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Autora Independente do Cosmos ✨
Atualizada em: 14/12/2025

Eurocopa — Novembro, 2023
Espanha contra a Geórgia



O mundo inteiro silenciou ao meu redor.
O único som que eu ouvia não eram as vozes vibrantes vindo do estádio, nem das pessoas perto de mim, dando comandos rápidos e graves, mas da minha pulsação. Meu coração parecia estar bem perto do meu ouvido, porque as batidas eram tão fortes e tão altas que eu não prestava atenção em mais nada ao meu redor, a agitação me balanceando como parte de um cenário que se desenrolava bem diante do meu campo de visão, transformando-se em um pesadelo.
Eu deveria me mover.
Obrigar meus pés a obedecerem aos comandos do meu cérebro, mas continuei estática, a imagem de dor e pavor de congelada na minha mente, o pior dos cenários se desenrolando em forma de pensamentos pessimistas, porque eu nunca o vi daquele jeito. Nunca o vi sair chorando do campo, nem sequer uma vez, nem quando ele teve a orelha cortada e ficou perdendo sangue e, porra, aquilo deve ter doído pra caralho, mas não como aquilo.
Nunca como aquilo.
? — alguém me chamou. — Você não vem?
O zumbido em meu ouvido pareceu diminuir.
Olhei na direção do dono da voz, encontrando um dos auxiliares técnicos me olhando com um semblante preocupado, como se não tivesse certeza se eu estava bem, mas não quis perguntar. Abri e fechei as minhas mãos devagar, umedecendo meus lábios secos, me lembrando que ele tinha feito uma pergunta.
Olhei ao redor e não estava mais em lugar nenhum. Não vi quando levaram ele para dentro do túnel. Eu já não prestava atenção no jogo que continuou rolando. Placar nenhum me importava mais, aquela merda toda já estava ganha, a seleção da Espanha entrou em campo já com a porra da classificação garantida, o que podia ter dado abertura para alguns jogadores titulares ficarem de fora dessa partida, prestigiando o jogo do banco.
Como o meu melhor amigo.
? — outra pessoa me chamou e me virei na direção do som da voz. — Ele está chamando por você.
Assenti para Heitor e finalmente consegui obrigar os meus pés a se moverem.
Forcei um sorriso no rosto e cruzei o campo para entrar no túnel, ignorando a agitação da torcida na arquibancada, sem entender sequer um lance do que estava rolando no jogo. Ainda era o primeiro tempo, o que significava que a tortura iria continuar por mais alguns longos minutos.
Heitor seguiu na frente e não tive muita pressa em segui-lo. Eu não sabia se estava preparada para ver o quanto fiquei apavorada quando o vi caído no campo, a sensação ruim enchendo a boca do meu estômago quando parei para raciocinar o que aquilo significava e foi ainda pior quando foi anunciado a sua substituição tão cedo da partida.
Eu era fisioterapeuta. Entendia de lesões. Sabia o que tudo aquilo significava.
— Atrás dessa porta — Heitor indicou.
Forcei outro sorriso.
— Tudo bem, Heitor, obrigada — falei pela primeira vez.
Ele assentiu e cruzou outro corredor, indo fazer alguma outra coisa que eu não fazia ideia do que era. Ele era como uma espécie de assistente por ali, mas estava sempre fazendo todo tipo de tarefa, então parei de tentar entender qual era a sua função de verdade e só aceitei que, às vezes, ele estava em todo lugar.
Encarei a porta e engoli a seco. Me recompus o máximo que pude e esfreguei os meus olhos, suavizando a minha expressão e mantendo os meus lábios um pouco menos tensos, sem deixá-los tão rígidos quanto todos os músculos do meu corpo. Segurei a maçaneta e girei.
Era uma sala de ala médica como outra qualquer. O tom branco sempre me cegava de primeira, mas pisquei os olhos algumas vezes para me acostumar e entrei, fechando a porta atrás de mim. O médico da seleção estava ali, junto de alguém que eu não conhecia, mas foi para que eu olhei, sentado na cama com o uniforme da Espanha.
Ele não sorriu quando me viu, mas seus ombros relaxaram, uma atitude sutil que me permitiu perceber que ele estava aliviado de me ver ali.
— Desculpe, não é permitido entrar aqui — o desconhecido que acompanhava o médico disse para mim, me olhando com uma expressão que me repreendia por estar invadindo um lugar que não deveria.
Estreitei os olhos, uma irritação leve tomando conta de mim. Segurei o crachá pendurado no meu pescoço e mostrei na direção dele, indicando que eu tinha permissão para estar em qualquer lugar daquele estádio, se eu quisesse. E eu estava prestes a abrir a boca para fazer tal afirmação, mas meu melhor amigo foi mais rápido.
— Ela é a substituta temporária de fisioterapia do departamento médico, cara — ele disse, balançando a cabeça. — Mas gosto mais de dizer que é a minha melhor amiga.
O médico permaneceu em silêncio, mas seu auxiliar ficou um pouco sem graça ao se dar conta do que tinha acabado de fazer.
— Eu… — ele tentou dizer.
Mas ignorei, me aproximando da cama de . Me sentei na ponta do seu lado esquerdo, oposto ao médico e o desconhecido, e abri um sorriso suave para ele, buscando a sua mão de modo instintivo, quase inconsciente, e ele não perdeu tempo em entrelaçar seus dedos aos meus. Meu coração acelerou, mas ignorei qualquer alteração nas minhas emoções.
— De um a dez, quanto é a sua dor? — perguntei.
— Um sete, talvez.
Apertei os dedos dele.
— Você está mentindo para mim?
Ele bufou baixinho e suspirou.
Sem chance de ser um sete. Eu vi a sua expressão quando ele precisou ser retirado de dentro do campo, vi quando suas lágrimas desceram por suas bochechas e como elas estavam secas agora. Ele mal estava conseguindo ficar em pé quando saiu.
Ele não respondeu.
Me virei para o médico.
— Vocês realizaram o teste da gaveta? — quis saber.
— Ele vai precisar ser transferido para um hospital e realizar alguns exames para confirmar as possibilidades — o médico prontamente respondeu, a expressão tranquila de quem não era a primeira vez que passava por aquilo.
— Então deu positivo?
Silêncio.
Trinquei os dentes e voltei a encarar meu melhor amigo. Eu odiava aquela tensão que antecedia a uma notícia ruim. E o que quer que fosse, ele nem mesmo deu certeza de nada para o meio campista ao meu lado que, porra, não ia gostar nada, nem um pouco, da confirmação do que eu desconfiava ser a sua lesão.
, de um a dez, quanto é a sua dor? — perguntei novamente, com um pouco mais de ênfase dessa vez.
Ele engoliu a seco.
— Dez.
Olhei para seu joelho, um inchaço começando a transparecer.
— Quer dar o diagnóstico ou dou eu? — perguntei para o médico.
apertou os meus dedos inconscientemente. Eu queria poder fazer muito mais por ele do que apenas aquilo, mas eu não tinha esse poder. O máximo que eu poderia fazer era engolir minhas próprias emoções e abraçar as dele.
— Vamos, não pode ser tão ruim, certo? — questionou, a esperança em um fio de voz que quase me despedaçou.
Desde criança, ele se apaixonou pelo futebol de uma maneira que eu nunca vi ninguém se apaixonar por nenhuma outra coisa na vida. Ele decidiu que aquela seria a sua carreira e trilhou o seu caminho para isso, hoje sendo um dos meio-campistas do elenco principal do Barcelona e da Seleção Espanhola e foi um dos jogadores mais jovens a estrear na Copa do Mundo de 2022, e eu tinha muito orgulho da sua trajetória.
Havia poucas coisas que você poderia tirar de uma pessoa sem que isso a destruísse.
E tirar o futebol de ? Sem chance, isso o destruiria.
— Nós ainda precisamos de exames para confirmar qualquer suspeita, senhorita…
Entendi que ele estava pedindo o meu nome, mas ignorei, e como uma pessoa impaciente que odiava enrolação, respirei fundo e arranquei a porra do band-aid.
, eu acho que você rompeu o ligamento cruzado anterior¹.
Ele piscou os olhos para mim, a cabeça balançando devagar, seu cérebro processando a informação que eu acabei de soltar.
— Não, isso não pode ser verdade — ele sussurrou, olhando para mim com a esperança despedaçada. Era como se eu fosse a responsável por estar lhe causando aquela dor e me odiei por isso, mas enganá-lo não tornaria as coisas melhores. — Porque se for, isso significa…
Acho que ele não teve coragem de completar a frase.
Porque se fosse confirmado que ele teve uma lesão no LCA, isso significava estar fora da temporada atual. Demoraria de nove meses a um ano para se recuperar. E era tempo demais afastado do gramado para alguém que nunca teve esse tipo de lesão. Para alguém que nunca ficou tanto tempo afastado.
Para alguém que amava o que fazia e depositava tudo de si ali.
— Podem nos deixar sozinhos por um momento, por favor? — pedi ao médico e ao desconhecido que o acompanhava.
O doutor não hesitou em concordar com um aceno e seu auxiliar o seguiu. Quando ele bateu a porta, eu respirei fundo e me agarrei aos nós dos nossos dedos entrelaçados.
— O médico está certo, você ainda precisa de um exame de confirmação — comecei a dizer, engolindo o nó da minha garganta.
Apesar de toda carga emocional, eu não podia chorar na frente dele. Não podia deixar ele saber agora o quanto eu tinha ficado apavorada e o quanto a ideia da gravidade da sua lesão ainda me assustava, porque eu tinha certeza que estava sendo bem pior pra ele lidar com aquela possibilidade.
Mudaria muita coisa.
E eu me preocupava muito com o seu estado mental.
— Mas você também está certa, não está, mi estrella? — O apelido ainda soou carinhoso no seu tom de voz e o seu sorriso nos lábios finos era o mais melancólico que ele me deu durante toda sua vida compartilhada comigo. — Nunca vi você errar uma.
— Bem, eu errei, talvez, uns cinco diagnósticos? — arrisquei, tentando amenizar o clima.
Ele bufou.
— Hipotéticos — lembrou.
Dei de ombros.
Eu fazia milhares de flashcards para estudar para as provas teóricas e práticas e o fazia me perguntar mil coisas até que eu fixasse na minha mente e me sentisse preparada o suficiente para enfrentar a prova. Ele foi dormir tarde diversas vezes, mesmo que precisasse acordar cedo na manhã seguinte para seguir a sua rotina e depois ir para o treino morrendo de sono, mas nunca reclamou de nada.
Pelo contrário, ele me resgatava de dias reclusa dentro do quarto, me encontrando enfiada na frente do computador estudando anatomia, fisiologia ou cinesioterapia, e me obrigava a comer e a dormir por oito horas seguidas e só ia embora quando tinha certeza que eu descansei um pouco.
— Eu sinto muito, — sussurrei, os ombros caídos.
Ele piscou os olhos para afastar as lágrimas e desviou o olhar. Soltou a mão da minha, desfazendo os nós dos nossos dedos, e encarou seu próprio joelho, a dor estampada em sua expressão, totalmente evidente. Esfregou o rosto com as duas mãos, um misto de emoções rodeando nós dois.
— Merda — soltou, meio abafado contra sua mão. — Isso não pode estar acontecendo. Tem que ser um pesadelo, , eu não…
Meu coração ficou pequeno dentro do meu peito quando percebi que seus ombros começaram a tremer. Eu me aproximei mais e, delicadamente, afastei suas mãos do seu rosto e vi as lágrimas silenciosas começarem a rolar por suas bochechas rosadas pelo esforço de tentar não chorar.
— Olha para mim.
