Era sábado, tinha acabado de chegar do serviço. Almoçou na loja de conveniência, agora estava sentado de sua cama com seu violão tocando notas aleatórias que passavam pela sua cabeça, de alguma música que não estava muito preocupado em saber qual. Desde que entrou na faculdade, tinha tocado violão uma ou duas vezes só, a correria o deixava exausto demais, porém sentia falta de dedicar mais tempo a isso.
Ficou algum tempo tocando músicas aleatórias até que ouviu entrando pela porta e parou imediatamente.
– Oi, você toca? Nunca tinha visto.
– Eu não tenho tocado muito, mas aproveito horários mais tranquilos que acho ter menos gente por aqui. Pra não atrapalhar, sabe. — Deu de ombros ainda meio sem graça.
– Entendi, mas não precisa parar só porque eu cheguei não, pode continuar. — Se sentou de frente para o amigo.
– Não, já faz tempo demais que tô nisso. Só agora percebi que meus dedos estão todos zoados. — Ele riu.
– Se machucou?
– Não, só está a marca das cordas, mas se continuar pode machucar. — virou as mãos para que visse as marcas nos dedos, que fez uma careta.
– Isso deve doer, quer passar alguma coisa?
– Não, relaxa, eu já tô acostumado com isso. — Sorriu e guardou o violão dentro da capa e o encostou ao lado da escrivaninha.
– Já almoçou?
– Já sim, almocei antes de vir pra cá. Você já comeu?
– Uhum, fui almoçar com uns amigos.
– Você tem bastante amigos aqui, né?
– Na verdade, não tenho muitos, mas eles não gostam de me deixar quieto, então estão sempre me arrastando por aí. — Ele riu e o acompanhou.
– Mas isso é bom, às vezes sinto falta dos meus amigos do colegial, a gente fazia tudo junto.
– Posso te emprestar os meus quando quiser, mas já aviso que são chatos. Inclusive, hoje vamos no bar, quer ir com a gente?
– Eu adoraria, mas o pessoal da minha turma me chamou pra ir num bar também, tentei fugir mas não rolou dessa vez.
– Ah sim, naquele aqui perto?
– Acho que sim.
– Também vamos nesse, nos encontramos lá então.
– Combinado. — Ambos sorriram.
**
O relógio marcava oito da noite, já estava pronto. Vestia uma calça preta rasgada, uma camiseta estampada de uma banda aleatória, jaqueta de couro também preta e os cabelos medianos soltos, caindo um pouco sobre o rosto. No pescoço um colar de corrente com um pingente de cadeado, que combinava com as correntes penduradas na lateral da calça. Era bem diferente do uniforme da cafeteria ou das roupas mais casuais que costumava usar no dia a dia.
Seus amigos avisaram que o esperavam na porta do dormitório, então saiu do quarto. estava tomando banho, não se encontraram antes de sair.
– E ai ! Tá parecendo um rockstar, hein? Alguém tá afim de voltar acompanhado hoje! — Jang gritou assim que o viu saindo do prédio com as mãos no bolso.
– Não fala besteira, cara, eu me visto assim geralmente, é que nunca me viram fora da aula. — Ele riu e os outros acompanharam.
– Bora então, galera?
Todos concordaram e seguiram para o bar. O lugar não era tão pequeno quando imaginava. Tinha um visual mais de bar e lanchonete do que balada, e isso era um ponto positivo.
Se sentaram em uma mesa mais ao fundo, com aqueles bandos estofados que pareciam de cafeteria americana antiga. O lugar tinha uma iluminação baixa, intercalando luzes amarelas para clarear e luzes coloridas para criar uma atmosfera mais misteriosa. Pediram cerveja e soju, ficaria apenas na cerveja, ele era fraco pra bebida, pretendia passar ileso de grandes vergonhas na primeira saída com o pessoal do curso.
– Ah qual é, vocês vão ficar só na cerveja, galera? Se for assim, todo mundo toma uma dose de soju a cada meia hora.
– Eu prefiro ficar só na cerveja mesmo, Jang.
– Deixa de ser frouxo, , pode começar por você então.
– É, vai lá, ! — Todos agora batiam na mesa e faziam coro falando o nome de , para evitar mais constrangimento, resolveu tomar o shot.
– Já aviso que esse vai ser o único, sou meio fraco pra bebida.
