Capítulo um
— Você já não deveria estar no aeroporto a essa hora? — escutou sua mãe questionar do outro lado da chamada enquanto tentava se espremer na câmera com a caçula, Sophie. Ela usou a mão para pedir que ambas esperassem um pouco enquanto terminava de escovar os dentes e cuspia na pia.
— Já fiz o check-in online, não preciso chegar lá tão cedo assim.
Só que, quando desviou o olhar para o relógio no pulso, percebeu que Dona Rosângela estava certa. O Aeroporto de Confins ficava a uma média de trinta minutos de onde morava e, mesmo que Belo Horizonte não tivesse um dos piores trânsitos do Brasil, era capaz de perder o voo.
— Vou desligar agora, tá bom? Vejo vocês em algumas horas. — Pegou o celular da bancada e andou até a sala, onde a mala de mão e a mochila estavam à espera por ela.
— Boa viagem! — Ouviu ambas falarem antes de desligar.
Procurou o aplicativo do Uber no celular e, enquanto esperava algum motorista aceitar, repassou mentalmente a lista de coisas que tinha preparado para a viagem. Baixou os episódios de Os donos do morro? Claro. Desligou a pisca-pisca da árvore para salvar energia? Feito! Baralho para jogar com os primos? Estava na bolsa!
Checou todas as janelas e aberturas possíveis, com um tufão passando por cima do estado, o verão começou bastante diferente. Havia ficado sem energia por dois dias seguidos e a ventania constante balança os vidros com uma força que parecia partir a qualquer momento. Rezava só para que desse tudo certo com o voo.
Ainda não se acostumara direito com a vida nova em terras mineiras, por isso contava os dias para reencontrar a família em Salvador. E o fato de ser justamente no Natal era ainda melhor. Assim que a carona estava se aproximando, desceu para o hall do prédio — se não, teria aberto um buraco no chão do apartamento de tanto andar de um lado para o outro.
Assim que o veículo branco se aproximou, empurrou a mala de rodinha até a calçada, e quando estava prestes a puxar a maçaneta, um vulto passou por ela correndo, tomando seu lugar e sentando no banco de trás antes dela.
— Ei! Esse é meu Uber! — reclamou, reconhecendo quem era a figura imponente que tomou seu lugar: , seu vizinho.
— Eu pago o dobro da corrida! — argumentou, fazendo o motorista olhá-la como se não tivesse escolha, murmurando um “desculpa, moça”.
soltou um grito, irritada. Aquilo não podia estar acontecendo!
— Você só pode estar de brincadeira! — esbravejou, mas o rapaz só bateu a porta do carro e passou as coordenadas para o condutor, que acelerou com tudo.
Haviam trocado poucas palavras com no último ano em que ela estivera morando em BH, dividindo o mesmo hall. E, de todas as vezes em que haviam se cumprimentado de forma cordial, nada foi tão rude quanto naquele momento. Claro que as pessoas poderiam estar atrasadas, mas roubar a carona de outra pessoa? Se algum parente dele não estivesse morrendo, ela não aceitaria desculpas. E com certeza aquela não era a justificativa, já que repara que o homem usava roupas sociais.
costumava teorizar com a outra vizinha, Senhora Alice, que talvez ele fosse um viciado em trabalho. Provavelmente estavam certas.
A mulher mordeu a bochecha enquanto solicitava uma próxima corrida, o tempo estava passando e não podia vacilar. Quando chegasse ao destino, estaria mais aliviada e nem lembraria desse pequeno empecilho.
Digitou para a irmã, já sentada no banco de trás da nova carona, a caminho do aeroporto. Apenas recebeu um: “Empurra ele e chega logooooooooooooooo 🙏” como resposta, fazendo-a sorrir. Sophie era uma das principais coisas de que sentia falta de casa. Queria poder ser a irmã maluca que desvirtuaria a mais nova, levando-a para todos os lugares possíveis, mostrando coisas boas e até algumas ruins, entretanto, com a faculdade só conseguiria auxiliá-la de longe e perderia a melhor fase: o início da vida adulta.
Aproveitaria os dias em Salvador para fazer o papel de irmã mais velha de pertinho.
Quando chegou ao aeroporto, precisou correr para passar no raio-x, essa era a parte que mais odiava em viajar de avião. As principais filas eram sempre ali, as pessoas indo e voltando várias vezes até descobrir o que estava apitando na máquina, atrasando todos — uma vez ela quase perdeu um voo assim. E o voo para a Bahia já devia estar no processo de embarque.
E não, ela nunca aprendeu a chegar no tempo proposto pelas companhias. Mesmo com ansiedade no talo, cansou de ouvir o próprio nome ser chamado nas salas de embarque.
Ao chegar no portão 19, toda suada por atravessar o prédio inteiro, descobriu que o voo estava atrasado em trinta minutos. Respirou fundo, jogando-se na primeira cadeira vazia que encontrou. Precisava restabelecer a sanidade e um tempinho a mais certamente a ajudaria a colocar os pensamentos embaralhados no lugar.