Segurei o seu rosto e ele atendeu o meu pedido, os olhos sustentando o nosso contato visual. Meus polegares começaram a acariciar suas bochechas, limpando as suas lágrimas.
— Eu te amo — comecei a falar. — Quando você decidiu seguir essa carreira, você também aceitou o termo dos riscos de se lesionar de todas as formas possíveis. Tudo bem, não achei que você fosse ter uma lesão no ligamento tão cedo, é frustrante e eu super entendo, mas se tem alguém que pode superar toda essa merda, é você, .
Eu sentia minhas mãos suarem, mas continuei concentrada nele, minha pulsação acelerando.
— Você é jovem, o que é uma ótima chance a seu favor, e tem uma resistência física incrível que muitas pessoas da sua idade não têm — continuei, as palavras saindo de mim com a mais pura sinceridade que eu conseguia ecoar. — Mas mais do que isso, você tem essa força de vontade de sempre querer superar o próximo desafio. E esse é um. Talvez o maior da sua carreira até agora, mas eu vou estar aqui. Vou estar ao seu lado em cada passo, o tempo todo, e talvez você enjoe um pouco da minha cara. Mas você vai superar. Eu prometo.
Ele pousou uma mão em cima da minha contra o seu rosto e fez uma careta.
— O que aconteceu com não fazer promessas que não pode cumprir?
Eu sorri genuinamente.
— Não se aplica a essa, porque nós vamos cumprir — respondi.
Seus olhos brilharam com as lágrimas. Ele afastou as minhas mãos do seu rosto e me puxou para um abraço inesperado e desajeitado, suas mãos me apertando no meio das costas, meu rosto se enterrando entre a base do seu ombro e pescoço e, agora que ele não estava vendo, me permiti mergulhar naquela sensação de conforto, fechando os olhos para tentar acalmar meus pensamentos febris.
Eu nem sempre era uma pessoa otimista. O esforço de projetar todo o otimismo do mundo naquela situação estava me esgotando mais rápido do que eu esperava, mascarando que, na verdade, eu estava apavorada. Eu odiava a lesão de LCA. Fodia a carreira da maioria dos jogadores e ainda não sabíamos a gravidade da lesão dele.
Eu queria que esse dia nunca tivesse existido. Que ele nunca fosse escalado para iniciar a partida, que tivesse ficado no banco.
— Às vezes acho que não te mereço — ele murmurou, ainda sem me soltar.
— Às vezes, eu tenho certeza disso — brinquei.
Ele beliscou minha pele por cima do meu uniforme em protesto.
Me afastei dele devagar.
— Eu vou ligar para Aurora e seus pais, tudo bem? — avisei, esperando que ele não percebesse que eu queria muito sair daquela sala um pouco. — Elas devem ter visto ao vivo.
Quando ele assentiu concordando, beijei a sua bochecha, murmurei um “já volto” e saí. Fechei a porta atrás de mim e soltei o ar pela boca, respirando de um jeito pesado. Talvez eu só precisasse de um pouco de ar puro.
Olhei ao meu redor, me sentindo meio perdida sobre que caminho tomar.
As vozes distintas vindo de algum lugar começaram a ficar cada vez mais perto e, antes que eu andasse na direção contrária, alguns dos meninos apareceram no meu campo de visão, me flagrando ali. Eu tinha perdido a noção do tempo e eles já estavam no intervalo de 15 minutos da partida.
— E, aí? — Pedri falou primeiro, se aproximando. — É muito ruim?
Pisquei na direção dele, apertando meus próprios dedos, os meninos me olhando com uma expectativa excruciante.
Mordi a parte interna da minha bochecha, começando a ficar inquieta, o nó na minha garganta crescendo.
— Desconfio que sim — consegui responder, balançando a cabeça. — Eu preciso falar com a Aurora, mas ele está lá dentro, então…
Forcei um sorriso de lábios fechados e passei por eles com uma pressa impressionante. Ninguém disse mais nada e nem tentou me chamar, e eu continuei seguindo pelos corredores, procurando por algum espaço seguro e vazio que eu pudesse desabar um pouco sem ninguém ver ou saber.
Mas agora estava cheio de jogadores, tanto os da Espanha quanto os da Geórgia, e precisei ficar desviando de corpos suados e altos para atravessar outros corredores, procurando, então, o lugar mais seguro que eu tinha em mente naquele momento: o banheiro feminino.
?
Alguém tocou o meu braço. Eu me virei imediatamente na direção do dono da voz que chamou o meu nome e me deparei com , o zagueiro da seleção espanhola e do time do Barcelona.
— Precisa de alguma coisa? — perguntei, um pouco confusa, olhando ao redor dele.
Ele afastou a mão do meu braço. Nós tínhamos uma diferença de altura considerável, mas eu conseguia conversar com ele sem precisar esticar muito o meu pescoço. E apesar de estar completamente suado, ele exalava um leve frescor de uma fragrância que eu não conhecia.
— Ah, não. — Ele negou rapidamente, balançando a cabeça de modo frenético. Os olhos pousaram nos meus. — Não, eu… eu vi você saindo da sala e falando com Pedri e só… Você está bem?
A pergunta me pegou um pouco de surpresa e engoli a seco, pensando em alguma resposta. Cocei a minha bochecha.
— Acho que não tem uma resposta certa para essa pergunta.
segurou a minha mão de um jeito inesperado.
— Suas mãos estão tremendo.
— É, eu… Isso é porque eu fiquei apavorada. Acho que ainda tô um pouco.
— Por causa do ?
Encarei sua mão segurando a minha e assenti. Estranhamente, senti um tipo diferente de conforto com o seu toque.
— Vem aqui.
Deixei que ele me levasse, para onde quer que fosse que estivesse me levando. Nós apenas demos alguns passos, cruzamos um corredor e ele abriu uma porta, nos enfiando lá dentro. Não havia ninguém e estava com um cheiro forte de produtos de limpeza. Passei o olhar, verificando, percebendo que parecia ser uma sala simples de escritório, mas sem muita decoração.
Estava faltando personalidade ali.
— O que você está fazendo? — foquei no que importava, me virando para ele.
Em algum momento, ele tinha soltado a minha mão.
— Te dando espaço? — retrucou, incerto. — Você parece que vai vomitar a qualquer momento e está um pouco pálida.
Era meio desconcertante o quanto ele tinha prestado atenção em mim, mas eu não tinha tempo de pensar sobre aquilo.
— Posso buscar uma água para você e…
Não — interrompi-o, apertando os meus próprios dedos, sentindo os meus olhos marejarem, como se, de alguma forma, eu precisasse colocar para fora. — Eu sei que parece uma reação exagerada, mas quando o vi caído ali, gritando de dor, eu…
Não percebi o momento em que ele se aproximou, ficando bem na minha frente. Suavemente, seus dedos acariciaram meu braço, na tentativa de me oferecer um pouco de conforto. Solucei sem querer e respirei fundo, evitando a todo custo que este homem presenciasse a minha vulnerabilidade.
— ele exibiu um sorriso suave, que chegava aos seus olhos. — Não é uma reação exagerada. Não deveria invalidar suas próprias emoções.
Dei um soquinho leve contra seu peito.
— Pare. Eu não quero…
— Chorar? — completou por mim. — Deveria. Quem sabe pode se sentir melhor, se fizer isso.
— Não vou chorar na sua frente.
— Eu sou o menor dos seus problemas, querida.
Meu nariz ardeu e funguei baixinho de novo, ainda resistindo, olhando para ele como se não fosse nada. Eu preferia continuar assim, mas ele tinha outros planos.
Quebrando a minha resistência, me abraçou devagar, enrolando seus braços por meus ombros e cintura, a surpresa instalando-se dentro de mim conforme ele me puxava para mais perto, até que coisa toda realmente se parecesse com um abraço.
Senti meus músculos completamente rígidos, minhas mãos ainda uma em cada lado do meu corpo, meu cérebro processando lentamente o que estava acontecendo. Eu não esperava que ele me abraçasse. Não esperava que fosse ceder, nem que meus músculos fossem relaxar e minhas mãos se enrolassem em volta de suas costas suadas.
E, menos ainda, não esperava enterrar meu rosto contra o seu peito e chorar. Um choro silencioso e ainda contido, com lágrimas quentes descendo por minhas bochechas e molhando a camisa do zagueiro do time, que me confortou com algumas afagadas tímidas nas minhas costas.
Ele tinha razão.
O choro aliviou a minha angústia e me senti um pouco melhor. Como se um peso tivesse saído dentro do meu peito, me deixando mais leve, sem a tonelada de uma emoção me esmagando lentamente. Não sei quanto tempo o momento durou, mas ele precisava voltar para a partida.
Todos seus 15 minutos de descanso do intervalo foram gastos comigo.
Limpei a minha garganta e me afastei devagar, usando as minhas mãos para enxugar as minhas bochechas molhadas. Ele ficou em silêncio por mais um instante, deixando que eu me recuperasse de uma maneira mais digna.
— Se sente melhor? — quis saber.
Balancei a cabeça positivamente em uma resposta não-verbal.
— E como o está?
A pergunta fez meus ombros caírem murchos e derrotados, uma lufada de ar saindo dos meus lábios. Olhei para , percebendo uma linha fina de preocupação desenhar a expressão do seu rosto.
— Pior do que eu, tenho certeza — respondi, coçando o nariz. — Suspeita de rompimento do ligamento cruzado anterior. Provavelmente vai precisar de cirurgia.
Os lábios dele apertaram um contra o outro, a expressão se desfazendo de preocupação para lamentação.
— Merda — ele soltou. — Não pensei que fosse ser tão ruim.
Concordei com um aceno, porque ainda parecia um pesadelo.
Parecia que a qualquer momento eu iria acordar e perceber que ainda estava deitada na cama fria, em uma manhã mais fria ainda, me xingando mentalmente por ter esquecido a janela aberta e estava ventando demais, piorando o frio.
Mas não era um pesadelo.
ainda estava naquela sala, esperando para ser transferido para um hospital.
— Você devia ir — lembrei. — O segundo tempo vai começar.
Não me senti preparada para o olhar analisador que ele me deu, como se tivesse procurando por algum resquício que pudesse usar como argumento para não ir embora tão rápido, querendo se certificar de que eu estava bem mesmo, e não fingindo.
Me surpreendia que, de todos os caras da equipe principal de quem eu era mais próxima, ele fosse quem tivesse prestado atenção em mim. A ponto de me seguir e garantir que eu estivesse bem.
— Tá tudo bem, . Eu vou ficar bem.
Ele levantou as mãos, fingindo rendição, e concordou com a minha insistência.
Deu as costas para ir embora, mas quando girou a maçaneta, ele virou o rosto para mim.
— Sinto muito por todo o lance do — disse, encolhendo um ombro. — Mas que bom que ele tem você. Espero que ele saiba a sorte que tem.
Pisquei os olhos, desconcertada com o que ele tinha acabado de dizer, seus braços tatuados sumindo do meu campo de visão com a porta emitindo um clique assim que ele fechou.
Antes que minha mente entrasse em um espiral de pensamentos, senti meu celular vibrar com alguém me ligando e, assim que peguei o aparelho, vi o nome da irmã de piscar na tela, me lembrando que eu esqueci de fazer aquela ligação.
Atender a chamada suavizou a onda de neblina que turbinou as minhas emoções, me obrigando a recuperar meu próprio controle para enfrentar os minutos seguintes sem que eu quisesse me enfiar em qualquer lugar e deitar em posição fetal, principalmente depois de lembrar que eu deixei sair sem oferecer o meu agradecimento pelo conforto inesperado.

