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Independente do Cosmos 💫
Finalizada ✅

Eu estava tonta, o flash da câmera me cegava e o branco do cenário não ajudava nem um pouco. Em minha cabeça rodopiavam as frases “dê um sorriso” ou “faça carão”, sendo constantemente repetidas. Não era isso que eu estava fazendo?
— Você está linda, Angel! Preciso que olhe um pouco mais para a direita. — Escutei o fotógrafo falar, de algum lugar do estúdio.
— Acho que ela está suando um pouco, precisamos retocar a maquiagem — alguém sussurrou.
O colarinho de renda arranhava a pele do meu pescoço, a blusa de manga preta parecia mais apertada, impedindo meu pulmão de trabalhar devidamente. Procurei Sophie no meio daquele caos visual, consegui me concentrar na direção em que ela estava anteriormente, suplicando, só com o olhar, por alguns minutos de pausa, mas eu sabia que ela não iria ceder. Não dessa vez. Mesmo que parecesse estar preocupada comigo.
Por instinto, puxei o tecido da blusa para frente, uma tentativa falha de devolver ar para meus pulmões. Percebi a merda que fiz quando todo o meu redor parou.
— Aguenta firme, minha querida. Estamos terminando.
Não conseguiria aguentar nem mais um segundo ali ou iria desmaiar. Quando os flashes voltaram a disparar, a corrente da bolsa escorregou das minhas mãos por conta do suor frio, testando meu limite, fme empurrando para uma das decisões mais impulsivas da minha vida: abandonei a sessão de fotos.
No mundo da moda, isso é quase como suicídio social — perder trabalho o suficiente até cair no esquecimento.
Não foi algo planejado direito, por isso corri como se não houvesse amanhã. Mal tive tempo de assimilar se alguém teria ficado confuso com a situação, apenas meu nome ecoando bem longe enquanto me gritavam. Quando parei na porta do elevador, meu coração batia tão forte que achei que fosse ter um infarto, talvez estivesse mesmo morrendo. Olhei para trás pela primeira vez, três pessoas estavam vindo em minha direção. Não daria tempo. O estúdio ficava no terceiro andar e foi o que facilitou bastante minha fuga.
Tropecei nos meus próprios pés ao empurrar as portas de incêndio, abandonei os saltos ali mesmo — mais provas do crime. Pulei os degraus a cada dois, como uma criança, até finalmente chegar à recepção. A adrenalina parecia cafeína, a sensação de pisar no porcelanato frio arrepiava cada pelo do meu corpo.
Passando pela porta giratória, o mundo pareceu parar. Tudo ficou tão turvo e confuso, a única coisa que possuía forma era o vidro à minha frente, refletindo porcamente uma figura com rímel começando a borrar. Desacelerar o tempo era impossível, mas, à medida que girava ali, sem rumo, senti-me em uma cápsula do tempo, revivendo todo e qualquer momento que me levou até ali.
Desde andar sobre os saltos da minha mãe quando era pequeninha, até os primeiros testes para modelar, primeiras sessões de fotos, primeira vez em uma passarela e todos os momentos que se repetiram até aquele dia em Nova York.
Quando meus dedos dos pés alcançaram o concreto da calçada e a rajada de vento passou por meu rosto, as peças começaram a se juntar aos poucos.
Olhei novamente para trás e vi a porta do elevador se abrindo, Sophie sinalizou algo para o segurança, que apontou para a rua, e então estavam todos vindo em minha direção novamente. Não sabia exatamente para onde ir, mas só sabia que tinha que ir para algum lugar. Apressando os passos até a esquina, dobrei à esquerda atrás de algum cruzamento com sinal fechado, sem sucesso. "" passeava com o vento, denunciando que eu não tinha tanto tempo assim.
Fechei os olhos e tentei me concentrar. Para onde eu iria? E, bem ali, quando abri os olhos, um rapaz tinha acabado de encostar com uma moto no meio-fio. Ele usava roupas pretas e pegou o celular para conferir algo.
Aquele homem desconhecido pilotando uma moto preta era a carruagem da Cinderela, pronta para me resgatar.
— Me leva para qualquer lugar! — implorei assim que me aproximei. Com o capacete, não conseguia ver nada além dos seus olhos castanhos confusos.
Atrás de mim, escutei meu nome ser chamado novamente, dessa vez mais próximo.
