Eu tinha me atrasado de propósito daquela vez. A versão irritada de tinha ficado gravada em minha mente durante a aula da manhã inteira. Versão essa que esperava despertar.
Minhas passadas pelo salão eram amortecidas pelo carpete; sendo assim, ela não percebeu minha aproximação. Estava sentada em uma das mesas redondas, inúmeros livros abertos — nada parecia quebrar sua atenção. Uma das primeiras coisas que percebi foi que a biblioteca municipal mudou bastante desde a última vez que a frequentei. O prédio estava reformulado na parte interna, com cores e curvas, o amarelo dominando no carpete e a madeira ripada no teto, em contraste com a fachada bruta e rígida de concreto. Mas ainda possuía vários níveis — divididos entre andares de estantes e espaços para estudos —, com um pé direito alto e uma escultura de metal horrível ao meio.
Eu precisei suplicar ao treinador para que me permitisse sair mais cedo, mas, quando mencionei que era para me preparar para as finais, ele aceitou sem muitas reclamações. Não importava quanto me esforçasse para entender física, não surtia efeito. Queria muito saber o milagre que faria para colocar aquela matéria besta dentro do meu cérebro.
O problema mesmo era ter que dividir algumas tardes com uma pessoa que não parecia confortável comigo.
Depois dos treinos, enquanto meus amigos estariam em encontros, eu teria os meus com o próprio ajudante do diabo — esperando apenas o deslize necessário para me atacar com um lápis de ponta afiada.
Até que, nessa versão, o capeta era bonitinho.
Era um atraso de quinze minutos. Fiquei do lado de fora, esperando-a dar sinal de vida e, para surpresa de ninguém, apareceu pontualmente às quatro horas. Pergunto-me o que fazia quando se atrasou para a aula há três dias. Perder o horário devia ser um pesadelo horrível para aquela garota.
Ela nem me olhou quando sentei à mesa, de frente para ela, e constatou o que já sabia:
— Está atrasado.
— Tenho relógio — devolvi, mordendo a bochecha para segurar o sorriso.
Para ser sincero, nunca reparara tanto na garota em minha frente em dias normais. Só que, depois daquela confusão, irritá-la estava começando a ser uma das coisas preferidas do meu dia.
— Comece a usá-lo, então — retrucou, finalmente desviando o olhar da página para mim, ajeitando os óculos de grau que escorregavam. — Não vamos mais perder tempo, tenho outros assuntos para tratar depois daqui. Vamos começar pela energia cinética.
Ela empurrou um dos livros em minha direção. A mesa redonda era grande, então tive que me curvar para conseguir ler alguma coisa na página.
— A energia cinética é a energia associada ao movimento dos corpos. Qualquer corpo em movimento é capaz de realizar trabalho, portanto… — Ela continuava falando sobre as leis da física e, a única coisa que eu conseguia reparar, era nos malditos cachos rebeldes que prendeu atrás da orelha em algum momento da explicação. Ou como ficava muito mais bonita de óculos de grau, versão muito pouco via. Ou como os dentes dela eram perfeitamente alinhados, escondidos entre lábios carnudos — que os umedeciam por estar falando demais.
— , você está prestando atenção?
Só percebi que falava comigo quando ouvi meu próprio nome.
Limpei a garganta, ajeitando-me na cadeira novamente. Tentando recuperar um pouco da minha dignidade.
— Coração, não me leve a mal, ok? Mas, se eu aprendesse física só dessa forma, acho que não estaria em maus lençóis como estou agora — apelei, depois de ter sido pego.
Ela suspirou, puxando o livro para si, e logo depois encarou-me enquanto batia o lápis que segurava na boca. Parecia criar um raciocínio e não ousei atrapalhar mais uma vez.
— Tem como você sentar mais perto? — pediu tão baixo que não acreditei no que ouvi.
— Como?
— Você está muito longe e desajeitado aí — falou. — Não vou te morder!
Não entendi em que aquilo iria melhorar o meu entendimento de física, entretanto, concordei, levantando-me para sentar ao seu lado. ajeitou-se ainda mais na cadeira, ficando com a coluna ereta. Puxou uma folha em branco e começou a desenhar.