¹: A lesão do ligamento cruzado anterior (LCA) é uma lesão comum do joelho, geralmente causada por um impacto ou movimento brusco. A dor intensa, inchaço e instabilidade articular são sintomas típicos. A recuperação pode levar de 9 a 12 meses.



Janeiro, 2024
Espanha — Barcelona
Centro de treinamento



— O que você tá fazendo ?
Reconheci a voz antes mesmo de abrir os olhos e encarar com uma expressão bem confusa, me olhando como se eu fosse meio maluca. Ela estava muito alta no meu campo de visão, cobrindo uma porcentagem do céu diante de mim, que continuei deitada na grama do campo de treinamento do time.
— Contemplando a minha insignificância existência — respondi, respirando devagar.
A mais nova revirou os olhos e balançou a cabeça.
— Você bebeu? — perguntou, o tom bem sério, como se isso fosse mesmo uma opção. Respondi com um aceno negativo de cabeça. — Fumou? — Outro balançar negativo. — Ingeriu alguma substância ilícita?
— Você sabe que não.
Então ela se abaixou, do jeito que um adulto fazia para ficar da altura de uma criança, e tocou a minha testa.
— Sem febre — constatou. — Não há nenhum sinal de que você está entrando em uma espécie de delírio. Por que você está deitada no meio do campo como se fosse uma maluca?
— Eu caí. — Indiquei o meu joelho ralado, com um filete de sangue escorrendo. — Achei mais proveitoso ficar aqui no chão mesmo.
Ela soltou uma risada baixa e finalmente se sentou ao meu lado.
— Vai, desembucha.
Encarei o céu azul e limpo, sem nenhum sinal do sol naquela tarde de treinamento. O clima estava ameno, não fazia calor, mas também não fazia o frio comum, e mesmo assim, eu usava uma calça de moletom e uma camisa folgada com a logo do time. Os fios do cabelo estavam emaranhados em um coque bem desajeitado, e tudo na minha aparência refletia o meu humor.
Levei uma mão até a lateral da minha testa e comecei a esfregar a minha têmpora, massageando levemente, na esperança de espantar a dor de cabeça que ameaçava aparecer. permaneceu ali, paciente, esperando que eu começasse a falar.
— É o — desembuchei com um suspiro quase culpado, o nariz franzido. — Eu avisei que a recuperação de uma lesão no ligamento do joelho é um processo lento pra caralho e super entendo ele estar sendo rabugento depois da cirurgia, e que é normal você se enfiar em um espiral de pensamentos pessimistas nas primeiras semanas de fisioterapia, mas só…
— Você está estressada — ela concluiu por mim.
Aquela pontada infeliz de culpa me cutucou de novo.
Eu soltei outro suspiro pesado e assenti quase imperceptivelmente, mas ela percebeu meu movimento sutil.
— Acho que não consigo definir o meu nível de estresse — confessei. — É difícil vê-lo assim e sentir que estou de mãos atadas. O esforço que faço de tentar ser otimista para compensar o pessimismo dele está me exaurindo um pouco.
E porra, eu não era uma pessoa muito otimista.
Eu pensava muito em tudo que podia dar errado sem pensar nas possibilidades de tudo dar certo. O placar negativo de uma partida já me estressava em um nível muito além do que eu podia controlar, ainda que faltasse 50 minutos para o jogo terminar, sem levar em consideração que o time podia virar. Achei que meus pais iam se separar depois da morte do meu irmão. Que eu não ia conseguir entrar em faculdade nenhuma porque as três primeiras me recusaram. Que eu nunca mais ia tirar uma nota boa porque fui mal em uma prova de anatomia.
E quando o rompeu o ligamento do joelho, pensei em tudo que podia dar errado dali em diante, mesmo prometendo que tudo ia dar certo, porque era nisso que ele precisava acreditar.
Pensei em coisas horríveis e cenários negativos. Imaginei de tudo.
E agora os papéis pareciam ter se invertido.
— Sabe do que você tá precisando? — se pronunciou.
Olhei para ela.
— Dormir 48h seguidas? — arrisquei adivinhar.
— Também, provavelmente — concordou, meio em dúvida. — Mas não era isso que eu ia dizer. Eu ia dizer que você tá precisando transar. Sabe, para extravasar todo esse estresse.
— Se a intenção é reduzir o meu estresse, você poderia ter sugerido, sei lá, lutar boxe?
— Você meio que odeia atividades físicas e praticar esportes em geral — ela respondeu, arqueando uma sobrancelha e comecei a me perguntar como ela passou a me conhecer tão bem àquele ponto. — O que é meio irônico para alguém que se formou em fisioterapia, mas isso não vem ao caso. Só tô lembrando que sexo tem ótimos benefícios para a saúde e talvez esteja na hora de você ter um novo pau amigo, como o Simón, lembra? Uma pena que você dispensou ele.
Cocei a minha bochecha, bufando.
— Se eu não tivesse feito isso, ele não estaria com a Laura¹ agora — comentei. — Não posso impedir as pessoas de se apaixonarem.
O celular dela tocou, mas ela só deslizou o dedo pela tela e voltou a prestar atenção em mim. Os meninos estavam do outro lado do campo, treinando juntos.
— Quem vê de fora, até pode pensar que você é sensível a esse ponto, que fofa — debochou, um sorriso falso nos lábios. Eu a cutuquei com força, fazendo-a recuar. — Vamos voltar ao ponto principal: quando você usava o Simón de estepe…
— Eu não usava ele de estepe…
— …Era ótimo — ela me ignorou e continuou, me atravessando com o olhar nada simpático. — Você podia descontar todas as suas frustrações na cama com ele, além de ter o ótimo benefício de uma vida sexual ativa, como o bom humor. Eu ouvi o Hector reclamando um dia desses que você anda extremamente mal-humorada.
Meu rosto se contorceu em uma careta. Às vezes não dava para argumentar com essa garota. Não quando ela estava determinada a provar seu ponto.
— Tá, tá bom, eu já entendi.
Ela parou um pouco. Em seus lábios, um sorriso sincero, pequeno e genuíno surgiu. Um gesto sutil de carinho transpassou dos seus dedos para a lateral do meu rosto, afastando alguns cachos rebeldes da minha bochecha.
— Talvez não seja o conselho que você estava esperando, mas olha, , você tá mesmo precisando se divertir um pouco — ela começou a dizer. — Desde que o se lesionou e você praticamente se mudou para o apartamento dele, eu não te vi fazendo nada para relaxar um pouco. Você está estressada, está com olheiras, o que denuncia que você mal tá dormindo, e ainda está tentando conciliar o seu projeto de mestrado. E desacelerar um pouco pode ser saudável. — Ela afastou os dedos. — O é seu melhor amigo. Ele não vai te culpar por você tirar um tempo para você.
Ela tinha razão.
Eu não lavava meu cabelo decentemente há duas semanas. Minha pele não via um creme de hidratação há muito tempo e, sim, eu estava com olheiras. Tinha um monte de papel de relatório que precisava preencher e pretendia conseguir aquela vaga do mestrado em fisioterapia do esporte que o clube oferecia, mas também tinha os trabalhos voluntários que eu fazia nas ONG's, e tudo estava se acumulando.
Todo o tempo livre que eu tinha, dedicava a . Ajudava-o com seus exercícios de fisioterapia e, à noite, antes de dormir, assistíamos a algum filme juntos, mesmo que eu dormisse na metade por conta do cansaço.
As coisas estavam começando a voltar ao normal, mas ainda assim, eu meio que hesitava em deixá-lo sozinho.
— Eu meio que dispensei todos meus contatos — contei para ela.
riu enquanto eu me levantava e me sentava ao lado dela, vendo-a apontar para o campo inteiro.
— Olhe ao seu redor, querida. — Indicou os jogadores em treino. Daqui, eu conseguia ver Lamine perturbando os outros. — Você está cercada de possíveis alvos.
Empurrei-a com um ombro.
— Dá pra parar de falar como se isso fosse uma operação policial? — reclamei.
deu de ombros, sem se importar.
— Mas é uma operação. Uma operação “Pau Amigo” — disse, de um jeito ridículo que me fez rir. — Que tal o Fer?
— O irmão do Pedri?
— Tem outro? — ela perguntou com ar de obviedade. — Ele vive dando em cima de você sempre que tem uma oportunidade.
E eu o dispensava todas as vezes. Suas investidas até eram divertidas, mas seria um erro ceder a ele.
— Ah, não. — Balancei a cabeça. — Não fico com o Fer pelo mesmo motivo que você não quis mais ficar com o Balde.
Ela franziu a testa, confusa.
— Você não quer se envolver com gente do trabalho?
— Não, eu tava falando da parte que eles não sabem a diferença entre sexo casual e relacionamento sério.
Ela quem me empurrou com o ombro dessa vez, rindo baixo com a minha constatação, mas que não discordava. Ela sabia que eu estava certa. Aqueles dois podiam ser ótimas pessoas e ótimas companhias, mas não eram candidatos ideais para sexo casual. Eles elevariam o patamar da coisa toda e eu não estava procurando relacionamento sério.
Simón sabia disso.
Acho que ele também sabia que, por mais que eu tentasse, meu coração não tinha espaço para outra pessoa no momento.
se recuperou, voltando a focar no assunto.
— Tá, é justo — disse, seus olhos examinando os jogadores distantes de nós duas. Eu virei o rosto e observei sua feição concentrada, prendendo o riso ao perceber que ela tava levando aquela coisa de pau amigo a sério mesmo. — E o Ferran?
Olhei para ela como se ela fosse maluca.
Nunca considerei Ferran nesse tipo de possibilidade e não sei o que levou ela a pensar a mesma coisa. Minhas opções não podiam estar tão ruins ou tão escassas assim. Quer dizer, nada contra o Ferran, mas…
— Você tá sugerindo que eu transe com seu melhor amigo? — perguntei, devagar, sentindo a pronúncia de cada sílaba.
— Por quê? — ela questionou. — Ele é proibido ou algo do tipo?
— Não sei, só parece um pouco estranho — admiti. — Inclusive, essa conversa toda não tem sentido. Não vou transar com o Ferran e não tenho tempo para encontrar um pau amigo, beleza?
Encerrei o assunto antes que ela começasse a sugerir que eu transasse com o García ou algo assim, porque gostava de explorar todas as possibilidades, até reduzir um a um, descartando tudo.
Comecei a me levantar, com ela seguindo os meus movimentos.
— Espera aí, e o Mateo?
Bati minhas mãos, limpando a sujeira da grama e garanti que o ferimento no joelho era apenas superficial. Bastava colocar apenas um band-aid e ficaria tudo normal.
Eu não respondi a mais uma tentativa dela, o que foi um erro, porque ela percebeu o que o meu silêncio significava e, quando me abaixei o suficiente para pegar a minha bolsa do chão, ouvi ela perguntar:
— Você já transou com ele, né?
Enfiei a alça da minha bolsa no ombro, olhei para ela e balancei a cabeça. Sua expressão divertida e cínica não me deu espaço para negar ou mentir, e só voltei a andar, sem necessariamente seguir uma direção.
— Foi só uma vez.
Ela acompanhou os meus passos ao meu lado, interessada.
— Ótimo! — exclamou, como se isso fosse algo bom. Uma solução para um problema que só existia na cabeça dela. — Por que não transam de novo?
Cocei a minha bochecha e respirei fundo. Não vi o Mateo em lugar nenhum daquele campo hoje. Ele costumava ser um pouco mais reservado que os demais e preferia fazer seu trabalho na sua sala particular, mas como um dos fisioterapeutas do time, às vezes era inevitável ele não acompanhar os treinos.
— Porque foi meio estranho. Combinamos de seguir em frente e nunca mais tocar nesse assunto, e foi o que eu fiz. Pelo menos, até agora.
Torci que ela mudasse de assunto, que não me fizesse contar o que aconteceu, e eu até apressei um pouco os meus passos, mas foi mais rápida e se colocou na minha frente, me freando com as mãos nos meus ombros.
— Estranho tipo como? — ela quis saber. — Ele tem um pau pequeno? Não sabe transar? Brochou?
Tinha decidido não responder, mas ela levantou uma sobrancelha para mim, determinada a sair dali com uma resposta. Minha demora a incomodou, o que fez ela apertar os meus ombros com uma força desnecessária.
— Às vezes eu esqueço como você é chata — declarei, e ela nem se abalou. — Ele chorou no meio da coisa toda, tá bom? Tava triste por causa do término do seu relacionamento e, de repente, ele começou a chorar, se sentindo culpado. E você pode imaginar como o clima ficou.
