Última Atualização: 19/06/2026⏳
— Vou deixá-la entrar só dessa vez, senhorita . — Tentei sorrir quando o Sr. Moseby me deu uma bronca em frente à classe de física inteira.
Queria dizer que a culpa do atraso eram assuntos do próprio colégio, mas sabia que um homem tão pragmático quanto ele nunca entenderia algo sobre arte. Em vez disso, fui em direção à minha cadeira de sempre, ao lado direito da sala, perto da janela, rodeada pelas minhas três melhores amigas: Taylor, Camille e Zoe.
— Desculpa o atraso, Sr. Moseby. — Escutei uma voz ofegante assim que sentei, virando-me para a figura que acabara de entrar.
— Mas será possível que vocês esqueceram a existência do relógio hoje?! — Observei o rosto quase simpático do professor virar uma carranca assim que encarou . — Não vou mais tolerar isso! Aliás…
Era possível ver as engrenagens no cérebro dele se moverem rapidamente ao largar a posição em frente ao quadro para encarar a turma inteira.
Não tem como vir algo bom disso.
— Para deixar claro o quanto prezo pela pontualidade: e ficarão em detenção hoje.
— Mas, senhor… — começamos, em uníssono, mas fomos interrompidos quando ele levantou o dedo.
— Não quero ouvir reclamações, ou serei obrigado a aumentar mais alguns dias. Garoto, vá se sentar.
O sorriso vitorioso que Sr. Moseby exibiu, fez-me querer xingá-lo na frente de todos os colegas. Em vez disso, observei a movimentação de até a cadeira, do outro lado da sala, desejando que ele tropeçasse e caísse antes mesmo de conseguir se sentar.
Eu não estaria naquela situação se ele não fosse incapaz de chegar no horário. Agora teria que adiar todos os meus compromissos depois da aula para dividir mais uma hora com um jogador de beisebol — o pior pesadelo possível.
E, como se não bastasse, horas depois eu estava sentada no refeitório do colégio, tentando ignorar a conversa elétrica das minhas amigas sobre quererem estar no meu lugar.
Duvidava.
Ninguém ia querer ficar em detenção.
Existiam muitas coisas que éramos obrigadas a superar se quiséssemos manter uma boa amizade — e, no caso da nossa, com certeza era a paixão avassaladora que elas tinham por beisebol. Não as culpava. Estávamos em Atlanta; naquela cidade, era impossível não ter visto um jogo sequer. A cidade inteira praticamente parava quando o Atlanta Braves entrava em campo.
Eu, por outro lado, tentava rever minha lista de afazeres, anotando todas as tarefas que precisaria delegar para cumprir o horário extra.
Suspirei, indignada com o meu destino.
— Se eu não for pro baile por causa de um jogador de beisebol, juro que me mato.
— Você disse isso no ano passado também, Camille — rebati, riscando mais um item da lista do comitê. A sensação de completar cada ponto do checklist me deixava radiante. Pelo menos isso, aquela detenção ridícula não iria tirar de mim.
— E continua viva, o que é uma pena — completou Taylor, dando uma garfada no próprio almoço.
— Mas esse é o nosso último ano, tem que ser o melhor baile de todos. — Ela brincava com os cachos, enrolando-os no dedo.
— Graças a mim, que tenho mil coisas pra resolver e ainda sou obrigada a ouvir vocês só falarem de jogador.
— E o seu par para o baile? Já pensou nisso? — O sorriso diabólico de Taylor era irritante. Na verdade, eu sabia que ela estava fazendo de propósito.
— Não tenho tempo pra isso agora, quem sabe mais pra frente. — Dei de ombros, antes de começar a almoçar. — Aliás, romance dá dor de cabeça, ainda mais com jogador de beisebol.
— Já que você gosta tanto de organizar, podia usar seus superpoderes de líder do comitê e dar uma ajudinha, né?
— Que tipo de ajuda, Zoe? — Encarei-a, confusa, e percebi a malícia quando ela lambeu os lábios. Conhecia aquele movimento. Nada de bom vinha depois dele.
— Tipo… fazer os meninos chamarem a gente? — ela ergueu uma sobrancelha.
— Vocês querem que eu seja… o cupido de vocês?
— Só até o fim do baile — disse Zoe.
— Só até o pedido acontecer — continuou Taylor.
— Só até você parar de ser tão ranzinza — completou Camille.
— Ok, então quer dizer que agora, além de organizar o baile, eu tenho que organizar a vida amorosa de vocês também?
— Não é bem amorosa… Pode dar só um empurrãozinho.
Dei uma risada forçada, negando com a cabeça. Elas não podiam estar falando sério.
— Eu até cogitaria isso — pensei, sabendo muito bem que não cogitaria — se não tivesse que passar mais uma hora presa numa sala por conta de uma ideia genial sobre o baile, que me fez me atrasar.
— Não se sinta mal, . Eu sei que ele está bem ruim em física, isso parece uma espécie de vingança do Sr. Moseby — Zoe sussurrou a última parte, como se estivesse contando a maior fofoca de todos os tempos. Revirei os olhos, mastigando devagar. Eu não precisava de consolo.
— Ouvi dizer que o treinador queria que ele melhorasse a nota, ou seria deixado de fora das finais.
— Pra isso, vai ter que aprender a chegar no horário. — Eu queria esmagar o crânio dele do mesmo jeito que fazia com as batatinhas cozidas.
— E ele precisa melhorar, é o melhor rebatedor que temos.
Eu já estava pronta para soltar mais alguma acidez quando ouvi meu nome sendo anunciado nos alto-falantes do colégio. Recolhi minha bagunça às pressas e me dirigi à sala do orientador educacional.
