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Autora Independente do Cosmos ✨
Atualizada em: 14/12/2025


O som estridente do meu celular soou muito perto do meu ouvido.
Eu não estava acordado o suficiente para conseguir distinguir o som do alarme e o toque de alguém ligando, então, a princípio, tentei desligar o alarme, mas não funcionou. Aquela merda estridente continuou tocando, me fazendo abrir só um olho, encarando uma foto de Catalina bem na tela, mostrando uma ligação. Bufei, deslizei meu dedo pela tecla verde e voltei a fechar o olho, pressionando o celular contra o meu ouvido.
— Que porra tá acontecendo?
Meu rosto se contraiu em confusão ao ouvir a voz alterada de Catalina do outro lado da linha. Pisquei algumas vezes, tentando assimilar a pergunta enquanto sentia o corpo afundando no colchão. Como assim que porra tá acontecendo?
— Bom dia pra você também, Lina. São…
Afastei o celular da orelha, forçando os olhos ainda inchados de sono para enxergar as horas na tela.
— OITO DA MANHÃ? Mas que caral—
! — Catalina meio que gritou, me cortando no meio da frase. — Que porra você fez?
Fiquei ainda mais confuso e, um pouco mais desperto por conta do tom da sua voz alterado em um volume muito alto, me rendi e me levantei, me forçando a despertar, ainda que minha cabeça estivesse começando a latejar. Cocei o rosto com a mão livre e soltei um suspiro, sem entender nada.
— Um hat-trick¹? — arrisquei, me referindo ao jogo de ontem contra o Valencia.
Meu tom de voz era sincero, ainda que no fundo eu soubesse que ela não estava falando disso. Ontem nós vencemos e, depois do jogo, voltamos direto para Barcelona. Eu só queria dormir um pouco antes do treino da tarde e, sinceramente, não estava entendendo porque minha melhor amiga estava surtando tão cedo assim.
— Tira o celular do ouvido — ordenou. — Vou mudar pra chamada de vídeo e te mandar umas coisas.
Estreitei os olhos, desconfiado, mas obedeci. Assim que a tela da chamada de vídeo acendeu, vi Catalina de roupão, cabelo bagunçado e um olhar de puro estresse.
— Ih, não deu tempo de pentear o cabelo? — brinquei, mas minha aparência não devia estar melhor.
Ela revirou os olhos.
— Vai se foder — disse. — Abre logo o que eu te mandei.
Uma notificação surgiu na tela com os links que ela enviou. Sem pensar muito, cliquei no primeiro.

"HAT-TRICK EM CAMPO, GOL NA VIDA REAL? INFLUENCER ESPANHOLA INSINUA GRAVIDEZ DE JOGADOR DO BARCELONA!"

A manchete me fez piscar várias vezes. Meu cérebro demorou uns bons segundos para assimilar o que eu estava lendo. Rolei a tela para baixo, sentindo o sangue sumir do meu rosto enquanto lia o texto.

“As redes sociais estão em polvorosa com o último escândalo que promete estremecer os bastidores do futebol espanhol! A influenciadora e modelo espanhola Valeria Ortiz, conhecida por sua presença marcante no Instagram e por já ter sido ligada a algumas celebridades, deixou os fãs intrigados ao dar indícios de que estaria esperando um filho de um jogador de um dos clubes mais prestigiados do mundo.

Tudo começou quando internautas notaram que Valeria compareceu à grandiosa festa de 125 anos do FC Barcelona, realizada em novembro, e registrou momentos da noite em suas redes sociais. A partir daí, os detetives da internet começaram a conectar os pontos: diversas fotos dela com jogadores do elenco circularam online, mas o que realmente atiçou a curiosidade dos fãs foram suas curtidas em comentários sugerindo que um atleta culé² poderia ser o pai do suposto bebê!

O burburinho aumentou quando Valeria curtiu alguns tweets específicos que traziam imagens dela conversando em um momento descontraído com . Uma postagem, que logo viralizou, dizia: “A maioria do elenco do Barça namora, mas foi um dos poucos solteiros que interagiu com Valeria a noite toda... Coincidência?” Para o choque de muitos, a modelo não apenas visualizou, como também deu like na publicação!

Com sendo um dos destaques da última partida do Barcelona, onde brilhou com um hat-trick, as especulações tomaram ainda mais força: estaria ele marcando gols dentro e fora de campo? Será que um dos atacantes do time catalão será papai em breve?

Até o momento, nem Valeria Ortiz nem se pronunciaram sobre os rumores que já dominam o Twitter e o Instagram. Resta saber se essa história bombástica terá desdobramentos ou se tudo não passa de uma grande coincidência. Nós, é claro, seguiremos acompanhando cada detalhe!”


Meus olhos varreram rápido o resto do texto, sentindo meu estômago se revirar a cada palavra. Os portais estavam enlouquecidos, relembrando festas, juntando fotos aleatórias e criando uma história absurda. Meu nome estava sendo ligado à uma mulher que eu mal conhecia. Todos os links que Lina me mandou eram manchetes semelhantes, meu nome ganhando cada vez mais força quando uma página de fofoca repostava o conteúdo.
Eu meio que não tava entendendo muita coisa.
Porque, definitivamente, seja quem fosse o pai dessa criança, não era eu.
— Mas que porra é essa? — soltei, arregalando os olhos para Lina na tela da chamada de vídeo.
Ela umedeceu os lábios e mexeu um ombro, me encarando.
— Era o que eu queria saber! — rebateu, impaciente, esfregando a têmpora.
Parecia que ela estava mais estressada do que eu, que ainda tentava assimilar a novidade. Mensagens continuavam chegando de todo canto, mas passei a ignorar todas, já imaginando o conteúdo de todas elas, e eu não tinha resposta ainda.
— Olha, eu não faço ideia do que essas manchetes se tratam. Nunca nem fiquei com essa mulher. E eu falei com muita gente naquela festa.
Lina respirou fundo e inclinou a cabeça para o lado, me olhando como se estivesse prestes a falar com uma criança de cinco anos. E eu conhecia aquele olhar. Principalmente aquela expressão.
— ela começou, pausadamente. — Tem certeza que você nunca ficou com ela? Porque você saiu da festa bem bêbado aquele dia…
Revirei os olhos, me jogando de volta no travesseiro.
— Que pergunta idiota, Catalina, é óbvio que eu tenho certeza. Você sabe muito bem que, desde…
Eu me interrompi, fechando os olhos por um segundo. Eu não precisava completar a frase, porque ela sabia do que eu estava falando, mas continuei mesmo assim.
— Desde a minha ex, se eu fiquei com três mulheres ao longo desse tempo, foi muito. E você sabe de todas as mulheres que ficaram comigo, porque, ao contrário de você, eu não escondo as pessoas que eu fico da minha melhor amiga.
Catalina revirou os olhos dramaticamente, levantando uma mão em rendição. Eu nunca perdia a oportunidade de jogar aquilo na cara dela, sem aceitar que ela realmente me escondeu que estava ficando com Jude Bellingham, um jogador rival. E não qualquer rival; um madridista.
— Já entendi, já entendi, que seja. — Ela encarou a tela, tentando pensar em algo. No fim de tudo, ela só suspirou, como se refletisse na repercussão daquilo. — Escuta, essa merda é uma confusão das grandes, então eu vou perguntar: o que é que você vai fazer agora?

¹Hat-trick: quando o jogador marca três gols em uma mesma partida.
²Culé são todas as pessoas associadas ao Barcelona, de jogadores a torcedores.