segurou a risada.
Os lábios dela se comprimiram, os ombros tremeram um pouco e eu revirei os olhos, me desvencilhando dela, balançando a cabeça enquanto voltava a andar.
— Babaca — murmurei, ouvindo ela explodir em risadas.
Era engraçado agora, mas não foi naquela época.
Eu meio que fiquei sem saber o que fazer quando me dei conta que ele estava chorando enquanto minha boca estava perto do seu pau e comecei a questionar se foi algo que eu fiz até entender que o problema era ele. Meio traumatizante, na verdade.
Compreensível a sua situação, mas meio traumatizante. No fim de tudo, ele conseguiu voltar com a ex e me pediu desculpas pelo que aconteceu, combinando de esquecer esse episódio e seguir em frente. Então, tecnicamente, nunca rolou nada entre a gente.
E não era mais estranho esbarrar com ele nos corredores.
— Desculpa! — ela se apressou em dizer, correndo até mim, ainda rindo. — Ai, droga, como é que eu vou olhar para ele agora?
Lancei um olhar feio na sua direção, como se passasse a mensagem silenciosamente, tipo você não ouse, e estava prestes a verbalizar isso só para frisar, mas fui interrompida por seu outro neurônio.
— Olhar pra quem? — Ferran perguntou, fazendo a gente parar de andar.
E era incrível como ele sempre chegava no meio da conversa e pegava algo pela metade, querendo saber qual era o assunto. Ele não era fofoqueiro, mas curioso era uma característica forte.
— Para ninguém. — Me adiantei, encerrando o assunto antes que fizesse questão de espalhar aquela informação aos quatro ventos.
Ferran podia não ser fofoqueiro, mas Pedri era e ele contava tudo para o meio campista.
Eu não precisava que o constrangimento íntimo do Mateo fosse assunto entre eles.
— É o seguinte — iniciou, olhando para ele —, a precisa de um novo pau amigo.
Gemi em desgosto e protesto, meus ombros caindo em clara derrota.
— Ah, qual é? — grunhi.
A pilantra só deu de ombros.
— Pau o quê? — Ferran questionou, confuso, olhando para nós duas.
— Pau amigo — ela se adiantou em responder e explicar. — Alguém com quem ela pode ficar transando às vezes. E eu sugeri você.
Nossa, eu ia matar essa garota.
Mas tudo o que eu fiz foi apertar a alça da bolsa contra meu ombro e lamber os meus lábios. Ferran demorou a entender um pouco o que sua melhor amiga tinha acabado de dizer e olhou para mim.
Ele apontou para ele mesmo e apontou para mim em seguida, olhando para com uma expressão indecifrável.
— Você sugeriu que eu transasse com a ? — ele perguntou, querendo entender se era isso mesmo que tinha ouvido sair da boca da mais nova. Ela assentiu. Então ele riu. — Não vou transar com a melhor amiga do , .
A estagiária de social media se indignou, a feição mudando completamente, as rugas no meio da testa aparecendo.
— Mas que porra é essa? — indagou, irritada. — É algum tipo de código entre vocês e não estou sabendo?
— E se eu não fosse a melhor amiga do ? — perguntei para Ferran, fingindo uma expressão séria apenas para zoar.
Prendi o sorriso e assisti suas bochechas corarem um pouco quando ele olhou para mim.
— O quê?
— Se eu não fosse a melhor amiga do , você transaria comigo?
Ele coçou a bochecha, sem jeito. só observou.
— Eu... Olha só, isso é…
deu um tapa no ombro dele.
— Para de gaguejar, idiota. Ela só está zoando com você.
Comecei a rir, dando de ombros, e ele bufou, indignado.
— E essa história de pau amigo? — Ferran voltou ao assunto.
Neguei com a cabeça e apontei em riste para os dois, ouvindo meu celular tocar. Comecei a caçar o aparelho dentro da bolsa enquanto retornava a andar, querendo deixar os dois para trás.
— Não, chega desse assunto de pau amigo, tô fora — avisei, séria, dando as costas para os dois. — Preciso ir.
Fiquei aliviada que nenhum deles me seguiu e continuei andando, na intenção de ir para a sala mais vazia que eu encontrasse, que geralmente ficava mais na parte do auditório inutilizado. O corte no meu joelho ardia, a dor de cabeça ameaçava voltar e quando consegui encontrar o aparelho eletrônico, vi que era uma ligação perdida de alguém de uma das ONG's que eu voluntariava, me lembrando dos relatórios que eu precisava produzir e enviar por e-mail.
Talvez eu precisasse transar e isso realmente me ajudasse a relaxar e reduzir um pouco o estresse, mas meu corpo também pedia muito por uma noite de sono decente. Bocejei pelo caminho e não prestei atenção em quem estava vindo.
Ou melhor, o quê.
Só me senti sendo atingida por uma bola no rosto, com força o suficiente para me fazer cambalear para trás, perder o equilíbrio e cair pela segunda vez no dia.
O baque surdo da minha cabeça contra o chão me fez soltar um gemido incoerente de dor e ouvi meu celular caindo em algum lugar por ali. Minhas costas latejaram e me mover só piorava.
— Abigail!
Ouvi uma voz conhecida gritar com um timbre grave e uma voz infantil se desculpar imediatamente. Pisquei meus olhos, tentando me ajustar novamente, e me forcei a tentar levantar o meu corpo, pelo menos me erguer o suficiente para encontrar o responsável que chutou uma bola de futebol horrenda de forte bem no meio do meu rosto, piorando a minha dor de cabeça.
E quando consegui, me deparei com uma criança de quase sete anos de idade com os olhos arregalados de pânico, denunciando a sua culpa. Atrás dela, , com sua postura autoritária e beleza inquestionável, trajando roupas de treino com o brasão do time estampado nos tecidos.
— Querida, eu te disse que você não pode jogar aqui. — Ouvi ele suavizar a voz para a garota.
— Desculpa, papai. — Sua voz embargada denunciou seu arrependimento.
Eu consegui me sentar, ignorei minhas dores, e olhei para a menina, tentando sorrir.
— Você está bem? — Ele passou por ela e se aproximou de mim, abaixando-se para ficar na minha altura, como se eu fosse a criança ali. Sua mão segurou o meu rosto com certa delicadeza e fui transportada para a memória de quando meu corpo estava grudado ao seu e eu estava chorando, encharcando sua camisa com minhas lágrimas salgadas, e ele nem sequer se importou.
Pisquei com força para não dissociar e me lembrei que ele fez uma pergunta.
— Sim, tudo bem.
— Tem certeza? — insistiu. — Seu nariz tá muito vermelho.
Toquei por instinto, me certificando de que os ossos estavam todos em seu devido lugar.
— Ela tem um chute forte — brinquei.
O som da sua risada reverberou por todo o meu corpo e fiquei aliviada de quebrar a tensão. Não estava suportando encarar a menina me olhar com tanta culpa.
— É, não é a primeira vez que ela faz estrago. — Ele se virou para a filha, chamando-a com um gesto. Ela hesitou, mas veio, e se encaixou nos braços dele. — Querida, essa é a . Você tem algo para dizer a ela?
Abigail, como eu me lembrava de ter ouvido ele a chamar, olhou para mim com os olhos pequenos e os lábios tremendo, como se fosse chorar a qualquer momento.
— Me desculpa, senhorita .
— Ah, que isso, me chame só de , por favor — respondi, descartando o senhorita com um gesto de mão exagerado. — E tá tudo bem, você não teve culpa.
Ela se virou para um pouco mais feliz.
— Viu, papai? — disse, com um sorriso encantador. — Ela me desculpou.
Ele sorriu para ela e meu coração se derreteu com a cena. Ela tinha o mesmo sorriso que o dele, mas a cor dos olhos eram diferentes, assim como o tom dos fios de seu cabelo, ondulados e curtos.
— Isso é ótimo, Abby — ele comentou, olhando para ela. — Pode pegar a bola e me esperar lá no campo? Eu já te sigo.
Abigail assentiu prontamente, obedecendo. Ela beijou a bochecha dele e me gesticulou um “tchau”, do qual eu devolvi, e nós dois assistimos ela correr com as pernas curtas até a bola e seguir o caminho que eu tinha trilhado antes. Agora sozinhos, mordi o meu lábio e tentei me levantar.
— Eu sinto muito por isso — ele se apressou em dizer, ao mesmo tempo em que me ofereceu sua mão para me ajudar a levantar. Havia algum tipo de colônia forte e cheirosa vindo dele, me deixando um pouco tonta.
Tinha esquecido o quão bonito ele era de perto.
— Sério, tudo bem. Não foi culpa dela. — Aceitei a sua mão e nós dois nos levantamos juntos, meus dedos formigando de um jeito estranho contra os seus.
Eu meio que estava constrangida por esse homem ter me visto chorando. Não foi meu melhor momento e odiava ser tão vulnerável a ponto de alguém presenciar isso.
Limpei a garganta e soltei a mão dele, erguendo o rosto para olhá-lo, a diferença de altura considerável entre nós.
— Nunca te agradeci de um jeito decente por aquele dia — comecei a falar, lambendo os lábios. — As últimas semanas foram meio estressantes, mas mesmo assim, obrigada.
Devagar, seu sorriso aumentou, mas o que me pegou de surpresa foi o toque do seu polegar na minha bochecha.
— Seu rosto ainda está um pouco vermelho, tem certeza que você está bem? Posso te acompanhar até a enfermaria.
Revirei os olhos e fiz um gesto com a mão, descartando o que ele tinha acabado de oferecer. Eu estava bem. Meu maior problema naquele momento era a dor de cabeça latejante tornando-se incômoda.
— Não vamos tornar um hábito você se preocupando comigo — brinquei, a sobrancelha arqueada.
Ele riu e afastou sua mão do meu rosto, erguendo os dois braços como se estivesse se rendendo.
Em seguida, se abaixou, pegando minha bolsa e meu celular do chão e, sem querer, me vi inclinando o rosto um pouco para trás, na tentativa de enxergar um pouco a sua bunda. O short justo do treino tornava aquela parte do seu corpo bastante chamativa e atraente. Eu não tinha ideia de que os uniformes estavam tão justos daquela maneira.
— Você precisa de mais tempo para admirar? — ele perguntou, segurando a risada.
Divaguei tanto que acabei sendo pega no flagra por ele, sem espaço para disfarçar. Obviamente, ele percebeu que eu estava encarando a sua bunda de um jeito muito descarado e me recusei a ficar com as bochechas vermelhas. Mais do que já estavam, na verdade.
— Eu precisaria de tempo para muito mais do que só admirar. — As palavras saltaram da minha boca antes mesmo que eu tivesse a mínima chance de me frear.
Porque acabei de flertar com ele.
E, talvez por ele ser mais velho ou algo do tipo, esperei que ele risse ou me rejeitasse, ignorando minha clara investida.
Recusei o pau amigo que estava disposta a encontrar pra mim e agora eu estava aqui, dando em cima de um dos zagueiros do time. Um pai solteiro de duas meninas que tinha noção da própria beleza e do que podia fazer com as mulheres ao seu redor.
No entanto, ele não disse nada.
Só começou a se aproximar de mim, oferecendo minha bolsa e o meu celular, e foi então que eu olhei para ele, me deparando com a ausência do seu sorriso. Não consegui decifrar a sua expressão, mas quanto mais ele se aproximava, mais meus pés me levavam para trás por puro instinto, até que eu estivesse contra a parede daquele corredor e não tivesse mais opção a não ser segurar minha própria bolsa e pegar o meu celular.
Eu ainda olhava para ele.
Sentia a sua respiração mais próxima.
E fui pega de surpresa com suas mãos pressionando a minha cintura com força suficiente para me arrepiar, a respiração falhando por um milésimo de segundo. A barba feita dava um ar de seriedade à sua expressão afetada.
— Papai! — A voz infantil de Abigail nos interrompeu. — Vem logo!
Ele soltou a respiração, balançando a cabeça, como se não esperasse ser interrompido logo agora.
olhou para mim, os olhos mais intensos dessa vez, carregando algo que não consegui identificar. Ele aproximou mais o rosto do meu.
— Cuidado com o que deseja, — ele murmurou, roçando a boca contra minha orelha. — Pode acabar conseguindo o que quer.
Com um último aperto na minha cintura, ele me deixou ali, desnorteada.
O calor saiu das minhas bochechas e desceu por meu corpo inteiro, meus dedos pressionando a alça da bolsa com força, até os nós ficarem brancos e eu pudesse respirar normalmente, devolvendo o ar para os meus pulmões.
Porra, tinha razão.
Eu precisava muito transar.

