa relacionada ao sobrenatural não era a minha praia. Pode parecer esquisito para uma pessoa tão afogada nessa realidade, mas era exatamente por isso que eu a evitava: porque quem escrevia os livros, não passava por isso. Era a mesma coisa se eu fosse escrever sobre as linhas temporais dos romances de Emily Brontë — ou qualquer coisa relacionada a livros de ficção com mais de 200 páginas. Não rolava. Meus olhos estavam quase sempre muito fechados em todas as aulas de Literatura que tive na escola, e o tempo não me mudou muito nesse quesito.
A coisa é que eu sabia que nada era tão simples quanto a internet mostrava, muito menos em um livro provavelmente escrito nos tempos em que as pessoas acreditavam em Abiogênese. Já até podia imaginar a ladainha que encontraria, se é que encontrasse alguma — eu permanecia cético, enclausurado nesse mecanismo de defesa, porque no fundo sabia que aquilo era perda de tempo.
A biblioteca Butler era um prédio colossal localizado na parte central do campus em Morningside Heights, com pilares grossos de gesso branco enfileirados por toda a sua extensão, igualzinho a uma construção grega do século XVII. No gramado à frente da porta, um bando de estudantes se jogava em banquinhos de pedra, fumavam cigarros de palha, liam qualquer merda nos jornais impressos que a banca de revistinhas ainda vendia e matavam o tempo com mil e outras coisas. Atravessei todo o pátio principal até passar pela porta dupla que dava para o lobby, um lugar relativamente bonito cheio de pinturas medievais nas paredes e no domo curvado, enchendo os olhos dos turistas e da galera das artes plásticas. Bom, nenhum deles devia sentir a aura bizarra e mórbida que só um lugar quincentenário poderia ter.
E era por isso que eu preferia a Augustus. Construções com apenas duas décadas de vida eram um paraíso.
Peguei o elevador para o terceiro piso, tendo uma vaga ideia de onde ficava a seção de livros antigos que só serviam como exposição de museu. Assim que entrei no salão amplo, percebi que nem com janelas imensas enfileiradas e lâmpadas individuais em cima de cada mesa de estudo, aquele lugar conseguia parecer menos escuro. Um pouco macabro, se for olhar pela minha ótica. Não é à toa que odiava isso aqui.
O silêncio sólido no ambiente fazia cada um dos meus passos se tornarem perfeitamente audíveis, e por causa disso tive de dar um sorrisinho de desculpas à bibliotecária da recepção antes de ir até um dos computadores de consultas no final do imenso corredor. Parei na frente da tela, pensando pela última vez, conscientemente, sobre o que eu estava prestes a fazer.
Bem, eu já estava aqui. Então, só precisei respirar fundo antes de digitar a seguinte palavra: mediadores.
Logicamente, uma lista enorme de nomes apareceu na tela, mostrando livros de ciências, matemática e a maioria na parte da história. “Quem são os mediadores?”, “Como os Missionários da Luz atendem os Seres do Meio”, “Estudo de caso do pequeno garoto de Oklahoma”, e blá-blá-blá sensacionalista escrito por senhoras que moram com quinze gatos ou homens na solitária de uma clínica psiquiátrica. O resto era baboseira sem fim sobre negócios e filosofia.
Depois, tentei "médium" e passei a odiar ainda mais o termo depois de ver os resultados. As pessoas não entendiam que ver os mortos não significava ter controle sobre eles, ou sobre o futuro, ou sobre números de loteria. Não tenho ideia de como Gina arrumava paciência para ler ou até mesmo discutir sobre isso. Ela vivia o karma dos “Missionários da Luz” na pele!
Prestes a tacar o foda-se, fiz minha última tentativa e escrevi "espírito maligno" na lupa de pesquisa.
Preciso admitir que esses resultados me chamaram mais atenção. A filtragem online mostrou uma quantidade consideravelmente menor de livros do que os outros, e muitos ainda eram de ficção e suspense — histórias do Drácula, Nosferatu e outros genéricos do terror. Só um, dentre tantos, me chamou realmente a atenção.
Levantei e segui para a seção indicada no computador. Ela era uma das últimas, no fim de um dos corredores imensos com pisos negros e escorregadios, reunindo todos da coleção em uma única prateleira enclausurada ao lado de milhares de exemplares do Stephen King e do Edgar Allan Poe. Olhei para todas as lombadas até achar uma velha e gasta, a tinta vermelha já quase completamente desbotada, fora de sintonia com seus outros vizinhos. Puxei o livro e imediatamente meus músculos intercostais se comprimiram em uma tosse violenta assim que senti a poeira pesada invadindo meu nariz, irritando os olhos. Há quanto tempo ninguém limpava isso aqui?
Provavelmente porque ninguém é tão idiota de pesquisar um livro tão idiota.
Bufei, recostando-me na prateleira vizinha enquanto olhava aquela coisa. O título do livro estava quase apagado, mas dava para entender a palavra "Memórias" e o nome do autor. Padre Danny Grey. As páginas eram amareladas e mastigadas nas laterais, preenchidas com letra cursiva à mão. Parecia um enorme conjunto de cartas, datadas do século XVII.
Gina ia ficar com um sorriso permanente pelo resto da vida quando eu contar que li aquilo.
Passei o olho pelas primeiras páginas. O padre Grey tinha acabado de assumir o posto na capela de um pequeno vilarejo na Balvária. Era a única igreja da região pobre e isolada. Ou aparentemente. Existiam boatos que a ilha era mais afastada justamente para esconder criminosos terríveis e outras pessoas que não queriam ser encontradas, o que não foi o suficiente para fazer o padre desistir. Em poucas linhas, já deu para entender que o velho fazia o tipo de sempre oferecer a outra face enquanto criava mil formas novas de chegar no coração do povo através da caridade.
Mas ter contato com tanta gente era um plano bem elaborado do padre para continuar seus estudos. Segundo ele, lugares com forte energia espiritual tendiam a reunir pessoas sensíveis a ela, os chamados médiuns, que ele tanto acreditava existir. A vila da Balvária, um lugar central de tantas antigas guerras entre Vikings e Europa Oriental, parecia possuir todos os atributos necessários para isso.
Ele fazia perguntas aqui e ali para quem parasse o suficiente para uma bebida quente, observava os outros, fazia perguntas, mas nunca davam o que ele precisava. Chegou a chamá-los de “cegos” e irracionais, se frustrando por duas páginas inteiras.
Foi quando ele conheceu Fabrizio, um homem já quase senil que atendeu aos parâmetros do velho. Dentro de uma taverna no porto, onde a maior parte da clientela eram estivadores dos navios atracados que mal ganhavam o suficiente para um pão e soldados da marinha, Danny ofereceu uma caneca de vinho para um homem aparentemente atormentado, com a expressão vazia e sombria, sem vontade de viver. Ele não teve problemas em dizer que era um “comunicador”, e também não teve problemas em deixar claro ao padre que nem tudo eram flores.
Fabrizio, como quis ser chamado, já pensara como Danny: que a capacidade de ver e falar com os mortos era uma realidade bonita e privilegiada. Seu peito apertava por ver os mortos vagarem por aí sem paz, a memória pifando, as pendências sumindo, sofrimento se alastrando. Ele decidiu agir por conta própria, se colocando à disposição das pobres almas para ajudá-las a alcançar essa paz — o outro lado, o paraíso, inferno, purgatório, seja o que for. Fabrizio acreditava no paraíso, é lógico. Ele se auto denominou “missionário”, atribuindo para si mesmo a bendita missão de guiar os mortos. Danny relatou que o legado avançou por várias gerações futuras desde então, sendo passado de pai para filho.
Paralisei em cima dessa sentença. De pai para filho. De pai para filho. De pai para filho.
Senti que eu deveria parar de ler aquele livro imediatamente antes que eu começasse a acreditar no que ele dizia — ou pior: que eu começasse a ficar curioso. Curioso sobre uma coisa que não tinha nada a ver comigo ou com a vida que eu levava hoje. Não poderia me afundar nessa merda de forma alguma, a merda da minha história que eu já havia superado faz tempo.
Respirei fundo e pulei algumas páginas. Segundo o padre, Fabrizio foi bem sucedido na tarefa de ser a ponte de paz das almas que vagavam nessa terra, teve muitos filhos e boa saúde; também teve boa sorte na colheita e no pastoreio de rebanhos, e tudo indicava que estava mesmo cumprindo uma missão divina. Até que um dia ele encontrou um fantasma diferente dos outros.
Fabrizio vivia em uma pequena propriedade longe do vilarejo. Em uma das muitas colheitas vigorosas, ele chamou seu primogênito e juntos foram vender as batatas, cenouras e rabanetes nas ruas da comunidade. Fabrizio se dava bem com os habitantes, era bem querido por todos e conseguia sempre voltar para casa com os sacos vazios. Mas aquele dia foi marcado como a mudança de toda sua vida.
Havia um senhor ranzinza e resmungão que vivia mal dizendo os produtos de outros comerciantes locais, inclusive de Fabrizio, que vendia bem mais do que ele e seu trigo e arroz. Seu nome era Timmons e nada nele passava a mínima confiança, por isso não vendia, sem contar nos preços exorbitantes. Era um homem avarento que só pensava em dinheiro. Naquele fatídico dia, este homem decidiu ter uma atitude radical, pensada por meses, talvez por anos: tirar a vida de Fabrizio, o desgraçado que mais lucrava na vila, mesmo com produtos "meia boca". Timmons não abriu sua tenda naquele dia e esperou que Fabrizio finalizasse mais um expediente de sucesso ao final do entardecer para atacá-lo quando menos esperasse.
Fabrizio e o filho estavam terminando de guardar os pertences na carruagem quando o velho apareceu, portando uma espada afiada que havia mandado forjar especialmente para aquele momento. Seus olhos flertavam intensamente com o metal brilhante antes de apontá-lo para o camponês. Fabrizio tentou acalmá-lo — não tinha armas para lutar contra ele, mas tinha que proteger seu filho e sua própria vida. Uma vida que, refletida naqueles olhos miúdos cheios de ódio, valia menos do que esterco de gado.
No entanto, antes que o velho pudesse agir, uma sombra negra e espessa pairou entre Fabrizio e ele, materializando-se na forma de uma mulher inteiramente de preto, com ombros encurvados e olhos cravados diretamente no detentor da espada. Fabrizio paralisou. A aparição era medonha, embotada de medo e cólera, sugando toda a energia ao redor e matando pequenas flores de narciso que cresciam no canteiro. O velho Timmons continuou olhando para Fabrizio, apesar de sentir a brisa fresca da primavera baixar a nível de um inverno rigoroso. O filho de Fabrizio assumiu pernas bambas, podendo ver claramente o que estava à sua frente. Mesmo imóvel, a criatura estava ali para matar — ambos sabiam disso. E mesmo sabendo, Fabrizio não pode fazer nada, porque pela primeira vez em toda a sua vida de coexistência com o outro lado, ele estava sentindo medo.
A mulher levantou uma das mãos lentamente e, sem dizer uma palavra, virou a espada para Timmons, dando a entender para os olhos humanos normais que o velho estava apontando a arma para si mesmo. Seus olhos miúdos ficaram arregalados de horror, e som algum foi emitido da sua boca. Fabrizio sabia o que iria acontecer. Não sabia se podia impedir, e, que Deus o perdoasse, estava com medo de tentar. Portanto, seu filho foi mais rápido. O menino de 14 anos gritou a plenos pulmões para a aparição, correndo e se colocando à frente do velho, empurrando as mãos do fantasma para dissipar seu controle sobre a arma. Timmons caiu para trás, apavorado, se escondendo em posição fetal enquanto o garoto tomava uma posição defensiva em seu favor.
O pior aconteceu num piscar de olhos. O fantasma se dissolveu no ar e reapareceu atrás do garoto antes que ele tivesse tempo de reagir. Dedos espectrais agarraram seu crânio, e um desespero mudo tomou conta da cena. A boca do menino se abriu em um grito que nunca foi ouvido. Seus olhos reviraram nas órbitas, as pupilas se perderam em um branco fantasmagórico, e sua pele empalideceu até parecer translúcida. Então, sem cerimônia, seu corpo desabou no chão, com os olhos, agora vazios, encarando o nada, desprovidos do azul vibrante que antes os preenchia.
E então, o fantasma simplesmente desapareceu.
O desespero de Fabrizio foi aterrador. Ele caiu de joelhos ao lado do filho, sacudindo-o com força. Chamou seu nome, gritou até sua voz falhar, bateu contra seu peito como se pudesse trazê-lo de volta. Mas o corpo estava frio como gelo, e Fabrizio soube, antes mesmo de admitir, que seu filho estava morto.
Só então percebeu o que estava faltando.
Ele olhou ao redor, frenético, os olhos angustiados varrendo o ambiente. Ele deveria ter visto — deveria ter sentido — mas não havia nada ali. Nenhuma presença, nenhuma luz. Nenhuma alma.
Um arrepio cortante atravessou minha espinha enquanto virava a página. Dizia que, nos dias que se seguiram ao enterro do filho, Fabrizio recebeu notícias de que o velho Timmons, o homem que tentou matá-lo, havia sido encontrado morto em sua casa, os segredos apodrecidos de sua vida finalmente expostos ao mundo. Ele havia roubado aquelas terras, matado o legítimo proprietário e violentado sua filha. Ela morreu ao dar à luz um menino. Um menino que nunca teve a chance de viver; o velho o matou com as próprias mãos e enterrou os dois corpos na terra manchada do jardim antigo, seguindo sua vida miserável com um sorriso podre no rosto.
Tamanho o choque do vilarejo diante dessas revelações, tudo o que pertencera ao velho foi posto em leilão — suas roupas, seus móveis, até suas memórias empoeiradas foram vendidas como mercadoria qualquer no comércio local.
Fabrizio, mesmo carregando o peso insuportável da perda, voltou ao vilarejo para sustentar o que restava de sua família. E foi ali, ao lado de sua tenda, que encontrou a barraca de quinquilharias do velho. Mantas, colchas, objetos enferrujados… e desenhos. Papéis amarelados pendiam de uma corda na extremidade superior da tenda, balançando ao vento. Fabrizio não queria olhar, mas olhou. Imediatamente, seu sangue foi virando enormes blocos de gelo.
Entre os desenhos, um rosto se destacava — uma mulher de cabelos negros e olhos profundos, desenhada com traços suaves, quase reverentes. Seu coração martelou contra as costelas. Com passos hesitantes, ele se aproximou do homem da barraca vizinha, a voz saindo rouca:
— Quem é essa?
O homem, sem perceber a sombra que cobria o rosto de Fabrizio, respondeu com a casualidade cruel da ignorância:
— A filha do antigo dono. Aquela que ele assassinou e enterrou junto com o recém-nascido atrás da casa.
O mundo de Fabrizio inclinou-se sobre si mesmo. O som ao seu redor desapareceu. O ar ficou espesso, impossível de respirar.