Você sabe que não é igual a como era antes
Neste mundo, somos apenas nós

As it was — Harry Styles


Eu já estava completamente sem fôlego quando atravessei a cerca da casa de vovó, sentindo o cheiro de lavanda das flores do jardim, que ela sempre fazia questão de cuidar. Ainda era cedo pela manhã, o céu estava nublado e o vento trazia uma corrente de frio, mas eu raramente perdia um dia de corrida. O exercício meio que me ajudava a reorganizar a minha mente sempre tão bagunçada.
Antes de entrar na casa, tirei os meus sapatos e os fones de ouvido, sentindo o cheiro característico de café, o que me fez abrir um sorriso involuntário, ouvindo uma cantoria suave vindo da cozinha, para onde eu caminhei. Encontrei vovó cantarolando uma antiga canção, um xale pendurado em seus ombros, enquanto se movia graciosamente pela cozinha, despejando o líquido do café em dois copos pequenos.
— Bom dia, vovó — anunciei a minha presença.
Ela ergueu os olhos para mim, abrindo um sorriso instantaneamente, deixando a garrafa de café de lado.
— Bom dia, minha querida! — exclamou, com entusiasmo. — Venha aqui!
Andei até ela, abraçando-a, deixando que me apertasse pelo tempo que bem entendesse. Eu sentia falta daquilo todos os dias, das manhãs compartilhadas, do seu abraço e aconchego, como se a vida pudesse se resumir àquilo, como se eu pudesse morar dentro do seu abraço para sempre.
Quando me mudei, tentei não ir para muito longe. Foi difícil achar um meio termo entre o trabalho e a casa dela, para que eu conseguisse visitá-la com uma frequência considerável. Eu tentava aparecer, pelo menos, duas vezes por semana, compensando esses dias quando não conseguia cumprir por conta das demandas do trabalho. Odiava deixá-la sozinha, mas ela não quis se mudar comigo.
— Você está tão magrinha — ela disse, me soltando, só para me inspecionar com aqueles seus olhos cuidadosos. — Tem certeza que está se alimentando bem?
Balancei a cabeça com um sorriso e beijei a testa dela, afastando a sua preocupação com um gesto de mão, me sentando na mesa.
— Eu estou bem, vó — respondi, como sempre, para tranquilizá-la. Ela sempre me fazia a mesma pergunta todas as vezes.
Vovó me olhou com um olhar de descrença, mas se deu por vencida e se sentou na minha frente.
— De qualquer forma, preparei alguns potes de comida para você levar — avisou.
Levantei uma sobrancelha na direção dela, partindo um pedaço do bolo para o meu prato. A mesa estava posta com algumas opções de comidas, como frutas, torradas e geleia de morango, minha coisa favorita.
— Vó, a senhora sabe que eu como no refeitório do clube — lembrei a ela, soltando um suspiro, experimentando o bolo, sentindo o gosto da laranja. — Não precisa se dar ao trabalho de cozinhar para mim todas as vezes!
Ela quem fez um gesto de descarte para mim daquela vez, tomando um gole do seu café.
— Bom, eles não colocam coisa suficiente na sua comida — reclamou, resmungando, justificando-se. — Você precisa comer mais!
Eu comia o suficiente, mas não adiantava discutir com a velha. Ela sempre ia arranjar um jeito de argumentar contra tudo o que eu falasse, então eu só ri e aceitei que ia levar os potes de comida que ela preparou, que ia ser o meu jantar pelo resto da semana.
Enquanto mastigava, não deixei de notar que ela só fez questão de colocar dois copos de café, o terceiro lugar da mesa vazio. Não que eu me importasse com a presença dele, mas geralmente ele aparecia se fosse para me importunar. E havia um motivo pelo qual a vovó não quis se mudar comigo.
— Então… — comecei, bebendo um gole do meu café, minha expressão suave. Ergui os olhos para ela. — Dois copos?
Ela olhou para a cadeira vazia e balançou a cabeça, como se não fosse nada demais.
— Seu irmão não dormiu em casa — me contou.
Assenti devagar, como se estivesse absorvendo algo que não era novidade para mim. Meu irmão, Santiago, era mais problemático do que eu podia contar. Um pouco mais velho do que eu, mas sem rumo algum, nunca demonstrando nenhum interesse em ajeitar a própria vida. A gente não se dava bem. Desde criança, ele sempre fez questão de demonstrar o seu desprezo por mim, algo que eu aprendi a lidar muito nova.
Mas, apesar de tudo, a vovó o amava. Enxergava mais as suas poucas qualidades do que os seus extensos defeitos e eu não podia fazer nada, a não ser ficar assistindo ela ter uma esperança vazia de que ele mudasse.
— Há quanto tempo? — perguntei, já imaginando a resposta.
— Três dias.
— E deixa eu adivinhar: ele não deu notícias?
Ela abriu um sorriso fechado para mim.
— Não se preocupe, minha querida, tenho certeza que ele está bem. Não é a primeira vez que faz isso — justificou.
Deixei escapar um suspiro baixo, meus ombros caindo da mesma forma, mostrando o quanto isso me derrotava. Queria que a vovó não passasse por isso. Queria que meu irmão não fosse uma pessoa ruim, que a valorizasse, que tomasse consciência ou algo do tipo.
— Não é com ele que me preocupo, vovó. — Dei um sorriso melancólico, encarando-a com carinho. — É com a senhora. A oferta de morar comigo ainda está de pé.
Vez ou outra, eu sempre a lembrava de que ela podia escolher aquilo, por mais difícil que eu achasse que fosse aceitar. Desde que meus pais morreram, ela tomou para si a missão de cuidar de nós dois com a sua própria vida, mas não sei até que custo. Nunca dei trabalho para ela, mas não podia dizer o mesmo de Santiago. Enquanto eu era a quieta da escola, por exemplo, ele estava pelos corredores, arranjando problemas. Eu ia todos os dias de manhã cedinho, enquanto ele continuava dormindo em seu quarto porque pegou dois dias de suspensão.
— E para onde seu irmão iria, ? — ela perguntou a mesma coisa que perguntava sempre que eu fazia o convite.
Mastiguei mais um pouco do bolo e dei de ombros, dando a mesma resposta de sempre:
— Para o mesmo lugar que ele vai toda vez que some assim.
Mas ela balançou a cabeça, em negação. E antes que voltasse a falar, tomei a frente.
— Olha, vovó, o Santiago já é maior de idade — comecei, com um bufo baixo. — Já está mais do que na hora dele arranjar algum trabalho e fazer a própria vida.
— Ele não terminou os estudos.
— Porque não quis! — exclamei, mas só com uma intensidade nova, sem alterar o tom de voz. Eu sempre era contida demais para isso. — Ele sempre teve as melhores oportunidades e jogou todas elas fora! Se continuar colocando-o debaixo da sua asa protetora, ele nunca vai crescer.
E então comecei a comer que nem uma esfomeada, pegando outro pedaço de bolo e duas torradas, espalhando geleia por cima. Não porque eu realmente estivesse com fome, mas porque era um hábito nada saudável descontar a minha irritação na comida.
E não estava irritada com a vovó.
Estava irritada com o imbecil do meu irmão, por ele nunca ter sido um bom neto e muito menos um bom irmão. Eu tinha 7 anos, e ele 11, quando perdemos nossos pais e, mesmo nessa época, ele não era nada bonzinho, mas era menos pior. As coisas desandaram quando nos tornamos órfãos e pensei que fosse por isso que ele era do jeito que era. Fiquei dizendo isso para mim mesma por um tempo.
Mas eu também perdi meus pais.
E não me tornei um terço da pessoa que ele se tornou, muito pelo contrário. Engoli meu próprio sofrimento e lidei com meu luto sozinha, porque as pessoas estavam prestando atenção demais nele para prestar em mim.
Enfiei a comida na boca, enchendo as minhas bochechas, tendo a completa noção de que aquilo não era nada educado. Mas a vovó sabia que eu só fazia aquilo quando estava irritada ou ansiosa, então ela tentou suavizar o clima.
— Vamos deixar o seu irmão para lá um pouco, sim? — sugeriu, com um sorriso maternal nos lábios e me senti um pouco mal por dizer aquelas coisas, mas não voltei atrás. Ela nunca soube o tamanho da minha mágoa. E eu preferia assim. — Engula tudo devagar e me conte como está o seu trabalho.
Esperei me acalmar mais.
Fiz o que ela pediu e mastiguei, engolindo tudo devagar, a geleia derretendo na minha boca. Eu já estava acostumada com essa mudança de assunto e, como esperava não estragar o meu dia me irritando com uma pessoa que claramente não valia a pena, aceitei a trégua dessa vez. Eu também não gostava de estressar a vovó com esse assunto, então vez ou outra, eu também estava sempre recuando. Quer dizer, que escolha eu tinha? Ela sempre iria defendê-lo.
— Está tudo bem — contei, dando de ombros. — Não tem muita novidade desde a última vez.
Eu estava trabalhando como nutricionista auxiliar do clube há alguns meses, não cheguei nem mesmo a completar um ano. Inicialmente, eu estava substituindo um estagiário que precisou se afastar por problemas familiares, mas ele desistiu da vaga, então fui efetivada, o que me poupou de procurar outro lugar.
Era um trabalho, em geral, bastante tranquilo.
Se tornava melhor ainda quando, na maioria das vezes, eu só precisava ficar dentro da sala, sem socializar muito. Me esconder das pessoas era um instinto nada saudável que eu tentava melhorar, mas era difícil quando passei minha vida inteira assim, sem ser muito notada.
— E o rapaz por quem você é apaixonada?
Quase me engasguei com o gole de café que me atrevi a tomar bem na hora que ela fez essa pergunta. Tossi um pouco e afastei o copo, olhando para ela com as bochechas um pouco coradas. Eu não devia ter contado sobre ele, porque agora ela me perguntava sobre todas as vezes.
— Eu não sou apaixonada por ele, vovó, só…— balbuciei, mas desisti de alongar aquela frase. Como é que eu ia explicar que era só um crush inocente e que não ia dar em nada? — Ele está bem.
Ele era um dos goleiros do time.
Alguém que falava comigo sempre que passava por mim, com um sorriso simpático no rosto, exalando beleza e talento. Eu não costumava ser próxima dos jogadores, sempre me mantive reclusa, principalmente daqueles que estavam constantemente nas mídias, mas eu era educada o suficiente para cumprimentá-los se passassem por mim.
De algum jeito, me peguei sonhando com o seu sorriso, ansiosa para que ele passasse perto e me desejasse um “bom dia” ou qualquer coisa do tipo. Ele não tinha ideia dos motivos das minhas bochechas corarem toda vez que chegava perto, ou porque às vezes eu gaguejava um pouco e me sentia uma completa idiota toda vez que isso acontecia. É que eu não sabia como agir. Flertar com alguém nunca foi uma habilidade que eu desenvolvi.
Meu primeiro beijo foi um desastre e o garoto fingiu que nunca me conheceu depois.
— Ele está bem? Só isso? — ela perguntou, olhando para mim com uma certa desconfiança, até que deu aquele suspiro sutil que sempre me avisava do discurso que estava por vir. — , querida, pensei que estivesse tentando sair um pouco dessa sua bolha.
Cocei a minha bochecha, os ombros murchos, enquanto eu me inclinava um pouco mais para frente, como se quisesse me encolher. Ela me incentivava o tempo todo a ser um pouco mais aberta para o mundo, a me abrir mais para as oportunidades e aproveitar o melhor que a vida tem a oferecer. Disse que eu estava cercada de gente todos os dias, mas eu não fazia nada sobre isso.
É só que parecia mais fácil viver dentro da minha bolha, como ela chamava.
Eu não era de todo introvertida. Desafiando a mim mesma, eu me arriscava a sair um pouco, principalmente para os eventos que o clube organizava, mas fora isso, meus limites nunca eram ultrapassados. Eu era a velha e monótona garota que estava na cama, vestida com seu pijama confortável antes das 21h da noite.
Entediante e sem graça.
— Estou tentando, vovó, mas é difícil.
— Talvez fazer um amigo seja um bom passo para começar — disse, com uma das sobrancelhas arqueadas.
A vovó tinha um rosto expressivo. Ela continuava bonita, mantendo a beleza da sua juventude, as bochechas sempre levantadas quando seus lábios se esticavam em um sorriso sempre simpático. Ao contrário de mim, ela podia falar com qualquer pessoa. Fazia amizade fácil, tinha uma habilidade incrível de manter uma conversa sem deixá-la morrer em um silêncio constrangedor.
Ela costumava dizer que eu era uma criança alegre. Divertida. Extrovertida.
Isso até a morte dos meus pais.
— Eu tenho um amigo — retruquei, com um bico nos lábios.
Ela soltou uma risada sonora e se levantou, pegando seu prato para colocar na pia.
— O Ringo Starr é um amor, querida, mas ele ainda é só um cachorro.
Bufei baixinho e bati minha cabeça contra a mesa.
— E não pode substituir um amigo — continuou, me advertindo.
Eu discordava, mas era só mais uma coisa da minha lista enorme de discussão com causa perdida, porque ela teria argumentos. O Ringo era um golden muito alegre, muito simpático, muito tudo. Ele gostava de receber carinhos de estranhos, de brincar com bolas e de te lamber por todo o rosto, sem nunca cansar. Sempre que eu saía com ele, voltava duas vezes mais cansada, as bochechas doendo de tanto fingir um sorriso simpático para as pessoas com a qual ele se atrevia todo a socializar.
E eu o considerava um amigo, muito obrigada.
— Eu não estou mais no jardim de infância. — Levantei o rosto e olhei para ela. — As pessoas não saem mais por aí perguntando “oi, você quer ser meu amigo?”, sabia?
Levantei da mesa e coloquei meu próprio prato na pia. Enquanto ela começava a lavar, eu comecei a tirar as coisas da mesa, colocando-a em seus devidos lugares, já que nenhuma de nós ia comer mais nada. E com certeza não íamos esperar o Santiago. Se ele aparecesse ainda hoje, era um milagre.
— Você trabalha em um dos clubes mais famosos da Espanha. Tenho certeza que deve ter alguém — argumentou.
Eu me calei.
Contra alguns fatos, não existiam argumentos.
Muita gente trabalhava ali e tinha algumas pessoas mais jovens, gente da minha idade, até os próprios jogadores, estagiários de todos os tipos. Eles viravam amigos, faziam grupos entre si, algumas amigas dos meninos apareciam lá.
Eu tinha meu próprio grupo na faculdade, embora nunca fosse muito engajada nas saídas sociais, mas eles me entendiam. Ainda estava no grupo que criamos no início, mas cada um foi para um lugar diferente e, sempre que eles marcavam de se ver, eu quase nunca podia. Me afastei, como fazia com todo mundo.
Só não tinha coragem de sair do grupo, como se ao fazer isso, caísse a ficha de que eu era uma pessoa que não sabia fazer amigos, ou ao menos mantê-los.
— E talvez esteja na hora de você criar um pouquinho de coragem e falar com o rapaz — ela continuou.
Soltei uma risada e balancei a cabeça, guardando o restante das coisas. Me aproximei dela e beijei sua testa, querendo me enxergar através dos seus olhos, porque ela acreditava muito no meu potencial, um que eu tinha certeza que não existia. Para ela, eu era capaz de muitas coisas, até as que eu considerava impossível.
— Eu te amo, vovó.
Ela olhou para mim sorrindo, limpando o sabão das mãos. Virando o corpo na minha direção, para ficar de frente para mim, segurou o meu rosto com as suas duas mãos pequenas e calejadas pela vida.
— Minha menina. — Acariciou as minhas bochechas com os polegares. — Só quero que volte a confiar um pouco mais em si mesma. Que se divirta. Você merece muito mais da vida do que apenas o conforto, entendeu?
Senti meus olhos lacrimejarem e meu nariz arder, incapaz de dizer qualquer coisa. Então só assenti e engoli a seco.
— Venha aqui.
Ela me abraçou e eu me deixei afogar dentro dos braços dela, como se ela fosse capaz de me proteger do mundo.

