Autora Independente do Cosmos ✨
Atualizada em: 27/06/2026
2019
Cruzei meus braços na altura dos seios, encostando o meu corpo contra o batente da porta, encarando o casal se pegando, totalmente alheio à minha presença. Aquele era o meu quarto, meu local de privacidade, e agora estava sendo servido como um espaço onde duas pessoas estavam prestes a fazerem uma tremenda sacanagem.
Eu não me importava que Luke chamasse seus amigos e comemorassem algo que eu nem tinha conhecimento, afinal de contas, a casa era dele. Mas aquele era a porra do meu quarto; a única coisa que eu pedia dos seus convidados era um pouco de decência de não se enfiar na minha cama para fazer sujeira com os meus lençóis. Caramba, eu dormia ali.
Quando o desconhecido — que eu tinha certeza que também era jogador e jogava no time da Inglaterra com meu irmão —, começou a enfiar a mão por baixo da saia da mulher, levantando o pano até o meio das coxas dela, tomei uma atitude e pigarreei alto o suficiente para anunciar a minha presença. Eu não era uma pessoa de escândalos; quanto mais simples resolvesse um problema, melhor.
Os dois pararam de se beijar e afastaram as mãos um do outro, os corpos virados na minha direção, como quem sabiam que tinham acabado de serem pegos no flagra. Nem ao menos se deram o trabalho de fecharem a porta.
— Quem é você? — ele perguntou.
As bochechas vermelhas denunciavam seu esforço. Eu o conhecia de vista, mas estava sendo difícil me lembrar do seu nome. A garota ficou em silêncio, ajeitando o cabelo da maneira mais discreta que ela conseguiu encontrar, mas sinceramente, a atenção nem mesmo estava nela agora. Eu não me importava com a aparência de nenhum dos dois. Me afastei do batente e soltei um suspiro, apontando para o quarto inteiro.
— A dona desse quarto — respondi, como se fosse óbvio.
Ele finalmente parou para prestar atenção. Seus olhos pararam nos quadros de fotos em cima da escrivaninha, então se voltou para mim, soltando um xingamento baixo e rápido.
— Você é a irmã do Shaw?
Entrei no quarto, apontando para a porta atrás de mim, indicando a saída para os dois.
— Vazem.
A garota loira sequer esperou; passou por mim com uma rapidez impressionante, ajeitando o vestido conforme andava. O jogador inglês, no entanto, permaneceu exatamente onde estava.
— Você está diferente nas fotos.
Considerando que eram fotos antigas, do começo da minha adolescência, não me ofendi com o comentário. Meu cabelo estava mais curto nas fotos, as mechas pintadas de roxo e rosa, enquanto agora os fios estavam mais longos, lisos e pretos.
— É um elogio? — provoquei.
Ele não respondeu. Ao invés disso, seus ombros se mexeram e ele ajeitou a camisa no corpo. Eu conseguia sentir o cheiro de bebida alcoólica e nem estava tão perto dele assim.
— Sinto muito por isso — ele apontou para si mesmo e depois para a porta, indicando a mulher que tinha ido embora. — Eu sei que parece que eu…
— Estava prestes a fornicar na minha cama? — interrompi.
Ele enrugou a testa, depois apertou a ponta do nariz, reprimindo uma risada. Ele era muito bonito, reparei, distraidamente, enquanto mantinha meus olhos em cada movimento repentino que ele fazia. O jogador andou um pouco para trás, encostando-se contra a minha cômoda.
— Ninguém mais usa essa palavra — avisou.
Umedeci meus lábios, mexendo a minha cabeça lentamente. Eu tinha acabado de chegar de uma viagem longa, de uma temporada ruim de desfiles, e estava cansada pra caramba. Tinha deixado as minhas coisas lá embaixo, mas comecei a tirar os meus sapatos, sentindo a necessidade de ficar descalça e sentir o chão gélido sob meus pés.
— Você só está se desculpando porque foi pego — apontei, me livrando dos sapatos, começando a amarrar o cabelo em um coque no topo da cabeça.
— E você tem uma língua afiada.
Sem me deixar abalar, fui até o banheiro, verificando se eu ainda tinha os produtos de cabelo. Ele não parecia nem um pouco disposto a realmente me deixar em paz.
— Não me sinto compelida a ser legal com alguém que ia fornicar com uma mulher na minha cama — rebati, usando a palavra apenas para provocar.
Ouvi a sua risada do banheiro e engoli a seco com a sensação que o som dela me causou. Sempre me mantive longe de qualquer colega com quem Luke trabalhava, eu não podia deliberadamente me atrair justo por um.
— Sério — ele começou a dizer —, ninguém mais usa essa palavra.
Uma música suave começou a tocar, vindo do andar de baixo. Eu nem tinha ideia de quantas pessoas havia dentro da casa; Luke nem mesmo me viu chegar. Ele não costumava ser muito festeiro, mas gostava de chamar alguns caras — e mulheres, aparentemente —, para um churrasco no jardim da casa. O clima de Manchester nunca estava muito favorável, mas ninguém ligava para isso.
— .
Saí do banheiro, encarando o jogador inglês. O som do meu nome saindo da sua boca não era algo que eu estava esperando ouvir. Ele cruzou os braços, o canto da boca estendido em um sorriso meio escondido.
— Como você sabe…?
— O Shaw fala de você — respondeu, me encarando com humor e uma mistura de diversão. — Além do mais, parece que você conhece alguns dos caras.
Cresci naquele meio do futebol. Meu pai era louco pelo Manchester City e estava sempre levando eu e Luke para os jogos; depois, meu irmão seguiu uma carreira como jogador, se consolidou na seleção inglesa e começou a jogar para o time rival, sendo lateral esquerdo. Como somos muitos próximos, consequentemente, eu conhecia a maioria dos jogadores.
— Você joga pelo City?
Como torcedora do time, ele me parecia familiar. Infelizmente, com a temporada na Alemanha, eu mal consegui acompanhar os jogos dos campeonatos que o Manchester City estava participando, então não prestei atenção nos jogadores e nem gravei o nome de alguns.
— Sim — ele confirmou. Tentei buscar na minha memória que número ele vestia, mas não vinha à minha mente. — Você é torcedora?
Ao invés de responder, andei até ele, parando ao seu lado na cômoda. Puxei um dos retratos, mostrando a foto para ele. Eu tinha oito anos, estava completamente uniformizada de azul, as cores do City, bem no meio do Etihad vazio, com um sorriso banguela estampado no rosto.
— Acho que nunca tive muita escolha — confessei, refletindo sobre aquilo. — Não que eu esteja dizendo que meu pai me obrigou a ser uma citzen. É só que… você acredita que o time escolhe o torcedor, certo?
Ele parou de olhar a foto e manteve o contato visual comigo. Geralmente, eu preferia não ficar de conversa com qualquer amigo do Luke, mas alguma coisa me atraía para ele. Não me esforcei para entender muito; depois de uma viagem longa e cansativa, eu bem que estava precisando de uma distração.