Ele conhecia aquela mulher.
Era o espírito que tomara a alma de seu filho.
Ela não viera por Fabrizio, nem pelo garoto. Seu alvo sempre fora outro. Mas foi interrompida, interceptada por terceiros — e não hesitou em reagir. E no fim, mesmo assim, ela encontrou seu verdadeiro alvo.
Meus dedos tremeram ao virar mais uma página. Eu sabia, com uma certeza paralisante, que o frio que percorria minha coluna não tinha nada a ver com o clima (isso seria uma verdade parcial, já que o inverno chegava mais perto e tudo nos arredores da Butler era naturalmente mais gelado). Só que o frio vinha do livro, vinha do vilarejo, vinha do rosto contorcido de terror de um cara que nunca vi na minha vida, mas que, através de um monte de garranchos em folhas amarelas caindo aos pedaços, me fez ter uma prévia de compaixão por saber que eu não podia ajudar. E que um garoto tão novo simplesmente…
Que merda era aquela?
As pessoas não deviam morrer assim. Não deviam ser sugadas para o vazio sem chance de remissão. O Purgatório já era ruim o suficiente, viver no limbo podia ser sufocante, mas ele foi… roubado. Levado de um jeito que não me fazia invejar a mediunidade de ninguém, em nenhuma faceta.
Tive uma vontade quase feroz de terminar o livro. Mesmo com a garganta seca e uma enorme sensação de que fosse uma péssima ideia…
!
A voz me fez pular, meu coração disparando contra as costelas.
Girei nos calcanhares, vendo o rosto de surgir entre um vão das prateleiras.
— Porra, quase me matou do coração. — murmurei, fechando o livro vermelho com uma rapidez de quem estava sendo pego em flagrante bisbilhotando uma revista da Playboy. Bom, eu preferia ser visto lendo uma revista da Playboy do que aquilo.
Ela não demorou a contornar a estante, os passos apressados ecoando pelo corredor da seção.
Ela se aproximou de mim com um sorriso pequeno, quase o mesmo do restaurante vietnamita. Não entendi. Olhei para os lados, como se esperasse ver uma amiga dela igualmente interessada em esquisitices de ocultismo olhando livros do outro lado, ou que, na verdade, poderia existir um segundo naquela biblioteca, bem ali, naquela hora. Aquele campus era enorme, afinal de contas. Não importava o quanto seu nome fosse diferente, sempre haveria alguém igual.
Mas ela estava olhando para mim, quase sorrindo para mim, o que fazia menos sentido ainda. Eu esperava frieza, raiva, alguma coisa minimamente amargurada. Uma garota que nunca mais ousaria chegar perto de mim, o cara que era anormal e problemático sem nem fazer esforço.
Mas pude jurar que até parecia… feliz em me ver.
Travei a mandíbula. Talvez ela estivesse aqui para me confrontar. Sobre ontem. Sobre tudo. A maneira como falei com ela, a verdade que não revelei, o beijo. Como eu sabia onde encontrá-la. Havia tantas razões para ela estar aqui. Mas nenhuma explicava a suavidade em seu olhar.
— Não sabia que voltava hoje. — disse em voz baixa, cuidadosa. — Você, hã… está bem? Tá com uma cara estranha.
Cara estranha? Desfiz o vinco na minha testa e me obriguei a endireitar a postura. Tive que me esforçar para não ser direto. Reparar na minha cara não era bem o que eu achava que ela deveria estar dizendo agora. não podia ser assim tão imprevisível.
— Eu tô bem. — deslizei uma mão pelos cabelos. — Por que? E você? — falei muito rápido. Ela inclinou um pouco a cabeça.
— Bem também, mas não importa. Eu queria saber de você… do seu estado de saúde.
Pisquei, surpreso.
— Meu estado de saúde? — ergui uma sobrancelha. — Eu tô… ótimo. Bem ótimo. Tá vendo, sem pulso torcido, dente quebrado, o cabelo tá no lugar… você quer mesmo saber disso?
Estava tentando muito não parecer agitado, mas estava. Se ela queria fingir que nada havia acontecido, eu não iria me opor. Poderia seguir em frente, manter a distância, deixá-la perceber por conta própria que eu não era alguém muito legal para se ter por perto (beijar garotas do nada, fazê-las pensar que enlouqueceram, essas coisas escrotas que tiravam o brilho de qualquer um). Ela acabaria indo embora. Na verdade, eu queria isso.
— Eu... — hesitou, desviando o olhar. — Na verdade, eu tentei te ligar, mas pelo visto, você ainda não arrumou um telefone novo. Eu só queria dizer que... — ela soltou o ar bruscamente. — Olha, as coisas não precisam ficar estranhas entre nós depois de ontem.
Meu coração deu um salto no peito, impulsionado por uma memória traiçoeira que ameaçou me engolir. O muro. A confusão. O cheiro dela. O beijo. Afastei tudo isso antes que eu parecesse um idiota.
— Ah... aquilo? — apoiei uma mão desajeitada na cintura, dando de ombros. — Pode ficar tranquila, já esqueci.
Ela sorriu com um alívio genuíno.
— Ainda bem. Eu tava tentando pensar em uma forma de me desculpar por aquilo. Foi péssimo, eu não devia ter dito nada e não costumo fazer essas coisas. Sua namorada não deve ter ficado muito feliz.
Meus ossos estavam retesando antes mesmo de processar o que ela disse.
— Gina não é minha namorada. — a resposta saiu rápido demais, e eu quis me bater no mesmo instante. Idiota. — Quer dizer, não esquenta com isso. Não é algo que eu vou comentar com alguém, de qualquer forma. Foi só um beijo sem importância.
piscou, mostrando surpresa.
— O quê?
Mordi o lábio inferior, praguejando mentalmente. Eu não queria falar sobre aquilo. Não entendi como, de tudo que aconteceu, achou mais pertinente vir falar justo daquilo. Não fazia sentido. Achei que ser um babaca cortasse qualquer mísera chance de fazer olhar para você de novo.
— Que foi, achou que começaríamos uma história de amor ou coisa assim? — soltei uma risada curta, ácida. — Olha, fico lisonjeado. Sério. Mas eu e você é uma maluquice, já deu pra ver. E eu prometi que nunca mais vou te beijar de novo, nem mesmo se for pra evitar algo pior, tipo preencher formulários de saída da prisão e usar o dinheiro das suas botas novas pra pagar uma multa milionária.
De repente, deu um passo à frente, estreitando os olhos, mais confusa ainda do que antes.
— Mas de que droga você tá falando, ? — ela sussurrou entredentes, os olhos incrédulos. — Que beijo? Que prisão?
Pisquei. Não soube o que responder imediatamente.
Mas depois de um minuto, comecei a sorrir.
— Saquei. Muito esperta, levando a sério o papo de esquecer tudo que aconteceu. Já falei pra relaxar, , só tem nós dois aqui…
— Nós dois o quê? — sua voz saiu em uma lufada de ar forte e perplexa. Os olhos azuis estavam tão fixos no meu que quase me engoliam. — Eu e você… meu Deus, você virou um lunático? Que história é essa? Andou tendo algum sonho erótico comigo?
— O quê…
— Um sonho erótico com a minha língua, pelo que parece. Pelo amor de Deus, precisava ter me contado isso? Não podia guardar pra você?
Abri e fechei a boca. Parecia que alguém estava colocando a minha mão em um triturador de papel e o choque não me deixava reagir.
Aquele rosto extremamente corado e os olhos raivosos também estavam ajudando nisso.
— Você… — de repente, eu ri. Saiu engasgada, mas foi uma risada. — Caramba, já pensou em largar o Jornalismo? As oficinas de atuação do Adam Sandler vão te receber muito bem.
— Não imaginei que isso fosse acontecer. Meu Deus, será que eu devia ter dito aquela frase ridícula e clichê quando a gente embarcou nessa? “Não se apaixone por mim”? Achei que você estivesse levando isso a sério.
— Ou, ou, calma aí, um beijo não quer dizer nada…
— Você enlouqueceu.
— Eu não…
— Eu jamais te beijaria. Tenho um namorado, caso você tenha se esquecido, e de qualquer forma, caras como você não são o meu tipo. — seu lábio tremeu um pouco na última frase, mas seu rosto ainda estava firme, resoluto, até um pouco desconfortável. — Olha só, seja lá o que tenha acontecido com você, acho melhor você fingir que n-
Agarrei seu queixo, interrompendo sua fala. Cheguei perto o bastante pra olhar bem dentro dos seus olhos arregalados, mandando qualquer sorriso pro inferno.
— O que você tá fazendo, ? — senti os dentes trincando um no outro. Ela tentou protestar, mas ignorei. — Sei que ainda tá tímida, mas brincar de amnésia não tem graça nenhuma. Tá achando que vai me magoar?
— Qual o seu problema? — irritada, ela empurrou a minha mão. — Eu vim falar com você numa boa depois de ter atrapalhado o seu café da manhã ontem e te pegado com a sua namorada, ou quem quer que seja. Eu tava mesmo preocupada com você depois do coma, e gostei de saber que você ajudou o Ash, não sabia que fazer isso ia plantar essas coisas na sua mente…
— Espera, o quê? — agora quem estava irritado era eu. — Você só se lembra disso? E o cemitério, a sua ideia maluca de ir na lápide de Sandy, seu joelho e os outros machucados...
— O quê? Cemitério, Sandy, do que você está falando? — ela aumentou um pouco o tom de voz, olhando preocupada para os lados. A gente ainda tava na porra de uma biblioteca. — Eu não fui a cemitério nenhum ontem. Eu disse que te esperaria, só não esperava que você fosse se envolver em um acidente nesse meio tempo.
— Mas você estava…
— Estava o quê? — de repente, parou e pareceu estar lembrando de algo. — Espera, como sabe do meu joelho?
Rangi os dentes.
— Eu estava lá, com você e o seu joelho, .
— Não, você não estava na minha casa ontem à noite quando caí da escada do porão, tenho certeza disso. Foi uma queda tão ridícula que você com certeza estaria me zoando por ela agora, e não inventando essa fanfic de beijo. Foi por isso que eu machuquei meu joelho, e… eu não contei isso pra ninguém. — a voz dela diminuiu, quase sumindo. — Não contei pra ninguém sobre o meu joelho. Como você sabia?
— Escada de porão? Que porra de papo é esse? — me aproximei dela novamente. Não tava conseguindo esconder o quanto ela tava me deixando puto com aquela dissimulação. — A gente tava junto ontem à noite, sua maluca. Eu te salvei da sua própria tolice de ir pra Woodlawn colocar a sua péssima ideia de uma exumação do corpo de Sandy atrás de provas pro seu caso em ação. A gente correu, você caiu, a porra da polícia apareceu e a gente se safou por pouco. Como pode estar fingindo que nada disso aconteceu só por causa de um maldito beijo?
Tentei responder tudo muito seriamente, mas pela expressão que fez, senti o impulso de olhar para mim mesmo e verificar se eu, de repente, não tinha virado um monstro verde gigante.
Ela apertou o tecido da camisa coberta de botões de um jeito que procurava apoio enquanto dava um, dois e três passos para trás.
— Tá bom. Você, oficialmente, ficou maluco. Eu não vou ficar aqui e ouvir…
, isso não tem importância…
— Tem, se você estiver me espionando, ou… tendo sonhos eróticos comigo. Eu sei lá. Talvez isso tenha sido um erro.
— É o quê?
— Essa conversa não tá fazendo nenhum sentido, e não tem explicação pra você saber de coisas que não contei a ninguém. Isso é tudo… estranho. E eu imaginei que você, , fosse meio estranho, mas não a ponto de me incomodar. Geralmente sou boa nessas coisas, mas agora… acho que vou nessa.
Ela bufou e se virou para sair.
, espera... — agarrei seu braço em um impulso.
Ela se desvencilhou rapidamente e foi embora, me deixando parado e imóvel.
Choque não era bem a palavra certa para descrever aquilo que estava inchando a minha língua, roubando minha inteligência. Não era uma pessoa facilmente surpreendida, nunca fui — e acabei percebendo que isso poderia me tornar um idiota sobre o processo de como era realmente ficar em choque sobre alguma coisa.
Ou estava atuando bem demais ou ela realmente havia perdido a memória. Não sabia nem por onde começar a tentar entender essa merda. Seria um mecanismo de defesa a tudo que ela tinha presenciado ontem à noite? Ela já tinha feito isso antes, na vida? Talvez quando perdeu o pai ou o irmão, ou qualquer outro membro da família? Isso significava que me beijar era tão traumático a esse ponto? E se ela…
— Ela não vai se lembrar de nada.
Girei para trás a tempo de ver minha avó prostrada com braços cruzados rigidamente e seu xale de crochê verde escuro, como uma típica vovó que tinha acabado de ir verificar a água do chá no fogão. Minha respiração ainda estava pesada, entrecortada, a cabeça presa na conversa anterior. Demorei muito para notar que ela estava mesmo ali.
— O que tá fazendo aqui? — sussurrei. Estava extremamente desinteressado por qualquer sermão que sabia que iria levar.
Ela não me respondeu. Seus olhos eram enfáticos e duros no meu rosto. Olhei de relance para o relógio no celular.
— Não posso conversar com a senhora agora, preciso resolver uma coisa…
— Você quebrou a nossa promessa. — ela disse assim que virei as costas. — Pior do que isso, você mentiu pra mim. Isso nunca aconteceu, .
— Eu não... — comecei a falar, mas logo vi que seria inútil. Não dava para argumentar contra aquilo. Ela devia estar ali há mais tempo do que eu podia imaginar, me vendo conversar com , me ouvindo falar sobre beijos e outras coisas que tinha prometido nem chegar perto de fazer com ela. Só de estar perto de já era um alarmante o suficiente.
Estava pronto para pedir desculpas e tentar procurar alguma justificativa, mas não fiz isso. Retrocedi um pouco no tempo.
— Como assim ela não vai se lembrar de nada? — vinquei a testa. — Como você sabe que…
Não continuei. Minhas sobrancelhas foram para cima e para baixo várias vezes, junto com a minha boca entreaberta, todos mostrando meu espanto misturado com impaciência.
A inexpressividade da velha diante disso já me adiantou muito.
— O que foi que você fez? — perguntei devagar, controlando um chiar nos dentes que nem parecia meu.
— Acho que você deveria se preocupar com o que você fez, seu moleque. Tem ideia do que iria causar? Quase cheguei tarde demais, antes que você se revelasse pra essa menina. Como pode agir sem pensar desse jeito?
— Quê? Eu não ia me revelar pra ninguém.
— Lutar com uma morta aos olhos nus dessa garota é o jeito mais escrachado de revelar sua identidade, .