🥼


Minha cabeça latejava um pouco.
O café da manhã com vovó nem sempre era intenso daquela maneira, mas ela estava especialmente motivada hoje, insistindo em me fazer abandonar o tal conforto, dizendo para eu não ficar confortável demais. Eu entendia que ela achava que a vida era muito mais que aquilo, mas talvez, para pessoas como eu, a vida fosse só isso mesmo.
Ou talvez eu tenha me conformado.
— Ringo? — chamei, esperando que aquele cão extrovertido viesse pisando com suas patas até mim assim que ouvisse o ranger da porta abrindo.
Demorou menos de um minuto para que ele aparecesse, ofegante com sua língua de fora.
Eu mal tive tempo de fechar a porta atrás de mim quando ele pulou nas minhas pernas, quase me derrubando, e eu ri, me agachando sobre ele, cheia de sacolas, coçando as suas orelhas enquanto depositava um beijo bem no topo da sua cabeça.
— O que você estava aprontando que não escutou a porta, hein? — Ele latiu em resposta, como se entendesse o que eu estava perguntando.
Quando ele se afastou, começando a cheirar as sacolas, andei até a cozinha para guardar todos os potes de comida que vovó preparou exageradamente. Metade daquelas coisas eu não comia mais em excesso, mas odiava estragar o prazer que ela tinha em cozinhar para mim, sempre dizendo que eu estava muito magra, então eu comia, para não fazer desfeita. Não era nenhum sacrifício, considerando que seu tempero era o melhor do mundo para mim.
Ringo me seguia animado por todos os cômodos da casa. Só parou em seu canto quando troquei a sua água e enchi a sua vasilha de ração nova, que ele comia sempre em seu horário pré-determinado por ele mesmo. Aproveitei que ele estava fazendo a sua refeição e subi para o meu quarto, doida para tomar um banho e me livrar da roupa suada de ginástica da corrida.
Eu precisava estar no clube em uma hora.
Bastava andar cinco quarteirões para chegar lá. Eu fiz questão de encontrar alguma casa por perto para facilitar a locomoção, já que eu odiava trânsito e transportes cheios e uma caminhada até o trabalho nunca era demais.
Quando saí do banheiro e comecei a me arrumar, agora com Ringo deitado no tapete perto da minha cama, meu celular começou a vibrar em cima da cômoda. Esperando ser alguma mensagem do trabalho, parei de ajeitar o meu cabelo e andei até o aparelho, puxando a barra de notificações para baixo, me deparando com uma mensagem do grupo da faculdade, o que estranhei.
Não é que eles não mandavam mensagem, mas a frequência diminuiu desde que todo mundo se formou.
Imaginei que talvez fosse alguém mandando um convite para todo mundo para se reunir de novo em breve, mas o som de mensagens chegando constantemente e meu nome sendo marcado me deixou curiosa o suficiente para desbloquear a tela e abrir o grupo.

Carlo diz:
Galera, a @elena não trabalha no Barcelona?

João diz:
Sim, mas ela não dá ingressos de graça, cara

Carlo diz:
Hahaha não ia pedir isso
Na verdade, queria saber de fofoca


María diz:
PERAÍ
O VAI SER PAI?


Tive que subir as mensagens até o começo para entender o contexto do que estavam falando, mas eu só ficava mais confusa a cada mensagem.

Carlo diz:
É sobre essa fofoca que eu queria saber

María diz:
Não acredito que minha chance com aquele gostoso diminuiu drasticamente agora
Estragou meu dia


João diz:
Ele sendo pai ou não, você continuava sem chance alguma

Carlo mandou o link de uma matéria, mas eu não abri para ver. Não me interessava muito a fofoca sobre a vida dos jogadores do clube, e sinceramente, quanto menos eu soubesse, melhor. Saí do chat e bloqueei a tela, voltando a terminar de ajeitar o meu cabelo.
Foi só quando percebi que Ringo estava do outro lado da cama, perto o suficiente das caixas entulhadas em cima de uma cadeira, que eu sempre procrastinava para organizar.
— Ringo, não!
Ele me ignorou, tentando subir para alcançar a caixa maior, e puxou, desequilibrando tudo, o som de todas as caixas empilhadas caindo no chão ao mesmo tempo, a derrota assumindo a minha expressão ao notar a bagunça daquilo tudo. Encarei o golden com um olhar repreendedor quando ele se afastou com o susto e apontei o dedo em riste para ele.
— O que eu te disse sobre não mexer nas coisas? — reclamei, dando a volta pela cama até chegar nas caixas. — Não gosto de bagunça, Ringo, lembra?
Ele olhou para mim e para as caixas, como se tivesse tentando jogar na minha cara silenciosamente que a bagunça já estava ali. Ele só espalhou. Suspirei alto e me abaixei o suficiente para tentar juntar as caixas em uma pilha novamente, colocando uma por uma em cima da cadeira de novo, ordenando por tamanho.
Quando sobrou a última caixa, tinha caído algumas coisas de dentro dela. Coloquei tudo de volta, mas um envelope chamou a minha atenção, uma decoração meio amarronzada, dando a impressão de ser antigo. Eu nem precisei abrir para saber o que era.
Ali dentro, estava um pendrive.
Encarei o objeto em minhas mãos e me sentei no chão, Ringo do meu lado, cheirando a minha bochecha, tentando chamar a minha atenção.
— Você fez de propósito? — brinquei com ele, afetada.
Meus dedos passaram pela textura do envelope, tentando tomar uma decisão. Eu podia jogar aquilo na caixa novamente e voltar a fingir que aquilo não existia, mas a manhã com vovó ainda estava mexendo comigo.
— O que você acha, Ringo? — perguntei ao meu único amigo. — Eu deveria assistir?
Ele latiu e lambeu a minha bochecha, me empurrando.
— Tá, tá, já entendi.
Me estiquei um pouco, alcançando o notebook em cima da minha cama. Conectei o pendrive e me vi prendendo a respiração por um segundo antes de abrir a pasta com o conteúdo e acessar todos os vídeos disponíveis ali. Guardado em um compilado de memórias que minha mente esqueceu em algum lugar do espaço-tempo.
Não pensei muito.
Com o coração doendo de saudade, cliquei no primeiro vídeo, meu rosto infantil aparecendo bem no centro da tela.
Você precisa afastar um pouco mais a câmera, abelhinha — a voz de mamãe soou ao fundo, o som da minha risada infantil preenchendo o ambiente. Eu devia ter quatro anos na época do vídeo. — Assim.
A imagem tremeu um pouco, com ela ajeitando a posição da câmera, assumindo o controle, afastando a câmera do meu rosto, me mostrando de corpo inteiro, fantasiada de abelha. Era como ela constantemente me chamava.
Depois de alguns segundos, lá estava eu, no centro de tudo, do que parecia ser uma sala de uma casa que eu não me lembrava: pequena, desajeitada, com as bochechas redondas e os olhos brilhando de empolgação. Me assisti dando um giro na sala, as asinhas amarelas presas nas costas balançando com o movimento.
Eu tô voando, mamãe! — minha vozinha ecoou, fina e cheia de alegria.
Está mesmo, minha abelhinha — ela respondeu, rindo. A risada dela… doce, cheia de vida.
Meus olhos lacrimejaram.
Ao contrário daquela manhã, eu deixei que as lágrimas caíssem.
No vídeo, eu tropecei nos próprios pés e caí sentada no tapete, soltando um “ai” seguido de um bico exagerado. Em segundos, meu pai apareceu no quadro, se abaixando para me ajudar. Ele me pegou no colo com facilidade, girando comigo no ar.
Nenhuma queda vai parar a nossa super abelha! — ele exclamou, fazendo uma voz de super-herói. Eu gargalhei alto, pendurada nos braços dele.
Minha mãe ajustou o foco da câmera e disse baixinho, como se falasse só pra ela mesma:
Eu quero lembrar disso pra sempre.
E por um instante, a imagem congelou em minha memória como uma fotografia: meu pai me segurando no alto, minha mãe sorrindo atrás da câmera, e eu no meio daquele amor todo.
Ela não ia lembrar daquilo para sempre. Nunca mais.
Mas eternizou o momento para que eu lembrasse de uma época em que nunca fui invisível.




