Uno
Eurocopa — Novembro, 2023
Espanha contra a Geórgia
O mundo inteiro silenciou ao meu redor.
O único som que eu ouvia não eram as vozes vibrantes vindo do estádio, nem das pessoas perto de mim, dando comandos rápidos e graves, mas da minha pulsação. Meu coração parecia estar bem perto do meu ouvido, porque as batidas eram tão fortes e tão altas que eu não prestava atenção em mais nada ao meu redor, a agitação me balanceando como parte de um cenário que se desenrolava bem diante do meu campo de visão, transformando-se em um pesadelo.
Eu deveria me mover.
Obrigar meus pés a obedecerem aos comandos do meu cérebro, mas continuei estática, a imagem de dor e pavor de congelada na minha mente, o pior dos cenários se desenrolando em forma de pensamentos pessimistas, porque eu nunca o vi daquele jeito. Nunca o vi sair chorando do campo, nem sequer uma vez, nem quando ele teve a orelha cortada e ficou perdendo sangue e, porra, aquilo deve ter doído pra caralho, mas não como aquilo.
Nunca como aquilo.
— ? — alguém me chamou. — Você não vem?
O zumbido em meu ouvido pareceu diminuir.
Olhei na direção do dono da voz, encontrando um dos auxiliares técnicos me olhando com um semblante preocupado, como se não tivesse certeza se eu estava bem, mas não quis perguntar. Abri e fechei as minhas mãos devagar, umedecendo meus lábios secos, me lembrando que ele tinha feito uma pergunta.
Olhei ao redor e não estava mais em lugar nenhum. Não vi quando levaram ele para dentro do túnel. Eu já não prestava atenção no jogo que continuou rolando. Placar nenhum me importava mais, aquela merda toda já estava ganha, a seleção da Espanha entrou em campo já com a porra da classificação garantida, o que podia ter dado abertura para alguns jogadores titulares ficarem de fora dessa partida, prestigiando o jogo do banco.
Como o meu melhor amigo.
— ? — outra pessoa me chamou e me virei na direção do som da voz. — Ele está chamando por você.
Assenti para Heitor e finalmente consegui obrigar os meus pés a se moverem.
Forcei um sorriso no rosto e cruzei o campo para entrar no túnel, ignorando a agitação da torcida na arquibancada, sem entender sequer um lance do que estava rolando no jogo. Ainda era o primeiro tempo, o que significava que a tortura iria continuar por mais alguns longos minutos.
Heitor seguiu na frente e não tive muita pressa em segui-lo. Eu não sabia se estava preparada para ver o quanto fiquei apavorada quando o vi caído no campo, a sensação ruim enchendo a boca do meu estômago quando parei para raciocinar o que aquilo significava e foi ainda pior quando foi anunciado a sua substituição tão cedo da partida.
Eu era fisioterapeuta. Entendia de lesões. Sabia o que tudo aquilo significava.
— Atrás dessa porta — Heitor indicou.
Forcei outro sorriso.
— Tudo bem, Heitor, obrigada — falei pela primeira vez.
Ele assentiu e cruzou outro corredor, indo fazer alguma outra coisa que eu não fazia ideia do que era. Ele era como uma espécie de assistente por ali, mas estava sempre fazendo todo tipo de tarefa, então parei de tentar entender qual era a sua função de verdade e só aceitei que, às vezes, ele estava em todo lugar.
Encarei a porta e engoli a seco. Me recompus o máximo que pude e esfreguei os meus olhos, suavizando a minha expressão e mantendo os meus lábios um pouco menos tensos, sem deixá-los tão rígidos quanto todos os músculos do meu corpo. Segurei a maçaneta e girei.
Era uma sala de ala médica como outra qualquer. O tom branco sempre me cegava de primeira, mas pisquei os olhos algumas vezes para me acostumar e entrei, fechando a porta atrás de mim. O médico da seleção estava ali, junto de alguém que eu não conhecia, mas foi para que eu olhei, sentado na cama com o uniforme da Espanha.