– Se cair, a gente te carrega, pode ficar em paz cara!
Continuaram conversando e bebendo, graças ao álcool, já estava menos nervoso ao socializar com aquelas pessoas que mal conhecia.
Algum tempo depois, viu algumas pessoas entrando no bar, eram e os amigos. Ele estava vestido com uma calça jeans mais escura, um suéter azul claro e por baixo dele uma camisa branca, a gola e os punhos por cima do suéter. não conseguiu evitar de perceber como ele estava bonito, era bem diferente do que costumava ver jogado pelo quarto ou quando chegava já bêbado. Um dos amigos que o acompanhavam era Chris, também amigo de , que acenou para ele. Ficou pensando por um tempo se deveria ou não ir até lá. Quando finalmente eles se sentaram em uma mesa um pouco mais distante, criou coragem.
– Já volto, vou cumprimentar uns amigos ali — disse já se levantando da mesa e indo em direção até a mesa onde os outros estavam sentados.
viu caminhando até a mesa e não conseguiu evitar de abrir um sorriso, já que tinha um ainda mais nos lábios. Ele estava todo de preto, agora já sem a jaqueta, um visual mais rockstar que combinava muito bem com ele, principalmente agora que sabia que ele tocava violão.
– E aí, cara! — disse batendo no ombro de Chris e se levantou e o abraçou.
– ! Quanto tempo que não te vejo! Cê sumiu, menino!
– Tá tudo meio corrido, Oi . — Sorriu ainda mais, o outro o acompanhou.
– Oi, . — Pensou em falar mais alguma coisa, mas Chris já estava apresentando o rapaz ao resto das pessoas sentadas naquela mesa.
– Quer sentar aqui com a gente?
– Não, valeu, tô com uma galera da minha turma, não quero atrapalhar vocês.
– Deixa disso, , mas fico feliz em saber que está fazendo amizades por aqui além do esquisito do .
– Ei! Me respeita, Christopher! — Todos na mesa riram.
– Ele não é esquisito, é bem legal na verdade. — Antes que pudessem responder algo, ouviu alguém o chamando, eram seus amigos na outra mesa. — Pessoal tá me chamando, vou lá, mas foi bom ver vocês. — deu um tapinha no ombro de Chris e acenou para — Até depois.
– Voltei, ficaram com saudades? — disse rindo enquanto se sentava.
– Você é amigo daquela galera?
– Não conheço todos, mas sou amigo do Christopher e do Lee .
– Deixa essa galera pra lá, vai , mais um shot de soju!
– Já falei que só ia tomar um cara, eu já tô todo vermelho. — riu.
– Vai, mais um só! — Jang serviu o copo e colocou em frente a .
– Tá bom, tá bom, mas é o último! — Virou o shot e fez uma careta.
– Você é muito fraco cara, vamos te ensinar a beber direito!
Passaram mais um tempo conversando sobre coisas aleatórias, estava um pouco alto, mas nada demais. Não gostava muito de beber demais, porém o álcool ajudava um pouco a socializar com pessoas que não tinha tanta intimidade.
Às vezes ele olhava a mesa dos outros amigos mais a frente, eles conversavam animadamente rindo do que os outros falavam.
Um tempo depois, 3 amigos da mesa de decidiram ir conversar com algumas garotas que estavam próximas ao bar, ficando apenas e Jang no lugar.
– Ei, , vem cá cara, preciso te falar uma coisa — disse se aproximando.
– Pode falar.
– Conselho de amigo, se eu fosse você, não sairia andando por aí com o Lee não.
– O que? Por que isso?
– Existe uns boatos dele por aí na faculdade que ele é gay, e que andou de caso com um cara do último ano e fez um inferno na vida do cara.
– Sério? Mas o que isso tem a ver? — A expressão no rosto de era de confusão.
– Ah, você sabe, se ficar andando por aí vão falar que você também é gay e que estão tendo um caso. — Jang fez careta.
– Que se foda o que o povo fala, Jang, eu não me importo, e isso tá sendo bem homofóbico da sua parte.
– Qual é, cara, eu não sou isso aí não, só não quero que me confundam com essa galera, nem meus amigos. — balançou a cabeça em reprovação, sem acreditar no que estava ouvindo.