— Por favor… — Eu não conseguia controlar a tremedeira das minhas mãos. Ele apenas concordou com a cabeça, ajudando-me a subir na garupa, dando partida logo em seguida como um verdadeiro piloto de fuga.
Abracei sua cintura e deixei que me levasse para onde quisesse.
O movimento da motocicleta cortando o trânsito intenso de Nova York com rapidez foi o que devolveu o ar para meus pulmões; o vento batendo no meu rosto, embaraçando o babyliss. Não sabia até onde ele iria, mas rezei que fosse o mais longe possível, até que o turbilhão de sensações ruins dos últimos meses se calasse com aquele zig-zag entre as buzinas dos carros.
O barulho do motor enquanto acelerava era a música mais linda que ouvi em anos.
Quando estacionou, próximo ao Marcus Garvey Park, o encanto desmoronou.
Pelo menos encontrava-se longe o suficiente do ponto de partida.
Assim que desci da moto, alinhando todos os fios bagunçados, tentei raciocinar quais seriam meus próximos passos. Meu celular tinha ficado no estúdio, restando só meu corpo e um conjunto Schiaparelli que não era meu — e talvez alguma pequena parte não racional do meu cérebro.
— Ei! — O rapaz retirou o capacete, chamando minha atenção. — O que aconteceu?
Meu piloto de fuga era alto e elegante. Usava um sobretudo listrado. Seus cachos estavam levemente amassados e ele tentava soltá-los enquanto esperava uma resposta.
Mordi os lábios. Será que fugi de uma sessão de fotos quase como uma mimada e agora, provavelmente, estou fadada ao fracasso era uma boa explicação? Coloquei as mãos no bolso da calça, ainda não conseguia controlar a adrenalina, a pele pinicando de culpa e arrependimento.
— Obrigada…
— apresentou-se.
— Obrigada, . Você não sabe o quanto me salvou — agradeci, cortando todos os pormenores. Ele não iria querer saber dos meus problemas.
— Não há de quê, eu acho. — Seu cenho franzido denunciava a confusão enquanto me avaliava de cima a baixo, demorando um pouco nos meus pés descalços. — Você não é a mulher da propaganda da Chanel?
— Você, por acaso, não teria um celular para me emprestar? — desconversei.
— Hã, claro — respondeu, tirando o aparelho do bolso e me entregando.
Precisava deixar claro para minha equipe que não fui sequestrada e que a polícia poderia ficar desinformada sobre o meu "desaparecimento". Por isso, digitei um SMS rápido para Sophie escrito "Estou bem, preciso de um tempo. Até hoje à noite estarei no hotel. Por favor, não me procure" e uma selfie para que tivesse certeza de que não era meu sequestrador digitando.
— Obrigada — repeti, devolvendo o telefone. — É aqui que me despeço, pode seguir para seu destino.
Antes que pudesse sair do lugar, alcançou meu braço com a mão, segurando-me no lugar.
— Você vai me desculpar, mas não consigo te deixar aqui, descalça, tremendo mais que um pinscher.
Fechei os olhos e respirei fundo. O que eu não precisava naquele momento era alguém com pena de mim.
— Me deixa ajudar um pouco?
Que mal faria, afinal? Eu não era nova-iorquina e mal conhecia aquela cidade, estava mais para viver um remake de Perdidos em Nova York; sem celular ou chinelo. O que mais seria de tão ruim do que pegar carona na garupa de um estranho?
— Tá, qual é o plano?

O chão de Nova York estava frio por conta das chuvas periódicas da primavera, a brisa ainda continuava fresca durante o início da caminhada pela Quinta Avenida. O plano nº1 era trocar de roupa e arranjar um disfarce para mim, cada vez tinha mais certeza de que talvez eu realmente fosse uma fugitiva — ou pelo menos estava agindo como uma.
— Espero que você não tenha problema em vestir roupas mundanas — brincou enquanto me guiava para dentro de um brechó.
A busca por roupas menos chamativas não foi tão difícil assim. pontuou que cores sombrias seriam ideais para passar despercebida na rua, então acabei escolhendo uma calça jeans escura e uma blusa preta. Mantive o sobretudo do ensaio e achei uma sandália de dedo para evitar, pelo menos, andar descalça. Meu pé deveria estar imundo, evitei olhar para não cair para trás.
Coloquei as roupas que estava usando na sacola de compras e seguimos o caminho para fora do estabelecimento.
— Tenho algo para você — disse, levantando um boné vermelho escrito "New York".