— Você estava lá? — aumentei o tom de voz sem querer. Aquela onda quente estava aumentando. — Então com certeza viu que Sandy a mataria se eu não tivesse chegado a tempo! E é, talvez eu não consiga concordar com essa sua ideia de simplesmente deixar a garota morrer. Isso não tá certo e não é o que nós deveríamos fazer-
— Você deveria ficar vivo, seu irresponsável! Não posso ver você se matando sem fazer nada! Ficar perto dessa garota vai te tornar um alvo, e se depender de mim, vou fazer o que estiver ao meu alcance pra que ela não esqueça apenas aquela noite, mas tudo relacionado a você!
— Então foi isso que você fez com ela? — dei uma risada irônica, as mãos tremendo de irritação. — Que negócio é esse? Como que você…
Qualquer traço de humor, ácido ou não, sumiu do meu rosto na hora em que lembrei.
A conversa que tive com ela no hospital. A visita súbita que praticamente tinha se apagado da minha mente, mesmo eu tendo certeza que tinha acontecido. Como minha avó abriu a boca e proferiu palavrinhas que pareciam inocentes, mas que me deixaram… com sono. Fez minha cabeça pensar que tinha um pedaço faltando.
Talvez porque realmente tivesse.
— Você fez isso comigo. — minha voz saiu quase sussurrada. — No hospital, você me fez concordar com o seu discurso, me fez prometer que não chegaria mais perto de . Você fez isso comigo.
— Eu sabia que não tinha sido firme o suficiente…
— Do que você tá falando?
— Sabia que deveria ter apagado mais…
Apagado? — balancei a cabeça, zonzo. Fui chegando um pouco para trás imediatamente, a pressão do mundo martelando a minha cabeça. — Merda, vó. Merda, merda.
Ela não ralhou para me mandar segurar o palavrão, ou ameaçou lavar a minha boca e essas coisas que avós fazem. Ela nem se parecia com a minha avó naquele momento. E eu não parecia estar sentindo as mesmas coisas de sempre, como aquela raiva querendo explodir sem direção.
— A Gina sempre me disse que a senhora era mais do que aparentava. E eu sempre achei que ela só tava fantasiando, como é o jeito dela. — balbuciei com um pouco de amargura. — Quem é você?
— Você sabe quem eu sou. — a voz tão firme da madame Uhura quase se quebrou. Quase.
— E esqueceu de me contar esse detalhe nos últimos 18 anos? Que você pode… — não conseguia verbalizar aquilo. Ainda me causava uma sensação sufocante de violação.
Ela puxou o ar para os pulmões, o maxilar cheio de rugas travando de um jeito sério e intimidante.
— Há muitas coisas que você não sabe, , e é bem melhor que continue assim. Estou exigindo que os eventos de ontem à noite não se repitam. Você vai se afastar dessa garota imediatamente, antes que seja pego pelo destino dela. Você me ouviu?
— Eu não sei que maldito destino é esse! Você por acaso sabe de alguma coisa? Conhece ela ao ponto de sair do caminho e deixar que uma sombra faça o que bem entender? Destino uma ova, isso é retaliação! E não foi isso que você me ensinou desde que apareceu no orfanato.
Respirei fundo, percebendo que eu tinha me aproximado dela, que estava segurando o tom a ponto da voz quase sair aguda. Precisava me lembrar que ainda estava na biblioteca, precisava não perder o controle.
Vovó me encarou como se minhas palavras não fossem nada além de birra.
— Eu falo sério, . Posso fazê-la se esquecer do próprio nome caso você continue com essa ideia...
— Tá me ameaçando?
— Estou te protegendo! É tudo o que eu sempre fiz: te proteger! Mas você torna as coisas difíceis se de repente parar de ser honesto comigo…
— Honestidade? — arranhei, soltando outra daquelas coisas que pareciam uma risada, mas que estavam longe disso. — Você quer falar de honestidade comigo? Logo você...
Parei e puxei o ar, percebendo que eu não poderia continuar aquela conversa naquele lugar. Logo mais alguém iria perceber os burburinhos e viria me mandar calar a boca, flagrando um cara esquisito falando sozinho. Mas já estava em cima da hora de eu me preocupar com isso. Ainda mais quando eu estava tão nervoso de um jeito que nunca tinha ficado.
— Não quero falar com você agora. — grunhi.
— Pra onde você vai?
— E pra onde você vai? — frisei, chegando mais perto. — Quando sai daqui, quando não me atende, quando some do nada, pra onde você vai?
— Eu já disse…
— Você nunca me diz nada.
— Não seja impertinente, sempre te disse o essencial. — seus lábios se enrugaram com aborrecimento. — O essencial da nossa missão, do nosso dever, o que realmente vai te manter vivo no final das contas. Não dá pra fugir do que somos, , e sempre fui sincera com você nessa parte…
— Sincera. — ri de novo.
— … sempre fui honesta sobre os tipos…
Honesta. É, claro. Então me fala, quem é meu pai? — questionei e a vi parar com a boca aberta no ar. — Da onde ele veio, onde eu nasci, como fui parar naquele orfanato? Qual era o nome da minha mãe? Qual deles era a sua prole? Eles eram pessoas boas ou assassinos em série? Moravam em uma casa com jardim ou num apartamento minúsculo? Como se conheceram? Hein? — semicerrei os olhos. Vi o queixo dela tremer, toda a sua expressão se transformando em algo duro. — Você não consegue me responder essas coisas, né? Nunca conseguiu. E sinceramente, na maior parte do tempo, eu prefiro que não responda. Mas… — uma esfera imensa entalou na minha garganta. — Toda essa coisa nascida comigo, foi ele, não foi? É por causa dele que eu sou assim, não é?
Tenho certeza que aquela foi a única vez em toda a minha vida que eu havia deixado a Madame Uhura sem palavras. Ela abria a boca para responder, mas nenhum elemento do alfabeto saía.
— Não venha me cobrar honestidade quando você não está disposta a devolvê-la na mesma moeda. — encerrando o assunto, dei as costas para sair, mas girei de novo. — E sim, eu realmente não sei de muitas coisas, mas isso vai acabar. Cansei de fechar os olhos.
Puxei o livro vermelho de qualquer prateleira que o tinha colocado e segui porta afora da biblioteca.


Na primeira quinzena de dezembro, eu já tinha achado uso para todos os casacos e sobretudos que ganhei no inverno anterior. No meio da multidão de engomadinhos da Columbia, era fácil adivinhar quem vinha de fora e quem era nativo da cidade: àquela altura, os nova-iorquinos e seus casacos de linho ainda não estavam sentindo os seis graus congelantes tanto quanto eu e uma boa dose de texanos espalhados pelo campus.
Ensacado em uma jaqueta puffer, bati a porta do carro ao chegar no estacionamento bem no meio de Vagelos, com seus prédios monumentais e árvores já praticamente nuas do processo de decídua da estação, fazendo com que um acúmulo de neve no teto caísse nos meus pés, molhando minhas botas. Bufei na hora. Caralho, eu estava exausto.
Além do frio piorar drasticamente o meu humor, a insônia andava me moldando em um protótipo perfeito de zumbi em todas as manhãs, especialmente depois de uma pernoite cheia de café e cigarro que eu tenho certeza que dava para saber só pelo meu cheiro. não parava de reclamar sobre isso (e também pelo fato de ter que repetir a mesma coisa várias vezes para que eu prestasse atenção, e eu não estava lhe dando uma resposta muito educada toda vez que isso acontecia). No último final de semana, meu ar irritadiço e calado, mais do que o normal, fizeram com que ele decidisse passar um tempo com seus outros amigos, que eu nunca me lembrava de quem eram, mas que com certeza diriam as coisas certas para animá-lo.
Então, sim, eu estava um bagaço. E justamente por isso, quis xingar e bater naquele estúpido pedaço de gelo que pegou carona no teto do Jeep como se ele tivesse cuspido na minha cara.
Respirei fundo e voltei à realidade. Tinha decidido mais cedo naquele dia que enfrentaria as próximas horas úteis da forma mais leve possível. Iria me controlar para não sair socando qualquer parede em busca de calar meus pensamentos. Pesquisaria sobre respiração diafragmática, ruído branco, aplicativos de meditação, crochê… estava disposto até a dar chance para o tênis de mesa — meu pai ficaria orgulhoso. Tudo que iria me fazer voltar a ser um cara normal.
Ou o mais normal que eu pudesse ser.
Os novos pesadelos não podiam me vencer. Nem as vozes. Aqueles sussurros que zumbiam nos limites do meu cérebro quando eu estava pegando um expresso duplo no Blue Bottle, ou rabiscando anotações nas aulas de Patologia Clínica ou na biblioteca (lugar que eu andava frequentando bastante ultimamente). Uma voz grave que me espreitava, repetindo palavras sem sentido na minha nuca, fazendo-me olhar em volta e não encontrar absolutamente nada. Um jogo que já estava ficando cansativo.
A sensação de estar sendo constantemente observado me acompanhava agora quase o tempo todo e isso, por mais bizarra que seja minha natureza, não era tão comum assim. Eu sabia quando um fantasma estava na área, porque fantasmas não se escondiam ao serem percebidos. Muito pelo contrário — era exatamente nessa hora que faziam de tudo para chamar sua atenção.
Mas daquela vez, o engraçadinho não estava mostrando as caras. Ficava sentado no seu camarote do além, baixando a temperatura aqui e ali, formando sombras difusas no fim da tarde e brincando comigo como se eu fosse um coadjuvante no seu épico.
O mesmo que já teve minha alma em mãos.
Tudo começou depois daquele dia na Butler. Depois do livro do padre Grey. Depois da discussão com minha avó. Depois de um vulcão de verdades entrar em erupção na minha cabeça, e eu me tocar no que estava metido. Na verdade, no que estive metido a vida toda.
Gina estava certa em grande parte do que dizia e acreditava. Minha avó não era quem eu imaginava ser. Espíritos malignos eram um bloco mais desconhecido e profundo do que toda minha simplicidade julgava. E, o mais importante: estava mesmo em perigo.
E nenhum daqueles montantes de livros que agora empilhavam minha escrivaninha me dizia como parar isso. Como derrotá-lo. Eles não passavam de labirintos e becos sem saída, com seus textos prolixos carregando o mesmo peso sombrio e angustiante de uma realidade imutável.
Tentei fazer com que a situação não me afetasse tanto, mas, pelo visto, estava falhando miseravelmente — e isso tinha que acabar. Infelizmente, precisava dizer ao meu cérebro para ser mais forte e voltar a fazer suas atividades normalmente: pensar em mutações de genes TP53, ouvir My Sharona no último volume no Jeep (a única coisa que me deixava parecendo minimamente descolado), procurar restaurantes legais inaugurados nos últimos seis meses e mandar para Gina (nada com arquitetura colonial cercada por fantasmas de garotos ricos, que se esgoelam ao perguntar como você ousa estar sem seu uniforme de garçom para me servir?) e não querer ligar para uma garota que não queria que eu ligasse.
Seria fácil, eu pensei. Estava determinado por um pouquinho de sanidade bem ali, naquela quinta-feira muito fria de dezembro. Planejei até esperar por no corredor da sua biblioteca cheia de computadores e dizer que pagaria um café — deixando claro que ele até poderia me contar sobre os últimos jogos que esteve perdendo nos últimos dias, se me poupasse de ter que participar da próxima reunião de sua comunidade de RPG.
Mas, é claro, não importa o quanto você esteja disposto, uma realidade normal não depende apenas de você.
Ao virar e seguir para o departamento, dois caras se aproximaram de mim. Eram altos e com uma quantidade patética de músculos, mas devo repetir: eram bem altos. Se prostraram à minha frente, me forçando a parar tão rápido que quase tropecei. Olhei de um para o outro, reparando em seus braços flexionados à frente do peito, me encarando em uma perfeita imitação de soldadinhos da rainha Elizabeth.
Não falei nada. Achei que não deveria. Tentei ignorar a intervenção estranha e dar a volta, mas um deles esticou o braço tão rápido que me fez entender imediatamente que nenhuma rota estava disponível.
Legal. Fodeu.
— Posso ajudar? — perguntei, os dentes trincados, deixando claro a minha completa falta de vontade em jogar aquele jogo.
— Você precisa vir com a gente. — um deles balbuciou em uma voz grossa e confiante, destilando um néctar sulista. Franzi a testa, continuando a encarar os dois com uma expressão perto da descrença.
— É o quê?
— Você ouviu. Vem com a gente.
Ah, eu tinha ouvido sim. Tinha ouvido até demais.
Olhei de novo para eles, desta vez focando bem em seus rostos. E sabia que as duas pilastras gregas não me eram estranhas.
Aqueles eram os cretinos que tinham gentilmente ajudado a quebrar o meu nariz na Dungeons há algumas semanas.
À luz do dia eram bastante diferentes — infelizmente, bem mais ameaçadores, se é que isso era possível. Ou tinham se exercitado no tempo livre.
— Precisa me dizer mais do que isso pra me fazer ir com vocês. — desviei de seu toque antes mesmo que ele se mexesse por completo. Não ia ser um saco de pancada para esses babacas de novo nem fodendo. — O que está acontecendo?
— Você vai saber, se vir agora…
— Não vou.
— Você vem! Se não...
— Se não o quê? — aumentei o tom de voz, dando dois passos para trás.
O outro da esquerda, o mais forte, se aproximou de mim e agarrou o colarinho do meu casaco antes que eu captasse qualquer movimento. Seu hálito cheirava a cigarro de menta quando ele soprou bem baixo no meu nariz:
— Ou se não, todo mundo vai ficar sabendo que você é um lunático que fala com fantasmas.
Congelei.
Mal senti minhas pernas se movendo à medida que eles agarraram meu braço e me conduziram por um caminho que eu não dei atenção. Não estava nem tentando lutar contra — só conseguia ouvir meu coração martelando no meu osso esfenoide, louco para saber como cacete duas pessoas que eu não conhecia tinham chegado àquela conclusão.
Foi na Dungeons? Estavam prestando atenção mais do que pensei? Sabiam alguma coisa sobre o caso de Sandy? Como ela disse mesmo que se chamavam? Rodney e quem?
Com a cabeça a um milhão, andamos o que pareceu ser um quarteirão até passarmos por uma porta de metal enferrujada, entrando em um cubículo escuro e úmido, iluminado com algumas lâmpadas brancas pendendo do teto baixo e frágil, e preenchido por prateleiras industriais gastas pelo tempo e caixas de papelão jogadas nos cantos. Ali parecia estar pelo menos três graus mais frio do que lá fora, mas os dois não pareciam estar sentindo isso. Sem dizer uma palavra, colocaram as mãos nos meus ombros e me jogaram em uma cadeira de metal em frente a uma mesa quadrada de madeira velha e lascada, cheio de farpas expostas e alguns rabiscos.
Não queria pensar que a cena parecia um sequestro. Eu não era milionário, e muito menos andava com milionários, então iria riscar isso da lista. Além disso, fui parar ali sem um saco preto na cabeça, riscando também a hipótese de cárcere privado.