Ele não sorriu quando me viu, mas seus ombros relaxaram, uma atitude sutil que me permitiu perceber que ele estava aliviado de me ver ali.
— Desculpe, não é permitido entrar aqui — o desconhecido que acompanhava o médico disse para mim, me olhando com uma expressão que me repreendia por estar invadindo um lugar que não deveria.
Estreitei os olhos, uma irritação leve tomando conta de mim. Segurei o crachá pendurado no meu pescoço e mostrei na direção dele, indicando que eu tinha permissão para estar em qualquer lugar daquele estádio, se eu quisesse. E eu estava prestes a abrir a boca para fazer tal afirmação, mas meu melhor amigo foi mais rápido.
— Ela é a substituta temporária de fisioterapia do departamento médico, cara — ele disse, balançando a cabeça. — Mas gosto mais de dizer que é a minha melhor amiga.
O médico permaneceu em silêncio, mas seu auxiliar ficou um pouco sem graça ao se dar conta do que tinha acabado de fazer.
— Eu… — ele tentou dizer.
Mas ignorei, me aproximando da cama de . Me sentei na ponta do seu lado esquerdo, oposto ao médico e o desconhecido, e abri um sorriso suave para ele, buscando a sua mão de modo instintivo, quase inconsciente, e ele não perdeu tempo em entrelaçar seus dedos aos meus. Meu coração acelerou, mas ignorei qualquer alteração nas minhas emoções.
— De um a dez, quanto é a sua dor? — perguntei.
— Um sete, talvez.
Apertei os dedos dele.
— Você está mentindo para mim?
Ele bufou baixinho e suspirou.
Sem chance de ser um sete. Eu vi a sua expressão quando ele precisou ser retirado de dentro do campo, vi quando suas lágrimas desceram por suas bochechas e como elas estavam secas agora. Ele mal estava conseguindo ficar em pé quando saiu.
Ele não respondeu.
Me virei para o médico.
— Vocês realizaram o teste da gaveta? — quis saber.
— Ele vai precisar ser transferido para um hospital e realizar alguns exames para confirmar as possibilidades — o médico prontamente respondeu, a expressão tranquila de quem não era a primeira vez que passava por aquilo.
— Então deu positivo?
Silêncio.
Trinquei os dentes e voltei a encarar meu melhor amigo. Eu odiava aquela tensão que antecedia a uma notícia ruim. E o que quer que fosse, ele nem mesmo deu certeza de nada para o meio campista ao meu lado que, porra, não ia gostar nada, nem um pouco, da confirmação do que eu desconfiava ser a sua lesão.
— , de um a dez, quanto é a sua dor? — perguntei novamente, com um pouco mais de ênfase dessa vez.
Ele engoliu a seco.
— Dez.
Olhei para seu joelho, um inchaço começando a transparecer.
— Quer dar o diagnóstico ou dou eu? — perguntei para o médico.
apertou os meus dedos inconscientemente. Eu queria poder fazer muito mais por ele do que apenas aquilo, mas eu não tinha esse poder. O máximo que eu poderia fazer era engolir minhas próprias emoções e abraçar as dele.
— Vamos, não pode ser tão ruim, certo? — questionou, a esperança em um fio de voz que quase me despedaçou.
Desde criança, ele se apaixonou pelo futebol de uma maneira que eu nunca vi ninguém se apaixonar por nenhuma outra coisa na vida. Ele decidiu que aquela seria a sua carreira e trilhou o seu caminho para isso, hoje sendo um dos meio-campistas do elenco principal do Barcelona e da Seleção Espanhola e foi um dos jogadores mais jovens a estrear na Copa do Mundo de 2022, e eu tinha muito orgulho da sua trajetória.
Havia poucas coisas que você poderia tirar de uma pessoa sem que isso a destruísse.
E tirar o futebol de ? Sem chance, isso o destruiria.
