Finalizada ✅
— Mas, , é o Grammy! Você não pode dizer não ao Grammy.
— Eu não estou dizendo não ao Grammy, estou dizendo não à performance de The sound of us.
A cantora se jogou no sofá, exausta de ter que continuar aquela conversa. Em cinco anos de carreira, nunca imaginou que sua primeira indicação e convite para performar em uma das maiores premiações do mundo seria o seu pior pesadelo. Augusta, sua empresária, estava tentando convencê-la por semana a deixar os problemas de lado, mas toda discussão acabava na mesma coisa: a cantora se recusava a subir no palco para cantar a música que tinha sido indicada.
— Sabe, deve ser alguma espécie de carma. Tantas músicas boas e tinha que ter sido logo essa? — A mulher soltou um som frustrado. Ela sabia que a música era muito boa, mas justo ela. — Às vezes acho que fizeram de propósito para conseguirem algum drama para o ao vivo.
— São só três minutinhos de palco, você não vai conseguir matá-lo ao vivo. — Augusta continuava a argumentar.
O maior problema de performar no Grammy não era a música, mas sim quem subiria no palco com ela. Ninguém menos que , seu ex-namorado. Quando juntos escreveram aquela música super romântica, uma mistura de inglês e português carregada de traços do forró que sempre gostava de colocar em suas músicas. Entretanto, o romance durou bem pouco, a ponto de que, quando a música saiu para o público, eles já tinham terminado e não tiveram tempo de cancelar.
Uma performance deles juntos, depois de todas as fofocas que rodaram o mundo inteiro, era uma das coisas mais aguardadas.
E odiava saber que isso era um bom holofote para ela e para a carreira dela. Por mais que não quisesse ceder, não podia realmente dizer não ao Grammy.
— Você tem razão — disse, depois de um tempo. Suspirando fundo antes de proferir as próximas palavras: — Parece que vou ter que ir para Los Angeles cantar com meu ex.
Augusta soltou um gritinho de alegria e desejou que o raio caísse ali mesmo, matando-a na própria sala de estar.
Fazia alguns meses que havia pisado em Los Angeles — desde que descobrira pelos tabloides a possível traição e prometeu para si mesma que nunca mais voltaria àquela cidade. A famosa Cidade dos Anjos a inundava de lembranças e sensações que não eram bem-vindas. Em algum momento pretendia ressignificar tudo aquilo, principalmente pelo fato de estar conseguindo adentrar na carreira internacional. Mas o universo parecia estar testando até onde ela aguentaria.
Ela já desceu do avião com uma carranca no rosto, um mau humor terrível que não conseguia controlar. E tudo piorou quando a assistente, Samara, passou todo o itinerário, especificamente informando-a que teria um ensaio prévio um dia antes da premiação.
— Por que demorou tanto para comentar sobre isso? — virou-se para questionar Augusta, que vinha atrás delas, empurrando uma das malas.
A mulher deu os ombros, como se não fosse nada demais, sem tirar a atenção dos problemas que a aguardavam no telefone.
— Eu pretendia dar uma notícia ruim por vez — respondeu.
— Ou esconder o máximo que conseguia para não me deixar ter tempo de negar.
queria até dizer que estava surpresa, mas era óbvio que teriam que ensinar alguma coisa antes de subir no palco efetivamente. Porém, como aquilo tinha sido omitido, alguma coisa lá no fundo dava esperanças de que conseguissem contornar aquilo.
A esperança é sempre a última que morre e, naquele momento, parecia mais uma assassina sem dó. Para quem jurou que não queria vê-lo nem pintado de ouro, agora precisaria estar no mesmo espaço duas vezes.
Samara aconselhou a cantora a encarar o momento do ensaio como uma ferida coberta e arrancar o band-aid logo de uma vez. Assim, quando vocês tiverem apresentado, não vai ser tantas emoções de uma vez só, acrescentou. tentou muito ver o lado positivo daquilo tudo, mas toda vez que lembrava que estaria no mesmo ambiente que ele, o sangue começava a ferver.
Assim que chegou na Arena em que aconteceria a cerimônia, avistou o traste do outro lado do palco, conversando com alguém da própria equipe. constatou que a pior coisa de namorar o popstar é que, na maioria das vezes, ele segue muito bonito — e isso é uma merda. Seria muito melhor se todos os cretinos ficassem feios, para podermos nos sentir um pouco melhor depois de um término.