Olhares perdidos e vagos sumiram quando eu vi o seu rosto
Tudo o que eu posso dizer
É que foi encantador te conhecer

Enchanted - Taylor Swift


Passei quase a manhã toda fazendo algo que eu constantemente evitava fazer: fiquei rolando no twitter, lendo tudo o que falavam sobre mim depois que todas aquelas manchetes polêmicas saíram sobre eu ser o suposto pai do bebê de uma mulher que eu nunca levei para cama.
Eu poderia ter ignorado — Catalina sugeriu que eu fizesse isso — mas minha mente fervilhava com mil e umas coisas. Não ajudou muito ficar lendo os comentários dos internautas daquela rede social, especulando uma coisa em cima da outra, sem nunca checar ou saber o que era verdade ou não. Parecia imprudente me pronunciar, então não fiz isso.
Não ainda.
Vários amigos tinham me mandado mensagens privadas e nos grupos, me questionando se aquela merda toda era verdade. Se eu ia mesmo ser pai. Eu não tive nem paciência para responder, processando algo que eu nem entendia direito como e porque estava acontecendo.
Frustrado, esfreguei o rosto e saí do twitter, me deparando com a hora. Precisava estar na Ciutat Esportiva¹ em uma hora para o treinamento, ou iria me complicar com nosso técnico. Sem pensar muito, eu só disquei o número de Pedri para uma chamada de voz, enquanto pegava a chave do carro e ia saindo do apartamento.
No terceiro toque, ele atendeu.
Oi, papai — ele me zoou, rindo, recebendo um grunhido frustrado da minha parte.
Apertei o botão do estacionamento no elevador.
— Eu devia imaginar que você também já tá sabendo dessa merda.
Acordei com uma ligação em grupo, cara — ele contou. — As meninas me contaram.
Revirei os olhos, imaginando.
— Vocês são muito fofoqueiros, puta que pariu.
Escutei a risada dele ecoar no meu ouvido.
Eu não, elas.
As portas do elevador abriram e eu saí, andando até o meu carro. Pressionei o telefone contra a orelha e entrei no banco passageiro, pronto para dar partida.
— Escuta, posso passar na sua casa? Podemos ir juntos para o CT², eu preciso conversar.
Beleza, só vou colocar um tênis.
Encerrei a ligação, avisando que eu já estava indo. Como ele não morava muito longe, em menos de dez minutos, eu já estava em frente à sua casa, com o carro estacionado. Quando pensei em pegar o celular de novo e avisar que tinha chegado, ele apareceu, segurando apenas o celular. Observei o sorrisinho debochado surgir em seus lábios, o que me fez revirar os olhos antes mesmo dele entrar no carro e abrir a boca.
— Beleza, me conta: como é que isso aconteceu? — ele perguntou, colocando o cinto com um movimento rápido.
Dei partida novamente no carro e segurei a vontade enorme de suspirar ou bufar ou qualquer coisa do tipo só de lembrar das manchetes e de todas as mensagens que estavam chegando no meu celular. Eu meio que estava esperando que a minha própria mãe me ligasse a qualquer minuto, perguntando que merda eu fiz dessa vez.
— Se eu soubesse, você acha que eu estaria assim? — respondi, balançando a cabeça, os dedos apertando o volante com mais força do que o necessário e cruzei a esquerda, o trânsito livre. — Acordei com uma ligação da Catalina às oito da manhã querendo saber justamente isso.
Pedri soltou uma risada.
— Bom saber que não fui o único a acordar cedo — ele respondeu, olhando para mim. — Se te conforta, eu fui acordado às nove, com as três fofocando em chamada de vídeo. O Gavi nem atendeu.
O que não me surpreendia nem um pouco.
— Sinceramente, cara, se você me perguntar o que eu me lembro daquela noite, não é muita coisa, mas isso é certo: não fui para cama de mulher nenhuma — expliquei, totalmente certo disso.
Ou, ao menos, eu esperava estar.
— Eu sei disso. — Pedri deu duas batidinhas leve em meu ombro, como se buscasse me confortar com aquele gesto, mas eu não gostava nem um pouco da ideia do meu nome circulando por aí. Escândalos costumavam dividir muitas opiniões, o que, eventualmente, poderia afetar a minha carreira. — Porque eu te carreguei por oito lances de escadas e te deixei dormindo bêbado na sua própria cama.
Parei em um sinal vermelho e olhei para ele, o alívio instantâneo me consumindo por inteiro. Por mais que eu tivesse realmente convicto em dizer que não fui para cama dela, por um instante, me perguntei se eu deveria mesmo confiar na minha memória de bêbado.
Acho que a partir de hoje, eu precisava parar de beber exageradamente daquela forma.
Esfreguei o rosto com força.
— Eu mal sei o nome dela — comecei a falar, desabafando. — Me lembro do momento daquela foto, foi totalmente aleatório. Eu tava cumprimentando algumas pessoas e ela estava no meio, trocamos uma dúzia de palavras, mas foi só. Pilar me puxou para tirar fotos logo em seguida.
Pedri assentiu, sendo o ótimo ouvinte que era. Voltei a dirigir quando o sinal ficou verde.
— Você leu mais alguma coisa? Saiu mais alguma notícia?
— Sim. Agora até os portais de esportes estão postando essa merda. Isso tá me deixando completamente irritado.
Era um pesadelo, só podia ser.
— O que você tá pensando em fazer? — ele perguntou.
Encolhi um ombro, demorando a responder. Meus planos para aquele dia eram bem simples: dormir o suficiente para me sentir descansado e ir para o treinamento da tarde. Era só isso.
Simples.
Ao invés disso, fui acordado sendo sugado para um abismo de fofocas sem controle algum, sem saber o que fazer. Nunca me envolvi em escândalos, muito menos um com aquela proporção.
— Sinceramente? Eu não sei. — Peguei a próxima à direita. — Talvez a coisa mais viável a fazer agora seja criar um plano com a minha assessoria.
— E postar uma nota pública?
Assenti, concordando a contra gosto.
— Nenhuma esperança de ignorar e fingir que isso não está acontecendo? — Pedri questionou, com uma careta. — A gente sabe que o filho não é seu. E ela também não confirmou nada ainda.
— O silêncio dela é conivente com as suposições — falei o óbvio. — E você sabe o que isso significa.
Ele se calou, porque sabia.
Não havia nenhum jeito de ignorar e esperar que a poeira baixasse. As pessoas não iam esquecer de uma mulher que estava insinuando que um jogador do Barcelona era o pai do seu filho e, se eu não fizesse nada, agisse como se não fosse comigo, as coisas poderiam piorar rapidinho. Nessa história, eu sabia que lado a internet escolheria e não era o meu.
Mantive meus olhos na estrada, nos aproximando da Ciutat Esportiva. Como esperado, assim que virei para entrar, vários torcedores estavam parados na porta, sempre em busca de autógrafos ou coisas do tipo, mas considerando o dia incomum que eu estava tendo, apenas fechei as janelas e passei reto por eles.
— Escuta, cara — Pedri começou a falar de novo, tirando o seu cinto, e eu imitei o seu movimento, nós dois saindo do carro ao chegar no estacionamento. — Sei que toda essa situação é uma merda e estressante, mas seja lá o que acontecer, você sabe que vamos te apoiar. A gente sabe qual é a verdade.
Pela primeira vez no dia, eu sorri, grato por suas palavras. Ativei o alarme do carro e entramos, seguindo direto para o vestiário.
— É melhor eu não jogar vocês nessa cruz — brinquei.
Mas era muito bom saber que eu tinha amigos com quem contar. Aquelas pessoas não tinham ideia do tamanho da importância que tinham para mim.
— Idiota — Pedri xingou, batendo na parte de trás da minha cabeça com um estalo alto. — Nós faríamos isso sem você pedir.

Me arrependi de colocar os pés para fora do túnel imediatamente.
Não foi só o cheiro da grama recém aparada do campo que me recepcionou dentro do campo, mas as pessoas a quem eu chamava de amigos, suas vozes misturando-se umas às outras em um tom que eu claramente reconheceria de longe, principalmente quando eu me tornava o alvo principal deles. E depois de todas aquelas notícias mentirosas, eu não tinha como fugir.
— Bom dia, papai — Leticia me recepcionou logo na entrada, com um sorriso doce demais para ser inocente.
Pilar estava logo ao lado dela, com Gavi se apoiando em seu ombro com um sorriso sacana no rosto. Pedri me seguia logo atrás, mas eu já sabia que ele estava prendendo o riso, provavelmente sendo quem avisou que eu já tinha chegado no CT. Fechei a cara imediatamente, fazendo questão de bufar para mostrar o meu descontentamento.
— Eu tô sinceramente desapontada que descobri que você vai ser pai por portais de fofocas — Pilar dramatizou, o rosto tão sério que quase não pareceu atuação. Quem não a conhecesse, com certeza acreditaria no seu suposto desapontamento. — Achei que você considerava a gente um pouco mais do que isso.
Revirei os olhos para o seu teatro.
— E eu tô custando a acreditar que vocês realmente estão se divertindo às minhas custas — reclamei, mesmo que eu conhecesse os amigos que tinha. O resto dos caras ainda nem tinham chegado e o dia tinha tudo para ser longo. — Como é que o Gavi sabe se ele nem atendeu a ligação?
Gavi deu de ombros.
— Ele pode até ignorar as nossas ligações e mensagens, mas se irrita o suficiente para responder a Pilar quando ela manda mil mensagens atrás da outra — Leticia explicou, como se aquilo fosse óbvio.
Olhei para os dois e foi a vez da Pilar dar de ombros, como se confirmasse o que Leticia tinha acabado de dizer. Eles eram melhores amigos há mais tempo do que eu podia contar, mas ainda assim, tinham uma relação muito mais íntima do que eu tinha com a Catalina.
— Cara… — Gavi se desencostou do ombro dela e apertou os meus dois ombros, parando na minha frente com um sorriso e um balançar de cabeças desacreditado. — Eu não queria estar na sua pele.
— Obrigado pelo apoio.
Senti ele dando dois tapinhas nos meus ombros.
— Que isso, estamos aqui para te apoiar, sempre.
— Inclusive, para te ajudar a organizar o chá revelação. — Leticia entrou na brincadeira de novo, nunca perdendo a oportunidade. Gavi se afastou de mim rindo e Pedri se aproximou mais. — A gente pode usar as cores do Barcelona mesmo, o que acha? Vermelho para menina e azul para menino.
Eu abri um sorriso que definitivamente não era nada simpático, apenas para espelhar com o humor dela.
— Eu acho que vocês deveriam todos irem tomar no…
— Ei! — A voz de Catalina me impediu de ser indelicado tão cedo do dia e todos nós olhamos para onde ela estava, uma expressão de impaciência decorando o seu rosto. — Dá pra deixar o em paz e andarem de uma vez?
Pilar bufou.
— Tá, tá legal — ela disse, se afastando do Gavi e se juntando à Leticia, que não ia acompanhar o treino. — Brincadeiras à parte, a gente sabe que tudo isso não é verdade, tá bom?
— E que a gente tá aqui pra te apoiar, independente de tudo — Pedri reforçou o que já tinha me dito antes.
— Eu sei — garanti que eles soubessem disso. — Não sei como posso ter amigos e inimigos nas mesmas pessoas, mas… eu sei.
Risadas ecoaram pelo campo. A voz de Catalina se sobressaltou outra vez e eu estranhei que ela estivesse sendo tão impaciente.
Com essa deixa, as meninas se enfiaram em algum buraco de volta fora do campo e eu segui Pedri e Gavi logo na frente para se juntar aos outros jogadores, que iam chegando aos poucos, dando o horário de início do treinamento do dia.
Observei Catalina em seu posto para pegar todo mundo passando pelo túnel, o celular e o estabilizador sendo o seu acessório de trabalho. Quando passei por ela e girei para parar ao seu lado, vi ela pausar o vídeo para o stories do Instagram do clube e beijei o topo da cabeça dela, fazendo seu rosto virar na minha direção com um suspiro.
— Tá tudo bem?
Ela mexeu um ombro.
Um gesto sutil que dava para passar despercebido, mas o vinco na sua testa ainda estava ali, decorando a sua impaciência grudada por toda a expressão do seu rosto. De manhã, quando tinha me ligado, ela parecia melhor. Preocupada, mas melhor.
— Eu é que te pergunto — devolveu. — É o seu nome que está envolvido em todo esse escândalo.
— Essa é sempre uma possibilidade atrelada à fama. — Dei de ombros. — Só tô estranhando que você parece mais afetada do que eu.
Catalina hesitou, começando a desmontar o material. Seu próximo take de gravação eram alguns flashes do treino fechado.
— Eu li alguns comentários das postagens — confessou e eu suavizei minha expressão, entendendo tudo.
— Lina.
Ela tinha me sugerido não ler os comentários e, embora eu mesmo não tenha acatado a sua sugestão, lá estava ela, fazendo a mesma coisa.
— Eu sei, eu sei — ela se apressou em dizer ao ouvir o meu tom. — A Pilar sempre diz que os comentários são a deep web de toda a internet, a desesperança da humanidade, um monte de coisa dramática assim, mas eu não resisti. Eu não suporto que não falem o que sabe, especialmente se for sobre você. E essa situação é…
— Uma merda — completei por ela, percebendo que ela não estava encontrando uma palavra, e ela assentiu, concordando em silêncio, me olhando com uma expressão mais suave. — Olha, Lina, é mesmo uma merda. Digo isso com propriedade, é o meu nome no meio dessa lama toda, mas isso não tem nada a ver com você, tá bom? Não precisa se preocupar comigo e nem com que essas pessoas estão comentando na internet. A única opinião que importa para mim é a de vocês, é a sua.
— Você acabou mesmo de me pedir para não se preocupar com você? — perguntou, uma sobrancelha arqueada.
Revirei os olhos.
— Que tal uma tarefa menos difícil? — sugeri. — Pare de ler comentários inúteis.
Ouvi ela resmungar algo que eu não entendi.
— A gente conversa sobre isso depois — murmurou, beijando a minha bochecha.
E me deixou para trás, com a cabeça fervilhando com mil coisas, pensando que uma hora ou outra, eu teria que encarar isso.