— Acredito — ele respondeu, soando sincero, um sorriso iluminando o seu rosto.
Ele me devolveu a foto e eu coloquei o retrato de volta no lugar. O silêncio se instalou, mas o contato visual não foi cortado. O jogador virou o corpo, ficando totalmente de frente para mim e, merda, como ele era bonito.
— Você deveria ir — eu disse, tentando escapar do que quer que aquilo fosse.
Luke estava lá embaixo. Se ele sequer sonhasse que havia um amigo seu dentro do meu quarto, o resto do meu dia seria um inferno e eu queria muito descansar. Ele não se moveu. Ao invés disso, acenou lentamente e continuou olhando para mim.
— Espero te ver outra vez, .
Ele passou direto por mim em direção a porta e meus olhos acompanhou cada movimento seu. Antes de finalmente sumir do meu campo de visão, ele me presenteou com um sorriso que eu devolvi igualmente, com uma impressão estranha de que estávamos selando algo que eu ainda não entendia.
Aquele tinha sido o primeiro sorriso secreto que eu dei a alguém.
FEVEREIRO DE 2023
Estádio de Wembley — Inglaterra
Final da Copa da Liga Inglesa
O Manchester United cravou uma última defesa em cima do Newcastle, finalizando o segundo tempo com uma vitória. O placar de 2x0 concretizou o time dos Red Devils como Campeão da Copa da Liga Inglesa, fazendo com que o estádio inteiro vibrasse ao meu redor, meu corpo estremecendo de entusiasmo, o coração palpitando de felicidade ao assistir Luke e os outros jogadores correrem para o campo e se abraçarem em um amontoado de suor, cansaço e gritos animados.
Minha vida inteira tinha sido assim.
A sensação indescritível de estar no meio da multidão de uma partida de futebol preenchia o meu coração de um jeito que sempre parecia a primeira vez. Meu pai me colocou naquele mundo bem cedo; eu e Luke costumávamos correr atrás um do outro pelos campos dos estádios, o cheiro da grama verde sendo a coisa mais familiar para mim. Alguém sempre tinha um perfume marcante. O meu, no entanto, era sempre o cheiro da grama recém-molhada.
Quando os torcedores começaram a se dispersar nas arquibancadas, aproveitei o espaço para sair dali. Eu tinha passe livre para ficar na área VIP com a família dos jogadores, mas quase sempre optava por ficar no meio da multidão. Vez ou outra, eu era sempre reconhecida, mas tudo era tão tranquilo que eu não tinha a menor preocupação de que alguma confusão ou motim acontecesse. Ali, eu só era irmã de alguém famoso e um meio de chegar até ele, então quase sempre, as pessoas que me abordavam eram, em sua maioria, mulheres.
Me esgueirei pelas cadeiras vazias e finalmente consegui sair da multidão. Ao invés de seguir o caminho da saída, peguei a direção contrária e fui direto para a entrada do campo, ainda ouvindo vozes alegres por cima uma da outra. Mostrei o meu crachá de acesso para um dos seguranças, que me liberou, e andei direto até Luke.
Ele não me viu imediatamente. Sua voz se alterou um pouco ao falar com um dos colegas de time, o sorriso maior do que o rosto, a felicidade pura estampada. Era aquela sensação que eu queria ter experimentado se tivéssemos levantado a taça da Copa do Mundo, mas a da Liga Inglesa também estava valendo.
Eu não era torcedora do Manchester United. Esse espaço do meu coração estava reservado ao City e tem sido assim desde que eu era criança e fui ao primeiro jogo do time contra o Liverpool. Mas isso não me impedia de torcer pelo meu irmão, não para o time necessariamente.
— ! — ele finalmente me notou, me abraçando sem que eu tivesse tempo de me esquivar.
Felizmente para mim, eu estava acostumada com aquele tipo de coisa. Ser criada e viver quase cercada por jogadores de futebol nos ensinava a tolerar alguns hábitos. Abraçá-los suados, depois de ficarem correndo por 90 minutos, era um deles.
— Parabéns! — saudei, passando os meus braços ao redor da cintura dele, sentindo a nossa pequena diferença de altura.
Era tão bom vê-lo feliz que, mesmo que eu fosse a pessoa mais triste do mundo nesse momento, ainda assim, eu seria contagiada pelo seu sorriso. Ele me apertou mais um pouco, antes de me soltar, me segurando pelos meus braços.
— Obrigado — ele disse, o sorriso ainda maior, beijando a minha testa rapidamente. — Eu não estava certo de que você viria.
Tinha sido uma viagem curta de Manchester até Wembley, mas não importava qualquer distância, toda vez que ele me convidada para assistir a um jogo seu, eu dava um jeito de vir. Quando não conseguia, ele entendia, mas era uma final importante.
— Independente de para qual time eu torça, você sempre será meu ídolo, Luke — respondi, dando um soquinho fraco no seu ombro. — Mas você vai pagar a minha estadia, porque eu não consegui nenhum quarto tão em cima da hora e estou doida para cair na cama depois de um banho quente.
Ele deu um peteleco no meu nariz, como sempre fazia, só para implicar. Daquela vez, não afastei a sua mão.
— Correção, pirralha — ele começou a dizer, colocando o braço por cima do meu ombro, me arrastando pelo campo. — Antes de um banho quente e de você cair morta em uma cama qualquer, vai ser arrastada para a nossa comemoração particular.
— Não, obrigada.
— Fala sério — ele insistiu. — Você já é grande o suficiente para saber lidar com essas festas. Além do mais, pode beber. E eu garanto, vai ter muita bebida.
Virei o rosto, encarando-o muito de perto. O idiota nem mesmo estava fedendo, ainda que estivesse bem suado.
— Eu estou dirigindo — tentei me esquivar.
Não que eu não gostasse de festas, ainda mais para comemorar um título, mas estar cercada de jogadores era sempre muito… agitado demais. Eles bebiam, gritavam e apostavam um com outro em jogos de sinucas e cartas. Às vezes, até rolava karaokê e a maioria cantava muito mal, o que sempre me fazia rir, mas eu precisava ter espírito para essas festas. E eu realmente estava muito cansada depois de dirigir por quase quatro horas.
— Eu te levo de volta para Manchester.
Eu ri, balançando a cabeça.
— Você bebe o dobro do que eu bebo — revidei, lembrando-o.
— Eu te levo para Manchester amanhã — ele corrigiu. — Quando eu estiver sóbrio o suficiente.
Considerei a ideia, bufando, meus ombros caindo em uma clara derrota que eu estava começando a sentir ao perceber que eu não ia conseguir recusar o seu convite. Com a temporada de jogos e campeonatos acontecendo, ficava difícil manter um tempo decente com Luke e me senti na obrigação de aproveitar aquela visita. Além do mais, um título merecia uma comemoração.