Quando recebeu uma DM daquele homem, achou que estivesse sonhando — um dos artistas britânicos mais cobiçados do mundo dando atenção a ela. Na época, tinha acabado de lançar uma música em parceria com Dua Lipa e estava flutuando, sua música brasileira atingindo outros cantos do mundo. Já estava anunciando a carreira solo e estava atrás de artistas que pudesse agregar ao álbum debut.
O que era para ser apenas uma participação tornou-se um romance avassalador, daqueles que você não programa nada e, quando vê, já está amando a pessoa como se seu mundo dependesse daquilo. Ele era gentil e atencioso, referia-se a como o amor da vida dele em todas as entrevistas possíveis. Um romance que virou capa de revista e mais um feat no topo do Spotify, The Sound of Us.
E então uma simples foto lembrou a que contos de fadas modernos não têm finais felizes.
Uma semana antes da estreia, foi fotografado com outra garota na Itália, país o qual tinha ido para fazer um show.
Todos os tabloides noticiaram e a internet inteira jurou que era uma espécie de marketing fajuto para alavancar a música — como se precisassem — e ninguém se importou em perguntar como ela estava.
Não mais destruída ao descobrir que o homem que a amava estava com outra mulher, em plena luz do dia, sabendo que isso seria compartilhado em todas as redes.
nunca soube se tentou entrar em contato, pois o bloqueou de todos os lugares possíveis, até silenciou o nome dele nas redes sociais. Tentou cancelar a música, sem sucesso, e voltou para Recife. A cantora tinha certeza de que, depois daqueles dois anos morando em Los Angeles, tinha se deslumbrado demais e esquecido das próprias raízes, deixando-se levar por Hollywood. Tinha chegado a hora de se reencontrar.
Desde então, escrevia as músicas mais amarguradas e raivosas que poderia pensar, montando um álbum furioso que seria lançado dois meses após o Grammy.
Entretanto, tinham apenas 15 minutos de ensaio. Dava para aguentar.
— Você ficou linda, loira — ele elogiou assim que notou a presença dela. — Combinou bastante com você.
A cantora teria pintado o cabelo de loiro como um ato de rebeldia, segundo as manchetes. Talvez estivessem certos; já queria, ao máximo, desvincular a imagem daquele homem. Queria olhar para as fotos deles juntos e não recolher a mulher que estava ali do lado, mesmo que internamente ainda fosse a mesma.
E odiava ainda mais saber que ele gostou disso.
— Não estou aqui para conversar, . Vamos manter a comunicação no mínimo necessário — respondeu, tentando calar todos os sentimentos conflitantes dentro de si. Embora houvesse um leve traço de mágoa nos olhos com que ele a encarou, a cantora não poderia se importar menos.
Posicionaram-se nos locais demarcados pela produção, sem perder muito tempo. A ideia era que ficassem cada um de um lado do palco, olhando um para o outro; os microfones estariam em pedestais e o resto seria com eles: cantar lindamente e emocionar o público. A música era lenta e romântica, sendo o instrumento mais presente o piano, seguido pela sanfona. Eles fariam a passagem de som para alinhar os retornos e o resto da equipe organizaria as luzes.
respirou fundo assim que parou no ponto demarcado, encarando o homem a um metro de distância.
ainda possuía o brilho singular nos olhos verdes, daqueles pelos quais ela fora apaixonada e sobre os quais escreveu tantas músicas. Estava com o topete desgrenhado, as sobrancelhas grossas, a barba por fazer e o sorriso que encantou toda a Grã-Bretanha. Ela tinha uma queda por homens tatuados e lá estava ele, exibindo todas as que possuía no braço direito, por conta da regata listrada. Tocaria o baixo, completando a harmonia com o pianista e o sanfoneiro, que ficariam entre eles. Ele era charmoso demais e, estar frente a frente pela primeira vez, depois de tudo, criava sentimentos conflitantes em .