Nada no mundo teria me preparado para o que ouvi dentro daquele cubículo de 9 m² que ele chamava de sala. Cada palavra dita por aquele homem jogava ainda mais lenha na minha raiva — algo que só percebi quando amassei o bloco de notas em minha mão.
— Eu não tenho tempo para isso, Sr. Moseby. — Engoli seco, tentando controlar minhas emoções, quando na verdade queria era gritar. — Com todos os preparativos para o baile, a detenção…
— Baile, baile e baile… — interrompeu-me, aproximando-se ainda mais da mesa, parecendo impaciente. Daquela forma, ele parecia muito mais intimidador.
Quentin Moseby não era um homem alto. Estatura média, cabelo começando a ficar grisalho e exibia uma barriga de chopp por meio dos ternos bem passados que usava. Então não era uma figura imponente, mesmo que tentasse muito. O que intimidava mesmo era seu currículo.
Ele tinha se formado naquele mesmo colégio, e com honras — ele gostava de se gabar sobre isso —, por isso tinha sido a pessoa ideal que escolhi para me ajudar com a bolsa da faculdade. Por ter doutorado, tinha contatos e prestígio dentro do Instituto de Tecnologia da Geórgia, mas ele não entendia metade das coisas que eu gostava de fazer, então era obrigada a ceder certos caprichos seus para que não classificasse minha paixão por outras coisas como "perda de tempo".
— Srta. , a detenção constará no histórico escolar e você é uma menina superinteligente. Por isso, concordei com o que me sugeriu. Acho que será proveitoso para ambos.
Ele devia estar maluco para concordar com qualquer coisa que aquele garoto dizia, ele sequer era um aluno descente. E olha que Quentin também classificava beisebol como perca de tempo.
— Veja como uma oportunidade. Reorganizar seus horários será melhor do que ter algum histórico ruim no seu currículo, não acha?
Concordei contra minha vontade, não acreditava que aquilo seria um problema real. Quer dizer, uma detenção por atraso não faria muita diferença, mas era quase que uma regra não discutir com orientador.
Antes eu tivesse escolhido a professora de artes.
Assim que fui liberada, atravessei o colégio como um furacão para o lugar que não queria estar: no campo de beisebol. Ou melhor, para o vestiário do campo de beisebol.
Gostaria de registrar que, em condições normais, isso nunca teria acontecido.
Ou teria, não sei.
Assim que entrei no ambiente, encontrei cerca de seis garotos conversando, e fui recebida por uma série de assobios enquanto procurava meu alvo principal. Encontrei-o de frente para mim, próximo ao armário, falando com outro jogador. Ignorei todos os chiados ao redor, determinada a estrangular aquele cretino, empurrando-o pelo peito e fazendo-o bater as costas no armário atrás de si.
As mãos do garoto seguraram o nó da toalha com rapidez, e só então notei como ele estava vestido — ou a falta de vestimenta. Tentei não olhar para baixo, mantendo os olhos fixos nos dele. Seus cachos curtos estavam molhados, escorrendo gotículas de água que se espalhavam pelo corpo inteiro.
Que condenação.
— Está maluca?
— Qualquer pessoa que não tivesse o sobrenome deve sair imediatamente — disse em voz alta, sem quebrar o contato visual com o rapaz à minha frente. Notei seus olhos arregalados se transformarem em um sorriso largo, e a vontade de amassá-lo como batatinhas me invadiu novamente.
Percebi os passos apressados e, mesmo entre piadinhas, os outros foram saindo.
— Se queria me ver pelado, era só dizer, .
— Irônico esse comentário vindo da pessoa que implorou pra ter mais tempo comigo! Se não fosse por você, eu não estaria nem em detenção. — Soltei-o, tomando consciência da proximidade em que estávamos, começando a andar de um lado para o outro.
— Mas, justamente por mim, agora não está mais. Então, a que devo a sua presença? — Ele se virou para pegar alguma peça de roupa no armário, e eu dei graças a Deus, tentando não encará-lo demais.
— Você só se esqueceu que vou ter que bancar sua professora particular!
Eu sabia que minha voz estava alterada naquele ponto, mas não poderia me importar menos. Como uma boa aluna, aprendi rapidamente que estar no mesmo ambiente que elevava meus níveis de estresse em segundos.
— Olha, você não precisa me ajudar com nada, ok? Foi só um acordo que consegui fazer com o Sr. Moseby para não perder os treinos. Vou estudar em casa para aumentar a nota e você tem todo tempo do mundo para fazer o que quiser.
— Se você conseguisse aumentar a nota sozinho, já teria feito isso.
— Oush… — A maneira dramática como ele levou a mão ao peito, como se tivesse levado um tiro, denunciou o quão ofendido estava. Ainda assim, levantei a mão, interrompendo-o.
— E o Sr. Moseby era quem vai escrever minha carta de recomendação para a bolsa da faculdade, então nós temos um problema. — Respirei fundo, voltando a andar em círculos.
Lembrei da conversa com as meninas no almoço. Era loucura cogitar aquilo, mas, se eu seria obrigada a conviver com aquele garoto por mais algumas horas semanais e ajudá-lo a se manter no time, ele teria que fazer alguma coisa por mim. Eu sabia o quê, claro — resolver problemas era minha especialidade —, mas havia o potencial de isso dar errado.
Encarei-o novamente, calculando minhas próximas palavras.
— Tenho uma proposta para fazer isso funcionar.
— Não vou te dar lições para dar em cima de alguém. — Ele voltou a mexer em algo no armário, de costa pra mim. Meu deus, perderia meu réu primário fácil.
— Como é que é?!
— Tipo nos filmes, sabe?