Passei meu braço na testa, na tentativa de limpar um pouco do suor acumulado. O treino tinha acabado há pouco tempo, mas como eu não estava nem um pouco afim de ir embora e nem me deparar com o que ainda estava rolando nas redes sociais, continuei ali. Ninguém parecia com muita vontade de ir também, então Pedri, Gavi, Fermín e Eric permaneceram. O resto da comissão técnica tinha vazado já, com a exceção do nosso treinador de goleiros, que ainda passava algumas instruções pro Iñaki e Szczęsny.
Ali parecia bem melhor. Não parecia existir nenhuma preocupação ou escândalo enquanto brincávamos de jogar altinha na lateral do campo, perto da linha de fundo, alternando entre xingamentos e risadas, qualquer coisa que não fosse o assunto do dia explodindo lá fora, mesmo que eles ainda soltassem algum comentário aqui e ali zoando.
Pedri tocou de cabeça para o Gavi, que devolveu com o peito de Eric, mandando de volta para o Fermín, a bola vindo quicando na minha direção, equilibrada nos meus pés.
— Vai, — Gavi incentivou, com uma provocação. — Mostra que é um atacante!
Os outros riram.
— Cala a boca, otário — retruquei, ajeitando meu corpo para devolver a bola com um chute de efeito.
O problema foi que eu chutei com força demais.
E chutei muito mal, desajeitado, fazendo a bola subir em uma trajetória muito menos controlada do que planejei.
— O que foi isso, cara? — Pedri riu.
— Ih, essa bola foi parar em Madrid — Eric comentou.
Mas não.
Ela não parou em Madrid.
Quando a bola sumiu do nosso campo de visão, ouvimos um puff seco, seguido de um ai ainda mais seco, enquanto assistíamos a bola acertar o rosto de alguém que caiu direto de bunda no chão, a mão indo ligeiramente até a cabeça.
O silêncio reinou por um instante.
Caralho… — murmurei, meio arregalando os olhos.
— Quem é? — ouvi Fermín perguntar.
— Não tenho a menor ideia! — respondi, já correndo na direção da figura feminina caída.
Eles vieram logo atrás, me acompanhando com uma expressão preocupada, mas a culpa tinha sido minha por chutar tão longe e forte demais, mesmo que minha intenção não tenha sido atingir ninguém. Cheguei perto, observando a melhor figura feminina de perto.
Os fios se embaralharam no meio do seu rosto. Havia uma vermelhidão decorando o meio da sua testa e nariz, exatamente onde a bola parecia ter atingido. Ela usava um moletom cinza claro com o escudo do clube, um crachá pendurado no pescoço. Estava sentada, parecendo meio grogue, a mão ainda na cabeça e a outra apoiada no chão.
Me abaixei rápido, ficando na mesma altura que ela, meu rosto estampado de culpa.
Merda, me desculpa! Eu não te vi aí, tá tudo bem? Você tá bem?
Ela piscou meio devagar, meio zonza. Parecia fingir que não estava se sentindo um pouco tonta, o que só tornava tudo mais evidente. Suas mãos vieram até mim e eu segurei imediatamente, os movimentos dela parecendo totalmente involuntários, buscando qualquer apoio. Agora mais perto, consegui olhar o seu crachá pendurado no pescoço dela e li o seu nome pela primeira vez:


Nutricionista


Levantei os olhos e encarei melhor o rosto dela, tentando investigar a vermelhidão, mas me perdi em algo no meio do caminho.
Mesmo um pouco atrapalhada, tentando se levantar de algum jeito, as mãos ainda apoiadas na minha, seus olhos se estreitaram na minha direção, os traços leves e suaves destacando os seus olhos claros, tentando se desviar do contato visual por mais tempo que o necessário, o cabelo bagunçado da queda.
Ela era bonita.
Porra.
Bonita era até um elogio fraco. Era ela linda, um tipo de beleza que ela não parecia ter consciência.
— E aí, ela tá bem? — Gavi questionou, se intrometendo de um jeito curioso.
Isso me despertou dos meus pensamentos longínquos e pigarreei, sentindo ela apertar os meus braços, suas unhas curtas fincando na minha pele de um jeito incômodo, mas não me importei.
Alguma coisa nela parecia levemente familiar.
— Eu tô bem — ela respondeu, olhando para cima, provavelmente percebendo que eu não era o único ali.
Tomando consciência que estava se segurando em mim, ela afastou as suas mãos e tentou se levantar sozinha.
— Não, espera, deixa eu te ajudar — me ofereci.
Ela parou de se movimentar, olhou para mim de novo e hesitou por um instante, como se estivesse enfrentando um dilema. Depois do que pareceu um segundo infinito, finalmente aceitou a minha mão, seus dedos pequenos e frios se enrolando ao redor dos meus. Ajudei-a a se levantar e me levantei junto, tentando não me sentir muito ofendido com o quão rápido ela puxou suas mãos de volta. Ela só parecia tímida demais.
Pedri se aproximou, o olhar preocupado, a testa franzida, analisando-a.
— Tem certeza que tá bem mesmo? Você parece meio tonta ainda, melhor dar uma passada no departamento médico.
Suas bochechas adquiriram um tom mais rosado ainda, combinando com a vermelhidão que ganhou da bola.
— Não precisa — ela respondeu rápido demais, negando com a cabeça. Algo no movimento a fez apertar os olhos. — Eu tô bem, foi só um susto. Eu só vim porque preciso falar com alguém sobre a dieta do…
— Tá, mas antes de falar de qualquer dieta, você vai passar no departamento médico sim — interrompi, chamando a sua atenção, tomando a liberdade de pegar na sua mão movimento brusco. — A Leticia pode ver se tá tudo bem mesmo e eu vou dormir melhor sem a culpa.
— É, melhor garantir que não foi traumatismo craniano, sei lá — Fermín disse, já empurrando ela suavemente junto comigo em direção à saída do campo.
Observei-a andar devagar, parecendo que queria sumir de algum jeito, a vergonha estampada em seu rosto em um rubor que claramente gritava para a gente esquecer ela ali, mas não havia a melhor possibilidade de isso acontecer.
— Não precisam me levar, sério, eu posso ir sozinha… — ela ia dizendo.
Mas algo me dizia que ela não ia para o departamento médico e era só uma tentativa de deixá-la em paz. Eu preferia garantir que Leticia a examinasse para não ser o culpado dela passar mal ou algo do tipo depois.
— Não vai rolar — Gavi disse, nos acompanhando junto com Eric. — Só queremos garantir que você tá mesmo bem.
Meu Deus... — murmurou, mais para si mesma, escondendo o rosto com a mão livre, enquanto nós a conduzíamos pelo corredor. — Isso é muito constrangedor.