— Nós ainda precisamos de exames para confirmar qualquer suspeita, senhorita…
Entendi que ele estava pedindo o meu nome, mas ignorei, e como uma pessoa impaciente que odiava enrolação, respirei fundo e arranquei a porra do band-aid.
— , eu acho que você rompeu o ligamento cruzado anterior¹.
Ele piscou os olhos para mim, a cabeça balançando devagar, seu cérebro processando a informação que eu acabei de soltar.
— Não, isso não pode ser verdade — ele sussurrou, olhando para mim com a esperança despedaçada. Era como se eu fosse a responsável por estar lhe causando aquela dor e me odiei por isso, mas enganá-lo não tornaria as coisas melhores. — Porque se for, isso significa…
Acho que ele não teve coragem de completar a frase.
Porque se fosse confirmado que ele teve uma lesão no LCA, isso significava estar fora da temporada atual. Demoraria de nove meses a um ano para se recuperar. E era tempo demais afastado do gramado para alguém que nunca teve esse tipo de lesão. Para alguém que nunca ficou tanto tempo afastado.
Para alguém que amava o que fazia e depositava tudo de si ali.
— Podem nos deixar sozinhos por um momento, por favor? — pedi ao médico e ao desconhecido que o acompanhava.
O doutor não hesitou em concordar com um aceno e seu auxiliar o seguiu. Quando ele bateu a porta, eu respirei fundo e me agarrei aos nós dos nossos dedos entrelaçados.
— O médico está certo, você ainda precisa de um exame de confirmação — comecei a dizer, engolindo o nó da minha garganta.
Apesar de toda carga emocional, eu não podia chorar na frente dele. Não podia deixar ele saber agora o quanto eu tinha ficado apavorada e o quanto a ideia da gravidade da sua lesão ainda me assustava, porque eu tinha certeza que estava sendo bem pior pra ele lidar com aquela possibilidade.
Mudaria muita coisa.
E eu me preocupava muito com o seu estado mental.
— Mas você também está certa, não está, mi estrella? — O apelido ainda soou carinhoso no seu tom de voz e o seu sorriso nos lábios finos era o mais melancólico que ele me deu durante toda sua vida compartilhada comigo. — Nunca vi você errar uma.
— Bem, eu errei, talvez, uns cinco diagnósticos? — arrisquei, tentando amenizar o clima.
Ele bufou.
— Hipotéticos — lembrou.
Dei de ombros.
Eu fazia milhares de flashcards para estudar para as provas teóricas e práticas e o fazia me perguntar mil coisas até que eu fixasse na minha mente e me sentisse preparada o suficiente para enfrentar a prova. Ele foi dormir tarde diversas vezes, mesmo que precisasse acordar cedo na manhã seguinte para seguir a sua rotina e depois ir para o treino morrendo de sono, mas nunca reclamou de nada.
Pelo contrário, ele me resgatava de dias reclusa dentro do quarto, me encontrando enfiada na frente do computador estudando anatomia, fisiologia ou cinesioterapia, e me obrigava a comer e a dormir por oito horas seguidas e só ia embora quando tinha certeza que eu descansei um pouco.
— Eu sinto muito, — sussurrei, os ombros caídos.
Ele piscou os olhos para afastar as lágrimas e desviou o olhar. Soltou a mão da minha, desfazendo os nós dos nossos dedos, e encarou seu próprio joelho, a dor estampada em sua expressão, totalmente evidente. Esfregou o rosto com as duas mãos, um misto de emoções rodeando nós dois.
— Merda — soltou, meio abafado contra sua mão. — Isso não pode estar acontecendo. Tem que ser um pesadelo, , eu não…
Meu coração ficou pequeno dentro do meu peito quando percebi que seus ombros começaram a tremer. Eu me aproximei mais e, delicadamente, afastei suas mãos do seu rosto e vi as lágrimas silenciosas começarem a rolar por suas bochechas rosadas pelo esforço de tentar não chorar.
— Olha para mim.
Segurei o seu rosto e ele atendeu o meu pedido, os olhos sustentando o nosso contato visual. Meus polegares começaram a acariciar suas bochechas, limpando as suas lágrimas.