¹:Laura é a personagem principal de I Think He Knows, do mesmo universo, que você pode ler aqui.



Fevereiro, 2024
Espanha — Barcelona


?
Chamei pela segunda vez, aumentando o meu tom de voz para que alcançasse o primeiro andar até o seu quarto e ele finalmente me ouvisse. Geralmente, ele levantava primeiro do que eu, sempre acordando pontualmente no mesmo horário de todos os dias, mas quando encarei o relógio no meu pulso, percebi que ele deveria ter levantado uma hora atrás.
Aquele papel era meu. Eu quem me dava ao luxo de dormir tanto a ponto de me atrasar para alguns compromissos de vez em quando, me forçando a me arrumar de maneira tão ágil que acabei tornando minha habilidade estar pronta dentro de vinte minutos e ainda conseguir pegar o cookie de baunilha que a padaria da esquina vendia. O vendedor do lado do balcão já tinha gravado o meu rosto e o meu pedido, o que significava que toda vez que eu entrava, ele nem sequer me esperava pedir. Só me entregava o saco pequeno e me oferecia um sorriso simpático e sua atitude gentil sempre me fazia estar disposta a lhe dar uma gorjeta a mais.
Era um funcionário de ouro.
E provavelmente a única vantagem que eu tinha dormindo no apartamento do meu melhor amigo, já que eu morava bem depois de três quadras, um caminho mais longo até a padaria.
Mas, naquela manhã, levantei cedo. Não porque eu quis, longe disso, eu sempre fazia questão de ficar embaixo das cobertas pelo tempo máximo que eu conseguisse ficar, mas meu corpo não estava me agraciando com um sono digno de um deus. Na verdade, tenho tido sonhos. Que me faziam acordar suada quase toda manhã e correr para o chuveiro, buscando um banho frio que acalmasse o meu corpo febril.
, eu acho bom você descer em cinco minutos ou eu vou…
— Eu tô aqui.
Ele apareceu na porta da cozinha no exato momento em que despejei o leite morno em um dos copos, o café da manhã posto na mesa de um jeito organizado demais para mim. Quando olhei para ele, reparei em sua cara amassada de sono e nos fios de cabelos bagunçados, seus dedos empurrando os fios para trás e ele bocejou, encarando a mesa.
— Bom dia, eu acho — ele disse, estreitando os olhos para mim. — O que deu em você hoje?
Dei de ombros e deixei a garrafa de leite de lado, bebendo um gole do meu copo, sem querer responder a sua pergunta. Era melhor que ele não soubesse que eu andava tendo sonhos eróticos com alguém que ele conhecia.
— O que deu em você? — devolvi a pergunta, levantando uma sobrancelha. Vi quando ele coçou a nuca, meio desajeitado. — Sempre levanta cedo e hoje…
— Bom dia.
Parei de falar quando reconheci a voz.
Meus olhos se movimentaram até uma figura atrás dele, aparecendo no meu campo de visão com cabelos castanhos soltos e bagunçados, usando uma camisa do que ficava grande e folgada demais nela, mas servia como pijama. Ela não usava nada além disso e me vi engolindo a seco com a surpresa, depositando o copo de volta contra a mesa, lançando um olhar de irritação para o meu melhor amigo de um jeito que considerei discreto o suficiente para que só ele entendesse.
— Eu tentei te avisar que ela estava aqui, mas você dormiu cedo demais ontem — ele se justificou, encolhendo um ombro.
E que direito eu tinha de dizer alguma coisa?
Afinal de contas, o apartamento era dele. Ele podia trazer quem bem entendesse, inclusive ela. Eu sabia que os dois tinham voltado a se falar e que estavam ficando juntos, mas ainda assim, odiei ser pega de surpresa daquela maneira, meu estômago embrulhando de um jeito ridículo.
— É, eu cheguei cansada e você não tava — respondi, a voz mais monótona possível.
Carmen me encarou, seus lábios se movendo no que parecia um sorriso sutil, enquanto ela se colocava ao lado dele, os corpos juntos demais.
— Achei que você já tinha voltado para o seu apartamento. — Sua voz melodiou o ar, tentando mascarar sua verdadeira intenção. Ela tocou o braço dele. — O tá melhor, não está? Não acho que tem mais necessidade de você continuar dormindo aqui.
Pisquei meus olhos, franzindo o cenho. Ela estava tentando me expulsar?
— Carmen, eu já te expliquei que ela pode vir quando quiser — interveio, respirando fundo, como se tivesse tido aquela conversa muitas vezes e não aguentava mais repetir a mesma coisa. — O quarto de hóspede não é um quarto de hóspede, é dela.
Eu estava acostumada com aquela situação. Carmem não era a primeira garota com quem ele ficava que não gostava de mim. Todas elas sempre faziam questão de deixar isso bem claro, mesmo que eu nunca tivesse nada contra nenhuma delas. Meu único defeito era só ser a melhor amiga dele. Ele precisava lidar com esse ciúme excessivo vindo delas, da qual eu não tinha culpa.
Eu tentava ser amiga delas, apesar dos meus sentimentos conflitantes. Minha intenção não era complicar a vida amorosa dele, mas elas nunca me davam espaço. Sequer uma oportunidade. Sempre que isso acontecia, eu precisava lidar com gracinhas e indiretas e sorrisos irônicos e sugestões ridículas. Como agora.
— E eu já te falei o que eu acho disso — ela rebateu, encarando ele.
Eu tinha certeza que não eram sequer 9h da manhã.
Porque estava muito cedo para eu me irritar daquela maneira, porra. Minha pele inteira pinicou de irritação e eu esfreguei as minhas bochechas com a ponta dos dedos, respirando fundo de um jeito mais discreto, dizendo a mim mesma que eu não era obrigada a ficar ali e ver os dois discutindo sobre a minha presença. Eu era adulta o suficiente para ignorar a infantilidade da parte dela e me retirar. Não valia a pena gastar energia com ela.
— O César adiou a sua sessão de fisioterapia para às duas da tarde — eu avisei a , me afastando da mesa. — Não se atrase.
Os dois viraram o rosto para mim e eu passei direto por eles, em busca da chave do meu apartamento e do meu celular, os dois objetos em cima da mesinha ao lado do sofá. Eu estava vestida com a roupa de corrida e agradeci mentalmente por ter feito essa escolha mais cedo, porque tudo o que eu precisava era correr um pouco e gastar energia, distraindo a minha mente.
, espera — ele me chamou, mas eu já estava abrindo a porta do seu apartamento.
Ela não veio atrás dele.
— Eu vou deixar os pombinhos aproveitarem o café da manhã — foi tudo o que eu disse a ele em uma despedida apressada. — A gente se fala depois.
Bati a porta e saí em passos apressados pelo corredor longo, optando por usar as escadas, ao invés de esperar o elevador abrir. Enquanto descia quatro andares de lances de escadas, soltei alguns xingamentos baixinhos, coisas inapropriadas para alguém ouvir tão cedo.
Eu a odiava.
Uma verdade cruelmente clichê que eu tentei evitar, já que isso me deixava no patamar de uma suspeita considerável: não gostar das meninas com quem ficava me fazia parecer uma melhor amiga ciumenta e que, provavelmente, nutria sentimentos além da amizade por ele. Não era exatamente uma suspeita errada, mas ninguém precisava saber do que eu sentia. Ninguém tinha ideia de como era guardar isso sozinha.
Então eu não dizia nada.
E durante o caminho da saída do prédio, meu estômago reclamou que um gole do copo de leite não foi suficiente para encher a minha barriga. Bufando, meus pés me levaram até a padaria do outro lado; bastava atravessar a rua e seguir até o fim. A padaria ficava em frente ao próximo sinal e não demorei sequer cinco minutos para atravessar a porta de vidro e minhas narinas ser preenchidas por todo tipo de cheiro: café, doces, uma pitada de álcool, já que havia uma bancada bem mais ao fundo, como se fosse um mini bar.
Mesmo sabendo que meu alvo era sempre o cookie de baunilha, me vi andando até a bancada do fundo. Eu parei bem de frente ao balcão e encarei as poucas opções de bebidas exibidas nas prateleiras pequenas. Espalmei minhas mãos contra o balcão e pensei que talvez só uma dose de tequila não me faria mal. Eu estava irritada o suficiente para beber tão cedo naquela manhã meio ensolarada.
Não acredito que ela teve a audácia de me expulsar.
— Bom dia.
Ergui os olhos para o dono da voz, encontrando um atendente do outro lado do balcão, me olhando com um sorriso leve demais nos lábios e eu suspirei, deixei meus ombros caírem e fui em frente.
— Bom dia. Pode me ver uma dose de tequila, por favor?
Ele apenas assentiu.
Era uma pegada diferente uma padaria ter um bar, mas não era uma ideia ruim.
Continuei ali, esperando, e aproveitei para tirar o celular preso na minha cintura. Deslizei o dedo pela tela e abaixei a barra de notificações, as mensagens de chegando primeiro, em destaque, mas apenas passei o dedo, arrastando a notificação para o lado, ignorando. Tinha diversas mensagens de alguns grupos também e um monte do Instagram. Eu nunca conseguia ver tudo. Era impossível, considerando que uma notificação surgia a cada cinco segundos, de qualquer rede social, ainda mais se eu postava alguma coisa.
— Aqui está. — O atendente voltou, deslizando um copo pequeno com uma dose da bebida.
Sorri amarelo para ele, pegando o copo, um murmúrio de agradecimento escapando dos meus lábios. Ele me deixou sozinha e saiu do meu campo de visão. Não pensei muito e apenas entornei a dose, sentindo o gosto ficar na minha língua e deslizar pela minha garganta e, estranhamente, de algum jeito, relaxei um pouco mais os músculos, mas ainda me sentia tensa. Meus ombros estavam completamente duros.
— Não é muito cedo para isso?
Reconheci a voz antes mesmo de olhar para ele.
Os pelos da minha nuca se arrepiaram e eu engoli a seco enquanto virava o rosto em sua direção, encontrando-o com vestimentas casuais, as tatuagens bem à mostra nos braços, meus olhos deslizando devagar de baixo a cima, até chegar ao seu rosto e encontrar um sorriso divertido em seus lábios. Lábios esses que me beijaram em lugares que boca nenhuma devia alcançar — mas, claro, apenas em meus sonhos.
Os que me atormentavam o suficiente para que eu acordasse algumas manhãs suada.
— Em algum lugar do mundo, são cinco da tarde. — Dei de ombros.
Ele se encostou contra o balcão, de lado, ficando de frente para mim.
Sua camisa suada estava colada ao seu corpo, destacando o seu abdômen, e eu tentei não olhar muito, minha mente presa ao momento em que ele esteve muito próximo de mim. Não sei como aquilo começou, quando ele começou a invadir os meus sonhos e os meus pensamentos. Talvez fosse só a minha necessidade de transar com alguém, de extravasar essa energia de alguma maneira. A conversa toda com e essa história de pau amigo com certeza mexeu com algum nervo no meu cérebro.
— Acho que eu deveria ficar preocupado em ver você começando o dia com uma dose de tequila — ele iniciou, os olhos em mim. — Algumas pessoas preferem um copo de café, por exemplo.
Umedeci meus lábios e empurrei o copo pelo balcão, assentindo lentamente em concordância.
— Eu não sou muito fã de café — confessei.
— Então tequila funciona melhor?
Ele sorriu, embrulhando meu estômago de novo. Meu pensamento estava fértil o suficiente para imaginar o que mais sua barba conseguiria fazer se encostasse na minha pele. Tive que morder o meu lábio com força para me obrigar a focar e lembrar de responder o que ele disse.
— Foi uma manhã chata, está bem? — me defendi, levantando as mãos em uma clara rendição, segurando o celular na mão direita. — Na verdade, tem sido um mês chato e estressante e meus músculos estão tão tensos que às vezes dói, e eu passei o tempo todo sendo otimista com as coisas nas últimas semanas que não consigo relaxar com nada. Eu mal estou tendo uma noite de sono decente e, para piorar, estou com tesão. Estou com tanto tesão e irritada em um nível que acredito não ser saudável para nenhum ser humano e não posso transar com ninguém porque não tenho tempo para encontros e… — parei de falar, abaixando as mãos e tomando fôlego, engolindo a seco ao perceber que eu acabei despejando um monte de merda em cima dele.
Coisas que eu não deveria falar.
— Desculpa. Foi só um surto momentâneo, apaga os últimos minutos do seu cérebro e esquece que me viu aqui — tornei a falar, balançando a cabeça.
O pior era que eu nem sequer estava constrangida.
Não sei quando passei a me sentir confortável na presença dele, mas para quem já tinha visto um momento vulnerável meu, o que era uma crise de surto? Não era nada. Nadinha. Era menos pior do que chorar e molhar a sua camisa já encharcada de suor.
Sem querer encarar ele ou esperar para ver o que ele diria, eu apenas passei por ele, me retirando dali quando o silêncio se instalou. Talvez ele atendesse ao meu pedido e apagasse os últimos minutos do que tinha acabado de acontecer. A tensão nos meus ombros só piorou.
.
Sua voz me paralisou no meio do corredor.
Sorte a minha que a padaria estava razoavelmente vazia. Ainda era horário de abertura, então as pessoas costumavam chegar um pouco depois, o que agradeci mentalmente. Menos uma plateia para escutar o que saiu da minha boca há pouco. Talvez o atendente da tequila tenha escutado alguma coisa, mesmo que eu torcesse para que não.
Sem me virar, senti quando ele parou atrás de mim e colocou as mãos nos meus ombros, apertando com uma força impressionante, mas não para machucar. Quase como se quisesse iniciar uma massagem para relaxar os meus músculos, mas ele não fez isso. Ele só apertou e me segurou e eu respirei fundo, baixinho.
— Que tal começar com um café da manhã? — ele me convidou, me pegando desprevenida.
Mas não esperou uma resposta.
Apenas apertou meus ombros novamente e passou por mim, escolhendo se sentar do outro lado, quase perto da janela e próximo ao balcão de atendimento. E entendi que ele esperava que eu o seguisse. Passei a língua nos lábios, cocei a minha bochecha e obriguei meus pés a me levarem até ele. Me sentei de frente, colocando meu celular em cima da mesa, assistindo-o tão relaxado que quase me deu inveja.
E, lentamente, ele sorriu para mim.
Com o corpo encostado contra a cadeira, uma das mãos esticadas sobre a mesa, tudo nele sendo tão…
— Pare com isso — reclamei, finalmente.
A carranca em meu rosto fez ele rir de mim. Indecentemente, ele teve a ousadia de se fazer de sonso.
— Parar com o quê?
Mordi minha bochecha. Levantei um dedo em riste e apontei para ele, floreando o gesto para ele inteiro, silenciosamente pontuando o problema.
— Com… isso — indiquei, balançando a cabeça.
Pare de ser tão gostoso, era o que eu queria apontar.
Meu celular vibrou, mas ignorei. Continuei mantendo meus olhos nele, que me devolviam com uma igual intensidade, o corpo se inclinando um pouco mais para frente. Minhas mãos postas sobre a mesa podiam tocar a dele. Talvez o menor toque com a ponta dos dedos me causasse uma descarga elétrica de tão atraída que eu me sentia.
Esse homem estava invadindo os meus sonhos sem a minha permissão. Me deixando imaginar coisas obscenas que ele não tinha ideia. Minha boca sempre viajava para suas tatuagens, a ponta dos meus dedos explorando a sua barba sempre bem-feita.
— Você vai ter que ser mais específica, — ele disse.
Eu sorri dessa vez, os olhos estreitos em sua direção.
— Você disse para eu ter cuidado com o que eu desejo, lembra? — Invoquei a lembrança dos nossos corpos tão próximos antes de uma voz infantil e delicada nos interromper.
— Depende do que você está desejando.
Meu celular vibrou de novo e eu bufei ao olhar a tela e ver que era o ligando. Sua foto piscava em destaque, uma que eu tirei quando obriguei-o a fazer skin care e ele estava com a cara toda verde, fazendo uma careta para mim ao perceber a câmera.
Deixei meus ombros caírem e deslizei o dedo para recusar a chamada, voltando a olhar para . Ele me encarou com um brilho curioso, umedecendo os lábios.
— Perdi alguma coisa?
— Não, tudo bem.
Ele me estudou, cauteloso.
— Tem certeza? Porque não parece muito comum você recusar uma ligação dele assim.
Antes que eu pudesse responder, alguém veio nos atender, indagando o que iríamos pedir no café da manhã. Como sempre, pedi um cookie de baunilha com um copo de suco sem açúcar. Ele, por outro lado, pediu o prato do dia sugerido para o café da manhã.
O atendente assentiu para nós dois em uma despedida temporária e se foi, e quando olhei para de novo, ele ainda estava me encarando, esperando uma resposta. Deixei meus ombros caírem e bufei.
— Talvez não seja comum, mas não quero transformar o no assunto do café da manhã — foi tudo o que eu respondi.
Na verdade, eu não queria parecer patética quando explicasse porquê eu estava recusando as ligações do meu melhor amigo. Meus lábios tremeram em uma leve irritação, não por ele ou pela sua pergunta, mas pela situação. Não sei como eu sempre acabava naquilo, indisposta sobre algo que eu não tinha controle que acontecesse.
Às vezes me pegava pensando se eu ia me importar tanto com aquilo tudo se eu não tivesse sentimentos tão conflitantes envolvidos. Se eu não estivesse sendo movida tão pela emoção, e não pela razão. E eu sempre preferia ser racional.
O zagueiro do time não disse nada por um instante. Meus olhos ainda continuaram fixos nele, os dele me estudando de uma maneira que eu não estava acostumada, mas não me importei em ser alvo de sua análise. Só queria saber o que ele estava pensando, tudo que estivesse passando por sua mente agora enquanto me tornava objeto de sua concentração.
— Seja lá o que for, te irritou o suficiente para te fazer beber uma dose de tequila tão cedo.
— Acho que você não vai me deixar esquecer isso.
Ele sorriu, levantando uma mão em rendição.
— Não tão cedo, pelo menos — replicou.
O mesmo rapaz que veio nos atender há alguns minutos, apareceu com o nosso pedido, colocando os pratos na nossa mesa com cuidado e paciência. Ficamos em silêncio, deixando-o terminar o seu trabalho e, quando o fez, agradeci, vendo-o se afastar. Primeiro, tomei um gole do suco, experimentando se estava ao meu gosto, o cheiro do cookie recém assado invadindo as minhas narinas. Eu respirei fundo e baixo e acabei soltando de uma vez:
— Eu tô irritada porque também estou cansada de ser alvo de desgosto constante das namoradas do . Não que eu seja a maior fã da Carmen, todo mundo sabe disso, mas é irritante ser odiada à primeira vista.
não disse nada, a princípio. Ele experimentou a própria comida e tentei não me perder muito nos movimentos que ele fazia, suas tatuagens bem no meu campo de visão, me distraindo do meu próprio café da manhã.
— Bom, talvez isso nunca mude — ele disse, depois do que pareceu longos segundos. — Isso diz mais sobre elas, a insegurança delas, do que sobre você, .
Umedeci meus lábios, coçando a minha bochecha de um jeito incômodo. Definitivamente, eu tinha problemas clichês demais.
— Elas sempre vão te ver como ameaça, porque a intimidade de vocês é diferente do que a maioria dos amigos têm — completou, mastigando.
O café da manhã dele era uma espécie de panqueca com mel, ou algo do tipo. Não sei se, de fato, era algo incluso na sua dieta, mas eu não ia me meter naquilo.
— Nós crescemos juntos! — argumentei, como se fosse explicação suficiente.
Sinceramente, foda-se. Era argumento suficiente.
— E isso fez com que o sempre te tornasse uma prioridade dele, tornando-as o segundo plano. Não importa quem venha, com quem ele fique, você sempre é a prioridade número um.
Mordi um pedaço do cookie, as gotas de chocolate derretendo na minha língua, me deixando momentaneamente feliz.
— Não acho que eu esteja tão acima assim da família dele.
Ele quase riu de mim, balançando a cabeça.
— Não seja sonsa, você é a família dele.
Engoli a seco, sentindo meu coração disparar duas batidas mais rápidas com a sua constatação. Não que fosse novidade para mim, mas eu sempre esquecia como as outras pessoas viam a nossa relação de fora. Isso meio me preocupava um pouco, sempre me questionando silenciosamente se eles viam algo além disso. Me tornei muito boa em esconder meus sentimentos como alguém guardando um segredo a sete chaves, mas talvez algum detalhe me escapasse.
Mordi mais um pedaço de cookie e bebi um gole de suco, olhando para ele.
— Como eu disse, é melhor não transformar o no assunto do café da manhã. — Resolvi mudar de assunto, sem querer me aprofundar naquela análise psicológica dos motivos de ser odiada por qualquer namorada do meu melhor amigo. — E espero que saiba que isso é por sua conta.
Ele deu de ombros, sem se importar; levantou os olhos para mim, me olhando daquele jeito indecifrável, talvez relembrando que havia outro assunto inacabado entre nós.
— Pagar a conta é o mínimo que eu posso fazer para melhorar sua manhã ruim. Mas se houver qualquer outra coisa que eu possa fazer por você… é só falar.