Quando chegamos ao departamento médico, soltou a minha mão e eu deixei, não querendo que ela se sentisse ainda mais constrangida. A situação toda já parecia ruim o suficiente para ela e não queria ser o responsável por piorar.
Respirei fundo, já adivinhando a bronca pronta que levaríamos da Leticia, e empurrei a porta, dando de cara com a mulher encostada na maca, conversando com a Pilar, o que pareceu piorar ainda mais a situação. Uma já era ruim para brigar conosco, mas duas?
As duas estavam tão tranquilas que a expressão de choque quando viram aquele bando entrando foi naturalmente instantânea.
— O que vocês estão fazendo aqui? — Leticia perguntou, olhando primeiro para nossos rostos suados e sujos, e só então ela notou no meio, vermelha como um tomate.
Eu não conseguia saber se era da bolada ou da vergonha. Provavelmente os dois.
— Nossa, mas que porra aconteceu com você? — Pilar, delicada como sempre era, questionou para . — Por que o seu rosto está tão vermelho?
se encolheu um pouco, passando a língua pelos lábios, meio sem jeito. Esperei que ela abrisse a boca e explicasse, mas Pedri se adiantou na nossa frente.
— Antes que pareça algo muito grave, aconteceu o seguinte: a gente tava brincando no campo, aí o errou o chute — ele lançou um olhar bem dramático pro meu lado — e a bola acertou a cabeça dela.
— FOI SEM QUERER! — falei logo, me defendendo, erguendo as mãos, desesperado. Parecíamos um bando de crianças culpadas se defendendo. — Juro! Eu nem sabia que tinha alguém ali!
Leticia ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços, voltando o olhar pra , que continuava com a cabeça meio abaixada, os dedos enroscando na borda do crachá pendurado no peito. Ela tinha algum problema com contato visual?
— Tá tudo bem com você? — ela perguntou.
assentiu rápido, murmurando:
— Sim... eu só... só fui lá pra falar com você, mas tá tudo bem.
Leticia respirou fundo, olhou para nós cinco idiotas ali na porta e começou a balançar os braços, nos expulsando com movimentos frenéticos.
— Não fizeram mais do que a obrigação, agora, sumam daqui. Eu preciso examiná-la. Sozinha.
Pedri fez uma careta, descontente com a decisão dela. Pilar desceu da maca, onde estava sentada, e decidiu sair por conta própria, para dar privacidade ao atendimento de Leticia e .
— Mas a gente só queria saber se ela tava be—
FO-RA — Leticia disse, empurrando Pedri com a ponta dos dedos no peito. — Já ajudaram demais. Pode ir espalhar o caos em outro lugar agora, Pedro.
Bufei. Olhei pra uma última vez antes de sair, a sensação familiar ainda esmagando o meu peito e fiquei surpreso quando seus olhos encontraram os meus no caos da Leticia expulsando todos nós.
— Desculpa mesmo, tá? Foi totalmente sem querer.
Ela abriu um sorrisinho minúsculo, quase imperceptível, e balançou a cabeça como se dissesse “tudo bem”. Nós saímos, ficando do lado de fora da sala, Pilar já tendo saído primeiro que todos nós. E então…
Pá.
Leticia fechou a porta na nossa cara, deixando a gente no corredor com cara de tacho.
Gavi soltou um assovio.
— Tão delicada…
Pilar deu um peteleco na orelha dele, ouvindo-o reclamar.
— Vocês mereceram — ela disse. — De todas as pessoas, vocês tinham que ter acertado justo a que odeia todo esse tumulto. Achei que a coitada ia mudar de cor.
— Ei! Quem acertou foi o ! — Gavi se defendeu, me acusando.
Fermín riu. Eric deu uma tapinha nas minhas costas.
Pilar balançou a cabeça.
— Às vezes eu esqueço que vocês são um bando de patetas — resmungou, passando por nós, indo embora também.
E ficamos ali, agindo como um bando de patetas mesmo, encarando a porta fechada na nossa cara. Até Pedri aparecer do meu lado, dando dois tapinhas nas minhas costas.
— É melhor pensar em um pedido de desculpas mais elaborado do que o que teve, as meninas vão te cobrar isso — ele disse, arrastando o grupo para sair daquele corredor.
— É. Talvez... — respondi, meio vago, tentando não imaginar como eu ia lidar com aquela cena ridícula na próxima vez que visse a .
Pelo visto, o Universo não estava mesmo disposto a me deixar viver o dia em paz.
E o dia nem tinha acabado ainda.

¹Ciutat Esportiva é o centro de treinamento e academia do clube de futebol espanhol FC Barcelona.
²CT: Centro de Treinamento.





Alguns dias, as coisas apenas tomam muito da minha energia
Eu olho para cima e toda a sala está girando

breathin – Ariana Grande


Cocei meus olhos, na tentativa de fazê-los arderem menos.
A tela do computador brilhava de um jeito muito intenso e, justamente hoje, não coloquei minhas lentes e nem coloquei os óculos. Eu já estava muito longe de casa quando me lembrei desse fato e não me toquei de que não estava enxergando muito bem até quase bater de cara com a porta de vidro giratória que dava acesso a uma das salas do refeitório.
Para minha própria sorte, evitei a vergonha a tempo.
Pisquei uma, duas, várias vezes até voltar a encarar a planilha que eu mexia há quase uma hora. A tabela nutricional dos jogadores estava toda ali na minha frente, dividida por posição, biotipo, metas individuais e restrições alimentares de cada um. Era quase como um quebra-cabeça que eu adorava montar, mas não hoje. Especialmente hoje, minha cabeça estava dando indícios de uma dor de cabeça beirando o insuportável mais tarde.
Para piorar, meu supervisor tinha deixado bem claro na última reunião que aquela semana não tinha margem nenhuma para erros. O que significava que era semana de jogos importantes, dois confrontos decisivos pela frente; um em casa e outro fora, o que também significava que todos deveriam fazer as suas refeições no clube.
Não podia ter escapadinhas para comer fora, atrasos não eram tolerados e muito menos desculpas.
E, dessa vez, a tarefa de garantir que as refeições no refeitório estivessem impecáveis coube a mim. Precisava ser uma refeição equilibrada, funcional e, de preferência, que tivesse gosto de comida. Era por isso que tinha ficado a manhã inteira trabalhando naquela planilha, garantindo o cumprimento das restrições alimentares de cada um. Nem sempre todos comiam a mesma coisa, mas a gente tentava manter um padrão de alimentação.
— Os carboidratos lentos têm que estar prontos até amanhã — falei, me virando para os dois estagiários que revisavam a montagem do cardápio comigo. — Nada de massas pesadas. A gente vai usar batata-doce, arroz integral e quinoa. Vou pedir que caprichem na hidratação também. Isotônicos naturais, frutas com mais água e sucos sem adição de açúcar.
— E o pré-treino? Ainda vai manter aquele shake com aveia e banana? — perguntou Marta, uma das estagiárias, já fazendo anotações no próprio tablet.
— Pode tirar a banana — respondi, satisfeita que ela lembrou daquele detalhe. — O treinador disse que tem gente com aversão. Vamos fazer a versão com morango e um pouco de chia, fica mais leve e agrada mais gente.
Marta assentiu e anotou. David, o outro estagiário, coçou a cabeça.
— E os jejuantes? O Ramadã começa no fim da semana.
Suspirei, coçando minha bochecha. Me encostei contra a cadeira, buscando me afastar um pouco da tela do computador.
— Vou conversar com a Leticia sobre isso. A gente precisa ajustar o treino deles para que consigam render sem entrar em colapso. Alguns vão querer treinar em jejum total, e a gente vai ter que adaptar os horários de ingestão para antes do nascer do sol e depois do pôr — respondi, olhando para o relógio na tela.
13:03.
— Droga — murmurei, colocando a tela do computador em descanso, e me levantei, pegando minha pasta com os relatórios, os menus revisados e um dos suplementos que eu precisava mostrar para Leticia. Como uma das médicas principais do time, ela estava sempre alinhada com a nossa equipe de nutrição para o desempenho dos jogadores. — Vou tentar pegar ela pra conversar antes que o refeitório encha — avisei para os dois, já a caminho da porta. — Se eu deixar pra depois, vai ser impossível falar com ela no meio daquele caos.
— Boa sorte! — David brincou.
Eu conseguia contar nos dedos quantas vezes pisei naquele campo desde que comecei a trabalhar no clube, e sobraria. Aquela parte do centro de treinamento sempre me parecia pertencer a um outro mundo — um barulhento, ensolarado, masculino demais, sempre acompanhado de risadas altas, xingamentos e gritos de incentivos. Eu gostava do meu trabalho ali porque me permitia ser um pouco invisível dentro da minha própria sala, me obrigando só a comparecer demais nas reuniões com quase todas as equipes.
Até de ficar perdida nas planilhas era melhor do que me expor. As reuniões com os estagiários era minha melhor forma de socializar, mas para a insatisfação da vovó, não chegavam a serem meus amigos. Leticia conseguia chegar mais perto disso do que ninguém, mas ainda assim, nossas conversas, apesar de tranquilas, chegavam mais a ser profissionais do que pessoais. Ela me contava mais coisas da sua vida do que eu contava a minha a ela, mas nunca me pressionava.
A última coisa que eu queria era entrar em território de chuteiras e câmeras.
Mas, vez ou outra, eu me arriscava a comparecer no campo.
Daquela vez, eu precisava só ir atrás da Leticia para alinhar as dietas dos jejuantes, já que o Ramadã estava se aproximando. E como ela quase nunca parava em um lugar por muito tempo, se eu não conseguisse falar com ela antes do almoço dos jogadores e funcionários, dificilmente eu conseguiria encontrar ela depois. O refeitório ficaria uma loucura, ela se envolveria com outros atendimentos, e a minha planilha perfeita viraria um caos.
Tirei os fios do cabelo da frente do meu rosto, respirei fundo e comecei a subir as escadas que me levariam ao gramado. A luz do sol me atingiu em cheio quando saí da sombra, meus olhos se estreitando. Odiava esquecer as lentes.
Tentei me ajustar à luz e avancei alguns passos. O campo estava quase vazio, mas ainda havia alguns jogadores brincando com uma bola um pouco mais afastados e, do outro lado, mais à frente, o treinador de goleiros estavam com os dois goleiros do time. Eu reconhecia os dois, o primeiro sendo o Szczęsny, que era alto e tinha um rosto muito expressivo. O segundo…
Engolindo a seco, observei a camisa grudada no corpo suado de Iñaki Peña, mas não conseguia enxergar tão longe. Ainda assim, se eu estreitasse os olhos um pouco mais, daria para ver o seu sorriso de canto enquanto ouvia as instruções do treinador, as luvas fora das mãos, penduradas em algum lugar da cintura.
Meus pés pararam por um instante. Meu cérebro travou por dois.
Era ridículo como eu sempre parecia agir como um adolescente idiota toda vez que via ele, a minha pulsação ecoando no meu ouvido de um jeito constrangedor.
Vai, . Anda. Você tem vinte e cinco anos e um mestrado em nutrição de alta performance. Pelo amor de Deus.
Balancei a cabeça, continuando a repreender a mim mesma, e andei pelo gramado, passando os olhos ao redor, para ver se eu encontrava quem estava procurando. Mas foi aí que tudo saiu do controle.
Porque quando olhei de volta pro chão, tentando fingir que não tinha acabado de encarar Iñaki feito uma adolescente apaixonada, não vi a bola vindo.
Só ouvi um assobio. Um som rápido cortando o ar.
E então o impacto de algo atingindo o meu rosto, me levando a cair sentada direto no chão, sentindo a dor antes mesmo de entender o que tinha acabado de acontecer.
— AI! — soltei, enfiando a mão na cabeça.
Por um instante, tudo ao meu redor ficou um pouco embaçado. Eu não enxergava nada com dignidade, mas ouvia vozes distantes vindo de longe. Alguém se abaixou na minha frente, ficando na minha altura.
Merda, desculpa! — Ouvi uma voz masculina dizer, soando preocupado. — Eu não te vi aí, tá tudo bem? Você tá bem?
Pisquei algumas vezes, devagar, tentando focar. A voz parecia um pouco familiar, mas seu rosto não estava focado o suficiente para eu reconhecer qualquer coisa. Tentei fingir que não estava me sentindo tonta, mas meu rosto se contorceu em uma careta e eu me vi movendo as mãos direto até ele, sentindo ele me segurar imediatamente, alcançando meus movimentos involuntários. Eu só precisava de um pouco de estabilidade.
Pisquei meus olhos ainda mais e o embaçado parecia sumir, seu rosto voltando a focar para mim.
— E aí, ela tá bem? — ouvi alguém perguntar atrás dele.
Encarei quem estava na minha frente e reconheci o jogador. . As mensagens esquisitas do grupo da faculdade sobre ele ser pai começaram a ecoar na minha cabeça. “O vai ser pai?”... “Queria saber de fofoca”...
— Eu tô bem — me forcei a responder e, tomando consciência de que eu estava apertando os seus braços com muita força, me soltei dele, me afastando e tentando me levantar sozinha.
— Não, espera, deixa eu te ajudar — ele me ofereceu, esticando as mãos na minha direção.
Parei de me mover, encarando-o, hesitante em aceitar. Eu queria fingir normalidade, que estava tudo bem e que eu podia me virar sozinha, mas minhas pernas não conseguiam se mover sozinhas e minha cabeça ainda girava, mesmo que eu estivesse insistindo para eles que estava tudo bem.
Por fim, aceitei, meus dedos se enrolando contra os dele, a pele quente em contraste com a minha pele fria, o moletom me protegendo do vento gélido. Ele me ajudou a me levantar e agradeci tão baixinho que tive a certeza que nenhum deles me escutou. De pé, puxei minhas mãos para mim de volta, me soltando dele.
Meu rosto ardia. Provavelmente estava vermelho da bolada, mas apostava que minhas bochechas também estavam da mesma cor, dessa vez por vergonha.
Vi Pedri González se aproximar com a testa franzida, um olhar analítico na minha direção.
— Tem certeza que tá bem mesmo? Você parece meio tonta ainda, melhor dar uma passada no departamento médico.
Minhas bochechas esquentaram mais ainda.
Eu tentei protestar contra o pedido deles, desacostumada a ser o centro de preocupação masculina daquela forma, mas meu cérebro não conseguiu processar mais nada quando tomou a atitude de entrelaçar sua mão à minha, me guiando gentilmente na direção do departamento médico, mesmo que eu insistisse muito que não precisava.
Mas nenhum deles me ouviu.