Ele merecia uma comemoração, porque não era segredo que o time meio que estava em uma temporada ruim e, se eu fosse sincera comigo mesma, era meio improvável que eles levassem a Premier League. Então, com esse pensamento que uma conquista é uma conquista e todas elas são válidas, aceitei o seu convite, antes que ele começasse a ser um irmão mais velho insistente e pé no saco. Luke sabia como me vencer no cansaço e eu preferia evitar.
— Tudo bem — concordei, por fim. — Mas vou avisando: não vou cuidar de ninguém bêbado.
Antes que ele pudesse me rebater, alguém me abraçou por trás, descansando a cabeça no meu ombro esquerdo e eu me afastei de Luke, tentando adivinhar quem era o ousado me abraçando suado.
— Oi, pirralha.
Soltei um resmungo de protesto ao ouvir o apelido e revirei os olhos, me dando conta que era Rashford fazendo o que mais gostava de fazer no seu tempo livre: me encher um pouco o saco.
— Não me chame assim — reclamei, sentindo ele beijar a minha bochecha, antes de me soltar.
— Todo mundo te chama assim — ele rebateu, trocando um high-five com meu irmão.
Luke riu, dando de ombros, como se não discordasse daquele fato irritante. Eles faziam eu me sentir muito mais nova do que eu, de fato, era.
— Odeio vocês — resmunguei, cruzando os braços na altura do peito e encarei os dois com o máximo de desgosto que eu conseguia reunir. — Podemos ir?
Luke olhou para trás, o estádio ainda agitado pelo recém título, os jogadores socializando entre si e posando para fotos. Sinceramente, ainda ia demorar um pouco para finalmente irmos.
— Sim, espere um pouco — ele me respondeu. — Eu já volto.
Meu irmão se enfiou com os outros jogadores, me deixando sozinha com Rashford.
— Parabéns pelo título.
Ele sorriu.
— Obrigado — Agradeceu, apontando para Luke rapidamente, voltando a olhar para mim. — Ele sabe sobre o ?
Engoli a seco, descruzando os braços. Abri a boca para responder algo, mas não saiu e deixei meus ombros relaxarem.
— Não há nada para ele saber — respondi.
Rashford riu da minha mentira descarada e balançou a cabeça para mim.
— Não foi o que eu vi, pirralha.
Ignorei o apelido e revirei os olhos mais uma vez, me certificando que Luke ainda estava bem longe de ouvir aquela conversa. Ele não sabia o que tinha acontecido entre e eu depois da eliminação da Inglaterra na Copa do Mundo, dois meses atrás, mas sortuda como eu era, nós fomos flagrados saindo juntos do vestiário pelo Marcus. Ele era tão intrometido que entendeu imediatamente o que tinha acabado de acontecer e convenceu-o de não contar nada para o meu irmão.
— Vocês me chamam de pirralha — comecei a falar. — Como acha que Luke vai reagir se souber que eu estou me envolvendo com um de seus amigos?
Marcus deu de ombros.
— Principalmente depois dele ter ameaçado todos nós para ficar longe de você? — ele debochou e percebi que estava se divertindo com a situação.
Sério, eu precisava de amigos melhores. Na verdade, meu irmão precisava de amigos melhores que não curtissem zoar com a minha cara.
— Ele não ameaçou o Jude.
— O Bellingham não é ameaça para ninguém.
Abri um sorriso, umedecendo os meus lábios. Eu não concordava muito com aquele fato, apesar de Jude realmente nunca ter sido uma ameaça para mim nessa questão específica, mas isso porque nós realmente sempre fomos só amigos.
— Jura? — provoquei, coçando a minha bochecha. — Já viu o quanto ele é bonito? Ele recebia mais de 100 menções por segundos no Twitter na época da Copa do Mundo.
Rashford fez pouco caso. Ele apontou para o próprio rosto e depois para si mesmo inteiro.
— Você não pode achar que ele é mais bonito do que isso aqui — ele declarou.
Gargalhei gostosamente, achando graça da sua autoestima elevada. Sim, ele era bonito, mas eu não achava que podia se comparar ao Jude. No entanto, eu não disse isso.
— Isso não importa — retruquei, dando de ombros. — Afinal de contas, parece que você sabe quem ganharia o meu ranking de beleza.
— E ainda tem a cara de pau de dizer na minha cara que não tem nada com ele — Marcus reclamou.
Dei de ombros, expressando que eu não me sentia nenhum pouco culpada por ficar mentindo sobre aquilo. Afinal de contas, meu irmão realmente não sabia nada sobre aquilo e eu preferia que continuasse assim, porque apesar de Luke não costumar se meter na minha vida, ele não gostava muito dos caras com quem eu me envolvia. Mesmo se fosse o , a quem ele conhecia muito bem, sua reação não seria menos dramática. E eu estava evitando dramas na minha vida, pelo menos, por enquanto.
— Eu gosto dele — admiti, com um sorriso sem graça. — Mas, pode, por favor, não contar ao Luke?
Rashford balançou a cabeça, me devolvendo o sorriso.
— Não precisa se preocupar com isso, — ele me tranquilizou, alisando a pele do meu braço. — Eu jamais me meteria na sua vida.
Assenti, um sorriso de agradecimento desenhado nos meus lábios, antes de eu envolvê-lo em um abraço, mesmo com ele suado e tudo. Só me esqueci como aquilo soava como um convite para os outros jogadores e, em questão de segundos, ouvi a voz de Maguire anunciando um abraço coletivo em cima de mim, com alguns dos outros jogadores, enquanto eles gritavam com pelo título recém-adquirido.
Estranhamente, era exatamente aquilo que eu chamava de lar.
às 10:08pm
quando você volta?
aliás, parabéns para o shawn pelo título
shawn às 10:10pm:
o luke prometeu me levar de volta amanhã
vou repassar os parabéns para ele, embora eu desconfie que vc tem o número dele
às 10:14pm:
hahaha ele não me responde, engraçadinha
shawn às 10:14pm:
ele está bêbado em algum lugar
me escondi de todo mundo no banheiro
um conselho: não misture bebidas
Ainda dava para escutar o som da música rolando um andar abaixo. Eles simplesmente alugaram um bar e tornaram a noite privada e exclusiva para os jogadores do time e amigos próximos. Como eu era totalmente a favor da diversão, não demorou muito para eu me enturmar, mas misturar as bebidas não tinham mais o mesmo efeito positivo de quando eu tinha quinze anos.
Comecei a ficar enjoada, e o cansaço de dirigir por mais de quatro horas até Londres também estava me consumindo. Tentei procurar Luke, que tinha se enfiado em algum lugar, mas o palco lotou de caras bêbados cantando karaokê e, para fugir de me chamarem, subi para a área VIP do primeiro andar e me enfiei em um dos banheiros vazios. Fiquei sentada no chão, ignorando o fato de que aquilo não era nada higiênico, e fiquei rolando o feed do instagram privado, até uma mensagem de chegar.