Um formato parecido com coador de café, distribuindo quatro retângulos pequenos, e só quando rabiscou um círculo no meio, entendi que estava referenciando a um campo de beisebol.
— Imagina que você está aqui, na segunda base — colocou uma bolinha dentro do retângulo que estava no meio, mais para cima. — E você precisa chegar à terceira base, mas está tão rápido que tem medo de não conseguir parar a tempo — desenhou uma seta até o retângulo da esquerda, um pouco mais embaixo. — Então, desliza pela terra para frear o movimento.
Isso é energia cinética. Uma energia que existe porque você está se movimentando, entendeu?
Colocando daquela forma, meus neurônios pareceram se interligar depois de tanto tempo tentando. Conseguia visualizar cada movimento em campo, a corrida entre as bases que fazia toda semana — uma prova real da física que nunca havia parado para conectar.
— Colocando assim, não parece tão difícil — comentei, e ela sorriu, sem tirar o olhar dos livros. Acreditei que estivesse feliz por me fazer entender.
Desenhou uma fórmula embaixo e explicou: — Quanto mais pesado você for, maior vai ser essa energia. Agora vamos fazer algumas questões.
Existia algum anjo endemoniado que poderia ter sido enviado por Deus? Porque, depois de resolver as atividades que tinha selecionado, Física passou a ser um pouco mais entendível. Não quis cantar vitória antes do tempo, já que sabia que a matéria podia ser traiçoeira, mas fiquei satisfeito por ter acertado as questões em diferentes níveis.
Passamos tanto tempo imersos na cinética que só percebi a hora passar quando ela deu um pulo da cadeira, arrumando as coisas na bolsa e fechando os livros.
— Vou organizar os próximos conteúdos e te aviso, mas seria interessante se você repassasse em casa também… — comentava, enfiando os lápis em um estojo verde abarrotado de coisas.
Fiquei desconcertado com a mudança brusca e a rapidez com que organizava as coisas.
— Para que tanta pressa?
— Eu preciso seguir meu cronograma à risca. Só assim para conseguir sucesso em todas as atividades que atribui para o dia.
— E vai morrer caso não cumpra?
Ela suspirou, irritada, revirando os olhos em seguida. Ignorou meu comentário, conferindo a hora no celular antes de empilhar os livros da biblioteca.
— Posso perguntar para onde precisa ir?
— Você consegue deixar esses livros no balcão? O pessoal coloca na estante depois.
Ignorou-me novamente, deixando-me indignado. Tento outra abordagem:
— Você quer carona? Posso te deixar no destino.
Ela pareceu pensar, mas negou com a cabeça.
— É aqui próximo, vou andando.
E, simples assim, começou a andar em direção à saída.
Alguma coisa no seu comportamento me fez ficar com uma pulga atrás da orelha, como se ela estivesse prestes a aprontar alguma coisa, mas não queria me fazer de cúmplice. Sendo assim, fiz o que pediu o mais rápido que consegui, seguindo seus passos em uma meia corrida. Cheguei à porta da biblioteca a tempo de vê-la dobrando a esquina da direita. Seria tão ruim assim segui-la?
Antes mesmo de raciocinar direito, já estava dentro do carro, dando partida para entender onde diabos precisa ir.
Quase não acreditei quando a vi entrando no Daisy's. Quão fora da casinha tem que ser para interromper o encontro da sua amiga?
Desci do carro, pronto para brigar com ela, imaginando as piores coisas que diria. Ao passo em que tentava racionalizar meu pensamento, considerei a possibilidade de Camille ter perdido por socorro — então ensaiei as atrocidades que diria ao meu amigo.
Espiei com cautela pelas grandes janelas da lanchonete e não vi nenhum sinal do casal em questão. Demorei um pouco para localizar a meliante também — estava sentada em uma mesa redonda mais aos fundos, com assento estofado, folheando o cardápio.
Será que ela tinha um date?
Senti-me estúpido. Não havia considerado essa opção.
Ela me contaria se fosse um encontro? Com quem seria? Era alguém do colégio? Um jogador? Alguém que estava no vestiário naquele dia?