— Cala a boca! — esbrabejei. Só que, quando virou em minha direção novamente, notei o sorriso que exibia. É claro que aquele canalha estava se divertindo com toda a situação. — Preciso que me ajude a juntar alguns jogadores como minhas amigas.
— Meu deus! Isso é muito pior. — passou as mãos pelo rosto, rapidamente, parecendo desacreditado no que ouviu.
Eu não estava crendo nas palavras que proferi.
— É pegar ou largar! Sei que se não recuperar sua nota vai ter que sair do time nos próximos jogos.
— E a solução é ter que bancar o casamenteiro?
— Nós vamos. Maluca vou estar se deixar você cuidar disso sozinho. Estamos de acordo?
Ele revirou os olhos, ignorando a provocação, aproximando-se para pegar na mão que estendi.
— Estamos. Agora pode sair ou vou ter que abrir essa toalha na sua frente?
— Como assim ela tirou todos os jogadores do vestiário? — Darius perguntou assim que nos encontramos no refeitório do colégio.
No outro dia, a invasão de ao vestiário masculino já estava sendo compartilhada por todos os canais de comunicação existentes. Para algumas meninas, já era quase como uma lenda por “ter expulsado todos os jogadores de um lugar em que ela não deveria estar”. Aquele colégio me cansava às vezes.
— O que foi que aconteceu lá dentro, hein? — Kwame me cutucou por debaixo da mesa, abrindo o sorriso malicioso. Revirei os olhos como resposta.
— Ela só queria tirar satisfação por conta da detenção, não teve nada demais. — Dei os ombros, focando em terminar meu almoço.
— E precisava mesmo entrar no vestiário para isso? Ela poderia ter esperado do lado de fora… — Eric estava com olhos semicerrados, como se desconfiasse da minha palavra. Queria rir, mas me controlei.
— Eu ouvi dizer que você ainda estava de toalha… — Darius comentou, testando minha paciência.
Não me importava tanto com os boatos sobre isso. Todos sabiam que não tinha acontecido nada demais; se ela passou cinco minutos lá dentro, foi muito. Apesar de Darius e Eric não estarem mais por lá, Eric viu exatamente o momento em que entrou e saiu. Não tinha por que fingirem estar especulando alguma coisa a mais.
— Acho que é só uma atitude do furacão . Não me parece muito paciente — falei, esperando que encerrassem o assunto. Maldito fosse um horário de almoço tão logo.
— Uma pena, vocês até que ficariam bonitinhos juntos. — Quase cuspi meu suco quando escutei aquilo. Não consigo imaginar como estar no mesmo espaço que ela, sem que tentasse cortar minha cabeça fora.
— Se acha tão bonita, por que não a convida para o baile, Darius? — devolvi, começando a me irritar com aquela conversa.
Ele deu os ombros e passou a encarar uma das mesas do refeitório, especificamente uma das mais perto da saída, na qual estavam e as amigas com quem andava sempre. Elas pareciam conversar sobre algo que as deixou eufóricas.
— Ela eu deixo para você, entretanto… — Ele levantou o dedo em minha direção. — Eu acho as amigas dela muito bonitas também.
Disso eu já sabia.
Quando comentou sobre o plano de fazer os jogadores convidá-las para o baile, aceitei porque sabia que essa parte seria fácil. Não que os três morressem de amores pelas garotas — quase todas as garotas do colégio dariam para fazer funcionar o plano —, mas as três eram bastante atraentes e eles já tinham comentado sobre isso uma hora ou outra.
Convencê-los a convidá-las para o baile tão em cima da hora seria um pequeno empecilho. Essas festas já não eram uma das coisas mais importantes como eram no passado, pelo menos não entre os garotos solteiros, por isso ligávamos pouco para a necessidade de irmos acompanhados, mas ter alguém do nosso lado em um evento assim até que seria muito bem-vindo. Até porque, mesmo ligando pouco, ainda era O evento anual.
Por isso passei a noite martelando algo para sugerir, que pelo menos tentassem se aproximar.
O maior problema mesmo seria ela me fazer entender física. E eu precisava muito aumentar essa nota; o treinador estava pegando no meu pé por causa dos estaduais; o colégio só liberava alunos que tinham notas boas.
Relaxe a postura na cadeira, estudando-as discretamente por cima dos ombros de Kwame.
— A Camille parece ser bastante engraçada, por que não a convida para sair? — sugeri.
Já tinha feito todas as combinações na minha mente, após passar algumas horas investigando o Instagram das três. Precisava entender qual delas combinava com meus amigos. E Camille costumava repostar trends engraçadinhas, coisas que combinavam com o humor de Darius, por isso decretei o match perfeito para a primeira tentativa.
— Não sei não, cara… — respondeu-me, revezando o olhar entre elas e mim.
— Se der errado, é só procurar outra garota depois.
— Posso pensar sobre isso…
— E você, vai convidar a , então? — Kwame precisava trazer o assunto de novo.
Fechei a cara. Isso jamais aconteceria.
— Não estamos fazendo acordos. Se vocês acham que são boas pretendentes, acredito que o baile é uma oportunidade para começar.
Falando daquele jeito, parecia estar bolando um plano de casamento no alto da aristocracia britânica.
— E por que ficou tão interessado nisso de marcar encontro agora? — Eric me lançou mais um dos seus olhares desconfiados. — Você nem liga para essas coisas.
— Vocês que começaram com esse assunto, só estou comentando também.
Quando o meu lado do acordo começou a ganhar forma, precisei ter certeza de que o outro lado iria andar também. Sendo assim, no momento em que o sino soou para encerrar as aulas, apressei-me para encontrar .