Ignorei todas as batidas erradas do meu coração e me senti quase imediatamente sóbria pela descarga de adrenalina que me causava só de falar com ele. Eu não conseguia entender as sensações do meu corpo reagindo a cada coisa sobre ele, mas era… bom. Estranho. Novo. Quando ele demorou mais de cinco minutos para responder depois da minha última mensagem, respirei fundo e pensei que estava na hora de enfrentar o grupo de jogadores bêbados à procura de Luke, pelo menos para que ele me entregasse a chave do seu quarto do hotel.
Eu não estava brincando quando avisei que aquele idiota bebia o dobro do que eu bebia. E isso significava que ele bebia muito, pra caralho, sem exagero. Ele não era assim sempre, mas se fosse comemoração de algo importante que ele considerou bom conquistar, meu irmão não se importava de exagerar. E estar em uma temporada meio ruim nos campeonatos ingleses fazia o título da Copa da Liga Inglesa parecer uma promessa. Uma recompensa.
Quando eu estava finalmente prestes a me levantar do chão sujo, meu celular começou a tocar na minha mão. Virei a tela apenas para ver o nome de piscar e meu coração errar mais uma de suas infinitas batidas diárias. Mordi meu lábio e respirei fundo outra vez, deslizando o dedo para atender.
— Oi.
Seu sorriso preencheu a minha tela inteira. Ele estava usando um moletom, deitado na cama, um braço cruzado por baixo do pescoço, enquanto a outra segurava o celular. Eu nem quis reparar na minha aparência depois de inúmeros copos de whiskey, cerveja e alguma coisa doce, mas tinha certeza que meu cabelo estava péssimo.
— Oi — respondi, a voz meio baixa e falha. — Você não deveria estar dormindo?
— O Haaland estava aqui — ele respondeu, levantando da cama para ficar sentado. — Que barulho é esse?
Mesmo escondida dentro do banheiro, ainda era possível ouvir as tentativas fracassadas do grupo cantando no karaokê. Embora não estivessem tão altos, ainda eram audíveis daqui. Portanto, não fiquei surpresa quando os identificou.
— Um castigo — respondi, fazendo-o rir baixo. — Eu prefiro quando eles só jogam bola, mas, aparentemente, gostam de arriscar no karaokê. E, nesse momento, estão desafinando Adele.
Ele fez uma careta, concordando. Eu podia até reconhecer a voz bêbada do meu irmão daqui, mas tudo era uma mistura. E ele não era muito fã das músicas de Adele.
— Você parece estar um pouco… — ele começou a dizer, mas não completou a frase.
Ajeitei o celular, segurando-o bem na frente do meu rosto e parei para verificar a minha aparência. Eu não estava usando maquiagem, nem mesmo um batom, então não havia nada borrado e nem manchando a minha pele. Meu cabelo estava todo desgrenhado, mas até que um pouco decente.
— Cansada? — arrisquei, vendo-o assentir. — Dirigi por quatro horas até aqui. Estava atrasada para o jogo, então vim direto para o estádio. Não deu tempo de tirar um cochilo. Que Luke não me ouça, mas eu não estava esperando eles vencerem, então cá estou eu.
Eu só queria dormir um pouco. Fechar os olhos por tempo suficiente para eu sentir que minhas energias foram renovadas, mas eu realmente não tinha a chave do quarto de Luke e não sabia para onde ir. Conseguir uma hospedagem nova em qualquer lugar de Londres, naquele horário, era meio que um inferno. Quando descobriam quem eu era, a paz deixava de ser uma opção.
— Ele sabe que você tem tão pouca fé nele? — me provocou.
Revirei os olhos e umedeci meus lábios, encarando o jogador inglês, que parecia ter encontrado uma posição confortável para segurar a tela do celular.
— Eu tenho fé nele — rebati, sendo sincera. — Mas ele está jogando no time rival.
Sua risada preencheu o ambiente e me senti contagiada, sorrindo. Desde a derrota da Inglaterra para o time francês, na Copa, há dois meses, nós dois vínhamos mantendo um contato frequente. Nossos horários nem sempre batiam, então não podíamos estar juntos fisicamente quando queríamos, mas ele não se importava de me ligar. Às vezes, não falávamos nada por horas; simplesmente ficávamos em silêncio, ouvindo a respiração um do outro, até o sono vencer um de nós.
Tive dois namorados na minha vida. Mesmo assim, nunca senti uma intimidade tão confortável com eles, quanto eu sentia com . Sempre achei que estava em uma bolha de conforto e que meus relacionamentos estavam fadados a serem sempre o mesmo: só duas pessoas que dividiam a mesma cama e que fingiam sentir algo a mais que não era verdadeiro. Com , porém, eu sentia como se alguém finalmente tivesse colocado mais lenha na fogueira para aumentar as chamas e manter o fogo acesso. As sensações que ele me causava com o menor esforço me fazia perceber que tinha muito ainda que eu não havia experimentado.
— — ele chamou, depois de um minuto inteiro de silêncio. — Ele não devia saber sobre nós dois?
Refleti sobre a pergunta, ele sendo a segunda pessoa no dia a tocar no assunto. Eu não entendia porque todo mundo estava temendo a reação de Luke. O que tinha para ele saber? Por que ele deveria saber cada passo da minha vida? Meu irmão não saia me contando sobre todas as garotas com quem ficava na vida, nem eu tinha interesse de saber.
— Não tem nada para ele saber — respondi, umedecendo meus lábios.
Observei quando ajeitou o celular e sentou-se na cama, parecendo achar uma posição confortável para continuar na chamada.
— Sério? — ele disse. — Não tem nada para ele saber? Nem o fato de que eu estou dormindo com a irmã dele?
— Isso só diz respeito a nós dois.
Ele sabia que eu estava certa. Mas também achei que eu estava sendo um pouco ridícula em banalizar a sua preocupação. Merda, eu também não sabia qual seria a reação do meu irmão quando soubesse, e toda situação era ainda pior para ele. respirou fundo e não disse nada por um minuto, que pareceu uma eternidade. Observei ele passar a mão pelo cabelo e finalmente dizer alguma coisa.
— Não quero te pressionar a fazer nada — ele começou. — Apesar de estarmos em times diferentes agora, ainda jogo com seu irmão, . E vai ser pior se ele descobrir por outra pessoa, porque acredite, ele vai.
Decretando o conflito dentro de mim, a voz de Luke cantando no karaokê chegou até os meus ouvidos. Eu não me sentia pressionada a tomar uma decisão naquele momento, principalmente estando alcoolizada. Mas, mesmo que eu estivesse 100% sóbria, ainda concordaria que estava certo. Eu precisava contar ao meu irmão.
Só não ia ser agora.