Fevereiro, 2024
Espanha — Barcelona




— O que você acha do Sergio?
Ergui meus olhos para a entrada da cozinha, encontrando com um sorriso pequeno e sugestivo nos lábios. Ela adentrou o local segurando duas garrafas vazias de cerveja, depositando na pia bem atrás de mim, enquanto eu voltava a despejar gelo no meu próprio copo, misturando com um pouco de coca, limão e vodka.
— Eu não sei quem é Sergio — respondi.
Me virei, abrindo a geladeira para guardar o saco de gelo restante, observando-a se encostar contra a pia. Ela optou por prender o cabelo em um rabo de cavalo, deixando um volume bonito por cima, o biquíni amarelo destacando a cor da sua pele de um jeito brilhante.
— O cara loiro, amigo de Ferran, que chegou primeiro que todo mundo e está te comendo com os olhos desde então — ela me lembrou, entregando características muito específicas, me fazendo sorrir.
— Eu não acho nada, . — Deixei meu tom de voz suave e peguei meu copo de volta, experimentando um gole. — Sério, você precisa parar com essa missão ridícula.
Ouvi ela bufar, descontente.
— Olha, ele é gostoso e tudo, ok? Mas não estou interessada — completei.
Comecei a me mover pela cozinha, pegando a saída que me levava direto ao jardim, onde a piscina estava mais logo adiante, e ela me seguiu. Ao contrário dela, a cor azul marinho do meu biquíni se destacava com os meus fios de cabelo solto. Não havia muita gente ali, apesar de Ferran conhecer uma multidão de pessoas. Ele preferiu chamar apenas os mais próximos e íntimos, principalmente porque não podia abusar muito da comemoração do seu aniversário, o calendário de jogos ainda mais ativo para a semana que vinha e era melhor que eles treinassem sem muito resquício de álcool no sangue e, definitivamente, sem ressaca.
— Achei que seria uma tarefa mais fácil encontrar uma transa para você, puta que pariu — ela resmungou ao meu lado, quando sentamos em cadeiras diferentes bem perto da piscina.
Eu abri a boca para responder, colocando o meu copo de bebida na mesa ao lado, mas alguém jogou água na nossa direção. Minha expressão se alterou, eu estava pronta para xingar e olhei na direção da piscina, escutando as risadas curtas dos meninos se divertindo com a situação. Os outros estavam jogando bola em algum lugar mais afastado, enquanto duas duplas se enfrentavam em uma mesa de pebolim mais adiante.
— Ei! — reclamou.
Ela puxou uma toalha para se enxugar e eu vi Fer sair da piscina, caminhando na minha direção com o corpo todo molhado e gotas de água pingando dos fios do seu cabelo, um sorriso travesso esticando os seus lábios.
— Não, cai fora, Fer. — Tentei me esquivar, sabendo qual era a sua intenção.
Mas ele não se importou e o espaço apertado da cadeira não me permitiu fugir a tempo. Ele sentou no meu colo, me lançando o seu sorriso idiota, o que me fez bufar com uma irritação iminente, reunindo toda minha força para conseguir empurrá-lo de cima de mim, mas em vão.
— Você devia ser um pouquinho menos rabugenta, — ele disse, sem se importar.
Apoiei minhas mãos contra as suas costas e revirei os olhos ao ouvir a risada dos meninos.
— Sabe quanto você pesa? — reclamei. — Cai fora!
Belisquei a pele da sua cintura de propósito e ele riu, finalmente saindo de cima de mim. Mas durou pouco tempo, porque logo em seguida ele me puxou, meu corpo quase se chocando contra o seu.
— O que mais tenho que fazer para chamar a sua atenção? — ele sussurrou.
De pé, empurrei ele devagar e me afastei.
— Aceitar que você não é meu tipo deveria ser a sua prioridade — respondi.
Dessa vez, quem riu foi , enquanto os meninos começavam a caçoar do Fer pelo fora. Eu gostava dele, de verdade, eu só realmente não tinha interesse nenhum em ficar com ele e, às vezes, era engraçado o quanto ele se esforçava para chamar a minha atenção.
— Ai. — Fer dramatizou, com a mão no coração. — Como você é cruel com meu pobre coração.
— Idiota.
Ele deu de ombros e voltou a pular na piscina, respingando água na gente de novo e me virei para , erguendo o dedo indicador na direção dela, antes que ela abrisse a boca para dizer qualquer coisa sobre aquilo. Eu sabia o que ela falaria, então melhor que calasse a boca.
Peguei minha bebida e saí de perto da piscina, o som da música se afastando a cada passo que eu dava. Eu não tinha ideia de para onde estava indo, e não conhecia a maioria das pessoas que Ferran tinha convidado, mas, de alguma forma, me vi instintivamente procurando por meu melhor amigo.
Fiquei mais aliviada quando ele aceitou o convite da festa, porque isso significava que ele podia se distrair um pouco mais das sessões de fisioterapia e da lesão, ocupando sua mente com seus amigos mais próximos, tirando-o da melancolia que rondava o seu apartamento. Bebi um gole considerável do meu copo, quando ouvi alguém me chamando.
— Ei, !
Me virei na direção da voz, encontrando Pedri perto da mesa de Pebolim, do outro lado.
— Uma partida? — ele sugeriu.
Encontrei do lado dele. Estreitei os olhos na direção dos dois e fui me aproximando da mesa de pebolim.
— Individual ou em dupla?
Eu não era a melhor jogadora de pebolim do mundo, mas tinha a competitividade do meu lado. Quando cheguei perto deles, parei ao lado de , que me cumprimentou com um beijo na bochecha, como se não tivesse me visto o dia todo.
— Em dupla — me respondeu. — Eu e você contra o Pedri e… — Ele olhou ao redor. — Ei, Hector!
O mais novo estava passando bem na hora e olhou para nós três com curiosidade.
— Uma partida? — apontou, indicando que ele faria dupla com Pedri.
Hector arqueou uma sobrancelha.
— Valendo o quê?
Pedri revirou os olhos com a pergunta, mas Hector não gostava de jogar sem aposta. Acho que isso aflorava o espírito competitivo que existia dentro dele e por isso, ele era um excelente adversário.
— A chance de se divertir? — Pedri rebateu.
— Não é suficiente — ele respondeu, o que quase me fez rir.
— Uma volta no carro do — anunciei.
Hector pareceu interessado, ao mesmo tempo que virou para mim.
— O quê? Não. Ele nem sabe dirigir, ! — meu melhor amigo reclamou.
— Você também não — rebati, fazendo Pedri rir.
cutucou a minha cintura em outra reclamação.
— Ele não tem idade para dirigir — tentou outra vez.
Dei de ombros, sem me importar. Não é como se eu realmente fosse deixar aquele moleque nos vencer no pebolim, então ele não precisava se preocupar tanto assim.
O que importava era atrair ele para jogar e Hector pareceu verdadeiramente interessado, se juntando a Pedri sem dizer mais nenhuma palavra. Fizemos uma formação em dupla, um de cada lado, e combinei com que ele cuidaria dos meios campistas e atacantes, enquanto eu ficava com o goleiro e zagueiros. Bebi o restante da bebida e coloquei o copo vazio perto de uma das lixeiras espalhadas pelo jardim enorme.
Meu espírito competitivo era bem parecido com o de Hector e, por um instante, realmente parecia que só havia eu e ele jogando ali. O garoto estava bastante empenhado em ganhar o prêmio da aposta, por isso, conseguiu passar pelo meu goleiro e marcar um gol.
O grito de comemoração dos dois me fez formar um bico e estalar a língua no céu da minha boca, desgostosa.
— Agilize seus atacantes! — reclamei para .
Ele fez uma careta, mas assentiu. Voltamos a jogar com o mesmo afinco, mas Hector conseguiu marcar de novo, definindo o placar de 2-0.
Bati meu ombro contra o meio campista ao meu lado e lancei um olhar indignado para ele.
— Não é culpa minha!
— Eu não me lembro de você ser tão ruim no pebolim assim! — acusei. — E você odeia perder!
Ouvi a risada de Pedri ecoar e percebi que nossa pequena partida estava chamando atenção dos meninos, uma pequena plateia sendo formada apenas para nos assistir jogar.
— Cara, eu tinha esquecido como você é uma péssima perdedora — Pedri disse, se divertindo.
Lancei um olhar feio para ele.
— Eu não perdi ainda — respondi, e me virei para . — Além do mais, lembre-se que eu apostei o seu carro.
fez outra careta. Reiniciamos a partida contra os meninos, meu cenho franzido de concentração, como se aquele jogo realmente valesse algo. Hector tentou uma jogada arriscada com seus atacantes, mas consegui defender seu terceiro gol, o que acabou dando chance para o meu melhor amigo marcar o nosso primeiro.
Não me orgulhei do grito de comemoração que saiu da minha garganta e beijei a bochecha de com uma força desnecessária, fazendo ele massagear o local, mas seu sorriso me dizia que ele não se importou com aquilo.
Hector me olhou feio dessa vez e Pedri parecia apenas estar se divertindo.
Retornamos, com Hector pressionando o nosso lado. Eu e estávamos inclinados, mantendo a concentração, Pedri reforçando os jogadores da sua dupla e eu quase sentia uma gota de suor escorrer na lateral da minha testa. Defendi o gol da dupla adversária duas vezes. criou a própria jogada, usando nossos atacantes para furar a defesa deles e marcar mais uma vez, empatando o placar.
Meu sorriso aumentou, recebemos alguns aplausos empolgantes e troquei um high-five animado com meu melhor amigo ao meu lado.
— Jogada decisiva? — propus.
Pedri deu de ombros e Hector assentiu, já meio murcho por termos conseguido empatar.
— Espera aí, isso vai tá atrapalhar — avisou.
Ele tirou alguns fios do meu cabelo da frente do meu rosto, colocando atrás da minha orelha com a maior naturalidade do mundo, o que para mim, normalmente, era. No entanto, me vi engolindo a seco ao sentir meu coração acelerar com aquela aproximação repentina e agradeci em um sussurro que mal saiu, voltando a me preparar para a jogada decisiva, ignorando meu coração reagindo a qualquer coisa dele.
Geralmente, eu sempre preferia ignorar, como se esperasse que aquele sentimento fosse sumir, mas eu sempre era pega de surpresa com essas aproximações dele. Não era algo que eu devia levar muito em conta, porque eu sabia que isso era a coisa mais normal do mundo para ele, mas para mim, deixou de ter o mesmo significado que tinha para ele.
Ele só não sabia disso.
Porque eu fazia questão de esconder. Quanto mais ignorasse, melhor.
Voltei a me concentrar, iniciamos a última jogada com alguns gritos de incentivos exagerados, mas que me fizeram rir. Se tornou uma disputa bastante acirrada e, depois de cinco longos minutos, conseguiu marcar o terceiro gol, desempatando o placar e concretizando a nossa vitória para cima da dupla adversária. Hector soltou um palavrão baixinho.
Orgulhosa por não ter manchado o meu ego naquela brincadeira, abracei , que firmou seu aperto na minha cintura e ele me girou uma vez, comemorando. Me soltei do abraço e batemos nossas palmas uma na outra.
— Agora, mi estrella, tente não apostar mais o meu carro, por favor — ele pediu, me fazendo rir.
Eu estava prestes a responder alguma coisa, quando fui pega de surpresa com algo me molhando por cima do ombro, uma coloração roxa manchando o meu biquíni. Quando me virei, me deparei com Carmem.
— Mas que po…?
Não consegui completar a minha frase. Examinei a sua expressão de falsa surpresa, segurando um copo vazio, o chão sujo do líquido do que estava bebendo. E o copo parecia estar bem cheio, porra.
— Me desculpa, eu tropecei! — ela se defendeu.
Carmem tentou se aproximar, como se quisesse me ajudar a limpar a sujeira que acabou de fazer, mas eu me afastei um passo, batendo contra o peito de . Minha irritação era bastante evidente.
E a pequena plateia que se juntou para assistir a partida de pebolim agora assistia silenciosamente a cena se desenrolar diante deles.
— Nos próprios pés? — rebati, meus dentes trincados de irritação.
deve ter notado a minha mudança de humor repentina porque me afastou para o lado pela minha cintura.
— Foi um acidente, .
Carmem suavizou a expressão. Eu encarei ela e meu melhor amigo lado a lado e percebi que aquela era uma batalha perdida. Acidente ou não, eu não acreditava nem um pouco nela, mas não ia me estender no assunto.
Encarei o meu biquíni manchado e consegui sentir o cheiro forte de vinho, estragando todo o meu bom humor.
— Que seja — murmurei, brava.
Alguém tocou no meu cotovelo quando eu estava prestes a me virar. Me deparei com com uma expressão indecifrável no rosto, me estendendo a sua mão.
— Vem — chamou. Pisquei os olhos, meio surpresa, mas acabei aceitando a sua mão, querendo sair logo dali.
Sem olhar para trás e me sentindo meio humilhada, aceitei a mão dele e deixei que ele me tirasse dali. Segui o caminho que ele me levava, entrando em um dos quartos de hóspede da casa. Finalmente sozinhos, pude soltar o suspiro longo que eu não sabia que estava prendendo.
— Porra.
Soltei todo o ar que consegui dos meus pulmões e caminhei direto até o banheiro do quarto, ouvindo um clique da porta sendo fechada. Logo em seguida, apareceu na porta do banheiro, encostando-se de braços cruzados contra o batente, sua atenção fixa em mim enquanto eu pegava uma toalha limpa do armário, molhava com um pouco de água e limpava a sujeira do vinho grudada na minha pele. A parte esquerda do meu seio tinha o biquíni todo manchado, ganhando o aspecto de duas cores.
— Ela não tropeçou — ele disse.
Mexi a cabeça e mordi a minha bochecha, uma risada sem humor escapando.
— Eu sei.
Se aproximando, ele pegou a toalha da minha mão bem devagar e me virou de frente para ele. Tudo o que ele usava era apenas uma bermuda de praia, seu corpo sem camisa sendo exibido com todas as suas tatuagens existentes e, com aquela proximidade perigosa, achei inevitável não passar os olhos por cada pedacinho seu que eu consegui.
— O não percebe que ela morre de ciúme de você? — perguntou.
Ele começou a passar a toalha molhada no meu ombro, limpando a sujeira ele mesmo, descendo até o meio da minha barriga, me desconcentrando. Minha respiração passou a ficar alterada por outro motivo, ao invés da irritação.
— Não é a primeira vez que acontece — sussurrei em resposta.
— Entendi. — Ele balançou a cabeça bem devagar, meus olhos parando em algum ponto no seu braço direito, encarando as formas das tatuagens, meio perdida. — O que é que você vai fazer a respeito?
Pisquei meus olhos, sem dar muita importância para o assunto. Me arrepiei inteira quando ele subiu a toalha molhada, esfregando bem abaixo do meu seio, um território tão perigoso para ele se aproximar, mas não me importei. Na verdade, era bem evidente que eu estava mais do que gostando daquela proximidade toda, meu corpo reagindo sozinho.
— De quê? — balbuciei, desconcentrada.
Sua risada rouca ecoou por todo o banheiro. Ele afastou a mão, parando de limpar qualquer sujeira — agora inexistente — e tocou a minha cintura com uma delicadeza quase impressionante.
— Eu tô te desconcentrando?
Subi meus olhos para seu ombro e nuca, onde as tatuagens acabavam. Pigarreei e olhei para ele, para os olhos dele e umedeci meus lábios.
— Desculpa, o que disse?
Ao invés de me responder de novo, ele soltou a toalha em algum lugar atrás dele e me surpreendeu ao me pegar pela cintura com uma firmeza deliciosa, me colocando sentada na bancada da pia bem atrás de mim. A saia minúscula e transparente que eu usava subiu com o movimento e, sutilmente, com uma das mãos, ele afastou as minhas pernas e se encaixou no meio delas, os olhos nunca deixando os meus.
Meu peito subiu e desceu em uma respiração irregular.
Eu nem lembrava mais porque fiquei irritada. Meu cérebro inteiro derreteu com ele ali, parado na minha frente sem camisa, como se fosse um dos meus sonhos eróticos com ele.
— Você disfarça tão mal — ele me disse, sorrindo, uma das mãos subindo até a minha nuca, mas foi a sua boca que me fez suspirar quando seus lábios encostaram na minha pele, os dentes se arrastando por toda a região e minhas mãos não suportaram mais ficarem suspensas.
Dedilhei as tatuagens dos braços dele, como se eu mesma tivesse desenhado aquilo, cada pedacinho, e fui arrastando os meus dedos para o seu peito, sentindo sua pele um pouco quente. Não sabia se pelo sol ou pelo momento, mas de qualquer forma, era muito bom.
— Você gosta de começar torturando? — provoquei.
Senti sua respiração quente no meu pescoço e entendi que ele estava sufocando uma risada. Minhas mãos continuaram subindo e fiz algo que queria fazer há um tempo: enrosquei meus dedos nos fios bagunçados do seu cabelo e puxei com força, afastando o seu rosto do meu pescoço. Algo em seus olhos brilhavam, o que deduzi ser excitação.
— Me pedindo para parar tão cedo? — ele me provocou de volta.
Respondi com um beijo.
Meus lábios se chocaram contra os dele, uma de suas mãos se enroscou na minha nuca, enquanto a outra enrolou-se em minha cintura. Meu aperto continuou firme nos fios do seu cabelo, o beijo tornando-se um caminho desconhecido de tesão, pressa e urgência. Espalmei minha mão livre contra o seu peitoral, sua língua quente contra a minha, e tudo parecia tão surreal, meu corpo em combustão como se aquilo tudo ainda fosse um sonho que me faria acordar gemendo e suando, frustrada.
Como se a proximidade não fosse suficiente, ele me puxou para mais perto e eu estava prestes a enroscar minhas pernas contra a sua cintura quando ouvi alguém batendo na porta do quarto. Tentei ignorar, imaginando que provavelmente era alguém se enganando de quarto, mas ele se afastou assim que ouviu a voz de .
? — ela ecoou, depois de duas batidas firmes. — Amiga, você tá aí? Tá tudo bem?
Uma lista de xingamentos surgiu na minha mente, mas tudo o que eu fiz foi soltar um suspiro enquanto se afastava, ofegante.
— Merda — ele murmurou, olhando para baixo e, ao ver sua ereção, entendi o porquê.
Sorri, pulando de volta para o chão, o polegar esfregando o canto da minha boca. Eu encarei a sua ereção sem pudor algum, os lábios vermelhos marcados pelo beijo, minha respiração igual a dele, denunciando o que tinha acabado de acontecer segundos atrás.
— Eu vou na frente enquanto você se recupera — eu disse, umedecendo os lábios. — Fique à vontade.
Comecei a andar de volta para o quarto quando ele perguntou:
— Nós vamos fingir que isso não aconteceu?
Parei de andar e inclinei apenas o rosto na direção dele, enxergando toda a sua silhueta. Sua pergunta saiu em tom genuíno, como se minha resposta fosse definir como ele agiria dali em diante. Eu queria ignorar e voltar ali para dentro, deixar que ele me beijasse mais enquanto sentia sua ereção contra mim, ouvindo seus gemidos e respiração curta. Queria me derreter nos braços dele e esquecer tudo antes, me enterrar ali e só sair quando estivesse satisfeita.
Ao invés disso, respondi:
— Espero que não.
Abri a porta do quarto e me deparei com com um olhar questionador, uma ruga mínima de preocupação estampando em sua expressão. Ela cruzou os braços e me olhou inteira, procurando por algo que eu desconhecia. Tentou olhar para dentro do quarto, mas fechei a porta atrás de mim.
— Eu tô bem — me adiantei em responder logo.
— Ah, não…
Eu balancei a cabeça com meu sorriso aumentando e comecei a andar, com ela me seguindo novamente. O tom perplexo que ela soltou me fez perceber que eu não ia conseguir fingir ou enganá-la sobre o que aconteceu. Não tinha como, porra. Minha respiração ainda estava errada.
Ela correu mais do que eu e parou na minha frente, me fazendo parar de andar.
— Para, peraí — pediu. — Você e o ? Quando…?
— Você não queria tanto que eu conseguisse um pau amigo?
— Tá, mas eu não achei que o zagueiro do nosso time fizesse o tipo de transa casual. Sei lá, ele tem duas filhas e é divorciado.
Segurei uma risada com a sua justificativa e fiz um gesto de deixar para lá.
— Não foi planejado, tá bom? — me defendi. — E foi só um beijo, você interrompeu tudo.
Ela se indignou, jogando as duas mãos para cima de um jeito muito teatral.
— Como é que eu ia adivinhar?
Antes que eu pudesse responder, apareceu no meio da escada que levava ao primeiro andar. Seu murmúrio chegou até mim de modo suave, os olhos gentis fixos na minha direção.
?
Estiquei o pescoço e olhei para ele sem responder. Quando ele coçou a nuca, já entendi exatamente o que ele queria.
— A gente pode conversar? — pediu.
Eu queria dizer que não, que talvez outra hora, que deveríamos evitar um drama desnecessário bem no aniversário do nosso amigo em comum, mas, como sempre, cedi. Me virei para , que observava em silêncio, sem disfarçar a cara feia na direção do e, com um suspiro derrotado, meus ombros caindo, perguntei:
— Tem algum biquíni extra para me emprestar?