Mesmo que tentasse bloquear as memórias, ainda lembrava da pessoa pela qual tinha amado. Não só aquele cara apaixonante de hits implacáveis. Mas o homem atencioso e amoroso com quem conviveu por dois anos. Que a amparava nos momentos difíceis, que a guiava em decisões de carreira, porque já tinha passado por isso. A pessoa que vibrava por cada conquista que teve, abraçou a cultura brasileira e a família como se fossem suas.
Os sentimentos conflitantes, entre amar e odiar , foram muito mais fortes naquele momento. Fez o possível para não olhá-lo diretamente nos olhos, a voz dele soando em seu ouvido através do retorno, tão perto, travou a garganta de com as lágrimas que se recusou a derramar. Por isso, errou a deixa e, na segunda tentativa, desafinou em algumas partes.
Ela saiu do ensaio derrotada e rezou para os orixás que a performance não marcasse o início do fim de sua carreira.
ENTREVISTADORA: Estou aqui com a cantora brasileira , em sua primeira vez no Grammy. Primeiramente, seja bem-vinda! Como está a ansiedade para essa noite?
: Nunca imaginei chegar aqui, então estou muito feliz. É a realização de um sonho.
ENTREVISTADORA: E esse vestido? Você está maravilhosa! O vermelho encaixou tão bem.
: Muito obrigada! É da nova coleção da Normando. Eles sempre arrasam. É uma honra poder vestir um pouco do meu país em uma noite tão importante como essa.
ENTREVISTADORA: Você tem uma nomeação essa noite, best duo pop. Confiante?
: Tivemos bom resultado no Grammy Latino do ano retrasado, o que por si só já foi gratificante. E ser indicada aqui é, como falei, um sonho. Então estou confiante com meu trabalho, independentemente de levantar a estatueta ou não. Mas óbvio que ficaria muito feliz.
*risos*
ENTREVISTADORA: E com certeza tem uma das performances mais aguardadas da noite também... Podemos esperar algumas emoções?
: Olha, "The Sound of Us", por si só, já é bastante emocionante. Então, entregar o que a música pede seria o mínimo, talvez?
ENTREVISTADORA: Se você diz…
: Prometo que não ficarão desapontados com o que assistiram essa noite.
ENTREVISTADORA: Então te desejo boa sorte, uma excelente noite e ótima performance.
não estava preparada. O coração da cantora batia em ritmos desregulados e suas mãos suavam mais do que o normal. O pequeno camarim da premiação parecia ainda menor. Nem queria ter passado pelo tapete vermelho, para início de conversa, mas tinha tantas pessoas contando com ela que pareceu muito egoísta pular essa parte. E, pelo menos, a entrevistadora tinha sido gentil.
Faltavam dois intervalos para que subisse no palco e estava tudo pronto. Seu look era um vestido longo preto simples, que subia até uma amarra no pescoço e costas nuas. Samara brincara, dizendo que era uma escolha ideal para um enterro. Amarrou o cabelo em um coque e algumas pedras penduradas.
Pediu alguns minutos sozinha para que pudesse se recompor, praticar alguns ciclos de respiração que aprendera na terapia. Inspirar e expirar devagar.
No entanto, como tudo que é bom dura pouco, alguém bateu à porta do camarim da cantora. Frustrada com a interrupção, resolveu ignorar da primeira vez, até que se tornaram mais insistentes. Sua equipe dificilmente a atrapalhava. Quem seria?
— Entra — respondeu.
A resposta veio antes mesmo dele entrar completamente no recinto. O cheiro amadeirado — bastante conhecido por — chegou primeiro, e depois visualizou aquele topete bem penteado, acompanhado pelas órbitas oculares verdes, perguntando-a se podia entrar.
Ela apenas concordou balançando a cabeça.
usava um terno preto de camurça, a camisa branca por baixo com quase todos os botões abertos. Contemplar a beleza daquele homem, naquela noite, fez o corpo da cantora estremecer. O coração dela batia tão forte agora que talvez fosse possível escutá-lo no ambiente inteiro. Ele pareceu estudá-la de cima a baixo, ainda escorado na porta.
— Você está magnífica — elogiou.
— Eu sei — devolveu, ajeitando a postura na cadeira. — Você também está bonito.
Bonito era eufemismo, mas jamais verbalizaria.
— Precisa de algo?
— Eu… — Ele pareceu estar em um transe por alguns segundos, limpando a garganta antes de continuar. — Eu queria me desculpar.
rolou os olhos, remexendo na cadeira, e se desencostou da porta, aproximando-se.