Aquela lanchonete era a preferida dos alunos, ponto de encontros românticos e entre amigos. Eu conhecia a lanchonete de cor — as mesas redondas na mesma posição, as dos cantos tinham bancos estofados, ainda circulares. As cores predominantes eram azul e rosa, misturadas com letreiros neon.
Aproveitei a zona de guerra tranquila para adentrar. Meu plano era fingir ter passado lá naturalmente, falaria com ela e ficaria em outra mesa para descobrir quem ela encontraria. segurava o icônico cardápio deles; era grande e pesado, com os pratos gravados em madeira, e costumava ocupar a visão de quem o segurava. Por isso, aproximei-me devagar, tentando fingir naturalidade — como uma onça observando uma presa —, deslizando no assento.
— Eu falei que podia te dar carona. — Tive que segurar o riso quando ela soltou o cardápio de vez, pulando de susto.
Estreitou os olhos em minha direção.
— Você está me seguindo? Ou melhor, está ficando maluco da cabeça?
— Venho sempre no Daisy's — justifiquei. Ela revirou os olhos.
— Claro que vem. Agora já pode ir!
— Que isso?! Estou com muita fome. Física foi intensa, sabe?
O som que soltou era quase desesperado, passando as mãos no rosto repetidamente.
— Droga! Você vai estragar o meu disfarce — sussurrou, sendo agora minha vez de estreitar os olhos a partir daquela pequena confissão.
— O que você realmente está fazendo aqui?
Antes que respondesse, fui puxado com brutalidade em direção ao banco. Sua mão agarrando a manga da minha camisa, puxando-me mais para perto. Desequilibrei com o movimento, indo com o ombro direito para o estofado azul veludo.
— Está maluca?!
— Calado, vão te ver! — sussurrou novamente.
Mesmo indignado com a maneira com que me pegou desprevenido, recuperei minha dignidade sentando-me ereto novamente. Agora, bem próximo de , ela abriu o cardápio de maneira que escondesse nós dois do resto do restaurante.
— De quem você está se escondendo, hein?
Ela suspirou, ignorando minha pergunta, bisbilhotando por cima das páginas. Repeti seu movimento e então, assim como na biblioteca, meus neurônios se juntaram novamente.
Em uma mesa mais perto da entrada, estavam Darius e Camille.
De todas as possibilidades que pensei, nenhuma delas era espionar o encontro dos nossos amigos.
— Vocês desejam alguma coisa? — A garçonete nos interrompeu. A cabeça da mulher inclinada em nossa direção, observando o péssimo esconderijo.
negou, mas eu sabia exatamente o que pedir.
— Um darling deadly — A garota ao meu lado me lançou um olhar tal qual um fuzil pronto para disparar. Dispensei a garçonete antes de completar: — Se vamos nos disfarçar, tem que ser direito.
— Se você não estivesse aqui, não haveria nós — devolveu.
— Ai esse encontro não teria graça.
— Isso não é um encontro — disse entre os dentes.
Ignorei seu tom de ameaça.
— Agora me fala: por quê?
Assisti passar a mão no rosto várias vezes, antes de respirar fundo. Parecia estar em uma briga interna entre me contar a verdade ou sair correndo sem confessar.
Apoiou o cotovelo na mesa antes de, finalmente, me responder: — Queria ter certeza de que tudo daria certo.
Franzi o cenho, não entendendo onde queria chegar.
— Camille não contaria como foi?
— Sim, mas…
— Você acha que ela mentiria?
— Eu queria ver com meus próprios olhos, tá bom?! Não gosto quando as coisas fogem do controle e não confio em jogadores.
Coloquei a mão no peito, fingindo estar ofendido.
— Eu sei que a reputação dos esportistas não é das melhores, mas não somos tão ruins assim. Eu mesmo sou ótimo! — cutuquei-a na barriga com o indicador. Ela revirou os olhos, mas recebi um sorrisinho de lado, brigando para se alargar. Talvez aquela fosse minha versão favorita.
Fomos interrompidos mais uma vez com a chegada do meu pedido. ficou horrorizada quando descobriu o que era um darling deadly, ou melhor, quando encarou um milkshake de morango de um litro, com bastante chantilly no topo, bem na nossa frente. A garçonete entregou os dois canudos vermelhos e se retirou.
ainda estava boquiaberta enquanto eu colocava ambos os canudos na bebida, rindo do seu espanto.