2019
Eu estava acostumada a eventos formais antes mesmo de entender o que significava esse tipo de evento. Minha mãe me colocou no mundo da moda muito cedo e, aos oitos anos de idade, eu já desfilava profissionalmente para marcas pequenas, o que decolou minha carreira em uma escala que eu não esperava.
Não significava, porém, que eu gostava daquele tipo de evento, ainda que fosse Natal.
Luke, no entanto, insistiu que eu comparecesse como sua companhia no evento anual de Natal que o clube inglês organizava. Eu insisti em ficar no meu quarto, assistindo a qualquer evento natalino que qualquer canal se propusesse a passar, considerando uma traição sem tamanho pisar no Old Trafford sem ser para assistir a rivalidade com o Manchester City, mas ele me lembrou que o estádio não era a sede do evento e o Manchester United não era o anfitrião. Assim, eu perdi a batalha, minha insistência não deu em nada, e agora eu estava em um salão enorme, cercada por jogadores da seleção inglesa, acompanhado de alguns de seus familiares.
Luke estava em algum lugar por ali; eu não prestei atenção quando ele começou a cumprimentar todo mundo, se enturmando com um grupo específico, me esquecendo por um instante, como sempre fazia quando ia agir como um senador no meio de todo mundo. Sua atenção sempre era requisitada de algum jeito. Dessa vez, ele não trouxe nenhuma namorada para exibir em mil apresentações por aí e eu dispensava qualquer apresentação, uma vez que praticamente todo o elenco e funcionários me conheciam.
Qualquer um sabia que eu era a sua irmã. Por isso, ninguém se importava de me ver perambulando por aí. Me enfiei no meio das pessoas, tendo a certeza de ser a mais nova de todos presentes ali, exceto das crianças, que corriam exalando felicidade pura, das quais eu me desviava com bastante maestria. Em um desses momentos, aproveitei a distração do garçom e roubei uma taça de champanhe com gosto de coisa cara, sem perceber que meu corpo estava indo de encontro a um outro. Foi quando senti as mãos firmes me segurarem pelo antebraço, me parando, impedindo um esbarrão desastroso. Eu senti o cheiro do perfume primeiro antes de ouvir a sua voz.
— Você não parece ter idade para beber — ele ecoou, um tom de voz divertido contrastando com o humor em sua expressão desenhando o seu sorriso.
Eu parei por um instante, erguendo os olhos na direção do rosto dele, mesmo tendo reconhecido a voz, me remetendo a uma lembrança de um tempo atrás. Demorei a me dar conta de que eu estava encarando demais e soltei um pigarreio, respondendo.
— E você não parece ser tão intrometido.
Seu sorriso aumentou.
— Não achei que fosse te ver de novo.
Revirei os olhos.
— Não seja ingênuo, eu sou a irmã do Luke, e vocês aparentemente são amigos, é óbvio que você me veria de novo.
— Não achei que fosse ser tão cedo — ele frisou, corrigindo. — O Shaw disse que você não costuma ficar muito por aqui.
Abaixei o olhar até a mão dele ainda me segurando, como se isso fosse comum, como se fizéssemos isso sempre. Ele percebeu e me soltou, se afastando um passo, agora que estava seguro e impediu nosso esbarrão. Quando levantei os olhos de novo, ele ainda estava com o mesmo sorriso de antes e, por mais que eu quisesse continuar mentindo para mim mesma, não adiantava muito. Eu pensava nele. Às vezes.
Talvez constantemente.
Me pegava tentando encontrar um horário livre entre os ensaios, as sessões de fotos e os desfiles para conseguir assistir alguns minutos do jogo que ele foi escalado. Disse a mim mesma que era só curiosidade. E ninguém estranhava, afinal de contas, sabiam que eu gostava de futebol e torcia para o Manchester City.
— Consegui uma folga para curtir as festividades de fim de ano — expliquei. — Mas, é, eu não costumo ficar muito aqui.
Luke estava acostumado. Mesmo constantemente preocupado e protetor comigo. Ele ainda achava que eu era nova demais para tanto trabalho e tanta viagem, mas ficar em casa sempre foi meio insuportável, então aceitei aquela parte do trabalho. E sempre que eu precisava voltar para uma pausa, eu sempre estava parando na casa de Luke, nunca na casa da minha mãe.
— E vai ficar até quando?
Mantendo meus olhos nele, eu bebi um gole da taça, pensando sobre a resposta. Ele estava bonito. Usava um trajeto social com uma cor que combinava com seus olhos, a corrente de prata no pescoço dando um destaque charmoso.
Um charme proibido.
— Por que o interesse? — devolvi a pergunta.
Ele riu da minha resposta atravessada e balançou a cabeça.
— Foi só uma pergunta — respondeu, como se eu tivesse acusando-o de alguma coisa. — Eu quero me redimir.
Estreitei os olhos, confusa.
— Se redimir pelo quê?
Ele olhou ao redor. Estávamos cercados de pessoas conhecidas, que não pareciam prestar atenção na gente, alheios demais em suas próprias conversas. Eu mesma não tinha ideia de onde Luke estava. A música tocava suave, como se fosse apenas um som ambiente para acompanhar os murmúrios e risadas que preenchiam o ambiente. Estava cheio, um evento da seleção sempre era, mas o local era grande o suficiente para ainda haver espaço sobrando.
— Por ter levado uma garota para o seu quarto antes — explicou, o que me arrancou uma risada inesperada.
Eu lembrava daquele dia como se fosse ontem. Não vi mais ele desde então e nunca soube quem era a garota, mas não me importava. Ter flagrado os dois ali foi o suficiente para eu adquirir uma pequena obsessão.
— Já faz um tempo, , você não precisa…
— Vem comigo — ele me interrompeu, indicando com a cabeça o caminho.
O jogador andou na frente e eu ainda fiquei ali, parada, tentando decidir se o seguia ou não. Foi a minha vez de olhar ao redor, todo mundo se divertindo, e tomei mais um gole do champanhe antes de colocar em cima da bandeja de um garçom que estava passando. Foi só então que eu segui ele.
Com uma distância segura entre nós, não parecia que estávamos juntos. Eu só parecia estar seguindo o caminho direto até o banheiro. No entanto, Luke apareceu no meu caminho, bem na minha frente, me impedindo de continuar.
— Ah, te achei! — ele falou, segurando uma taça de vinho na mão. — Vem, vou te apresentar pra algumas pessoas.
— Sério, Luke? — disparei, irritada com o momento em que ele resolveu me achar. — Todo mundo me conhece aqui. Você sempre diz pro vento e pro mundo que eu sou sua irmã.
Ele não se importou com meu humor. Só colocou o braço ao redor dos meus ombros e começou a me puxar para o lado oposto. Eu olhei por cima do ombro e vi me observando ser levada. Só assisti seu aceno leve, como se fosse algum sinal, antes de sumir do meu campo de visão.
— Para de ser rabugenta, — meu irmão ralhou. — Não te tirei de casa pra te deixar sozinha aqui também.
— Não me importo.