— Eu te amo — comecei a falar. — Quando você decidiu seguir essa carreira, você também aceitou o termo dos riscos de se lesionar de todas as formas possíveis. Tudo bem, não achei que você fosse ter uma lesão no ligamento tão cedo, é frustrante e eu super entendo, mas se tem alguém que pode superar toda essa merda, é você, .
Eu sentia minhas mãos suarem, mas continuei concentrada nele, minha pulsação acelerando.
— Você é jovem, o que é uma ótima chance a seu favor, e tem uma resistência física incrível que muitas pessoas da sua idade não têm — continuei, as palavras saindo de mim com a mais pura sinceridade que eu conseguia ecoar. — Mas mais do que isso, você tem essa força de vontade de sempre querer superar o próximo desafio. E esse é um. Talvez o maior da sua carreira até agora, mas eu vou estar aqui. Vou estar ao seu lado em cada passo, o tempo todo, e talvez você enjoe um pouco da minha cara. Mas você vai superar. Eu prometo.
Ele pousou uma mão em cima da minha contra o seu rosto e fez uma careta.
— O que aconteceu com não fazer promessas que não pode cumprir?
Eu sorri genuinamente.
— Não se aplica a essa, porque nós vamos cumprir — respondi.
Seus olhos brilharam com as lágrimas. Ele afastou as minhas mãos do seu rosto e me puxou para um abraço inesperado e desajeitado, suas mãos me apertando no meio das costas, meu rosto se enterrando entre a base do seu ombro e pescoço e, agora que ele não estava vendo, me permiti mergulhar naquela sensação de conforto, fechando os olhos para tentar acalmar meus pensamentos febris.
Eu nem sempre era uma pessoa otimista. O esforço de projetar todo o otimismo do mundo naquela situação estava me esgotando mais rápido do que eu esperava, mascarando que, na verdade, eu estava apavorada. Eu odiava a lesão de LCA. Fodia a carreira da maioria dos jogadores e ainda não sabíamos a gravidade da lesão dele.
Eu queria que esse dia nunca tivesse existido. Que ele nunca fosse escalado para iniciar a partida, que tivesse ficado no banco.
— Às vezes acho que não te mereço — ele murmurou, ainda sem me soltar.
— Às vezes, eu tenho certeza disso — brinquei.
Ele beliscou minha pele por cima do meu uniforme em protesto.
Me afastei dele devagar.
— Eu vou ligar para Aurora e seus pais, tudo bem? — avisei, esperando que ele não percebesse que eu queria muito sair daquela sala um pouco. — Elas devem ter visto ao vivo.
Quando ele assentiu concordando, beijei a sua bochecha, murmurei um “já volto” e saí. Fechei a porta atrás de mim e soltei o ar pela boca, respirando de um jeito pesado. Talvez eu só precisasse de um pouco de ar puro.
Olhei ao meu redor, me sentindo meio perdida sobre que caminho tomar.
As vozes distintas vindo de algum lugar começaram a ficar cada vez mais perto e, antes que eu andasse na direção contrária, alguns dos meninos apareceram no meu campo de visão, me flagrando ali. Eu tinha perdido a noção do tempo e eles já estavam no intervalo de 15 minutos da partida.
— E, aí? — Pedri falou primeiro, se aproximando. — É muito ruim?
Pisquei na direção dele, apertando meus próprios dedos, os meninos me olhando com uma expectativa excruciante.
Mordi a parte interna da minha bochecha, começando a ficar inquieta, o nó na minha garganta crescendo.
— Desconfio que sim — consegui responder, balançando a cabeça. — Eu preciso falar com a Aurora, mas ele está lá dentro, então…
Forcei um sorriso de lábios fechados e passei por eles com uma pressa impressionante. Ninguém disse mais nada e nem tentou me chamar, e eu continuei seguindo pelos corredores, procurando por algum espaço seguro e vazio que eu pudesse desabar um pouco sem ninguém ver ou saber.