Nós fazíamos muitas poucas aulas juntos, a maioria sendo exatas, então não tinha certeza de onde encontrá-la, mas arrisquei a sorte no departamento de artes. Não queria afirmar que era previsível, mas, assim que pisei daquele lado do colégio, avistei o movimento dos cachos enquanto andava rapidamente.
Digitava alguma coisa no celular quando a interceptei no meio do corredor vazio. Corri para ficar em sua frente e, como não reparou, acabou esbarrando no meu peitoral, quase derrubando o aparelho. Notei o pedido de desculpas ficar preso em sua garganta quando seus belíssimos olhos castanhos se encontraram com os meus, identificando quem era a pessoa que atrapalhava o percurso.
— Você perdeu a noção? — Dei os ombros como resposta e ri assim que as sobrancelhas femininas se uniram.
irritada era uma versão engraçadinha.
— Precisava falar com você — justifiquei.
— E não tem boca para chamar? — Cruzou os braços, impaciente. — O que você quer agora? Já não basta o colégio inteiro estar inventando mentiras?
— Veja só se não são as consequências dos seus próprios atos. — Cruzei os braços também, ficando na defensiva.
Eu só queria dar boas notícias.
— Nós temos um acordo, esqueceu? Vim compartilhar meus avanços.
— Você conhece isso aqui? — Balançou o aparelho em que digitava há pouco tempo. — É uma inovação tecnológica chamada celular; dá até pra mandar mensagem, sabia? Não precisa ficar vindo atrás de mim; já estão fofocando o suficiente.
Rolei os olhos. Não imaginava que fosse ser tão sensível a boatos ridículos.
— Prefiro falar pessoalmente.
— Então fala logo. — A fala entre os dentes daria arrepios se eu não estivesse achando graça.
— Darius vai chamar Camille para sair, então já podemos começar a estudar — fiz uma pausa dramática — Juntinhos.
— Você é patético. — Balançou a cabeça, tentando esconder o sorriso que brotara nos lábios.
— Podemos marcar na biblioteca?
— Quando ele a convidar para sair — enfatizou —, nós marcaremos as aulas. Assim saberei que está me falando a verdade.
Ergui uma das sobrancelhas. Ela falava sério?
Me lançou mais um dos sorrisinhos debochados, chamando minha atenção para aquela área carnuda e perigosa. Uma pequena vontade de dar uma mordidinha. Mas logo recobrei uma compostura.
— Você acha que eu mentiria?
— Não boto minha mão no fogo por nenhum atleta. — Aproximou-se um pouco mais, ainda de braços cruzados.
— Assim você até me insulta! — Coloquei a mão no peito, fazendo um teatrinho, segurando o riso quando ela revirou os olhos. Percebi que se segurava para não sorrir ao morder os lábios. — Não tenho muito tempo, .
— É por sua causa que estamos nessa posição, por isso faremos as coisas do meu jeito. — Aproximou-se ainda mais, estufando o peito, como se quisesse me chamar para um duelo.
Ela era alguns bons centímetros mais baixa, mas não desviava o olhar um segundo sequer. Aquela intimidade toda, mantendo acesa a lembrança do aroma adocicado do perfume que usava, estava se tornando arriscada. A pele encostada por cima da camisa, causando-me um formigamento estranho.
Ficou na ponta dos pés antes de dar a cartada final, sussurrando: — Então, , quando tiver alguma atualização do caso, entrarei em contato por mensagem, explicando quando será o nosso encontro. Até lá, esqueça que existo.
— Cuidado, alguém pode nos ver e vão acreditar ainda mais que expulsou todos os jogadores só para me ver nu — sussurrei de volta. Também sabia brincar.
Mas ela riu, empurrando-me pelo peito ao se afastar.
— Mas nem se você implorasse por isso — disse, contornando-me para seguir o caminho que fazia quando a interrompi. — Te vejo por aí, .
Eu estava lascado.
Havia uma pequena lista seleta de pessoas que eu gostaria de matar, e estava no topo.
A pequena invasão ao vestiário tinha transformado minha vida em um pequeno inferno temporal. Mais cedo, quando na presença das meninas, esse era o único assunto que elas conseguiam comentar. Nossa, mas logo você. Rezava muito para que ele estivesse certo e Camille fosse convidada para sair — assim sairia do centro das atenções.
Falando em atenção, no Clube do Artes não foi muito diferente. As pessoas cochichavam o tempo inteiro enquanto decidíamos qual o tema oficial do baile de encerramento. Minhas costas estavam quentes, como se cada palavra que falavam relacionada à minha pessoa queimasse minha pele.
Foi a primeira vez que não prestei tanta atenção no que a professora discutia, rabiscando no caderno linhas infinitas para manter minha sanidade. Não tinha calculado todas as probabilidades de ser fofoca da semana e, para o resto do mês, as coisas pareciam que iam piorar. Eu deveria ter deixado se lascar sozinho — e toda vez que pensava sobre isso, rabiscava com mais força, criando ondulações no papel.
Esperava que o tal encontro fosse um sucesso; afinal, eu teria que ajustar todo o meu cronograma só para encarar aquele garoto por horas, só por conta disso.
Com tanta pressão no lápis, a ponta quebrou, e minha reação foi soltar um suspiro frustrado, chamando a atenção da professora.
— Está tudo bem, ?
Senhorita Bueno era maravilhosa. Era jovem e sensata, do tipo de professora com quem você pode contar pra tudo — e que, com certeza, vai fazer o possível para resolver os problemas em conjunto. Arrependi-me de não escolhê-la como orientadora para as cartas da faculdade. A questão é que, Sr. Moseby tinha influência direta no que eu desejava fazer, por isso era a escolha ideal, o que não quer dizer que era a minha favorita.