– Quer saber, Jang? Não precisa mais se preocupar comigo não, prefiro andar com gente como o do que preconceituosos como você. — se levantou da mesa antes que o outro falasse algo e ele perdesse completamente o controle. Colocou as mãos no bolso e caminhou até o bar, ignorando os chamados de Jang. Acertou sua parte da conta da mesa que estava e encostou no balcão respirando fundo, tentando esquecer o que acabara de eu vir e pensando se iria embora.
Passou os olhos pelo bar, e Chan ainda estavam lá, caminhou até a mesa deles.
– Posso sentar aqui com vocês? — perguntou, ainda com as mãos nos bolsos.
– Que pergunta é essa, claro que pode! — Chan respondeu abrindo um espaço para se sentar ao seu lado.
– Seus amigos foram embora? — perguntou.
– Não, só não quero mais ficar lá, as pessoas mudam com álcool. — Sorriu meio sem graça, não queria falar sobre a briga na frente do , ele não precisava saber disso.
– Muito bem, seja bem vindo então. Não estava bebendo lá?
– Bebi sim, um pouco demais já inclusive. — Ele riu.
– Não tem problema. Se você cair, eu te carrego ,, pode pedir outra cerveja! — Chan disse o abraçando de lado e riu.
– Tudo bem, mas não posso beber tanto assim, tenho um trabalho pra fazer amanhã.
– Tá bom, tá bom. — Chan pediu uma cerveja ao garçom e logo trouxe.
Logo se sentou melhor e deixou pra trás o que havia acontecido, não ia deixar aquilo arruinar sua noite. O clima com essas pessoas era bem diferente da galera anterior, os assuntos eram mais leves e muito mais a cara de , o pessoal também gostava de jogos, animes e músicas.
Depois de mais duas cervejas, já passavam das onze da noite, e agora um karaokê acontecia no bar. Todos estavam animados e acompanhando quem cantava, mesmo que a pessoa não fosse boa nisso.
– , você devia ir, eu já te vi cantando e você é ótimo! — Chan disse.
– Você canta? Ah vai lá então! — Foi a vez de encorajar, assim como o restante das pessoas na mesa.
– De jeito nenhum, eu morro de vergonha.
– Deixa disso, você já bebeu o suficiente, vai lá!
– Vamos lá, eu vou com você. — se levantou e o puxou pela mão até a lateral do palco. tentou impedir, mas ele era bem forte. — Qual música cai cantar?
– Youngblood do 5 Seconds Of Summer.
– Você tem essa aí? — Perguntou para o moço que cuidava da máquina de karaokê, que afirmou.
– Boa sorte, !
– Você não vai comigo?
– Não, mas vou ficar aqui assistindo. — sorriu, estava nervoso, mas subiu assim mesmo, o pessoal da mesa já batia palmas e assobiavam.
A música começou e a seguiu. Era uma música que ouvia muito, seus olhos estavam direcionados para a tela mesmo que soubesse a letra de cor, encarar as pessoas seria muito mais assustador.
O refrão energético chegou e agora muitas pessoas batiam palma e incentivavam , que já estava começando a se soltar. Às vezes ele olhava de relance para , que se mantinha ao lado do palco com um enorme sorriso. Ele nunca imaginou que aquele garoto tímido que morava com ele era tão bom cantando, ele se iluminava cantando, ainda mais do que quando o viu tocando violão.
A música logo acabou, agradeceu ao público e rapidamente desceu do palco de cabeça baixa, conseguia sentir suas orelhas queimando de vergonha.
– Você é muito bom nisso ! Eu não imaginei que cantava tão bem assim, Chris estava certo!
– Obrigado, mas não precisa exagerar.
– E eu não estou! É sério, você devia tentar entrar numa banda ou sei lá.
– Deixa disso . — riu se sentando na mesa.
Ficaram mais um tempo conversando e bebendo, já estava totalmente vermelho graças ao álcool, todos já falavam levemente enrolado.
Já passava das duas da manhã quando decidiram voltar para os dormitórios. Seguiram cambaleando e se apoiando uns nos outros até a porta do dormitório de e , onde eles ficaram e os demais seguiram cada um para seu prédio.
– Me ajuda aqui — disse passando o braço pelos ombros de e se apoiando nele, que o segurou.
– Eu não estou muito melhor que você, cara. — Eles riram.
Cambalearam juntos até o quarto, assim que chegaram, cada um se jogou em sua cama.
– Hoje foi legal, voltar pra casa com você me impediu de pensar merda.