Mas agora estava cheio de jogadores, tanto os da Espanha quanto os da Geórgia, e precisei ficar desviando de corpos suados e altos para atravessar outros corredores, procurando, então, o lugar mais seguro que eu tinha em mente naquele momento: o banheiro feminino.
— ?
Alguém tocou o meu braço. Eu me virei imediatamente na direção do dono da voz que chamou o meu nome e me deparei com , o zagueiro da seleção espanhola e do time do Barcelona.
— Precisa de alguma coisa? — perguntei, um pouco confusa, olhando ao redor dele.
Ele afastou a mão do meu braço. Nós tínhamos uma diferença de altura considerável, mas eu conseguia conversar com ele sem precisar esticar muito o meu pescoço. E apesar de estar completamente suado, ele exalava um leve frescor de uma fragrância que eu não conhecia.
— Ah, não. — Ele negou rapidamente, balançando a cabeça de modo frenético. Os olhos pousaram nos meus. — Não, eu… eu vi você saindo da sala e falando com Pedri e só… Você está bem?
A pergunta me pegou um pouco de surpresa e engoli a seco, pensando em alguma resposta. Cocei a minha bochecha.
— Acho que não tem uma resposta certa para essa pergunta.
segurou a minha mão de um jeito inesperado.
— Suas mãos estão tremendo.
— É, eu… Isso é porque eu fiquei apavorada. Acho que ainda tô um pouco.
— Por causa do ?
Encarei sua mão segurando a minha e assenti. Estranhamente, senti um tipo diferente de conforto com o seu toque.
— Vem aqui.
Deixei que ele me levasse, para onde quer que fosse que estivesse me levando. Nós apenas demos alguns passos, cruzamos um corredor e ele abriu uma porta, nos enfiando lá dentro. Não havia ninguém e estava com um cheiro forte de produtos de limpeza. Passei o olhar, verificando, percebendo que parecia ser uma sala simples de escritório, mas sem muita decoração.
Estava faltando personalidade ali.
— O que você está fazendo? — foquei no que importava, me virando para ele.
Em algum momento, ele tinha soltado a minha mão.
— Te dando espaço? — retrucou, incerto. — Você parece que vai vomitar a qualquer momento e está um pouco pálida.
Era meio desconcertante o quanto ele tinha prestado atenção em mim, mas eu não tinha tempo de pensar sobre aquilo.
— Posso buscar uma água para você e…
— Não — interrompi-o, apertando os meus próprios dedos, sentindo os meus olhos marejarem, como se, de alguma forma, eu precisasse colocar para fora. — Eu sei que parece uma reação exagerada, mas quando o vi caído ali, gritando de dor, eu…
Não percebi o momento em que ele se aproximou, ficando bem na minha frente. Suavemente, seus dedos acariciaram meu braço, na tentativa de me oferecer um pouco de conforto. Solucei sem querer e respirei fundo, evitando a todo custo que este homem presenciasse a minha vulnerabilidade.
— — ele exibiu um sorriso suave, que chegava aos seus olhos. — Não é uma reação exagerada. Não deveria invalidar suas próprias emoções.
Dei um soquinho leve contra seu peito.
— Pare. Eu não quero…
— Chorar? — completou por mim. — Deveria. Quem sabe pode se sentir melhor, se fizer isso.
— Não vou chorar na sua frente.
— Eu sou o menor dos seus problemas, querida.
Meu nariz ardeu e funguei baixinho de novo, ainda resistindo, olhando para ele como se não fosse nada. Eu preferia continuar assim, mas ele tinha outros planos.
Quebrando a minha resistência, me abraçou devagar, enrolando seus braços por meus ombros e cintura, a surpresa instalando-se dentro de mim conforme ele me puxava para mais perto, até que coisa toda realmente se parecesse com um abraço.
Senti meus músculos completamente rígidos, minhas mãos ainda uma em cada lado do meu corpo, meu cérebro processando lentamente o que estava acontecendo. Eu não esperava que ele me abraçasse. Não esperava que fosse ceder, nem que meus músculos fossem relaxar e minhas mãos se enrolassem em volta de suas costas suadas.