Quando a porta se fechou com um som meio estrondoso, com Leticia expulsando todos eles dali, eu continuei parada no mesmo lugar, o crachá desajeitado no meu peito e o rosto tão quente que parecia que eu estava prestes a me derreter de algum jeito. Que meu rosto ia desmanchar devagar e eu finalmente poderia sumir dali, evaporar, fingir que minha existência foi um delírio.
Pilar podia ter ficado, já que a médica do time não a expulsou, mas ela resolveu sair por conta própria, provavelmente querendo dar mais privacidade para uma consulta que eu nem pedi. Leticia se virou para mim, me olhando com uma expressão que beirava entre preocupada e incrédula.
— Tá tudo bem mesmo com você, ? — ela perguntou novamente, dando dois passos na minha direção.
— Olha, eles estão exagerando — comecei a dizer, a voz baixa. — Só foi... uma bolada. Nada demais, eu tô bem.
— “Nada demais” é o cacete — ela retrucou, pegando uma lanterna de bolso e apontando pro banco acolchoado ao lado da maca. — Senta aí. Vou te examinar. Você levou uma bola na cabeça. Isso entra na categoria “a gente não ignora”.
— Doutora Leticia, sério, não precisa…
Leticia — frisou, me corrigindo. Uma mania que eu ainda tentava abandonar. — Senta. — Apontou com a cabeça, insistindo, com aquele tom categórico que não dava espaço para debate.
Sem escolha e sabendo que certamente eu perderia a discussão, obedeci, meio envergonhada.
— Você tá com uma linha vermelha bem aqui — ela comentou, afastando meu cabelo da testa com cuidado. — Ainda bem que a bola pegou mais de raspão, senão você ia sair daqui com um galo. — Ela aproximou uma lanterninha da minha pupila direita e depois da esquerda. — Segue com os olhos, sem virar a cabeça.
Fiz o que ela mandou, acompanhando o movimento da luz de um lado pro outro. Em silêncio. Sem saber muito o que dizer.
— Tá vendo dobrado? Tontura? Enjoo? — ela perguntou.
— Só vergonha mesmo — respondi. — E a tontura passou, foi bem rápido.
— Vergonha não tem cura — disse. — Mas posso te garantir que foi bem menos humilhante do que parece — contou, com um sorriso gentil. — Agora encosta a ponta do dedo no seu nariz — instruiu. — Isso. Agora com a outra mão.
Depois me fez fechar os olhos, levantar os braços, andar em linha reta… Tudo isso por causa de uma bolada no meu rosto que me deixou tonta por apenas alguns segundos e cara a cara com bem no dia em que ele se tornou alvo de uma polêmica na internet. O dia dele devia estar sendo tão bom quanto o meu.
— Você fez residência em neurologia e eu não sabia? — resmunguei, tentando manter o equilíbrio.
— Fiz medicina do esporte. Mas todo mundo aqui sabe avaliar concussão básica — ela respondeu, sem se abalar que meu comentário pareceu mais uma reclamação. — E considerando que você foi acertada na cabeça com uma bola chutada por um jogador profissional, não vou correr risco.
Bufei baixinho e desisti, deixando ela terminar o exame.
Quando finalmente me liberou para me sentar de novo, soltei o ar que nem percebi que estava prendendo. Leticia se afastou um pouco, ainda me observando com atenção, e por fim, pareceu satisfeita.
— Tá, neurologicamente parece tudo certo. Mas se sentir dor de cabeça, enjoo, sonolência ou qualquer coisa diferente, você me manda mensagem. Entendido?
— Sim, senhora.
A tensão começava a sair do meu corpo agora que eu estava longe dos olhos dos cinco jogadores. Mas o rosto do , a expressão apertada de culpa, ainda estava vívida na minha memória.
Percebendo o meu silêncio, Leticia tornou a falar.
— Ele é um doce de pessoa, sabe? — disse, como se lesse meus pensamentos. — O . Não leva essa primeira impressão com você. Ele só... não tá num dia bom.
Assenti em silêncio, concordando. Eu não era daquele mundo de polêmicas e muito menos sabia se o que estava acontecendo era verdade ou não, mas os boatos tinham se espalhado por todo lugar. Eu não tinha como julgá-lo se não conhecia nenhum lado da história.
E nem era da minha conta, se eu fosse honesta.
Leticia me observou por mais um segundo e então suavizou o semblante.
— Então, você disse que tava me procurando no campo? — perguntou, ajeitando os cabelos atrás da orelha. — Agora eu tô me sentindo mal. Você tomou uma bolada por minha causa…
— Não! — falei logo, soltando uma risada abafada. — Foi só uma coincidência infeliz. Eu que fui desastrada... nem vi a bola vindo. Fiquei... distraída… Enfim... — complementei, tentando mudar de assunto o mais rápido possível. — Eu fui te procurar pra gente conversar sobre o jejum do Ramadã. Acho que seria bom começarmos a pensar em alguma estratégia conjunta para adaptar a dieta dos meninos que estão participando... manter o desempenho deles, controlar os horários de ingestão…
Ela assentiu, o olhar agora completamente profissional.
— Perfeito. A gente precisa revisar isso mesmo. Já tem um ou dois jogadores que vieram comentar comigo sobre os treinos em jejum.
— Exatamente — continuei, mais aliviada por conseguir me ater ao que eu sabia fazer. — Eu posso montar uma proposta de plano alimentar para esses dias. Se você puder me passar os horários previstos dos treinos e jogos, eu adapto conforme a janela de alimentação de cada um.
— Combinado. E, por favor, da próxima vez me manda mensagem. Evita tomar bolada no processo — disse Leticia, com um sorrisinho irônico.
Deixei meus ombros caírem, envergonhada por nem ter sequer pensado na possibilidade de mandar mensagem para ela.
— Prometo. Meu objetivo agora é manter minha integridade física intacta — respondi, com uma careta. — E talvez ficar longe do gramado por alguns dias.
Ela riu.
— Melhor promessa que você pode fazer por hoje. Agora vai pra casa, toma um analgésico se sentir dor e tenta esquecer que esse momento existiu. Só isso já vai ser um ótimo plano de recuperação.
Sorri com gratidão.
— Obrigada, de verdade.