— Não precisava ter comprado isso também, e é bem chamativo.
Ele deu os ombros.
— Achei que o truque dos famosos para passar despercebido era usar um desses.
— Eu nem sou tão famosa assim — protestei inútilmente, já que, por ironia do destino, a fatídica propaganda da Chanel passou estampada em cima de um táxi amarelo bem do nosso lado.
O olhar debochado do rapaz à minha frente me fez querer enfiar a cabeça no chão como uma avestruz.
— Imagina se fosse — ironizou, empurrando o boné em minha direção.
— Ai, cala a boca! — Foi tudo que consegui falar antes de pegar o item e colocar na minha cabeça, saindo andando. — Ok, qual é o próximo passo?
— Hum, vejamos… O que você sempre quis fazer aqui na cidade?
— Ahn, tudo?! — respondi, sem saber por onde começar. — Sou do Hawaii e nunca estive aqui se não fosse para trabalhar. O que você sempre quis fazer aqui?
— Bom, eu nasci e fui criado aqui, então meio que já fiz de tudo… mas tem algo para riscar na minha lista: subir no Empire State.
— Acho que já temos o próximo passo, então.
Dessa vez decidimos pegar um táxi. Por mais que já estivéssemos na avenida certa, demoraria cerca de uma hora para irmos a pé e não dava para contar com a sorte de andar por aí sem o capacete, mas o trânsito de Nova York era questionável. É incrível como apenas uma cidade carregava uma dualidade incrível, principalmente a quinta avenida. Recheada de prédios, era uma das avenidas mais conhecidas e luxuosas; muitas lojas de grifes. Ao mesmo tempo, do outro lado da calçada, tinha o Central Park, conhecido como a parte menos acelerada em meio a tanto caos.
E foi exatamente por isso que não aguentei ficar presa dentro de um carro quando podia aproveitar um pouco daquela paisagem ao vivo, não agora que tinha oportunidade.
— Eu nunca andei por aqui! — comentei assim que saí do carro, animada até demais com o parque urbano.
— É a primeira vez que vejo alguém muito feliz por andar muito. — Ele ria da minha euforia, acompanhando em passos lentos. — Vem, vou te mostrar uma coisa.
me puxou pela mão e me guiou por alguns metros, até encontrarmos um food truck vendendo sorvete.
— Você está prestes a tomar o melhor sorvete do mundo — anunciou, pedindo duas casquinhas de chocolate no balcão.
Cruzei os braços, assistindo-o conversar com a atendente.
— É só sorvete, o que tem de tão especial nisso?
Ele me ignorou completamente, até se virar com as casquinhas na mão.
— Vai ter que provar para saber.
Sua sobrancelha esquerda, enquanto entendia o sorvete sob minha direção, soou como um desafio. Limpei a garganta e aceitei, ajeitando minha postura. Peguei um pedacinho com a mini-colher, sem quebrar o contato visual com , que prontamente observou cada detalhe das minhas reações. Era difícil explicar o quão gostoso podia ser um sorvete de chocolate, derretendo assim que encostava na língua — uma espécie de espuma gelada saborizada do melhor chocolate que você vai provar na vida.
Carregava um sabor natural que lembrava infância, daquele momento em que consegue convencer seus pais a comprar sorvete na praia e lambuzasse o suficiente até ter que voltar na água gelada do mar para se limpar. Um gosto diferente dos sorvetes industrializados, uma pitada caseira que representava justamente isso, casa.
Assim que soltei um pequeno gemido de satisfação, ele sorriu.
— Como você descobriu essa joia rara?
— Meu pai costumava me trazer aqui quando eu era menor.
— Agradeça ele por mim! — falei e ele riu assim que lambi o sorvete, derretendo-me novamente com as sensações.
— Vou lembrar de mencionar algo assim.
Seguimos caminho por mais alguns metros, congelando aos poucos por conta do sorvete em conjunto com a temperatura primaveril, até um caminhão passar comigo estampado na lateral, parando no sinal vermelho. O ensaio em questão tinha sido feito para a Vogue, com tendências para o verão, completamente molhada. Nessa foto em questão, estava de costas, minha bunda em evidência enquanto olhava para a câmera com cara de surpresa. Eu estava bonita, mas eu sabia que a imagem não era bem a realidade.
— Minha bunda nem é assim — comentei, ainda encarando o pôster.