E, menos ainda, não esperava enterrar meu rosto contra o seu peito e chorar. Um choro silencioso e ainda contido, com lágrimas quentes descendo por minhas bochechas e molhando a camisa do zagueiro do time, que me confortou com algumas afagadas tímidas nas minhas costas.
Ele tinha razão.
O choro aliviou a minha angústia e me senti um pouco melhor. Como se um peso tivesse saído dentro do meu peito, me deixando mais leve, sem a tonelada de uma emoção me esmagando lentamente. Não sei quanto tempo o momento durou, mas ele precisava voltar para a partida.
Todos seus 15 minutos de descanso do intervalo foram gastos comigo.
Limpei a minha garganta e me afastei devagar, usando as minhas mãos para enxugar as minhas bochechas molhadas. Ele ficou em silêncio por mais um instante, deixando que eu me recuperasse de uma maneira mais digna.
— Se sente melhor? — quis saber.
Balancei a cabeça positivamente em uma resposta não-verbal.
— E como o está?
A pergunta fez meus ombros caírem murchos e derrotados, uma lufada de ar saindo dos meus lábios. Olhei para , percebendo uma linha fina de preocupação desenhar a expressão do seu rosto.
— Pior do que eu, tenho certeza — respondi, coçando o nariz. — Suspeita de rompimento do ligamento cruzado anterior. Provavelmente vai precisar de cirurgia.
Os lábios dele apertaram um contra o outro, a expressão se desfazendo de preocupação para lamentação.
— Merda — ele soltou. — Não pensei que fosse ser tão ruim.
Concordei com um aceno, porque ainda parecia um pesadelo.
Parecia que a qualquer momento eu iria acordar e perceber que ainda estava deitada na cama fria, em uma manhã mais fria ainda, me xingando mentalmente por ter esquecido a janela aberta e estava ventando demais, piorando o frio.
Mas não era um pesadelo.
ainda estava naquela sala, esperando para ser transferido para um hospital.
— Você devia ir — lembrei. — O segundo tempo vai começar.
Não me senti preparada para o olhar analisador que ele me deu, como se tivesse procurando por algum resquício que pudesse usar como argumento para não ir embora tão rápido, querendo se certificar de que eu estava bem mesmo, e não fingindo.
Me surpreendia que, de todos os caras da equipe principal de quem eu era mais próxima, ele fosse quem tivesse prestado atenção em mim. A ponto de me seguir e garantir que eu estivesse bem.
— Tá tudo bem, . Eu vou ficar bem.
Ele levantou as mãos, fingindo rendição, e concordou com a minha insistência.
Deu as costas para ir embora, mas quando girou a maçaneta, ele virou o rosto para mim.
— Sinto muito por todo o lance do — disse, encolhendo um ombro. — Mas que bom que ele tem você. Espero que ele saiba a sorte que tem.
Pisquei os olhos, desconcertada com o que ele tinha acabado de dizer, seus braços tatuados sumindo do meu campo de visão com a porta emitindo um clique assim que ele fechou.
Antes que minha mente entrasse em um espiral de pensamentos, senti meu celular vibrar com alguém me ligando e, assim que peguei o aparelho, vi o nome da irmã de piscar na tela, me lembrando que eu esqueci de fazer aquela ligação.
Atender a chamada suavizou a onda de neblina que turbinou as minhas emoções, me obrigando a recuperar meu próprio controle para enfrentar os minutos seguintes sem que eu quisesse me enfiar em qualquer lugar e deitar em posição fetal, principalmente depois de lembrar que eu deixei sair sem oferecer o meu agradecimento pelo conforto inesperado.
¹: A lesão do ligamento cruzado anterior (LCA) é uma lesão comum do joelho, geralmente causada por um impacto ou movimento brusco. A dor intensa, inchaço e instabilidade articular são sintomas típicos. A recuperação pode levar de 9 a 12 meses.