Mas eles tinham falado dos fantasmas. E não sei como, quando, onde, mas todos aqueles livros idiotas (que agora não tinha problema nenhum em ler) me mostraram diversas histórias bizarras sobre crianças especiais mantidas para testes. Laboratórios famosos que te davam um número ao invés de um nome, refeições com pílulas por um quadrado na parede e horas e mais horas pedindo para você entortar uma colher só com a força do pensamento.
Passei a acreditar nessas coisas. Não que eu pudesse fazê-las, mas que elas existem. Graças à minha avó econômica em honestidade e minha breve experiência de quase morte com uma criatura que fugia de todas as definições.
De qualquer forma, só me restava esperar o que viria (enquanto repassava todos os golpes que conhecia na cabeça. Eles não iam mesmo ter sorte dessa vez).
Um barulho lento de passos junto a um impacto leve no concreto foi ficando mais próximo até a voz grave dizer:
— E aí, amigo.
Ash foi surgindo lentamente à meia-luz, saindo de um pedaço de escuridão ao fundo que escondia o limite de até onde ia a estrutura. Estava usando um boné preto virado para frente, que escondia uma parte considerável do seu rosto. O som repetitivo vinha das duas muletas se arrastando no piso, até que ele chegasse à cadeira na minha frente e desabasse nela.
— Ash? — balbuciei involuntariamente, mesmo sabendo que não havia dúvidas. Por um lado, ele não parecia muito igual à última vez que eu o vi. As maçãs do rosto demarcavam curvas de ossos que não estavam ali antes, e seja pela luz ou pelo próprio frio, o cara estava dezenas de vezes mais pálido.
Ash levantou uma das mãos e fez um movimento estranho, como se estivesse limpando o ar à sua volta, e inclinou a cabeça em direção à entrada. Ouvi os passos dos dois caras que haviam me arrastado até aqui se afastarem até a porta bater.
— Pode deixar essa formalidade de lado. Me chama de . — ele posicionou as muletas em cima da mesa, fazendo um tsss mal-humorado entre os dentes. — Sei que você sabe o meu nome.
Não falei nada. Fiquei com vontade de olhar em volta de novo, captar qualquer coisa do ambiente. Não fazia ideia de onde estava, mas ainda era no campus. O breu impenetrável não me deixava enxergar direito, mas espaços de madeira inchada e fedendo a umidade daquele jeito, tinha cara de ser um dos depósitos na lista para demolição — o que não melhorava em porra nenhuma.
— Sinto muito pela abordagem que eu usei, mas duvido que você viria voluntariamente se eu chamasse. — ele levantou os ombros, seguindo a direção do meu olhar. — Esse é o antigo ateliê de escultura da faculdade de Artes Plásticas. Ou continua sendo, se você souber invadir um firewall e registrar uma propriedade que não é sua a alguma instituição qualquer só para que ela continue de pé. Tenho plena certeza de que ninguém entra aqui desde o Woodstock. Você o conhecia?
— Não. — fui enfático, mas provavelmente deixei uma gota de alerta escapar. A galera hippie do Woodstock adorava se aventurar numa overdose, e estar em um lugar lotado dessas possibilidades me levava a pensar em outra questão.
— Eu sei o que você tá fazendo. — a voz risonha me chamou de volta. — Ninguém morreu aqui. Pode ficar sossegado.
Aquele mesmo gelo deslizando na minha espinha tinha voltado.
— O que você quer? — grunhi, efusivo.
deu uma risada, ajeitando o boné.
— Nada do que você imagina, tenho certeza. Só queria te agradecer.
Pisquei, sem entender.
— Sabe, o acidente que me deu essas gracinhas de presente. — ele apontou para as muletas na mesa. — Se você não estivesse lá, eu teria ganhado uma super cadeira de rodas motorizada ou um caixão de ébano. Seria de ébano porque é o que o meu plano de saúde caríssimo me promete. E se a desgraça acontecesse da cintura pra baixo, então eles poderiam incluir o vidro…
— Você tá falando sério? — interrompi, os olhos meio arregalados.
— Sobre o plano de saúde?
— Qual é, cara.
— Tudo que eu falo é sério, . Não importa o que você andou pesquisando ou ouvido sobre mim, posso te garantir que odeio desperdiçar saliva.
Prensei os lábios. Estava na cara de que o Narcos da Columbia só responderia aquilo que bem entendesse.
— Não precisa me agradecer, não fiz muita coisa. Algumas pessoas só estão no lugar certo na hora certa. — virei a cabeça explicitamente para a entrada, esperando que ele entendesse que a conversa extremamente produtiva já poderia acabar.
Mas é óbvio que eu também só sairia dali quando ele quisesse.
— Eu sei que sim. — ele fez uma mesura quase formal, sem tirar o sorriso sacana do rosto. — Por isso me vi na obrigação de também me desculpar. Sinceramente. Aquela noite na Dungeons não foi exatamente um dia de trabalho normal, e como infelizmente não podemos voltar na droga do tempo, só me resta te pedir desculpas.
— Não tem necessidade, acidentes acontecem. Não que o que tenha acontecido no seu covil tenha sido um acidente, mas no estacionamento…
— Eu sei que aquilo não foi um acidente, . — ele se inclinou para mais perto da mesa. — Sei que alguém estava tentando me matar.
Engoli a seco. não devia se lembrar de eu ter falado com Sandy, não devia saber que ela quem soltou aquela viga em cima dele e que revelou o seu nome de verdade (que ela, aparentemente, também não sabia).
Fingiria que ele não disse nada.
— Eu não sei do que vo-
— Sério, . — a risada de foi curta, quase debochada. — Acho que você ainda está se situando, então vou deixar mais claro: eu sei que você falou com Sandy. E sei que ela tentou me matar. Então pode poupar seu estoque de mentirada, beleza?
Meu cérebro demorou alguns segundos para processar aquela informação, tempo suficiente para que eu deixasse ele ver um singelo choque no meu rosto. Nunca tinha chegado nessa parte com ninguém — uma em que levantavam a questão aberrante sobre o que eu faço, o que eu sou. Por mais que aquilo que saiu da boca de não chegasse a ser uma acusação, ainda era um pouco pior do que isso: parecia um reconhecimento. Um fato sabido e repensado várias vezes, e em nenhuma delas, o julgamento dele foi menos do que interessante.
Mesmo assim, molhei a boca seca e me agarrei ao plano de contingência que sempre tive para esse tipo de situação: primeiro, uma risada. Fraca, pouco convincente, mas era o melhor que eu tinha.
— É claro que falei com Sandy, ela nem sempre morou no andar debaixo do cemitério de Woodlawn. E quanto a tentar te matar, eu não tô afim de ouvir as preferências sexuais bizarras de…
— Corta essa, . — ele me interrompeu, o sorriso hesitando. — Só corta essa.
— Se você só estava afim de dar uma de Biff Wilson arrependido, poderia ter mandado um e-mail. Fiquei sabendo que eles disponibilizam esse tipo de coisa quando a gente cria uma conta no Fórum. Não precisava ter me arrastado pra cá com seus capangas a tiracolo.
— Você não sabe mesmo ouvir, né? Te falei que não precisa usar suas desculpas comigo. Tenho certeza que você teve uma vida inteira pra planejar suas mentiras, mas aqui você tá seguro, cara. Quer dizer, tirando a porta da esquerda. Fiquei sabendo que com o tempo, as tintas em garrafa soltam metano e você pode ter uma hipóxia ou sei lá o quê depois de muito tempo exposto.
Pisquei. Estava começando a sentir raiva.
— Eu vou embora.
— Eu sei de tudo, cara.
— É, e eu adoraria ouvir mais sobre a sua capacidade de conseguir bat-cavernas, e gás mortífero e sei lá, mas tenho aulas chatas menos chatas do que isso pra assistir. Então…
— Os fantasmas, cara, eu sei dos fantasmas. Você pode fugir, mas eu vou continuar sabendo.
Engoli um grunhido.
— Beleza, você é louco e eu não vejo como posso contribuir com seus delírios, então eu vou nessa.
Finalmente, me virei para sair, mas a voz continuou soando, ampliada pelos ecos na atmosfera encharcada do lugar:
— Quando ela vai voltar? — andei mais rápido, tomando o cuidado para que as solas das botas lotadas de neve não escorregassem. — Da próxima vez, tenho a sensação de que ela não vai só destroçar minha perna e me fazer comprar uma moto nova. Ela vai vir com tudo. Sei que ela acha que eu a matei.
Estava quase na porta. Os dois bonecos de posto não estavam mais ali, e duvido muito que me impediriam se eu voltasse a fazer meu caminho de antes, o que não tenho certeza se deveria fazer ou se a situação pedia uma breve mudança de planos: voltar para o Jeep, ligar para Gina e, se ela não atendesse, dirigir dez quilômetros até Nova Jersey e me enfiar no beco vermelho e quente do Zoana’s até que uma garota vestida de lantejoulas da cabeça aos pés me servisse um bourbon e eu pediria, educadamente enfático, que ela me trouxesse Gina Lasser de onde quer que ela estivesse.
No entanto, todas as ramificações de possíveis trajetos e planos que eu pudesse ter foi cortado com a lâmina afiada desembainhada pelas palavras seguintes de :
— Eu sei sobre você e .
Parei como se tivesse trombado em uma parede de vidro.
Girei em um movimento brusco, inconscientemente entregando que a situação tinha ficado um pouco delicada com a menção da garota que abarrotava minha cabeça mais do que células-tronco. E é claro que o fiz sorrir, um sorriso fácil de “te peguei”, vitória alcançada de quem já sabia ter a melhor mão do baralho o tempo todo.
Em alguns passos largos, voltei para a mesa, as mãos pousando sobre a superfície com força.
— O que você sabe?
— A conversa vai ser bem mais interessante se você se sentar. — ele indicou a cadeira que eu havia acabado de abandonar. Mantive o olhar fixo nele antes de ceder e me sentar novamente. — Antes de qualquer coisa, vou responder à pergunta que você ainda não fez: não, eu não vejo os fantasmas. Sou só um cara de família humilde do Ohio, não tenho nada de especial. Mas isso não quer dizer que eu não saiba da existência de pessoas como você.
E a existência de pessoas como eu, aparentemente, não o faziam ter vontade de sair correndo e gritando.
Ignorei o arrepio na minha espinha. Seria muito fácil lidar com aquilo se eu não estivesse sozinho, mas ali, dentro do cubículo mais pobre da turma da demolição da Columbia, onde nem os mortos frequentavam…
— Como você descobriu? — minha voz soou um tom acima de um sussurro, incorporando uma flecha que não voltaria mais. me poupou de mais uma carreira de dentes e balançou as mãos num gesto tranquilo.
— Tive bastante tempo pra pensar no hospital. É tudo um quebra-cabeça, cara. Juntei uma peça aqui, outra ali, e de repente… bum! Fez sentido. — encolheu os ombros. — De qualquer forma, já desconfiava que você não era um sujeito qualquer desde que invadiu minha festa e disse aquelas coisas. Na hora, eu fiquei nervoso demais pra racionar, mas depois que parei e me toquei de quem você era, liguei os pontos. Sempre achei estranho o lance do número 1 não se deleitar nos holofotes ou aproveitar as iguarias que o reitor Park estava disposto a ceder. Ficou óbvio. O acidente com a viga só serviu para confirmar minha teoria.
— Então você já pensava que eu só tinha falado com a versão morta de Sandy? — disfarcei o tom de surpresa.
— Se você tivesse trocado um simples oi com Sandy viva em qualquer lugar desse campus, eu saberia. Prestava bastante atenção nela.
— Você monitorava ela?
— Não usei essa palavra.
— Tanto faz, de qualquer forma, não prestou atenção o suficiente pra salvá-la de toda essa merda que fizeram ela morrer.
O sorrisinho dele abrandou. Não achei que minhas palavras fossem o suficiente para tocar no ponto sensível de , mas talvez tenha chegado um pouco perto.
— Se ajuda em alguma coisa, me sinto tão culpado de ter cruzado o caminho dela quanto os fofoqueiros andam falando.
— Porque ela não parecia estar no seu padrão?
— Sandy não estava no padrão de ninguém. Por isso ela era tão interessante. — ele não estava sorrindo mais. — Se pensar bem, ela foi a garota mais interessante que eu já conheci.
Arqueei as sobrancelhas. De alguma forma, era muito difícil juntar a imagem daquele cara na escuridão da Dungeons, que parecia oferecer cachorrinhos em sacrifício, com a garota franzina e chorona que estava, nesse momento, arranhando o véu do limbo para caçar seu suspeito número 1. As duas coisas combinavam tanto quanto neve no verão.
— Olha, cara, se você tá querendo provar alguma coisa…
— Sabe, eu tenho uma irmãzinha mais nova. Ela tem dez anos. — cortou, olhando distraidamente para além dos meus ombros. — Estava conversando com ela no telefone no dia do acidente. Ela é a coisa mais adorável e inteligente da face da Terra. Não temos o mesmo pai, mas isso é mais uma benção do que uma maldição, já que ela odiaria o cretino que me colocou no mundo. Infelizmente, não dá pra rasgar elogios pela nossa mãe também, mas ela até que se esforça. Consegue comer, dormir e passar bem com todo o dinheiro que eu mando do meu negócio, e ainda guarda na conta poupança que eu mesmo criei e instruí, só pro caso da minha irmã não ter que se virar como eu faço pra conseguir um diploma. Não, todo esse perrengue é pra gente de passagem, gente sem ambição de ser realmente alguém na vida. — ele alisou a superfície metalizada da muleta, ainda divagando como se estivesse sozinho. — Ela é muito especial. Sabe? Quando ela contava à nossa mãe sobre as pessoas que ela encontrava por todo canto, minha mãe sempre justificou como os amigos imaginários que toda criança tem. Eu também cheguei a acreditar nisso, mas no fundo eu sabia que ela estava vendo algo. Sabia que era algo tão importante que ela não queria perder tempo tentando nos convencer da verdade, o negócio dela era continuar ajudando as almas perdidas e levando elas pra seja lá onde precisam ir. — ele me encarou. — É claro que ela é só uma criança e às vezes não pode fazer muito, mas sempre esperei que ela aprendesse a lidar com essa responsabilidade, assim como você deve ter aprendido. Você sabe como é.
Eu sabia. Digo, eu sabia alguma coisa. Não sei se eu sabia o que ele achava ou queria que eu soubesse.
Descobrir outros mediadores ainda era um motivo de surpresa para mim. Os outros sempre pareciam estar distantes, jogando em times fora de casa, camuflados em uma multidão mundana, e esperava-se que, caso você tenha tido o infortúnio de nascer com esse tipo de habilidade, você se destaque em alguma coisa. Era assim que o padre Grey procurava seus próximos objetos de estudo, segundo uma menção irrisória em seu livro. Como se ver o que os outros não veem te tornasse automaticamente um ser humano mais interessante, com mais criatividade ou pensamento matemático extremamente avançado.