Voltou minha atenção para o homem do meu lado quando resmunga um "sei lá" antes de lamber o sorvete, sem dar muita importância. Mas mesmo assim, quando continuei o percurso que precisávamos fazer, ele permaneceu parado por um tempo e a única coisa que consegui fazer foi rir.
— Eu consigo sentir você olhando para minha bunda.
Andar pela calçada do Central Park era tudo isso mesmo que diziam. Você não liga para as buzinas incessantes na rua, divertindo-se com o vento e o barulho da natureza bem ali do lado.
Eu sentia falta da minha cidade, de fazer trilhas pela floresta e surfar nas ondas do oceano Pacífico. Conseguir experienciar coisas como aquela ao mesmo tempo que eu vivia em uma grande cidade. Fazia anos que não pisava em Honolulu. Com o crescimento da carreira de modelo, meu núcleo familiar acompanhou a mudança para o continente e, desde então, mal tive tempo de voltar para lá.
Quando passamos em frente ao MET, meu corpo voltou a estremecer e lembrei do real motivo pelo qual estou em Nova York. A sessão de fotos não era nada comparado ao que aconteceria dali a alguns dias: a famosa festa de gala do Metropolitan Museum.
— Você já chegou a participar? — perguntou, apontando para o prédio neoclássico ao nosso lado. — Imagino que deve ser mágico.
Balancei a cabeça de um lado para o outro, negando.
— Esse ano vai ser minha primeira vez — digo, apressando o passo para não pensar muito naquilo. — Espero que seja tão mágico como parece. Pelo menos, é um dos meus eventos favoritos de acompanhar.
Por algum motivo, o MET Gala tinha um gosto agridoce. Uma mistura de querer muito viver aquela noite e, ao mesmo tempo, um medo real de que ela realmente acontecesse. Receber o convite para estar ali era um dos pontos altos na carreira de qualquer modelo. Ser convidada de honra, não só pela marca, mas por um estilista.
A sensação de perder o controle do próprio corpo voltou com força, minhas mãos começaram a suar dentro dos bolsos do sobretudo.
me cutuca com o cotovelo quando me alcança, chamando minha atenção para si: — O tema parece dar liberdade de performar alguma realidade que não seja a sua, mesmo que por uma noite.
— Acredito que sim. — Franzi o cenho, nunca tinha pensado por esse lado.
Ele parou em minha frente de repente, impedindo-me de continuar. Seus olhos estavam semicerrados e demorou alguns segundos para começar a falar.
— Você se importa de fazermos um pequeno desvio no caminho? — questionou.
Balancei a cabeça e então sou carregada pela mão, atravessando a rua assim que o sinal fechou. Correndo pelas ruas de Nova York, a carga de adrenalina me dominou novamente, deixando-me ser guiada por um desconhecido — mais uma vez. Nossas risadas se confundiam, meus pulmões sofreram para acompanhar seu ritmo, mas não fiquei para trás um segundo sequer.
Ele parecia mais enérgico do que o normal, igual uma criança traquina que descobre alguma realidade paralela perfeita para ela. Incapaz de tirar meus olhos dele, esbarrei em algumas pessoas no percurso — distribuindo desculpas por onde passo —, mas só desaceleramos quando chegamos no Grand Central Station, a famosa estação de Nova York.
— Já tinha vindo aqui? — perguntou com certa dificuldade, tentando recuperar o fôlego por conta da correria.
— O máximo que sei sobre é a primeira cena de Gossip Girl e vestido de Blake Lively para o MET Gala.
Ele sorriu com minha resposta, tipo muito, antes de acrescentar: — Então tenho uma coisa para te mostrar.
Deixei que me guiasse mais uma vez, dessa vez para o subsolo do terminal, parando em frente a um restaurante chamado Oyster. Pediu-me que ficasse encostada em uma das pilastras, correndo para o outro lado — na diagonal.
— Chamamos esse espaço de galeria do sussurro. — Um arrepio involuntário passeou por meu corpo assim que escutei sua voz, boquiaberta com a possibilidade de aquilo ser real. — A arquitetura dos arcos permite que as ondas sonoras viajem de um lado a outro tranquilamente, sem nenhuma interferência. É um projeto de acústica maravilhoso.
— Como você sabia disso? — consegui falar de volta.
Vi quando ele deu os ombros, mas ainda sorria. Era notório o quanto seus olhos brilhavam enquanto me explicava.
— Meu pai é engenheiro — comentou. — Acho que era obrigação dele saber por conta da profissão.