Odeio ter ficado curiosa pra saber onde me levaria. Ao invés disso, teria que me contentar com as habilidades sociais que meu irmão estava exigindo de mim. Por um momento, quase torci que ele trouxesse uma namorada qualquer, pois assim ele me esqueceria e me deixaria em paz. Quando ele não tinha uma mulher do lado, sobrava sempre pra mim dividir sua atenção.
Tentando não ser muito rabugenta, relaxei os músculos do meu rosto, adotando uma expressão mais suave quando ele me guiou para um grupo de pessoas. Reconheci Marcus e Kane de longe, sentados em uma mesa oposta ao que meu irmão estava me levando. Onde estava Jadon Sancho e um pequeno grupo de jogadores que conversavam animados. Do lado, havia uma pequena árvore de Natal decorada com as cores da seleção inglesa. Quando cheguei mais perto, Sancho me cumprimentou com um sorriso fácil e, ao lado dele, estava um garoto um pouco mais alto que eu, que eu nunca tinha visto pessoalmente.
— Essa é a — Luke anunciou para o desconhecido, afinal, Jadon já me conhecia, como todos os outros ali. Eu só podia supor que o cara ao lado dele fosse novo, provavelmente vindo da base. — Minha irmã.
— A que é modelo? — o garoto perguntou, uma curiosidade genuína no seu tom de voz.
— Ele só tem uma irmã — respondi. — Não precisa especificar assim.
Luke me deu uma cotovelada bem leve, me lançando um olhar feio.
— Não precisa ser grossa, .
Franzi a testa e depois mudei a minha expressão para uma indignada.
— Eu não fui grossa — me defendi, olhando para o desconhecido. — É só a verdade, mas sim, eu sou a modelo. Você é…?
— Jude Bellingham — respondeu, com um sorriso aberto e juvenil, que contrastava com a postura confiante. Ele parecia mais novo que os outros, o que reforçava a minha teoria de que ele estava vindo da base. — Foi mal, eu não sabia que o Shaw tinha uma irmã.
— Tudo bem — respondi e me virei rapidamente. — Oi, Sancho. Você parece melhor.
Da última vez que o vi, ele tinha bebido tanto que estava vomitando no jardim de casa. Ele não parava de balbuciar sobre ET's e vida fora da terra, coisa que não entendi nem um pouco, mas foi engraçado. Fiquei do lado dele o tempo todo, só pra garantir que ele não se afogasse no próprio vômito e fiz questão de lembrar disso no dia seguinte, mas ele só me acusou de estar mentindo. Felizmente, eu tinha uma foto pra provar.
— Oi, — murmurou de volta, estalando a língua. — Odeio que você não esquece isso.
Dei de ombros, com um sorriso.
— Esquece o quê? — Jude perguntou.
Luke deu um tapinha no ombro dele, rindo.
— Nada, cara, é melhor não saber — meu irmão respondeu. — Sancho fica irritado. E se aproveita disso.
Dei de ombros de novo.
Jude olhou para nós três e imitou meu movimento, dando de ombros.
— Então, você curte futebol? — ele puxou assunto.
— Eu torço pro City. Luke nunca me perdoou.
Jadon riu alto, e até Luke soltou um resmungo divertido. Mas foi Jude quem manteve o olhar em mim, avaliando com uma expressão que eu reconheci instantaneamente.
Não era atração e nem nada do tipo. Parecia mais como um tipo de reconhecimento, que eu devolvi, porque ele parecia alguém que eu gostaria de ser amigo. E eu não tinha muitos amigos.
— Uma traidora, então? — Jude ecoou.
Meu irmão bebeu um gole do vinho, concordando silenciosamente com a colocação de eu ser uma traidora e foi a minha vez de cutucá-lo com o cotovelo, indignada.
— Ei, eu não sou traidora — reclamei, me virando pra Jude. — Ele foi para o Manchester United. Nós crescemos com o City. Quem é o traidor aqui?
Luke levantou uma mão em rendição, mexendo um ombro.
— Você precisa começar a superar isso — disse, me dando um tapinha nas costas. — Fica com eles, preciso falar com o técnico. Não some de novo.
— Eu nunca sumo — murmurei a mentira.
Mas ele não escutou e se foi, e eu fiquei ali, entre Jadon e Jude, sentindo um pouco da tensão anterior se dissipar. O mais novo me deu espaço para sentar ao seu lado e Jadon não perdeu tempo. Pegou a sua bebida e se levantou, olhando pra nós dois.
— Eu vou… bem, vocês sabem — disse, apontando aleatoriamente em algum lugar atrás de si. — Não façam nada que eu não faria.
Ele iria atrás de algum flerte. Jadon era naturalmente carismático e também era sedutor. Ele nunca ficava em um espaço sem flertar com ninguém, mesmo que o flerte em si nunca desse em nada. E aquele evento de Natal era uma ótima oportunidade de conhecer gente nova, pois os convidados traziam seus próprios convidados e aumentava o círculo de pessoas.
Ele sumiu do nosso campo de visão e olhei para a mesa deles, escassa de bebidas. Bufei baixinho, ainda frustrada, pensando que eu poderia ir embora também. Poderia procurar de novo e perguntar pra onde ele teria me levado. Mas eu não queria deixar Jude sozinho e ser mal educada, então eu fiquei.
— Então você é modelo? — ele perguntou, puxando assunto. — Deve ser maneiro.
Como ele estava se esforçando e nós dois estávamos sozinhos, sobrando ali, achei justo retribuir.
— É cansativo, na verdade — respondi, sendo sincera. — Mas, de algum jeito, eu também gosto. É a sua primeira vez na seleção, né?
Jude abriu um sorriso.
— Mais ou menos. Ainda não estreei e cheguei há pouco tempo, tô me acostumando e conhecendo o pessoal. O Jadon e seu irmão me ajudam bastante. — Ele fez uma pausa, inclinando a cabeça. — E você? Veio com o Luke, mas parece que queria estar em qualquer outro lugar.
Soltei uma risada curta, quase bufando. Eu não sabia que estava deixando tão transparente assim.
— Você é o segundo a me dizer isso em menos de dez minutos.
Ele ergueu as sobrancelhas.
— Quem foi o primeiro?
Meus olhos traíram minha vontade, desviando por um instante para o outro lado do salão, onde agora conversava com alguém que eu não reconhecia. Ele não estava mais olhando para mim. Talvez fosse melhor assim.
— Ninguém importante — eu disse.
Mas Jude seguiu meu olhar e, quando voltou a me encarar, havia um brilho de entendimento no rosto dele. Felizmente pra mim, ele não comentou nada. Em vez disso, apenas sorriu, pegou a garrafa de água da mesa e ergueu em um brinde imaginário.
— Bom, — ele começou —, não se preocupe. Seu segredo está guardado comigo.
Fiz uma expressão sonsa.
— Não sei do que você tá falando.
Jude riu.