Mas senti uma certa pena misturada com inveja da irmã de . Quando somos crianças, tudo é mais difícil, mas ao mesmo tempo, é mais fácil, porque ninguém espera 100% de sanidade em uma criança.
— Foi assim que eu soube que Sandy tinha falado com você. E que pediu pra você descobrir a verdade. Mas, sinto em te dizer que minha resposta não mudou. Eu não a matei. É sério.
Movi a mandíbula. não era o tipo de cara que desviava o olhar; pelo contrário. Estava com os olhos cravados nos meus de uma forma que me fez ter vontade de abaixar a cabeça, de pedir desculpas por um dia ter questionado uma coisa daquelas para ele.
— Talvez eu acredite em você. — respondi, porque era a verdade. Eu conseguia ver esse cara escrevendo cartinhas para uma garota em pleno século 21, conseguia vê-lo se despedindo da irmã em um parquinho de diversões, ou empurrando ela em um balanço na pracinha. Não sabia porquê pensava isso, mas pensava.
— Eu sei que sim, se não, eu estaria morto agora. Mas ela não acredita em mim, não é? Por isso tentou me matar.
Só concordei com a cabeça, sem a necessidade de discorrer sobre os detalhes.
— Entendo... — suspirou. — Então ela não vai parar até conseguir o que quer.
— Ela vai parar quando descobrir o que aconteceu.
— Se você já contou a ela que eu não fui o responsável, acho que essa afirmação não é tão verdadeira assim, não acha?
— Ela tá morta, cara. Descobrir que você não a matou ainda não explica como e porquê ela morreu.
— Mas pelo visto, ela ainda continua pensando que sou eu, independentemente dos fatos. Qual é, cara, não precisa enfeitar a parada. Sandy acha que eu a matei com pílulas envenenadas e nem me dei ao trabalho de dizer tchau. Vai ficar com isso na cabeça até conseguir me matar, porque é nisso que ela acredita. As outras alternativas não importam.
Ele bufou, escorregando pela cadeira de metal. Queria levantar o dedo e retrucar, dizer que ele estava viajando por outra realidade paralela, mas… fazia sentido. Infelizmente, o gângster tinha pressuposto o pior cenário que, infelizmente, era o cenário verdadeiro.
— Ok, beleza, você tá certo. Mas ela precisa saber da verdade, mesmo que não acredite nela. Ela quer isso, mesmo que não saiba ainda. Ultimamente ela não anda muito bem.
— O quê? Fantasmas pegam resfriado?
— Não, ela só está… se enfiando em umas coisas perigosas. Esquisitas. Não me olha assim, não vou conseguir te explicar.
desfez a testa vincada e coçou a garganta.
— Tudo bem. Você anda investigando isso, né? Ir me perguntar aquilo na cara dura fazia parte dos seus planos?
— Preferia que eu te chamasse pra jantar?
— O que você pensou que fosse acontecer?
— Eu não pensei. Deu pra ver que esse foi um puta erro. — sorri com zombaria. — Geralmente, quando a gente pega alguém desprevenido falando algo que elas não esperam que a gente saiba, acabam abrindo o jogo todo. Pouquíssima gente é psicopata o suficiente pra fingir tão bem diante da verdade.
O sorriso alinhado de dentes brancos e brilhantes apareceu no seu rosto pela primeira vez, um daqueles que não são contidos ou provocativos. Ele quase gargalhou.
— Eu tinha achado sua abordagem uma merda, mas agora, até que você fez sentido…
— Faz sentido supôr que as outras pessoas têm medo do sobrenatural. Usar isso contra elas pra conseguir a verdade é uma jogada que quase nunca falha.
— Entendi. Meio humilhante, mas é verdade. Acho que se o não tivesse chegado na hora, sabe-se lá o que eu poderia ter falado.
— Se fosse uma variação de tudo que falou hoje, continuaríamos na mesma. Saber que você não matou Sandy aumenta ainda mais o buraco disso tudo. E o tempo tá passando, e a gente ainda não…
— A gente? — juntou as sobrancelhas, mas logo voltou a levantá-las. — Ah, claro... você e estão juntos nessa.
— Não estamos… — engoli em seco, tropeçando nas palavras. — Como sabe de mim e da ? Tenho certeza de que não foi a Sandy quem te contou.
Ele soltou um riso pelo nariz, aquele jeito de quem já sabe a resposta e só está se divertindo com a situação.
— Vocês dois são qualquer coisa, menos discretos. Esse campus é meu território, eu conheço cada sombra, cada fresta. Quer ver? Olhe por aquela janela.
Segui a direção que seu queixo apontou. O vidro era embaçado de poeira e tempo, mas, depois de alguns segundos, enxerguei. O muro de grades, ao fundo do pátio e nas imediações do John Jay.
— Você estava aqui naquela noite? — minha voz saiu num fôlego só.
Ele assentiu devagar, como se aquilo fosse óbvio.
— Sempre achei improvável que só vocês dois tivessem feito aquela cagada no John Jay. — arqueou as sobrancelhas. — Foi Sandy também, não foi?
Balancei a cabeça, sem conseguir fechar a boca.
— Ela está pior do que eu pensava… — ele murmurou, quase para si. Depois, voltou a me encarar, os olhos mais sérios agora. — Talvez eu possa te ajudar.
Minha respiração travou por um instante.
— Você sabe quem matou ela?
— Não. Mas tenho suspeitas.
— O tem algo a ver com isso?
Ele parou. O nome de pesou no ar. Vi a mudança em seu rosto. Pequena, mas nítida.
— Não… Acho que não. — desviou o rosto. — Ele tem um gênio difícil, mas ainda é meu amigo. Ele não faria isso. Mas… tem gente que precisa ser ouvida antes que vocês tirem conclusões erradas.
Aproximei a cadeira.
— Quem?
— Quem mais? Janice.
— A colega de quarto da Sandy? — a lembrança dela surgiu na minha cabeça como uma peça que eu não tinha encaixado até agora.
— Sandy nunca reclamou dela. Na verdade, até pareciam se dar bem. Mas… — ele demorou na palavra. — Tinha alguma coisa naquela garota.
Fiquei em silêncio. Nunca tinha passado pela minha cabeça qualquer coisa relacionada à alguém que mal conseguia falar com a polícia de tanto que chorava.
— Você acha que ela…?
— Eu não acho nada. Só tô te contando o que vi. — ele apoiou as muletas no chão, se preparando para ir. — Mas, de qualquer forma, isso me interessa. Ainda não estou afim de morrer. Então, indiretamente, estou ajudando a mim mesmo.
saiu de trás da mesa, segurando firme nos dois apoiadores de metal que, com certeza, não deve ter conseguido no posto de saúde. Fiquei de pé um segundo depois, ao mesmo tempo em que ele ia se aproximando de mim e metendo a mão no bolso da frente para puxar um pedaço de papel dobrado.
— Esse é meu número. Quer dizer, o número do . — corrigiu, com um sorriso de canto. — Me mantenha informado dessa presepada de investigação e me liga se precisar de alguma coisa. Tenho mais amigos do que você imagina, e amigos de confiança. Os caras ali fora também não vão dizer uma palavra sequer. Eu e eles conseguimos ser mil vezes mais discretos do que vocês dois. — ele se preparou pra ir embora, mas se virou novamente. — A propósito, imagino que não faz ideia sobre você, não é?
— Não. — neguei em voz baixa. — E nem deve saber.
Pela cara de Ash, eu sabia que ele estava pensando em todos os argumentos possíveis para tentar me explicar que isso era uma ideia de merda, que me esconder de alguém que cavaria tão fundo as imediações de Sandy comigo não seria um bom negócio, mas também deve ter visto na minha cara que não adiantaria. Eu era o melhor amigo de Jung desde o ensino fundamental, e provavelmente continuaria sendo até bem depois de enfrentarmos as crises de meia-idade, então com certeza eu conseguiria passar despercebido por uma garota que era nada menos que um objeto de estudo do mundo ao qual eu estava inserido.
Uma garota que, aparentemente, era tão passageira quanto uma chuva de verão.
— Você é quem sabe. — Ash deu de ombros. — Mas se me permite aconselhar, seja lá o que vocês dois tenham feito ou ainda vão fazer, se escondam melhor. Se o descobrir que a linda namoradinha dele anda se encontrando no escurinho com o número 1, acho que não vou poder fazer muita coisa por você.
Dei uma risada irônica, contabilizando mais um aviso sobre . Estavam me bombardeando de todos lados, mostrando que sim, eu iria me foder com F maiúsculo se continuasse agindo como se esse cara não fosse minimamente relevante na sociedade — seria difícil.
— Ah, é, mas sobre isso… bom, acho que eu e não vamos fazer mais nada. Nossa parceria já era.
— Por que não?
— Uma situação chata. Prefiro não te dizer.
Ash pareceu indiferente, o que foi bom. Não é só porque ele tinha me arrastado até ali e abrido o coração para mim que eu faria o mesmo. Ainda mais em um assunto tão complicado quanto de repente virou no meu diagrama.
— Como quiser, . Mas se eu fosse você, tratava de recuperar essa garota. é durona, mas foi a única pessoa em todo esse circo que quis olhar mais fundo, dar um pouco de justiça para Sandy. Ela deve conseguir o depoimento que a Janice deu à polícia no dia, e tenho certeza que todo o discurso dela vai ser perfeito demais pra ser verdade. Te explico isso quando essa cópia estiver na minha mão.
— Espera, é só isso? — ergui uma sobrancelha. — Você só quer saber da colega de quarto? Não é assim tão simples. Você pode ter escorregado pra fora do pódio de suspeito número 1, mas ainda preciso saber sua versão.
— E você vai ter a minha versão. Depois do depoimento da Janice.
Ele deu um aceno leve de cabeça e começou a dar as costas para se retirar. Meu cérebro ficou cozinhando sua sentença por trinta segundos arrastados.
. — chamei-o no último instante. — Você não está com medo?
Ele abriu um sorriso que não chegava aos olhos.
— Estou apavorado.


Quatro graus era o que dizia na tela do meu celular, mas quando se tratava de Woodlawn, o frio de verdade era bem mais intenso do que isso.
O vento gélido da madrugada balançava meu cabelo enquanto eu escalava as grades enferrujadas do cemitério, que eram injustamente famosas pela beleza vitoriana, o que era engraçado porque significava que uma parcela enorme de pessoas admiravam a possibilidade não muito remota de pegar tétano. Do outro lado, me certifiquei de cair mais graciosamente do que da última vez, com os joelhos e as mãos intactas. Ajustei a luz da lanterna do celular para que não passasse de uma fraca iluminação e corri na direção das quadras de expansão para novos sepultamentos.
O som dos meus passos batendo com força no cascalho soava três oitavas a mais na noite silenciosa. Flocos mínimos de neve começavam a cair, misturando-se com a fumaça branca que saía pesada do meu nariz e boca e a neblina que moldava as formas humanas assustadoras da coletividade dos mortos passeando em suas rotas confusas e repetitivas. Não fui notado de novo, mas era questão de tempo. Um cara de madrugada em um cemitério, sem alargadores, incenso, sangue de galinha ou um pingente de cruz ao contrário só podia significar uma coisa.
E essa coisa não era nada divertida para os defuntos. Devia ser um saco ter alguém com um cartaz proclamando que “aqui você vai encontrar a luz! Eu te despacho até lá!”, invadindo seu ambiente de acomodação que servia bastante entretenimento e uma chance enorme de conhecer astros do rock famosos. Eles me comeriam vivo.
Diminuí a velocidade assim que vi a estátua do anjo. Parecia exatamente como naquela noite, apesar de que agora eu tinha a estranha sensação de que seus olhos brancos de pedra me observavam, confirmando seu testemunho do fatídico dia e complementando com mais um conselho: sai daqui e se poupe de ser a matéria principal do diário de notícias amanhã. A necrópole já anda cheia demais.
Afastei logo o pensamento e continuei em frente. Em poucos passos, o nome de Sandy Silo estava talhado em letras esticadas na lápide de granito acima de sua sepultura, vizinha de outras tantas que se entulhavam sob a neblina grossa. Um ramalhete de rosas brancas já quase sem pétalas perfumava o pequeno espaço, bem abaixo da foto em miniatura da garota de cabelos ruivos e olhos verdes que sorria prodigamente em um fundo azul de qualquer estúdio da cidade. Uma que, se não estivesse explicitamente relacionada ao nome escrito, eu não reconheceria.
O processo da morte envolvia uma mudança corporal absolutamente comum nas pessoas. Alguém que morre esmagado em uma batida de caminhão não vai estar esmagado quando chegar ao outro plano; pelo contrário. Os fantasmas entravam na nova realidade em sua melhor versão, e iam embora dentro dela, mas à medida que essa partida demorava, as coisas iam se transformando (para pior).
Rancor era o maior catalisador do enlouquecimento pós-mortem, tornando aqueles espíritos mais fragilizados em presas fáceis para a propaganda de filmes de terror de Hollywood. E estavam usando Sandy como a protagonista daquela temporada.
Tão jovem e bonita, uma vida inteira pela frente. Nem de perto parecia com a garota raivosa que vagava por aí em busca de vingança cega.
Ajoelhei em frente à pedra, tateando os bolsos do casaco até encontrar a pequena navalha. O nervosismo que eu já esperava começou, me obrigando a fechar os olhos e respirar fundo antes de passar a lâmina pela palma da mão.
Aos quinze anos, gritei vergonhosamente como uma menina quando o sangue quente escorreu pelo meu pulso, manchando o mostrador do primeiro Casio G-Shock que ganhei de Natal. Hoje, me limitei a trincar os dentes enquanto apertava a ferida acima do chão, deixando que o sangue caísse mais rápido do que a neve, empapando a grama e penetrando aos poucos a terra em direção a um corpo mofado dentro de um recipiente de madeira.
Ainda de olhos fechados, pensei em Sandy. Eu era ridiculamente inexperiente naquilo e, por isso, comecei a pensar na minha avó, que tinha me ensinado a técnica. Como se eu estivesse pedindo uma ajudinha. Não iria funcionar, eu sabia. Não era sobre o corpo dela que eu derramava meu sangue, formando a conexão invisível e medonha que ia puxá-la até mim, seja lá onde estivesse. Eu nem sabia onde estava seu corpo. Não tinha qualquer item pessoal para substituí-lo, naquele caso. Eu não sabia nada a seu respeito, como sua sobremesa favorita ou suas habilidades secretas de mexer na memória das pessoas.
Foi bom lembrar disso naquela hora, me deu a raiva necessária para parar de pensar nela e me concentrar em Sandy novamente. Pensei em seus olhos assustados no John Jay da primeira vez, seus lamentos no meu carro e seu andar preguiçoso por entre as prateleiras da Butler. Pensei na garota inocente que foi assassinada sem mais nem menos, por razões desconhecidas. Desejei que fosse essa Sandy que surgiria na minha frente dali a poucos segundos.