Ou não, já que bem ali em sua frente, trajado em um terno azul super passado e o cabelo na régua raspado que o deixava terrivelmente atraente, estava um dos causadores do seu estresse: . Ele digitava algo no notebook minúsculo no colo, alheio ao mundo.
Ela certamente teria muitas coisas ruins para falar dele quando encontrasse Dona Alice de novo.
— Valeu a pena roubar o Uber de outra pessoa? — perguntou alto e claro, fazendo questão de que ouvisse.
O homem à frente parou a digitação por uns segundos, encarando-a por cima dos óculos de grau, voltando a atenção para o computador logo em seguida.
— Não leve para o pessoal, tá bom? Foi um ato de desespero. — O sotaque mineiro dele era tão forte que o ódio da mulher quase passou.
— Como não levar para o pessoal se você quase me fez perder o voo?
soltou ar pelo nariz e fechou o notebook com força, guardando-o na mochila enquanto falava: — E agora nós dois estamos aqui esperando porque atrasou. Então, que diferença faz?
— Que diferença faz? — repetiu, incrédula com a audácia, impulsionando o corpo para frente.
Ele se apressou para cortá-la antes que ela encarnasse um galo-de-briga:
— Olha, se eu soubesse que você estava vindo para o aeroporto também, teria proposto dividirmos o mesmo Uber, ok? Não vai adiantar nada discutirmos agora.
O vizinho tinha o que considerava como voz mansa: baixa e calma; o que a irritava ainda mais — estava chateada e queria discutir. Entretanto, ele tinha razão; ou melhor, tivera sorte do voo estar atrasado e aquele infortúnio não foi tão desastroso assim.
Resolveu relaxar na cadeira novamente, não valia a pena brigar por algo que não teria resultado diferente, voltando a trocar mensagens com a irmã.
Mas o mundo estava disposto a tirá-la do sério, elevando a irritação na potência máxima quando uma notificação apareceu por cima do WhatsApp. Ao visualizar o conteúdo, rezou para todos os orixás que aquilo fosse uma fake news de mau gosto.
“Cara dos Santos,
Informamos que o vôo 5634, com destino a Salvador, foi cancelado.
Por favor, confira esta informação acessando o código localizador de sua reserva
Para maiores informações, por favor, entre em contato conosco…”
A mulher a seu lado soltou um “eles só podem está de brincadeira”, o cara à sua frente fazia movimentos circulares na testa com os dedos. A voz quase inaudível da comissária da companhia foi a cereja do bolo.
Aqui não podia estar acontecendo
— Já fiz o check-in online, não preciso chegar lá tão cedo assim.
Só que, quando desviou o olhar para o relógio no pulso, percebeu que Dona Rosângela estava certa. O Aeroporto de Confins ficava a uma média de trinta minutos de onde morava e, mesmo que Belo Horizonte não tivesse um dos piores trânsitos do Brasil, era capaz de perder o voo.
— Vou desligar agora, tá bom? Vejo vocês em algumas horas. — Pegou o celular da bancada e andou até a sala, onde a mala de mão e a mochila estavam à espera por ela.
— Boa viagem! — Ouviu ambas falarem antes de desligar.
Procurou o aplicativo do Uber no celular e, enquanto esperava algum motorista aceitar, repassou mentalmente a lista de coisas que tinha preparado para a viagem. Baixou os episódios de Os donos do morro? Claro. Desligou a pisca-pisca da árvore para salvar energia? Feito! Baralho para jogar com os primos? Estava na bolsa!
Checou todas as janelas e aberturas possíveis, com um tufão passando por cima do estado, o verão começou bastante diferente. Havia ficado sem energia por dois dias seguidos e a ventania constante balança os vidros com uma força que parecia partir a qualquer momento. Rezava só para que desse tudo certo com o voo.
Ainda não se acostumara direito com a vida nova em terras mineiras, por isso contava os dias para reencontrar a família em Salvador. E o fato de ser justamente no Natal era ainda melhor. Assim que a carona estava se aproximando, desceu para o hall do prédio — se não, teria aberto um buraco no chão do apartamento de tanto andar de um lado para o outro.
Assim que o veículo branco se aproximou, empurrou a mala de rodinha até a calçada, e quando estava prestes a puxar a maçaneta, um vulto passou por ela correndo, tomando seu lugar e sentando no banco de trás antes dela.
— Ei! Esse é meu Uber! — reclamou, reconhecendo quem era a figura imponente que tomou seu lugar: , seu vizinho.
— Eu pago o dobro da corrida! — argumentou, fazendo o motorista olhá-la como se não tivesse escolha, murmurando um “desculpa, moça”.
soltou um grito, irritada. Aquilo não podia estar acontecendo!
— Você só pode estar de brincadeira! — esbravejou, mas o rapaz só bateu a porta do carro e passou as coordenadas para o condutor, que acelerou com tudo.