— E você?
— Tenho o mesmo diploma, se é isso que está perguntando — completou, mas logo acrescentou: — Ele me trazia aqui para me ludibriar, acabava contando a ele o que estava me incomodando.
— Galeria dos segredos, então? — brinquei e sua risada invadiu meus tímpanos, causando mais arrepios.
— Podemos batizar assim.
Eu não sei se quero continuar sendo modelo — falar aquilo em voz alta, pela primeira vez, foi um choque até para mim. Era um tipo de pensamento que ia e voltava várias vezes, mas nunca tinha racionalizado o suficiente para entender que se fazia muito mais presente do que deveria. Esperei que risse de mim, porém continuou calado. Fechei os olhos antes de continuar. — Não tínhamos muito dinheiro, então quando comentaram para minha mãe que eu era uma modelo prodígio, ela fez isso acontecer.
continuava encostado na pilastra, agora de frente para mim. Havia faíscas de compaixão em seu olhar e queria matá-lo por isso, mas não conseguia sentir algo se não pena de mim mesma.
Eu só tenho medo de não conseguir mais nada além disso.
Esse era o verdadeiro segredo. Minha agente costumava dizer que era crise da vida adulta ou como era possível se lamentar com a vida que tenho. Idai que você tem uma dieta restrita, para bater peso que nem um lutador de MMA, e mal consegue dormir para cumprir agenda? Há pessoas que morreriam para ter sua vida. Quase conseguia ouvir a voz da Sophie de tanto que ela repetia a mesma coisa.
Não era só cansaço. Nunca tinha sido o principal problema. Era a sensação de que, se eu continuasse, acabaria desaparecendo dentro de uma versão de mim mesma que nem reconhecia mais. Ou nem conhecia.
— Eu tenho certeza que você já é muito mais que isso. — Escutei através da estrutura e sorri. Esperava que sim.
— Vamos? Acho que temos outro lugar para ir, não é?

Subir no Empire State não podia sair da lista de ninguém, seja dos turistas ou dos moradores. Encarando a magnitude das luzes, que começavam a aparecer entre o céu alaranjado do pôr do sol de Nova York ali de cima, era quase possível ouvir Alicia Keys cantando que ali era onde os sonhos eram feitos.
Respirei fundo enquanto observava a cidade sob meus pés, guardando cada detalhe como se fosse uma maquete; o vento, os cheiros, a iluminação, o barulho das pessoas vivendo ali por baixo. Aquela era a memória que gostaria de guardar e revisitar quando as coisas ficassem intensas novamente. Uma nota da própria existência e de outras coisas também era importante, além do trabalho, trabalho e trabalho.
Limpei a lágrima solitária que caiu ao virar para o homem ao meu lado, agachado e rindo de algo que visualizou naqueles binóculos de observação.
— O que foi? Viu algo impróprio?
Ele negou com a cabeça antes de levantar, encarando-me com um sorrisinho no rosto. Ele era tão bonito, e os cachos brincando com a brisa reforçaram seu ar rebelde. A pele negra, banhada com a luz âmbar, parecia ainda mais dourada.
— Tava aqui lembrando como vim parar nesse lugar, sabe… — comentou. Eu estava tão hipnotizada com seu olhar que não conseguia desviar enquanto falava. — Eu tinha acabado de visitar meu pai no hospital quando uma maluca me pediu uma carona sem destino.
Fui obrigada a rir junto.
— Câncer de pulmão — completou antes mesmo que eu perguntasse. — Ele conquistou tudo que desejou em vida e agora fica implorando por um mísero cigarro antes de morrer.
Desviou o olhar por um instante, encarando a cidade. As lágrimas reluziam em seus olhos quando voltou a atenção para mim, lutando para não cair. Segurei-me para não abraçá-lo. Desde o início daquela jornada delirante, tinha falado tão bem do pai que desejei conhecê-lo, descobrir quais outros cantos da cidade ele desbravou e encontrar todos os segredos escondidos. Parecia injusto que estivesse passando por algo tão cruel.
Queria que me contasse tudo, das melhores coisas às piores que estava pensando.
Ele riu com as lembranças novamente, tal qual estivesse em negação.
— Eu não fazia ideia para onde ir até uma mulher subir na minha garupa e ir me pedir para pilotar para qualquer lugar. E não sabia que isso me curaria um pouco.