Balancei a cabeça como resposta, não querendo preocupá-la.
— Você tem alguma opinião sobre o tema que gostaria de compartilhar? Ficou bastante calada.
Leia-se: "Eu sei que tem algo de errado; você já planejou o baile praticamente sozinha."
— Gosto do baile de máscaras. Podemos usar o tema como "seja quem você quiser por uma noite" — respondi, voltando para a página do caderno na qual tinha rabiscado todo o conceito na noite anterior.
— Também gosto dela.
Quando saí do clube, já era fim de tarde — e ainda tinha que estudar para provas que começariam em breve. Mas, conferindo o celular, tinha algumas mensagens no grupo com as meninas que mudaram meus planos:
"Podemos nos encontrar hoje? Tenho novidades!" Camille tinha enviado.
"E você não pode contar por mensagem???" Zoe mandou.
"Preciso ver a reação de vocês… Vamos para nosso ponto favorito?"
Eu já imaginava o que seria, dando-me um leve frio na barriga. Uma dualidade terrível apossava-se de mim a cada segundo. Queria muito que o plano desse certo, que todas elas encontrassem carinhas legais com quem pudessem curtir em paz. Do outro lado, significava que precisaria cumprir minha parte do plano e passar mais tempo com o . A cada interação nossa, mostrava-me que não tinha tanto controle sobre minhas ações; ele aflorava partes de mim que odiava. Era como se fosse um ímã que atraía todas as cargas negativas que habitavam em mim.
Por isso, enquanto esperava o Uber para ir à nossa sorveteria favorita, pensei em inúmeras maneiras de evitá-las. Fingir que estava passando mal, alguma matéria super atrasada, que meu pai precisou de mim, sei lá. Entretanto, eu não me perdoaria se mentisse para as meninas por uma coisa tão besta. Precisava encarar meus demônios de perto.
Fui a primeira a chegar ao Morielli's. Gostávamos de lá por ser um ponto mais afastado da escola; assim, poucos alunos frequentavam, o lugar ideal para fofocar sem medo de achar alguém conhecido. Fora que o ambiente era maravilhoso. Era uma sorveteria familiar, uma das mais antigas da cidade. Ficava na esquina e as duas fachadas eram de tijolinho marrom — o que permitiu que muitas pessoas escrevessem seus nomes com giz de cera ao longo dos anos, tornando-a única. Por dentro era simples: todas as paredes eram brancas e os sabores do sorvete eram escritos em quadro preto com giz, mantendo a tradição. Apesar de ter mesas do lado de dentro, optávamos sempre por uma na área externa — menos no verão, quando o sol parecia querer matá-los de calor.
Escolhi meus sabores de sorvete favoritos: amendoim e morango. A combinação perfeita entre o doce e um pouquinho azedo do morango — que, no caso da Morielli's, era feito com a fruta de verdade. Depois, cada uma chegou na ordem de praxe: Zoe, por morar perto; Taylor, ao tentar chegar no horário; e Camille, que sempre esperava para atrasar. Quando todas estavam bem acomodadas com seus sorvetes, finalmente a tal surpresa foi revelada:
— Darius me chamou para sair! — ela disse animada, dando pequenos pulinhos sentada. Ao passo que as outras repetiam seus movimentos.
— Quando?
— Como?
— Hoje, depois da aula, na saída do colégio. Ele me acompanhou até o ponto do ônibus e fomos conversando até o meu ponto de descida. — Minha amiga suspirou, apoiando os braços em uma das mãos. — Então ele perguntou se poderíamos continuar nossa conversa amanhã, no Daisy's.
— E ele nunca tinha falado com você quando pegavam o mesmo transporte? — Taylor perguntou, desconfiada.
Mantive-me calada, tentando não parecer suspeita, degustando meu sorvete de amendoim. Camille deu os ombros, negando com a cabeça.
— Talvez a invasão da tenha colocado algum holofote em cima de nós, sabe? Quem sabe agora que ela está saindo com o , os amigos queiram ficar próximos também.
Quase cuspi meu sorvete.
— Eu não estou saindo com ele, vou apenas ajudá-lo em física.
— Dá na mesma.
— Não dá, não! — defendi.
— Tanto faz, agora preciso que me ajudem a encontrar a roupa perfeita para que esse encontro dê certo! Assim, posso até incentivá-lo a falar com os outros amigos dele, sabe…
Ela estava fazendo jogo baixo, mas nós a ajudaríamos de qualquer forma.
Não importava quantos pequenos infernos de Dante eu teria que passar com desde que minhas amigas estivessem felizes, eu sobreviveria. E, para o bem daqueles garotos, eles não podiam pisar na bola — ou, senão, invasão no vestiário seria a última coisa da qual eles teriam que se preocupar.
Minha mãe costumava dizer que uma parte da nossa genética era sermos sistemáticos. Sendo assim, qualquer pessoa que ousasse quebrar o equilíbrio perfeito que planejávamos estava sujeita à nossa ira — meu pai que o diga. Mesmo no leito da morte, ela achou um jeito de esquematizar tudo.
E tenho para mim que essa foi uma das coisas que a fez feliz até o último segundo.
— E a que horas vocês irão se encontrar? — Zoe perguntou, dispersando meus pensamentos. Aquilo, sim, era uma informação muitíssimo importante.
— Depois das seis. Ele vai ter treino até mais tarde.
— Então vamos todas para sua casa depois da aula, combinado?
Quando chegasse em casa, precisaria abrir meu cronograma semanal e repensá-lo novamente. Com o primeiro encontro marcado, havia chegado minha vez de cumprir uma parte do acordo. Aproveitei que estavam distraídas para mandar mensagem por debaixo da mesa:
"Amanhã, às 04:00 p.m., biblioteca municipal"
"Não se atrase."