🥼

Minha intenção realmente era ter acatado a sugestão de Leticia e ter ido para casa, mas quando voltei para a minha sala compartilhada, me joguei no sofá do canto e fiquei por ali mesmo, tentando aliviar a dor de cabeça incômoda. Eu ainda sentia o fantasma da queimação nas minhas bochechas e tentava pensar em qualquer coisa que não fosse a cena humilhante no campo se desenrolando bem na minha frente. Eu quase nunca esbarrava com os jogadores, e quando isso acontecia, me rendia uma cena catastrófica.
Minha vontade era nunca mais poder pisar os pés no gramado.
Nem esbarrar com os jogadores. Tipo, pra sempre.
Infelizmente pra mim, ainda que minha função aqui permitisse que eu me escondesse na minha sala por boa parte do tempo, eu também precisava ter o contato direto com eles. Não constantemente, mas o suficiente para entender que não esbarrar com eles não era uma opção viável.
E, portanto, quis ficar enterrada naquele sofá até me fundir com ele, nos tornando um tecido só. Talvez o silêncio naquele momento me ajudasse a fechar um pouco os olhos e esvaziar a mente, esquecendo tudo, só para aproveitar um pouco de paz, mas fui surpreendida com uma batida na porta. Não era nenhum dos estagiários, já que eles tinham liberdade de entrar e sair daquela sala tanto quanto eu tinha.
— Pode entrar.
Me levantei, ficando sentada, esperando a pessoa do outro lado entrar. Quando a silhueta de um corpo apareceu assim que a porta abriu, o susto momentâneo me fez ficar de pé no instante em que me dei conta de quem era. Sem motivo para nervosismo, me peguei ajeitando o jaleco de um jeito meio exagerado mesmo assim.
— Oi.
Diante de mim, estava o cara culpado de ter chutado a bola que acertou o meu rosto. Ele parecia meio sem jeito, segurando alguma coisa na mão esquerda que não consegui identificar. Alguns segundos atrás, eu estava desejando não esbarrar com nenhum deles pelos próximos meses ou qualquer tempo duradouro que valesse e, agora, ele se materializou na minha frente, como se o universo estivesse gostando de brincar comigo.
— Desculpa, posso te ajudar em alguma coisa? — perguntei, as mãos jogadas para frente do meu corpo, sem ter uma direção.
abriu um sorriso.
Ele olhou para mim e deixou a porta entreaberta atrás de si.
— Eu só queria ver como você estava — disse, sem tirar os olhos de mim nem mesmo por um segundo e, por ser o alvo de toda aquela atenção, só torcia que minhas bochechas não me traíssem e esquentassem. — E pedir desculpas de um jeito mais decente.
Balancei a cabeça, um gesto quase imperceptível de negação.
— Tá tudo bem, foi um acidente — me apressei em dizer, incapaz de me tornar o motivo de seu lamento e culpa. — E eu tô ótima.
Como se procurasse por qualquer indício de mentira, ele me examinou minuciosamente, procurando por alguma prova física que provasse o contrário. Cocei a minha bochecha, me perguntando silenciosamente quando aquele dia humilhante ia acabar, para que eu pudesse remoer esse dia inteiro no conforto da minha cama, sem que meu cérebro me deixasse dormir de tanto me lembrar dos constrangimentos.
— A Leticia não te mandou pra casa? — investigou.
— Você vai me entregar pra ela? — respondi com outra pergunta.
O som da sua risada vibrou em mim e eu engoli a seco, mas meus lábios quase se moveram, contagiados pelo seu sorriso.
— Eu sinto muito por antes, de verdade — disse, voltando ao seu insistente pedido de desculpas, me estendendo o pacote que estava segurando. — O pessoal do refeitório me disse que é o seu favorito.
Surpresa por ele ter ido tão longe, tentei espiar o pequeno pacote por cima, antes de finalmente aceitar o presente. Abri o pote e me deparei com um cheiro familiar e delicioso e, dentro dele, estava um pedaço de torta de framboesa, exatamente o meu favorito. Quase gemi de satisfação, mas hiper consciente de que ele ainda estava na minha frente, me controlei, fechei o pote de volta e olhei para ele.
— Isso foi… — Pigarreei, procurando a palavra. — Gentil da sua parte. Obrigada.
Seu sorriso aumentou e dessa vez o meu espelhou o dele, ainda que um pouco mais contido. Não sou tão acostumada com gentilezas.
, certo? — ele perguntou, e eu assenti, confirmando. — Eu sou…
— Eu sei quem você é.
Fui muito mal-educada interrompendo-o daquela maneira, mas foi puro impulso. Instintivo responder àquilo. Eu sabia quem eram todos eles do clube, gravei os seus nomes, suas preferências de comida, suas restrições alimentares, cada parte de suas dietas. Eu sabia que a fruta favorita dele era laranja, que ele não gostava de comer muita massa e que tinha preferência por bebidas naturais.
E que hoje, especificamente, fez Barcelona inteira acordar com a notícia de que seria pai. Uma fofoca que eu não teria conhecimento se não fosse o grupo antigo da faculdade da qual eu não era muito mais presente. Suas vidas pessoais não faziam parte da minha lista de interesses, mas vez ou outra, eu ouvia algumas fofocas rolando pelos corredores.
— ... — ele complementou mesmo assim, estendendo uma mão para eu aceitar, e dessa vez minhas bochechas me traíram.
Encarei seu rosto, depois a sua mão estendida. Não queria ser mal-educada duas vezes em um intervalo tão curto de tempo, então aceitei. Meus dedos deslizaram pelos seus em um aperto que pareceu firme e delicado ao mesmo tempo, uma ternura me envolvendo em uma bolha de eletricidade. Seus olhos não me deixavam nem mesmo por um instante. Ele não parecia se dar conta de que estava acariciando a minha pele com o polegar.
Eu não sabia como quebrar o silêncio, mas não precisei. Fomos interrompidos por um toque melódico do meu celular. O som me despertou, nós dois nos desfizemos do aperto e deslizei uma mão para dentro do bolso do meu jaleco, tirando o celular de dentro. Minha tela brilhava com uma chamada de vídeo da minha avó. Antes de atender a ligação, murmurei um pedido de licença ao jogador, deixei o pote em cima da mesa e passei o dedo pela tela, deslizando para cima para atender. Meu sorriso aumentou.
Mas murchei completamente ao me deparar com a expressão preocupada de vovó do outro lado da tela. Ela não parecia estar em casa, o que também me acendeu um alerta.
— Vovó?
Ela focou a tela inteira em seu rosto. Tentou disfarçar um sorriso, mas eu a conhecia bem demais.
— Oi, , minha querida — disse, com o mesmo tom carinhoso de sempre.
— Oi, vovó, está tudo bem?
Vi quando ela hesitou um pouco.
— Desculpe, querida, é o seu irmão — respondeu, por fim, sempre sendo a coisa que eu mais temia. — Eu não te ligaria se não estivesse precisando da sua ajuda.
Eu me calei por um instante. Ainda me lembrava que estava ali, parado do outro lado, em silêncio, fingindo estar prestando atenção em qualquer papelada que tinha em cima da minha mesa.
— O que o Santiago aprontou dessa vez?

— Só diz de uma vez, vó — respondi, o tom meio duro.
Eu odiava as coisas que o Santiago aprontava com a nossa avó, mas odiava mais ainda quando ela me envolvia nisso. E quase sempre, por mais que eu quisesse dizer não, era impossível, eu não conseguia.
— Foi só um grande mal-entendido, filha — ela começou a responder, o mesmo discurso pronto para defender ele, que eu estava mais do que acostumada. — Ele foi influenciado pela pessoa errada.
Eu me irritei levemente.
— Sim, aparentemente, ele nunca é culpado pelos próprios atos.
Ouvi o suspiro dela do outro lado da linha. Enquanto ela falava, tentei entender aonde ela estava, mas não conseguia. Não dava para ver muita coisa na tela, a não ser ela.
— Pode tentar não fazer pré-julgamentos? — O tom de voz dela era suave, disfarçando uma bronca pequena. Eu nunca podia ousar criticar o meu irmão por pouco que fosse, não importava o que ele aprontasse. — Ele está preso. Precisa pagar a fiança.
— Que tipo de mal-entendido foi esse? — questionei, brava.
Fechei a minha mão livre, como se precisasse me conter um pouco.
Mais do que odiar o que meu irmão sempre aprontava, eu odiava me irritar com vovó por sempre estar pronta para defendê-lo. Até daquilo.
Por mais que eu soubesse o quanto ela também me amava, jamais me senti enxergada por ela como ela enxerga ele. Nunca dei trabalho, ela nunca precisou se preocupar tanto comigo e, por isso, aceitou que eu sempre estava bem. Santiago é quem sempre precisou dela.
— Por favor, , é o meu neto — ela respondeu, a voz mais frágil. — Não posso deixá-lo passar a noite nesse lugar… horrível.
Algo em mim se despedaçou um pouquinho.
Não tinha chance de vencer qualquer discussão ou batalha, então fiz o que sempre fazia: eu cedi.
— Me manda sua localização como eu te ensinei, tá bom? — pedi.
Encerrei a ligação e soltei um suspiro tão longo que olhou para mim. Quando guardei o celular de volta no bolso do jaleco, percebi que minhas mãos estavam tremendo. Meus olhos arderam um pouco, a vontade de chorar surgindo no pior momento do mundo.
— Ei. — A voz dele soou gentil demais, parando na minha frente outra vez. — Tudo bem?
Eu olhei para ele.
Imitando as minhas mãos, meus lábios também tremeram. Eu não soube decifrar a expressão dele, não o conhecia o suficiente para isso, mas fui surpreendida quando ele tomou a atitude de segurar minhas mãos com as suas, apertando os meus dedos de um jeito delicado e gentil, me dando uma coisa para focar.
— Eu tô aqui — ele disse. — Eu tô bem aqui com você.
Eu não chorei, o que considerei uma vitória. Seria bem humilhante me desfazer daquela forma bem na frente dele e eu não queria ter mais uma coisa para me assombrar quando eu colocasse a cabeça no travesseiro à noite e tentasse dormir. Eu foquei em seu rosto, nele olhando para mim, sentindo suas mãos firmemente contra as minhas.
E ele não desviava os olhos do meu rosto nem mesmo por um segundo.
Eu mal percebia estar apertando meus dedos contra os seus, uma sensação física que me impedia de me perder nos meus próprios pensamentos, afogando aquela sensação infeliz que se impregnava em mim toda vez que vovó se doava demais ao Santiago e eu era obrigada a andar direto na direção da mesma teia que ela estava se prendendo, sem conseguir se soltar.
Não sei quanto tempo o silêncio durou ou me aproveitei daquele toque físico, suas mãos quase quentes contra a minha, mas o toque de mensagem do meu celular quebrou a bolha que nos envolvia. Eu engoli a seco e soltei minhas mãos das dele, puxando o celular de volta, vendo que vovó mandou a localização.
— Vallbona? — murmurei em voz alta e verifiquei o horário.
— É um pouco longe daqui.
A voz dele me fez olhá-lo. Devo ter mudado totalmente a minha expressão, porque ele completou logo em seguida:
— Eu posso te levar. Se quiser.
Cogitei a opção.
Para alguém que estava sempre fugindo dos jogadores e se contentando com a invisibilidade para não chamar muita atenção, eu sequer deveria estar cogitando aquela sugestão. O horário indicava que o metrô não estaria tão vazio quanto eu gostaria; um dos motivos de ter me mudado para perto do CT foi justamente o fato de não precisar pegar transportes públicos, a multidão me deixava um pouco nervosa. Além do fato de que eu não chegaria tão rápido se fosse de metrô.
Mas eu poderia pegar um táxi.
— Obrigada, mas não precisa — decidi rejeitar sua oferta. — Eu chamo um carro.
Guardei o celular de volta e procurei a minha bolsa, tirando o jaleco. Pendurei-o em cima da cadeira, decidindo deixar toda aquela papelada para depois.
— Eu insisto — ele voltou a dizer. — Por favor, é o mínimo que eu posso fazer para compensar o desastre de mais cedo.
— Foi um acidente.
— Ainda assim, eu insisto.
Havia algumas batalhas que você simplesmente se rendia e aceitava a derrota. Se qualquer pessoa visse com aquela expressão, insistindo em te dar uma carona, também perderia a batalha, como eu. De alguma forma, me vi assentindo, concordando em silêncio, o que o fez aumentar o sorriso levemente, a vitória brilhando sutilmente em seus olhos.
Antes que eu pensasse em desistir, agarrei o pote da torta de framboesa que ele me presenteou e segui-o para fora da sala.




Continua...


nota estrelada da autora: Eu tô fazendo uma loucura: criando um multiverso com alguns jogadores do barcelona, o que significa que você pode encontrar os personagens daqui em outras histórias que acabou entrando na expedição também. A Catalina, por exemplo, é a protagonista de don't blame me, que já foi publicada bem antes da expedição acontecer. Pretendo, depois, fazer uma lista e uma linha do tempo para explicar melhor quais são as fanfics que se passam nesse "multiverso." De início, só explico nessa breve nota que 15 Minutos é uma história sobre o Ferran, o melhor amigo da Catalina, que aparece em don't blame me. A leitura não é obrigatória para entendimento da história, no entanto. De qualquer forma, espero que esteja se divertindo com as leituras. Eu, com certeza, me divirto escrevendo.
Beijão estrelado e até a próxima att! 💫

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