Haviam trocado poucas palavras com no último ano em que ela estivera morando em BH, dividindo o mesmo hall. E, de todas as vezes em que haviam se cumprimentado de forma cordial, nada foi tão rude quanto naquele momento. Claro que as pessoas poderiam estar atrasadas, mas roubar a carona de outra pessoa? Se algum parente dele não estivesse morrendo, ela não aceitaria desculpas. E com certeza aquela não era a justificativa, já que repara que o homem usava roupas sociais.
costumava teorizar com a outra vizinha, Senhora Alice, que talvez ele fosse um viciado em trabalho. Provavelmente estavam certas.
A mulher mordeu a bochecha enquanto solicitava uma próxima corrida, o tempo estava passando e não podia vacilar. Quando chegasse ao destino, estaria mais aliviada e nem lembraria desse pequeno empecilho.
Digitou para a irmã, já sentada no banco de trás da nova carona, a caminho do aeroporto. Apenas recebeu um: “Empurra ele e chega logooooooooooooooo 🙏” como resposta, fazendo-a sorrir. Sophie era uma das principais coisas de que sentia falta de casa. Queria poder ser a irmã maluca que desvirtuaria a mais nova, levando-a para todos os lugares possíveis, mostrando coisas boas e até algumas ruins, entretanto, com a faculdade só conseguiria auxiliá-la de longe e perderia a melhor fase: o início da vida adulta.
Aproveitaria os dias em Salvador para fazer o papel de irmã mais velha de pertinho.
Quando chegou ao aeroporto, precisou correr para passar no raio-x, essa era a parte que mais odiava em viajar de avião. As principais filas eram sempre ali, as pessoas indo e voltando várias vezes até descobrir o que estava apitando na máquina, atrasando todos — uma vez ela quase perdeu um voo assim. E o voo para a Bahia já devia estar no processo de embarque.
E não, ela nunca aprendeu a chegar no tempo proposto pelas companhias. Mesmo com ansiedade no talo, cansou de ouvir o próprio nome ser chamado nas salas de embarque.
Ao chegar no portão 19, toda suada por atravessar o prédio inteiro, descobriu que o voo estava atrasado em trinta minutos. Respirou fundo, jogando-se na primeira cadeira vazia que encontrou. Precisava restabelecer a sanidade e um tempinho a mais certamente a ajudaria a colocar os pensamentos embaralhados no lugar.
Ou não, já que bem ali em sua frente, trajado em um terno azul super passado e o cabelo na régua raspado que o deixava terrivelmente atraente, estava um dos causadores do seu estresse: . Ele digitava algo no notebook minúsculo no colo, alheio ao mundo.
Ela certamente teria muitas coisas ruins para falar dele quando encontrasse Dona Alice de novo.
— Valeu a pena roubar o Uber de outra pessoa? — perguntou alto e claro, fazendo questão de que ouvisse.
O homem à frente parou a digitação por uns segundos, encarando-a por cima dos óculos de grau, voltando a atenção para o computador logo em seguida.
— Não leve para o pessoal, tá bom? Foi um ato de desespero. — O sotaque mineiro dele era tão forte que o ódio da mulher quase passou.
— Como não levar para o pessoal se você quase me fez perder o voo?
soltou ar pelo nariz e fechou o notebook com força, guardando-o na mochila enquanto falava: — E agora nós dois estamos aqui esperando porque atrasou. Então, que diferença faz?
— Que diferença faz? — repetiu, incrédula com a audácia, impulsionando o corpo para frente.
Ele se apressou para cortá-la antes que ela encarnasse um galo-de-briga:
— Olha, se eu soubesse que você estava vindo para o aeroporto também, teria proposto dividirmos o mesmo Uber, ok? Não vai adiantar nada discutirmos agora.
O vizinho tinha o que considerava como voz mansa: baixa e calma; o que a irritava ainda mais — estava chateada e queria discutir. Entretanto, ele tinha razão; ou melhor, tivera sorte do voo estar atrasado e aquele infortúnio não foi tão desastroso assim.
Resolveu relaxar na cadeira novamente, não valia a pena brigar por algo que não teria resultado diferente, voltando a trocar mensagens com a irmã.
Mas o mundo estava disposto a tirá-la do sério, elevando a irritação na potência máxima quando uma notificação apareceu por cima do WhatsApp. Ao visualizar o conteúdo, rezou para todos os orixás que aquilo fosse uma fake news de mau gosto.
“Cara dos Santos,
Informamos que o vôo 5634, com destino a Salvador, foi cancelado.
Por favor, confira esta informação acessando o código localizador de sua reserva
Para maiores informações, por favor, entre em contato conosco…”
A mulher a seu lado soltou um “eles só podem está de brincadeira”, o cara à sua frente fazia movimentos circulares na testa com os dedos. A voz quase inaudível da comissária da companhia foi a cereja do bolo.
Aqui não podia estar acontecendo