Fevereiro, 2024
Espanha — Barcelona




Mi estrella…
, não.
?
Soltei um suspiro tão profundo que meus ombros até se moveram, cabisbaixos. O acúmulo de estresse dos últimos dias deveria ser um alerta pra me impedir de ir adiante com aquela conversa, mas acho que, uma hora ou outra, ela ia acabar chegando. Talvez com meu emocional estando uma merda fosse o melhor momento para eu despejar um pouco alguns dos meus incômodos.
Do lado de fora da casa, um pouco mais distante da piscina e de todo o tumulto, caminhávamos lado a lado em uma parte calma do jardim. me emprestou um biquíni, mas eu fucei qualquer camisa velha do Ferran e vesti por cima, me cobrindo. Cruzei os braços, ignorei sua indignação confusa por ter usado o seu nome e voltei ao foco da conversa.
— O que você quer falar?
Foi a vez dele suspirar. Ele se adiantou a parar na minha frente, me obrigando a parar de andar, os braços ainda cruzados na altura do peito.
— Você tá brava? — ele investigou.
— Não — fui sincera, a pergunta gerando um misto de emoções que pareceu encontrar um jeito de escapar, porque continuei falando — , mas , eu tô cansada. Na verdade, eu tô tão exausta, fico me perguntando o tempo todo qual é o meu limite em toda essa merda.
Ele franziu o cenho.
— Do que você tá falando?
Descruzei os braços, soltei o ar pela boca e apertei o meu nariz. Pensei em dizendo sobre eu ser a prioridade do Gavi e dele perguntando se ele não percebia os ciúmes de Carmen, de como isso parecia uma história repetida, a porra de um disco arranhado e como eu me tornava um problema que não causei.
— De como você parece sempre me colocar no papel de deixar suas namoradas seguras sobre mim, quando é você quem deveria fazer isso — disparei, o gosto amargo surgindo na minha boca ao tentar me colocar no lugar das garotas com quem ele fica. — Quando é que você vai perceber que elas nunca gostam de mim e eu me torno parte de um problema que não é meu?
Naquele momento, eu me quebro um pouco.
O egoísmo e a empatia eram duas emoções distintas que se reviraram dentro de mim, me contorcendo entre gostar da ideia dele sempre reforçar o meu lugar e a ideia de odiar me envolver com um cara que prioriza a sua melhor amiga mais do que a mim. A insegurança desponta de todos os lados; tudo isso só era um problema porque me apaixonei por ele.
— Você ser minha melhor amiga é um problema? — ele questionou.
Eu quase revirei os olhos.
— Não, nisso eu sou excelente — respondi, dando de ombros, sua reação sendo apenas um balançar de cabeça meio sem acreditar. — O problema é que você não separa o nosso lugar. Você me torna sua prioridade número um, mas vamos lá, nós sabemos que isso não vai durar para sempre — expliquei, o gosto amargo se intensificando. — Você vai ter outra garota, e ela é que tem que ser a sua número um. Ninguém gosta de ser segunda opção em um relacionamento amoroso, Gavi.
Vi quando ele engoliu a seco, entendendo o problema de toda a situação. Ele desviou os olhos dos meus por um momento, seus ombros caindo devagar, a expressão mudando, até ele finalmente se render e se sentar na grama do jardim. Eu continuei de pé, observando-o olhar para qualquer lugar, menos para mim.
— É, mas talvez eu tenha um problema em te tornar minha segunda opção — confessou, em um tom tão baixo que eu quase não ouvi.
Mas a confissão fez meu coração dar um salto curto e traiçoeiro. Eu quem engoli a seco dessa vez, tentando não demonstrar o que aquela confissão significou para mim.
Queria que ele não namorasse.
Queria que eu não me apaixonasse por ele.
Queria que tudo aquilo não significasse nada, porra.
Umedeci meus lábios, me obriguei a voltar a cabeça para o lugar e me sentei ao lado dele.
— Então não devia namorar ninguém até aprender como fazer isso — eu disse.
Houve um silêncio. Não sabia dizer o que ele estava pensando, o semblante sereno, mas sério, os lábios em uma linha reta e fina. Eu encarava seu perfil, olhando para todos os seus traços que eu tinha gravado há muito tempo antes.
— Desculpa, mi estrella — ele soltou, de repente.
Ele finalmente olhou para mim.
— Pelo quê exatamente?
Seus ombros se moveram em um dá de ombros simples.
— Bom, em grande parte, por ser um babaca — explicou. — Não percebi o que essa situação toda significava para você.
Ele não sabia sequer a verdade.
— Insegurança é uma merda pra qualquer garota, Gavi — respondi, como se essa realmente fosse a minha única preocupação. — Eu posso não gostar da Carmen por diversos motivos, mas isso não significa que eu não entendo o lugar dela. Como mulher. Como pessoa, eu vou ficar devendo.
Ele balançou a cabeça um pouco para trás em uma risada.
— Ela fez de propósito?
Optei por não responder, mordendo a bochecha internamente. Acho que meu silêncio foi resposta o suficiente para ele entender o que significava, me conhecendo como me conhecia.
— Só faça o seu papel, tudo bem? Assegure à ela que eu não sou uma ameaça. Busque entender as inseguranças dela ou sei lá e dá um jeito nisso.
Notei quando ele pareceu desconfortável com alguma ideia que surgiu em sua mente, seu nariz franzido. Ele chutou a grama como se fosse uma criança ansiosa.
— E isso muda alguma coisa… entre nós? — seu tom de voz indicou a hesitação.
Eu desviei o olhar, incapaz de sustentar o que aquilo significava. Queria ser ingênua e dizer que não mudaria nada, mas eu estava pedindo exatamente o contrário com aquela conversa. Eu estava pedindo que ele parasse de me priorizar tanto, que passasse a dar a atenção devida a alguém que ele tinha a intenção de namorar, que me deixasse um pouco de lado só para que a outra não se sentisse tão insegura, como se isso fosse um problema meu, como se não estivesse sendo difícil para mim abrir mão dele e…
— Vou continuar sempre sendo a sua melhor amiga, Gavi— prometi, abrindo um sorriso que não era de todo sincero, virando o rosto para olhá-lo novamente. — Mas é exatamente nesse espaço que você tem que me colocar: melhor amiga. É um lugar muito diferente de namorada, que tem um peso maior. Enquanto você estiver em um relacionamento, nossa dinâmica precisa mudar. E vou começar te dizendo que o meu quarto no seu apartamento vai voltar a ser um quarto de hóspede.
— O quê? — ele disparou, fechando a expressão, movendo um pouco o corpo na minha direção. — Olha, eu entendo, de verdade, mas qualquer pessoa que se relacione comigo, a Carmen inclusive, precisa entender que você tem um espaço. Não posso te afastar ou te excluir de tudo, . Como é que você quer que elas entendam que você não é uma ameaça assim?
— Isso já não é problema meu.
Ele ia abrir a boca para retrucar, sua expressão bem diferente de antes, mas fomos interrompidos pelo Fer nos chamando, dizendo algo sobre bolo e parabéns. Eu levantei a mão e fiz uma joinha, indicando silenciosamente que já estávamos indo. Gavi não disse uma palavra.
Queria poder adivinhar o que ele estava pensando.
Mesmo o conhecendo a vida inteira, havia momentos, como aquele, que eu não conseguia adivinhar os seus pensamentos. Sua expressão também não me indicava nada; ele apenas olhou para mim e forçou os lábios a repuxarem em um sorriso pequeno. Aceitando o silêncio que se instalou entre nós, eu beijei sua bochecha e me levantei, deixando-o sozinho, decidindo quando quisesse vir. Quando cheguei ao outro lado principal da casa, o barulho de vozes e música se intensificou, meu coração afundando com um peso que eu nunca aguentaria carregar.
Eu engoli a seco, olhando ao meu redor, a expressão neutra e solene, os olhos brilhando do que pareciam lágrimas. Era ridículo; ridículo sentir demais daquela forma, sentir que a conversa tirou algo de mim, que foi certa e errada ao mesmo tempo, que eu estava abrindo mão de um lugar que tive a vida inteira e agora…
Carmen estava bem do outro lado da mesa do bolo, alheia a tudo, conversando com uma garota loira que eu não conhecia. As duas riam de alguma coisa. O som chegou até mim como uma melodia arranhada, incômoda, e comecei a ficar irritada comigo mesma. Esfreguei meu rosto com as duas mãos com força, o cheiro de vinho impregnado em mim de algum jeito. Meu corpo rígido se desfez com um toque leve no meu ombro e tirei as mãos do meu rosto, me deparando com me oferecendo um copo de alguma bebida; a julgar pelo cheiro, tinha vodca.
— Tô tão ruim assim? — perguntei, com uma careta.
— Acho que você já esteve pior.
Eu ri enquanto aceitava o copo, experimentando um gole. Era suco de fruta e vodca, o gosto melhorando o amargo na minha boca.
— Então, eu preciso bater no ou algo assim?
— Não, tá tudo bem, eu te explico depois.
Ela assentiu, concordando. Tudo o que eu queria depois da conversa era esquecer um pouco a existência de tudo, ignorar a presença de Carmen e enterrar todas as minhas emoções, focando na comemoração do aniversário de Ferran. Festa não combinava com drama e tristeza, isso era algo que eu poderia me lamentar depois, em uma noite fria, jogada na sala do meu apartamento enquanto deixava um filme romântico e idiota passar na TV, me acabando em sorvete.
E cookies.
E talvez um pouco de álcool.
Ei, venham! — Ferran gritou.
abriu um sorriso, espelhando o meu e, ainda com o copo de bebida na mão, virando meio gole a cada segundo, segui-a para a comemoração.