— Amigos percebem as coisas — respondeu.
Arqueei uma sobrancelha com a escolha de palavras dele.
— Isso é uma proposta de amizade?
— Eu diria que é mais um contrato vitalício — corrigiu, sério. — Inclusive, sem cláusula de rescisão. Eu posso ser um ótimo amigo, prometo.
— Tudo bem, mas com uma condição.
Ele colocou a garrafa de volta na mesa, uma expressão desconfiada. Não sei o quanto ele se arrependeria de ser meu amigo no futuro, mas a resposta dele determinaria as coisas.
— Que condição?
Eu levantei, um sorriso diabólico no meu rosto. Ele me acompanhou com os olhos, esperando, em expectativa. Jude Bellingham não seria só um amigo ou um amigo qualquer. Ele seria o meu melhor amigo.
— Quer sair daqui e beber de verdade escondido?
2023
O cheiro de comida invadiu minhas narinas assim que entrei no apartamento. Uma expressão confusa cobriu o meu rosto e eu tirei os sapatos, jogando as chaves em cima de um pequeno balcão ao lado da porta, tirando meu casaco logo em seguida.
— Jude? — chamei, esperando receber uma resposta.
Ele tinha a chave de casa e às vezes aparecia sem avisar, mesmo estando na Alemanha na maior parte do tempo. Justamente por causa daquela distância geográfica, suas visitas costumavam ser poucos frequentes e sem avisos, sempre sendo uma surpresa. Já encontrei-o uma vez dormindo no meu sofá, a mala no meio da sala, e também já encontrei ele dormindo no meu quarto, depois de ser curioso e testar minha nova máscara facial.
Andei devagar até a cozinha, me sentindo exausta da viagem de carro até aqui. Luke, mesmo tendo prometido que me traria, não cumpriu a sua promessa, como eu achei que não cumpriria. Eles beberam demais na comemoração, enquanto eu bebi de menos e, por isso, consegui acordar com um pouco menos de ressaca e pegar estrada de tarde.
— Jude, eu já te disse que… ? — parei bem na entrada da cozinha, me deparando com usando um avental de cozinha, mexendo na panela do fogão.
Ele se virou ao ouvir o som da minha voz e minha expressão não escondia a minha surpresa. Ele também tinha a chave do meu apartamento, mas não achei que ele fosse estar ali. Não depois de ontem.
— Oi, .
Ele abaixou o fogo, deixou a colher em cima da pia do lado e andou até mim, parando na minha frente. Nossa diferença de altura não era tão gritante, mas ele ainda era uns centímetros mais alto, o que me fazia erguer um pouco o rosto para conseguir olhar pra ele.
— Oi.
Por falta do que dizer, só cumprimentei de volta. Ainda estava confusa com sua presença ali e como ele sabia que eu ia chegar na hora do jantar. Eu estava planejando pedir uma pizza qualquer, tomar um banho quente e, quem sabe, cair no sofá, assistindo a um programa de culinária. Provavelmente eu dormiria no meio de uma receita, mas estaria um pouco mais relaxada.
— Como você sabia que eu ia chegar agora?
— Eu calculei — ele me respondeu. — Jude me avisou quando você já estava vindo.
Claro, o Jude. Eu tinha contado a ele sobre a conversa em uma ligação rápida, com um fuso horário confuso, mas ele me ouviu mesmo assim. Era o único que sabia tudo sobre nós dois, e apoiava. Jude nunca me criticou sobre nada na minha vida, seu apoio incondicional sendo o gás que, muitas vezes, era só o que eu precisava. Eu odiava que ele estivesse tão longe. E, mesmo muita gente odiando as datas FIFA¹, eu gostava, porque isso significava ele estar na Inglaterra.
se aproximou mais de mim e tirou um fio de cabelo do meu rosto, me fazendo estremecer levemente com o seu toque. Eu odiava como me sentia quando estava com ele, como se eu nunca tivesse experimentado todas aquelas coisas, mesmo já tendo namorado dois outros caras antes. Não tinha ideia se ele sabia desse efeito que causava em mim, mas esperava que não.
— Desculpa por ontem — ele começou a dizer, acariciando a minha bochecha com o polegar. — Eu não quis mesmo te pressionar.
Mordi o meu lábio, meus ombros caindo, se livrando da tensão. Foi aí que me permiti usar meus braços e rodear a cintura dele em um abraço, descansando minha cabeça no seu peito. Ele me abraçou de volta e eu fechei os olhos, me sentindo relaxar, inspirando o seu cheiro. Dois meses.
Dois meses que estávamos nessa e eu ainda não entendia muito bem para onde estávamos indo. Meu conflito não se dava apenas pela existência de um não relacionamento sério ou se existia um futuro para aquilo, mas também pelas minhas próprias escolhas pessoais. Estar com ele abafava quase sempre os meus pensamentos e eu gostava disso, mas também queria ir pra mais. Queria compartilhar mais coisas com ele, queria que ele entendesse o que se passava na minha cabeça, queria contar pequenas besteiras do dia a dia, queria aquilo tudo.
Ele ali, na cozinha do meu apartamento, cozinhando algo que eu não tinha ideia do quê. Que me abraçasse assim mais vezes. Que o sexo não fosse a única intimidade que compartilhavámos. Queria saber o que ele pensava. E ele começou a dizer isso ontem à noite.
— Você não me pressionou — respondi, me afastando apenas o suficiente para virar o rosto e enxergá-lo. — Eu entendo a sua posição. Mas ainda acho que isso só diz respeito a nós dois. Você quer que o Luke saiba de todos os caras com quem eu ando dormindo?
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Você anda dormindo com mais alguém?
Revirei os olhos com a sua pergunta. Eu tentava criar coragem pra dizer o que eu sentia por ele, como diabos teria coragem de dormir com outra pessoa assim?
— Sério? — reclamei, com um sorriso torto. — Você prestou atenção só nisso?
— Bom, não. Mas me ocorreu que eu odiaria não ser o único.
Meu coração quase errou uma batida e meu sorriso vacilou com a sua resposta. Jude vivia dizendo que eu estava sendo ridícula de achar que não retribui os meus sentimentos, mas eu continuava insegura com esse tipo de coisa. Apesar de eu ter namorado duas vezes, não foi uma coisa tão séria e eu nunca me declarei pra nenhum deles. Também nunca ouvi de volta. O amor era uma caixinha de surpresas e ninguém nascia aprendendo a como se apaixonar. Ou o que fazer com isso.
— Você é o único — falei, deixando isso bem claro. — Satisfeito?
Ele sorriu.
— Ótimo — disse, segurando meu queixo. — Porque você também é.