— Que foi? Precisamos nos alimentar enquanto estamos de tocaia. — Dei os ombros, inclinando-me na mesa para tomar meu primeiro gole. Eu sempre quis dividir aquela bebida com alguém e finalmente estava acontecendo. — Você nunca veio aqui?
— Evito o máximo que consigo. Já não basta sobreviver com vocês durante o horário de aula.
Ela hesitou em se aproximar da bebida no início, dando o braço a torcer quando o som do ronco da sua barriga ficou um pouco mais alto.
— Genuinamente acho que você odeia estudar lá.
Negou com a cabeça veementemente.
— Não é isso! É que gosto de fazer as coisas sem ser notada, sabe?
— E como você está se saindo? — perguntei baixinho por conta da proximidade que estávamos, ao nos abaixarmos ao mesmo tempo para o milkshake.
— Ótima, até você entrar em minha órbita — respondeu no mesmo tom.
Nossos rostos estavam muito próximos; sentia sua respiração se misturar com o ar gelado do darling deadly. Seus olhos possuíam um brilho hipnotizante e, mesmo com a proximidade, ela não desviou nem por um segundo. Eu gostava de como nunca recuava, disposta a um desafio.
Ela tinha um cheiro de amêndoas, um aroma adocicado que me aconchegava. Era como se aquele fosse o lugar certo em que deveria estar — em um pequeno espaço de tempo congelado.
Queria dizer que não me importava por ter invadido a sua órbita, mas nunca admitiria isso em voz alta.
Havia um cacho solto em seu rosto e, por impulso, levantei o braço para colocá-lo atrás da orelha. Arrependi-me no mesmo instante, já que pareceu ser o que a despertou do transe. afastou-se bruscamente, conferindo a hora no celular, voltando a atenção para o casal que deveríamos estar observando.
— Você sabe que o tempo vai passar igual se você não estiver olhando, né?
Desdenhou de mim, conferindo o horário de novo.
— Vamos fazer assim… — Peguei o celular e coloquei no bolso, ignorando seus protestos. — Qual seu próximo compromisso?
— Daqui a 40 minutos.
— Então, daqui a quarenta minutos, eu vou te avisar e vou te deixar onde tiver que ir, ok? Agora você vai aproveitar o momento como se não tivesse nada mais para fazer.
Ainda contrariada, ela concordou com a cabeça, voltando a atenção para o milkshake.
Relaxei no banco, tendo a visão perfeita entre o casal no meu campo de visão e deliciando-se com a bebida.
— Mal te pergunte… Como pretende sair sem que eles te vejam?
— É por isso que vim mais cedo… — explica como se fosse óbvio, o que me irrita. — Essa mesa que estamos é perfeita. Próximo da cozinha e da saída dos fundos, ou seja, recebemos a comida rápido e ainda podemos sair sem sermos vistos.
— E você nunca veio aqui? — Levantei a sobrancelha, desconfiado.
Dei os ombros.
— Só não sou uma frequentadora assídua — defendeu-se.
Passar o tempo com aquela garota não foi tão ruim como pensei. Imaginei como seria se tivéssemos ficado horas trancados cumprindo a detenção. Ao mesmo tempo, fiquei satisfeito com a ideia de driblar as ordens do Moseby, ou melhor, que tenha odiado essa ideia a ponto de me obrigar a passar mais tempo sem sua companhia, mesmo sem ter percebido.
Fiz o que prometi: assim que o horário se aproximou, paguei a conta e saímos pela porta do fundo — saída essa que, mesmo anos frequentando aquele lugar, nunca tinha reparado.
Depois de deixar em casa, fui direto para a minha.
Jogado na cama, tentei repassar mentalmente tudo que aconteceu naquela tarde, o que estranhamente me deu vontade para estudar física. Sentei-me na escrivaninha e comecei a relembrar todos os ensinamentos que tinha comentado, parando só algumas horas, quando recebi uma mensagem do Darius escrita: "Tenho novidades."
E aquilo certamente não podia ser algo bom.