"E isso é uma ordem."
Ele teria que sair do treino mais cedo, não sei. Só que, se eu podia abdicar de horas do meu dia para estar em sua presença, ele deveria poder ceder um pouquinho também. E, com certeza, precisaria de tempo para chegar ao Daisy's antes dos pombinhos.
— Eu não vou poder — avisei —, mas quero todas as atualizações por mensagem!
Eu tinha me atrasado de propósito daquela vez. A versão irritada de tinha ficado gravada em minha mente durante a aula da manhã inteira. Versão essa que esperava despertar.
Minhas passadas pelo salão eram amortecidas pelo carpete; sendo assim, ela não percebeu minha aproximação. Estava sentada em uma das mesas redondas, inúmeros livros abertos — nada parecia quebrar sua atenção. Uma das primeiras coisas que percebi foi que a biblioteca municipal mudou bastante desde a última vez que a frequentei. O prédio estava reformulado na parte interna, com cores e curvas, o amarelo dominando no carpete e a madeira ripada no teto, em contraste com a fachada bruta e rígida de concreto. Mas ainda possuía vários níveis — divididos entre andares de estantes e espaços para estudos —, com um pé direito alto e uma escultura de metal horrível ao meio.
Eu precisei suplicar ao treinador para que me permitisse sair mais cedo, mas, quando mencionei que era para me preparar para as finais, ele aceitou sem muitas reclamações. Não importava quanto me esforçasse para entender física, não surtia efeito. Queria muito saber o milagre que faria para colocar aquela matéria besta dentro do meu cérebro.
O problema mesmo era ter que dividir algumas tardes com uma pessoa que não parecia confortável comigo.
Depois dos treinos, enquanto meus amigos estariam em encontros, eu teria os meus com o próprio ajudante do diabo — esperando apenas o deslize necessário para me atacar com um lápis de ponta afiada.
Até que, nessa versão, o capeta era bonitinho.
Era um atraso de quinze minutos. Fiquei do lado de fora, esperando-a dar sinal de vida e, para surpresa de ninguém, apareceu pontualmente às quatro horas. Pergunto-me o que fazia quando se atrasou para a aula há três dias. Perder o horário devia ser um pesadelo horrível para aquela garota.
Ela nem me olhou quando sentei à mesa, de frente para ela, e constatou o que já sabia:
— Está atrasado.
— Tenho relógio — devolvi, mordendo a bochecha para segurar o sorriso.
Para ser sincero, nunca reparara tanto na garota em minha frente em dias normais. Só que, depois daquela confusão, irritá-la estava começando a ser uma das coisas preferidas do meu dia.
— Comece a usá-lo, então — retrucou, finalmente desviando o olhar da página para mim, ajeitando os óculos de grau que escorregavam. — Não vamos mais perder tempo, tenho outros assuntos para tratar depois daqui. Vamos começar pela energia cinética.
Ela empurrou um dos livros em minha direção. A mesa redonda era grande, então tive que me curvar para conseguir ler alguma coisa na página.
— A energia cinética é a energia associada ao movimento dos corpos. Qualquer corpo em movimento é capaz de realizar trabalho, portanto… — Ela continuava falando sobre as leis da física e, a única coisa que eu conseguia reparar, era nos malditos cachos rebeldes que prendeu atrás da orelha em algum momento da explicação. Ou como ficava muito mais bonita de óculos de grau, versão muito pouco via. Ou como os dentes dela eram perfeitamente alinhados, escondidos entre lábios carnudos — que os umedeciam por estar falando demais.
— , você está prestando atenção?
Só percebi que falava comigo quando ouvi meu próprio nome.
Limpei a garganta, ajeitando-me na cadeira novamente. Tentando recuperar um pouco da minha dignidade.
— Coração, não me leve a mal, ok? Mas, se eu aprendesse física só dessa forma, acho que não estaria em maus lençóis como estou agora — apelei, depois de ter sido pego.
Ela suspirou, puxando o livro para si, e logo depois encarou-me enquanto batia o lápis que segurava na boca. Parecia criar um raciocínio e não ousei atrapalhar mais uma vez.
— Tem como você sentar mais perto? — pediu tão baixo que não acreditei no que ouvi.
— Como?
— Você está muito longe e desajeitado aí — falou. — Não vou te morder!
Não entendi em que aquilo iria melhorar o meu entendimento de física, entretanto, concordei, levantando-me para sentar ao seu lado. ajeitou-se ainda mais na cadeira, ficando com a coluna ereta. Puxou uma folha em branco e começou a desenhar.
Um formato parecido com coador de café, distribuindo quatro retângulos pequenos, e só quando rabiscou um círculo no meio, entendi que estava referenciando a um campo de beisebol.
— Imagina que você está aqui, na segunda base — colocou uma bolinha dentro do retângulo que estava no meio, mais para cima. — E você precisa chegar à terceira base, mas está tão rápido que tem medo de não conseguir parar a tempo — desenhou uma seta até o retângulo da esquerda, um pouco mais embaixo. — Então, desliza pela terra para frear o movimento.
Isso é energia cinética. Uma energia que existe porque você está se movimentando, entendeu?
Colocando daquela forma, meus neurônios pareceram se interligar depois de tanto tempo tentando. Conseguia visualizar cada movimento em campo, a corrida entre as bases que fazia toda semana — uma prova real da física que nunca havia parado para conectar.
— Colocando assim, não parece tão difícil — comentei, e ela sorriu, sem tirar o olhar dos livros. Acreditei que estivesse feliz por me fazer entender.