Eu tinha uma promessa de jamais chorar em público. Entretanto, a cada palavra que ele falava, meu rosto ficava um pouco molhado, e só me dei conta desse fato quando aproximou-se e limpou as lágrimas com os dedos ásperos.
— Obrigado por isso, .
— Obrigada por não me deixar sozinha hoje, .
Então o abracei, e não tinha lugar no mundo que quisesse estar naquele momento que não fosse naquele abraço, em meio ao seu perfume e meu rímel melando sua camisa preta.

— Bom, acho que é isso… — diz, assim que descemos do prédio.
Parados na calçada, eu tenho certeza de que não estou pronta para me despedir. E ele também parece que não, balançando o corpo para frente e para trás.
— Na verdade, tem uma coisa que eu gostaria muito de fazer, e talvez você soubesse o lugar certo…
— Que seria? — Seu sorriso apareceu de novo e acho que nesse ponto já estava completamente derretida por aquele homem.,
— Um famoso cachorro-quente de Nova York — digo e sei que não estava pronto para ouvir aquilo quando ri, como se eu fosse uma comediante.
— Sei exatamente como te oferecer essa experiência.
Não é o cachorro-quente que dita a experiência, é o local que você vai comê-lo — essas são as exatas palavras que diz quando sentamos na lotada escadaria da Times Square. Carregando nossos hot dogs comprados em uma barraquinha de esquina.
Se Sophie me visse agora, morreria. O meu estilista também. E depois ressuscitariam para cometer meu assassinato planejado em conjunto.
Mas ele parecia tão gostoso. Era tipo uma sete maravilhas do mundo enquanto assistia os turistas tirarem mil e uma fotos com os grandes telões no fundo. E, claro, vez ou outra passava alguma propaganda com minha cara estampada.
— Você está fazendo exatamente o que sonhava quando era criança?
O rapaz ao meu lado interrompeu a mordida antes de virar-se para mim. Balançando a cabeça de um lado para o outro.
— Pareceu certo formar em engenharia e assumir a empresa do meu pai, sabe? Filho único e tudo mais. — Deu os ombros, mordendo o cachorro-quente. — Mas… um amigo me chamou para abrirmos uma empresa de fotografia, mas ainda não tenho certeza sobre isso. Parece traição, sabe? Apunhalá-lo nas costas no pior momento da vida dele. Eu sempre gostei de fotografar
— E o que você fotografaria? Eventos? Estúdio?
— Ele costuma fotografar momentos espontâneos em eventos. O lema seria algo como "Aquilo que o anfitrião não vê". Entende? Tipo, quando está casando, formando, ou fazendo uma grande festa de aniversário, não tem tempo de ver tudo que está acontecendo no próprio evento, e é aí que entraremos em ação. Nem todo mundo quer só fotos posadas.
— Fotos pousadas são muito bonitas, ok? — defendo-me, mesmo sabendo, pelo seu sorrisinho, que falou só para me provocar. — Tem tanto tempo que não sei o que é não posar para uma foto, deve ser uma sensação gostosa olhar para imagens e notar sentimentos de verdade.
Acrescentei, arrancando mais um pedaço da minha comida, sendo ininterrompida do meu instante de gula por um flash de celular.
— Pronto, pode começar com essa. — Mostra-me a terrível foto que tirou de mim enquanto comia. — Está mais linda do que na propaganda da Chanel.
É o tipo de confissão que faz meu estômago dar cambalhotas. Estávamos tão próximos, por conta da quantidade de pessoas na escadaria, quase consigo afirmar que seu coração batia tão rápido quanto o meu, bombeando o sangue de maneira nada saudável após se misturar com a gordura daquela comida.
Algo em mim reagiria ainda mais rápido se eu não tivesse percebido os cochichos. A fatídica propaganda passou pelo telão novamente, uma garota que estava em pé, em frente à escada, falou algo para outra mulher que estava do lado. Notei quando o corpo do homem ao meu lado tencionou, percebendo que alguém tinha me reconhecido.
Não tive muito tempo para raciocinar, dizer algo como tudo bem, posso tirar uma foto ou duas. Quando dei por mim, estávamos correndo novamente. Sua mão livre agarrada em meu braço, guiando outra vez.
Não sei se algum dia poderia me cansar da sensação que era correr com ao meu lado, da adrenalina de confiar em alguém de maneira culposa. Alguém que mal conhecia, mas despertava sentimentos que eu não conhecia há anos.