– Eu? Mas por quê? — encarava o teto, enquanto estava deitado de lado olhando para .
– Porque eu não me senti sozinho, e aí eu não penso em quem eu não deveria.
– É por causa de algum ex que você anda bebendo e chegando sempre triste aqui?
– Sim…
– Quer falar sobre isso?
– Não, não quero estragar sua noite com as desventuras da minha vida amorosa —ah. — Ele se surpreendeu com o apelido repentino e com a natureza com a qual o outro havia dito isso.
– Eu não ligo, pode falar se for te ajudar a ficar melhor, às vezes falar alivia o peso.
– Tá bom, então eu vou te contar, mas promete que não vai querer mudar de quarto depois disso? — disse se levantando, parando entre as camas para ouvir a resposta.
– Prometo, eu gosto daqui.
– Então tá bom. — Se sentou na beira da cama de , que chegou mais para o canto deixando um espaço caso o outro quisesse deitar.
– Foi na metade do ano letivo anterior. Eu namorava um cara do último ano do meu curso, a gente se conheceu no laboratório de informática, ele era estagiário por lá durante o dia. A gente começou conversando sobre coisas aleatórias do curso, fomos ficando amigos até que ele começou a dar em cima de mim, ele não sabia, mas eu já tinha interesse nele. Acabamos começando a namorar, mas era meio que escondido. Ele não morava no campus, então a gente sempre se encontrava no apartamento dele, assim não corria risco de ninguém ver.
suspirou e se jogou na cama ao lado de , que o observava atentamente ouvindo tudo.
— Porém um dia, viram a gente indo embora juntos, e começaram a espalhar os rumores de que éramos gays e estávamos juntos. Eu nunca me importei se alguém saberia, só não sabia que as pessoas se importariam tanto com isso hoje em dia, talvez porque esse cara era meio popular entre o pessoal. E foi aí que tudo começou a desmoronar, porque ele não assumiu, ele negava tudo para todo mundo, e aí viram a gente discutindo, eu chorando feito o idiota que eu sou, e quando ele percebeu, começou agir como se eu fosse um maluco obcecado e ele não tivesse nada a ver com isso. Depois disso tudo piorou pro meu lado, eu já não tinha muitos amigos, os poucos que tinha não queriam mais serem vistos comigo, não queriam arriscar a virarem alvo das fofocas também. E foi assim que acabei sozinho, sofrendo bullying e sofrendo por uma pessoa que nem merecia.
– Eu sinto muito por isso, , esse cara foi um puta babaca com você, podia pelo menos ter tentado amenizar as coisas pro seu lado. Uma pena ele não estar mais aqui pra eu poder dar uma surra nesse idiota. — riu, mesmo algumas lágrimas escorrendo pelos seus olhos.
– Obrigado por ter essa reação, eu tinha medo que se descobrisse isso fosse embora do quarto como outros fizeram.
– Eu jamais faria isso, e esses caras são todos babacas e homofóbicos, essa é a verdade. Você está melhor sem essas pessoas por perto.
– Será? Acho que eles estão melhores sem mim. — A voz dele agora era mais baixa, ainda arrastada, mas com um tom melancólico.
– Lógico que não, você é incrível , e muito engraçado, inteligente também, já me ajudou algumas vezes com as tarefas. Quem perde são eles, acredita em mim.
– Obrigado por isso —ah. Você estava certo, falar sobre ajudou um pouco. — Um leve sorriso estampava seu rosto agora, apesar do olhar ainda ser triste e marejado.
– Pode falar comigo sobre o que quiser sempre que precisar. — sorriu e passou a mão pelos cabelos de .
– Obrigado, de verdade. — abraçou que foi pego de surpresa, assim que o soltou, fechou os olhos.
ainda meio sem reação, ficou o observando por um tempo, até perceber que ele tinha pegado no sono.
– Isso foi rápido. — riu. — Boa noite, . Você não merece passar por essas merdas, muito menos sofrer assim por elas.
saiu da cama com cuidado para não acordá-lo, tirou seus sapatos e o cobriu. Como havia adormecido em sua cama, se mudou para a do amigo, estava cansado demais para pensar em outras alternativas.
Tudo ali tinha o cheiro do perfume de , o que não achava ruim, muito pelo contrário. Não demorou muito, ele também pegou no sono.