Um farfalhar de folhas às minhas costas entregou o meu êxito. Girei o corpo para o barulho, encontrando uma ruiva assustada, olhando para os lados sem entender como tinha ido parar ali de uma hora para outra. Eu só soube que era ela porque aquele procedimento (a coisa estranha no meu cérebro que, aparentemente, passava para o meu sangue e voltava para o cérebro que me deixava chamar um fantasma particular) não admitia falhas, mas quase pensei que podia ter rolado uma exceção. O cabelo longo estava ralo e falho, mais curto, grotescamente bagunçado. Os círculos escuros tomavam conta de seus olhos e lábios, e seus dedos longos e esguios apresentavam tremores contínuos, fazendo a mesma coisa nas suas pálpebras.
Sandy estava definhando.
Levantei enquanto enrolava a ferida com uma gaze que me certifiquei de trazer. Ela olhou para mim com puro espanto, enjaulada.
— O que é isso? — murmurou, a voz cortante e seca. — Como vim parar aqui? O que você fez?
— Precisamos conversar. — mantive o tom de voz firme, ainda amarrando o curativo.
Ela sumiu bem diante dos meus olhos, mas dessa vez eu estava preparado. Virei para trás imediatamente quando ela avançou sobre mim, pegando em seu braço direito e torcendo-o nas costas, fazendo seu corpo inclinar sobre a grama ao lado da lápide com seu nome.
Sandy enfraqueceu um pouco. Seus rugidos diminuíram e ela parou de lutar antes mesmo que eu tentasse tocar seu pulso, encarando o retrato ao lado das flores.
— Me-me solta! — balbuciou, balançando a cabeça violentamente. Eu não sabia se poderia segurá-la bem caso ela resolvesse dar o mesmo show do John Jay, mas não iria demonstrar isso.
— Se prometer se comportar, eu solto! — respondi. — Não adianta tentar fugir, tenho umas boas horas com você presa aqui comigo.
Ela agitou os braços de forma agressiva por um momento e segurei-a com mais força ainda, pressionando o corte recente, arruinando a gaze com mais sangue. Sandy xingou e desferiu palavrões que nem mesmo o Chris Rock deveria conhecer até finalmente bufar e se acalmar.
— Seu desgraçado de merda! — ela arfou, já com os joelhos no chão. — Me solta logo, não vou para a porra de lugar nenhum!
Esperei quase um minuto inteiro antes de soltá-la, mordendo os lábios para esconder a dor do corte. Sandy ficou de pé e me encarou enquanto balançava o braço que eu sabia que tinha quebrado, abrindo o sorriso feio e medonho que estava ainda mais feio e medonho do que da última vez.
— Você não tem mesmo medo de morrer, não é, ?
— Morrer nunca foi o problema, Silo. O problema é quem não sai logo de cena e fica aqui perturbando as ideias de quem tá respirando. Não acha que Nova York já é um saco o suficiente? — apertei o nó da gaze, travando a mandíbula. — Agora vai me dizer por que raios você não fez isso ainda?
Seu sorriso diminuiu, mas sem perder o brilho pitoresco nos olhos.
— Porque preciso levar algumas pessoas junto comigo. Descanso coletivo, .
— Que pessoas? Ash? Achei que a gente tinha deixado claro que ele não te matou.
— E você, como um bom samaritano, acreditou nele, mesmo depois de ter levado uma surra! — Sandy gargalhou. — Sério, eu achei que você fosse mais inteligente, . O número 1 do ranking, o queridinho de Stanford, o gênio com residência confirmada no Texas, qualquer um esperaria mais raciocínio da sua parte. Mas por um lado eu entendo, pode ser muito bom na arte da manipulação, ele precisa disso.
— Ninguém me manipulou.
— As vítimas manipuladas sempre dizem isso.
Pensei em responder, mas desisti. Não adiantava argumentar com Sandy naquele estado.
— Isso se refere a você também? Já que gostava tanto dele. Queria apresentá-lo aos seus pais e coisa e tal. — falei, e suas pálpebras deram mais um tique nervoso. — E levei a surra depois de ele ter me dito que também gostava de você. Então pode me explicar por que diabos ele te mataria?
— Ele é um mentiroso! Filho da puta cafaje…
— Não adianta desviar das perguntas, Sandy. Quanto mais sangue eu derramar nesse solo, mais tempo você vai ficar aqui. Então, tudo depende das suas respostas. Como vai ser?
Na verdade, eu não tinha certeza daquilo, não prestei muita atenção nessa parte da aula quando minha avó aplicou a técnica (estava ocupado demais me segurando para não chorar pelo corte errado e profundo na palma da mão), mas eu sabia mentir e era isso que importava no momento.
— Posso quebrar o seu pescoço… — Sandy soltou um barulho estranho do fundo da garganta, aparentemente deixando o ódio vir à tona.
— Por que te mataria?
— ...assim seu sangue não derramaria…
Sandy. — dei um passo à frente, torcendo para que o azar de encontrar alguém tenha ficado só naquele dia.
— Toda essa neve vai acabar congelando seu plasma…
— Responde!
— Porque ele é um covarde desgraçado que tinha medo de estar comigo! — seu grito reverberou até nas escleras, agora explodindo em linhas vermelhas e grossas, os vasos sanguíneos se alargando. — Ele… ele, aquele idiota… Tudo estava indo bem, mas então… Ele e brigaram, então ele gritou comigo. Foi do nada, não havia nada de errado entre nós e ele simplesmente saiu… Sumiu por três dias.
A tremedeira em suas pálpebras aumentou drasticamente e suas pupilas se dilataram tanto que achei que fossem estourar. Tudo nela era confuso e irreal, uma garota que não entendia as lembranças que estavam sendo despejadas no seu cérebro de repente. Lembranças que ela não tinha conseguido acessar antes, nem com muito esforço. E agora estava acontecendo…
E eu não sabia explicar como. E nem porquê. E muito menos se isso era bom ou ruim.
Que merda, Gina. Que merda. Eu avisei que não queria fazer isso.
Mas já estando ali, tentei me prender na informação. Lembrei de naquela noite na Dungeons: “A gente conversou sobre isso, eu te disse pra largar aquela infeliz…”
Nunca me perguntei porque ele disse tal coisa. Porque tinha de terminar com Sandy. O tópico era tão irrisório perto do motivo principal que me levou até ali. Mas a sensação de que o babaca escondia alguma coisa não me abandonou por um minuto desde que o vi pela primeira vez.
— Por que e brigaram? — perguntei, ao ver que Sandy olhava com um certo desespero para os lados, como se suas memórias tivessem tomado forma de monstros nos espreitando. Pensei em tocá-la para chamar a atenção, mas ela me tocaria de volta e isso tudo se tornaria um episódio imprevisível.
— Eu não sei. — Sandy foi, lentamente, colocando as duas mãos na cabeça. — Eles estavam sempre brigando, eu não fazia ideia sobre o quê. Depois ele voltou a me ligar, me pediu desculpas, foi amoroso e atencioso e daí… me ofereceu os comprimidos. — suas mãos tremeram ainda mais. Os olhos frios estavam voltando. — E daí eu morri! Por causa dele eu tô aqui, nesse frio que nem posso sentir, nessa neblina que passa por mim, nessa cidade que era o meu sonho e que virou meu pesadelo, um pesadelo que eu nem posso sair, ! Porque Ash me prendeu aqui, e continua me prendendo mesmo depois de me matar, continua sendo um sádico que sorri todas as vezes que lembra do que fez comigo!
Travei as pernas. O momento de lucidez estava passando.
— Você o viu sorrindo?
— O quê?
— Você viu Ash sorrindo e se vangloriando pela sua morte? Conseguiu invadir o quarto dele, seja lá onde for? Sabe até a cor da cueca que ele dorme? — ela me olhou com raiva. — Se tem tanta certeza disso, quero provas, Sandy. Não vou ficar no meio de vocês dois tentando adivinhar quem tá falando a verdade, se quer fazer uma acusação contra o cara, me dá uma prova concreta que eu resolvo o resto pra você.
Por um momento, achei que ela fosse avançar como um animal para cima de mim e as consequências teriam que ser novamente explicadas no ambulatório com a senhora Meals pela segunda vez em menos de um mês, mas a garota não se mexeu (mais do que seu tronco frágil já estava se mexendo). De alguma forma, pensei que ela nem podia fazer isso, mesmo se quisesse. Estava se ressentido do seu próprio corpo por não poder se mover e me dar um soco correto no meio dos dentes.
Mais um dos mistérios da invocação por sangue que eu seria obrigado a anotar depois.
— Sendo assim, o réu é inocente até que se prove o contrário. Meu pai é advogado. — apertei um pouco a mão machucada, deixando mais sangue jorrar. — não te matou, Sandy. Mas como você é o fantasma da questão, sou obrigado a te ajudar, e pra isso eu preciso que você se lembre de mais coisas, de mais pessoas. Onde estava sua colega de quarto?
— Pergunta idiota.
— Mas você vai responder.
— Ela não estava lá…
— Onde ela estava?
— Não sei, não sei. — Sandy agarrou a própria cabeça de novo, como se sentisse dores. — Eu não lembro… ela tinha um emprego…
— Que emprego?
— Nunca perguntei.
— Mas se vocês eram amigas, então ela já…
— Ela não era minha amiga! — o berro dela balançou o galho inteiro de uma árvore ao lado. — Ela só sabia me humilhar com aquela vozinha de puta, dizendo que eu não era boa o suficiente pra ficar com um cara como Ash. Deixava bem claro que se ele ainda não tinha dito seu nome, era porque me considerava mais um dos seus brinquedinhos, e que isso tudo ia acabar a partir do momento que eu fosse pra cama com ele. Ela tinha tanta certeza disso que eu acreditei, adiei o momento que, aliás, ela também garantiu que seria uma merda porque me viu pesquisando um dia como se tinha um orgasmo. No início, eu a achava tão descolada que acreditei, e até que no fim acabou estando certa sobre aquele merda, mas isso não diminui seu posto de vadia. E com certeza garante um ingresso pro inferno que eu vou levá-la.
Eu devia ser louco por manter Sandy presa prestes a ter mais um surto de raiva. Mesmo que, teoricamente, ela não pudesse me machucar, aquele método nunca era recomendado (principalmente se você estivesse sozinho, sem um padre exorcista, ou uma Gina, ou Dean e Sam Winchester), e minha avó me mataria se soubesse. Mas o ódio de Sandy estava me dando resultados, e quando o tempo se esgotasse, eu não sabia se teria uma chance daquelas de novo.
— Achei que você entendesse bem a nossa língua, porque tenho certeza que deixei bem claro o que aconteceria caso você tocasse em Ash, ou Janice, ou…
— O quê? Você vai dar um jeito em mim? Vai me colocar de castigo? Me despachar à força? — sua gargalhada reverberou até dentro dos meus ouvidos. — Nós nem sabemos o que tem do outro lado, seu idiota! Tem pelo menos três bilhões de pessoas a mais entulhando o planeta, mas ninguém vê nem sente, nem se tocam da existência delas até suas portas começarem a bater sozinhas. Gente querendo justiça, equilibrar a balança, uma coisa muito simples que a cabecinha do filhinho do advogado deve entender. E ainda tem coragem de me ameaçar…
— Tenho coragem de fazer muitas coisas, Silo. Principalmente com você, que tá começando a me irritar de verdade com essa história de ser o Rambo do além, porra. Não ouviu nada do que eu disse? Não quero saber da sua fé ou das suas revoltas, quero que você me ajude a te ajudar! Então, se você se lembrar…
De repente, um berro horrendo explodiu da sua garganta, fazendo Sandy cair de joelhos no gramado molhado. Os olhos, antes assustados, agora estavam catatônicos, mostrando um horror que derramou uma tonelada de gelo na minha espinha.
— Sandy! — corri até ela, me ajoelhando e pegando em seus ombros. — O que foi? Fala comigo! Você está se lembrando?
— Não… Para com isso… — seu estado de pânico tinha deixado sua voz tão áspera que arranhou meus próprios ouvidos. Ela não parava de olhar para os lados. — O que são essas coisas? O que elas querem de mim? Quando foi isso...
— Sandy, presta atenção em mim. Olha pra mim! — gritei, conseguindo sua atenção por um momento. — Se concentra e me diz o que você tá vendo.
— Não… Não faz sentido. Ele não me disse isso, não foi isso que me mostrou… — ela agarrou o colarinho do meu casaco. — KL… D... 89… 6… O acidente na rodovia, a troca do poste, ele… o garotinho perdeu todos os dentes da boca. Alguém tirou e os espalhou… A Janice, ela me ofereceu…
E, de repente, foi como se tirassem a garota da tomada. Sandy ficou imóvel, a carcaça de uma pessoa que antes carregava ódio para dar e vender. Balancei seu ombro de leve, mas ela nem parecia estar me vendo. Só repetia palavras desconexas, para o vento, as árvores, qualquer coisa que estivesse no ambiente.
— Que acidente? — tentei perguntar e ela balbuciou algumas palavras. — O que Janice fez? Sandy, não dá pra parar agora, preciso que continue se lembrando. Vamos, sei que você consegue, eu posso te ajud-
De repente, sua boca se escancarou em um grito seco, os olhos medonhos direcionados para algum ponto atrás de mim. Um horror genuíno que piorou sua palidez fantasmagórica, e cessou todos os sons ao redor.
Silêncio. Silêncio gordo e maciço.
— Ele está aqui… — o último fio de sua voz disse.
Virei para trás tão rápido que precisei apoiar um dos braços para não cair. Não vi ninguém, absolutamente ninguém. Me coloquei de pé, analisando cada mísero pedaço da cena onde eu me encontrava, para qualquer ponto que meus olhos alcançassem. Uma gota de suor desceu pelas minhas costas, me deixando ouvir até as batidas aceleradas do meu coração.
O choro de Sandy recomeçou. A neblina espessa penetrou dentro da minha cabeça, me deixando tonto e com uma sensação estranha de ter me distanciado. Pisquei rápido, balançando a cabeça. Procurei por Sandy.

Quando me virei para olhá-la, já não estávamos mais sozinhos.
Apesar das mudanças bruscas, ela finalmente parecia a garota perdida e frustrada que tinha invadido meu carro há algumas semanas. Estava de pé, com o choro preso na garganta, tentando contê-lo. Olhava para baixo, intimidada pela presença que agarrava seu braço direito e olhava diretamente para mim.
Eu poderia passar por aquela situação milhares de vezes e ainda assim não me acostumar nunca com a sensação tenebrosa de ter todo o oxigênio drenado dos pulmões.
A fumaça negra envolvia cada centímetro de pele dele, como se tivesse pintado toda a cerração que serpenteava aos nossos pés, tornando tudo ainda mais escuro e ameaçador. Uma vastidão de angústia e desespero que ele infligia só por estar ali, parado, sem mover um músculo. E se era sua intenção me deixar com medo, infelizmente estava conseguindo. Eu estava.