— Estou falando sério, olha… — respirou fundo antes de continuar, olhando-a nos olhos, antes de continuar. — Não tem desculpas pelo que fiz, eu sei, mas achei que merecia ouvir mesmo assim. Você é uma mulher incrível, , e eu fui um idiota. Tentei te ligar e contatar algumas vezes, mas não consegui. Não queria que subíssemos no palco com isso mal acabado.
A cantora bateu as unhas na mesa de maquiagem, sem saber direito o que falar. Nunca imaginou que ele pediria desculpas. Achava que negaria como qualquer outro homem. Toda aquela ansiedade ao encontrá-lo desapareceu no segundo em que ele abriu a boca, uma raiva trancafiada implorando para ser libertada, aquecendo-a nas orelhas.
— As coisas acabaram no momento em que você decidiu desfilar com outra por aí.
— Eu sei!
fechou os olhos antes de encará-lo novamente, escolhendo com cuidado as próximas palavras.
— , suas desculpas não apagam tudo que aconteceu depois disso, as pessoas agindo como se estivéssemos mentindo e que tudo se resolveria no final. Não apaga a quantidade de terapia que estou fazendo para lidar com todos esses sentimentos. — agradeceu por estar sentada, porque seu corpo parecia vibrar a cada palavra que dizia. — Agradeço que você não tenha tido coragem de vir se justificar, mas nós não temos nada mal acabado. Então, por favor, vamos agir como dois adultos e fazer nosso trabalho independentemente do que tenha no nosso passado.
— Não dá para ser assim…
— Vai ser assim — enfatizou, levantando-se da cadeira. Estava trêmula e precisava se movimentar antes que borrasse a maquiagem. Ele não merecia aquilo.
Mesmo de salto alto, ela ainda era menor que ele.
— Talvez seja a hora de você começar a agir feito um homem.
— Está pronta, minha querida? Vamos subir na próx… — Augusta calou-se assim que notou quem estava ali comigo. — O que você está fazendo aqui?
suspirou aliviada assim que viu o rosto da sua empresária; toda a onda de raiva dissipou-se em segundos. Porém, havia o que agradecer ao homem que estava em sua frente; ele lhe entregou o combustível que precisava para incendiar aquele palco que tanto procurou o dia inteiro.
— Te vejo lá em cima, .
Quando anunciaram a performance mais aguardada da noite, o ambiente explodiu em aplausos. não conseguia ouvir muito por conta do retorno, mas exibiu o melhor sorriso como agradecimento. O som da sanfona percorreu e todos se calaram, atentos às duas peças do xadrez posicionadas no palco.
Dessa vez, não errou a entrada, muito menos desafinou. Quando cantou a primeira estrofe, ali, em frente ao público, tudo pareceu diferente do ensaio. Um brilho no olhar e a potência vocal, que a tornava singular. Quem era de verdade e não a ex de alguém.
A pequena conversa do camarim apagou aquela mulher insegura de encontrar o ex. Não porque ela superou todo o trauma, mas porque conseguiu sentir pena daquele estúpido arrasador de corações. E ele talvez estivesse certo; eles não tiveram um ponto final efetivamente, então que aquele fosse.
Odiava ter que pagar de superada só porque era figura pública, que responder "queria poder não vê-lo nunca mais na vida" fosse ser uma péssima decisão para relações públicas — apesar de ser a verdade.
As palavras que saíam da sua boca eram pura mentira. Não amava aquele homem e sentiu-se uma péssima artista cantando sobre algo em que não acreditava.
Ao mesmo tempo, arte representa espaços no tempo da vida de quem cria, e aqueles sentimentos foram reais. Músicas românticas eram dedicadas a amores todos os dias. Músicas sobre término também. Então, maldito fosse aquele que não se aproveitasse dos momentos para vivê-los até que se arrependesse.
Quando a música se encerrou, todos os presentes aplaudiram de pé. E, quando os dois artistas se aproximaram para um abraço, foram à loucura.
O abraço foi algo teatral, fingindo aos olhares do público que tudo estava bem. Mas ali, com os braços de envoltos de si, ela sussurrou: — Não quero te ver nunca mais.