— Você fica gostosa com esse tipo de camisa — sussurrou perto do meu ouvido, parando bem ao meu lado, sem deixar espaço de sequer um centímetro, nossos ombros se encostando. — Mas eu ainda acho que você ficaria mais gostosa ainda com uma camisa minha.
Um sorriso surgiu lentamente em meus lábios, a última gota de chocolate derretendo na minha boca. Ferran praticamente tomou um banho de chantilly e se jogou na piscina logo depois, arrastando algumas pessoas com ele, inclusive , que reclamou do susto e de ter sido arrastada para um mergulho, mas os dois estavam rindo agora, entrando em uma competição com os outros. Eu fiquei um pouco mais afastada, encostada contra um dos pilares, comendo o pequeno prato de doces e salgados que peguei da cozinha. Uma cerveja, agora quente, pousava do meu lado, em cima de uma cadeira.
Eu não olhei para ele.
— Conseguiu resolver seu problema?
Ouvi um bufar escapar dele.
— O problema em questão foi você ter me deixado de pau duro sozinho? — provocou. — Esse eu resolvi. O outro problema, não.
Passei a língua pelos lábios e virei o rosto para ele. Ele estava sem camisa, a calça molhada da piscina e os fios de cabelo gotejando em seu corpo. A visão em si esquentou algo dentro de mim, distraindo minha mente de tudo, embaralhando tudo o que eu pensei no último segundo. Suas tatuagens se destacavam, a pele toda convidativa para tocar e sentir e ignorei o formigamento nos meus dedos, resistindo à sensação.
— Tem outro problema?
Ele me exibiu um sorriso de lado, mantendo os olhos em mim. Sua mão tocou levemente a minha bochecha, afastando um fio grudado do meu rosto para trás da minha orelha, o gesto me arrepiando inteira. O momento do banheiro ainda estava bem vívido na minha mente, a lembrança do beijo despontando como o centro de tudo.
— Tem — ele respondeu baixinho, me fazendo arfar ao girar meu corpo para ficar de frente para ele e de lado para a parede que eu estava encostada. A surpresa da reação me fez segurar em seus braços com força. — Você.
Aumentei o meu sorriso.
— Por que eu seria um problema? — investiguei.
Eu tinha consciência de que estávamos em público, ainda que um pouco mais afastados. Todo mundo estava ocupado fazendo alguma coisa, mas eu não me importava com nada naquele momento que não fosse aquilo. O contato físico entre nós dois, o calor que irradiava de um nós — eu não saberia dizer quem —, seus olhos alternando entre os meus olhos e a minha boca, uma das mãos descendo indiscretamente até a minha cintura, onde pousou com um aperto gostoso e bem-vindo.
Tudo aquilo me afastava da barreira emocional que eu estava prestes a querer afundar, e talvez, por isso, fosse tão convidativo.
— Porque você não tem ideia das coisas que eu quero fazer com você, — murmurou contra a minha boca. Sua respiração misturava-se a minha. — Mas acho que você é criativa. Consegue imaginar.
Eu conseguia. Eu conseguia imaginar tudo. Mais do que isso, eu queria mais do que imaginar. Queria aceitar o convite silencioso que ele estava me fazendo, queria me afundar em todas as propostas indecentes, de todas as ideias de coisas que ele queria fazer comigo, cansar o meu corpo.
— A parte boa dos problemas é que eles podem ser resolvidos — murmuro de volta, roçando o meu nariz contra o seu em uma provocação genuína. — E eu não tô te impedindo de fazer o que quiser comigo.
Vi algo brilhar em seus olhos. Ele se afastou por um instante, olhando ao nosso redor, como se, de repente, tivesse a mesma consciência que eu de que estávamos em um lugar público, estávamos no meio dos nossos amigos em comum e não era um local adequado para nada imprudente.
Ele me soltou.
Pegou o doce do meu prato, que estava ao lado da cerveja na cadeira, e comeu, olhando para mim, o contato visual sendo incapaz de ser quebrado por mim, muito menos por ele. Parecia que eu tinha dado permissão de alguma coisa, porque sua postura mudou e sua expressão parecia mais determinada, mais… selvagem.
Os fios do seu cabelo continuavam gotejando para seu peitoral nu. Inconscientemente, esfreguei minhas coxas uma na outra, mas ele percebeu. Seu sorriso aumentou e eu mordi a minha bochecha.
— Se livra dessa camisa — ele disse, se afastando para algum lugar — , e me encontra no carro. Você sabe qual é.
Assisti quando ele começou a andar pelo jardim cheio, sumindo do meu campo de visão em algum momento. Eu não fui imediatamente. Ao invés disso, eu soltei um suspiro, a respiração alterada, como se eu tivesse prendendo a respiração o tempo todo que ele esteve ali.
Eu ainda sentia o toque fantasma da sua mão na minha cintura. Cocei a minha bochecha e ajeitei meu cabelo em um coque um pouco mais amarrado e balancei a cabeça para a camisa que eu vestia, a cor se desbotando para um cinza sem vida. Deixei dois docinhos sem comer no prato e a cerveja quente inacabada e tirei a camisa, colocando-a junto das duas coisas anteriores. Dessa vez, eu não vestia mais o short, só havia o biquíni preto que me emprestou, que não escondia muita coisa.
Comecei a andar, seguindo o mesmo trajeto que ele, mas, ao passar pela piscina, jogou algumas gotas de água em mim, chamando a minha atenção. Me aproximei da borda, observando o seu sorriso torto de segundas intenções para mim. Ela passou a mão pelo rosto, se apoiando na borda, os outros ainda brincando atrás dela. Meus pés descalços entraram em contato com aquela parte da grama molhada.
— Você vai fazer o que eu acho que vai fazer? — ela perguntou, direta como sempre.
Eu escondi um sorriso, mordendo a parte interna da bochecha.
— Depende, o que você acha que eu vou fazer? — perguntei.
Uma coisa que eu ainda precisava aprender sobre a era a hora de fazer a pergunta. Ou de não fazer. Quase sempre eu nunca sabia o que ia sair da sua boca, dependendo do meu contexto da pergunta, e aquela era exatamente uma dessas situações.
— Acho que você finalmente vai sentar em um pa…
— Não precisa terminar essa frase — interrompi. — E também não vou te enrolar. Se alguém perguntar por mim, não conte a verdade.
Apontei um dedo em riste para ela, uma expressão falsamente séria. Mesmo que eu não pedisse isso, ela nunca ia fofocar para ninguém — embora eu tenha minhas suspeitas sobre a sua lealdade com o Ferran.
— E se perguntarem sobre ele? — ela perguntou, me provocando.
Dei de ombros.
— Ele é um pai solteiro de duas crianças — respondi, como se fosse o óbvio. — Você pode inventar qualquer coisa.
Ela fez um som de hmmm e fingiu pensar. Foi só na sua frase seguinte que eu percebi que ela estava se divertindo com aquela situação.
— É suspeito vocês dois sumirem ao mesmo tempo.
— Só é suspeito para quem nota. E infelizmente, você sempre nota.
soltou uma risada e jogou um pouco de água em mim, sem nem ter me dado chance de desviar, recebendo um olhar feio da minha parte, coisa que não a abalou nem um pouco.
— Vai lá, você merece ser comida por um gostoso como aquele — disse, fazendo um gesto com as mãos me dispensando. — Depois eu quero saber dos detalhes.
Dessa vez, eu quem sorri como um diabinho em seus ombros, balançando a cabeça conforme ia me afastando, dizendo:
— Acho que você vai se arrepender do que está pedindo, !
Dei as costas para ela e continuei o mesmo caminho antes de ser interrompida. Passei por alguns meninos do time e outras pessoas de fora até alcançar a parte de fora da casa, onde diversos carros estavam estacionados. Ao redor, as casas eram muito afastadas das outras, o que dava espaço para os carros estacionarem por perto, a maioria nas ruas. Eu não demorei muito a encontrar o de ; já tinha visto-o diversas vezes dirigindo um Audi Q7 de cor azul escura. Estava estacionado um pouco mais atrás dos outros, mas ainda era visível, e andei até lá. Não havia ninguém aqui fora e a vizinhança era tranquila. O som da música soava muito afobado, sequer dando para identificar quem estava cantando ou qual era a música.
Quando cheguei perto do carro, eu precisei apenas abrir a porta do banco passageiro, as janelas escuras impedindo de ver quem estava lá dentro, mas eu sabia que ele estava lá. Entrei, sentindo um cheiro familiar, e bati a porta devagar, fechando. Ele não sentiu a necessidade de travar nada e, como uma pessoa curiosa de estar entrando em seu carro pela primeira vez, olhei ao redor, encontrando duas bonecas jogadas no banco de trás, um tablet infantil e uma mochila rosa de tamanho grande, além de dois brilhos labiais jogados.
— Desculpa por isso — ele disse, notando que eu estava olhando as coisas das meninas jogadas ali. — Precisei deixar elas com a mãe e não tive tempo de tirar as coisas para colocar em casa.
— Você não precisa me explicar nada — eu disse, sorrindo. — É um carro normal de um cara que é pai de duas meninas. Dificilmente você não vai ter algum gloss labial espalhado por aí denunciando isso.
Ele riu.
— E a mãe delas? — perguntei, mordendo o lábio.
Sempre tive uma certa curiosidade sobre isso; ele nunca mencionava a mãe das meninas, nem mesmo em conversas com os meninos no clube, e não comigo. Não que a gente conversasse o tempo todo para encontrar uma oportunidade de comentar isso.
— É um pouco complicado — ele comentou em resposta, dando de ombros. — Eu te conto outra hora. Não te chamei aqui para te contar sobre meus relacionamentos antigos.
Senti meu corpo esquentar de novo.
— Ah, sim, por favor — mudo o tom da conversa com um sorriso deliberado —, me mostre para que você me chamou aqui.
Sua mão foi direto para minha nuca. Como se sentisse alguma necessidade urgente, meu peito se moveu lentamente, subindo e descendo em uma respiração forçada quando notei o jeito intenso que ele alternava o olhar para minha boca, até finalmente quebrar a distância e me beijar. O choque das nossas bocas me causou um arrepio instantâneo, sua boca me roubando o fôlego.
E, por um instante, nada mais importava.





Continua...


nota estrelada da autora: Devo avisar que esse capítulo NÃO FOI revisado! Portanto, sujeito a alterações. E tudo o que eu tenho para dizer é: alexa, toca stone cold.

Aviso estrelado:

Essa fanfic é um spin off de Resistiré; logo abaixo, você encontra os links das fanfics que fazem parte do barcelonaverse 👇:

don't blame me — [dimensão oculta - esportes - Jude Bellingham]
15 Minutos — [dimensão oculta - esportes - Ferran Torres]
Resistiré — [dimensão oculta - esportes - Pablo Gavi]

Beijão estrelado e até a próxima att! 💫

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