Desenhou uma fórmula embaixo e explicou: — Quanto mais pesado você for, maior vai ser essa energia. Agora vamos fazer algumas questões.
Existia algum anjo endemoniado que poderia ter sido enviado por Deus? Porque, depois de resolver as atividades que tinha selecionado, Física passou a ser um pouco mais entendível. Não quis cantar vitória antes do tempo, já que sabia que a matéria podia ser traiçoeira, mas fiquei satisfeito por ter acertado as questões em diferentes níveis.
Passamos tanto tempo imersos na cinética que só percebi a hora passar quando ela deu um pulo da cadeira, arrumando as coisas na bolsa e fechando os livros.
— Vou organizar os próximos conteúdos e te aviso, mas seria interessante se você repassasse em casa também… — comentava, enfiando os lápis em um estojo verde abarrotado de coisas.
Fiquei desconcertado com a mudança brusca e a rapidez com que organizava as coisas.
— Para que tanta pressa?
— Eu preciso seguir meu cronograma à risca. Só assim para conseguir sucesso em todas as atividades que atribui para o dia.
— E vai morrer caso não cumpra?
Ela suspirou, irritada, revirando os olhos em seguida. Ignorou meu comentário, conferindo a hora no celular antes de empilhar os livros da biblioteca.
— Posso perguntar para onde precisa ir?
— Você consegue deixar esses livros no balcão? O pessoal coloca na estante depois.
Ignorou-me novamente, deixando-me indignado. Tento outra abordagem:
— Você quer carona? Posso te deixar no destino.
Ela pareceu pensar, mas negou com a cabeça.
— É aqui próximo, vou andando.
E, simples assim, começou a andar em direção à saída.
Alguma coisa no seu comportamento me fez ficar com uma pulga atrás da orelha, como se ela estivesse prestes a aprontar alguma coisa, mas não queria me fazer de cúmplice. Sendo assim, fiz o que pediu o mais rápido que consegui, seguindo seus passos em uma meia corrida. Cheguei à porta da biblioteca a tempo de vê-la dobrando a esquina da direita. Seria tão ruim assim segui-la?
Antes mesmo de raciocinar direito, já estava dentro do carro, dando partida para entender onde diabos precisa ir.
Quase não acreditei quando a vi entrando no Daisy's. Quão fora da casinha tem que ser para interromper o encontro da sua amiga?
Desci do carro, pronto para brigar com ela, imaginando as piores coisas que diria. Ao passo em que tentava racionalizar meu pensamento, considerei a possibilidade de Camille ter perdido por socorro — então ensaiei as atrocidades que diria ao meu amigo.
Espiei com cautela pelas grandes janelas da lanchonete e não vi nenhum sinal do casal em questão. Demorei um pouco para localizar a meliante também — estava sentada em uma mesa redonda mais aos fundos, com assento estofado, folheando o cardápio.
Será que ela tinha um date?
Senti-me estúpido. Não havia considerado essa opção.
Ela me contaria se fosse um encontro? Com quem seria? Era alguém do colégio? Um jogador? Alguém que estava no vestiário naquele dia?
Aquela lanchonete era a preferida dos alunos, ponto de encontros românticos e entre amigos. Eu conhecia a lanchonete de cor — as mesas redondas na mesma posição, as dos cantos tinham bancos estofados, ainda circulares. As cores predominantes eram azul e rosa, misturadas com letreiros neon.
Aproveitei a zona de guerra tranquila para adentrar. Meu plano era fingir ter passado lá naturalmente, falaria com ela e ficaria em outra mesa para descobrir quem ela encontraria. segurava o icônico cardápio deles; era grande e pesado, com os pratos gravados em madeira, e costumava ocupar a visão de quem o segurava. Por isso, aproximei-me devagar, tentando fingir naturalidade — como uma onça observando uma presa —, deslizando no assento.
— Eu falei que podia te dar carona. — Tive que segurar o riso quando ela soltou o cardápio de vez, pulando de susto.
Estreitou os olhos em minha direção.
— Você está me seguindo? Ou melhor, está ficando maluco da cabeça?
— Venho sempre no Daisy's — justifiquei. Ela revirou os olhos.
— Claro que vem. Agora já pode ir!
— Que isso?! Estou com muita fome. Física foi intensa, sabe?
O som que soltou era quase desesperado, passando as mãos no rosto repetidamente.
— Droga! Você vai estragar o meu disfarce — sussurrou, sendo agora minha vez de estreitar os olhos a partir daquela pequena confissão.
— O que você realmente está fazendo aqui?
Antes que respondesse, fui puxado com brutalidade em direção ao banco. Sua mão agarrando a manga da minha camisa, puxando-me mais para perto. Desequilibrei com o movimento, indo com o ombro direito para o estofado azul veludo.
— Está maluca?!
— Calado, vão te ver! — sussurrou novamente.
Mesmo indignado com a maneira com que me pegou desprevenido, recuperei minha dignidade sentando-me ereto novamente. Agora, bem próximo de , ela abriu o cardápio de maneira que escondesse nós dois do resto do restaurante.
— De quem você está se escondendo, hein?
Ela suspirou, ignorando minha pergunta, bisbilhotando por cima das páginas. Repeti seu movimento e então, assim como na biblioteca, meus neurônios se juntaram novamente.
Em uma mesa mais perto da entrada, estavam Darius e Camille.
De todas as possibilidades que pensei, nenhuma delas era espionar o encontro dos nossos amigos.
— Vocês desejam alguma coisa? — A garçonete nos interrompeu. A cabeça da mulher inclinada em nossa direção, observando o péssimo esconderijo.
negou, mas eu sabia exatamente o que pedir.