Pelo visto, ficar em casa e tomar chá lendo as últimas publicações do PubMed era mesmo uma ideia melhor.
Meus pés não se moveram, nem sei se deveriam. Estava ocupado demais tentando manter O₂ no meu corpo, e principalmente no meu cérebro, porque sentia que eu poderia apagar. Ele devia estar louco por isso.
Em um movimento gracioso, a coisa se inclinou de leve para o lado, aproximando os lábios no pé da orelha de Sandy, sussurrando palavras que eu não conseguia ouvir. Aos poucos, o choro dela foi cessando e sua tremedeira também estava indo embora à medida que ela absorvia seja lá o que estava sendo dito. O efeito foi instantâneo e extremamente assustador.
Fiquei com raiva. Tanta raiva que me esqueci do fato de que estava com medo.
— Sandy, não escuta ele! — gritei, fazendo-o parar no ato. — Sai de perto dele agora! Ignora tudo e olha pra mim! SANDY, OLHA PRA MIM!
Disparei para frente na mesma hora em que ela levantou a cabeça. Eu não sabia o que ele estava fazendo, mas interrompi seu processo pela metade. Sandy conseguiu parar de chorar, mas os mesmos olhos amedrontados preenchiam a expressão perdida que ela tinha segundos atrás, que tinha desde que eu a conhecera. Ela olhou de mim para ele lentamente, num vai-e-volta do transe bizarro que o novo elemento estava lançando com seus dedos cuidadosos.
Por outro lado, não dava para dizer o mesmo da aparência geral dele. Sua pele era branca, lisa e fria, escondida por roupas pretas e a fumaça grossa que parecia expelir dele como chaminé. Tinha alguma coisa inglesa no modo como ele se posturava, como movia os braços, fazendo que tudo sobre ele formasse uma reação bastante sólida e direta para quem estivesse por perto.
Medo. Nada além disso.
A coisa deu uma risada escarniciosa e voltou-se para Sandy, me ignorando.
— Solta ela! — gritei de novo, agora direcionado para ele. — Disse para soltá-la AGORA, seu imbecil!
Eu não sabia o que estava fazendo.
Eu não tinha nenhuma vantagem em uma luta. Duvido que um gancho de direita confira algum dano naquele idiota, e no final, eu seria amassado e enrolado como brigadeiro de festa e cuspido naquele gramado gelado. E mesmo com essa previsão bem gráfica, não consegui tomar a decisão mais racional e inteligente de toda a minha vida, que seria sair dali. Porque, assim como cortar minha região palmar média para segurar uma alma penada e conseguir respostas, não podia perder a oportunidade de observar de perto um ser milenar que não era conhecido por nenhuma cultura, religião ou folclore.
Ele foi soltando lentamente o braço de Sandy, virando o rosto para mim. Quando cravou os olhos totalmente negros nos meus, eu sabia que iria morrer.
Na fração de segundo seguinte, o vulto já estava na minha frente, alguns centímetros mais alto do que eu, implementando um toldo escuro e impenetrável sobre nós dois. Não dava para ver mais nada ao redor, nem árvores, lápides ou Sandy. E mesmo se desse, eu não saberia já que meu pescoço ficou repentinamente duro e incapaz de girar, como se ele tivesse amarrado minhas pernas ao chão e me hipnotizado para olhar somente em seus olhos.
Olhos esses que baixaram minha pressão e transformaram Nova York no Polo Norte. Não dava mais para disfarçar a tremedeira no corpo todo acontecendo involuntariamente, a prova master de que as rodas do meu córtex motor não estavam funcionando como deveriam. A assombração me avaliou de cima a baixo, um sorriso grotesco esticando os lábios, claramente se divertindo com o que quer que estivesse fazendo comigo.
. — a voz parecia um canto, suave como a melodia de uma caixinha de música. — Tsc, tsc. Você é muito teimoso. Igualzinho ao seu pai.
Acompanhei meus pensamentos, fluidos e silenciosos demais para o meu gosto. Ignorei a garganta fechando. Nem ia perder o meu tempo tentando perguntar como ele conhecia Anakin , porque não era de Anakin que ele estava falando.
— O seu desejo de morrer é absolutamente esplêndido. Espetacular! Bravo, à toda essa genética! — seus braços se levantaram lado a lado quando a boca se abriu para gargalhar, cantando uma vitória. — Dá vontade de virar o seu cérebro todinho do avesso só pra conseguir ler essa configuração… se eu já não tivesse feito isso.
Quando finalmente achei minha voz, ela saiu em um sussurro árido, espesso, como se não proferisse palavras há vários dias:
— De q-que merda você-
— Oh, não, pobre rapaz. — seus dedos pálidos cheios de veias se juntaram no peito. — Peço que me perdoe a inconveniência, sempre insisto em esquecer da sua vida atual totalmente forjada sob um sobrenome aleatório que lhe foi dado por duas amadas almas extremamente tediosas. Mas você gosta deles, né? Mesmo que a curiosidade sobre sua origem apareça algumas vezes, você dá um jeito de se livrar dela rapidinho porque pensa no doce e gentil casal , entristecidos pela infertilidade, mas reencontrando a felicidade em um garotinho do Melbourne. E eles cuidaram tão bem de você, todos assistiram. Como poderia sequer cogitar pensar em quem foram as pessoas que o deixaram na frente daquele portão sujo e fedorento quando ainda nem sabia falar? Um passado em branco é melhor, é adorável.
Cerrei os punhos, mas não conseguia fazer mais do que isso. Estava com todos os sintomas de uma pré-síncope, mas sem a parte de ouvir sons abafados, porque a voz daquele desgraçado estava bem alta e clara, tão perto que eu poderia apontá-la e tocá-la de cada lado.
Ele continuou:
— Ainda assim, sua personalidade é fascinante, espantosa. Existem pouquíssimas pessoas no seu acervo sentimental, e elas ainda são interessantíssimas. Como a belíssima Gina Lasser, selvagem e sedutora. Gostaria muito de vê-la de perto, especificamente em uma dança…
Consegui dar um passo à frente, mas seus dedos me tocaram mais uma vez, me impedindo. Meu corpo não reagia àquele toque. Eu queria falar, gritar, entoar o único verso em latim que aprendi com a Madame, mas meu corpo parecia um balão de gás hélio.
— Calma, meu jovem. Tenho que destilar algum elogio sobre aquela pérola entre os porcos. Acredito que, sem ela, você não seria quem é hoje, lidando tão bem com a habilidade infame que permite nossa comunicação neste exato momento. Claro que o cômico senso de justiça já estava no seu sangue, mas posso apostar que ela o ajudou a melhorá-lo, mesmo que indiretamente. É uma pena, ela não merecia ter sido largada daquele jeito, até pior do que você. Mas com a família que teria, acredito que teve sorte ao ser encontrada por aquela velha gorda.
Pisquei com força. Reparei, com a visão turva, que ele tinha símbolos tatuados em todo corpo. Traços grotescos de língua copta, sânscrito, e algo que, provavelmente, ninguém no mundo vivo saberia o que é. Poderia supôr que era grego, ou poderia supor qualquer coisa para não ter que escutar o que ele dizia, tagarelando enquanto entrava na minha vida do jeito mais filha da puta.
— E quanto ao garoto esquisito que correria se descobrisse seu segredo? Como é mesmo o nome dele… — a coisa tinha sobrancelhas retas e praticamente perfeitas, que se juntaram em uma falsa expressão pensativa. — , isso. Outro na sua lista de pessoas importantes. Fascinante! Esse jovem sempre dá um jeito de me surpreender, e acredite, não sou facilmente surpreendido. A lealdade que ele possui por você é, no mínimo, assombrosa. E com certeza você já deve ter notado isso, mesmo com toda a estupidez que ele fala, ouve e veste. E ainda assim, você nunca disse a verdade, nunca se sentiu pronto pra incluí-lo nessa parte da sua rotina. Não é esquisito pra quem vive o regime de melhores amigos?
Abri a boca para mandá-lo calar a dele, mas nenhum som saiu.
— Não posso dizer que é uma má ideia. — continuou serenamente. — Afinal, ele é seu único amigo e posso sentir o desespero para mantê-lo por perto. Faz sua vida parecer mais normal, né? Ter alguém que divida uma bebida ou um cigarro com você, sem considerar o fato de que você pode estar vendo uma alma morta vagando por detrás de suas costas e que elas podem falar. E até atacar. É um fardo muito grande para atribuir a alguém. Vemos que a maldita nobreza também te apetece, assim como seu pai. Deslumbrante!
Tinha certeza de que meus dedos já estavam brancos com a força dos meus punhos. Alguma coisa queimava dentro de mim, lutando para sair, mas não conseguia sucesso. Não dava para saber o que exatamente ele estava controlando ali. E seu sorriso debochado me deixava em conflito: ou eu partia para cima dele, correndo o risco real de morrer, ou fazia as perguntas que eu sabia que estavam vindo, uma tonelada delas, perguntas que eu me odiaria pelo resto da vida por fazer.
Tentei fechar os olhos com força, em uma tentativa desesperada. “Vó, se você estiver ouvindo, agora seria uma boa hora para aparecer e se meter nos meus problemas de novo.”
— Ela não vem, garoto.
Abri os olhos na hora. Ele ainda sorria, agora com um prazer genuíno pela minha surpresa.
— Não vou mentir, não se pode subestimar aquela velha, ela soube muito bem como proteger você por todos esses anos. Apesar de tudo que fez! É hilário assisti-la compensando os seus erros do passado, te educando na sua habilidade e te ensinando técnicas perigosas como aprisionar um fantasma raivoso. Hilário! Não bastasse tudo isso, ainda tendo sucesso em te privar de toda a verdade sobre seus progenitores. Realmente, ela não é qualquer mulher. Não excluindo sua notável habilidade extra com as mentes, mesmo que ela diminua drasticamente no outro plano. Ou você acha mesmo que eu sou o primeiro que você vê?
Firmei os joelhos. Precisava encontrar algum mecanismo para mantê-los no lugar e para que a porra do meu pulmão parasse de pedir socorro, como se aqueles próprios dedos horrendos de unhas compridas estivesse ali, apertando meu órgão, mudando a rota de passagem de toda a minha corrente sanguínea.
Se eu não estivesse no meio de tudo isso, até poderia me chocar com o que ele disse, mas com a mente embaralhada do jeito que estava, nenhuma resposta sairia à altura. A única coisa que minha mente processava era a escuridão, sua amostra de dentes perfeitos porém sujos, e as inscrições na sua pele que eu não conseguia decifrar, mas deviam ser uma identificação. Um rótulo marcado em línguas mortas, distantes do conhecimento moderno e, assim, mais difícil de ser invocado.
Seja lá qual fosse o nome da criatura, duvidava muito que os gregos antigos ou qualquer outra civilização teriam uma palavra para ele.
— Cala a boca… — levei a mão direita ao peito, apertando a camisa, como se isso diminuísse o aperto nas vias respiratórias. — Não quero ouvir… mais nada de você, não preciso-
— Não quer ouvir? — o espaço de dez centímetros que nos separavam diminuiu quando ele chegou mais perto. — Mas ainda nem começamos a falar sobre o principal. Sobre o motivo de todo esse infortúnio. Você sabe de quem estou falando, né?
O sorriso em seu rosto lascado desapareceu de imediato. Aquela raiva sem igual tomou conta de mim ao mesmo tempo que vi o lampejo da mesma raiva salpicar os olhos dele. Eu sabia o que o babaca diria antes mesmo das palavras saírem da sua boca.
— Por onde começamos a dialogar sobre minha doce garota do Queens, que agora dorme profundamente em sua cama vitoriana, trajada de uma linda camisola de seda com detalh-
Nem sei como aconteceu. Esse tempo todo me sentia grudado ao chão, petrificado de um medo que congelava minhas artérias, espantado demais para dizer alguma coisa. Mas o ódio que ele estava enterrando dentro de mim finalmente explodiu, e nem percebi quando meu punho acertou em cheio seu nariz, desfazendo a redoma preta, quebrando o desequilíbrio ambiental que a sua presença trouxe, me deixando voltar a respirar.
Cambaleei para a frente, pousando as mãos nos joelhos, arquejando com o ar frio que entrava pelas minhas narinas. Eu podia ver tudo de novo. A grama misturada com a neve que ainda caía, as árvores ao redor, as diversas pedras cinzas marcadas com nomes, as flores que enfeitavam as sepulturas. Pude ver Sandy no mesmo lugar, parada com o rosto em choque, como se eu tivesse acabado de sair de debaixo da terra cheio de costuras no rosto e larvas na boca.
Totalmente compreensível. Por um minuto, eu também achei que viraríamos vizinhos de cova.
Obriguei todos os músculos do meu corpo a ficarem em estado de alerta quando ele se mexeu. Pude jurar que tinha investido toda a minha força naquele soco, mas ele apenas cobriu a área atingida e deu um passo para trás, sem emitir som algum. Quando os dedos se afastaram o suficiente para que eu visse seus olhos de novo, eles pareciam ainda mais negros do que antes, brilhando tanto que irritava as minhas próprias pupilas, como se eles fossem vidro banhado à luz do sol. O som da sua risada grotesca atravessou meu corpo inteiro como choque eletromagnético, me cedendo mais um pouco daquele medo de merda que eu estava odiando sentir.
Eu sempre soube do que diziam sobre ver um espírito maligno rindo, mas a maioria das pessoas não fazia ideia do que aquele som causava de verdade.
No meu caso, o ódio foi fervendo até, finalmente, ultrapassar o medo. Parti para cima dele de novo, dando socos aleatórios como uma criança, sem saber o que estava atingindo. Quando senti a carne de seu maxilar no meu punho, soquei com mais força, descontrolado, entregue a um coquetel de emoções difíceis de explicar. Não era só por Sandy e por tudo que ele estava fazendo com ela. Não era só pela perseguição mortal pela alma de . Era por mim, pela minha vida, por coisas que eu não sabia e ele sim, por coisas que eu repeti a mim mesmo que não queria saber, por toda merda de sentimentos que ele estava arrancando de mim à força naquela hora. Quem diabos ele pensava que era?
Mas então, como se tivesse deixado eu extravasar toda a minha raiva nele por pura gentileza e agora decidisse que a brincadeira tinha acabado, ele pegou em meu pescoço com uma mão só e, em um movimento rápido e firme, com pés deslizando pelo gramado, me lançou com brutalidade na árvore mais próxima, como se meu corpo não pesasse mais do que um graveto. O próximo som foi da minha cabeça batendo com um som seco na madeira, me fazendo grunhir alto enquanto minhas costas despencavam no chão frio.
Fiquei zonzo, confuso, completamente fora do planeta Terra enquanto meus neurotransmissores surtavam pelo impacto. Tentei piscar rápido, mover os braços, tudo para não apagar, mas ele não me deu esse tempo. Pelo colarinho do meu casaco, fui erguido de novo como se não passasse de uma sacola plástica, forçado a encarar seus olhos negros e diabólicos bem de perto, ainda levemente elevados pelo sorriso insistente no rosto.