Ele beijou meus lábios e lá estava eu, me derretendo de novo. Acho que acabamos de estabelecer que éramos exclusivos, e não tinha percebido, até então, como eu também odiava a ideia de não ser a única. A coisa mais comum sobre jogadores de futebol eram as fofocas que publicavam deles com outras mulheres. Traição, affair, caso de uma noite. Nem tudo era verdade, e nunca deixava de ser confortável, e justamente por isso, eu nunca procurava nada sobre ele. Não por falta de confiança, mas porque era sempre mais saudável não ler as coisas que as pessoas publicavam, fosse uma matéria, fosse um comentário. O cheiro de algo quase queimando foi o que fez ele se afastar de mim, andando ligeiro até o fogão e desligando o fogo.
— O que você ta fazendo? — questionei, curiosa.
— Uma receita nova — disse, tirando a panela, deixando-a em cima da pia de mármore. — Não sou o melhor cozinheiro do mundo, mas se tiver muito ruim, a gente pede um delivery.
Mordi o meu lábio, assentindo.
— Vai dormir aqui hoje? — perguntei, mas soou quase como um convite.
— Se você não se importar.
Fiz que não com a cabeça.
— Enquanto você fica aí bagunçando a minha cozinha, eu vou tomar um banho rápido — avisei, deixando-o sozinho pra preparar o jantar.
E quando virei o corredor que dava acesso ao meu quarto, me permiti sorrir de um jeito tão idiota que fiquei aliviada por ele não ver.
O jantar que ele preparou não estava tão ruim. Era uma massa branca, com um molho que nunca experimentei, e bebemos um pouco de vinho tinto que ele comprou pra a ocasião. Jantamos, e mesmo que meu plano fosse me jogar no sofá e assistir a um programa de culinária, desviei essa etapa puxando-o para o meu quarto. Ele não prestaria atenção em nada e eu dormiria em algum momento.
Minha mão se movia constantemente em um cafuné na cabeça dele, seu corpo deitado no meio das minhas pernas, suas mãos ao redor do meu corpo, enquanto descansava em meu peito. Ele estava com os olhos fechados, mas não estava dormindo e achei aquilo muito mais íntimo do que simplesmente transar.
— Seu filme favorito? — ele continuou, querendo saber coisas aleatórias sobre mim que nunca perguntou.
— Você está complicando a minha vida — murmurei, me afundando mais contra o travesseiro. — Estou morrendo de sono e está fazendo perguntas difíceis.
Sua risada vibrou por meu peito.
— Seu filme favorito é uma pergunta difícil?
Pensei em qual era o meu filme favorito, mas havia uma coisa na minha mente que estava me incomodando e eu queria contar pra ele. Não tinha tomado nenhuma decisão ainda, mas estivemos tão próximos nesses últimos dois meses que achei relevante que ele soubesse essas coisas da minha vida, que ele fizesse parte dela.
— Querem que eu volte pra Alemanha — contei, fugindo da pergunta.
Ele abriu os olhos e virou o rosto devagar na minha direção, me encarando com uma expressão suave. Interrompi o cafuné e desci minha mão para a nuca dele.
— O Jude?
Foi a minha vez de rir.
— Não, a agência.
Morei um tempo na Alemanha quando a minha carreira deslanchou. Eu desfilava sem parar e participava de campanhas de marcas alemãs uma atrás da outra, sem uma pausa de qualidade pra descansar o meu corpo e a minha mente. Quando achei que estava à beira de um quase colapso, Luke me aconselhou a dar um tempo das passarelas e só participar de campanhas pequenas, me incentivando a voltar pra casa. Pra Manchester. Eu sentia tanta falta do clima inglês que nem hesitei em seguir o conselho dele.
Mas agora uma grande marca estava prestes a lançar sua nova linha de grife e queriam as melhores modelos para estrelar a campanha nas passarelas e estratégias de vendas. E isso me incluía. O que significava que eu precisaria voltar pra Alemanha.
— E você vai? — ele quis saber.
Soltei um suspiro, como se essa fosse a pergunta de um milhão de dólares, mas a verdade era que eu não sabia. Não falei com Jude sobre isso. Não contei ao meu irmão. Aquele tempo afastada das passarelas me fez perceber que talvez eu não queira voltar pra lá. Por um tempo, eu amei aquilo tudo até começar a me adoecer. A pressão por emagrecimento era terrível, as dietas eram muito restritivas, mas o pior de tudo era a competitividade entre as meninas, quando deveríamos ser coletivas. Elas não acreditavam que havia espaço para todas nós, então tentavam se destacar a todo custo.
Eu odiava.
— Eu gosto de ser modelo — admiti, acariciando a nuca dele. — Mas acho que gosto mais de não estar nas passarelas. Não sei se quero voltar.
Sua mão alisou meu braço e ele balançou a cabeça para o lado, como se estivesse pensando no que me dizer.
— Acho que tudo bem ter algumas incertezas, — disse, a voz calma. — Você contou que é modelo desde muito nova, certo? — assenti em resposta. — Talvez você não conseguia distinguir antes o que queria de verdade, mas agora você pode.
Ele tinha certa razão. O tempo longe das passarelas me fez perceber que eu gostava mais de participar de campanhas pequenas, de ensaios fotográficos para publicidade, de toda aquela parte do trabalho cansativa, mas ainda sem precisar desfilar em uma passarela. Por muito tempo, achei que odiava o fato de ser modelo, até entender que isso não era o problema. Eu amava ser modelo. Amava mesmo. E podia continuar sendo se eu tivesse meus próprios termos.
Isso significaria encerrar o contrato com a agência e ter um pouco de dor de cabeça com algumas cláusulas.
Cruzei minhas pernas ao redor da cintura dele e coloquei minhas duas mãos em seus ombros.
— E se eu voltar pra Alemanha? — testei.
Ele arqueou a sobrancelha. Não que aquela fosse realmente uma possibilidade pra mim, pelo menos, não no momento.
— A gente daria um jeito — prometeu, a resposta sendo ainda melhor do que eu esperava, afinal de contas, a Alemanha não era aqui do lado. — E eu diria pra a gente aproveitar bastante agora. Tá muito cansada?
Senti a malícia da sua pergunta e abri um sorriso preguiçoso, meu corpo despertando quando ele se moveu um pouco mais pra baixo e se levantou.
— Não se for pra um oral.
não hesitou.
Afastou as minhas pernas, me levantou só um pouquinho, e puxou a minha calcinha pra baixo. E o sono que eu estava sentindo antes se esvaiu completamente do meu corpo quando ele finalmente enfiou o rosto no meio das minhas pernas, me arrancando o primeiro gemido da noite.
Continua...
nota estrelada da autora: Olá, olá! Eu tenho um carinho ENORME por essa fanfic também. Ela é a continuação de touch me like you never, que você pode acessar aqui. Se você ficou confusa com algo dessa história, indico a leitura anterior, que explica um pouco como começou, mas também haverá flashbacks da construção do relacionamento dos dois aqui. Ela também tem uma ligação com don't blame me: Alessia é a melhor amiga do principal, o Jude. Espero que gostem. Beijo estrelados e até a próxima! 💫
0%