— Um darling deadly — A garota ao meu lado me lançou um olhar tal qual um fuzil pronto para disparar. Dispensei a garçonete antes de completar: — Se vamos nos disfarçar, tem que ser direito.
— Se você não estivesse aqui, não haveria nós — devolveu.
— Ai esse encontro não teria graça.
— Isso não é um encontro — disse entre os dentes.
Ignorei seu tom de ameaça.
— Agora me fala: por quê?
Assisti passar a mão no rosto várias vezes, antes de respirar fundo. Parecia estar em uma briga interna entre me contar a verdade ou sair correndo sem confessar.
Apoiou o cotovelo na mesa antes de, finalmente, me responder: — Queria ter certeza de que tudo daria certo.
Franzi o cenho, não entendendo onde queria chegar.
— Camille não contaria como foi?
— Sim, mas…
— Você acha que ela mentiria?
— Eu queria ver com meus próprios olhos, tá bom?! Não gosto quando as coisas fogem do controle e não confio em jogadores.
Coloquei a mão no peito, fingindo estar ofendido.
— Eu sei que a reputação dos esportistas não é das melhores, mas não somos tão ruins assim. Eu mesmo sou ótimo! — cutuquei-a na barriga com o indicador. Ela revirou os olhos, mas recebi um sorrisinho de lado, brigando para se alargar. Talvez aquela fosse minha versão favorita.
Fomos interrompidos mais uma vez com a chegada do meu pedido. ficou horrorizada quando descobriu o que era um darling deadly, ou melhor, quando encarou um milkshake de morango de um litro, com bastante chantilly no topo, bem na nossa frente. A garçonete entregou os dois canudos vermelhos e se retirou.
ainda estava boquiaberta enquanto eu colocava ambos os canudos na bebida, rindo do seu espanto.
— Que foi? Precisamos nos alimentar enquanto estamos de tocaia. — Dei os ombros, inclinando-me na mesa para tomar meu primeiro gole. Eu sempre quis dividir aquela bebida com alguém e finalmente estava acontecendo. — Você nunca veio aqui?
— Evito o máximo que consigo. Já não basta sobreviver com vocês durante o horário de aula.
Ela hesitou em se aproximar da bebida no início, dando o braço a torcer quando o som do ronco da sua barriga ficou um pouco mais alto.
— Genuinamente acho que você odeia estudar lá.
Negou com a cabeça veementemente.
— Não é isso! É que gosto de fazer as coisas sem ser notada, sabe?
— E como você está se saindo? — perguntei baixinho por conta da proximidade que estávamos, ao nos abaixarmos ao mesmo tempo para o milkshake.
— Ótima, até você entrar em minha órbita — respondeu no mesmo tom.
Nossos rostos estavam muito próximos; sentia sua respiração se misturar com o ar gelado do darling deadly. Seus olhos possuíam um brilho hipnotizante e, mesmo com a proximidade, ela não desviou nem por um segundo. Eu gostava de como nunca recuava, disposta a um desafio.
Ela tinha um cheiro de amêndoas, um aroma adocicado que me aconchegava. Era como se aquele fosse o lugar certo em que deveria estar — em um pequeno espaço de tempo congelado.
Queria dizer que não me importava por ter invadido a sua órbita, mas nunca admitiria isso em voz alta.
Havia um cacho solto em seu rosto e, por impulso, levantei o braço para colocá-lo atrás da orelha. Arrependi-me no mesmo instante, já que pareceu ser o que a despertou do transe. afastou-se bruscamente, conferindo a hora no celular, voltando a atenção para o casal que deveríamos estar observando.
— Você sabe que o tempo vai passar igual se você não estiver olhando, né?
Desdenhou de mim, conferindo o horário de novo.
— Vamos fazer assim… — Peguei o celular e coloquei no bolso, ignorando seus protestos. — Qual seu próximo compromisso?
— Daqui a 40 minutos.
— Então, daqui a quarenta minutos, eu vou te avisar e vou te deixar onde tiver que ir, ok? Agora você vai aproveitar o momento como se não tivesse nada mais para fazer.
Ainda contrariada, ela concordou com a cabeça, voltando a atenção para o milkshake.
Relaxei no banco, tendo a visão perfeita entre o casal no meu campo de visão e deliciando-se com a bebida.
— Mal te pergunte… Como pretende sair sem que eles te vejam?
— É por isso que vim mais cedo… — explica como se fosse óbvio, o que me irrita. — Essa mesa que estamos é perfeita. Próximo da cozinha e da saída dos fundos, ou seja, recebemos a comida rápido e ainda podemos sair sem sermos vistos.
— E você nunca veio aqui? — Levantei a sobrancelha, desconfiado.
Dei os ombros.
— Só não sou uma frequentadora assídua — defendeu-se.
Passar o tempo com aquela garota não foi tão ruim como pensei. Imaginei como seria se tivéssemos ficado horas trancados cumprindo a detenção. Ao mesmo tempo, fiquei satisfeito com a ideia de driblar as ordens do Moseby, ou melhor, que tenha odiado essa ideia a ponto de me obrigar a passar mais tempo sem sua companhia, mesmo sem ter percebido.
Fiz o que prometi: assim que o horário se aproximou, paguei a conta e saímos pela porta do fundo — saída essa que, mesmo anos frequentando aquele lugar, nunca tinha reparado.
Depois de deixar em casa, fui direto para a minha.
Jogado na cama, tentei repassar mentalmente tudo que aconteceu naquela tarde, o que estranhamente me deu vontade para estudar física. Sentei-me na escrivaninha e comecei a relembrar todos os ensinamentos que tinha comentado, parando só algumas horas, quando recebi uma mensagem do Darius escrita: "Tenho novidades."
E aquilo certamente não podia ser algo bom.