Por um momento, pude sentir a sombra negra novamente tentando aparecer e me fechar ali, junto a ele, para me deixar imóvel e vulnerável de novo. Mas agora eu sabia. Sabia que aquilo era um truque, que ele estava na minha mente. Sabia que sim, ele era real, era bem real, mas não aquela sombra, não a redoma sombria que pairava sobre nós. E eu não a deixaria me tomar de novo.
— Formidável. — murmurou em voz doce, o sorriso se alargando, a mão firme no meu peito me prendendo contra o tronco da árvore. Alguma coisa estava latejando com força na minha testa, descendo em cascata pela bochecha. — Lutando contra a minha prisão? O que mais você sabe fazer?
— M-me l-larg-
— Bem que eu notei que você se soltou bem rápido da última vez, assim como acordou antes do tempo no hospital. É difícil imaginar um comunicador qualquer fazendo isso, sem nenhum histórico de lutas de verdade. — me debati ainda mais. Havia o espaço de uma agulha na minha laringe, pequeno demais para passar oxigênio. — Você é… especial. De alguma forma maluca, mas é, garoto, acredite, é sim.
Aqueles olhos de repente ficaram grandes demais, olhando através de mim, refletindo a minha própria careta de pânico. Os mesmos olhos dos pesadelos, os mesmos olhos assassinos que encaravam na madrugada chuvosa no Simmer Down. Eram os olhos de um demônio.
Talvez era essa a palavra que Gina queria usar para descrevê-los. Talvez ela só não tinha coragem de dizer.
Ele inclinou a cabeça para o lado, me avaliando, procurando por uma guarda baixa, ou algum outro segredo ou sentimento que não estivesse escondido o suficiente para puxar e esfregá-lo na minha cara. Meu coração pulsava loucamente no peito, tentando pensar o que era, o que poderia ser. Por mais maluco que parecesse, preferia que ele me surrasse até a morte a ter que ouvir seus relatórios sobre meu subconsciente.
Seja o que fosse que viu em mim, pareceu deixá-lo feliz, porque soltou uma gargalhada escandalosa a ponto de seus ombros tremerem tanto que pensei que me soltaria sem querer.
— Garoto, estou deveras encantado com o nosso encontro, não posso negar, você é mais interessante do que eu pensei. E cacete, infelizmente nem posso explicar por quê. — mais uma risada, dessa vez com um tom aveludado e amargo ao mesmo tempo. — Preciso concordar com aquela velha. No seu caso, a ignorância é a maior das bênçãos.
Trinquei os dentes e tentei me mover antes que ele começasse mais um monólogo invasivo, mas mal pude me mexer. Ele restringiu o aperto e, de uma forma inexplicável, minhas pernas não se moviam. Mesmo sem a redoma, mesmo sem a escuridão.
— Você acha que aprendeu todos os meus truques? — ele ergueu uma sobrancelha sutilmente, agora tirando o sorriso sacana dos lábios, retornando a expressão séria, o rosto duro como pedra, exalando um terror infindável em mim. — Vamos começar a conversar: seus números de heroísmo perderam a graça. No dia daquela festividade horrenda, cheia de humanos imundos querendo provar alguma coisa enquanto bebiam cerveja ancorados de cabeça para baixo, eu sabia que tinha sido visto. Ah, eu sabia. Por um momento, achei que estava louco. Não era possível, um deles por aqui, depois de tantos anos que vi o último. Mas não me importei, afinal, você não tinha nada a ver com a minha garota. Ou, ao menos, pensei que não teria.
“Mas então você estava com ela naquele bar sujo e fedido, e foi quando pude notar que você estava disposto a interferir. Não sabia o que estava fazendo, era óbvio, mas sabia o que eu pretendia fazer e não se segurou até executar seu primeiro ato de herói. Moleque estúpido. Naquela mesma noite, observei você. Observei dentro de você. Pensei em agir de uma vez, de forma limpa e rápida, mas eu sabia que era questão de tempo até que você se abrisse com sua velha mentora e ela te alertasse sobre a situação. Ah, com certeza ela te alertaria.”
“Mas, antes disso, você resolveu atacar novamente com o seu heroísmo. Veja bem, , vou te dar uma breve explicação dos fatos: aquela garota bem atrás de nós, a estudante de Direito mirrada e estúpida que foi assassinada sem motivos aparentes, quer uma coisa muito simples: vingança. E ela precisa disso, compreende? Ela precisa matar a pessoa que causou isso primeiro, por uma questão de educação clássica. Se vai levar algumas outras pessoas ou arquiteturas colossais no processo? Francamente, não me interessa. Sei que minha garota está bastante interessada nela, o que a torna uma bela isca para todo o espetáculo que eu planejo e ainda assim ajudo uma morta desesperada por justiça. Acredite quando eu digo que não há espaço pra você e suas manobras nessa festa particular.”
“Ainda assim, tive de lidar com sua intromissão mais uma vez naquele estacionamento. Eu tinha finalmente conseguido entrar na mente da garota Silo, plantando a certeza de uma vez por todas que aquele marginal havia feito isso com ela, mostrando-lhe lembranças convenientes, até lhe revelei seu nome verdadeiro, apertei ainda mais o cerco pra deixar claro que ela tinha de agir com as próprias mãos, que só assim ela iria conseguir toda essa conversa fiada de paraíso e que mediador nenhum faria isso por ela. E eu estava conseguindo, ah, como estava, meu rapaz, ela foi atraída pela justiça rápida e menos burocrática que não conseguiria confiando em você.”
Engoli em seco, o rosto lívido demais para tentar disfarçar o sentimento explícito de choque.
— S-seu… — tentei falar, tentei manter a voz firme. — Você nem sabe se -
— E afinal, quem sabe? — ele aproximou um pouco mais o rosto de mim. — Acho que você ainda não entendeu minha total falta de interesse pela garota Silo e tudo que aconteceu a ela. Ela estava fraca, vulnerável, desprotegida e tinha alguém em mente. Bingo! Foi como dar a mão a uma criança perdida e dizer que a levaria pra casa. Tão, mas tão fácil.
“Se o garoto das drogas morresse naquele dia, minha garota ficaria aflita. Ela poderia ligar os pontos, mesmo que não fosse encontrar nada, mas se afundaria neste caso, pode ter certeza que sim. Ela é inteligente, muito inteligente, aposto que sabe, e tem sentimentos guardados tão pesados que não a tornam 100% cética, você compreende? São coisas realmente sombrias, que tomam forma de vez em quando com a minha ajuda, com certeza. Tenho um passatempo peculiar de visitar os seus sonhos de vez em quando.”
Mais uma vez a raiva, a vontade de atacá-lo e mandar que calasse a boca, mas novamente sua habilidade estranha não me permitia, e ele continuou:
— Aos poucos, eu entraria tão fundo, mas tão fundo em sua mente que drenaria toda a sanidade dela, garoto, não duvide disso. Às vezes é difícil, eu admito, tenho tentado por sete anos e fiz pouco progresso. Ela também é uma garota especial, não como você certamente, mas é especial. Mas o acidente seria uma ladeira difícil de pará-la. Ela encararia como um desafio e se entregaria, e isso me abriria portas para seu interior, e sua morte aconteceria de forma quase cinematográfica, honrosa até. O sangue e a loucura dela são como a enorme cereja do maldito bolo. Tudo estava encaminhado. Mas, como disse, você não se aguentou.
“Naquela hora, você não era mais apenas um garoto inconveniente, metendo o nariz onde não era chamado. Você me deixou com raiva. E, acredite, o que fiz com você naquele estacionamento não chegou nem perto do que eu poderia. Poderia te deixar em coma pelo resto da sua vida e seus pais patéticos jamais desligariam os aparelhos com a esperança de te ver retornar, mas ninguém os avisaria que era uma perda de tempo porque você não teria mais a sua alma. E ela estaria presa no vazio para sempre, convivendo consigo próprio até definhar e virar parte do próprio nada.”
“Tive paciência e me levei a crer que você era, afinal, um garotinho assustado. Que minha demonstração te deixaria tão apavorado que você nunca mais ousaria olhar para minha garota de novo. Mas então algo realmente magnífico ocorreu fora dos meus planos e nada teve a ver com você, . Tudo aconteceu por culpa da vadia ruiva bem atrás de nós, que tentou descaradamente roubar a vida da minha garota, como um mero teste da minha paciência. Me vejo obrigado a te informar que ela luta mais do que eu gostaria quanto ao controle que eu imponho, mas, no final, ela sempre volta para mim. Nisso você pode ter certeza.”
“Naquele dia, neste mesmo cenário onde conversamos agora, você chegou aqui tão rápido como uma bala ao menor sinal de ameaça da ruiva em relação à garota. Tsc, tsc — ele estalou a língua. — A Silo não sabia de absolutamente nada naquele dia. Ela estava lutando contra mim de novo e viu sair de casa pra vir nesse mesmo lugar. Ela caminhou lentamente até a avenida, passou pela Four Seasons para comprar o mesmo ramalhete de orquídeas e pegou o primeiro táxi. Chegou aqui minutos antes de fecharem as portas e se lamentou por horas a fio nas duas sepulturas conjuntas do pai e do irmão. Ela repete esse ritual mais vezes do que você imagina. A única diferença é que, naquela ocasião, ela guardou uma única flor para deixar no túmulo da Silo, como um sinal da mais pura solidariedade.”
Parei de lutar. Me lembrei imediatamente daquela noite, quando fiquei tão apavorado com a ameaça de Sandy que quis arrastar dali o mais rápido possível e não dei atenção alguma às suas explicações. “Não é nada disso que você está pensando…”
“Depois do seu resgate ao garoto da Harley, Sandy ficou desacreditada com a minha promessa e quis descontar na minha garota. Não vou negar, acho que exagerei um pouco com ela, mas acredite, ela não seria capaz de fazer mal algum à . Eu chegaria primeiro de qualquer forma. Mas foi tocante vê-lo correr para salvá-la, ao mesmo tempo que extremamente irritante. Ali eu tive a certeza de que você não tinha entendido nada e muito menos aprendido a lição. Isso me deixou com raiva, garoto, muita raiva. Você ainda estava tentando interferir, mesmo agora sabendo dos riscos.”
“Tive de tomar medidas um tanto inesperadas, como perder o meu precioso tempo entrando em sua mente dia após dia, dando-lhe pequenas doses do que eu poderia fazer e ainda posso caso você não se aprumasse e sumisse do meu caminho. Ah sim, rapaz, sei o quanto você ficou perturbado com todos os sonhos enigmáticos e as lembranças do desespero, eu sei bem, mas eu esperava que o recado estivesse no mínimo simplório: desapareça de toda a história que não te envolve e continue a viver sua vida patética como viveu até agora. Aprenda de uma vez por todas que o destino é mais forte do que eu, você e todos nós. Não costumo avisar duas vezes, muito menos três, portanto considere-se com sorte de eu te deixar viver mais um dia.”
Fui largado para trás de novo, escorregando pela árvore até sentar. Suas últimas palavras saíram como lâminas afiadas em direção a todo o meu corpo, uma ameaça velada (a última). Ele deu um sorriso sarcástico enquanto se afastava lentamente, exibindo a postura elegante de alguém que sabia ter feito uma apresentação bem-sucedida de um projeto (no caso, dele mesmo). Tossi violentamente, a integridade dos pulmões quase comprometida, o sangue empapando a lateral do rosto inteiro até o pescoço. A confusão mental do impacto podia ser uma concussão, ou algo menos fodido, mas nada disso importava naquela hora.
Se eu ficasse quieto, ele iria embora. Levaria Sandy com ele e juntos concluiriam o seu plano maligno que terminaria não só com e mortos, eu tinha certeza, mas com quem desse na telha. E ele só tava pedindo que eu aceitasse e ficasse fora de seu caminho. Como se fosse simples, como se não fosse uma insanidade.
Mas ele não podia ir embora. Não ainda.
— Por quê? — minha voz saiu seca, rugosa, e mesmo sem ver eu sabia que toda cor tinha deixado meu rosto. — Por que ela? Por que você tem que matá-la? O que significa tudo isso?
Ele parou no mesmo momento e o ombro subiu e desceu com risadas. Ele virou-se para mim novamente, caminhando de forma descontraída, como se eu finalmente tivesse feito a pergunta que ele tanto queria ouvir, uma que ele explicaria com prazer (ou só continuaria brincando com mais enigmas).
— Ora essa, é claro que você perguntaria isso. Veja bem, garoto, queria muito poder te responder, mas sinto que não devo. Já te revelei muitas coisas em uma só noite e acredito que você vai ter muito o que pensar daqui para frente, sem interferência minha. E ah, sim, nem vou mencionar sobre esses sentimentos confusos que você anda nutrindo pela minha garota, porque é desnecessário. Acho que consegui deixar bem claro que não é muito inteligente me confrontar.
— Não tenho… — comecei a dizer, mas travei. E tinha certeza de que nenhum truque dele estava agindo sobre mim naquela hora.
Ele arqueou as sobrancelhas, esperando que eu continuasse.
Seu sorriso vitorioso me fez ter vontade de quebrar todos aqueles dentes.
— Você é um rapaz inteligente, . Se estivéssemos em um dia comum, eu te aconselharia a ser mais honesto consigo mesmo em relação a toda essa coisa sentimental, mas hoje não. Não por ela. Hoje quero apenas que você volte pra casa lembrando-se porque ainda está vivo. Porque eu permiti.
E então ele desapareceu em um piscar de olhos, levando Sandy junto com ele, me deixando sozinho com uma micro-hemorragia e os fantasmas que plantou na minha cabeça.



Continua...

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NOTA DA AUTORA > Oiê! Bem-vinda ao meu tesouro!
As palavrinhas no dicionário são poucas e muito rasas pra explicar o que toda essa história significa pra mim. Toda escritora que se preze tem um sentimento especial sobre a sua primeira obra, e os meus são tão grandes e expressivos que não cabem aqui nessa notinha. Finalizei GF faz mais de 2 anos, mas sigo falando sobre ela e divulgando pra quem quer que seja porque acredito que esse tipo de história é atemporal, é divertida e instigante ao mesmo tempo. Hoje em dia eu ando reescrevendo essa epopeia, mas acho justo para aquelas que quiserem saber o que esperar, ver tudo que tá contado aqui, nessa fic cheia de WTFs e outros xingamentos, mas também muita risada e até um pouco de tristeza (vamo ser sincera, né).
Se você nunca leu, tenho certeza que seu último pensamento depois do final será: "ainda bem que eu parei aqui." E ainda bem mesmo! Foi um prazer te mostrar isso. ఌ︎.
E eu tenho outras histórias pra contar, caso você tenha ficado interessada! Me segue no instagram (@sialversion) ou pode ir direto na minha página de autora que lá tem de tudo um pouco.
Beijos,
Sial.


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