Só paramos ao lado de um prédio escuro, que parecia abandonado. Sua entrada era mais reclusa, então nos colocou nesse espaço escondido, a fim de que, se alguém passasse, conseguíssemos despistar.
— Foi bom viver esses contos de fadas por uma tarde, mas agora a Cinderela aqui precisa voltar para o mundo real — falei.
Já tinha anoitecido e prometi que voltaria ainda naquele dia. Entre todas as coisas que vivi durante aquela tarde, queria ter descoberto uma forma de congelar o tempo. Porque, se isso fosse possível, teria escolhido exatamente aquele momento — ali, naquele espaço pouco iluminado.
Os olhos de estavam brilhantes como sempre, mas havia algo diferente. Uma sombra. Uma decepção silenciosa por termos que nos separar depois daquele dia. Eu sabia, porque sentia o mesmo.
E acho que foi por isso que agarrei seu sobretudo e o beijei.
Com o choque dos nossos corpos, fui prensada contra a parede, mas não me importei. Ele apoiou uma das mãos atrás de mim, impedindo que eu perdesse o equilíbrio, enquanto a outra envolvia minha cintura, puxando-me ainda mais para perto à medida que aprofundava o beijo.
O desejo que me consumia parecia vir dele também. Horas lutando contra aquilo — contra a ideia de beijar alguém que eu mal conhecia, mas que, de alguma forma, tinha estado ali por mim como ninguém.
O gosto de ketchup e mostarda se misturava em nossas línguas, estranho e perfeito ao mesmo tempo, junto ao perfume dele, quente e envolvente, percorrendo meu corpo como um impulso elétrico. Cada toque arrepiava minha pele. Ele me pressionou ainda mais contra a parede, as mãos explorando com urgência tudo o que encontravam. Meus dedos se perderam em seus cabelos, puxando de leve, incentivando-o, antes de deslizarem pela sua blusa, quase alcançando o calor da pele.
Um pequeno pensamento passou quando raciocinei onde estávamos e esperava muito que alguém não conseguisse nos enxergar ali. Não que me importasse, estávamos dando um espetáculo, e eu simplesmente não queria parar.
Só nos afastamos, contra nossa vontade, quando o telefone dele começou a tocar, insistente. Número desconhecido.
Mas eu reconheci.
Sophie.
Veja só mocinha, eu fui muito paciente com você hoje, mas temos muita coisa para tratar. Então me envie logo seu endereço ou quando chegar o problema vai ser muito maior.
Não houve um "Oi, tudo bem?" ou "Tchau", apenas ordens das quais tive que seguir.
Recuperando o fôlego, ficamos cada um encostado em um ponto do espaço, perdidos nos próprios pensamentos. Minha boca estava dormente e o perfume dele agora estava na minha roupa. Eu jamais devolveria aquele sobretudo para Schiaparelli.
— Espero que dê tudo certo com seu pai. Sinto que devo agradecer a ele pelo dia de hoje também. — Quebrei o silêncio.
— Ele vai amar saber disso, é apaixonado por essa cidade e, com certeza, teria muito mais coisa para te apresentar.
Ela deu os ombros.
— Você talvez possa perguntá-lo sobre mais lugares, sabe? Ainda tenho alguns por aqui… — Deixei a frase morrer. Talvez ele não quisesse me ter por perto assim. — Pode me mandar por mensagem, qualquer coisa…
— Meio que não teria a mesma graça se eu estivesse junto para te esconder — brinca, batendo na ponta do meu boné ridículo.
— Bom, meio que eu estou te devendo muita coisa depois do dia de hoje mesmo. — Rimos e a magia do encanto se quebrou quando reconheci a SUV vindo na nossa direção. — Então, até logo, .
— Até logo, .



Fim



Qual o seu personagem favorito?


Nota da autora: Amor na quinta avenida foi a ultima capa que eu peguei e a primeira que comecei a escrever — e não consegui parar!!!!! Cada vez que eu sentava para escrever e precisava sair, minha mente fica pipocando ideias até sentar para escrever de novo. Foi uma experiencia gostosa viver com esses personagens me perturbando por um tempo, principalmente pq fazia um tempinho que eu não conseguia mais escrever (por falta de tempo e disciplina mesmo). Bom, mas espero que tenham gostado desas shortfic! Se puder deixa um comentário logo ali, ficarei muito feliz!

menor que três, Gi.

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